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Ficamos mais burros?

Ou estamos vivendo uma transformação na estrutura do conhecimento?
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Por Mona Fayad
Publicado em set 5, 2026 - 20:01
A pergunta «O mundo ficou mais burro?» reaparece com frequência nos debates contemporâneos sobre mídia digital, mecanismos de busca e redes sociais. À primeira vista, parece uma pergunta simples, mas esconde uma questão muito mais profunda, ligada à própria natureza do conhecimento: como ele é produzido, como é transmitido e como é consumido. Talvez a pergunta «Ficamos mais burros?» não seja a mais precisa. Talvez devêssemos perguntar: o conhecimento ainda é transmitido de uma maneira que permita compreendê-lo e torná-lo produtivo? A maioria dos leitores ainda recorre aos textos originais? Ou se limita aos seus resumos e ao que é dito a respeito deles por meio daquilo que circula entre os leitores? Uma das chaves para compreender esse fenômeno encontra-se nos trabalhos do psicólogo britânico Frederic Bartlett, que realizou, na década de 1930, uma série de experiências sobre aquilo que chamou de «reprodução serial». Nessas experiências, uma pessoa ouvia uma história e depois precisava contá-la a outra, que por sua vez a contava a uma terceira, e assim por diante. Os resultados foram impressionantes: a cada nova transmissão, a história não era reproduzida exatamente como havia sido contada, mas reformulada. Alguns detalhes desapareciam, outros eram ampliados e outros ainda eram substituídos por elementos mais compatíveis com o contexto, as experiências e a cultura do receptor. Depois de passar por um número suficiente de intermediários, a história original já havia se transformado em algo inteiramente diferente. Esse modelo simples revela uma verdade fundamental: a memória não é um recipiente neutro, mas um mecanismo de reconstrução. E, quando o conhecimento passa por múltiplos intermediários, ele não é «preservado», mas «reproduzido». É aqui que começam a aparecer as semelhanças com o nosso mundo contemporâneo e o receio de que estejamos ficando mais burros. Na era da mídia digital, o conhecimento já não circula por meio da transmissão oral, mas através de cadeias de mediação: um artigo é resumido, depois citado, em seguida republicado sob a forma de uma postagem curta e, por fim, reduzido mais uma vez a uma frase ou a um título. Nesse contexto, podemos retomar uma imagem metafórica usada em um texto jornalístico: uma biblioteca cujos livros são substituídos por resumos, e depois por resumos dos resumos, até que o leitor se veja diante de sucessivas camadas de redução. Algo semelhante ao que poderíamos chamar de «cadeia do guaxinim», que não lê o original, mas remexe em seus restos. Vale esclarecer que a escolha do «guaxinim» não é aleatória. Essa metáfora condensa simbolicamente uma condição cognitiva que vem se consolidando. Esse animal, que vive nas margens das cidades e remexe em latas de lixo, não produz seu alimento, mas se nutre dos restos daquilo que outros produziram. Apesar de sua inteligência prática e de sua capacidade de desmontar, recolher e aproveitar objetos, ele não compreende verdadeiramente aquilo que tem diante de si, mas lida com as coisas como materiais disponíveis para uso imediato. É assim que o conhecimento passa a se apresentar na era da redução serial: textos são resumidos e depois novamente resumidos, até que deles reste apenas um punhado de fragmentos de sentido, reorganizados e postos novamente em circulação sem qualquer vínculo verdadeiro com sua fonte. Nesse ponto, não apenas nos afastamos do original, mas entramos em uma nova etapa da produção da informação ou do conhecimento, na qual o agente cognitivo deixa de ser um leitor ou pensador para se tornar um coletor de restos de significado, que os redistribui em formatos destinados ao consumo rápido. A «cultura do guaxinim», portanto, não é apenas uma descrição da superficialidade. É também uma caracterização precisa da degradação da própria cadeia do conhecimento: da criação ao resumo, da compreensão ao processamento formal, das ideias a algo que já não passa de um vestígio apagado delas. Mas esse fenômeno não pode ser compreendido separadamente da estrutura tecnológica que o governa. É aqui que entra Marshall McLuhan, que sintetizou seu pensamento na célebre frase: «O meio é a mensagem». O problema não está apenas no conteúdo, mas também na forma através da qual esse conteúdo é transmitido. A mídia digital contemporânea não se limita a transportar informações, mas as remodela segundo a lógica da velocidade, da condensação e da fragmentação. O texto longo torna-se inadequado para o consumo, enquanto uma ideia só parece aceitável se puder ser reduzida a poucas linhas facilmente compartilháveis. Essa transformação produz um paradoxo marcante: vivemos numa época em que o acesso ao conhecimento deixou de ser difícil e se tornou excessivamente fácil. E, com essa facilidade excessiva, surge aquilo que poderíamos chamar de «ilusão cognitiva»: basta ler um pequeno trecho ou um resumo rápido para que a pessoa tenha a sensação de ter assimilado uma ideia. Mas essa sensação de domínio não é necessariamente acompanhada por uma compreensão profunda nem pela capacidade de reconstruir ou criticar o conhecimento. É aqui que aparecem os que poderíamos chamar de «semiletrados»: indivíduos que possuem os sinais do conhecimento, mas não sua estrutura; seu vocabulário, mas não sua lógica interna. O problema se torna ainda mais complexo quando o observamos sob o ângulo da atenção. Em vez de permanecer em um estado prolongado de concentração, como acontece na leitura tradicional ou na reflexão demorada, a mente passou a viver sob um bombardeio contínuo de informações: notificações, vídeos, manchetes e ondas sucessivas de conteúdo. Essa situação não apenas dispersa a atenção, mas a reconfigura segundo uma lógica de saltos constantes entre pequenas unidades de significado, em vez de permitir a construção gradual e cumulativa de uma ideia. Lembro aqui de uma anedota que costumávamos contar e que circulava muito na época das manifestações populares. Ela ilustra bem a ideia da redução e da transformação do conteúdo. Depois da ocupação da Palestina, muitas manifestações populares tomaram as ruas gritando «Abaixo a Declaração Balfour!». A brincadeira dizia que, no fim da manifestação, o slogan havia se transformado, em árabe, em «Que alguém caia lá de cima!», uma frase inteiramente diferente que preservava algo do ritmo e da sonoridade da original. Talvez essa imagem nos ajude a compreender melhor o que acontece na linguagem cotidiana quando o conhecimento se transforma em mensagens curtas repetidas coletivamente. A manifestação começa com uma fórmula política precisa. Mas, com a repetição, a imersão coletiva e o ritmo sonoro, ela vai se transformando pouco a pouco em outra fórmula, completamente diferente. Esta pode conservar o ritmo e a carga emocional da primeira, mas perde seu significado e seu sentido original. O que permanece não é o sentido, mas a energia emocional da frase. Aqui se manifesta, de outra maneira, aquilo que Bartlett havia observado: não importa apenas o que foi dito, mas como aquilo foi repetido e como voltou a ser compreendido dentro de um contexto social em transformação. Se reunirmos todos esses fios, podemos dizer que aquilo que vivemos hoje não é propriamente um «colapso da inteligência», mas uma transformação das condições em que ela opera. A mente humana não mudou radicalmente, mas o ambiente em que funciona se transformou profundamente: passamos de um ambiente que permitia a acumulação lenta para outro que impõe a reprodução rápida e fragmentada do conhecimento. Essa mudança cria uma tensão permanente entre duas formas de pensamento: um pensamento reflexivo, que precisa de tempo, e um pensamento rápido, que exige resposta imediata. Sob essa perspectiva, a pergunta «Ficamos mais burros?» torna-se parcialmente enganosa. Talvez seja mais preciso dizer que estamos cada vez mais expostos a condições que tornam o pensamento profundo menos estável, ou menos possível, e o conhecimento mais vulnerável à fragmentação e à reciclagem. Quanto à burrice, se podemos usar o termo, talvez ela não seja uma propriedade da mente, mas um efeito colateral e uma característica da estrutura cultural que se formou. Trata-se de uma tecnologia que está remodelando nossa relação com o mundo. Assim, em vez de enxergar esse fenômeno como um declínio das capacidades humanas, podemos compreendê-lo como uma transformação do «ambiente do conhecimento»: um ambiente em que se tornou fácil saber alguma coisa, mas mais difícil compreendê-la de fato e em profundidade.
