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O comboio do CICV que transportava os civis libertados, partindo da zona ocupada por Israel no sul do Líbano, seguiu até o ponto que marca o início da área controlada pelas autoridades libanesas. (AFP)
O Essencial do Dia
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Por LevantTime .
Publicado em set 5, 2026 - 00:55
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) anunciou nesta sexta-feira que transferiu para o Líbano outras quatro pessoas libertadas por Israel, um dia após a libertação de um primeiro civil. Segundo o CICV, trata-se de três libaneses e dois sírios. É a primeira vez que uma operação desse tipo ocorre desde o início, em abril, das negociações entre o Líbano e Israel, sob mediação dos Estados Unidos. Beirute havia solicitado, durante a última rodada de negociações, em agosto, a libertação de um primeiro grupo de cidadãos libaneses capturados por Israel no sul do Líbano, onde trava uma guerra contra o Hezbollah, aliado do Irã. Familiares estimam que cerca de 30 pessoas estejam detidas, entre elas combatentes do movimento islâmico. O presidente libanês, Joseph Aoun, agradeceu em comunicado aos Estados Unidos e ao CICV e afirmou que essa libertação «confirma o acerto da posição» do Líbano, que participa de negociações com Israel rejeitadas pelo Hezbollah. Os Estados Unidos elogiaram na quinta-feira «o governo de Israel e o governo do Líbano por demonstrarem boa-fé por meio desses primeiros passos», expressando a esperança de que isso sirva «de base para discussões mais amplas sobre outras questões civis». Os dois países devem realizar uma nova rodada de negociações em setembro, em uma data ainda não definida. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira «ocorre após os esforços realizados por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os restos mortais de líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano» entre 1984 e 1986. Israel intensifica seus ataques No terreno, ataques israelenses deixaram três mortos e 23 feridos nesta sexta-feira no sul e no leste do Líbano, segundo um veículo de imprensa estatal. Israel intensificou nesta sexta-feira seus ataques na região, depois de anunciar, na noite de quinta-feira, que havia assumido o controle da crista montanhosa de Ali Taher, que servia como posição estratégica para o Hezbollah, aliado do Irã, e domina, entre outras áreas, a cidade de Nabatiye. O Exército agora reforçará suas posições na região para «impedir que o inimigo volte a se posicionar na área», declarou o ministro da Defesa israelense, Israel Katz. Outro ataque também atingiu a região de Tiro, especialmente a localidade de Rmadiye, segundo a Agência Nacional de Notícias (ANI). Para Trump, a guerra no Irã é «coisa pequena» Sobre a guerra no Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tentou nesta sexta-feira minimizar seu impacto para o país, às vésperas das cruciais eleições legislativas de meio de mandato. «Muita gente não chama isso de guerra. Eu digo que é um conflito militar, porque para nós é coisa pequena (“small potatoes”). Não é nada demais. Fizemos a Venezuela e fizemos isso», respondeu a jornalistas no Salão Oval, ao ser questionado sobre seu vice-presidente, JD Vance, que no dia anterior havia dito não querer descrever o conflito como uma guerra. Enquanto a forte alta dos preços dos combustíveis ligada à guerra ameaça custar aos republicanos de Donald Trump sua maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato de novembro, sua administração tenta minimizar a dimensão do conflito. Segundo o presidente, os Estados Unidos realizam «ataques pontuais» e «não estão atualmente combatendo». Trump também afirmou que os Estados Unidos controlam o estreito de Ormuz e que dizimaram as Forças Armadas iranianas. «O que conseguimos foi extraordinário. Assumimos o controle da Venezuela e, essencialmente, assumimos o controle do Irã», declarou.
Homenagem
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Por Michel Hajji Georgiou - Publicado em set 4, 2026 - 23:28
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De Hassan Rifaï, fica a imagem de um jurista respeitado, sereno, referência em direito administrativo e constitucional, que argumentava com voz calma e trêmula para apontar os desvios e descaminhos dos políticos em relação ao regime democrático parlamentar e à Constituição. No entanto, o ex-deputado e ex-ministro, falecido em 3 de setembro de 2025, era também um homem revoltado. Um inconformista. Mesmo aos cem anos. Sobretudo aos cem anos! Já o havia sido na infância, arengando multidões em Baalbeck contra o Mandato, e continuou assim ao longo de toda a sua carreira como advogado e parlamentar. Aos cem anos, completamente desiludido com a República e seus flibusteiros, sua cólera contida não havia se apaziguado. «O Líbano é um país impossível!», dizia ao autor destas linhas em uma entrevista realizada alguns anos antes de sua morte e jamais publicada. Mas atenção. Hassan Rifaï não era niilista, nem alguém que negasse tudo por princípio. Lutara a vida inteira por uma determinada ideia do Líbano. Mais precisamente, pelo Grande Líbano, unido e plural. E sabia avaliar em sua justa medida a experiência libanesa, com tudo o que ela tivera de positivo. Mas o ser humano o havia decepcionado. E era precisamente o ser humano que ele procurava. Nunca o encontrou na cena pública libanesa. Pelo menos, não a serviço da República. Rifaï era um homem do direito, sempre elegante, irrepreensível, tudo o que se espera de um homem de sua estatura moral e intelectual. Mas também era intransigente. Implacável, até. Sem dúvida, seu apego ao país e ao regime democrático o levara a reconhecer uma única fidelidade: um determinado código de valores e uma determinada ideia da República. Por isso se mostrava crítico diante de todos os erros e de todos os desvios, começando pelos cometidos por seus próprios amigos políticos. Não poupava ninguém. Nem comunidades nem clãs, nem líderes religiosos, ele próprio era laico, e muito menos os responsáveis políticos. Ninguém escapava ao seu crivo, e Rifaï sentia um certo prazer em desconstruir