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Ficamos mais burros?

Ou estamos vivendo uma transformação na estrutura do conhecimento?
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Por Mona Fayad
Publicado em set 5, 2026 - 20:01
A pergunta «O mundo ficou mais burro?» reaparece com frequência nos debates contemporâneos sobre mídia digital, mecanismos de busca e redes sociais. À primeira vista, parece uma pergunta simples, mas esconde uma questão muito mais profunda, ligada à própria natureza do conhecimento: como ele é produzido, como é transmitido e como é consumido. Talvez a pergunta «Ficamos mais burros?» não seja a mais precisa. Talvez devêssemos perguntar: o conhecimento ainda é transmitido de uma maneira que permita compreendê-lo e torná-lo produtivo? A maioria dos leitores ainda recorre aos textos originais? Ou se limita aos seus resumos e ao que é dito a respeito deles por meio daquilo que circula entre os leitores? Uma das chaves para compreender esse fenômeno encontra-se nos trabalhos do psicólogo britânico Frederic Bartlett, que realizou, na década de 1930, uma série de experiências sobre aquilo que chamou de «reprodução serial». Nessas experiências, uma pessoa ouvia uma história e depois precisava contá-la a outra, que por sua vez a contava a uma terceira, e assim por diante. Os resultados foram impressionantes: a cada nova transmissão, a história não era reproduzida exatamente como havia sido contada, mas reformulada. Alguns detalhes desapareciam, outros eram ampliados e outros ainda eram substituídos por elementos mais compatíveis com o contexto, as experiências e a cultura do receptor. Depois de passar por um número suficiente de intermediários, a história original já havia se transformado em algo inteiramente diferente. Esse modelo simples revela uma verdade fundamental: a memória não é um recipiente neutro, mas um mecanismo de reconstrução. E, quando o conhecimento passa por múltiplos intermediários, ele não é «preservado», mas «reproduzido». É aqui que começam a aparecer as semelhanças com o nosso mundo contemporâneo e o receio de que estejamos ficando mais burros. Na era da mídia digital, o conhecimento já não circula por meio da transmissão oral, mas através de cadeias de mediação: um artigo é resumido, depois citado, em seguida republicado sob a forma de uma postagem curta e, por fim, reduzido mais uma vez a uma frase ou a um título. Nesse contexto, podemos retomar uma imagem metafórica usada em um texto jornalístico: uma biblioteca cujos livros são substituídos por resumos, e depois por resumos dos resumos, até que o leitor se veja diante de sucessivas camadas de redução. Algo semelhante ao que poderíamos chamar de «cadeia do guaxinim», que não lê o original, mas remexe em seus restos. Vale esclarecer que a escolha do «guaxinim» não é aleatória. Essa metáfora condensa simbolicamente uma condição cognitiva que vem se consolidando. Esse animal, que vive nas margens das cidades e remexe em latas de lixo, não produz seu alimento, mas se nutre dos restos daquilo que outros produziram. Apesar de sua inteligência prática e de sua capacidade de desmontar, recolher e aproveitar objetos, ele não compreende verdadeiramente aquilo que tem diante de si, mas lida com as coisas como materiais disponíveis para uso imediato. É assim que o conhecimento passa a se apresentar na era da redução serial: textos são resumidos e depois novamente resumidos, até que deles reste apenas um punhado de fragmentos de sentido, reorganizados e postos novamente em circulação sem qualquer vínculo verdadeiro com sua fonte. Nesse ponto, não apenas nos afastamos do original, mas entramos em uma nova etapa da produção da informação ou do conhecimento, na qual o agente cognitivo deixa de ser um leitor ou pensador para se tornar um coletor de restos de significado, que os redistribui em formatos destinados ao consumo rápido. A «cultura do guaxinim», portanto, não é apenas uma descrição da superficialidade. É também uma caracterização precisa da degradação da própria cadeia do conhecimento: da criação ao resumo, da compreensão ao processamento formal, das ideias a algo que já não passa de um vestígio apagado delas. Mas esse fenômeno não pode ser compreendido separadamente da estrutura tecnológica que o governa. É aqui que entra Marshall McLuhan, que sintetizou seu pensamento na célebre frase: «O meio é a mensagem». O problema não está apenas no conteúdo, mas também na forma através da qual esse conteúdo é transmitido. A mídia digital contemporânea não se limita a transportar informações, mas as remodela segundo a lógica da velocidade, da condensação e da fragmentação. O texto longo torna-se inadequado para o consumo, enquanto uma ideia só parece aceitável se puder ser reduzida a poucas linhas facilmente compartilháveis. Essa transformação produz um paradoxo marcante: vivemos numa época em que o acesso ao conhecimento deixou de ser difícil e se tornou excessivamente fácil. E, com essa facilidade excessiva, surge aquilo que poderíamos chamar de «ilusão cognitiva»: basta ler um pequeno trecho ou um resumo rápido para que a pessoa tenha a sensação de ter assimilado uma ideia. Mas essa sensação de domínio não é necessariamente acompanhada por uma compreensão profunda nem pela capacidade de reconstruir ou criticar o conhecimento. É aqui que aparecem os que poderíamos chamar de «semiletrados»: indivíduos que possuem os sinais do conhecimento, mas não sua estrutura; seu vocabulário, mas não sua lógica interna. O problema se torna ainda mais complexo quando o observamos sob o ângulo da atenção. Em vez de permanecer em um estado prolongado de concentração, como acontece na leitura tradicional ou na reflexão demorada, a mente passou a viver sob um bombardeio contínuo de informações: notificações, vídeos, manchetes e ondas sucessivas de conteúdo. Essa situação não apenas dispersa a atenção, mas a reconfigura segundo uma lógica de saltos constantes entre pequenas unidades de significado, em vez de permitir a construção gradual e cumulativa de uma ideia. Lembro aqui de uma anedota que costumávamos contar e que circulava muito na época das manifestações populares. Ela ilustra bem a ideia da redução e da transformação do conteúdo. Depois da ocupação da Palestina, muitas manifestações populares tomaram as ruas gritando «Abaixo a Declaração Balfour!». A brincadeira dizia que, no fim da manifestação, o slogan havia se transformado, em árabe, em «Que alguém caia lá de cima!», uma frase inteiramente diferente que preservava algo do ritmo e da sonoridade da original. Talvez essa imagem nos ajude a compreender melhor o que acontece na linguagem cotidiana quando o conhecimento se transforma em mensagens curtas repetidas coletivamente. A manifestação começa com uma fórmula política precisa. Mas, com a repetição, a imersão coletiva e o ritmo sonoro, ela vai se transformando pouco a pouco em outra fórmula, completamente diferente. Esta pode conservar o ritmo e a carga emocional da primeira, mas perde seu significado e seu sentido original. O que permanece não é o sentido, mas a energia emocional da frase. Aqui se manifesta, de outra maneira, aquilo que Bartlett havia observado: não importa apenas o que foi dito, mas como aquilo foi repetido e como voltou a ser compreendido dentro de um contexto social em transformação. Se reunirmos todos esses fios, podemos dizer que aquilo que vivemos hoje não é propriamente um «colapso da inteligência», mas uma transformação das condições em que ela opera. A mente humana não mudou radicalmente, mas o ambiente em que funciona se transformou profundamente: passamos de um ambiente que permitia a acumulação lenta para outro que impõe a reprodução rápida e fragmentada do conhecimento. Essa mudança cria uma tensão permanente entre duas formas de pensamento: um pensamento reflexivo, que precisa de tempo, e um pensamento rápido, que exige resposta imediata. Sob essa perspectiva, a pergunta «Ficamos mais burros?» torna-se parcialmente enganosa. Talvez seja mais preciso dizer que estamos cada vez mais expostos a condições que tornam o pensamento profundo menos estável, ou menos possível, e o conhecimento mais vulnerável à fragmentação e à reciclagem. Quanto à burrice, se podemos usar o termo, talvez ela não seja uma propriedade da mente, mas um efeito colateral e uma característica da estrutura cultural que se formou. Trata-se de uma tecnologia que está remodelando nossa relação com o mundo. Assim, em vez de enxergar esse fenômeno como um declínio das capacidades humanas, podemos compreendê-lo como uma transformação do «ambiente do conhecimento»: um ambiente em que se tornou fácil saber alguma coisa, mas mais difícil compreendê-la de fato e em profundidade.
