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Stratégia

Ancara no centro do foco meridional da OTAN 3.0: o que dizer do Líbano?

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Por Khalil Helou
Publicado jul 29, 2026 - 16:01

Na versão OTAN 3.0 que surgiu da cúpula de Ancara (realizada nos dias 7 e 8 de julho), a Aliança reforçou sua capacidade de administrar simultaneamente uma ameaça continental no Leste (Rússia) e uma instabilidade híbrida (terrorismo, crises migratórias e conflitos militares) em seu flanco mediterrâneo e no Oriente Médio. Para essa segunda frente, agora conta com Ancara, que não apenas se consolidou como um dos principais fornecedores de armas para os países-membros, mas também como mediadora entre o Ocidente e o eixo Moscou-Teerã, recusando-se a romper relações com a Rússia e o Irã, ao mesmo tempo em que contém a primeira no Mar Negro e no Cáucaso e o segundo na Síria e no Líbano.

O Pacto de Riad

Após vários anos de tensões com Riad, especialmente depois do caso Khashoggi, a Turquia uniu-se à Arábia Saudita e ao Paquistão para criar um Pacto Estratégico de Defesa Mútua, hoje classificado por alguns analistas como uma “OTAN sunita”. Esse bloco surgiu para conter tanto a influência residual do Irã na Síria e no Líbano quanto o poder de Israel. O principal símbolo dessa aproximação é o projeto da Ferrovia do Hejaz. Essa linha ferroviária, inaugurada originalmente em 1908, durante o reinado do sultão Abdülhamid II, era um símbolo do poder otomano e ligava Istambul a Medina, até ser destruída pelas forças da Revolta Árabe, lideradas pelo xerife Hussein de Meca e apoiadas e assessoradas por oficiais britânicos.

A partir de 1918, esses combatentes destruíram sistematicamente trilhos e pontes para paralisar o abastecimento das tropas otomanas. O projeto da nova ferrovia, aprovado em junho passado, ligará Istambul à Península Arábica através da Síria e da Jordânia, com uma extensão prevista até Omã, criando uma rota comercial entre a Índia, o Sudeste Asiático e Istambul. Trata-se de uma estratégia econômica de grande relevância para contornar, por um lado, o Estreito de Ormuz e reduzir o impacto das pressões iranianas e, por outro, o porto de Haifa, buscando diminuir o papel comercial de Israel na região, em um momento em que as relações entre Ancara e Tel Aviv atravessam seu pior momento.

A nova Síria: o coração da influência turca

O fator mais importante nesse contexto é a consolidação da influência turca na Síria. Após a queda do regime Assad, Ancara apoia ativamente a nova administração liderada pelo presidente Ahmed al-Charaa. Ao tornar-se a principal patrocinadora sunita da Síria, a Turquia interrompeu os antigos corredores terrestres pró-iranianos em direção ao Líbano, à Jordânia e à Cisjordânia.

No plano militar, Ancara se recusa a retirar suas tropas das províncias do norte da Síria, usando como justificativa a luta contra o terrorismo. Seu verdadeiro objetivo, porém, é eliminar as Forças Democráticas Sírias (FDS/SDF), dominadas pelos curdos e acusadas de serem uma extensão do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), considerado uma organização terrorista por Ancara e Washington.

Além disso, a Síria participou pela primeira vez dos exercícios militares conjuntos turcos EFES 2026, a edição mais recente de um dos maiores treinamentos militares multinacionais com munição real, organizado a cada dois anos pelas Forças Armadas turcas. O exercício ocorreu entre abril e maio de 2026, principalmente nas regiões de Izmir e Istambul, na Turquia. Mais de 10 mil soldados de cinquenta países participaram da operação. Além de aliados tradicionais da OTAN, como os Estados Unidos e a França, Ancara convidou pela primeira vez o Exército sírio, um fato de grande relevância geopolítica por representar a primeira participação oficial da Síria em um exercício militar no exterior desde a queda do regime de Bashar al-Assad.

O Líbano e o despertar estratégico da esfinge turca

A Turquia, que voltou a se afirmar como o principal eixo meridional da OTAN 3.0 e como um dos pivôs do Oriente Médio, além de integrar o pacto de defesa Islamabad-Ancara-Riad, exerce hoje grande influência na Síria. Nesse contexto, encontra afinidades com alguns movimentos islamistas libaneses, como a Jama’a Islamya.