os mitos e as ideias feitas que transformavam este ou aquele presidente da República ou primeiro-ministro em um líder excepcional. Seus critérios eram objetivos: a coerência entre os atos e os princípios democráticos. Assim, ninguém encontrava verdadeiramente graça aos seus olhos. A constatação era terrível: nenhum dos dirigentes, ao longo da história do país, havia realmente respeitado a democracia parlamentar libanesa. Nenhum. Não porque colocasse todos no mesmo plano. Tinha distância crítica suficiente para reconhecer as qualidades e os defeitos de uns e de outros. Gostava de citar Léon Duguit: «O direito constitucional não tem outro guarda-freio senão a boa-fé dos homens que o aplicam.» Quase fizera dessa frase seu credo republicano. E seu veredicto era implacável: essa boa-fé, simplesmente, ele não a encontrara. Políticos demais, homens de Estado de menos. E, sobretudo, muita mentira e hipocrisia. Um dia, um grande dirigente lhe aconselhou: «Não construa estradas para as pessoas. Caso contrário, elas deixarão de procurá-lo.» Apesar do respeito que nutria por aquele aliado político, a frase o deixara perplexo e chocado. Ela continha, por si só, toda uma concepção do poder: jamais resolver definitivamente o problema daquele que se pretende representar, pois, desaparecendo sua necessidade, desapareceria também a própria razão de sua dependência. O projeto do Estado ficava, assim, adiado indefinidamente. Ou, de todo modo, quando existiam pessoas de bem, o sistema não lhes permitia chegar aos cargos de responsabilidade. Rifaï era um rebelde, sim, mas com o rigor e a precisão de um ourives do direito administrativo e constitucional. E era provavelmente isso que o distinguia no meio político libanês. Rebelde o suficiente, em todo caso, para pagar um preço por isso. Em agosto de 1982, foi vítima de uma tentativa de assassinato depois de se opor ao diktat israelense. Em Taif, em 1989, foi praticamente posto à margem por ter percebido de imediato as falhas existentes e as armadilhas acrescentadas às reformas constitucionais. A partir de 1992, sob a ocupação síria, sofreu ostracismo político por se opor ao aparato de segurança que sustentava a tutela síria e à política de Rafic Hariri. Mas era justo. Podia se opor ao confessionalismo político e, ao mesmo tempo, reconhecer que sua abolição no estágio atual seria uma catástrofe para o Líbano, e que uma democracia reduzida à mera lógica dos números faria soar de uma vez por todas o dobre de finados da fórmula libanesa e da presença cristã no país. Podia concordar com a ideia de que os cristãos haviam sido prejudicados pelas reformas constitucionais de Taif, os sunitas também, sustentava, ao mesmo tempo em que lembrava os excessos cometidos no exercício do poder pelos presidentes da República entre 1943 e 1990 e advertia contra qualquer surto de nostalgia por essas práticas sob a bandeira dos «direitos dos cristãos». Uma deriva rumo a um regime presidencial ou semipresidencial constituía, a seu ver, um perigo para os cristãos. A importância do regime parlamentar herdado da Terceira República francesa residia precisamente no fato de que o presidente da República não era politicamente responsável perante a Câmara dos Deputados. Isso o colocava, segundo Rifaï, em uma posição privilegiada. Acima da disputa, podia conduzir o navio da República a bom porto sem ficar atolado nas lutas pelo poder. Essa responsabilidade moral de preservar a Constituição e a República era, a seus olhos, muito mais importante do que qualquer responsabilidade política. Mas ainda era preciso convencer disso os principais interessados. Rifaï podia reconhecer a importância de uma descentralização administrativa e, ao mesmo tempo, recusar que essa reivindicação se transformasse em um slogan ideológico a mascarar uma vontade separatista. Nesse sentido, lembrava que Beirute e o Monte Líbano haviam sido privilegiados na construção do Grande Líbano, ao passo que as regiões periféricas, sobretudo a sua, Baalbeck, haviam sido desprezadas. Isso contribuíra para enfraquecer o sentimento nacional libanês, que dependia, afinal, de um bem-estar baseado no respeito à dignidade humana. A adesão à cidadania pressupunha que todos fossem tratados da mesma forma do ponto de vista do desenvolvimento. Sem igualdade entre os cidadãos, a soberania só podia vacilar. Esse, aliás, foi o sentido de sua primeira intervenção no Parlamento, em 1968. Os acontecimentos que se seguiram conferiram uma gravidade singular àquele alerta. Os desequilíbrios econômicos, sociais e territoriais contribuíram para alimentar as reivindicações da esquerda e de setores da rua muçulmana, em um país já atravessado por tensões comunitárias, ingerências externas e pelo crescente poder das organizações armadas. Contribuíram, assim, para o enfraquecimento progressivo do Estado, antes da guerra, das ocupações sucessivas e do surgimento de estruturas paraestatais. Em última análise, Hassan Rifaï encarna um pouco esse modelo libanês de personalidade cosmopolita, complexa, situada fora das trincheiras comunitárias e partidárias, respeitada de maneira quase unânime, sobretudo fora dos círculos políticos, mas consultada dentro desses mesmos círculos apenas quando necessário e por interesse. O Líbano não gosta de espíritos independentes e insubmissos demais, embora seu sistema ainda conserve brechas que permitem que essas pessoas existam e façam sua voz ser ouvida. Elas são toleradas, mas devem permanecer à margem. Disso depende a sobrevivência do Estado-zaamat e do Estado-jamaat, que prefere invariavelmente recorrer a tutores estrangeiros em vez de se voltar para pessoas capazes de gerar, propor e implementar soluções a partir de dentro. O sistema político libanês e seus protagonistas detestam a noção de responsabilidade, que lhes causa profunda ansiedade, e preferem a dependência ou, pior ainda, a servilidade. Ora, repetia Rifaï, citando mais uma vez Léon Duguit: «Onde está a responsabilidade, está o poder.» Deve surpreender, então, que no Líbano, onde a responsabilidade não está em lugar algum, o poder também não esteja em lugar algum? Ou, mais exatamente, que esteja sempre em outro lugar?