Opinião
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Por Youssef Mouawad - Publicado em set 5, 2026 - 13:25
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Em 2010, Israel interceptou com violência o Mavi Marmara, um navio turco fretado por uma ONG humanitária para socorrer a Faixa de Gaza, então sob bloqueio israelita. Esse incidente, a gota de água, fará vir à tona a animosidade entre o governo de Erdogan e o Estado hebraico. (AFP)
A guerra ainda não parou no nosso sul e já corre o risco de eclodir junto aos nossos vizinhos. Ou seja, vivemos a prazo, de conflito em conflito. E com razão! Por pouco o bombardeamento de uma base síria não descambou numa batalha campal entre Ancara e Telavive. Foi a 18 de agosto passado, e Benjamin Netanyahu não foi com meias palavras: o seu país não iria tolerar uma implantação militar turca suscetível de avançar para o sul da Síria. A mensagem foi tanto mais brutal quanto oito ataques tinham visado a base aérea de Abu al-Duhur, situada a 70 quilómetros da fronteira turca. Recorde-se, aliás, que desde a queda de Bashar al-Assad em dezembro de 2024, Erdogan é o principal mentor da nova Síria, a de Ahmed al-Charaa, ajudando-a a reconstruir as suas forças armadas e transformando-a num parceiro estratégico. Já não é a Síria de Hafez al-Assad Terá sido este novo pico de tensão entre Ancara e Telavive que precipitou a reunião entre o chefe da diplomacia síria, Assaad Chaïbani, e o diretor do Mossad, Roman Gofman, a 23 de agosto passado, na Jordânia? Ora, esse encontro discreto não provocou uma onda de indignação no mundo árabe, como aconteceu com a visita imprevista de Anwar al-Sadat a Israel em 1977. Um tabu foi oficialmente quebrado e, de facto, quem poderia ter acreditado que tal concertação seria possível sob o regime baathista? O Estado hebraico deveria ter-se congratulado, mas, ao contrário do que se esperava, não interrompeu nem os seus ataques aéreos nem as suas incursões territoriais, como a de 27 de agosto em Quneitra. É que as coisas mudaram. Sob Hafez al-Assad, a Síria era uma potência regional que, sem ser temível, era temida pelos seus vizinhos imediatos, fossem eles países árabes ou não. Evitava-se procurar confronto com ela e, por isso, o país conduzia, dentro de certos limites, uma política externa agressiva que resvalava muitas vezes para a provocação. E assim, em virtude da autonomia da sua ação e da margem de manobra que se concedia, tinha constituído, nem que fosse apenas geograficamente, uma zona-tampão entre, por um lado, uma Turquia "erdoganesca", que exibia o seu islamismo assumido, e, por outro, um Israel, o Estado consubstancialmente judeu. Ora, eis que, num país esgotado por uma gestão baathista e devastado por anos de guerra civil, a Turquia, ao começar a marcar posições, vai inevitavelmente encontrar-se frente a frente com um Israel que ocupa uma parte do território sírio. O que esperar? Tendo em conta o ego desmedido tanto de Netanyahu como de Erdogan, e no caso de estes dois chefes de Estado permanecerem nos seus respetivos cargos, devemos esperar um duelo épico em território sírio, libanês, jordano, ou até noutros locais. Este combate será feito de fintas, de esquivas, de golpes baixos, mas também de ataques frontais, de corpo a corpo e de escaladas de tensão até ao ponto de rutura. E isto mesmo que o relatório doCongressional Research Servicede setembro de 2025 considere pouco provável um confronto direto entre a Turquia e Israel, precisamente porque ambos os Estados conhecem o custo de uma guerra, caso esta viesse a eclodir. No entanto, no domínio da polemologia, os dirigentes e outras elites não são necessariamente atores racionais! Tanto mais que, aos olhos dos observadores israelitas, o slogan que impera na Anatólia, a saber, «Make Turkey great again», não é de molde a tranquilizar o Estado sionista. Washington terá cada vez mais dificuldade em conter ou separar os dois adversários que já se posicionam em ordem de batalha. A Turquia, um novo Irão? Sim, é uma hipótese, mas apenas num confronto direto com Israel, tendo a Síria se tornado da noite para o dia uma zona onde «se sobrepõem dois perímetros de segurança», o turco e o israelita, o muçulmano e o judeu. E não se pode excluir que o militantismo xiita, esse mobilizador de «proxies», acabe por se aliar, ainda que momentaneamente, a uma «versão irmãos-muçulmana» do islamismo político defendido por Ancara! Teríamos assim, contra todas as expectativas, um Hezbollah apoiado pelo seu inimigo de ontem, Ahmed al-Charaa, um islamista vindo da Jabhat al-Nusra e da Hayat Tahrir al-Cham! Contra o adversário comum, uma inversão de alianças é sempre legítima e oportuna. Mas isso não passaria de uma aliança tática, ditada pelas necessidades do momento, sem qualquer garantia quanto ao futuro. Tendo o nacionalismo árabe sido posto de lado, a Turquia não se vai contentar em conquistar economicamente o mercado sírio, com os seus 25 milhões de consumidores: vai querer exercer influência política em Damasco, mobilizando para isso o seu aparelho militar e de segurança. O poder instável do presidente sírio, incapaz de assegurar certas funções soberanas nem de enquadrar os diversos corpos do Estado, terá necessariamente de recorrer à experiência do seu vizinho do norte. Será, no entanto, de acreditar que este último vai ser arrastado pela espiral de uma «beligerância anunciada»? Tudo aponta nesse sentido, e já se podem perceber os primeiros sinais de um envolvimento que lembra o dos Estados Unidos no Vietname sob Lyndon Johnson. Pois, se o Estado sírio pretende reconstituir-se, precisará antes de mais de um exército capaz de conter as tendências centrífugas dos alauitas, dos drusos e de outras facções que apelam à fragmentação do país. Ora, cabe a Ancara garantir isso e reforçar a autoridade central sediada em Damasco. Mas Israel, que adquiriu maus hábitos na Síria e pretende manter aí liberdade de ação aérea, não pode aceitar um exército estruturado segundo o modelo da NATO e que possa servir de proxy a um projeto neo-otomano. E o Líbano, da primazia à secundarização? Está agora montado um novo cenário para um novo guião que definirá novas regras do jogo! O que será feito do Hezbollah, apanhado numa ratoeira? Bem, poderia beneficiar, neste cenário, ainda que apenas em parte, do apoio logístico de Damasco, apoio que lhe fez gravemente falta desde a queda de Bachar al-Assad. E talvez que, com um deslocamento das placas tectónicas, o Líbano passasse do estatuto de palco inicial ao de palco secundário de um conflito regional. Mas, para ser sincero, isso de pouco nos vai valer!
O Essencial do Dia
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Por LevantTime . - Publicado em set 5, 2026 - 00:55
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O comboio do CICV que transportava os civis libertados, partindo da zona ocupada por Israel no sul do Líbano, seguiu até o ponto que marca o início da área controlada pelas autoridades libanesas. (AFP)
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) anunciou nesta sexta-feira que transferiu para o Líbano outras quatro pessoas libertadas por Israel, um dia após a libertação de um primeiro civil. Segundo o CICV, trata-se de três libaneses e dois sírios. É a primeira vez que uma operação desse tipo ocorre desde o início, em abril, das negociações entre o Líbano e Israel, sob mediação dos Estados Unidos. Beirute havia solicitado, durante a última rodada de negociações, em agosto, a libertação de um primeiro grupo de cidadãos libaneses capturados por Israel no sul do Líbano, onde trava uma guerra contra o Hezbollah, aliado do Irã. Familiares estimam que cerca de 30 pessoas estejam detidas, entre elas combatentes do movimento islâmico. O presidente libanês, Joseph Aoun, agradeceu em comunicado aos Estados Unidos e ao CICV e afirmou que essa libertação «confirma o acerto da posição» do Líbano, que participa de negociações com Israel rejeitadas pelo Hezbollah. Os Estados Unidos elogiaram na quinta-feira «o governo de Israel e o governo do Líbano por demonstrarem boa-fé por meio desses primeiros passos», expressando a esperança de que isso sirva «de base para discussões mais amplas sobre outras questões civis». Os dois países devem realizar uma nova rodada de negociações em setembro, em uma data ainda não definida. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira «ocorre após os esforços realizados por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os restos mortais de líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano» entre 1984 e 1986. Israel intensifica seus ataques No terreno, ataques israelenses deixaram três mortos e 23 feridos nesta sexta-feira no sul e no leste do Líbano, segundo um veículo de imprensa estatal. Israel intensificou nesta sexta-feira seus ataques na região, depois de anunciar, na noite de quinta-feira, que havia assumido o controle da crista montanhosa de Ali Taher, que servia como posição estratégica para o Hezbollah, aliado do Irã, e domina, entre outras áreas, a cidade de Nabatiye. O Exército agora reforçará suas posições na região para «impedir que o inimigo volte a se posicionar na área», declarou o ministro da Defesa israelense, Israel Katz. Outro ataque também atingiu a região de Tiro, especialmente a localidade de Rmadiye, segundo a Agência Nacional de Notícias (ANI). Para Trump, a guerra no Irã é «coisa pequena» Sobre a guerra no Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tentou nesta sexta-feira minimizar seu impacto para o país, às vésperas das cruciais eleições legislativas de meio de mandato. «Muita gente não chama isso de guerra. Eu digo que é um conflito militar, porque para nós é coisa pequena (“small potatoes”). Não é nada demais. Fizemos a Venezuela e fizemos isso», respondeu a jornalistas no Salão Oval, ao ser questionado sobre seu vice-presidente, JD Vance, que no dia anterior havia dito não querer descrever o conflito como uma guerra. Enquanto a forte alta dos preços dos combustíveis ligada à guerra ameaça custar aos republicanos de Donald Trump sua maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato de novembro, sua administração tenta minimizar a dimensão do conflito. Segundo o presidente, os Estados Unidos realizam «ataques pontuais» e «não estão atualmente combatendo». Trump também afirmou que os Estados Unidos controlam o estreito de Ormuz e que dizimaram as Forças Armadas iranianas. «O que conseguimos foi extraordinário. Assumimos o controle da Venezuela e, essencialmente, assumimos o controle do Irã», declarou.
