
Esta série de artigos tem como objetivo compreender melhor a atual situação no cenário libanês à luz do passado, longe de discursos apaixonados, ideológicos ou românticos que ignoram a realidade, deixando ao leitor a tarefa de tirar as conclusões que se impõem. As doze partes anteriores abordaram uma releitura dos acontecimentos relacionados à ascensão do Hezbollah desde o Acordo de Taif até a aplicação, gravemente incompleta, da Resolução 1701 do Conselho de Segurança da ONU, em 2006. Dois anos antes da Guerra dos 33 Dias de 2006, mais precisamente em 3 de setembro de 2004, sob pressão direta da Síria de Bashar al-Assad, o Parlamento libanês prorrogou por três anos o mandato do presidente Émile Lahoud. Essa emenda constitucional foi imposta em desrespeito à Resolução 1559 do Conselho de Segurança da ONU, aprovada no dia anterior por iniciativa da França e dos Estados Unidos. A resolução exigia o estrito respeito às regras constitucionais libanesas e a realização de uma eleição presidencial livre, justa e sem interferência estrangeira. Além disso, a mesma resolução exigia o desmantelamento das milícias ilegais, incluindo o Hezbollah, e a retirada das tropas sírias do Líbano. Para criar uma aparência de legitimidade popular diante das condenações internacionais, Émile Lahoud transformou o Palácio de Baabda em um espaço de demonstração de lealdade. Delegações pró-Síria, funcionários públicos, militares, oficiais de todas as patentes, apoiadores civis e simpatizantes do Hezbollah desfilaram pelo local para encenar “calorosas felicitações”, simulando um amplo consenso nacional em torno da prorrogação de seu mandato. Na realidade, porém, Lahoud encontrava-se isolado internacionalmente, regionalmente e dentro do próprio país, contando apenas com o apoio dos setores pró-Síria, do Hezbollah e do movimento Amal. Contrário à prorrogação do mandato presidencial sob ameaça direta de Bashar al-Assad, o primeiro-ministro Rafic Hariri renunciou em outubro de 2004 antes de aderir à oposição antissíria. Assassinato de Rafic Hariri e a Revolução do Cedro Essa reviravolta política foi considerada pela ONU e, posteriormente, pelo Tribunal Especial para o Líbano como o principal motivo do assassinato de Rafic Hariri, de seus companheiros e de sua escolta, em 14 de fevereiro de 2005. O crime desencadeou diretamente a Revolução do Cedro e levou à retirada forçada das tropas sírias do Líbano. O assassinato de 14 de fevereiro de 2005 foi seguido por uma mobilização massiva nas ruas de Beirute durante três semanas, exigindo em voz alta o fim da ocupação síria do Líbano. Os manifestantes exibiam fotografias dos altos oficiais que comandavam os serviços de segurança libaneses, entre eles os generais Jamil Sayed, Raymond Azar e Ali Hajj, acusando-os de cumplicidade no assassinato de Hariri e classificando-os como símbolos do aparato de segurança sírio-libanês. Fortalecimento dos laços entre Lahoud e Nasrallah Para apoiar Lahoud, cada vez mais boicotado e que representava um verdadeiro escudo legal para o Hezbollah, Hassan Nasrallah respondeu mobilizando seus apoiadores em 8 de março de 2005, estabelecendo um pacto de sobrevivência: proteger o presidente passou a ser apresentado como uma linha vermelha, e a resposta a qualquer tentativa de destituí-lo tornou-se explícita. A sobrevivência política de Lahoud foi selada quando o patriarca maronita Nasrallah Sfeir recusou sua queda por meio da pressão das ruas para não criar um precedente na história contemporânea do Líbano. Sua decisão foi respeitada com amargura pela coalizão soberanista da época, preocupada em preservar os equilíbrios confessionais do país. Os soberanistas mobilizaram seus apoiadores uma semana depois, em resposta à manifestação de 8 de março. Assim, em 14 de março de 2005, Beirute testemunhou uma manifestação histórica que reuniu centenas de milhares de simpatizantes do Movimento Futuro do falecido Rafic Hariri (CF), das Forças Libanesas (FL), das Kataeb, do Partido Nacional Liberal (PNL), dos aounistas do Movimento Patriótico Livre (CPL, ainda antissírio na época), do Partido Socialista Progressista (PSP), de liberais xiitas, de grupos de esquerda e de outros setores que exigiam a retirada das tropas sírias, o desmantelamento do aparato de segurança sírio-libanês e a aplicação da