Opinião
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Por Youssef Mouawad - Publicado em set 5, 2026 - 13:25
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Em 2010, Israel interceptou com violência o Mavi Marmara, um navio turco fretado por uma ONG humanitária para socorrer a Faixa de Gaza, então sob bloqueio israelita. Esse incidente, a gota de água, fará vir à tona a animosidade entre o governo de Erdogan e o Estado hebraico. (AFP)
A guerra ainda não parou no nosso sul e já corre o risco de eclodir junto aos nossos vizinhos. Ou seja, vivemos a prazo, de conflito em conflito. E com razão! Por pouco o bombardeamento de uma base síria não descambou numa batalha campal entre Ancara e Telavive. Foi a 18 de agosto passado, e Benjamin Netanyahu não foi com meias palavras: o seu país não iria tolerar uma implantação militar turca suscetível de avançar para o sul da Síria. A mensagem foi tanto mais brutal quanto oito ataques tinham visado a base aérea de Abu al-Duhur, situada a 70 quilómetros da fronteira turca. Recorde-se, aliás, que desde a queda de Bashar al-Assad em dezembro de 2024, Erdogan é o principal mentor da nova Síria, a de Ahmed al-Charaa, ajudando-a a reconstruir as suas forças armadas e transformando-a num parceiro estratégico. Já não é a Síria de Hafez al-Assad Terá sido este novo pico de tensão entre Ancara e Telavive que precipitou a reunião entre o chefe da diplomacia síria, Assaad Chaïbani, e o diretor do Mossad, Roman Gofman, a 23 de agosto passado, na Jordânia? Ora, esse encontro discreto não provocou uma onda de indignação no mundo árabe, como aconteceu com a visita imprevista de Anwar al-Sadat a Israel em 1977. Um tabu foi oficialmente quebrado e, de facto, quem poderia ter acreditado que tal concertação seria possível sob o regime baathista? O Estado hebraico deveria ter-se congratulado, mas, ao contrário do que se esperava, não interrompeu nem os seus ataques aéreos nem as suas incursões territoriais, como a de 27 de agosto em Quneitra. É que as coisas mudaram. Sob Hafez al-Assad, a Síria era uma potência regional que, sem ser temível, era temida pelos seus vizinhos imediatos, fossem eles países árabes ou não. Evitava-se procurar confronto com ela e, por isso, o país conduzia, dentro de certos limites, uma política externa agressiva que resvalava muitas vezes para a provocação. E assim, em virtude da autonomia da sua ação e da margem de manobra que se concedia, tinha constituído, nem que fosse apenas geograficamente, uma zona-tampão entre, por um lado, uma Turquia "erdoganesca", que exibia o seu islamismo assumido, e, por outro, um Israel, o Estado consubstancialmente judeu. Ora, eis que, num país esgotado por uma gestão baathista e devastado por anos de guerra civil, a Turquia, ao começar a marcar posições, vai inevitavelmente encontrar-se frente a frente com um Israel que ocupa uma parte do território sírio. O que esperar? Tendo em conta o ego desmedido tanto de Netanyahu como de Erdogan, e no caso de estes dois chefes de Estado permanecerem nos seus respetivos cargos, devemos esperar um duelo épico em território sírio, libanês, jordano, ou até noutros locais. Este combate será feito de fintas, de esquivas, de golpes baixos, mas também de ataques frontais, de corpo a corpo e de escaladas de tensão até ao ponto de rutura. E isto mesmo que o relatório doCongressional Research Servicede setembro de 2025 considere pouco provável um confronto direto entre a Turquia e Israel, precisamente porque ambos os Estados conhecem o custo de uma guerra, caso esta viesse a eclodir. No entanto, no domínio da polemologia, os dirigentes e outras elites não são necessariamente atores racionais! Tanto mais que, aos olhos dos observadores israelitas, o slogan que impera na Anatólia, a saber, «Make Turkey great again», não é de molde a tranquilizar o Estado sionista. Washington terá cada vez mais dificuldade em conter ou separar os dois adversários que já se posicionam em ordem de batalha. A Turquia, um novo Irão? Sim, é uma hipótese, mas apenas num confronto direto com Israel, tendo a Síria se tornado da noite para o dia uma zona onde «se sobrepõem dois perímetros de segurança», o turco e o israelita, o muçulmano e o judeu. E não se pode excluir que o militantismo xiita, esse mobilizador de «proxies», acabe por se aliar, ainda que momentaneamente, a uma «versão irmãos-muçulmana» do islamismo político defendido por Ancara! Teríamos assim, contra todas as expectativas, um Hezbollah apoiado pelo seu inimigo de ontem, Ahmed al-Charaa, um islamista vindo da Jabhat al-Nusra e da Hayat Tahrir al-Cham! Contra o adversário comum, uma inversão de alianças é sempre legítima e oportuna. Mas isso não passaria de uma aliança tática, ditada pelas necessidades do momento, sem qualquer garantia quanto ao futuro. Tendo o nacionalismo árabe sido posto de lado, a Turquia não se vai contentar em conquistar economicamente o mercado sírio, com os seus 25 milhões de consumidores: vai querer exercer influência política em Damasco, mobilizando para isso o seu aparelho militar e de segurança. O poder instável do presidente sírio, incapaz de assegurar certas funções soberanas nem de enquadrar os diversos corpos do Estado, terá necessariamente de recorrer à experiência do seu vizinho do norte. Será, no entanto, de acreditar que este último vai ser arrastado pela espiral de uma «beligerância anunciada»? Tudo aponta nesse sentido, e já se podem perceber os primeiros sinais de um envolvimento que lembra o dos Estados Unidos no Vietname sob Lyndon Johnson. Pois, se o Estado sírio pretende reconstituir-se, precisará antes de mais de um exército capaz de conter as tendências centrífugas dos alauitas, dos drusos e de outras facções que apelam à fragmentação do país. Ora, cabe a Ancara garantir isso e reforçar a autoridade central sediada em Damasco. Mas Israel, que adquiriu maus hábitos na Síria e pretende manter aí liberdade de ação aérea, não pode aceitar um exército estruturado segundo o modelo da NATO e que possa servir de proxy a um projeto neo-otomano. E o Líbano, da primazia à secundarização? Está agora montado um novo cenário para um novo guião que definirá novas regras do jogo! O que será feito do Hezbollah, apanhado numa ratoeira? Bem, poderia beneficiar, neste cenário, ainda que apenas em parte, do apoio logístico de Damasco, apoio que lhe fez gravemente falta desde a queda de Bachar al-Assad. E talvez que, com um deslocamento das placas tectónicas, o Líbano passasse do estatuto de palco inicial ao de palco secundário de um conflito regional. Mas, para ser sincero, isso de pouco nos vai valer!