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Mohammed VI deixa os números falarem
Por
Khairallah Khairallah
Publicado

Há sucessos que geram outros sucessos. O Marrocos vem demonstrando isso desde a ascensão de Mohammed VI ao trono, há vinte e sete anos. A primeira dessas conquistas continua sendo a consolidação da marroquinidade do Saara, à qual se somaram grandes projetos que hoje são uma realidade. Entre eles destacam-se a transformação do porto de Dakhla em uma das principais portas atlânticas da África, o gasoduto africano que ligará a Nigéria ao Marrocos e a rodovia de mais de mil quilômetros que conecta Tiznit a Dakhla e que hoje leva o nome de Donald Trump. O soberano marroquino dificilmente precisaria insistir nesses resultados em seu discurso por ocasião da Festa do Trono, sobretudo após a adoção da Resolução 2797 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, em 31 de outubro de 2025. A resolução marcou um ponto de inflexão ao reconhecer explicitamente a marroquinidade do Saara e confirmar que a única solução realista continua sendo a defendida por Rabat desde 2007: uma ampla autonomia para as províncias saarianas no âmbito da soberania marroquina. Mohammed VI preferiu deixar que os números falassem por si. Ainda assim, fez questão de lembrar àqueles dispostos a ouvir que os avanços do Reino repousam sobre bases sólidas, porque o Marrocos é, segundo suas próprias palavras, “um Estado-nação antigo”. Como afirmou: “O Marrocos é um Estado antigo que extrai sua força de tradições profundamente enraizadas como Estado-nação. Suas instituições cumprem plenamente seu papel em um ambiente de harmonia e complementaridade. É isso que confere ao Estado a eficácia necessária para dar continuidade às suas realizações e enfrentar os desafios apesar das dificuldades e limitações. O Marrocos demonstrou isso por meio da organização exemplar de grandes eventos continentais e internacionais, conquistando admiração e reconhecimento em todo o mundo e despertando, às vezes, a inveja de alguns.” É natural que o Marrocos desperte “a inveja de alguns”. Os avanços alcançados transformaram o Reino em um fator de estabilidade em uma região que necessita de um ambiente completamente diferente para promover o desenvolvimento e a integração, longe dos slogans, das promessas vazias, das ilusões e da exploração dos povos e de seu futuro. Por ocasião do vigésimo sétimo aniversário de sua ascensão ao trono, Mohammed VI tinha todas as razões para olhar para o futuro com confiança. Seu discurso voltou-se para o futuro promissor do Marrocos, um futuro que já não se apoia apenas em aspirações, mas em conquistas concretas firmemente ancoradas na realidade. Esses resultados são fruto, destacou ele, “da segurança, da estabilidade e da eficácia das instituições”. Disso decorre “a multiplicação dos indicadores positivos em todos os setores, fortalecendo a dinâmica do crescimento econômico e consolidando a soberania nacional”. Retomando a linguagem dos números, ou seja, dos fatos concretos e verificáveis, o soberano marroquino destacou que “a taxa de crescimento atingiu cerca de 4,9% em 2025 e deverá manter-se nesse patamar, ou até mesmo superá-lo, em 2026”. Ele observou ainda que, “no setor agrícola, o Marrocos foi beneficiado por chuvas abundantes e por uma excelente safra, o que contribuiu para fortalecer a segurança hídrica e alimentar”. Ao mesmo tempo, o Reino consolidou sua posição como polo de investimentos industriais, turísticos e financeiros, como demonstram a melhora contínua de seus indicadores, especialmente no setor industrial. As indústrias automobilística e aeronáutica, as energias renováveis e a indústria de alimentos constituem hoje a espinha dorsal do aparato produtivo marroquino. Elas desempenham um papel decisivo tanto na atração de investimentos estrangeiros quanto na geração de riqueza e de empregos. O Marrocos é hoje o maior exportador de automóveis da África, com uma capacidade de produção próxima de um milhão de veículos por ano. As exportações dos setores automobilístico e aeronáutico representam atualmente mais de 40% das exportações totais do Reino, superando inclusive as de fosfato. Como parte dessa mesma estratégia, Mohammed VI lembrou ter presidido, no início deste ano, a inauguração de novas unidades industriais que permitiram ao Marrocos ingressar no seleto grupo de países que contam com grandes centros de produção de motores aeronáuticos e sistemas de trem de pouso. O desenvolvimento de uma indústria integrada de baterias elétricas também reflete a capacidade do Reino de antecipar as transformações tecnológicas e integrar-se às cadeias globais de produção das indústrias estratégicas. Com esse mesmo espírito de inovação e modernização, o Marrocos segue desenvolvendo grandes projetos destinados a transformar as energias renováveis em um dos pilares de sua segurança energética e em um poderoso fator de atração para indústrias que buscam energia competitiva e de baixo carbono. Como parte dessa estratégia ambiciosa, o Reino iniciou a implementação de seu programa de hidrogênio verde, autorizando uma primeira série de grandes projetos. Tudo isso representa apenas uma pequena parte do que o Marrocos conquistou, em um país que hoje recebe vinte milhões de turistas por ano. O discurso proferido este ano por Mohammed VI por ocasião da Festa do Trono foi uma mensagem dirigida a todos: aos que querem compreender e aos que se recusam a fazê-lo. Sua ideia central é clara: o Marrocos tem uma visão e aposta em seu povo. Confia na capacidade dos marroquinos de continuar impulsionando o desenvolvimento do país e de colocá-lo entre as nações capazes de desempenhar um papel construtivo tanto no plano regional quanto no internacional, longe dos confrontos ideológicos, das ilusões e das estéreis disputas retóricas que não oferecem qualquer horizonte político, econômico ou civilizacional. No fundo, a mensagem é simples: o Marrocos compreendeu plenamente que o mundo mudou. Mudou de forma ainda mais profunda do que muitos imaginavam há menos de cinco anos, primeiro com o início da guerra entre a Rússia e a Ucrânia e, depois, com a onda de violência desencadeada pelos ataques de 7 de outubro de 2023 e pela guerra que mergulhou o Oriente Médio em um novo ciclo de conflitos. O mundo mudou, e o Marrocos está determinado a assegurar seu lugar entre os países que estão redesenhando as cadeias globais de abastecimento, diversificando sua produção e conectando suas capacidades nacionais à economia mundial. Para isso, o Reino apoia-se em suas infraestruturas, em seus recursos naturais, na qualidade de sua diplomacia e de sua ação política, bem como na preservação de uma estabilidade que hoje constitui um de seus maiores trunfos, tanto no plano nacional quanto no regional.