Resolução 1559 do Conselho de Segurança. Após essa manifestação, foi criada a coalizão das “Forças de 14 de Março de 2005”, cujas principais figuras eram Samir Frangié, Gebrane Tueni, Samir Kassir, Nayla Moawad, o ex-presidente Amine Gemayel, entre outros. Isso fortaleceu ainda mais os laços entre Lahoud, que já não tinha alternativas, e Nasrallah. A cultura pró-miliciana, contrária ao Estado de Direito Desde a época em que era comandante do Exército libanês, Émile Lahoud, por meio de suas atitudes e diretrizes, instaurou gradualmente uma “cultura” de aceitação da ocupação síria e uma “cultura” de simpatia em relação ao Hezbollah, apresentado como um movimento de libertação nacional contra Israel. Essa linha de conduta se refletia nos discursos e nas diretrizes administrativas de Lahoud, que ignoravam deliberadamente a ideologia fundamentalista do partido pró-Irã, incompatível com a própria razão de ser do Líbano fundado em 1920. Mais tarde, já como presidente da República, Lahoud continuou difundindo essa imagem do Hezbollah em todo o país, não apenas entre os xiitas que o apoiavam, mas também em setores cristãos, drusos e sunitas. Essa propaganda foi facilitada e ampliada por líderes com ambições desmedidas, como Michel Aoun, líder do Movimento Patriótico Livre, apenas dez meses após seu retorno do exílio na França, além de diversos políticos de diferentes comunidades libanesas, como Talal Arslan, líder do Partido Democrático, e alguns dissidentes dos partidos soberanistas que haviam sido cooptados pelos serviços de segurança da época. A simpatia pró-milícia também se espalhou pelas instituições do Estado. Autoridades passaram a elogiar a lógica da “resistência”, justificando práticas ilegais, enquanto uma gradual erosão da cultura do Estado de Direito se instalava. Essa substituição da cultura soberanista, fundamento do Estado soberano, por outra baseada na submissão a uma milícia de ideologia religiosa sectária infiltrou-se, em nome da “resistência”, nas instituições militares, de segurança, administrativas e judiciais do Líbano. O Líbano continua sofrendo até hoje com essa profunda descaracterização institucional. Ao longo de todos esses anos, uma série de políticos libaneses sentiu-se confortável sob a submissão à ocupação síria e continua confortável sob a hegemonia do Hezbollah. Esses políticos não fizeram qualquer esforço para defender a dignidade nacional e preferiram, durante décadas, concentrar-se em seus interesses imediatos, misturando negócios, assuntos de Estado e populismo. Desdobramento do Exército no Sul e incidentes com o Hezb Apesar do compromisso entre a legalidade e o arsenal do Hezbollah, incidentes foram registrados já em setembro de 2006 durante o desdobramento do Exército libanês no Sul, após a retirada israelense iniciada em 17 de agosto. Esses incidentes ocorreram, por exemplo, quando o Exército interceptou caminhões carregados de munição vindos da Síria para o Vale do Bekaa e do Bekaa para o sul do país. Os militares responsáveis por essas apreensões, comprometidos com sua missão e com forte senso de dever, viam-se frustrados por decisões políticas que os obrigavam a devolver as munições confiscadas ou a libertar imediatamente os veículos apreendidos e os milicianos que os acompanhavam. Outro exemplo que dificultava a restauração da soberania do Estado era a delimitação de áreas, frequentemente florestadas e fortificadas, proibidas às forças legais libanesas, tanto o Exército quanto as Forças de Segurança Interna (FSI), por instrução do presidente da República, Émile Lahoud. Essas áreas eram controladas exclusivamente pelos combatentes do Hezbollah. Quando cidadãos tentavam aproximar-se desses locais, os milicianos os impediam, alegando que se tratavam de “reservas naturais” ou afirmando explicitamente que eram zonas controladas pela milícia, transformadas de fato em enclaves de exclusão dentro da área de desdobramento do Exército no Sul. Leia também sobre o mesmo tema: Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (12) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (11) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (10) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (9) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? 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