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O comboio do CICV que transportava os civis libertados, partindo da zona ocupada por Israel no sul do Líbano, seguiu até o ponto que marca o início da área controlada pelas autoridades libanesas. (AFP)
O Essencial do Dia
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Por LevantTime .
Publicado em set 5, 2026 - 00:55
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) anunciou nesta sexta-feira que transferiu para o Líbano outras quatro pessoas libertadas por Israel, um dia após a libertação de um primeiro civil. Segundo o CICV, trata-se de três libaneses e dois sírios. É a primeira vez que uma operação desse tipo ocorre desde o início, em abril, das negociações entre o Líbano e Israel, sob mediação dos Estados Unidos. Beirute havia solicitado, durante a última rodada de negociações, em agosto, a libertação de um primeiro grupo de cidadãos libaneses capturados por Israel no sul do Líbano, onde trava uma guerra contra o Hezbollah, aliado do Irã. Familiares estimam que cerca de 30 pessoas estejam detidas, entre elas combatentes do movimento islâmico. O presidente libanês, Joseph Aoun, agradeceu em comunicado aos Estados Unidos e ao CICV e afirmou que essa libertação «confirma o acerto da posição» do Líbano, que participa de negociações com Israel rejeitadas pelo Hezbollah. Os Estados Unidos elogiaram na quinta-feira «o governo de Israel e o governo do Líbano por demonstrarem boa-fé por meio desses primeiros passos», expressando a esperança de que isso sirva «de base para discussões mais amplas sobre outras questões civis». Os dois países devem realizar uma nova rodada de negociações em setembro, em uma data ainda não definida. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira «ocorre após os esforços realizados por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os restos mortais de líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano» entre 1984 e 1986. Israel intensifica seus ataques No terreno, ataques israelenses deixaram três mortos e 23 feridos nesta sexta-feira no sul e no leste do Líbano, segundo um veículo de imprensa estatal. Israel intensificou nesta sexta-feira seus ataques na região, depois de anunciar, na noite de quinta-feira, que havia assumido o controle da crista montanhosa de Ali Taher, que servia como posição estratégica para o Hezbollah, aliado do Irã, e domina, entre outras áreas, a cidade de Nabatiye. O Exército agora reforçará suas posições na região para «impedir que o inimigo volte a se posicionar na área», declarou o ministro da Defesa israelense, Israel Katz. Outro ataque também atingiu a região de Tiro, especialmente a localidade de Rmadiye, segundo a Agência Nacional de Notícias (ANI). Para Trump, a guerra no Irã é «coisa pequena» Sobre a guerra no Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tentou nesta sexta-feira minimizar seu impacto para o país, às vésperas das cruciais eleições legislativas de meio de mandato. «Muita gente não chama isso de guerra. Eu digo que é um conflito militar, porque para nós é coisa pequena (“small potatoes”). Não é nada demais. Fizemos a Venezuela e fizemos isso», respondeu a jornalistas no Salão Oval, ao ser questionado sobre seu vice-presidente, JD Vance, que no dia anterior havia dito não querer descrever o conflito como uma guerra. Enquanto a forte alta dos preços dos combustíveis ligada à guerra ameaça custar aos republicanos de Donald Trump sua maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato de novembro, sua administração tenta minimizar a dimensão do conflito. Segundo o presidente, os Estados Unidos realizam «ataques pontuais» e «não estão atualmente combatendo». Trump também afirmou que os Estados Unidos controlam o estreito de Ormuz e que dizimaram as Forças Armadas iranianas. «O que conseguimos foi extraordinário. Assumimos o controle da Venezuela e, essencialmente, assumimos o controle do Irã», declarou.
Homenagem
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Por Michel Hajji Georgiou - Publicado em set 4, 2026 - 23:28
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De Hassan Rifaï, fica a imagem de um jurista respeitado, sereno, referência em direito administrativo e constitucional, que argumentava com voz calma e trêmula para apontar os desvios e descaminhos dos políticos em relação ao regime democrático parlamentar e à Constituição. No entanto, o ex-deputado e ex-ministro, falecido em 3 de setembro de 2025, era também um homem revoltado. Um inconformista. Mesmo aos cem anos. Sobretudo aos cem anos! Já o havia sido na infância, arengando multidões em Baalbeck contra o Mandato, e continuou assim ao longo de toda a sua carreira como advogado e parlamentar. Aos cem anos, completamente desiludido com a República e seus flibusteiros, sua cólera contida não havia se apaziguado. «O Líbano é um país impossível!», dizia ao autor destas linhas em uma entrevista realizada alguns anos antes de sua morte e jamais publicada. Mas atenção. Hassan Rifaï não era niilista, nem alguém que negasse tudo por princípio. Lutara a vida inteira por uma determinada ideia do Líbano. Mais precisamente, pelo Grande Líbano, unido e plural. E sabia avaliar em sua justa medida a experiência libanesa, com tudo o que ela tivera de positivo. Mas o ser humano o havia decepcionado. E era precisamente o ser humano que ele procurava. Nunca o encontrou na cena pública libanesa. Pelo menos, não a serviço da República. Rifaï era um homem do direito, sempre elegante, irrepreensível, tudo o que se espera de um homem de sua estatura moral e intelectual. Mas também era intransigente. Implacável, até. Sem dúvida, seu apego ao país e ao regime democrático o levara a reconhecer uma única fidelidade: um determinado código de valores e uma determinada ideia da República. Por isso se mostrava crítico diante de todos os erros e de todos os desvios, começando pelos cometidos por seus próprios amigos políticos. Não poupava ninguém. Nem comunidades nem clãs, nem líderes religiosos, ele próprio era laico, e muito menos os responsáveis políticos. Ninguém escapava ao seu crivo, e Rifaï sentia um certo prazer em desconstruir