Os Pasdaran ampliam o alcance de sua capacidade de causar danos

Dia após dia, a ala radical do regime iraniano – pelo menos, como a classificam certos meios ocidentais – empenha-se em demonstrar a sua capacidade de estender progressivamente a sua influência desestabilizadora a novas zonas do Médio Oriente. Na sequência da reativação da sua milícia iemenita, os Houthis, com o objetivo de tomar como reféns o estreito de Bab el-Mandeb e a correspondente rota marítima do Mar Vermelho (após o estreito de Ormuz), os Guardas da Revolução quiseram mostrar que têm «braço longo» no que diz respeito ao alcance dos seus mísseis. Assim, atacaram com um drone carregado de explosivos o porto de Damieta, no Egito, atingindo dois navios – um deles americano – de armazenamento de gás. Um incêndio deflagrou nos dois navios. O governo egípcio responsabilizou o Irão por este ataque, que foi veementemente condenado pelo secretário-geral da Liga Árabe, que o classificou como uma agressão «inaceitável» contra o Cairo. Paralelamente, os Guardas da Revolução lançaram cinco mísseis contra a Jordânia – agressão fortemente condenada pelo Qatar – e atacaram mais uma vez o Kuwait, onde o edifício de uma empresa chinesa foi atingido em cheio e gravemente danificado pela explosão, que causou a morte de um trabalhador. Em reação, a China apelou aos protagonistas para que pusessem fim imediato à escalada militar. Sinal da extensão do conflito a novos atores: o Ministério da Defesa saudita organizou em Riade uma reunião alargada que reuniu os chefes de Estado-Maior (ou os seus representantes) de 43 países. O objetivo desta cimeira era dar o pontapé de saída para a criação de uma vasta «aliança marítima de Defesa». O ministério saudita indicou tratar-se de uma iniciativa internacional destinada a garantir a segurança e a liberdade de navegação nas rotas marítimas. Importa recordar neste contexto que a aviação saudita, em colaboração com as forças aéreas americanas, realizou no início desta semana ataques aéreos contra posições dos Houthis, no Iémen, em represália pelos lançamentos de mísseis (frustrados) que a milícia iemenita pró-iraniana tentara efetuar contra as instalações sauditas da Aramco. Note-se a este respeito que, segundo fontes citadas pelo canal em língua árabe al-Hadath , foi a partir do território iraquiano, e com a cumplicidade de milícias iraquianas pró-iranianas, que os Houthis lançaram os mísseis em direção ao território saudita. É a primeira vez, desde o início deste conflito, que o exército saudita se envolve diretamente em operações militares contra os aliados do Irão. No início do mês de julho, o Kuwait e o Barém tinham bombardeado posições no Irão, com o apoio e a cobertura aérea assegurados pelos Emirados Árabes Unidos, o que constituiu o primeiro indício de uma participação ativa dos países do Golfo na guerra contra o Irão. Esta tendência dos Guardas da Revolução para querer estender ao máximo o conflito armado a novas zonas do Médio Oriente levou o presidente Donald Trump a dar, na noite de quarta para quinta-feira, luz verde a uma nova vaga de ataques aéreos contra posições, infraestruturas e depósitos de munições dos Guardas da Revolução em várias regiões iranianas. O comando central americano anunciou na quinta-feira que «dezenas de posições dos Guardas da Revolução foram atingidas com sucesso durante esses ataques». Segundo informações provenientes de Israel, Washington teria informado na noite de quinta-feira as autoridades israelitas de que novos bombardeamentos aéreos massivos contra os quartéis-generais e os centros dos Guardas da Revolução deveriam ser lançados na noite de quinta-feira. O único ponto positivo neste sombrio panorama regional: o anúncio, na quinta-feira, de um acordo, chancelado pelo Hamas, com o objetivo de entregar as armas pesadas a um comitê internacional que ficará responsável por recolher e armazenar o armamento do Hamas, em conformidade com o processo de solução para Gaza elaborado pelo presidente Trump. Aoun em Ancara É neste contexto regional em plena transformação que o presidente Joseph Aoun realizou, na quinta-feira, uma visita relâmpago a Ancara, onde se reuniu com o presidente Recep Tayyip Erdogan. Este aproveitou a ocasião para destacar que seu país está disposto a contribuir para o fortalecimento da segurança no Líbano. O chefe de Estado regressou a Beirute na noite de quinta-feira, e a presidência da República informou, em comunicado, que a cooperação entre os dois países incidirá, nomeadamente, no apoio ao exército, no fornecimento de casas pré-fabricadas para os deslocados do Sul, bem como em auxílio nas áreas de energia elétrica, transporte aéreo e desenvolvimento das infraestruturas básicas. O presidente Aoun endereçou ao presidente Erdogan um convite para visitar o Líbano.

 Françoise Péricaud-Duval: Quando a elegância é guiada pela caridade

Há noites que o tempo apaga. E depois há aquelas que simplesmente aguardam que uma vontade lhes devolva a vida. Em 1967, sob o alto patrocínio da princesa Grace do Mónaco, o baile da Ordem de Malta realizou-se em Paris, imbuído de uma elegância discreta que caracteriza as grandes obras de beneficência, expressando um refinamento que só encontra a sua verdadeira razão de ser na causa que serve. Os anos foram passando, e este prestigioso encontro foi gradualmente desaparecendo do panorama parisiense. Quase sessenta anos depois, o baile renasce no quadro excecional do Cercle de l'Union Interalliée. Sob o alto patrocínio de Sua Alteza Real a princesa Carolina de Hanôver, esta nova edição não marca apenas o regresso de uma noite mundana. Ela desperta uma memória, restabelece um elo entre gerações e recorda que ainda existem lugares onde a beleza pode tornar-se uma linguagem de solidariedade. Na origem deste renascimento, uma mulher. Uma mulher que não procura a luz, mas vela para que ela ilumine os outros. Para Françoise Péricaud-Duval, presidente do comité de organização do Baile da Ordem de Malta Paris, cada detalhe tem um sentido: não pela busca da perfeição estética, mas porque o cuidado dedicado às coisas traduz sempre o cuidado dedicado às pessoas. S.A.R. a Princesa Zita de Bourbon-Parma e S.A.S. o Príncipe Charles von Croÿ. Ela imaginou esta noite como quem compõe uma obra coletiva, com rigor, intuição, sentido do belo e fidelidade absoluta ao espírito da Ordem. Por trás dos arranjos florais, das mesas postas, dos mecenas, dos leilões, das conversas e das primeiras notas do baile, permanece o essencial: permitir que a 68.ª peregrinação a Lourdes prossiga o seu compromisso junto das pessoas mais vulneráveis. Uma convicção que Françoise Péricaud-Duval expressa com uma simplicidade quase evidente: quando a elegância é guiada pela caridade, a aparência apaga-se em favor do serviço. Fazer renascer uma história «Certas tradições não regressam porque pertencem ao passado. Regressam porque ainda têm algo a transmitir ao presente.» Levant Time - Este baile não era organizado em Paris desde 1967. Quando este projeto lhe foi confiado, sentiu primeiro o peso dessa história ou a liberdade de escrever uma nova página? Françoise Péricaud-Duval - Senti as duas coisas. O peso da história, em primeiro lugar, porque a Ordem de Malta existe há mais de novecentos anos. Está ativa em quase cento e trinta países e tem uma presença muito forte em França, onde somos milhares de voluntários. É extraordinário fazer parte desta grande cadeia de caridade, amor, fé e entrega aos mais frágeis. Mas também tinha consciência de estar diante de uma página em branco. Já tinha organizado eventos quando vivia em Londres, mas, desta vez, partia do zero. Tudo estava por construir. A missão era considerável. Creio, no entanto, que fui sustentada pela minha fé. Quando aceitei, ainda não tinha medido todo o caminho que seria necessário percorrer. A ideia de fazer reviver esta tradição em França, que é o meu país e que amo profundamente, comoveu-me muito. O facto de o seu Presidente, Olivier de La Chapelle, me confiar esta responsabilidade também me tocou. Monsieur Stéphane Bern, Madame Françoise Péricaud-Duval e a baronesa Olivier de La Chapelle. Madame Françoise Péricaud-Duval e S.A.R. o Príncipe Charles-Louis d'Orléans, Duque de Chartres. S.A.R. o Bailio-Príncipe Louis de Bourbon, Duque de Anjou. L. T. - Ao descobrir os arquivos da última edição, colocada sob o alto patrocínio da princesa Grace do Mónaco, o que a tocou ou inspirou mais? Françoise Péricaud-Duval - Tivemos a sorte de encontrar uma fotografia do último Baile da Ordem de Malta em Paris, realizado a 11 de abril de 1967. O nosso baile aconteceu a 11 de abril de 2026, dia por dia, cinquenta e nove anos