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Por Jad Akhawi - Publicado em set 4, 2026 - 15:00
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A batalha de Ali al-Taher não foi apenas um confronto militar em torno de uma colina estratégica no sul do Líbano. Apesar de sua área limitada, o local se transformou em um ponto de convergência de cálculos militares, políticos e regionais, revelando um dos aspectos centrais do conflito que persiste no Líbano: quem controla o território, quem detém as armas e quem decide sobre a guerra e a paz? O mais significativo não é apenas a entrada de Israel no local, mas a insistência do Hezbollah em se recusar a entregá-lo ao Exército libanês, embora o Exército seja a única instituição legítima que deveria assumir a responsabilidade pelo território libanês, sobretudo nas áreas de fronteira diretamente ligadas à segurança e à soberania do país. Por que o Hezbollah se recusou? Porque a entrega de Ali al-Taher ao Exército não teria sido entendida como uma simples medida no terreno. Teria carregado um significado político que ia muito além da própria colina. Uma medida desse tipo teria equivalido a um reconhecimento de fato da autoridade do Estado libanês sobre as decisões de segurança e militares no Sul, assim como do princípio de que nenhuma outra força armada pode agir como se exercesse autoridade efetiva sobre o terreno. O local tornou-se, assim, um teste da autoridade do Estado, e não apenas uma posição militar avançada. Quem matou os combatentes? Esse continua sendo o episódio mais obscuro da narrativa da batalha. A versão israelense fala em combatentes mortos e outros que fugiram, enquanto as informações independentes sobre quantas pessoas estavam no local, qual era a natureza de sua missão e qual foi seu destino final continuam incompletas. As versões contraditórias também levantam inúmeras perguntas que não podem ser respondidas apenas com base em comunicados militares. E não se trata de um simples detalhe operacional: A maioria dos combatentes foi morta dentro do local? Eles conseguiram se retirar por túneis e passagens? Ou haviam sido evacuados antes do início da operação israelense? Cada um desses cenários tem um significado diferente. Se os combatentes permaneceram no local até o último momento, isso significaria que houve um confronto direto que terminou com uma clara superioridade militar israelense. Se, por outro lado, eles foram evacuados previamente, as perguntas passariam a ser quem tomou essa decisão, por que ela foi tomada e se a evacuação fazia parte de um entendimento mais amplo ou se foi apenas uma medida militar preventiva. E se ficar comprovado que um número significativo deles deixou o local antes da entrada das forças israelenses, as principais perguntas serão então: como eles saíram, quem facilitou sua saída e isso ocorreu com o conhecimento de atores locais ou internacionais? Até o momento, não há elementos públicos suficientes para determinar qual desses cenários corresponde ao que de fato ocorreu. Mas a ausência de informações não reduz a importância dessas perguntas. Ao contrário, aumenta as dúvidas sobre o que aconteceu nas horas que antecederam a tomada do local. E quanto à visita do embaixador dos Estados Unidos a Israel? O momento merece atenção. A escalada em torno de Ali al-Taher coincidiu com uma movimentação diplomática americana em relação a Israel, enquanto surgiam informações sobre conversas a respeito do local e sobre a possibilidade de que ele acabasse sendo entregue ao Exército libanês. Isso não significa necessariamente que a decisão tenha sido tomada fora do Líbano, nem que tenha sido alcançado um acordo plenamente definido entre Washington, Tel Aviv e Beirute. Mas sugere que o local já não é visto apenas como uma questão militar local. Não há base para afirmar que a visita do embaixador americano tenha feito parte de um acordo secreto sobre Ali al-Taher. Tampouco se pode afirmar com certeza que tudo o que ocorreu tenha sido resultado de um entendimento prévio entre as partes envolvidas. No entanto, está claro que Washington vê o futuro do local como parte de um dossiê mais amplo, relacionado ao cessar-fogo, à estabilização da fronteira, à prevenção de qualquer presença militar fora da autoridade do Estado libanês e à necessidade de impedir que as áreas fronteiriças se transformem em plataformas permanentes de confronto. Ali al-Taher passa, assim, a fazer parte de negociações que vão muito além de sua geografia. O local pode ser pequeno no mapa, mas está ligado a grandes questões relacionadas aos arranjos no Sul, ao papel do Exército libanês, ao futuro das armas fora do controle do Estado e aos limites da influência israelense na região. O paradoxo que colocou o Hezbollah em uma posição constrangedora O grande paradoxo político é que o Hezbollah se recusou a entregar a colina ao Exército libanês, mas no fim também não conseguiu mantê-la. Se a operação israelense terminar com a retirada das forças israelenses e a entrega do local ao Exército libanês, o desfecho será muito diferente da situação que o Hezbollah tentou impor ou preservar: o Hezbollah se recusou a entregar o local ao Estado, Israel o expulsou de lá e, em seguida, o Estado voltou a assumir a responsabilidade. Em outras palavras, o Hezbollah se recusou a reconhecer voluntariamente a autoridade do Exército, mas pode acabar diante de uma realidade que impõe essa autoridade por outros meios. É isso que torna a situação politicamente constrangedora, porque o resultado final pode parecer ter alcançado, de forma indireta, aquilo que o Hezbollah se recusou a fazer diretamente. Daí surge uma pergunta evidente: por que a entrega do local ao Exército não foi considerada a opção menos custosa para o Líbano? Essa medida poderia ter sido apresentada como um fortalecimento do papel do Estado, uma forma de proteger o Sul e um meio de impedir que Israel utilizasse a presença do Hezbollah como pretexto para permanecer no terreno ou avançar ainda mais. A recusa em entregar o local ao Exército, ao contrário, manteve-o na zona de confronto e permitiu que Israel apresentasse sua operação como uma resposta a uma presença militar fora da autoridade do Estado. Ali al-Taher resume o problema libanês A questão vai muito além dessa colina. O Líbano não pode recuperar sua soberania enquanto coexistirem duas autoridades militares: a do Exército e a de armas fora do controle do Estado. Também não pode pedir à comunidade internacional que respeite suas fronteiras enquanto as decisões militares dentro dessas fronteiras continuarem divididas entre as instituições do Estado e uma organização armada que dispõe de capacidades independentes. Ao mesmo tempo, o Líbano não pode exigir que Israel se retire de seu território enquanto as decisões de segurança relativas a esse mesmo território continuarem sendo objeto de uma disputa interna. Enquanto houver armas fora do controle do Estado, o argumento israelense continuará existindo e o Sul seguirá exposto a novas rodadas de escalada. A soberania não se compartilha. Ou o Exército libanês é a única autoridade militar, ou o Líbano continuará sendo um palco aberto para conflitos regionais, nos quais se cruzam cálculos iranianos, israelenses e americanos, enquanto o Estado e a sociedade pagam o preço do confronto. Por isso, a verdadeira pergunta depois de Ali al-Taher não é: Quem ganhou a colina? Mas: Quem a controlará quando a batalha terminar? Se a resposta for o Exército libanês, Ali al-Taher poderá marcar o início de uma transição no Sul, da lógica da «resistência» para a lógica da responsabilidade do Estado. Isso poderia constituir um primeiro passo rumo a uma redefinição da segurança nacional, de modo que a defesa das fronteiras passe a ser responsabilidade das instituições do Estado, e não de uma força que atue de maneira autônoma. Se Israel permanecer, porém, o Líbano terá mais uma vez perdido parte de sua soberania, independentemente da narrativa que cada lado apresentar para justificar o que aconteceu. Em ambos os casos, permanece uma verdade essencial: nem o Hezbollah pode substituir o Estado, nem Israel pode ser o garantidor de sua soberania. A soberania libanesa só pode ser recuperada pelo Estado libanês, protegida por seu Exército e consolidada por uma decisão política clara que ponha fim à dualidade das armas e das autoridades.