os mitos e as ideias feitas que transformavam este ou aquele presidente da República ou primeiro-ministro em um líder excepcional. Seus critérios eram objetivos: a coerência entre os atos e os princípios democráticos. Assim, ninguém encontrava verdadeiramente graça aos seus olhos. A constatação era terrível: nenhum dos dirigentes, ao longo da história do país, havia realmente respeitado a democracia parlamentar libanesa. Nenhum. Não porque colocasse todos no mesmo plano. Tinha distância crítica suficiente para reconhecer as qualidades e os defeitos de uns e de outros. Gostava de citar Léon Duguit: «O direito constitucional não tem outro guarda-freio senão a boa-fé dos homens que o aplicam.» Quase fizera dessa frase seu credo republicano. E seu veredicto era implacável: essa boa-fé, simplesmente, ele não a encontrara. Políticos demais, homens de Estado de menos. E, sobretudo, muita mentira e hipocrisia. Um dia, um grande dirigente lhe aconselhou: «Não construa estradas para as pessoas. Caso contrário, elas deixarão de procurá-lo.» Apesar do respeito que nutria por aquele aliado político, a frase o deixara perplexo e chocado. Ela continha, por si só, toda uma concepção do poder: jamais resolver definitivamente o problema daquele que se pretende representar, pois, desaparecendo sua necessidade, desapareceria também a própria razão de sua dependência. O projeto do Estado ficava, assim, adiado indefinidamente. Ou, de todo modo, quando existiam pessoas de bem, o sistema não lhes permitia chegar aos cargos de responsabilidade. Rifaï era um rebelde, sim, mas com o rigor e a precisão de um ourives do direito administrativo e constitucional. E era provavelmente isso que o distinguia no meio político libanês. Rebelde o suficiente, em todo caso, para pagar um preço por isso. Em agosto de 1982, foi vítima de uma tentativa de assassinato depois de se opor ao diktat israelense. Em Taif, em 1989, foi praticamente posto à margem por ter percebido de imediato as falhas existentes e as armadilhas acrescentadas às reformas constitucionais. A partir de 1992, sob a ocupação síria, sofreu ostracismo político por se opor ao aparato de segurança que sustentava a tutela síria e à política de Rafic Hariri. Mas era justo. Podia se opor ao confessionalismo político e, ao mesmo tempo, reconhecer que sua abolição no estágio atual seria uma catástrofe para o Líbano, e que uma democracia reduzida à mera lógica dos números faria soar de uma vez por todas o dobre de finados da fórmula libanesa e da presença cristã no país. Podia concordar com a ideia de que os cristãos haviam sido prejudicados pelas reformas constitucionais de Taif, os sunitas também, sustentava, ao mesmo tempo em que lembrava os excessos cometidos no exercício do poder pelos presidentes da República entre 1943 e 1990 e advertia contra qualquer surto de nostalgia por essas práticas sob a bandeira dos «direitos dos cristãos». Uma deriva rumo a um regime presidencial ou semipresidencial constituía, a seu ver, um perigo para os cristãos. A importância do regime parlamentar herdado da Terceira República francesa residia precisamente no fato de que o presidente da República não era politicamente responsável perante a Câmara dos Deputados. Isso o colocava, segundo Rifaï, em uma posição privilegiada. Acima da disputa, podia conduzir o navio da República a bom porto sem ficar atolado nas lutas pelo poder. Essa responsabilidade moral de preservar a Constituição e a República era, a seus olhos, muito mais importante do que qualquer responsabilidade política. Mas ainda era preciso convencer disso os principais interessados. Rifaï podia reconhecer a importância de uma descentralização administrativa e, ao mesmo tempo, recusar que essa reivindicação se transformasse em um slogan ideológico a mascarar uma vontade separatista. Nesse sentido, lembrava que Beirute e o Monte Líbano haviam sido privilegiados na construção do Grande Líbano, ao passo que as regiões periféricas, sobretudo a sua, Baalbeck, haviam sido desprezadas. Isso contribuíra para enfraquecer o sentimento nacional libanês, que dependia, afinal, de um bem-estar baseado no respeito à dignidade humana. A adesão à cidadania pressupunha que todos fossem tratados da mesma forma do ponto de vista do desenvolvimento. Sem igualdade entre os cidadãos, a soberania só podia vacilar. Esse, aliás, foi o sentido de sua primeira intervenção no Parlamento, em 1968. Os acontecimentos que se seguiram conferiram uma gravidade singular àquele alerta. Os desequilíbrios econômicos, sociais e territoriais contribuíram para alimentar as reivindicações da esquerda e de setores da rua muçulmana, em um país já atravessado por tensões comunitárias, ingerências externas e pelo crescente poder das organizações armadas. Contribuíram, assim, para o enfraquecimento progressivo do Estado, antes da guerra, das ocupações sucessivas e do surgimento de estruturas paraestatais. Em última análise, Hassan Rifaï encarna um pouco esse modelo libanês de personalidade cosmopolita, complexa, situada fora das trincheiras comunitárias e partidárias, respeitada de maneira quase unânime, sobretudo fora dos círculos políticos, mas consultada dentro desses mesmos círculos apenas quando necessário e por interesse. O Líbano não gosta de espíritos independentes e insubmissos demais, embora seu sistema ainda conserve brechas que permitem que essas pessoas existam e façam sua voz ser ouvida. Elas são toleradas, mas devem permanecer à margem. Disso depende a sobrevivência do Estado-zaamat e do Estado-jamaat, que prefere invariavelmente recorrer a tutores estrangeiros em vez de se voltar para pessoas capazes de gerar, propor e implementar soluções a partir de dentro. O sistema político libanês e seus protagonistas detestam a noção de responsabilidade, que lhes causa profunda ansiedade, e preferem a dependência ou, pior ainda, a servilidade. Ora, repetia Rifaï, citando mais uma vez Léon Duguit: «Onde está a responsabilidade, está o poder.» Deve surpreender, então, que no Líbano, onde a responsabilidade não está em lugar algum, o poder também não esteja em lugar algum? Ou, mais exatamente, que esteja sempre em outro lugar?
