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O comboio do CICV que transportava os civis libertados, partindo da zona ocupada por Israel no sul do Líbano, seguiu até o ponto que marca o início da área controlada pelas autoridades libanesas. (AFP)
O Essencial do Dia
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Por LevantTime .
Publicado set 5, 2026 - 00:55
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) anunciou nesta sexta-feira que transferiu para o Líbano outras quatro pessoas libertadas por Israel, um dia após a libertação de um primeiro civil. Segundo o CICV, trata-se de três libaneses e dois sírios. É a primeira vez que uma operação desse tipo ocorre desde o início, em abril, das negociações entre o Líbano e Israel, sob mediação dos Estados Unidos. Beirute havia solicitado, durante a última rodada de negociações, em agosto, a libertação de um primeiro grupo de cidadãos libaneses capturados por Israel no sul do Líbano, onde trava uma guerra contra o Hezbollah, aliado do Irã. Familiares estimam que cerca de 30 pessoas estejam detidas, entre elas combatentes do movimento islâmico. O presidente libanês, Joseph Aoun, agradeceu em comunicado aos Estados Unidos e ao CICV e afirmou que essa libertação «confirma o acerto da posição» do Líbano, que participa de negociações com Israel rejeitadas pelo Hezbollah. Os Estados Unidos elogiaram na quinta-feira «o governo de Israel e o governo do Líbano por demonstrarem boa-fé por meio desses primeiros passos», expressando a esperança de que isso sirva «de base para discussões mais amplas sobre outras questões civis». Os dois países devem realizar uma nova rodada de negociações em setembro, em uma data ainda não definida. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira «ocorre após os esforços realizados por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os restos mortais de líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano» entre 1984 e 1986. Israel intensifica seus ataques No terreno, ataques israelenses deixaram três mortos e 23 feridos nesta sexta-feira no sul e no leste do Líbano, segundo um veículo de imprensa estatal. Israel intensificou nesta sexta-feira seus ataques na região, depois de anunciar, na noite de quinta-feira, que havia assumido o controle da crista montanhosa de Ali Taher, que servia como posição estratégica para o Hezbollah, aliado do Irã, e domina, entre outras áreas, a cidade de Nabatiye. O Exército agora reforçará suas posições na região para «impedir que o inimigo volte a se posicionar na área», declarou o ministro da Defesa israelense, Israel Katz. Outro ataque também atingiu a região de Tiro, especialmente a localidade de Rmadiye, segundo a Agência Nacional de Notícias (ANI). Para Trump, a guerra no Irã é «coisa pequena» Sobre a guerra no Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tentou nesta sexta-feira minimizar seu impacto para o país, às vésperas das cruciais eleições legislativas de meio de mandato. «Muita gente não chama isso de guerra. Eu digo que é um conflito militar, porque para nós é coisa pequena (“small potatoes”). Não é nada demais. Fizemos a Venezuela e fizemos isso», respondeu a jornalistas no Salão Oval, ao ser questionado sobre seu vice-presidente, JD Vance, que no dia anterior havia dito não querer descrever o conflito como uma guerra. Enquanto a forte alta dos preços dos combustíveis ligada à guerra ameaça custar aos republicanos de Donald Trump sua maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato de novembro, sua administração tenta minimizar a dimensão do conflito. Segundo o presidente, os Estados Unidos realizam «ataques pontuais» e «não estão atualmente combatendo». Trump também afirmou que os Estados Unidos controlam o estreito de Ormuz e que dizimaram as Forças Armadas iranianas. «O que conseguimos foi extraordinário. Assumimos o controle da Venezuela e, essencialmente, assumimos o controle do Irã», declarou.