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O « Agrupamento dos xiitas libaneses » ao Papa: pelo monopólio das armas pelo Estado

O Agrupamento dos xiitas libaneses e’enviou uma mensagem ao papa Leão XIV afirmando que o controle exclusivo das armas pelo Estado libanês “é a base essencial para a construção de um Estado forte e justo”. Apoiando a paz “de acordo com as iniciativas árabes e a legitimidade internacional”, o Grupo destacou seu compromisso de “agir exclusivamente sob a autoridade do Estado e do Estado de Direito, e de apoiar tudo o que fortaleça sua presença”. O “Grupo de Xiitas Libaneses” reúne acadêmicos, jornalistas, altos profissionais e cidadãos xiitas conhecidos por sua postura soberanista, fundamentalmente contrária ao projeto político do Hezbollah. A seguir, o texto completo da mensagem enviada pelo Grupo ao Santo Padre. Sua santita’ papa Leone XIV, O Agrupamento dos xiitas libaneses e’ lieto di poter indirizzare a sua santita questa lettera di accoglienza im occasione della sua benedetta visita in Libano, una visita che noi consideriamo una tappa importante che dimostra il suo attaccamento al sostegno continuo della cultura della pace e per favorire il dialogo tra i figli della famiglia dell’umanita’ intera, e lo schierarsi a fianco dei paesi che attraversano momenti delicati come quella nostra. Noi in questo Aggrupamento crediamo che il Libano e’ un paese per tutti i suoi figli e crediamo che la sua forza e’ rappresentata e si incarna nello stato e nelle sue istituzioni legali, e nel consolidamento del vivere insieme nel rispetto della legalita’ internazionale. Vorremo allora mettere nelle sue mani questi punti del nostro credo: 1 - Vorremo l’applicazione di tutte le risoluzioni che riguardano il Libano, in modo d preservare la sua sovranita’, consolidare la sua stabilita’ e il ristabilimento delle sue isituzioni 2 - Crediamo che le armi siano una esclusivita dello stato e una base fondamentale per edificare uno stato forte e giusto capace di difendere tutti i suoi cittadini 3 – Ci impegniamo a agire e lavorare sotto l’ombrello dello stato e a rispettare le sue leggi, e tutto quello che rafforza la sua presenza, la sua legittimita’ e la sua referimento 4 - Appogiamo il processo di pace secondo le iniziative arabe e la legalita’ internazionale partendo da una base consolidata che la pace giusta e globale sia l’unica via per un futuro stabile per i popoli della regione, in conferma dello slogan della sua visita: “Beati i fautori della pace”. Sua santita’, I figli della comunita’ sciita sono orgogliosi del loro storico ruolo nazionale e confermano il loro desiderio sincero di fare parte attiva del consolidamento dello stato,e dell’edificazione di una societa’ giusta e ugualitaria e il rispetto reciproco tra i suoi cittadini. Noi vediamo nella sua visita un sostegno spirituale e morale per la ripresa nazionale, e un incoraggiamento al dialogo che rappresenta l’essenza della convivenza libanese. Appreziamo molto il vostro interessamento al Libano sperando che Dio vi dia’ la salute e la forza per proseguire la sua missioneper il rafforzamento della dignita dell’uomo e il consolidamento della cultura di pace in questo mondo afflitto dalle crisi. A sua santita’ i nostri rispetti e sinceri saluti Dal Agrupamento dos xiitas libaneses Jad Al Akhaoui

Erro de Cálculo na Previsão de Toynbee
Por
Nabil Manuel Younes
Publicado

Em 1957, o historiador e filósofo da história Arnold Toynbee proferiu uma palestra no Cénacle Libanais intitulada “Le Liban, expression de l’Histoire” . Ele analisou a complexidade da história libanesa e suas interações com civilizações vizinhas, destacando como o Líbano — devido à sua posição geográfica e à sua composição multiconfessional — serviu tanto como ponto de encontro quanto como campo de batalha para religiões e identidades em conflito. Toynbee concluiu sua fala com um alerta surpreendentemente premonitório. Ele afirmou: "Se, no Levante, a fronteira entre os dois impérios globais — o americano e o russo — fosse traçada ao longo da crista do Monte Anti-Líbano, a República Libanesa correria o risco de compartilhar o destino do Estado de Israel. Assim como Israel, o Líbano não seria viável se se encontrasse em um estado permanente de hostilidade com seus vizinhos a leste." A palestra ocorreu em meio ao clima sombrio da Guerra Fria, com tensões geopolíticas e rivalidades ideológicas entre Estados Unidos e União Soviética, além de seus respectivos aliados. Naquele período, enquanto a Cortina de Ferro se ergia sobre nove países europeus, transformando fronteiras em zonas de repressão e hostilidade, guerras eclodiam ao longo da fronteira das Coreias e nas fronteiras instáveis da Indochina. Ao mesmo tempo, a linha de demarcação entre os impérios americano e russo se estabeleceu, como Toynbee temia, ao longo da crista da cadeia do Anti-Líbano — na atual fronteira entre Líbano e Síria. Diante dessa situação complexa, o Líbano alinhou-se firmemente aos Estados Unidos, declarando em 16 de março de 1957 sua adesão à Doutrina Eisenhower, após ter brevemente ensaiado sua participação no Pacto de Bagdá, dentro das alianças ocidentais da Guerra Fria. Do outro lado da fronteira, a recusa do Ocidente em apoiar os estados árabes — incluindo a Síria — e o apoio incondicional de Washington a Israel levaram a Síria, então dominada pela esquerda, e a República Árabe Unida (RAU), criada em 1958 pela união do Egito com a Síria, a se aproximarem decisivamente da União Soviética. Os libaneses, confiantes na supremacia