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Por Jad Akhawi - Publicado em set 4, 2026 - 15:00
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A batalha de Ali al-Taher não foi apenas um confronto militar em torno de uma colina estratégica no sul do Líbano. Apesar de sua área limitada, o local se transformou em um ponto de convergência de cálculos militares, políticos e regionais, revelando um dos aspectos centrais do conflito que persiste no Líbano: quem controla o território, quem detém as armas e quem decide sobre a guerra e a paz? O mais significativo não é apenas a entrada de Israel no local, mas a insistência do Hezbollah em se recusar a entregá-lo ao Exército libanês, embora o Exército seja a única instituição legítima que deveria assumir a responsabilidade pelo território libanês, sobretudo nas áreas de fronteira diretamente ligadas à segurança e à soberania do país. Por que o Hezbollah se recusou? Porque a entrega de Ali al-Taher ao Exército não teria sido entendida como uma simples medida no terreno. Teria carregado um significado político que ia muito além da própria colina. Uma medida desse tipo teria equivalido a um reconhecimento de fato da autoridade do Estado libanês sobre as decisões de segurança e militares no Sul, assim como do princípio de que nenhuma outra força armada pode agir como se exercesse autoridade efetiva sobre o terreno. O local tornou-se, assim, um teste da autoridade do Estado, e não apenas uma posição militar avançada. Quem matou os combatentes? Esse continua sendo o episódio mais obscuro da narrativa da batalha. A versão israelense fala em combatentes mortos e outros que fugiram, enquanto as informações independentes sobre quantas pessoas estavam no local, qual era a natureza de sua missão e qual foi seu destino final continuam incompletas. As versões contraditórias também levantam inúmeras perguntas que não podem ser respondidas apenas com base em comunicados militares. E não se trata de um simples detalhe operacional: A maioria dos combatentes foi morta dentro do local? Eles conseguiram se retirar por túneis e passagens? Ou haviam sido evacuados antes do início da operação israelense? Cada um desses cenários tem um significado diferente. Se os combatentes permaneceram no local até o último momento, isso significaria que houve um confronto direto que terminou com uma clara superioridade militar israelense. Se, por outro lado, eles foram evacuados previamente, as perguntas passariam a ser quem tomou essa decisão, por que ela foi tomada e se a evacuação fazia parte de um entendimento mais amplo ou se foi apenas uma medida militar preventiva. E se ficar comprovado que um número significativo deles deixou o local antes da entrada das forças israelenses, as principais perguntas serão então: como eles saíram, quem facilitou sua saída e isso ocorreu com o conhecimento de atores locais ou internacionais? Até o momento, não há elementos públicos suficientes para determinar qual desses cenários corresponde ao que de fato ocorreu. Mas a ausência de informações não reduz a importância dessas perguntas. Ao contrário, aumenta as dúvidas sobre o que aconteceu nas horas que antecederam a tomada do local. E quanto à visita do embaixador dos Estados Unidos a Israel? O momento merece atenção. A escalada em torno de Ali al-Taher coincidiu com uma movimentação diplomática americana em relação a Israel, enquanto surgiam informações sobre conversas a respeito do local e sobre a possibilidade de que ele acabasse sendo entregue ao Exército libanês. Isso não significa necessariamente que a decisão tenha sido tomada fora do Líbano, nem que tenha sido alcançado um acordo plenamente definido entre Washington, Tel Aviv e Beirute. Mas sugere que o local já não é visto apenas como uma questão militar local. Não há base para afirmar que a visita do embaixador americano tenha feito parte de um acordo secreto sobre Ali al-Taher. Tampouco se pode afirmar com certeza que tudo o que ocorreu tenha sido resultado de um entendimento prévio entre as partes envolvidas. No entanto, está claro que Washington vê o futuro do local como parte de um dossiê mais amplo, relacionado ao cessar-fogo, à estabilização da fronteira, à prevenção de qualquer presença militar fora da autoridade do Estado libanês e à necessidade de impedir que as áreas fronteiriças se transformem em plataformas permanentes de confronto. Ali al-Taher passa, assim, a fazer parte de negociações que vão muito além de sua geografia. O local pode ser pequeno no mapa, mas está ligado a grandes questões relacionadas aos arranjos no Sul, ao papel do Exército libanês, ao futuro das armas fora do controle do Estado e aos limites da influência israelense na região. O paradoxo que colocou o Hezbollah em uma posição constrangedora O grande paradoxo político é que o Hezbollah se recusou a entregar a colina ao Exército libanês, mas no fim também não conseguiu mantê-la. Se a operação israelense terminar com a retirada das forças israelenses e a entrega do local ao Exército libanês, o desfecho será muito diferente da situação que o Hezbollah tentou impor ou preservar: o Hezbollah se recusou a entregar o local ao Estado, Israel o expulsou de lá e, em seguida, o Estado voltou a assumir a responsabilidade. Em outras palavras, o Hezbollah se recusou a reconhecer voluntariamente a autoridade do Exército, mas pode acabar diante de uma realidade que impõe essa autoridade por outros meios. É isso que torna a situação politicamente constrangedora, porque o resultado final pode parecer ter alcançado, de forma indireta, aquilo que o Hezbollah se recusou a fazer diretamente. Daí surge uma pergunta evidente: por que a entrega do local ao Exército não foi considerada a opção menos custosa para o Líbano? Essa medida poderia ter sido apresentada como um fortalecimento do papel do Estado, uma forma de proteger o Sul e um meio de impedir que Israel utilizasse a presença do Hezbollah como pretexto para permanecer no terreno ou avançar ainda mais. A recusa em entregar o local ao Exército, ao contrário, manteve-o na zona de confronto e permitiu que Israel apresentasse sua operação como uma resposta a uma presença militar fora da autoridade do Estado. Ali al-Taher resume o problema libanês A questão vai muito além dessa colina. O Líbano não pode recuperar sua soberania enquanto coexistirem duas autoridades militares: a do Exército e a de armas fora do controle do Estado. Também não pode pedir à comunidade internacional que respeite suas fronteiras enquanto as decisões militares dentro dessas fronteiras continuarem divididas entre as instituições do Estado e uma organização armada que dispõe de capacidades independentes. Ao mesmo tempo, o Líbano não pode exigir que Israel se retire de seu território enquanto as decisões de segurança relativas a esse mesmo território continuarem sendo objeto de uma disputa interna. Enquanto houver armas fora do controle do Estado, o argumento israelense continuará existindo e o Sul seguirá exposto a novas rodadas de escalada. A soberania não se compartilha. Ou o Exército libanês é a única autoridade militar, ou o Líbano continuará sendo um palco aberto para conflitos regionais, nos quais se cruzam cálculos iranianos, israelenses e americanos, enquanto o Estado e a sociedade pagam o preço do confronto. Por isso, a verdadeira pergunta depois de Ali al-Taher não é: Quem ganhou a colina? Mas: Quem a controlará quando a batalha terminar? Se a resposta for o Exército libanês, Ali al-Taher poderá marcar o início de uma transição no Sul, da lógica da «resistência» para a lógica da responsabilidade do Estado. Isso poderia constituir um primeiro passo rumo a uma redefinição da segurança nacional, de modo que a defesa das fronteiras passe a ser responsabilidade das instituições do Estado, e não de uma força que atue de maneira autônoma. Se Israel permanecer, porém, o Líbano terá mais uma vez perdido parte de sua soberania, independentemente da narrativa que cada lado apresentar para justificar o que aconteceu. Em ambos os casos, permanece uma verdade essencial: nem o Hezbollah pode substituir o Estado, nem Israel pode ser o garantidor de sua soberania. A soberania libanesa só pode ser recuperada pelo Estado libanês, protegida por seu Exército e consolidada por uma decisão política clara que ponha fim à dualidade das armas e das autoridades.