O Essencial do Dia
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Por LevantTime . - Publicado em set 5, 2026 - 00:55
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O comboio do CICV que transportava os civis libertados, partindo da zona ocupada por Israel no sul do Líbano, seguiu até o ponto que marca o início da área controlada pelas autoridades libanesas. (AFP)
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) anunciou nesta sexta-feira que transferiu para o Líbano outras quatro pessoas libertadas por Israel, um dia após a libertação de um primeiro civil. Segundo o CICV, trata-se de três libaneses e dois sírios. É a primeira vez que uma operação desse tipo ocorre desde o início, em abril, das negociações entre o Líbano e Israel, sob mediação dos Estados Unidos. Beirute havia solicitado, durante a última rodada de negociações, em agosto, a libertação de um primeiro grupo de cidadãos libaneses capturados por Israel no sul do Líbano, onde trava uma guerra contra o Hezbollah, aliado do Irã. Familiares estimam que cerca de 30 pessoas estejam detidas, entre elas combatentes do movimento islâmico. O presidente libanês, Joseph Aoun, agradeceu em comunicado aos Estados Unidos e ao CICV e afirmou que essa libertação «confirma o acerto da posição» do Líbano, que participa de negociações com Israel rejeitadas pelo Hezbollah. Os Estados Unidos elogiaram na quinta-feira «o governo de Israel e o governo do Líbano por demonstrarem boa-fé por meio desses primeiros passos», expressando a esperança de que isso sirva «de base para discussões mais amplas sobre outras questões civis». Os dois países devem realizar uma nova rodada de negociações em setembro, em uma data ainda não definida. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira «ocorre após os esforços realizados por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os restos mortais de líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano» entre 1984 e 1986. Israel intensifica seus ataques No terreno, ataques israelenses deixaram três mortos e 23 feridos nesta sexta-feira no sul e no leste do Líbano, segundo um veículo de imprensa estatal. Israel intensificou nesta sexta-feira seus ataques na região, depois de anunciar, na noite de quinta-feira, que havia assumido o controle da crista montanhosa de Ali Taher, que servia como posição estratégica para o Hezbollah, aliado do Irã, e domina, entre outras áreas, a cidade de Nabatiye. O Exército agora reforçará suas posições na região para «impedir que o inimigo volte a se posicionar na área», declarou o ministro da Defesa israelense, Israel Katz. Outro ataque também atingiu a região de Tiro, especialmente a localidade de Rmadiye, segundo a Agência Nacional de Notícias (ANI). Para Trump, a guerra no Irã é «coisa pequena» Sobre a guerra no Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tentou nesta sexta-feira minimizar seu impacto para o país, às vésperas das cruciais eleições legislativas de meio de mandato. «Muita gente não chama isso de guerra. Eu digo que é um conflito militar, porque para nós é coisa pequena (“small potatoes”). Não é nada demais. Fizemos a Venezuela e fizemos isso», respondeu a jornalistas no Salão Oval, ao ser questionado sobre seu vice-presidente, JD Vance, que no dia anterior havia dito não querer descrever o conflito como uma guerra. Enquanto a forte alta dos preços dos combustíveis ligada à guerra ameaça custar aos republicanos de Donald Trump sua maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato de novembro, sua administração tenta minimizar a dimensão do conflito. Segundo o presidente, os Estados Unidos realizam «ataques pontuais» e «não estão atualmente combatendo». Trump também afirmou que os Estados Unidos controlam o estreito de Ormuz e que dizimaram as Forças Armadas iranianas. «O que conseguimos foi extraordinário. Assumimos o controle da Venezuela e, essencialmente, assumimos o controle do Irã», declarou.
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Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (13)

Esta série de artigos tem como objetivo compreender melhor a atual situação no cenário libanês à luz do passado, longe de discursos apaixonados, ideológicos ou românticos que ignoram a realidade, deixando ao leitor a tarefa de tirar as conclusões que se impõem. As doze partes anteriores abordaram uma releitura dos acontecimentos relacionados à ascensão do Hezbollah desde o Acordo de Taif até a aplicação, gravemente incompleta, da Resolução 1701 do Conselho de Segurança da ONU, em 2006. Dois anos antes da Guerra dos 33 Dias de 2006, mais precisamente em 3 de setembro de 2004, sob pressão direta da Síria de Bashar al-Assad, o Parlamento libanês prorrogou por três anos o mandato do presidente Émile Lahoud. Essa emenda constitucional foi imposta em desrespeito à Resolução 1559 do Conselho de Segurança da ONU, aprovada no dia anterior por iniciativa da França e dos Estados Unidos. A resolução exigia o estrito respeito às regras constitucionais libanesas e a realização de uma eleição presidencial livre, justa e sem interferência estrangeira. Além disso, a mesma resolução exigia o desmantelamento das milícias ilegais, incluindo o Hezbollah, e a retirada das tropas sírias do Líbano. Para criar uma aparência de legitimidade popular diante das condenações internacionais, Émile Lahoud transformou o Palácio de Baabda em um espaço de demonstração de lealdade. Delegações pró-Síria, funcionários públicos, militares, oficiais de todas as patentes, apoiadores civis e simpatizantes do Hezbollah desfilaram pelo local para encenar “calorosas felicitações”, simulando um amplo consenso nacional em torno da prorrogação de seu mandato. Na realidade, porém, Lahoud encontrava-se isolado internacionalmente, regionalmente e dentro do próprio país, contando apenas com o apoio dos setores pró-Síria, do Hezbollah e do movimento Amal. Contrário à prorrogação do mandato presidencial sob ameaça direta de Bashar al-Assad, o primeiro-ministro Rafic Hariri renunciou em outubro de 2004 antes de aderir à oposição antissíria. Assassinato de Rafic Hariri e a Revolução do Cedro Essa reviravolta política foi considerada pela ONU e, posteriormente, pelo Tribunal Especial para o Líbano como o principal motivo do assassinato de Rafic Hariri, de seus companheiros e de sua escolta, em 14 de fevereiro de 2005. O crime desencadeou diretamente a Revolução do Cedro e levou à retirada forçada das tropas sírias do Líbano. O assassinato de 14 de fevereiro de 2005 foi seguido por uma mobilização massiva nas ruas de Beirute durante três semanas, exigindo em voz alta o fim da ocupação síria do Líbano. Os manifestantes exibiam fotografias dos altos oficiais que comandavam os serviços de segurança libaneses, entre eles os generais Jamil Sayed, Raymond Azar e Ali Hajj, acusando-os de cumplicidade no assassinato de Hariri e classificando-os como símbolos do aparato de segurança sírio-libanês. Fortalecimento dos laços entre Lahoud e Nasrallah Para apoiar Lahoud, cada vez mais boicotado e que representava um verdadeiro escudo legal para o Hezbollah, Hassan Nasrallah respondeu mobilizando seus apoiadores em 8 de março de 2005, estabelecendo um pacto de sobrevivência: proteger o presidente passou a ser apresentado como uma linha vermelha, e a resposta a qualquer tentativa de destituí-lo tornou-se explícita. A sobrevivência política de Lahoud foi selada quando o patriarca maronita Nasrallah Sfeir recusou sua queda por meio da pressão das ruas para não criar um precedente na história contemporânea do Líbano. Sua decisão foi respeitada com amargura pela coalizão soberanista da época, preocupada em preservar os equilíbrios confessionais do país. Os soberanistas mobilizaram seus apoiadores uma semana depois, em resposta à manifestação de 8 de março. Assim, em 14 de março de 2005, Beirute testemunhou uma manifestação histórica que reuniu centenas de milhares de simpatizantes do Movimento Futuro do falecido Rafic Hariri (CF), das Forças Libanesas (FL), das Kataeb, do Partido Nacional Liberal (PNL), dos aounistas do Movimento Patriótico Livre (CPL, ainda antissírio na época), do Partido Socialista Progressista (PSP), de liberais xiitas, de grupos de esquerda e de outros setores que exigiam a retirada das tropas sírias, o desmantelamento do aparato de segurança sírio-libanês e a aplicação da Resolução 1559 do Conselho de Segurança. Após essa manifestação, foi criada a coalizão das “Forças de 14 de Março de 2005”, cujas principais figuras eram Samir Frangié, Gebrane Tueni, Samir Kassir, Nayla Moawad, o ex-presidente Amine Gemayel, entre outros. Isso fortaleceu ainda mais os laços entre Lahoud, que já não tinha alternativas, e Nasrallah. A cultura pró-miliciana, contrária ao Estado de Direito Desde a época em que era comandante do Exército libanês, Émile Lahoud, por meio de suas atitudes e diretrizes, instaurou gradualmente uma “cultura” de aceitação da ocupação síria e uma “cultura” de simpatia em relação ao Hezbollah, apresentado como um movimento de libertação nacional contra Israel. Essa linha de conduta se refletia nos discursos e nas diretrizes administrativas de Lahoud, que ignoravam deliberadamente a ideologia fundamentalista do partido pró-Irã, incompatível com a própria razão de ser do Líbano fundado em 1920. Mais tarde, já como presidente da República, Lahoud continuou difundindo essa imagem do Hezbollah em todo o país, não apenas entre os xiitas que o apoiavam, mas também em setores cristãos, drusos e sunitas. Essa propaganda foi facilitada e ampliada por líderes com ambições desmedidas, como Michel Aoun, líder do Movimento Patriótico Livre, apenas dez meses após seu retorno do exílio na França, além de diversos políticos de diferentes comunidades libanesas, como Talal Arslan, líder do Partido Democrático, e