global americana e em sua superioridade militar sobre a URSS, não se alarmaram com o alerta de Toynbee. A fronteira libano-síria, conforme definida e consagrada na Constituição libanesa — única no mundo por estabelecer uma fronteira nacional em um texto constitucional — deixou de ser apenas uma linha administrativa ou ficção legal. Tornou-se simultaneamente uma fronteira entre dois estados e uma linha divisória política, econômica e ideológica entre as esferas de influência americana e soviética. Quando o presidente Fouad Chehab se encontrou com Gamal Abdel Nasser em uma tenda na fronteira, cada um permanecendo em seu território, o simbolismo do local reforçava tanto a importância nacional quanto regional dessa linha. No entanto, a premonição de Toynbee acabou sendo falsa. Por um tempo, essa separação protegeu o Líbano das ambições expansionistas da Síria — políticas, de segurança, econômicas e ideológicas —, funcionando como uma vantagem para o país por mais de um quarto de século. A grande desgraça do Líbano ocorreu quando os Estados Unidos — fiéis ao pragmatismo e à disposição de trocar alianças por acordos, como o realizado com a Síria de Assad — primeiro borraram essa linha e depois quase a apagaram, ao organizar a entrada do exército sírio no país, em abril de 1976. Por meio de manobras inspiradas por Henry Kissinger, Washington confiou a Damasco uma espécie de tutela sobre o Líbano. A remoção dessa linha de demarcação — fruto de um arranjo EUA-Síria, sem qualquer consideração pelos libaneses, que ainda acreditavam que alianças americanas se baseavam em princípios — permitiu que a Síria impusesse sua hegemonia. A aliança entre Estados Unidos e Líbano revelou-se apenas um pacto circunstancial e efêmero, ditado pelos interesses americanos durante a Guerra Fria. Toynbee também se enganou em outro ponto: a alternativa a fronteiras tensas nem sempre é paz; pode muito bem ser dominação.

Del Toro: exorcizar o homem do seu monstro
Por
Michel Hajji Georgiou
Publicado

É verdade que um realizador explora essencialmente uma única temática – ou um único universo – ao longo de toda a sua obra, no sentido em que tudo acaba por constituir um conjunto coerente, como sugeria Jean-Luc Godard? Guillermo del Toro parece enquadrar-se perfeitamente nessa teoria. O realizador mexicano, que acaba de apresentar (na Netflix) sua própria versão de uma das figuras mais exploradas do cinema – o Frankenstein de Mary Shelley – parece animado por uma intuição matricial, quase obsessiva, e até profética, que se pode encontrar em todos os seus filmes e que lhe confere uma coerência rara. Em del Toro, o monstro nunca é o monstro. A alteridade disforme, a carne cicatrizada, a anatomia contra-natura, nunca são sinônimo de monstruosidade real em seus filmes. Bem ao contrário: no realizador mexicano, o monstro é a figura mais humana de todas, aquela que carrega o peso do sofrimento, da solidão, da rejeição, da humilhação, mas também do amor. É verdade que ele não é o primeiro a aventurar-se por esse caminho. Mas, num mundo cada vez mais desumanizado, seu empreendimento é ainda mais perturbador pela sua verdade. O verdadeiro monstro? É o homem, quando abdica de sua própria humanidade, quando se deixa possuir pelo impulso de dominação, pelo narcisismo, pela ciência fria, pela guerra ou pelo medo da morte e pelo desejo de usurpar o lugar do Demiurgo. Nesse sentido, toda a obra de del Toro aparece como uma longa acusação contra os fabricantes de monstros: os regimes, os exércitos, os laboratórios, os cientistas, os pais tirânicos e os moralistas gélidos que pretendem estar do lado do Bem, da Razão ou da modernidade científica – mas que só produzem, no final, destruição. Não há monstros, nos diz del Toro. Há apenas carrascos, que se acreditam investidos de um projeto gigantesco, mas que são, na verdade, apenas figuras delirantes em busca de uma reparação de sua ferida narcísica. Em El laberinto del fauno ( O Labirinto do Fauno – 2006), sem dúvida um dos mais belos filmes do século XXI, o suposto monstro – o fauno inquietante, entre sombra e luz, mensageiro de um mundo arcaico – não é, na verdade, senão uma resposta espiritual à barbárie franquista. O verdadeiro monstro é o capitão Vidal, protótipo do fascista frio, mecânico, isento de dúvidas, obcecado pela descendência e pelo mito do pai. À inocência de Ofelia e seu imaginário salvador responde a crueldade metódica do poder. O monstro mitológico torna-se um refúgio, uma figura reguladora, um último bastião contra a devastação moral. O que Del Toro tenta dizer aqui é essencial: o monstro não é o terror, é o antídoto contra o terror; o último refúgio da inocência para evitar e conjurar o horror. O santuário salvador onde a alma ainda pode respirar. A mesma lógica permeia A Forma da Água (2017), essa obra-prima em que uma criatura aquática, prisioneira de um laboratório militar, torturada em nome da ciência, revela-se capaz de amar com um amor mais puro, mais pleno, mais absoluto do que os humanos que a dissecam. Novamente, o verdadeiro monstro não é aquele exibido no aquário: é o cientista sem empatia, a América paranoica da Guerra Fria, a normalidade social obcecada pela aparência, pela conformidade, pelo controle. Este filme é, fundamentalmente, um manifesto de del Toro, segundo o qual a humanidade não reside no homem, mas na capacidade de amar. Amar é o único motor da sobrevivência, dizia Leonard Cohen em sua canção sobre o futuro monstruoso que havia previsto no início dos anos 1990, com o fim da bipolaridade. Ora, amar é algo