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Suspensão das sanções contra a Síria, primeiros sinais da reconstrução do país

No dia 6 de novembro, o Conselho de Segurança das Nações Unidas, sob liderança dos Estados Unidos, votou pela suspensão das sanções impostas ao presidente sírio Ahmad el-Chareh. A decisão segue uma medida semelhante tomada no início do verão, quando os Estados Unidos e a União Europeia encerraram suas sanções contra a Síria de Bashar al-Assad, adotadas durante a guerra civil iniciada em 2011. A retirada geral das sanções permitirá que o país volte a se integrar ao mundo árabe e à economia global. Isso abre espaço para novos investimentos e para o início de sua reconstrução. O Caesar Act Entre as sanções contra o regime de Assad, a mais emblemática foi a adoção do Caesar Act pelos Estados Unidos em 2019. A lei leva o nome de um fotógrafo militar sírio que contrabandeou mais de 50 mil imagens que documentavam abusos cometidos pelo regime baathista durante a guerra civil. O Caesar Act atingiu setores vitais da economia síria com muito mais rigor do que as sanções anteriores impostas pela ONU ou pela União Europeia. A lei punia qualquer pessoa ou empresa que oferecesse apoio direto ou indireto ao regime de Assad. Os setores mais afetados foram os de armamentos, energia e serviços financeiros. O Caesar Act estrangulou financeiramente o regime de Bashar al-Assad e seu círculo próximo, que controlava grandes parcelas da economia. A medida acelerou o colapso econômico do país e isolou completamente a Síria do mundo exterior. Também aprofundou a desvalorização da libra síria, paralisou a economia e incentivou o contrabando e a expansão de redes de tráfico de drogas. Em 30 de junho de 2025, Donald Trump assinou uma ordem executiva revogando o Caesar Act. A revogação ainda precisa ser confirmada pela Câmara dos Representantes. A legislação continuará valendo para Bashar al-Assad e seus aliados e só será suspensa para atividades relacionadas ao governo de Ahmad el-Chareh. Reabilitação econômica O primeiro passo para a recuperação econômica do país é seu retorno ao SWIFT, a plataforma usada pela maior parte dos bancos no mundo para transferências internacionais. Mesmo com a existência de sistemas alternativos, a maioria das transações globais ainda passa pelo SWIFT. Em junho, a Síria fez sua primeira transação na plataforma em mais de 14 anos. O país havia sido excluído do sistema em 2011, no início da guerra civil, e ficou impossibilitado de realizar transferências bancárias internacionais. Nesse período, passou a depender de operações em dinheiro vivo, o que dificultava qualquer verificação sobre a origem ou o destino dos recursos. A reintegração ao SWIFT aumentará a transparência das transações financeiras. O sistema funciona com bancos correspondentes que atuam como intermediários e seguem regras de conformidade criadas, por exemplo, para impedir operações envolvendo Bashar al-Assad ou pessoas ligadas a ele. Atividade em alta A retirada gradual das sanções já mostra efeitos claros. Desde o último verão, diversos fóruns, cúpulas e conferências para investidores interessados no mercado sírio foram realizados em várias capitais árabes. Segundo Ahmad el-Chareh, o país atraiu quase 28 bilhões de dólares em investimentos. Os principais investidores são a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Catar. A velocidade com que os recursos serão liberados, o engajamento imediato dos países do Golfo e a assinatura de acordos para grandes projetos de infraestrutura, em um cenário de flexibilização progressiva das sanções, são fatores que devem atrair ainda mais investimentos. Isso pode impulsionar a reconstrução e ajudar na reintegração da Síria ao comércio internacional. A retirada gradual das sanções se apresenta como a base dos esforços de reconstrução. O caminho ainda é longo e há muito trabalho pela frente. Os desafios são numerosos, assim como as oportunidades. Nesse contexto, torna-se essencial analisar e destacar os principais obstáculos e perspectivas que a nova liderança síria terá de enfrentar. Continuação em breve. Próximo artigo: Síria, entre desafios e oportunidades: uma nova oportunidade (1/3)

Papa Leão XIV: A Terra do Cedro o adotou…!