Se o Líbano quiser sobreviver ao caos regional, precisará aprender a se relacionar de Estado para Estado com esse “pivô turco”, não como um vassalo, mas como um parceiro estratégico consciente de que o centro de gravidade do Oriente Médio se deslocou para o norte.

Entre 2025 e 2026, a Turquia intensificou sua retórica hostil contra Israel, chegando a defender sua destruição. Nesse contexto, Erdoğan insinuou que o Líbano faz parte de sua área de interesse estratégico. “A segurança da Turquia não começa em suas fronteiras, mas em Aleppo, Damasco e Beirute”, afirmou, deixando claro que pretende conter o expansionismo israelense no Líbano.

São declarações de grande peso diante da atual conjuntura geopolítica, ainda que, por enquanto, permaneçam essencialmente no plano retórico. Após a cúpula da OTAN, o ministro das Relações Exteriores da Turquia, Hakan Fidan, afirmou, no entanto, que uma guerra aberta com Israel não era desejável, sugerindo a influência de um esforço de moderação por parte dos Estados Unidos.

O governo libanês iniciou uma aproximação com Ancara por meio de diversas visitas de primeiros-ministros, sendo a mais recente a de Nawaf Salam, há poucos dias. O presidente Joseph Aoun também deveria viajar a Ancara para consolidar essa política de abertura. No entanto, os vínculos estratégicos entre os dois países ainda permanecem abaixo do nível necessário e precisam ser fortalecidos. A visita do general Rodolphe Haykal à feira de defesa SAHA, em Istambul (5 a 7 de maio de 2026), teve como objetivo explorar um possível apoio logístico turco ao Exército libanês. Uma cooperação concreta entre as duas forças armadas dependerá, contudo, da aprovação dos Estados Unidos e da capacidade do Exército libanês de proteger a fronteira com a Síria. A Turquia pode contribuir para conter a instabilidade proveniente da Síria e um eventual ressurgimento do Daesh, um inimigo que Ancara monitora de perto.

As relações entre Líbano e Síria sob a sombra da Turquia

Em termos absolutos, Beirute tem interesse em fortalecer seus vínculos com Damasco, aproveitando o novo regime sírio para construir uma relação de confiança mútua, apesar das tensões relacionadas à presença, no Líbano, de antigos integrantes do regime Assad, além das disputas envolvendo o Hezbollah na Síria. O Líbano também tem interesse em contribuir para uma arquitetura regional de segurança compartilhada entre Ancara, Damasco e Beirute, baseada em garantias recíprocas e na preservação da autonomia política libanesa.

Nesse contexto, fontes diplomáticas afirmam que o Líbano esteve no centro das prioridades durante o encontro entre o presidente Donald Trump e Ahmad al Chareh, à margem da cúpula da OTAN em Ancara. Os dois presidentes manifestaram preocupação com as rotas clandestinas de abastecimento do Hezbollah que passam pela Turquia e pela Síria em direção ao Líbano e concordaram com a necessidade de intensificar a coordenação sobre esse tema ao longo da fronteira entre o Líbano e a Síria.

A multiplicidade dos eixos regionais e internacionais

A segurança do Líbano agora é negociada tanto em Ancara quanto em Washington, Tel Aviv, Riad, Paris, Damasco e Teerã. Diante desse cenário, o país precisará agir com pragmatismo. Isso exige uma estratégia nacional coerente nas áreas de segurança, defesa, economia e política externa, algo que ainda não se percebe de forma concreta.

Essa estratégia está sendo elaborada no Conselho de Ministros? No Conselho Superior de Defesa? Nos bastidores do palácio presidencial? Está confiada a especialistas, especialistas de verdade? Ou simplesmente não existe? Se vier a ser formulada, deverá:

1) preservar a soberania nacional, para evitar que o Líbano se transforme em uma simples peça da rivalidade entre Teerã e Tel Aviv e entre Ancara e Tel Aviv;

2) possuir um mínimo de credibilidade, para não perder o apoio de Washington;

3) considerar o crescente papel da Europa no Oriente Médio; e

4) evitar um retorno à esfera de influência iraniana.

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