de que o homem frequentemente é incapaz. É isso que o torna um monstro. O monstro, por seu lado, numa dinâmica inversa, aceita o aprendizado mais doloroso, mas também o mais belo – o de aprender a amar. Essa temática atinge o incandescência em Frankenstein , o projeto dos sonhos de del Toro há trinta anos, e que enfim encontra sua forma. Trata-se da narrativa original de muitos monstros: a criatura que nunca pediu para vir ao mundo, que nasceu da vaidade de um criador narcísico, de um pai embriagado de poder, de um homem que quer roubar de Deus o segredo da vida sem assumir a responsabilidade ética. Frankenstein é o condenado absoluto: aquele que não tem lugar, identidade nem linguagem. Aquele cujo único desejo é amar e ser amado. « Estou sozinho », diz ele no romance de Mary Shelley. Frankenstein não é senão esse monstro, em cada um de nós, que busca o amor, para poder finalmente acessar plenamente a alteridade, a ligação, a humanidade. Mas, ainda assim, o mundo apenas o designa como monstro, independentemente dos fatos, de seu desejo, de sua vontade, de seu coração. Está condenado à rejeição, sem apelação. Ora Del Toro inverte aqui toda a tradição cinematográfica. O magnífico James Whale já havia dado ao monstro uma dimensão trágica, quase crística, nos primeiros filmes sobre essa figura levada à tela grande – Frankenstein (1931), depois a grandiosa A Noiva de Frankenstein (1935), antes do personagem se tornar um pilar dos filmes de horror da Hammer; brilhantemente parodiado por Mel Brooks ( Jovem Frankenstein , 1974) ou ainda mal dramatizado por Kenneth Branagh em 1994, com um erro de casting majestoso – De Niro no papel principal! Mas del Toro inova: oferece a perspectiva do monstro, sua subjetividade, seu grito sufocado. Finalmente lhe dá uma voz. A criatura torna-se um espelho – um espelho em que o homem se recusa a olhar. Porque veria a verdade – que o monstro é ele. Esse leitmotiv está presente em toda parte em del Toro. Em Hellboy (2004), em que a trajetória inevitável da criança do diabo é levar o mundo à destruição, mas que escolhe se rebelar contra seu destino biológico – e conquistar sua liberdade. Em Beco da Perdição (2021), em que o monstro não é a besta de circo, mas o homem que se afunda na ilusão do poder absoluto e se mutila psiquicamente até se tornar o que acreditava dominar: a besta. Em Pacífico Rim (2013), não são as criaturas colossais vindas das fissuras abissais que são monstruosas, mas a arrogância tecnológica de um mundo que acredita poder controlar tudo. Até Pinóquio (2022), em del Toro, não escapa a essa lei. Como em A.I. de Steven Spielberg, a criança de madeira é mais humana que os adultos ao seu redor. O pai, por sua vez, é prisioneiro de seu luto – ferido mas tirânico – e a sociedade fascista instrumentaliza a criança como carne de canhão. Resta A Espinha Dorsal do Diabo (2001), filme espectral e emocionante, em que o fantasma de uma criança assassinada vem assombrar um orfanato durante a Guerra Civil Espanhola. O fantasma não é um espectro de terror, mas o guardião da memória, a voz da justiça diante da barbárie: a inocência morta, literalmente. O fantasma é aqui uma testemunha. Não constitui uma ameaça. A obsessão de del Toro é clara: o monstro é o sintoma da violência humana. E se vem ao mundo, é porque um tirano, um cientista, um soldado, um pai – o criou. É impossível não ler essa obra à luz da psicanálise, na medida em que o que del Toro encena não é senão o filho rejeitado, o filho sacrificado, a criança impossível, condenada ao mal-entendido permanente. Pensamos evidentemente em Lacan e na forclusão do nome do pai. É a figura da criança sem lugar, esmagada pela Lei paterna mortífera, aquela que não conhece o amor mas apenas a performance, a disciplina ou a herança. É difícil também não pensar na Caverna de Platão. A criatura ousa sair das sombras para buscar a humanidade, mas aqueles que a veem a assassinam. Del Toro está no cinema fantástico, mas está profundamente enraizado em sua época e na realidade. Ele nos diz, com suas imagens fabulosas, o horror em que vivemos diariamente – como se nos entregasse nada menos que uma meditação trágica sobre nossa época. Mais do que nunca hoje, o mundo está cheio de fabricantes e traficantes de monstros: populistas, fascistas, engenheiros do medo, cientistas sem ética, gnósticos de toda espécie, propagandistas que transformam os povos em máquinas de ódio. O monstro, doravante, nem sequer precisa ser criado em laboratório: fabrica-se através do discurso, da manipulação, das redes sociais, das identidades fechadas, do ressentimento e da fantasia purificadora. Mesmo artificialmente, agora, e sempre com nossa adesão, nossa legitimação, nossa participação. É estranhamente, também em torno da mesma temática que parece evoluir a última temporada da série Stranger Things … Guillermo del Toro é muito mais, nesse sentido, um pensador político, um profeta sombrio que um realizador, semelhante ao que Cohen já anunciava em The Future em 1990, a saber, que a humanidade está em perigo. Mas não por causa dos monstros, mas por causa daqueles que vivem da necessidade de fabricá-los através do ódio, da violência, da humilhação, da exclusão. Del Toro nos sussurra uma verdade urgente: é hora de olhar os monstros nos olhos. Ou seja, de proceder a nosso próprio exame de consciência, antes que seja tarde demais, para vencer em nós mesmos a batalha mais importante: nossa última chance de permanecer humanos. Para não terminar, todos juntos, como a pequena Ofelia do Labirinto do Fauno .