Por
Salim F. Dahdah
Publicado

Santidade, O senhor teve a gentileza de escolher este país do Levante como seu primeiro destino após ser eleito para liderar a Igreja Católica. Agradecemos profundamente. Sua presença aqui foi como a sombra de uma nuvem branca cruzando um céu escuro, encoberto há tempo demais, deixando passar sua luz sobre este espaço geográfico descrito nos livros de história como a terra do leite e do mel, da hospitalidade e da convivência, a terra do Cedro eterno, majestoso, forte e inabalável. Uma terra de encontro e intercâmbio entre culturas e comunidades diversas; uma terra de vida, de amor e de uma paz regularmente agredida e muitas vezes violentada. Mas, por um breve momento, sua visita veio “abrir um parêntese” e iluminar de repente a vida de todo um povo exausto e desmoronado sob o peso de tragédias que o perseguem há décadas, muitas delas provocadas pelas guerras de outros travadas em seu território. Com sua atitude discreta e firme, amável e reservada; com seu olhar sereno, benevolente e cheio de sabedoria; com palavras simples e pontuações fortes e profundamente sentidas, o senhor conseguiu chegar rapidamente ao coração de todos: grandes e pequenos, jovens e idosos, doentes e saudáveis, honestos e corruptos, patriotas e coveiros da República. Em poucas palavras, de todo esse povo libanês que ainda hoje vive em salas de emergência, entre a vida e a morte, em um estado de caos exaustivo, preocupação permanente, insegurança latente e instabilidade sufocante. O senhor falou de paz e concórdia, acalmou corações e lembrou a todos da necessidade de tomar consciência dessa solidariedade humana que enriquece e fortalece a fé e as relações entre cidadãos de um mesmo país, uma sociedade de luz, de ajuda mútua e de apoio aos mais necessitados, física e materialmente. Testemunhou alto e claro, sem jamais ferir ou agredir um povo enfraquecido e duramente provado. Santidade, o senhor que insuflou uma lufada de oxigênio a todos esses cidadãos à deriva, permita-lhes apoiar-se em seus conselhos e orações, pedindo que continue, mesmo após deixar nosso pequeno país, a interceder junto à Virgem Maria para que a paz se instale aqui, abrindo o caminho da convalescença e, quem sabe, em breve permitindo alcançar a tão desejada “neutralidade permanente”, única garantia de estabilidade, soberania, independência e florescimento político, econômico, social e cultural.

A Casa da Família Abraâmica: por um mundo de tolerância e paz

Em 2019, o Papa Francisco tornou-se o primeiro pontífice a realizar uma visita oficial em Abu Dhabi. Durante o encontro, ele e o Grão-Imã de Al Azhar, Dr. Ahmed Al Tayeb, entraram para a história ao assinar um documento sobre a fraternidade humana, que defende a tolerância, a paz universal e a reconciliação entre as religiões. Para celebrar esse marco e em sintonia com a Carta da Fraternidade Humana, o governo dos Emirados Árabes Unidos decidiu construir, na Ilha de Saadiyat, a Casa da Família Abraâmica — um espaço arquitetônico de quase 6.000 metros quadrados dedicado às três religiões monoteístas. Inaugurado em 2023, o complexo abriga uma igreja, uma mesquita, uma sinagoga e um fórum de encontro. O projeto tornou-se possível porque os valores promovidos pela Carta da Fraternidade Humana coincidem com os que orientam os Emirados Árabes Unidos, país onde mais de 200 nacionalidades convivem em paz. Convencido de que a coexistência entre religiões é viável por meio do diálogo, da compreensão mútua e da prática pacífica da fé, o governo quis oferecer a crentes — e também a não crentes — do mundo todo a oportunidade de participar de um diálogo inter-religioso. Isso se dá por meio de fóruns, eventos, masterclasses e também pela simples visita aos três locais de culto, promovendo o conhecimento recíproco das tradições de fé. O amplo programa educativo desenvolvido pela Casa da Família Abraâmica foi criado em parceria com algumas das mais renomadas escolas e universidades do mundo. Os valores de tolerância promovidos pela instituição estão profundamente enraizados na própria história dos Emirados Árabes Unidos. Desde os primeiros séculos do Islã, nos séculos VII e VIII, há registros da presença de mosteiros e igrejas nas ilhas de Sir Bani Yas, em Abu Dhabi, e Siniya, em Umm Al Quwain — evidências de uma antiga comunidade cristã na região. Também há indícios de uma comunidade judaica, comprovados pela descoberta de uma lápide gravada em hebraico com a inscrição: “Aqui repousa David, filho de Moisés.” Arquitetura e simbolismo A Casa da Família Abraâmica é obra do arquiteto anglo-ganense Sir David Adjaye Omobe, reconhecido internacionalmente e vencedor da Medalha de Ouro do Real Instituto de Arquitetos Britânicos. Entre seus projetos destacam-se o Centro do Prêmio Nobel, em Oslo; o Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana, em Washington D.C.; e a Fundação Aïshti, em Beirute. Adjaye é conhecido por seu estilo eclético, pelo uso inovador de materiais e luz, e pela criação de monumentos simbólicos que unem o íntimo ao coletivo. Para expressar os valores transmitidos pela Casa da Família Abraâmica, o arquiteto começou identificando os materiais tradicionalmente usados nos três espaços de culto — calcário, madeira e bronze — e incorporou aqueles às construções, realçando as referências religiosas e a singularidade de cada uma. Fez questão de que os três edifícios tivessem a mesma imponência, beleza e dimensão, evitando qualquer percepção de hierarquia entre as religiões. A Mesquita Ahmed El Tayeb A mesquita recebeu o nome do Grão-Imã de Al Azhar, Dr. Ahmed El Tayeb, coautor do documento sobre fraternidade humana ao lado do Papa Francisco. Voltada para Meca, ela reúne elementos característicos da arte religiosa islâmica, como os sete arcos externos, que simbolizam a transcendência divina e a perfeição espiritual — além da importância do número sete no Islã. No interior, nove abóbadas se encontram para formar o teto. As janelas de mashrabiya, esculpidas à mão segundo a tradição artesanal árabe, permitem a entrada da luz natural preservando a privacidade dos fiéis. Painéis decorativos de fibra funcionam ainda como divisórias entre homens e mulheres. A Igreja de São Francisco Dedicada a São Francisco de Assis, santo do século XIII e patrono do Papa Francisco, a igreja está orientada para o leste, na direção do nascer do sol — símbolo da luz divina e da glória de Deus no cristianismo. Seu interior é marcado por uma “floresta” de colunas voltadas para o leste. A luz refletida reforça a verticalidade do espaço, representando tanto a encarnação de Cristo (luz descendente) quanto a ressurreição (luz ascendente). Mais de 13 mil metros lineares de madeira compõem a abóbada da igreja. As ripas dispostas acima do altar evocam os raios do sol e remetem ao altar da Basílica de São Pedro, em Roma. A Sinagoga Maimônides Voltada para Jerusalém, a sinagoga leva o nome do filósofo e teólogo judeu do século XII, Moisés Maimônides. Concebida como um refúgio para a oração, sua fachada em treliça remete às folhas de palmeira usadas na construção das sukkot — cabanas erguidas durante o festival de Sucot, que celebra o êxodo do povo judeu do Sinai e o fim da escravidão. A estrutura protege do sol durante o dia e permite contemplar as estrelas à noite. No interior, uma malha de bronze representa a chupá, o dossel sob o qual os casais judeus se casam. Em um mundo onde a tolerância e a paz entre os seres humanos parecem cada vez mais escassas, uma iniciativa como a Casa da Família Abraâmica nos interpela — e só pode ser recebida com profundo respeito e admiração.