depois. Esta fotografia retratava o príncipe Guy de Polignac, que presidia então à Ordem de Malta em França, ao lado da princesa Grace do Mónaco. Sou muito próxima de Diane de Polignac e do seu irmão Ludovic, sobrinha e sobrinho do príncipe Guy de Polignac, respetivamente. Diane sempre me disse que, se eu retomasse uma atividade ao serviço da Ordem de Malta em França, gostaria de estar envolvida. Nessa altura, eu não sabia que o tio deles havia presidido ao último baile. Andreas Oetker, o senhor Alfred Oetker e a sua esposa a princesa Elvira Grimaldi, Maximilian Terberger. A princesa Diane de Polignac, Charles Noël de Cacqueray, Alejandra Pourpel, Françoise Péricaud-Duval, o barão Olivier de La Chapelle, Marie-Gabrielle de La Chapelle, Armand de Vial, Diane de Noailles de Mouchy de Poix e Paola Obligi. Sua Excelência o barão Olivier de La Chapelle, Presidente da Associação Francesa dos membros da Ordem Soberana de Malta, S.A.R. a Princesa de Hanôver, o Príncipe Ludovic de Polignac, Ariane de Chazournes e sua mãe a Princesa Diane de Polignac. A descoberta desta fotografia teve, portanto, um significado especial. Vivi-a como um piscar de olho do destino. Diane desejava sinceramente participar na organização e prestou-me um apoio extraordinário. Durante um ano e meio, trocámos mensagens quase diariamente. A presença de Diane e de Ludovic de Polignac nesta nova edição impôs-se então como algo evidente. Esta continuidade entre gerações era muito bela. L. T. - Como fazer renascer uma tradição sem simplesmente tentar reproduzir o passado? Françoise Péricaud-Duval - Acredito nas correntes de amor e nos encontros de belas almas. Quando se faz o belo e o bem, atraímos naturalmente outras pessoas. Para mim, o caminho da fé é um caminho alegre, mas não pode ser solitário. É preciso ser muitos, o maior número possível. Houve um entusiasmo genuíno durante a noite e também depois do baile. É assim que vivo a minha fé: tentando partilhá-la. LL.AA.RR. o Príncipe Carlos Luís e a Princesa Ileana de Orleães, e quatro dos seus filhos, LL.AA.RR. as Princesas Luísa, Helena, Isabel e S.A.R. o Príncipe Constantino de Orleães. S.A.R. a Princesa Antonella de Orleães-Bourbon e a sua filha, S.A.R. a Princesa Eulália de Orleães-Bourbon. S.A.R. o Príncipe Guilherme do Luxemburgo e a sua esposa S.A.R. a Princesa Sibila do Luxemburgo, rodeados de dois dos seus filhos, S.A.R. a Princesa Carlota de Nassau e S.A.R. o Príncipe Paulo Luís de Nassau. Não a vivo de forma alguma como um fardo. Estou convicta de que o belo e o bem são complementares. Deus deu-nos um mundo maravilhoso. Fico fascinada pela fauna, pela flora, pela complexidade e pela perfeição do mais simples dos animais ou da mais singela das flores. Por respeito por este mundo que nos foi dado, penso que nós também devemos tentar criar beleza. Ser perfeccionista e procurar a beleza não são atitudes contraditórias com a caridade. Podemos ser caritativos e fazer as coisas da melhor forma possível. Dar o melhor de nós mesmos é, aos meus olhos, um dever. A elegância ao serviço de uma missão «Na Ordem de Malta, a beleza de uma noite só faz sentido quando prolonga uma obra voltada para os outros.» L. T. - Muitos verão antes de tudo um gala. Você vê provavelmente, em primeiro lugar, uma missão. Que mensagem gostaria de transmitir a quem participou nesta noite? Françoise Péricaud-Duval - Quero antes de mais expressar-lhes um imenso reconhecimento. Começámos a trabalhar em outubro de 2024 para uma noite que teve lugar a 11 de abril de 2026. Constituí um comité de organização composto por amigos que foram todos extraordinários. O Senhor e a Senhora Bernard Ruiz-Picasso. S.A.S. a Princesa Dorothée d'Arenberg, o Duque de Crussol, S.A.S. a Princesa Aliénor d'Arenberg e S.A.S. a Princesa Theodora von und zu Liechtenstein. AA.RR. o Príncipe Charles-Emmanuel e a Princesa Constance de Bourbon-Parme, Céline de Noailles de Mouchy de Poix, S.A.R. o Bailio-Príncipe Pedro de Bourbon das Duas Sicílias, Duque da Calábria, Conde de Caserta. Durante um ano e meio, repeti uma frase que quase se tornou uma brincadeira entre nós : «One team, one dream.» Acredito profundamente nessa ideia. Todos temos os nossos pontos fracos, mas cada um contribui à sua maneira. É porque trabalhamos juntos que conseguimos ter sucesso. Um ambiente extraordinário foi criado dentro do comité. Todos demos o nosso melhor para que esta noite fosse bonita, mas também para que os convidados se divertissem. Era muito importante para mim que os jovens dançassem, rissem e passassem uma noite alegre. O maior elogio que recebi veio de vários jovens que me confidenciaram ter sido a noite mais bonita a que alguma vez tinham assistido. Alguns começaram a dançar logo no início do jantar e mal se sentaram. O apoio de Alejandra Poupel, membro do comité organizador e fundadora da Alejandra Poupel Events , da Inspiration Music & Arts e da Novelty , foi um elemento essencial para o sucesso deste baile. Os cantores, saxofonistas, percussionistas e violinistas criaram uma atmosfera extraordinária. Todos sabiam, no entanto, que participavam num baile de caridade e que a sua presença contribuía para financiar a peregrinação a Lourdes. Por isso, tentámos reunir estas duas dimensões: a consciência de servir uma causa e a alegria de passar uma noite excepcional. A alegria é, aliás, uma das coisas que mais me marcou quando fui pela primeira vez à peregrinação de Lourdes. Fiquei profundamente tocada pela alegria das pessoas doentes ou com deficiência. Nós, que tanto recebemos, devemos ser capazes de viver com essa mesma alegria. Quando se tem a sorte de ter fé, é preciso vivê-la com alegria. Foi isso que quis transmitir através deste baile. L. T. - Como encontrar o equilíbrio entre o requinte esperado de um evento desta natureza e a humildade da causa que apoia? Françoise Péricaud-Duval - Era essencial que a beleza da noite nunca fosse alcançada em detrimento das pessoas que ajudamos. Não queria que os convidados pudessem pensar que as flores, as toalhas de mesa, a loiça — gentilmente fornecidas pela casa Options- ou ainda os elementos decorativos tinham sido financiados com o dinheiro destinado à peregrinação de Lourdes. Isso exigiu um trabalho enorme, pois era preciso encontrar patrocinadores e doadores para cada rubrica, em particular para os elementos efémeros como as flores. Recusei organizar uma noite sem flores, mas recusei igualmente pagá-las com os fundos angariados para os doentes. Por isso, mantive-me firme até encontrarmos um mecenas: Daniel Féau - Belles Demeures de France. Diante de cada ramo, colocámos um pequeno cartão caligrafado a indicar que as flores tinham sido generosamente oferecidas. Tratava-se naturalmente de agradecer ao nosso mecenas, mas também de mostrar aos convidados que o dinheiro da peregrinação não tinha sido utilizado na decoração. Costumo dizer aos meus amigos que organizam o casamento dos filhos que tentei fazer algo tão bonito quanto um casamento, mas sem gastos! Estávamos ali para servir «os nossos senhores os doentes», e não para incorrer em despesas desnecessárias. As flores são apenas um exemplo. Beneficiámos de inúmeras doações para as toalhas de mesa, a loiça, as animações e os diferentes elementos da noite. O caviar e os vinhos, oferecidos pela Rova Caviar e pela Fondugues- Pradugues bem como o champanhe, fornecido com grande generosidade pela casa Pommery , foram verdadeiras delícias. É também isso que eu amo no voluntariado: os encontros maravilhosos que ele proporciona. Os patrocinadores, os doadores, o comité organizador e os jovens voluntários presentes no dia do baile formaram uma verdadeira corrente de generosidade. Graças a eles, conseguimos organizar uma noite belíssima sem perder de vista a nossa missão. Os bastidores do invisível «As noites mais belas são muitas vezes aquelas em que nunca se repara em tudo o que foi pensado com antecedência.» L. T. - Quanto tempo de preparação exigiu este renascimento? Françoise Péricaud-Duval - Cerca de um ano e meio. Começámos em outubro de 2024. Era preciso, antes de mais, encontrar um local elegante, suficientemente grande e central. Não queria de forma alguma uma sucessão de pequenas salas, pois isso teria prejudicado a atmosfera. A escolha do local era, portanto, essencial. Foi também necessário constituir o comité organizador e o comité de honra, procurar patrocinadores e doadores, organizar o leilão e a tombola, pensar na decoração de mesa, na música e nas animações. Contámos ainda com cerca de trinta jovens voluntários para ajudar no dia do baile, nomeadamente na receção dos quatrocentos e vinte convidados vindos de toda a Europa, dos Estados Unidos e da América