Em Niceia, o Papa proclama o Credo da unidade cristã

A cidade de Iznik, a antiga Niceia, foi uma das etapas mais simbólicas da visita do papa Leão XIV à Turquia. Às margens do lago Iznik, ao sul de Istambul, o pontífice conduziu uma celebração dedicada à unidade cristã, reunindo líderes ortodoxos e protestantes entre as ruínas de uma basílica do século IV que permanece submersa. A missa marcou os 1.700 anos do Primeiro Concílio Ecumênico de Niceia, convocado em 325, doze anos depois de o Império Romano legalizar o cristianismo. Ao lado do patriarca Bartolomeu I de Constantinopla e de outros líderes eclesiásticos, o papa Leão XIV recitou o Credo Niceno — a profissão de fé repetida até hoje por milhões de cristãos no mundo. O texto foi adotado justamente naquele concílio reunido em Niceia há quase 17 séculos. “Somos todos chamados a superar o escândalo das divisões que, infelizmente, ainda existem, e a cultivar o desejo de unidade”, afirmou o Papa em inglês, destacando “a busca pela fraternidade”. Presidida pelo patriarca Bartolomeu I, a cerimônia contou com orações em vários idiomas, além de cânticos polifônicos a cappella e melodias bizantinas. Representantes das Igrejas Copta, Grega, Armênia, Siríaca e Anglicana participaram, reforçando o caráter ecumênico do evento. Rejeição ao uso da religião para justificar violência O patriarca exortou os presentes a “seguir o caminho da unidade cristã que nos foi traçado”, apesar das “divisões” acumuladas ao longo dos séculos. O Papa, por sua vez, pediu uma “rejeição contundente” de qualquer tentativa de usar a religião para justificar guerras ou atos de violência, condenando “todas as formas de fundamentalismo e fanatismo”, sem mencionar líderes ou conflitos específicos. Submersa durante séculos, a Basílica de Iznik continua revelando aspectos essenciais do cristianismo primitivo e de seus mártires. As ruínas foram descobertas em 2014 pelo arqueólogo turco Mustafa Sahin, chefe do departamento de arqueologia da Universidade Uludag, em Bursa, por meio de fotografias aéreas. Os vestígios ficam a cerca de 50 metros da margem e dois metros abaixo da superfície. “Percebi que se tratava de uma igreja desconhecida”, contou Sahin. Ele explicou que a Basílica dos Santos Padres foi construída por volta do ano 380 no local onde o mártir Neófitos, então com 16 anos, foi executado por sua fé em 303, durante a perseguição romana aos cristãos. Com as mudanças climáticas, o nível da água do lago vem diminuindo gradualmente, revelando partes cada vez maiores da basílica, que desabou após terremotos no século XI e foi submersa dois séculos depois. A Basílica do Martírio Uma igreja anterior, erguida em memória de Neófitos, abrigou o Concílio de Niceia em 325, antes de ser destruída por um forte terremoto em 358. A posterior Basílica dos Santos Padres recebeu esse nome em homenagem aos 318 bispos que redigiram o Credo Niceno. O templo chegou a guardar um sarcófago onde, segundo a tradição, estavam os restos de Neófitos e de outros mártires. Hoje, seus ossos permanecem sob o fundo do lago. “Já encontramos cerca de 300 sepulturas”, disse Sahin, classificando o local como “um cemitério de mártires”. Sua equipe identificou sinais de mortes violentas — membros fraturados e crânios com perfurações e rachaduras. “Esses vestígios mostram que os enterrados aqui foram torturados e executados”, afirmou. Várias pequenas sepulturas de azulejos, que provavelmente contêm restos de crianças, ainda não foram abertas. Cada conjunto de ossos é escavado, analisado e reenterrado após documentação. “Este não era um cemitério comum”, explicou o arqueólogo. “Era um lugar de martírio, uma igreja de enorme importância para os cristãos.” Sahin ressaltou ainda o papel central da Turquia na história do cristianismo. “O cristianismo surgiu nos arredores de Jerusalém”, disse ele, “mas sem a Anatólia, não haveria cristianismo”, em referência às viagens missionárias do apóstolo Paulo e de outras figuras fundamentais da fé.

De Leão XIII a Leão XIV (Carta Aberta)
Por
Amine Jules Iskandar
Publicado

Ao tratar fronteiras e constituições como sagradas e intocáveis, a política libanesa esquece que esses instrumentos existem por um único objetivo: garantir o bem-estar da pessoa humana — aquela cuja dor Vossa Santidade veio escutar. Santíssimo Padre, Durante sua visita ao Líbano, será exibida uma grande cena nacional, repleta de prosperidade e alegria, onde o brilho dos espaços religiosos superará o das instituições do Estado. Mas Vossa Santidade veio para ver a vida dos palácios ou a de um povo desgastado por cinquenta anos de conflitos, pobreza e êxodo, sem qualquer luz no horizonte? Permita-nos, Santo Padre, partilhar palavras que não serão ditas nos salões oficiais. O Líbano está exausto. Nenhuma sociedade sobrevive a guerras e crises intermináveis tratando apenas seus sintomas sem jamais encarar as causas. Há, sim, corrupção interna e ambições expansionistas de nossos vizinhos. Mas existe também um problema estrutural enraizado na própria formação do Estado. Diversidade Ao tentar tornar-se, à maneira francesa, uma república jacobina, o Grande Líbano negou seus componentes étnicos. Abandonando a Constituição do Monte Líbano de 1864, o país reinterpretou de forma equivocada, em 1926, o termo otomano millets (“nações”), traduzindo-o como “comunidades religiosas”. Com isso, eliminou-se a dimensão cultural e diluiu-se a necessidade de um modelo de governança adaptado à diversidade. Desde então, as diferenças entre as populações libanesas só puderam ser tratadas em termos de religião e prática ritual, enquanto identidades históricas foram apagadas por uma ideologia jacobina centralizadora. Certo de respeitar a fé e a liberdade de culto, o Estado libanês jamais se empenhou em reconhecer legalmente seus grupos culturais — suas histórias, heranças e lealdades. Esses grupos, rotulados de forma imprecisa como “sectários”, voltaram-se gradualmente para protetores estrangeiros numa disputa pelo controle do Estado central, onde se concentram tanto o tesouro nacional quanto a definição da identidade nacional. Minorias A Igreja e a comunidade internacional, no entanto, reconhecem o direito à diversidade. A Declaração da ONU sobre os Direitos das Minorias afirma que grupos nacionais, étnicos, religiosos e linguísticos têm direito de existir e preservar sua identidade, cultura e língua. Trata-se de identidades coletivas que devem ser protegidas — não dissolvidas em nome de uma falsa inclusão. A Constituição de 1864, elaborada por Richard von Metternich e conhecida como “Regulamentos Orgânicos”, descrevia os grupos libaneses como “nações” e propunha um modelo de governança baseado nas realidades demográficas, não em ideologias importadas. Inspirado por essa visão, Robert de Caix de Saint-Aymour mais