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Religião

Nostra Aetate, pedra angular do diálogo inter-religioso – As raízes (1)

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O Concílio Vaticano II. (Lothar Wolleh, Wikimedia Commons)
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Por Fady Noun
Publicado dez 4, 2025 - 10:43

O Vaticano e a comunidade católica global, incluindo o Líbano, celebram neste período os 60 anos de Nostra Aetate, a declaração promulgada pelo papa Paulo VI sobre a relação da Igreja Católica com as religiões não cristãs. No Líbano, uma conferência realizada em Bkerké, em 8 de novembro, marcou a data.

O documento foi muitas vezes descrito como profético, e com razão. Ele surgiu em um contexto em que, apesar do crescimento do contato entre povos graças aos avanços no transporte e na comunicação, a religião vinha sendo cada vez mais instrumentalizada como ferramenta de violência nos cinco continentes. A cultura do ódio religioso e racial havia chegado ao seu ponto mais sombrio na Europa durante a Segunda Guerra Mundial, com o Holocausto e o extermínio de milhões de judeus pelos nazistas.

“Raios da verdade”

No centro de Nostra Aetate está um princípio-chave: toda religião carrega “um raio da verdade”. A declaração afirma:

“A Igreja católica nada rejeita do que nessas religiões existe de verdadeiro e santo. Olha com sincero respeito esses modos de agir e viver, esses preceitos e doutrinas que, embora se afastem em muitos pontos daqueles que ela própria segue e propõe, todavia, reflectem não raramente um raio da verdade que ilumina todos os homens. (...) Exorta, por isso, os seus filhos a que, com prudência e caridade, pelo diálogo e colaboração com os sequazes doutras religiões, dando testemunho da vida e fé cristãs, reconheçam, conservem e promovam os bens espirituais e morais e os valores sócio-culturais que entre eles se encontram.”

Origens e desenvolvimento

Nostra Aetate tem raízes profundas no Holocausto, um dos episódios mais dolorosos da Segunda Guerra. Em 1947, pensadores judeus e cristãos se reuniram em Seelisberg, na Suíça, por iniciativa do “Conselho de Cristãos e Judeus” do Reino Unido, para refletir sobre as causas do anti-judaísmo cristão e do antissemitismo racial.

Um dos participantes foi o historiador judeu francês Jules Isaac, que havia perdido a esposa e a filha nos campos de concentração. Um ano antes, ele concluíra o livro Jesus e Israel, no qual analisava as raízes cristãs do anti-judaísmo religioso e defendia a necessidade de diálogo entre judeus e cristãos.

Em 1960, Isaac encontrou-se com o papa João XXIII e lhe entregou um dossiê pedindo mudanças no ensinamento cristão sobre os judeus, que ainda eram referidos em certas liturgias como o “povo deicida”. João XXIII encarregou o cardeal Augustin Bea de preparar um texto sobre os judeus como parte dos trabalhos do Concílio Vaticano II.

O projeto inicial tratava exclusivamente das relações judaico-cristãs sob o título Decretum de Iudaeis (“Decreto sobre os Judeus”). Mas bispos das Igrejas Melquita e Maronita expressaram preocupação: temiam que o texto fosse mal interpretado em sociedades de maioria muçulmana. Entre eles estavam o patriarca greco-católico Maximos IV Sayegh e o bispo Georges Hakim (futuro patriarca Maximos V).

Eles argumentaram que, em seus países (Líbano, Síria, Egito…), o diálogo inter-religioso se dava sobretudo entre cristãos e muçulmanos. Limitar o documento ao judaísmo poderia parecer desconectado da realidade local e até sugerir apoio diplomático ao recém-criado Estado de Israel (1948).

O patriarca Maximos IV insistiu:

“Vivemos no meio do mundo muçulmano. Não seria sábio que este documento falasse apenas do povo judeu, sem mencionar os muçulmanos, nossos irmãos descendentes de Abraão (...). Pedimos que o Islã também seja incluído.”

A declaração foi então ampliada para abordar todas as religiões não cristãs, com destaque especial ao Islã. Curta e direta, Nostra Aetate tornou-se a pedra angular do diálogo inter-religioso moderno. Clara e concisa, evita um equívoco frequente: a ideia de substituir a missão pelo diálogo.

O documento também rejeita a interpretação de culpa coletiva dos judeus pela morte de Cristo, corrigindo leituras de passagens como “Que o seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos”. Afirma categoricamente que a Paixão “não pode ser imputada nem a todos os judeus que viviam naquela época, nem aos judeus de hoje”.

Um gesto que disse tudo

A longa e dolorosa história entre Sinagoga e Igreja foi simbolizada por um gesto marcante do papa João Paulo II durante sua peregrinação jubilar à Terra Santa, em março de 2000. Diante do Muro Ocidental, ele permaneceu sozinho e colocou entre as pedras uma oração manuscrita, como fazem os fiéis judeus. Dias antes, havia visitado Yad Vashem, condenando o antissemitismo e homenageando as vítimas do Holocausto.

O Vaticano divulgou posteriormente o texto da oração:

“Deus de nossos pais, escolheste Abraão e seus descendentes para levar teu nome às nações. Estamos profundamente tristes pelo comportamento daqueles que, ao longo da história, fizeram teus filhos sofrer e, pedindo teu perdão, comprometemo-nos a uma fraternidade autêntica com o povo da Aliança.”

Mais que um pedido de desculpas diplomático

O Papa reconheceu o sofrimento das comunidades judaicas dispersas pelo mundo desde a destruição do Templo em 70 d.C. e pediu perdão, não politicamente, mas diante de Deus. Ao se referir aos judeus como “povo da Aliança”, afirmou que a Aliança de Deus com Israel não foi revogada e permanece válida ao longo da história.

O rabinato israelense e comunidades judaicas ao redor do mundo reconheceram aquele momento como um ponto de virada nas relações judaico-cristãs.

Assim, a Igreja Católica rejeitou formalmente a “teologia da substituição”, a crença de que todas as promessas feitas a Israel teriam passado à Igreja, e reafirmou a permanência do vínculo espiritual entre cristãos e judeus, fundamentado na fidelidade comum ao Deus de Abraão.

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