Latina, e na organização da tombola. Aquarelistas, uma ilustradora, uma escultora de palavras, uma silhuetista e fotógrafos também animaram a noite. Todos ofereceram o seu talento. Reuníamo-nos primeiro uma vez por mês, depois semanalmente à medida que o baile se aproximava. Nas últimas semanas, as trocas com as equipas do Interallié e de Alejandra Poupel eram diárias. O seu acompanhamento na conceção e coordenação da noite foi precioso. O conde Jacques de La Guillonnière (Presidente Fundador do grupo Novelty) e a sua esposa. Trinta jovens voluntários vendiam 2000 cravos brancos aos quais estavam presos números para a tombola. Tinha também confiado a dois membros do comité com menos de trinta e cinco anos a gestão da lista dos jovens convidados. Da minha parte, tratava dos que tinham mais de trinta e cinco anos. A elaboração da lista era muito importante, pois queria que todos os convidados fossem pessoalmente conhecidos por um membro do comité organizador. Não vendemos nenhuma mesa corporativa. O baile era inteiramente privado. Esta regra contribuiu muito para a atmosfera calorosa da noite. L. T. - Que detalhe lhe exigiu mais atenção, sendo que provavelmente passou despercebido aos olhos dos convidados? Françoise Péricaud-Duval - O aspeto técnico foi provavelmente o mais complicado. Foi necessário criar e gerir os diferentes links de pagamento: para os menores de trinta e cinco anos, para os maiores de trinta e cinco anos, para os membros da Ordem e para as pessoas externas. Como o baile devia permanecer privado, era também preciso evitar que alguém pudesse transmitir livremente um link de inscrição a alguém que não conhecêssemos. Instalámos também grandes ecrãs nos quais eram exibidos um filme dedicado a Lourdes e os nomes ou imagens de todos os que tinham apoiado o evento. Era preciso agradecer aos nossos mecenas e dar-lhes visibilidade, assegurando ao mesmo tempo o perfeito funcionamento técnico. São elementos que os convidados não reparam necessariamente quando tudo corre bem, mas que exigem uma preparação enorme. L. T. - Nos instantes que antecedem a chegada dos primeiros convidados, quando tudo está finalmente no lugar, qual é a sua emoção? Françoise Péricaud-Duval - Estava nervosa. Ainda não estava emocionada. Enquanto todos os convidados não tivessem chegado e se sentado à mesa, mantinha-me apreensiva. Queria garantir que não haveria cancelamentos de última hora, dificuldades na cozinha ou qualquer problema que me escapasse. É certamente o meu lado perfeccionista. Mas tínhamos montado um cenário fotográfico deslumbrante, inteiramente florido. Quando os convidados chegavam, eram fotografados nesse ambiente. Eu os recebia ao lado de Olivier de La Chapelle, presidente da Associação Francesa dos Membros da Ordem Soberana Militar e Hospitalar de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta, e muitos amigos me pediam para posar com eles. Esses momentos foram, aos poucos, fazendo minha ansiedade desaparecer. O tempo da transmissão «Uma noite chega ao fim. Mas o que ela transmite pode atravessar os anos.» L. T. - Ver várias gerações reunidas em torno dessa noite teve alguma ressonância especial para você? Françoise Péricaud-Duval - Sim, era claramente um dos principais objetivos da noite. Acredito que essa diversidade geracional contribuiu muito para o sucesso do evento. Os pais ficaram felizes em vir com seus filhos e vê-los se divertir. Os jovens também ficaram felizes em compartilhar esse momento com seus pais. Tínhamos organizado dois salões, mas os convidados circulavam constantemente de um para o outro. Havia o salão dos jovens e o dos «jovens há mais tempo», mas as gerações se misturaram de verdade. Um dos objetivos do baile era precisamente transmitir aos mais jovens essa alegria da doação de si mesmo. Éramos cerca de quatrocentos e vinte convidados, dos quais quase cento e noventa tinham menos de trinta e cinco anos. Eu queria que jovens que conheciam pouco, ou nada, a Ordem de Malta pudessem descobri-la e, talvez, sentir vontade de se engajar depois. Estou convicta de que é na doação que se encontra a felicidade. Após o baile, vários novos participantes aderiram à peregrinação de Lourdes. É uma pequena vitória muito importante para mim: novos hospitalários decidiram servir em Lourdes depois de conhecerem o baile da Ordem Soberana Militar e Hospitalar de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta naquela noite. L. T. - Você espera que este baile se torne um encontro destinado a se inscrever de forma duradoura na vida da Ordem de Malta Paris e junto às novas gerações? Françoise Péricaud-Duval - Sim, com certeza. Uma nova edição do baile acontecerá em 2027, no mesmo local. A data ainda não está definida, mas queremos que esse encontro se consolide ao longo do tempo. Essa noite foi marcada pelo sinal da peregrinação internacional de Lourdes. Eu pensava muito nessa expressão: servir nossos senhores, os pobres e os doentes. Estar a serviço dos mais fracos é algo que me toca profundamente. Uma aventura profundamente pessoal «Certas missões transformam tanto quem as conduz quanto aqueles a quem se destinam.» L. T. - O que essa aventura lhe ensinou sobre você mesma? Françoise Péricaud-Duval - É uma pergunta difícil, pois não costumo pensar muito em mim. Acredito ter descoberto que minha força residia na capacidade de criar laços entre os voluntários, os membros do comitê de organização, os doadores, os patrocinadores e todas as pessoas que embarcaram nessa aventura. É ao mesmo tempo o que eu amo e, provavelmente, o que sei fazer. Quando se compartilha uma mesma paixão pela doação de si mesmo, pelo serviço ao próximo e pela criação de algo belo, fazemos encontros extraordinários. Percebi que sou capaz de reunir pessoas incríveis e levá-las a uma aventura comum. Toda a gratidão recebida após a noite também me alimentou. Acredito que é isso o que me move na vida. L. T. - Você parece dar grande importância à atenção dedicada aos outros. É essa disposição que guia sua maneira de organizar um evento dessa magnitude? Françoise Péricaud-Duval - Sim. É realmente o amor pelo outro que me guia. Independentemente de quem esteja diante de nós, é o amor pelo outro que permite criar um evento como este. L. T. - Se tivesse de guardar apenas uma imagem desta noite, qual escolheria? Françoise Péricaud-Duval - Guardaria a imagem dos convidados a entrarem no salão para o jantar. Chegavam após o coquetel e descobriam as mesas, os copos, as toalhas, as flores, os candelabros e o carnet de baile, que havia exigido um trabalho considerável. Em cada mesa havia um twilly de seda criado especialmente para o evento e oferecido aos convidados. Escolhemos este formato em vez de um lenço para que os homens também pudessem usá-lo, nomeadamente no bolso do casaco . Valérie LeSport , fundadora da V.L Carré de Soie, realizou generosamente estes twillys de seda, enquanto Florine Asch criou o desenho original. A ilustradora também criou, de forma voluntária, o cartão de convite, os menus e o carnet de baile. Esta colaboração conferiu ao conjunto uma identidade visual delicada e coesa. Muitos convidados ataram imediatamente o twilly no pulso ou na mala. Quando os convidados entraram na sala, descobriram os carnets de baile, os twillys, as flores e as toalhas azul-celeste a condizer com os tons pastel da decoração. Violinistas, vestidas com magníficos figurinos de tule rosa, tocavam em pequenos estrados espalhados pelo salão. Havia algo de mágico e encantado. Nunca me esquecerei do deslumbramento nos seus rostos. L. T. - Quando as luzes se apagam e os últimos convidados saem, o que fica desta aventura para Françoise Péricaud-Duval? Françoise Péricaud-Duval - Fica o sentimento do dever cumprido, uma grande felicidade e uma grande serenidade. É reconfortante pensar que demos cem por cento de nós mesmos, sem contar as horas, e que esse trabalho deu frutos: angariámos muito dinheiro para a peregrinação a Lourdes e reunimos gerações que dançaram juntas até às três da manhã. A noite tinha sido bela, calorosa e alegre. Restava apenas um pensamento muito simples: «Obrigado, meu Deus.» A palavra que sentia no final do baile era «gratificante». Dar de si de forma voluntária proporciona uma gratificação que não é financeira: vem do coração. O meu avô dizia-me sempre: «A felicidade reside em nós.» Acredito profundamente que podemos decidir ser felizes, escolhendo amar os outros, a vida e Deus. - Françoise Péricaud-Duval é também a fundadora da N85 Paris, uma agência de eventos e da arte de receber à francesa. Pode ser contactada por e-mail em n85paris@gmail.com - Créditos fotográficos: @jesus_dupaux, @Olga.gasnier e @studio_vanssay.