alguns dissidentes dos partidos soberanistas que haviam sido cooptados pelos serviços de segurança da época. A simpatia pró-milícia também se espalhou pelas instituições do Estado. Autoridades passaram a elogiar a lógica da “resistência”, justificando práticas ilegais, enquanto uma gradual erosão da cultura do Estado de Direito se instalava. Essa substituição da cultura soberanista, fundamento do Estado soberano, por outra baseada na submissão a uma milícia de ideologia religiosa sectária infiltrou-se, em nome da “resistência”, nas instituições militares, de segurança, administrativas e judiciais do Líbano. O Líbano continua sofrendo até hoje com essa profunda descaracterização institucional. Ao longo de todos esses anos, uma série de políticos libaneses sentiu-se confortável sob a submissão à ocupação síria e continua confortável sob a hegemonia do Hezbollah. Esses políticos não fizeram qualquer esforço para defender a dignidade nacional e preferiram, durante décadas, concentrar-se em seus interesses imediatos, misturando negócios, assuntos de Estado e populismo. Desdobramento do Exército no Sul e incidentes com o Hezb Apesar do compromisso entre a legalidade e o arsenal do Hezbollah, incidentes foram registrados já em setembro de 2006 durante o desdobramento do Exército libanês no Sul, após a retirada israelense iniciada em 17 de agosto. Esses incidentes ocorreram, por exemplo, quando o Exército interceptou caminhões carregados de munição vindos da Síria para o Vale do Bekaa e do Bekaa para o sul do país. Os militares responsáveis por essas apreensões, comprometidos com sua missão e com forte senso de dever, viam-se frustrados por decisões políticas que os obrigavam a devolver as munições confiscadas ou a libertar imediatamente os veículos apreendidos e os milicianos que os acompanhavam. Outro exemplo que dificultava a restauração da soberania do Estado era a delimitação de áreas, frequentemente florestadas e fortificadas, proibidas às forças legais libanesas, tanto o Exército quanto as Forças de Segurança Interna (FSI), por instrução do presidente da República, Émile Lahoud. Essas áreas eram controladas exclusivamente pelos combatentes do Hezbollah. Quando cidadãos tentavam aproximar-se desses locais, os milicianos os impediam, alegando que se tratavam de “reservas naturais” ou afirmando explicitamente que eram zonas controladas pela milícia, transformadas de fato em enclaves de exclusão dentro da área de desdobramento do Exército no Sul. Leia também sobre o mesmo tema: Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (12) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (11) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (10) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (9) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (8) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (7) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (6) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (5) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (4) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (3) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (2) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (1)

Para o Hezbollah, o conflito atual é o prolongamento da batalha de Karbala!

A semana passada encerrou-se, domingo, com dois acontecimentos de inegável importância. O primeiro foi a visita do primeiro-ministro Nawaf Salam a Bagdá, onde manteve reuniões com os líderes iraquianos de caráter predominantemente econômico. Acompanhado pelo ministro de Energia Joe Saddi, o chefe do governo discutiu, nomeadamente, com seu homólogo iraquiano a possibilidade de incluir a refinaria de Trípoli na reativação do oleoduto que liga o Iraque à Síria, com vistas à exportação do petróleo iraquiano. Um acordo nesse sentido foi assinado há alguns dias entre a Síria e o Iraque, e o governo libanês busca reativar o papel da refinaria de Trípoli nesse contexto. O segundo acontecimento tem um caráter macro-político e supranacional: uma troca de mensagens entre o Hezbollah e o escorregadio e misterioso Líder Supremo iraniano Moujtaba Khamenei. Esse documento revela que o Hezbollah reafirma sua lealdade ao Líder iraniano, destacando que o conflito atual na região é «o prolongamento da batalha de Karbala». Reafirmando sua determinação em prosseguir com «a resistência armada», o Hezbollah enfatiza sua «total solidariedade com o Irã e os Guardiões da Revolução Islâmica», acrescentando que o partido «permanece sob a liderança do xeique Naïm Kassem» e continua «fiel à liderança de Moujtaba Khamenei». Em continuidade à reafirmação do ato de lealdade por parte do Hezbollah, uma mensagem atribuída a Moujtaba Khamenei e dirigida ao partido pró-iraniano destaca que «a perseverança no caminho da resistência trará a vitória divina prometida aos mujahidins que seguem o caminho da verdade». Trégua na frente americano-iraniana No plano das operações militares, a frente americano-iraniana vive, desde a noite de sexta-feira, uma trégua precária. Após 13 dias consecutivos de bombardeios americanos em território iraniano e de represálias iranianas sobre os países vizinhos do Golfo, as noites de sexta e de sábado foram tranquilas, enquanto a frente iemenita se agrava e o sul do Líbano permanece, por ora, distante da escalada. A guerra americana contra o Irã acaba de tomar um novo rumo em direção a um futuro que permanece incerto. Enquanto a escalada era palpável há cerca de 13 dias, e a semana foi marcada por maciços bombardeios americanos em território iraniano e por contínuas represálias iranianas sobre os países vizinhos do Golfo e a Jordânia, a tensão militar arrefeceu abruptamente na sexta-feira. Os iranianos vivem sua segunda noite de calma, pode-se constatar na manhã de domingo. Segundo a mídia americana, essa trégua decorre de uma ordem dada pelo presidente americano Donald Trump na sexta-feira. Os iranianos também suspenderam seus ataques contra os países vizinhos. Várias questões inquietam a mídia diante desse desenvolvimento. Essa trégua é temporária ou tende a durar? No que deve desembocar — em novas negociações ou num agravamento do conflito com, por exemplo, combates terrestres? O que realmente motivou a decisão de Trump? Essa última questão é crucial. Pois, para muitos veículos americanos, como o New York Times ou CNN , o governo americano temeria o esgotamento do estoque de mísseis interceptadores que protegem os países do Golfo. Temeria também o alargamento do conflito no Oriente Médio. Trump, por sua vez, continua enviando sinais contraditórios. Ao mesmo tempo em que garante estar cogitando ataques ainda mais contundentes contra o Irã, assegurou estar «conversando com os líderes iranianos no momento», avaliando que eles «estão se tornando cada vez mais sérios» por «uma razão óbvia», fazendo alusão aos bombardeios devastadores desferidos pela aviação americana. Essa repentina trégua contrasta com o comportamento israelense dos últimos dias. Mantidos à margem dos últimos ataques contra o Irã, enquanto eram o parceiro privilegiado (senão os instigadores) do início desta guerra contra o Irã no final de fevereiro, os israelenses tomaram medidas de precaução extremas ao longo desta semana, pedindo à população que estivesse pronta para se abrigar a qualquer momento. Várias companhias aéreas suspenderam seus voos para Tel Aviv nos últimos dias. Segundo algumas informações, os israelenses teriam se declarado prontos para realizar ataques precisos em território iraniano, mas teriam sido impedidos de fazê-lo pelo presidente Trump. Mas na manhã de domingo, o governo israelense aprovou a prorrogação do estado de emergência até 11 de agosto. De qualquer forma, um encontro a ser acompanhado de perto na semana que vem é a reunião prevista entre o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e o presidente americano, em Washington, na terça-feira. Netanyahu demorou a conseguir esse encontro, sinal de que as tensões persistem entre os dois homens em relação à guerra no Irã. O premiê israelense conseguirá influenciar as decisões de seu parceiro americano, sabendo que ambos precisam levar em conta prazos eleitorais internos cruciais nos próximos meses? Para o presidente Trump, as eleições de meio de mandato podem se mostrar complicadas, já que a alta dos preços do petróleo e a inflação, relacionadas à guerra no Irã, abalaram seriamente sua popularidade. Quanto a Netanyahu, ele joga mais uma vez seu futuro político. No entanto, essas divergências e esses cálculos não mudam muito a relação estratégica entre os dois países. Um fato veio reforçar essa tese esta semana: na quinta-feira, o secretário americano de Energia anunciou um acordo próximo com a Arábia Saudita para o desenvolvimento de um programa nuclear civil, provocando reações preocupadas de parlamentares democratas e de setores israelenses, que dizem temer uma nova corrida ao armamento nuclear no Oriente Médio. No mesmo dia, o presidente Trump publicou uma mensagem em sua rede social Truth Social , com um conteúdo surpreendente: ele garante que esse acordo com os sauditas só poderá se concretizar se o país reconhecer Israel e assinar os Acordos de Abraão, já ratificados por vários países do Golfo. Satisfação do lado israelense, onde Netanyahu considera que seria 'um avanço histórico'. Do lado da Arábia Saudita, silêncio. Primeiro desdobramento conturbado do exército no sul do Líbano No terreno, é forçoso reconhecer que, se o Irã respeitou essa trégua implícita com os Estados Unidos ao conter seus mísseis e drones durante dois dias, a frente iemenita, do lado dos rebeldes houthis pró-iranianos, continua a se inflamar. Os rebeldes houthis mostraram-se ameaçadores durante toda a semana, direcionando seus mísseis para a Arábia Saudita — uma primeira vez desde 2022 — e