Nostra Aetate, pedra angular do diálogo inter-religioso – As raízes (1)

O Vaticano e a comunidade católica global, incluindo o Líbano, celebram neste período os 60 anos de Nostra Aetate , a declaração promulgada pelo papa Paulo VI sobre a relação da Igreja Católica com as religiões não cristãs. No Líbano, uma conferência realizada em Bkerké, em 8 de novembro, marcou a data. O documento foi muitas vezes descrito como profético, e com razão. Ele surgiu em um contexto em que, apesar do crescimento do contato entre povos graças aos avanços no transporte e na comunicação, a religião vinha sendo cada vez mais instrumentalizada como ferramenta de violência nos cinco continentes. A cultura do ódio religioso e racial havia chegado ao seu ponto mais sombrio na Europa durante a Segunda Guerra Mundial, com o Holocausto e o extermínio de milhões de judeus pelos nazistas. “Raios da verdade” No centro de Nostra Aetate está um princípio-chave: toda religião carrega “um raio da verdade”. A declaração afirma: “A Igreja católica nada rejeita do que nessas religiões existe de verdadeiro e santo. Olha com sincero respeito esses modos de agir e viver, esses preceitos e doutrinas que, embora se afastem em muitos pontos daqueles que ela própria segue e propõe, todavia, reflectem não raramente um raio da verdade que ilumina todos os homens. (...) Exorta, por isso, os seus filhos a que, com prudência e caridade, pelo diálogo e colaboração com os sequazes doutras religiões, dando testemunho da vida e fé cristãs, reconheçam, conservem e promovam os bens espirituais e morais e os valores sócio-culturais que entre eles se encontram.” Origens e desenvolvimento Nostra Aetate tem raízes profundas no Holocausto, um dos episódios mais dolorosos da Segunda Guerra. Em 1947, pensadores judeus e cristãos se reuniram em Seelisberg, na Suíça, por iniciativa do “Conselho de Cristãos e Judeus” do Reino Unido, para refletir sobre as causas do anti-judaísmo cristão e do antissemitismo racial. Um dos participantes foi o historiador judeu francês Jules Isaac, que havia perdido a esposa e a filha nos campos de concentração. Um ano antes, ele concluíra o livro Jesus e Israel , no qual analisava as raízes cristãs do anti-judaísmo religioso e defendia a necessidade de diálogo entre judeus e cristãos. Em 1960, Isaac encontrou-se com o papa João XXIII e lhe entregou um dossiê pedindo mudanças no ensinamento cristão sobre os judeus, que ainda eram referidos em certas liturgias como o “povo deicida”. João XXIII encarregou o cardeal Augustin Bea de preparar um texto sobre os judeus como parte dos trabalhos do Concílio Vaticano II. O projeto inicial tratava exclusivamente das relações judaico-cristãs sob o título Decretum de Iudaeis (“Decreto sobre os Judeus”). Mas bispos das Igrejas Melquita e Maronita expressaram preocupação: temiam que o texto fosse mal interpretado em sociedades de maioria muçulmana. Entre eles estavam o patriarca greco-católico Maximos IV Sayegh e o bispo Georges Hakim (futuro patriarca Maximos V). Eles argumentaram que, em seus países (Líbano, Síria, Egito…), o diálogo inter-religioso se dava sobretudo entre cristãos e muçulmanos. Limitar o documento ao judaísmo poderia parecer desconectado da realidade local e até sugerir apoio diplomático ao recém-criado Estado de Israel (1948). O patriarca Maximos IV insistiu: “Vivemos no meio do mundo muçulmano. Não seria sábio que este documento falasse apenas do povo judeu, sem mencionar os muçulmanos, nossos irmãos descendentes de Abraão (...). Pedimos que o Islã também seja incluído.” A declaração foi então ampliada para abordar todas as religiões não cristãs, com destaque especial ao Islã. Curta e direta, Nostra Aetate tornou-se a pedra angular do diálogo inter-religioso moderno. Clara e concisa, evita um equívoco frequente: a ideia de substituir a missão pelo diálogo. O documento também rejeita a interpretação de culpa coletiva dos judeus pela morte de Cristo, corrigindo leituras de passagens como “Que o seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos”. Afirma categoricamente que a Paixão “não pode ser imputada nem a todos os judeus que viviam naquela época, nem aos judeus de hoje”. Um gesto que disse tudo A longa e dolorosa história entre Sinagoga e Igreja foi simbolizada por um gesto marcante do papa João Paulo II durante sua peregrinação jubilar à Terra Santa, em março de 2000. Diante do Muro Ocidental, ele permaneceu sozinho e colocou entre as pedras uma oração manuscrita, como fazem os fiéis judeus. Dias antes, havia visitado Yad Vashem, condenando o antissemitismo e homenageando as vítimas do Holocausto. O Vaticano divulgou posteriormente o texto da oração: “Deus de nossos pais, escolheste Abraão e seus descendentes para levar teu nome às nações. Estamos profundamente tristes pelo comportamento daqueles que, ao longo da história, fizeram teus filhos sofrer e, pedindo teu perdão, comprometemo-nos a uma fraternidade autêntica com o povo da Aliança.” Mais que um pedido de desculpas diplomático O Papa reconheceu o sofrimento das comunidades judaicas dispersas pelo mundo desde a destruição do Templo em 70 d.C. e pediu perdão, não politicamente, mas diante de Deus. Ao se referir aos judeus como “povo da Aliança”, afirmou que a Aliança de Deus com Israel não foi revogada e permanece válida ao longo da história. O rabinato israelense e comunidades judaicas ao redor do mundo reconheceram aquele momento como um ponto de virada nas relações judaico-cristãs. Assim, a Igreja Católica rejeitou formalmente a “teologia da substituição”, a crença de que todas as promessas feitas a Israel teriam passado à Igreja, e reafirmou a permanência do vínculo espiritual entre cristãos e judeus, fundamentado na fidelidade comum ao Deus de Abraão.