tarde propôs um sistema federal adaptado à demografia do Líbano. Mas, uma vez traduzido millet como “confissão religiosa”, a dimensão cultural desapareceu. O ensinamento de Leão XIII O federalismo, que protege a diversidade, está enraizado no princípio da subsidiariedade da Igreja, desenvolvido por Pio XI em Quadragesimo Anno (1931). Mas a base desse princípio já se encontrava quarenta anos antes em Rerum Novarum , de Leão XIII, que enfatizava a importância do indivíduo e da família — valores que não podem ser absorvidos pelo Estado. A subsidiariedade estabelece um modelo de governança construído de baixo para cima, protegendo cada instância contra abusos de níveis superiores. Esse modelo contrasta fortemente com a “descentralização administrativa ampliada” prevista pela Constituição de Taif, que permanece concentrada no topo do Estado. Convivência Subsidiariedade e federalismo não se opõem à convivência. Sob João Paulo II, a Igreja alertou que negar a subsidiariedade em nome da igualdade ou da democratização destrói a liberdade e a iniciativa. A Igreja também observa que fronteiras nacionais raramente coincidem com fronteiras étnicas, produzindo minorias cujos direitos precisam ser protegidos. Essas minorias têm o direito de preservar sua cultura, sua língua e suas convicções religiosas — e podem, legitimamente, buscar maior autonomia ou até independência. Santíssimo Padre, Um modelo federativo baseado no respeito à diversidade religiosa e cultural reduziria a disputa pelo controle do governo central. A subsidiariedade ajudaria a preservar a unidade nacional por meio de estruturas flexíveis, capazes de se adaptar às diferenças regionais, e diminuiria o abismo entre o “país legal” e o “país real”. As estruturas do Estado devem ser moldadas para servir ao ser humano e centradas na dignidade humana. Leis e fronteiras existem para promover o florescimento humano, não para impor submissão. Nenhuma solução verdadeira pode colocar constituições e fronteiras no centro de sua missão. Sua sacralização apenas marginaliza as pessoas reais — suas necessidades, vínculos e identidades. A política libanesa esquece com frequência que Estados e constituições existem para o bem-estar da pessoa humana — aquela cuja dor Vossa Santidade veio escutar. O futuro do Líbano deve se apoiar nessa verdade essencial. O objetivo final continua sendo o ser humano, “autônomo, relacional e aberto à transcendência”, como ensina a Igreja.

O levante em turbulência: uma paz elusiva (1/3)
Por
Jean-Patrick Dayras
Publicado

O Levante chegou, de forma incontestável, a um ponto crítico em 7 de outubro de 2023, quando o Hamas lançou um ataque mortal contra território israelense a partir da Faixa de Gaza. As circunstâncias e as repercussões dessa ofensiva rápida e sangrenta provocaram um choque sísmico não só em Gaza e Israel, mas também em outros centros fundamentais da região, especialmente no Líbano e na Síria e, por extensão, no Irã e no Iêmen. O impacto devastador do ataque do Hamas sobre Gaza e sua população recolocou todo o conflito israelo-palestino no centro da agenda internacional. Houve quem acreditasse que os eventos de 7 de outubro poderiam abrir caminho para um avanço no conflito que aflige o Oriente Médio há mais de sete décadas. Neste momento, porém, isso está longe de acontecer. É especialmente lamentável que a Autoridade Palestina não tenha conseguido retomar a iniciativa e iniciar um diálogo rápido e promissor com Israel. Do outro lado, é legítimo perguntar se o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu estaria disposto a considerar e aceitar o fim desses conflitos recorrentes, mesmo que isso possa desencadear problemas legais para ele. Resta saber se essa vontade existe de fato. Depois de uma vitória militar, ele antevê uma derrota no terreno da comunicação? Os sinais sugerem que não. É verdade que, enquanto os palestinos afirmarem publicamente que seu objetivo é eliminar o Estado de Israel, Netanyahu e seus aliados continuarão a perseguir seus objetivos letais. Não há como ignorar a realidade: de um lado, uma população que sofre e morre, mas que elegeu o Hamas, e do outro, um povo e um Estado cujos inimigos não buscam apenas uma derrota incondicional, como a da Alemanha em 1945, mas a total aniquilação. Já não se trata de vingar os atos de 7 de outubro. Trata-se de sobrevivência. Ainda assim, apesar de tudo, um fio de esperança começa a aparecer no horizonte. Vozes dentro do próprio Israel, e não vozes insignificantes, pedem o fim do massacre em Gaza. Essas vozes reconhecem que Israel, nascido de uma experiência de desumanidade, não pode perseguir os mesmos objetivos e que a opinião pública global pode mudar de rumo a qualquer momento e abandonar o Estado israelense. Na era das redes sociais, a opinião muda depressa e de forma irreversível. A história contemporânea mostra como é impossível sustentar uma guerra sem o respaldo moral da população e de aliados importantes. Os exemplos são claros. Os franceses na Indochina jamais contaram plenamente com o apoio de sua própria população ou de países-chave. Mais tarde, na Argélia, também não tiveram o apoio decidido de seus concidadãos e de muitas outras nações. Os Estados Unidos foram forçados a abandonar o governo do Vietnã do Sul e, anos depois, saíram do Afeganistão de maneira humilhante para eles e para os países que os apoiaram desde o início. A retirada deixou um rastro pesado de vidas perdidas. Netanyahu precisa reconhecer que as circunstâncias estão dadas para mudar radicalmente sua abordagem. Nada é pior do que não falar, ou recusar-se a falar, com os próprios inimigos. Isso talvez seja ainda pior para ele e para Israel do que enfrentar a justiça em casa. Ele terá de enfrentá-la e, se mudar de curso, poderá fazê-lo com a estatura de um estadista que salvou sua nação. A Alemanha até abril de 1945, o Japão até julho de 1945 e outros países, em situações distintas, recusaram-se a dialogar com seus inimigos. Hoje, muitos Estados evitam o diálogo com adversários e o resultado é a morte diária de civis, alimentando ressentimento e ódio. Em contraste, a crise dos mísseis em Cuba mostra que o diálogo pode evitar confrontos desnecessários e catastróficos. É verdade que negociações e concessões fizeram parte de alguns desfechos, mas não é um preço pequeno diante da paz. Israel precisa agir como um Estado normal, mesmo se sentir-se sitiado e ameaçado. Um país que respeite seus vizinhos ganharia amplo apoio no Oriente Próximo, no Oriente Médio, no Ocidente e além. Isso tornaria improvável sua destruição pelo Hamas, que, se não está moribundo, certamente está enfraquecido. Esse caminho deve ser seguido sem ingenuidade, com cuidado para evitar que a hidra desperte. Próximo artigo: o levante em turbulência: perspectivas libanesas e sírias