complicando a passagem de navios no mar Vermelho. Eles alvejaram dois petroleiros sauditas ao longo desta semana (apenas um, segundo as autoridades sauditas). Em resposta, o governo iemenita legítimo pró-saudita lançou ataques contra as regiões controladas pelos rebeldes. Essa frente iemenita ativada pelos iranianos parece, por ora, ofuscar a frente do sul do Líbano. O Hezbollah continua sem responder às operações israelenses em curso nas zonas ocupadas e mesmo além delas. Embora declarem respeitar o cessar-fogo (em particular o negociado pelos iranianos no âmbito do processo de Islamabad, e não o obtido pelas autoridades libanesas no acordo-quadro assinado diretamente com os israelenses, em Washington), os quadros da milícia pró-iraniana levam em conta o cansaço de suas tropas, mas também, e sobretudo, o de seu público, grande parte do qual ainda se encontra deslocado. Ainda no Sul do Líbano, um evento decisivo ocorreu na terça-feira, relacionado com o acordo-quadro líbano-israelense: o desdobramento do exército libanês numa aldeia nos limites da zona ocupada, Zawtar el-Gharbiya. A entrada do exército libanês nessa localidade não decorreu sem incidentes: o exército israelense abriu fogo na direção dos soldados libaneses, sem causar vítimas, alegando que os veículos libaneses tinham avançado para fora da zona prevista. O exército libanês desmentiu categoricamente essas alegações. Aoun em Washington Ainda assim, as autoridades libanesas, regularmente criticadas pelo eixo iraniano, persistem na busca de uma paz duradoura. Prova disso é a deslocação do primeiro-ministro libanês Nawaf Salam na quarta-feira a Zawtar el-Gharbiya, onde hasteou uma bandeira libanesa na localidade e transmitiu uma mensagem tranquilizadora à população do sul sobre o compromisso do Estado ao seu lado. A visita do comandante-chefe do exército, Rodolphe Haykal, no dia seguinte veio reforçar essa impressão. Esta mensagem é mais do que nunca crucial para as populações das zonas sinistradas. As primeiras reações dos habitantes de Zawtar ao verem as destruições, depois de terem sido autorizados a regressar para inspecionar os seus bens na sequência do desdobramento do exército, são de partir o coração. No entanto, o evento-chave desta semana no âmbito da restauração do prestígio do Estado decorreu em Washington. Presente nos Estados Unidos desde sábado, com uma agenda carregada de encontros com altos funcionários americanos (entre os quais o secretário de Estado Marco Rubio, no domingo), o presidente libanês Joseph Aoun foi recebido na terça-feira pelo presidente americano Donald Trump na Casa Branca. Em termos de forma, a conferência de imprensa conjunta dos dois presidentes revelou uma química genuína entre os dois chefes de Estado, e a mensagem transmitida foi a de um desenvolvimento das relações no bom sentido. Em termos de conteúdo, todos os ecos foram igualmente favoráveis. Na mesma noite, o presidente americano anunciou uma medida simbólica, mas significativa: o regresso dos voos diretos entre os Estados Unidos e Beirute, interrompidos há mais de 40 anos. O presidente libanês, por sua vez, expressou em várias ocasiões após este encontro a sua confiança de que o país está no caminho certo. É certo que as dúvidas persistem e os desafios continuam a ser enormes, mas este encontro em Washington não terá sido uma oportunidade desperdiçada. Sem surpresa, a visita do presidente à capital americana e o seu desempenho valeram-lhe um amplo apoio no seio da classe política libanesa. Até Nabih Berry, presidente do Parlamento e chefe do Amal, aliado do Hezbollah, que nas últimas semanas se havia distanciado das escolhas do presidente, o contactou por telefone aquando do seu regresso. O Hezbollah, por sua vez, continua a atacar duramente Aoun: num comunicado virulento divulgado na quinta-feira, o partido acusou o presidente de ter «falhado em obter a mínima reivindicação nacional soberanista», considerando que «não conseguiu um compromisso americano relativamente a uma retirada israelense». Também neste plano, a milícia xiita parece cada vez mais isolada. O presidente recebeu, no sábado, uma dose adicional de confiança durante a missa de beatificação do «pai do Grande Líbano», o patriarca Elias Howayek, na sede de verão do patriarcado em Dimane (Bcharré, norte do Líbano), nas palavras do patriarca maronita Bechara Rai. Nesta manifestação religiosa e política, que reuniu personalidades de todas as comunidades (com a surpreendente exceção de Nabih Berry), o prelado saudou «os sinais positivos» que emanaram do encontro de Washington e reiterou o seu apoio ao presidente.

A centralidade da língua siríaca na tradição maronita 1/7

À saída de um recital maronita em língua siríaca, os espectadores ficam admirados por terem sentido as palavras e a espiritualidade no mais fundo do seu ser. Experimentaram emoções de uma intensidade incomum, ainda mais intensa do que quando se trata de uma língua que compreendem. Perguntam-se então: como uma língua que se tornou amplamente incompreendida pode penetrá-los com mais força do que uma língua aprendida nos bancos da escola? A língua da alma O siríaco está na origem da espiritualidade maronita, assim como o foi para as demais Igrejas antioquenas. Mesmo marginalizada, essa língua permanece inscrita na essência da identidade maronita. Ela fala ao espírito, nutre a interioridade e sacia uma sede espiritual. Pela sua sonoridade, seu ritmo e a riqueza de suas imagens poéticas, o siríaco abre um espaço interior singular. Mesmo quando os fiéis já não compreendem perfeitamente a língua, percebem-na como parte de si mesmos. Como destacou o liturgista jesuíta Robert Taft, a participação litúrgica não se reduz à compreensão intelectual do texto; ela envolve também uma memória simbólica, sensorial e afetiva que participa plenamente da experiência do rito. Após uma abordagem histórica e, em seguida, linguística, esta série de sete artigos pretende mostrar como a perda de uma língua, sob o pretexto de abertura ao ambiente e ao mundo, conduz à ilusão de uma fé absoluta. A busca por uma religião puramente espiritual, desvinculada de qualquer herança, desenraizada e liberta das identidades, pode então transformar-se em ideologia. Calcedônia Do ponto de vista histórico, não se pode deixar de notar a íntima relação existencial entre a língua siríaca e os maronitas enquanto Igreja e enquanto povo. Nesse sentido, o Concílio de Calcedônia, convocado em 451 pelo imperador bizantino Marciano e sua esposa Pulquéria, revela-se determinante: Este quarto concílio ecumênico afirmou claramente o diofisismo, ou seja, as duas naturezas, humana e divina, de Cristo, verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus. “Um único Cristo reconhecido em duas naturezas, sem confusão, sem mudança, sem divisão e sem separação”, declara a profissão de fé conhecida como “Símbolo de Calcedônia”. Os Siríacos, cuja abordagem teológica era mais antropológica do que filosófica, tinham dificuldade em apreender essas sutilezas, tanto mais que o seu vocabulário nem sempre permitia distinguir tais nuances. Para além da controvérsia teológica, esses cristãos temiam o risco de assimilação política e cultural pelo Império Bizantino de língua grega. Colocados diante da escolha entre a unidade eclesiástica e a salvaguarda da sua identidade cultural, face à assimilação grega, os Siríacos ocidentais dividiram-se em três grupos: 1- Uma primeira componente optou pela unidade cristã, adotando o concílio com todas as suas implicações litúrgicas, culturais e até identitárias. Tendo-se integrado plenamente à Igreja imperial bizantina, essa comunidade é hoje conhecida como greco-ortodoxa, melquita ou rum (Romanos do Oriente). 2- O segundo grupo, fortemente apegado à sua identidade cultural, rejeitou o concílio em sua totalidade. Embora miafisita (reconhecendo as duas naturezas humana e divina de Cristo, mas fundidas em uma só), foi qualificado de monofisita. Conhecida na Idade Média como jacobita, designa-se hoje como Igreja Siríaca Ortodoxa. 3- A terceira componente recusou essas duas opções radicais para escolher uma via de compromisso e de síntese: a unidade cristã calcedônica, sem renunciar ao seu apego inabalável à língua siríaca. Este grupo tornou-se, no século VII, uma Igreja Antioquena Maronita autocéfala, tendo São João Maron como primeiro patriarca. Sem esse apego inabalável à língua, à cultura, à identidade e à espiritualidade siríaca, a Igreja Maronita provavelmente jamais teria existido. Ela teria se dissolvido, como os demais calcedônios, na cultura imperial bizantina. São João Maron A própria ideia do Líbano tem sua origem na ação desse primeiro patriarca, São João Maron, que conferiu à sua nova Igreja uma dimensão nacional. Ao contrário das demais Igrejas siríacas, melquitas e coptas, a de São João Maron não se limitou ao âmbito espiritual; ela se dotou dos atributos de uma nação. Esse patriarca estabeleceu, assim, seus alicerces territoriais (o Monte Líbano), religiosos (o cristianismo calcedônio), militares (os mardaítas) e linguísticos (o siríaco). Os mardaítas, um povo guerreiro provavelmente originário do Cáucaso, tinham por missão a defesa do Levante. Na sequência do tratado de paz celebrado em 667 entre o califa Muawiya e o imperador Constantino IV, este último ordenou a retirada de suas tropas mardaítas do Líbano. Uma segunda retirada de doze mil mardaítas ocorreu sob Justiniano II. Os mardaítas que permaneceram no local constituíram então a espinha dorsal militar dos maronitas. Se a organização militar representa uma condição essencial para o surgimento de uma entidade política, a língua permanece a pedra angular de toda construção nacional. São João Maron colocou-a no centro de seu projeto espiritual, fazendo do siríaco a língua litúrgica, sagrada e simbólica.