Iraque incapaz de recuperar seu equilíbrio
Por
Khairallah Khairallah
Publicado

Os ataques lançados a partir do território iraquiano contra a Arábia Saudita, o Kuwait e o Reino Hachemita da Jordânia revelam a fragilidade de um país que continua incapaz de recuperar seu equilíbrio. A resposta saudita, que atingiu posições das Forças de Mobilização Popular (Hashd al-Shaabi), estrutura que serve de cobertura às milícias sectárias iraquianas ligadas ao Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, confirma que a guerra na região entrou em uma nova fase. Com essa resposta, Riad deixou claro que já não está disposta a se submeter indefinidamente à chantagem iraniana. A República Islâmica utiliza agora todas as cartas de que dispõe para intensificar o confronto que trava com os Estados Unidos. É incapaz de admitir que não é uma superpotência e que precisa chegar a um entendimento com o governo de Donald Trump que lhe permita tornar-se um Estado normal, em vez de continuar agindo como uma potência hegemônica que impõe sua vontade por meio do Iraque, do Iêmen e do Líbano. A República Islâmica também tem dificuldade em reconhecer que essa escalada não lhe trará qualquer benefício. Mais do que isso, ela expõe a verdadeira realidade do Iraque: o país continua incapaz de se libertar da tutela iraniana, enquanto o governo de Ali al-Zaidi não passa, em essência, de uma continuidade da administração de Mohammed Shia’ al-Sudani. Isso apesar dos esforços que afirma empreender, entre eles a definição de um cronograma para eliminar as armas que permanecem fora do controle do Estado. Ali al-Zaidi visitou recentemente Washington. Donald Trump o cobriu de elogios durante o encontro no Salão Oval. Bastaram poucos dias, porém, para ficar evidente que a aposta da Casa Branca no primeiro-ministro iraquiano estava equivocada e que al-Zaidi simplesmente não tem condições de livrar o Iraque da influência direta do Irã. No fim das contas, é verdade que Ali al-Zaidi lançou uma campanha amplamente bem-sucedida contra a corrupção no Iraque. Também é verdade, porém, que essa campanha jamais atingiu os verdadeiros chefes do sistema, aqueles que sustentam um regime corrupto surgido em 2003, quando a administração de George W. Bush entregou o Iraque ao Irã em uma bandeja de prata. Existe uma ligação evidente entre a corrupção no Iraque e o papel desempenhado pelo Irã no país. Essa corrupção não serve apenas para financiar as milícias sectárias iraquianas ligadas ao Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica. Ela também abastece os cofres da República Islâmica e financia seus proxies em toda a região. Não basta Donald Trump afirmar que “daremos uma dura lição ao Irã e estamos considerando ataques contra seus proxies”. Declarações desse tipo não passam de retórica enquanto os Estados Unidos não assumirem uma posição clara sobre o lugar que o Iraque ocupa na equação regional. Essa posição deveria começar pelo reconhecimento, sem rodeios, de que o país continua sob tutela iraniana e representa, ao mesmo tempo, uma ameaça para seus vizinhos. O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica mantém bases na fronteira entre o Iraque e a Jordânia, bem como nas proximidades da Síria. Além disso, a maior parte dos drones lançados pelo Irã em direção ao Kuwait partiu de território iraquiano. O mais preocupante é que os ataques iranianos contra a Arábia Saudita, realizados a partir do Iraque, não apenas expuseram as limitações do governo de Ali al-Zaidi. Também demonstraram que a República Islâmica não respeita os acordos que assina com outros países. Isso inclui o acordo firmado com a Arábia Saudita em Pequim, em 2023. O Irã não apenas violou esse entendimento por meio dos Houthis no Iêmen, como também fez questão de reafirmar que o Iraque continua firmemente sob sua influência. Mais do que isso, tudo indica que a República Islâmica está disposta a utilizar o Iraque como plataforma em sua guerra contra os Estados do Conselho de Cooperação do Golfo e a Jordânia. As declarações de Donald Trump de que os ataques contra as Forças de Mobilização Popular (Hashd al-Shaabi) no Iraque, realizados em conjunto pela Arábia Saudita e pelo Comando Central dos Estados Unidos (CENTCOM), “foram coordenados com o governo iraquiano” não alteram em nada a realidade dos fatos. Na prática, representam uma tentativa de fechar os olhos para uma realidade da qual não há como escapar. A questão pode ser resumida em uma pergunta bastante simples: qual é, afinal, o lugar do Iraque na equação regional? O país pode aspirar a ser algo mais do que um satélite na órbita do Irã? O mais lamentável é que a tentativa de Ali al-Zaidi de equilibrar, de um lado, a relação de seu governo com o Irã e, de outro, seus vínculos com os países árabes vizinhos, não produziu qualquer resultado concreto. O primeiro-ministro iraquiano acabou sendo obrigado a anunciar o adiamento de sua visita a Riad, pelo menos por enquanto. Trata-se de uma decisão lógica, enquanto permanecer indefinido o lugar que o Iraque ocupará na equação regional e enquanto não houver uma resposta clara sobre a possibilidade de o país libertar-se da tutela iraniana. As Forças de Mobilização Popular (Hashd al-Shaabi), que reúnem diversas milícias, representam o símbolo mais evidente da hegemonia iraniana que se mantém no Iraque desde 2003. Os salários de seus combatentes são pagos pelo orçamento do Estado iraquiano. As declarações de Donald Trump sobre uma suposta “coordenação” com o governo de Ali al-Zaidi não mudam essa realidade. Ao contrário, evitam enfrentar a questão central de sua aposta no Iraque, uma aposta fadada ao fracasso enquanto as armas das milícias, e não as instituições do Estado, continuarem tendo a primeira e a última palavra no país. Todo o resto são apenas detalhes destituídos de qualquer importância.

O Irão usa todos os meios ao seu alcance e ativa as milícias iraquianas

O Hezbollah no Líbano, os Houthis no Iémen, o Hamas em Gaza… O Irão decidiu na terça-feira mobilizar o seu quarto grande proxy na região para intensificar a pressão sobre os Estados Unidos e os seus aliados: o Iraque, onde a República Islâmica continua a manter uma nebulosa de grupos armados enquadrados pelos Guardiães da Revolução. Washington anunciou na quarta-feira ataques aéreos no Iraque contra grupos armados pró-iranianos, realizados em conjunto com a Arábia Saudita, ela própria visada anteriormente por mísseis lançados a partir do território iraquiano. Estes ataques, conduzidos em várias cidades do Iraque, causaram 20 mortos — entre os quais cinco iranianos — e 32 feridos nas fileiras do Hashd al-Shaabi, segundo esta rede de fações de maioria xiita, integrada nas forças armadas iraquianas e que agrupa vários grupos armados pró-iranianos. Se Donald Trump afirmou, segundo o jornalista da Fox News, que os ataques foram «coordenados com o governo iraquiano», a presidência iraquiana denunciou uma «flagrante violação da soberania do Iraque». O Conselho Ministerial Iraquiano de Segurança Nacional indicou posteriormente ter adotado «um plano de segurança abrangente (...) para fazer face a qualquer violação da soberania do Iraque e impedir que qualquer entidade utilize o território iraquiano para ameaçar os estados vizinhos». Os grupos pró-iranianos no Iraque negaram ser os responsáveis pelos disparos que visaram instalações petrolíferas no leste da Arábia Saudita. Ainda assim, o Comando Militar Americano para o Médio Oriente (Centcom) informou na quarta-feira que «aviões de combate americanos e sauditas atacaram vários locais logísticos e de armamento terrorista no leste do Iraque». Teerão condenou os ataques realizados no país vizinho. A televisão estatal iraniana noticiou, na tarde de quarta-feira, bombardeamentos americanos numa cidade situada na fronteira com o Iraque. Por outro lado, o exército americano anunciou ter intercetado mísseis dirigidos às suas forças «estacionadas no Médio Oriente» e lançados a partir do Irão. A televisão iraniana noticiou posteriormente ataques americanos no noroeste do Irão. A Jordânia, aliada de Washington e já anteriormente visada por Teerão, declarou por sua vez, na madrugada de quarta-feira, ter abatido cinco mísseis provenientes do Irão. Os Guardiães da Revolução reivindicaram um ataque com mísseis contra «uma base aérea e o centro de comando central dos Estados Unidos». Face a estas agressões iranianas repetidas, o presidente americano Donald Trump declarou, segundo declarações relatadas por um jornalista da cadeia Fox News, que os Estados Unidos iriam atacar «com força» o Irão na sequência dos disparos iranianos contra bases americanas na Jordânia, reavivando, após alguns dias de acalmia, o conflito que inflama o Médio Oriente. Ataques houthis no mar Vermelho No Iémen, o governo reconhecido pela ONU acusou na quarta-feira os Houthis de querer impor taxas de passagem aos navios que transitam pelo mar Vermelho e pelo estreito de Bab el-Mandeb, um ponto de estrangulamento estratégico situado na sua extremidade sul. Os rebeldes afirmaram na terça-feira ter visado, com recurso a mísseis, um petroleiro saudita no mar Vermelho, acusando-o de ter «violado o bloqueio naval» que ameaçam impor ao reino, primeiro exportador mundial de crude. A Arábia Saudita conta com o mar Vermelho para prosseguir as suas exportações, enquanto o Irão volta a bloquear o estratégico estreito de Ormuz, do outro lado da península Arábica. Os Guardiães da Revolução anunciaram aliás na quarta-feira ter intercetado e imobilizado três petroleiros que tentavam atravessar este estreito, pelo qual transitavam, antes da guerra, cerca de 20% do petróleo mundial e do gás natural liquefeito. Esses novos ataques ocorreram no dia seguinte à visita a Washington do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, que se reuniu com Donald Trump pela primeira vez desde o início da guerra regional, desencadeada pelos ataques dos dois países contra o Irã em 28 de fevereiro. As origens do Hashd al-Shaabi Voltando ao grupo conhecido como Hashd al-Shaabi, também chamado de Forças de Mobilização Popular, ele foi criado em 2014 após uma fatwa do grande aiatolá Ali al-Sistani, a mais alta autoridade religiosa xiita do Iraque, convocando os fiéis a combater o grupo jihadista Estado Islâmico (EI), que havia conquistado vastos territórios do país. Grupos armados pró-iranianos se reuniram então, e milhares de voluntários aderiram aos combates. Os combatentes do Hashd al-Shaabi foram amplamente treinados pelo Irã e supervisionados por grupos apoiados por Teerã, que já haviam lutado contra as forças americanas após a invasão do Iraque em 2003 e a queda de Saddam Hussein. Suas atividades eram supervisionadas pelo general Qassem Soleimani, chefe da Força Quds — o braço responsável pelas operações externas dos Guardiões da Revolução —, morto em um ataque americano em Bagdá em 2020. Em 2016, uma lei integrou o Hashd al-Shaabi às forças armadas e de segurança iraquianas. Um ano depois, o grupo contribuiu, ao lado dessas forças e com o apoio da coalizão internacional liderada por Washington, para a derrota do Estado Islâmico. Desde a invasão de 2003, os Estados Unidos mantiveram grande influência no Iraque. No entanto, sua intervenção também favoreceu a expansão da influência iraniana, com a ascensão de seus aliados xiitas às mais altas esferas do poder em Bagdá. Desde então, o Iraque se tornou um dos principais palcos dos confrontos indiretos entre Washington e Teerã. Atualmente, o Hashd al-Shaabi reúne dezenas de grupos armados, incluindo várias brigadas de poderosas facções pró-iranianas classificadas como organizações terroristas pelos Estados Unidos. Algumas dessas facções são acusadas de receber salários do Estado enquanto atuam de forma completamente autônoma. Ao longo dos anos, sua influência cresceu. Vários grupos conquistaram cadeiras no Parlamento, enquanto alguns de seus líderes, incluindo o comandante do Hashd al-Shaabi, foram alvo de sanções americanas. Diversos grupos armados pró-iranianos também fazem parte da nebulosa Resistência Islâmica no Iraque, que reivindicou centenas de ataques contra instalações americanas na região desde o início da guerra no Oriente Médio. Eles se identificam com o 'eixo da resistência' liderado por Teerã, que também inclui o Hezbollah libanês, o Hamas em Gaza e os Houthis no Iêmen. Entre os mais ativos estão os Kataeb Hezbollah, que há muito tempo têm como alvo os interesses americanos no Iraque e cujos vários comandantes foram mortos em ataques americanos. Outros grupos, como os Kataeb Sayyid al-Shuhada e o movimento Al-Nujaba, estão presentes em algumas bases do Hashd al-Shaabi, mas também dispõem de suas próprias instalações, destinadas principalmente à fabricação de drones. Eles também possuem foguetes e supostamente têm em seu poder mísseis balísticos de curto alcance.