Uma mensagem para todo o Levante
Por
Riccardo Cristiano
Publicado

Pope Leo deu aos libaneses aquilo que é dos libaneses: o reconhecimento de sua extraordinária resiliência. Mas, ao ler suas palavras — especialmente o diagnóstico de um grave problema global que ele identificou para todos — com olhos libaneses, digamos, apenas com olhos libaneses, embora ele tenha se dirigido ao mundo inteiro, percebemos que essa resiliência precisa ser examinada. Como afirma o Papa: “À nossa volta, em quase todo o mundo, uma espécie de sentimento de impotência e pessimismo parece ter levado a melhor: as pessoas parecem já nem sequer conseguir perguntar-se o que podem fazer para mudar o rumo da história. Aparentemente, as grandes decisões são tomadas por poucos e, muitas vezes, em detrimento do bem comum, o que parece ser um destino inevitável.” Nas últimas semanas em Beirute, senti que essa resiliência — mais privada do que pública ou comunitária — se expressa, muitas vezes, como uma profunda desconfiança na política. Um clima de desencanto leva ao retraimento ou à adaptação. Isso leva estrangeiros a se perguntarem se ainda faz sentido manter um arcabouço político que remete, em boa parte, ao período da guerra civil. Na minha visão, para que o Líbano reencontre plenamente a “mensagem” da qual João Paulo II falou em 1997, seria necessária uma reconciliação entre a esfera política e o sentimento comum da população. E, novamente, leio as palavras do Papa em chave libanesa: “não há reconciliação duradoura sem uma meta comum, sem uma abertura para um futuro em que o bem prevaleça sobre o mal sofrido ou infligido, no passado ou no presente. Por isso, uma cultura da reconciliação não nasce apenas de baixo, da disponibilidade e da coragem de alguns, mas precisa de autoridades e instituições que reconheçam o bem comum como superior ao bem parcial. O bem comum é mais do que a soma de muitos interesses: aproxima o mais possível os objetivos de cada um e move-os numa direção em que todos terão mais do que se seguissem em frente sozinhos. A paz é, na verdade, muito mais do que um sempre precário equilíbrio entre aqueles que vivem separados sob o mesmo teto. A paz é saber viver juntos, em comunhão, como pessoas reconciliadas. Uma reconciliação que, além de nos fazer conviver, nos ensinará a trabalhar juntos, lado a lado, por um futuro partilhado.” Se esse foi, ao menos em parte, o sentido do seu discurso, então sua visita a Beirute não foi apenas para Beirute, mas para todo o grande — ou novo — Levante que se revela na sucessão de territórios duramente provados, muitas vezes brutalmente, do Mediterrâneo à Mesopotâmia. Territórios de fronteiras conhecidas, marcados por um passado doloroso, histórias violentas, negações, protetorados e assassinatos. Mas, como Bispo de Roma formado na tradição romana, Leo sabe que alguns países europeus, um dia, após séculos de conflitos e depois da Segunda Guerra, descobriram que eram vizinhos, depois companheiros de viagem, depois amigos — e contribuiram para fundar o experimento da União Europeia. Por que Líbano, Síria e Iraque não poderiam tentar algo semelhante? Afinal, são terras sobre as quais diversos patriarcas de Antioquia têm jurisdição. A história pode virar suas páginas quando quer — e, às vezes, quer. Claro, os desafios são enormes: o peso do passado, as feridas ainda abertas, o reconhecimento apenas parcial e a desconfiança compreensível. Mas, se as Igrejas de Antioquia — muitas sediadas em Beirute — assumissem essa profundidade estratégica, essa perspectiva, reduziriam o peso da nostalgia, das visões limitadas e dos fechamentos. Tornar-se-iam as Igrejas “em saída” de Francisco, ou a Igreja missionária de que fala Leo. Os temores de encolhimento institucional dependem do olhar. Quem vê apenas sua montanha ou seu vale enxerga, inevitavelmente, perda. Mas quem amplia o horizonte e imagina florestas e planícies enquanto caminha no próprio quintal rejeita, antes de tudo em si mesmo, a lógica da diminuição. É nessa abertura que Beirute poderia voltar a se ver como a locomotiva de um trem composto de vários vagões — cada um com sua história e identidade — ligados pelo mesmo engate: a necessidade de reconexão com o Mediterrâneo, com o intercâmbio não apenas de mercadorias, mas também de ideias. Nas ruas de Gemmayzeh e Achrafieh, senti que existe ali uma presença cristã viva — perceptível também a nós, europeus — mas que precisa respirar, integrar-se a um discurso mais amplo. E é a sua cidade que torna isso possível e, sobretudo, compreensível para este Papa que, como Francisco, acredita na “tensão polar”. Os polos não se anulam; complementam-se, necessitam-se. No caso de Beirute, um polo é a montanha tão próxima, com suas tradições a preservar; o outro é o mar, com seus horizontes que trazem trocas, encontros e ideias novas — essenciais para mudar e crescer juntos. Para muitos, esse é o caminho do trem — o caminho que Beirute poderia ajudar o Levante inteiro a reencontrar. Riccardo Cristiano: Especialista em assuntos do Vaticano na rádio pública italiana RAI; autor de várias obras sobre o diálogo inter-religioso e o pontificado do Papa Francisco.