Integração, não confronto!
Por
Rami Rayess
Publicado

É verdade que a tradução política e concreta da visita do presidente libanês Joseph Aoun à Casa Branca exigirá tempo e esforço contínuos, por diversos motivos. Mas é igualmente verdade que a forma exerce uma influência real nas relações entre os Estados, especialmente quando se trata de um presidente tão imprevisível quanto Donald Trump, conhecido por, por vezes, priorizar a dimensão pessoal em detrimento da estrutura institucional em suas relações com chefes de Estado e de governo ao redor do mundo. A cena em que o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky foi duramente repreendido no Salão Oval, sob o olhar atento da mídia, permanece viva na memória das pessoas. Não podemos, portanto, ignorar essas considerações formais, que desempenham um papel muito real nas cúpulas entre chefes de Estado, especialmente para um pequeno país como o Líbano, cujo único trunfo é a reputação de seus cidadãos que obtiveram sucesso ao redor do mundo, integrando-se às sociedades para as quais emigram e alcançando as mais altas posições políticas, econômicas e sociais. Até o momento, parece que a velha e famosa máxima de que "a força do Líbano reside em sua fraqueza" está ressurgindo na realidade libanesa, especialmente após o colapso de todos os slogans relacionados ao "equilíbrio da dissuasão" e outras fórmulas que se tornaram sem sentido após as guerras de 2024 e 2026. Em todo caso, essa máxima é fundamentalmente falha e é inaceitável retornar a ela. Embora seja verdade que o Líbano não possa, como outros Estados, adquirir um arsenal militar capaz de proteger seu território e fronteiras por conta própria, confiar exclusivamente em "amigos do Líbano", como sugeriu uma figura política, não é mais uma solução. A diplomacia e a política externa de um Estado não podem se basear unicamente em "amizades". Não existem amizades permanentes na política: o que está alinhado aos interesses de um país em um dado momento pode mudar posteriormente, sem explicação ou justificativa. Contudo, as importantes declarações políticas feitas pelo Presidente da República na recepção oferecida pela Embaixada do Líbano em Washington têm uma importância comparável à da cúpula EUA-Líbano. Elas refletiram uma profunda compreensão dos dilemas da situação atual, bem como dos meios de superá-los, conciliando a defesa do interesse nacional superior, da soberania e do monopólio estatal sobre as armas com a necessidade de evitar a escalada da situação interna ou a transferência do conflito para o âmbito local, sob o risco de comprometer a estabilidade e a paz civil. A declaração do presidente de que o Hezbollah não é uma força mercenária é significativa. Seus membros são filhos do Sul, mesmo que uma grande parcela da população libanesa discorde deles, e mesmo que sua doutrina religiosa tenha se tornado parte integrante de um projeto político cujos fundamentos transcendem as fronteiras e as capacidades do Líbano. Tais situações não podem ser resolvidas por meio de confrontos militares, que estariam fadados ao fracasso e apenas deslocariam o conflito de uma arena para outra, mas sim por meio da integração. Isso só pode ser alcançado por meio de uma visão abrangente que reconstrua a confiança entre os diversos componentes da sociedade libanesa e o Estado. O fosso entre esses componentes e o Estado continua a aumentar, e por muitas razões. Algumas decorrem da doutrina arraigada em certos segmentos da população, que têm dificuldade em transcender ou contestar por meio de propostas políticas ou sociais opostas, quanto mais por motivos religiosos. Outras estão enraizadas em um pesado legado histórico ligado à incapacidade do Estado, e por vezes à sua indiferença, em proteger o Sul e seus habitantes, que ficaram expostos à agressão israelense, mesmo antes do surgimento do Hezbollah. Outras ainda estão ligadas à fragilidade do Estado e de seus recursos, à concentração da atividade econômica na capital e nas principais cidades e à negligência, deliberada ou não, das áreas rurais, da agricultura, do artesanato e das pequenas indústrias locais, que ajudam os habitantes rurais a manterem suas terras. Portanto, parece essencial que as iniciativas da próxima etapa sejam realizadas simultaneamente, a fim de reduzir gradualmente o profundo fosso mencionado acima. O Estado deve preencher diretamente o vazio nas frentes políticas, de segurança e econômicas, e reafirmar sua presença onde há muito tempo está ausente. O gesto simbólico do primeiro-ministro Nawaf Salam, que colocou

Copa do Mundo: o jogo, o poder e a memória
Por
Yakzan Takki
Publicado

As receitas da competição devem alcançar 13 bilhões de dólares, tornando esta edição o evento esportivo mais lucrativo da história. Um resultado que fortalece a posição de Gianni Infantino em sua busca pela reeleição à presidência da FIFA no próximo ano. Esta Copa do Mundo também esteve entre os eventos esportivos mais caros já realizados nos Estados Unidos. No mercado secundário, o preço dos ingressos atingiu níveis recordes, com valor médio de 10.800 dólares e picos de 32.000 dólares por unidade. Uma situação que pode ser vista como boa ou má notícia, dependendo de quem se trate: comprador ou vendedor. Embora as condições climáticas tenham afetado algumas partidas, ficaram muito longe das dezenas de adiamentos temidos por alguns observadores. Da mesma forma, os pesadelos logísticos que poderiam ser esperados pela primeira vez com a organização de uma Copa do Mundo dividida entre três países, Estados Unidos, México e Canadá, acabaram não se concretizando. Com 48 seleções participantes e 104 partidas disputadas, o torneio proporcionou a sua cota de surpresas, aquelas que dão à Copa do Mundo seu brilho e sua imprevisibilidade. Cabo Verde, o segundo menor país a se classificar para a competição, tornou-se uma das grandes revelações do torneio ao segurar a Espanha em um empate na partida de estreia. A Noruega, de volta à Copa do Mundo após uma longa ausência, chegou às quartas de final graças ao seu poderoso atacante Erling Haaland, que rapidamente se transformou em um dos favoritos da torcida, enquanto os torcedores noruegueses popularizavam sua já famosa "celebração viking". Canadá e Egito também escreveram uma nova página de sua história na competição. O Egito chegou às oitavas de final, tornando-se uma das nove seleções africanas classificadas para a fase eliminatória. Entre as seis confederações da FIFA, a África teve um desempenho até mais convincente do que a Europa, levando treze equipes além da fase de grupos. Lionel Messi dissipou definitivamente qualquer dúvida sobre seu lugar entre os maiores jogadores da história das Copas do Mundo, senão da própria história do futebol. Ao conduzir sua equipe até a final, tornou-se o segundo jogador a disputar três finais de Copa do Mundo. Mas esses êxitos não devem esconder os pontos obscuros do torneio. Esta edição ficará marcada como a Copa do Mundo mais politizada da história e a primeira realizada enquanto o país anfitrião, os Estados Unidos, estava em guerra com o Irã. Essa situação teve consequências imediatas, começando pela recusa em conceder