A centralidade do siríaco na tradição maronita: o papel dos patriarcas (2/7)

Tendo discutido o nascimento da Igreja Maronita após o Concílio de Calcedônia, é agora apropriado examinar o papel da língua na construção da nação. É particularmente significativo notar o quanto a hierarquia eclesiástica maronita estava atenta a essa questão e como se esforçou para agir de acordo. - Para os patriarcas maronitas, desde São João Maron, a língua constituía a expressão de sua cultura, sua espiritualidade, sua fé e sua identidade. Essa convicção foi formulada com grande clareza no século XVII pelo Patriarca Estêvão Douayhi. Ele chamou o siríaco de “la nostra lingua syriaca” (nossa língua siríaca) e atribuiu-lhe uma dimensão quase mística, comparável aos mistérios do cristianismo. Com isso, ele queria dizer que nenhuma tradução poderia substituir o siríaco original ou expressar o conceito em sua plenitude. As palavras, de fato, possuem uma memória secundária, e cada cultura estabelece uma relação única entre o significante e o significado. - Quando o siríaco começou a ser seriamente ameaçado no século XVIII, o Concílio Maronita de 1736 em Louaizé foi forçado a proibir a tradução de livros litúrgicos para o árabe. Menos de dez anos depois, em 1744, o Patriarca Maronita Shemun Awad convocou um sínodo que especificou que era estritamente proibida a tradução de livros maronitas para o árabe sem a autorização explícita das autoridades eclesiásticas (1) . Essa permissão foi concedida apenas sob duas condições: o texto árabe deveria ser impresso em escrita siríaca (comumente conhecida como Garshuni) e o texto original em siríaco deveria ser colocado ao lado do texto traduzido (2) . O Patriarca Shemun Awad reiterou essas disposições de 1744 em um novo concílio realizado em 1755. No ano seguinte, o Patriarca eleito Tobias Khazen reafirmou todas essas cláusulas em seu concílio de 1756. Mais especificamente, o Sínodo Maronita de 2005, em seu Artigo 10, determinou a preservação e o renascimento da língua e cultura siríacas em todas as escolas e universidades maronitas. O patriarca que lutou com mais intensidade pela preservação da língua siríaca foi Antonios Pierre Arida. Diante dos desafios do jovem Estado do Grande Líbano, que acabara de adotar o árabe como língua nacional, ele exigiu o uso contínuo do siríaco em todas as escolas cristãs. Sua carta, datada de 25 de junho de 1946 e escrita pelo Padre Raphael Bar Armalet, expressa claramente sua visão do Líbano moderno. A Cosmovisão - A língua é um elemento fundamental na formação da identidade coletiva, como enfatizou Johann Fichte. Mas ela é também, e sobretudo, portadora de um projeto espiritual. Já no século XVIII, o filósofo Johann Gottfried von Herder afirmou que o espírito de um povo se expressa por meio de sua língua (3) . Uma cultura só pode se expressar plenamente em sua própria língua, cujo léxico foi moldado por sua experiência histórica e influenciado por suas crenças. A própria palavra "cultura" remete etimologicamente à adoração, em torno da qual se organizam os meios de expressão de uma civilização: língua, literatura, escrita, música, arte e arquitetura. "A natureza de uma civilização é o que se consolida em torno de uma religião", afirmou André Malraux (4) . A língua, portanto, não é de modo algum um simples instrumento de comunicação, mas uma matriz que transmite os paradigmas socioculturais dos quais se origina. - A hipótese de Sapir-Whorf sobre a relatividade linguística sustenta que a estrutura de uma língua influencia a cognição de seus falantes e sua relação com o mundo (5) . Ludwig Wittgenstein expressa ainda mais esse conceito quando escreve: "Os limites da minha língua significam os limites do meu próprio mundo" (6) . A língua, assim, molda, em uma relação recíproca, a visão de mundo e a forma como ela é expressa. Essa complementaridade sociolinguística se estabelece entre a ideia e sua expressão, entre o significado e o significante. Dessa perspectiva, Wilhelm von Humboldt declarou em 1820 que “a diversidade das línguas não é uma diversidade de sons e signos, mas uma diversidade de visões de mundo”. Ele desenvolveu essa ideia afirmando que cada língua transmite uma Weltansicht (visão de mundo) específica (7) . Substituir a língua de uma comunidade equivale, portanto, a transformar sua maneira de compreender o mundo, sua autopercepção e sua relação com a vida após a morte. Desarraigamento por meio do linguicídio “A língua é a morada do ser”, escreveu Martin Heidegger (8) . Quando a fé abandona sua “morada”, torna-se estranha a si mesma. A língua desempenha um papel central na transmissão do patrimônio cultural. Uma fé enraizada em uma língua conserva uma riqueza simbólica, uma profundidade histórica e uma polissemia fértil que a abre à interpretação, à ambiguidade frutífera e à profundidade hermenêutica. O símbolo, também litúrgico em sua natureza, transcende em muito sua simples função de comunicação para se tornar encarnação e mistério. É essa dimensão que desaparece durante um linguicídio: o mistério se esvai junto com os símbolos e metáforas esquecidos. Como demonstra Paul Ricoeur, o símbolo abre um espaço para a interpretação (9) . Seu desaparecimento leva ao fechamento do significado. A eliminação da ambiguidade e da riqueza semântica exige uma leitura única. Esse processo é característico da ideologia, que privilegia a leitura literal, reduz a mensagem a um slogan, suprime a interpretação e impõe a certeza. (1) – Ray Jabre Mouawad, Une approche différente de la langue arabe par les melkites et les maronites du Liban d'après un poème d'Ibn al-Qala'i (XV°S.), in PDO , 34, 2009, pp. 345-359. (2) – Ibid . (3) – Johann Gottfried von Herder, Treatise on the Origin of Language , 1772, e Traité sur l'origine des langues , Allia, 2010. (4) – André Malraux, Note sur l'Islam , junho de 1956. (5) – Benjamin Lee Whorf, Language, Thought and Reality , MIT Press, 1956. (6) – Ludwig Wittgenstein, Tractatus Logico-Philosophicus , 1921; versão francesa, Paris, Gallimard, 2001. (7) – Wilhelm von Humboldt, On the Diversity of Human Language Construction , 1836, e Anne-Marie Chabrolle-Cerretini, La vision du monde de Wilhelm von Humboldt, Lyon, ENS Éditions, 2007. (8) – Martin Heidegger, Ser e Tempo , (1927), Paris, Gallimard, 1986 (trad. fr.), § 34. (9) – Paul Ricoeur, La symbolique du mal , Paris, Aubier, 1960. Leia também sobre o mesmo tema A centralidade da língua siríaca na tradição maronita (1/7)