O que é a ecologia integral detalhada pelo papa Francisco na Laudato Si’?

Por ocasião da visita do papa Leão XIV ao Líbano, e no momento em que o trigésimo Cúpula do Clima se encerra em Belém, no Brasil, sem resultados significativos, vale retomar um conceito e um documento centrais no debate atual. Trata-se da ecologia integral e da Laudato Si’ , encíclica publicada pelo papa Francisco em 2015. Juntos, eles redefinem os contornos de uma ecologia humana e inclusiva defendida pela Igreja. O termo “ecologia integral” propõe uma visão transdisciplinar e holística da ecologia, oferecendo um panorama completo do ser humano e do mundo. Ao difundir esse conceito, a Igreja Católica busca destacar “que a indispensável conversão ecológica não se limita às questões ambientais em sentido estrito” e que “a dinâmica espiritual da ecologia integral se nutre da esperança cristã e integra a vida espiritual, o respeito pela dignidade de toda vida e toda pessoa, e a exigência de fraternidade e justiça social”, segundo o site da Igreja Católica na França. A instituição também afirma ter a responsabilidade de cuidar da Criação. “ Esquecemo-nos de que nós mesmos somos terra” Embora discutida desde os anos 1980, a ideia de ecologia integral ganha novo impulso a partir da Laudato Si’ , publicada em 2015. O título da encíclica remete ao cântico de São Francisco de Assis, “Louvado sejas, meu Senhor”. No texto, longo e denso, o papa retoma a noção de que a proteção da natureza está no centro do sentimento religioso e da fé no Criador. “Crescemos a pensar que éramos seus proprietários (do planeta) e dominadores, autorizados a saqueá-la. (...) Esquecemo-nos de que nós mesmos somos terra (cf. Gn 2,7). O nosso corpo é constituído pelos elementos do planeta; o seu ar permite-nos respirar e a sua água vivifica-nos e restaura-nos”, diz a introdução. O papa inicia com um diagnóstico do estado do meio ambiente, sob o título “O que está acontecendo com nossa casa”. Um retrato contundente dos custos que as rápidas transformações da civilização humana impõem à natureza. O texto percorre os principais desafios atuais da ecologia: poluição e mudança climática, crise da água, perda da biodiversidade, deterioração da qualidade de vida e degradação social. Se o ser humano “também é uma criatura deste mundo, que tem direito a viver e ser feliz (...), não podemos deixar de considerar os efeitos da degradação ambiental, do modelo actual de desenvolvimento e da cultura do descarte sobre a vida das pessoas”, escreve o papa. Ele destaca ainda as desigualdades planetárias e a falta de reação diante de um desastre amplamente anunciado. Diálogo entre ciência e religião Em Laudato Si’ , o papa Francisco dedica um capítulo inteiro a mostrar como a fé oferece um sentido distinto ao que a ciência revela sobre a crise climática. Consciente de que muitos consideram que ambas as esferas são antagônicas, propõe um “diálogo intenso e frutuoso” para ambas. Para reconstruir uma ecologia reparadora, afirma que “nenhum ramo das ciências e nenhuma forma de sabedoria pode ser transcurada, nem sequer a sabedoria religiosa com a sua linguagem própria.” O papa também aborda “a raiz humana da crise ecológica”, em sintonia com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), principal órgão científico da ONU sobre o tema, que aponta a responsabilidade das atividades humanas no aquecimento global. Ele cita o poder conferido pela tecnologia, a globalização e os impactos de um modelo único de desenvolvimento. Não é possível combater a degradação em pastas separadas Para Francisco, a crise do século XXI não é dupla, ambiental de um lado e social de outro, mas única, global e profundamente interligada. Essa é a tese central da ecologia integral: o mundo deve ser visto como um sistema de relações, no qual escolhas econômicas, políticas e culturais moldam tanto os ecossistemas quanto os destinos humanos. Nesse sentido, a luta contra a degradação da vida não pode ser fragmentada. Poluição, pobreza, exclusão e exploração dos recursos são capítulos de uma mesma crise. As respostas, portanto, precisam ser integradas, articulando dinâmicas naturais e estruturas sociais. A ecologia também deve ser “cultural”, afirma Francisco, ressaltando o valor do patrimônio e da memória coletiva. As respostas aos desafios ambientais devem dialogar com culturas locais, distantes de modelos uniformizantes. A perda de uma cultura, observa ele, pode ser mais grave que a extinção de uma espécie. O papa também traz a ecologia ao cotidiano: aos gestos, às relações, aos bairros, às moradias e aos espaços públicos, tudo o que molda a qualidade de vida concreta. Que mundo vamos deixar para eles? Francisco situa a ecologia integral no centro do conceito de “bem comum”, entendido como o conjunto de condições que permite a indivíduos e grupos alcançar plenamente seu desenvolvimento. Três pilares sustentam essa noção: a dignidade da pessoa, a vitalidade dos corpos intermediários, especialmente a família, e a paz social baseada na justiça distributiva. O Estado, nesse contexto, é lembrado de seu papel: proteger e promover o bem comum. Mas o texto também destaca as crescentes desigualdades que atravessam o mundo. A ecologia integral inclui ainda a responsabilidade diante das gerações futuras. O texto então lança a pergunta central: que mundo queremos deixar para elas? Uma questão urgente diante da crise ética e cultural marcada, segundo o papa, pela ascensão do individualismo, pela fragilização dos vínculos familiares e sociais e pela dificuldade de pensar para além dos interesses imediatos.