vistos a mais de uma dúzia de integrantes da delegação oficial iraniana. O Departamento de Estado dos Estados Unidos também negou a entrada no país ao árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, alegando "preocupações que exigem uma análise mais aprofundada". Além disso, embora a assistência de vídeo à arbitragem (VAR) tenha sido criada principalmente para alertar o árbitro principal sobre erros claros ou incidentes graves que ele não tivesse visto, acabou ocupando um espaço excessivo no jogo. Assim, anulou um gol da Croácia e tirou do Egito o que poderia ter sido o gol da vitória. Para seus críticos, o VAR esvaziou progressivamente a arbitragem de sua dimensão de julgamento humano, privando o futebol de grande parte de sua dramaticidade. O futebol é uma arte antes de ser uma mecânica. É justamente por essa parcela de imprevisibilidade que as multidões se apaixonam por ele. A isso somou-se um episódio, no mínimo, singular: a intervenção do presidente Donald Trump, que atribuiu a si próprio o mérito pelas decisões da arbitragem envolvendo o atacante Folarin Balogun, chegando a afirmar que interveio pessoalmente para conseguir a suspensão de um cartão vermelho. Mas, como sempre acontece na FIFA, é o dinheiro que fala mais alto. Apesar das inúmeras controvérsias que cercaram Gianni Infantino ao longo do último ano, ele não parece ter perdido muito apoio. Assim, a Espanha não foi a única vencedora desta Copa do Mundo, que se tornou uma verdadeira extensão das relações internacionais e uma das expressões mais visíveis do poder brando. A Copa do Mundo talvez seja a última língua verdadeiramente universal ainda falada pela humanidade. Ela produz memória ao mesmo tempo que constrói sentimentos de pertencimento. Nesse universo, FIFA, Donald Trump, Gianni Infantino, dinheiro, patrocinadores e até o VAR não aparecem como fenômenos distintos, mas como manifestações de uma mesma realidade: a política já não se limita a observar a partida das arquibancadas; ela desceu ao gramado. Ainda assim, apesar de todas as tentativas de politização, os torcedores continuam chorando diante de um gol, maravilhando-se com um feito inesperado e acreditando que uma pequena nação ainda pode derrotar uma grande potência do futebol. Essa é a justiça simbólica que a política jamais consegue comprar completamente. Desde a primeira Copa do Mundo realizada no Uruguai, em 1930, passando pelas edições da Itália em 1934, da Inglaterra em 1966 e pela de 2002, a competição mais prestigiosa do futebol nunca deixou de ser cercada por controvérsias e escândalos. O futebol pode ser um substituto pacífico para a guerra. Também pode ajudar torcedores de todo o mundo a reconhecer aquilo que os aproxima, em vez daquilo que os divide, para além dos confrontos, da politização, das acusações de corrupção ou do sportwashing. Mas essa não é toda a história. A Copa do Mundo talvez seja um luxo. Mas é um luxo ao qual ninguém pensa seriamente em renunciar. A cada quatro anos, milhões de apaixonados se afastam discretamente do trabalho para acompanhar os jogos, deixam seus filhos acordados até tarde da noite e suspendem, durante uma partida, o curso normal de suas vidas. Ninguém pode lhes tirar esse prazer. A Copa do Mundo é uma extraordinária fábrica de memórias. Os torcedores mais experientes se lembram de onde estavam nas maiores vitórias de sua seleção, assim como nas derrotas mais dolorosas, e de quem estava ao seu lado nesses momentos: um pai que já faleceu, um amigo, um filho que hoje é adulto. O futebol também alimenta a esperança de que um futuro diferente continua possível, aquele em que os mais modestos podem, durante um torneio, inverter a hierarquia e alcançar o topo. Uma dramaturgia que nunca desaparece, presente até mesmo nos hinos nacionais, eles próprios atravessados pela memória da guerra, dos soldados e da violência. A proliferação das teorias da conspiração, por si só, demonstra a intensidade da paixão que a Copa do Mundo desperta nos quatro cantos do planeta. Segundo a FIFA, cerca de três bilhões de telespectadores acompanharam a final da edição de 2026. Uma audiência dessa magnitude gera receitas colossais provenientes dos direitos de transmissão, dos contratos de patrocínio, da venda de ingressos e dos serviços de hospitalidade. À semelhança de seus antecessores, Sepp Blatter e João Havelange, que comandaram a FIFA durante muitos anos, Gianni Infantino demonstrou uma notável habilidade para se aproximar dos poderosos deste mundo. Recebeu a medalha da Ordem da Amizade das mãos de Vladimir Putin e criou o "Prêmio da Paz da FIFA", concedido a Donald Trump. Ao ampliar a Copa do Mundo para 48 seleções, a FIFA também ampliou o campo das rivalidades, dos interesses e das relações de poder em um contexto internacional cada vez mais marcado pelas transformações geopolíticas. Afirmar que seria necessário "manter a política fora do esporte" é uma ilusão conveniente. Não se pode esperar que o esporte seja um santuário preservado de qualquer influência política. Em contrapartida, é legítimo exigir mais coerência, transparência e responsabilidade. A tecnologia pode contribuir para alcançar esses objetivos, mas também pode dificultá-los quando atua por trás da cortina digital da assistência de vídeo à arbitragem (VAR). Não se discutem gostos, embora uma ínfima minoria, por sensibilidade estética, veja nas camisas de futebol o símbolo de um jogo intrinsecamente violento. A realidade é que o futebol fascina quase todo mundo, porque desperta algo profundamente arcaico: a necessidade do ritual coletivo. Como escreveu o sociólogo Émile Durkheim, as coisas sagradas "são separadas e cercadas de proibições". Para muitos, o futebol tornou-se um verdadeiro dia de culto, um rito que alimenta o orgulho de uma comunidade e reúne pacificamente indivíduos em torno de identidades compartilhadas. Ele responde ao desejo de pertencer a algo que transcende o próprio indivíduo, nessa "efervescência coletiva" ( collective effervescence ) que cria vínculos entre pessoas que, às vezes, têm muito pouco em comum, unidas pela celebração de uma vitória inesperada. Essa dinâmica também abre perspectivas inesperadas. A questão da lealdade à nação, expressa por meio da identidade nacional de um jogador, pode ser mais complexa do que parece. O futebolista americano Folarin Balogun, nascido nos Estados Unidos de pais nigerianos e também elegível para representar a Inglaterra, é um exemplo disso. Apoiar uma seleção nacional significa, em certa medida, celebrar o pluralismo e a capacidade das sociedades de produzir verdadeiras sínteses identitárias, nas quais o "eu" se transforma em "nós". Foi precisamente isso que permitiu, por exemplo, reunir os habitantes de Nova York em torno de uma mesma emoção. O teólogo católico Michael Novak defendia que "o esporte nasce de um profundo impulso natural em direção à perfeição". A política também responde a reflexos tribais. Mas o futebol lhes oferece um palco infinitamente menos cruel do que os campos de batalha e até mesmo do que as urnas. Talvez resida aí, afinal, sua forma mais discreta de graça.

O conflito iraniano inflama novas frentes
Por
LevantTime .
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Os rebeldes houthis do Iêmen, aliados de Teerã, atacaram no sábado instalações petrolíferas na Arábia Saudita em represália a bombardeios de Riad, marcando uma nova escalada das hostilidades em mais uma frente da guerra que assola o Oriente Médio. Se as autoridades sauditas permanecem em silêncio sobre o assunto até agora, as forças aéreas gregas, responsáveis por operar um sistema de defesa antiaérea na Arábia Saudita, anunciaram ter interceptado dois mísseis e um drone lançados do Iêmen em direção a Yanbu. Após intensificar nos últimos meses os ataques contra países do Golfo em represália aos bombardeios americanos, o Irã parece agora abrir uma nova frente por meio de seus aliados houthis contra a coalizão liderada por Riad. Esses novos confrontos na estratégica região do Mar Vermelho, enquanto o Estreito de Ormuz permanece bloqueado na outra extremidade da Península Arábica, ampliam as preocupações com o transporte mundial de hidrocarbonetos. Diante dessa nova escalada, Donald Trump ameaçou esta semana os houthis e o Irã com uma "punição militar severa". O presidente americano garantiu manter a via diplomática aberta e prosseguir o diálogo com os dirigentes iranianos, ao mesmo tempo em que afirmou poder infligir à República Islâmica "um nível muito pior" de ataques. Na sexta-feira, vários veículos de comunicação americanos noticiavam discussões sobre uma possível operação militar de grande escala. Bahrein e Kuwait: uma rara resposta do Golfo Há várias semanas, o Irã concentra seus ataques de represália contra o Bahrein e o Kuwait, dois países que abrigam bases militares americanas. Dotados de forças aéreas relativamente modestas, equipadas com aeronaves americanas e europeias, esses dois Estados do Golfo não querem mais deixar Teerã atacá-los impunemente. Segundo o Wall Street Journal de sexta-feira, o Bahrein e o Kuwait enviaram secretamente caças para atacar instalações militares no Irã, numa primeira resposta direta contra a República Islâmica. Realizadas no início do mês, essas operações ilustram a tomada de consciência dos Estados árabes diante de um conflito que ameaça envolvê-los cada vez mais. Os ataques teriam visado depósitos de drones, estoques de mísseis e outras infraestruturas militares. Os Emirados Árabes Unidos, que já haviam participado de várias operações contra o Irã no início do conflito, teriam fornecido informações de inteligência sobre os alvos e cobertura aérea defensiva, sinal de uma cooperação militar árabe cada vez mais estreita diante de Teerã, segundo as mesmas fontes. No Irã, a repressão continua Apesar do cessar-fogo firmado em abril, as execuções de manifestantes, membros de grupos proibidos e supostos espiões continuam no Irã. Segundo organizações de defesa dos direitos humanos, trata-se de uma tentativa das autoridades de impedir o surgimento de um novo movimento de contestação semelhante ao de janeiro passado. A recente retomada das hostilidades preocupa ainda mais essas organizações, que temem um endurecimento adicional da repressão para silenciar qualquer forma de oposição. As autoridades iranianas acusam as pessoas executadas de terem participado de ataques letais contra as forças de segurança ou de terem atacado edifícios públicos. No entanto, as ONGs denunciam julgamentos arbitrários e sumários, além de atos de tortura. Esses casos representariam apenas a ponta do iceberg. Segundo a Iran Human Rights (IHR), cerca de 400 pessoas foram executadas desde o início do ano, principalmente em casos de homicídio ou tráfico de drogas. Com 2.150 execuções registradas no ano passado, o Irã ocupou novamente o segundo lugar mundial, atrás da China, segundo a Anistia Internacional. As tensões se alastram por novas frentes Os focos de crise continuam a se deslocar pelo Oriente Médio, onde persiste o temor de uma retomada, a qualquer momento, da guerra entre Washington e Teerã. Ambos os lados afirmam estar prontos para um novo ciclo de confrontos, enquanto as perspectivas de um retorno ao diálogo parecem cada vez mais limitadas, diante do endurecimento de suas respectivas posições. Israel, por sua vez, afirma estar pronto para retomar seus ataques contra a República Islâmica em caso de ataque iraniano contra seu território, ou caso Washington desse luz verde a uma operação militar de grande escala. Nesse contexto, a visita do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu a Washington, no início da próxima semana, assume uma importância particular. O gabinete do chefe do governo israelense anunciou na sexta-feira que Netanyahu seria recebido na terça-feira na Casa Branca por Donald Trump, pondo fim às especulações alimentadas há várias semanas sobre uma deterioração das relações entre os dois líderes. Este encontro deverá permitir que examinem as diferentes opções capazes de pôr fim a um conflito que se arrasta, ao mesmo tempo em que impedem Teerã de reconstituir suas capacidades militares ou de retomar a iniciativa diplomática em posição de força. Outro sinal da possibilidade de uma retomada das hostilidades, a embaixada dos Estados Unidos em Israel convocou os cidadãos americanos presentes no país a «acompanhar de perto a evolução da situação e a se prepararem para uma possível perturbação do tráfego aéreo». Confrontos mortais na Cisjordânia Na Cisjordânia, os habitantes da aldeia palestina de Tell enterraram no sábado quatro homens mortos na véspera durante confrontos com colonos israelenses. A violência havia eclodido na sexta-feira após a entrada na aldeia de cerca de vinte colonos vindos do assentamento vizinho de Havat Gilad. Segundo o exército israelense, um palestino se apoderou da arma de um colono antes de matar um deles. Tiros foram então trocados, resultando em quatro mortos palestinos e um segundo morto israelense. Israel lançou imediatamente uma ampla operação de segurança, bloqueando o setor e fechando as barreiras rodoviárias em toda a Cisjordânia, território palestino ocupado desde 1967. A violência se intensificou fortemente na Cisjordânia desde o ataque do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023. Os ataques de colonos e as incursões do exército israelense nas aldeias palestinas tornaram-se quase diários. Esses atos são regularmente documentados por vídeos divulgados nas redes sociais, às vezes pelos próprios autores. Após o que qualificou de «atentado mortífero» que custou a vida a dois israelenses, Benjamin Netanyahu prometeu agir «com firmeza» e anunciou «a aceleração da legalização de postos avançados» de colônias. Esses postos avançados, compostos na maioria das vezes por algumas caravanas ou construções pré-fabricadas erguidas sem autorização oficial, visam criar fatos consumados no terreno. Dois sítios inscritos em caráter de urgência no patrimônio em perigo Em outro âmbito, as fortalezas de Jabal Amel, no sul do Líbano, assim como o sítio arqueológico de Sebastia, na Cisjordânia, foram inscritos na sexta-feira em caráter de urgência tanto na Lista do Patrimônio Mundial quanto na Lista do Patrimônio Mundial em Perigo, da Unesco. As cinco fortalezas de Jabal Amel estão situadas em uma região do sul do Líbano regularmente bombardeada por Israel desde o início do conflito. Os «elementos constitutivos» dessas obras fortificadas, datando do século XII e construídas em colinas que dominam os arredores, sofreram danos e continuam expostos a ameaças relacionadas ao conflito armado em curso, «suficientemente graves para justificar o recurso a um procedimento de urgência», sublinha a Unesco. Retorno progressivo a Zawtar el-Gharbiyé No Líbano, surgiu finalmente um tímido sinal de trégua no Sul. Os habitantes de Zawtar el-Gharbiyé começaram a regressar progressivamente à sua aldeia, sob a supervisão do exército libanês, que aí se desdobrou em conformidade com o acordo-quadro celebrado a 26 de junho entre Beirute e Israel. Este regresso sugere que a implementação do acordo está a avançar, apesar da continuação das operações de detonação conduzidas pelo exército israelita noutros setores do Sul do Líbano. A retirada progressiva das forças israelitas permanece, contudo, condicionada ao desdobramento completo do exército libanês e ao desmantelamento das infraestruturas paramilitares do Hezbollah. Na Síria, Guterres apela ao apoio internacional Refira-se, no plano diplomático, que em visita à Síria pela primeira vez, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, apelou no sábado à comunidade internacional para apoiar o país, que atravessa uma fase de transição após mais de uma década de guerra civil e a instalação de novas autoridades. Ao lado do presidente Ahmad al-Chareh, defendeu também o respeito pela soberania síria, numa referência às incursões israelitas no sul do país. Esta visita é a primeira de um secretário-geral da ONU à Síria desde a de Ban Ki-moon em 2009. Ocorre mais de um ano e meio após a queda, no final de 2024, do presidente Bashar al-Assad, derrubado por uma coligação de grupos rebeldes.