Homenagem
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Por Michel Hajji Georgiou - Publicado set 4, 2026 - 23:28
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De Hassan Rifaï, fica a imagem de um jurista respeitado, sereno, referência em direito administrativo e constitucional, que argumentava com voz calma e trêmula para apontar os desvios e descaminhos dos políticos em relação ao regime democrático parlamentar e à Constituição. No entanto, o ex-deputado e ex-ministro, falecido em 3 de setembro de 2025, era também um homem revoltado. Um inconformista. Mesmo aos cem anos. Sobretudo aos cem anos! Já o havia sido na infância, arengando multidões em Baalbeck contra o Mandato, e continuou assim ao longo de toda a sua carreira como advogado e parlamentar. Aos cem anos, completamente desiludido com a República e seus flibusteiros, sua cólera contida não havia se apaziguado. «O Líbano é um país impossível!», dizia ao autor destas linhas em uma entrevista realizada alguns anos antes de sua morte e jamais publicada. Mas atenção. Hassan Rifaï não era niilista, nem alguém que negasse tudo por princípio. Lutara a vida inteira por uma determinada ideia do Líbano. Mais precisamente, pelo Grande Líbano, unido e plural. E sabia avaliar em sua justa medida a experiência libanesa, com tudo o que ela tivera de positivo. Mas o ser humano o havia decepcionado. E era precisamente o ser humano que ele procurava. Nunca o encontrou na cena pública libanesa. Pelo menos, não a serviço da República. Rifaï era um homem do direito, sempre elegante, irrepreensível, tudo o que se espera de um homem de sua estatura moral e intelectual. Mas também era intransigente. Implacável, até. Sem dúvida, seu apego ao país e ao regime democrático o levara a reconhecer uma única fidelidade: um determinado código de valores e uma determinada ideia da República. Por isso se mostrava crítico diante de todos os erros e de todos os desvios, começando pelos cometidos por seus próprios amigos políticos. Não poupava ninguém. Nem comunidades nem clãs, nem líderes religiosos, ele próprio era laico, e muito menos os responsáveis políticos. Ninguém escapava ao seu crivo, e Rifaï sentia um certo prazer em desconstruir os mitos e as ideias feitas que transformavam este ou aquele presidente da República ou primeiro-ministro em um líder excepcional. Seus critérios eram objetivos: a coerência entre os atos e os princípios democráticos. Assim, ninguém encontrava verdadeiramente graça aos seus olhos. A constatação era terrível: nenhum dos dirigentes, ao longo da história do país, havia realmente respeitado a democracia parlamentar libanesa. Nenhum. Não porque colocasse todos no mesmo plano. Tinha distância crítica suficiente para reconhecer as qualidades e os defeitos de uns e de outros. Gostava de citar Léon Duguit: «O direito constitucional não tem outro guarda-freio senão a boa-fé dos homens que o aplicam.» Quase fizera dessa frase seu credo republicano. E seu veredicto era implacável: essa boa-fé, simplesmente, ele não a encontrara. Políticos demais, homens de Estado de menos. E, sobretudo, muita mentira e hipocrisia. Um dia, um grande dirigente lhe aconselhou: «Não construa estradas para as pessoas. Caso contrário, elas deixarão de procurá-lo.» Apesar do respeito que nutria por aquele aliado político, a frase o deixara perplexo e chocado. Ela continha, por si só, toda uma concepção do poder: jamais resolver definitivamente o problema daquele que se pretende representar, pois, desaparecendo sua necessidade, desapareceria também a própria razão de sua dependência. O projeto do Estado ficava, assim, adiado indefinidamente. Ou, de todo modo, quando existiam pessoas de bem, o sistema não lhes permitia chegar aos cargos de responsabilidade. Rifaï era um rebelde, sim, mas com o rigor e a precisão de um ourives do direito administrativo e constitucional. E era provavelmente isso que o distinguia no meio político libanês. Rebelde o suficiente, em todo caso, para pagar um preço por isso. Em agosto de 1982, foi vítima de uma tentativa de assassinato depois de se opor ao diktat israelense. Em Taif, em 1989, foi praticamente posto à margem por ter percebido de imediato as falhas existentes e as armadilhas acrescentadas às reformas constitucionais. A partir de 1992, sob a ocupação síria, sofreu ostracismo político por se opor ao aparato de segurança que sustentava a tutela síria e à política de Rafic Hariri. Mas era justo. Podia se opor ao confessionalismo político e, ao mesmo tempo, reconhecer que sua abolição no estágio atual seria uma catástrofe para o Líbano, e que uma democracia reduzida à mera lógica dos números faria soar de uma vez por todas o dobre de finados da fórmula libanesa e da presença cristã no país. Podia concordar com a ideia de que os cristãos haviam sido prejudicados pelas reformas constitucionais de Taif, os sunitas também, sustentava, ao mesmo tempo em que lembrava os excessos cometidos no exercício do poder pelos presidentes da República entre 1943 e 1990 e advertia contra qualquer surto de nostalgia por essas práticas sob a bandeira dos «direitos dos cristãos». Uma deriva rumo a um regime presidencial ou semipresidencial constituía, a seu ver, um perigo para os cristãos. A importância do regime parlamentar herdado da Terceira República francesa residia precisamente no fato de que o presidente da República não era politicamente responsável perante a Câmara dos Deputados. Isso o colocava, segundo Rifaï, em uma posição privilegiada. Acima da disputa, podia conduzir o navio da República a bom porto sem ficar atolado nas lutas pelo poder. Essa responsabilidade moral de preservar a Constituição e a República era, a seus olhos, muito mais importante do que qualquer responsabilidade política. Mas ainda era preciso convencer disso os principais interessados. Rifaï podia reconhecer a importância de uma descentralização administrativa e, ao mesmo tempo, recusar que essa reivindicação se transformasse em um slogan ideológico a mascarar uma vontade separatista. Nesse sentido, lembrava que Beirute e o Monte Líbano haviam sido privilegiados na construção do Grande Líbano, ao passo que as regiões periféricas, sobretudo a sua, Baalbeck, haviam sido desprezadas. Isso contribuíra para enfraquecer o sentimento nacional libanês, que dependia, afinal, de um bem-estar baseado no respeito à dignidade humana. A adesão à cidadania pressupunha que todos fossem tratados da mesma forma do ponto de vista do desenvolvimento. Sem igualdade entre os cidadãos, a soberania só podia vacilar. Esse, aliás, foi o sentido de sua primeira intervenção no Parlamento, em 1968. Os acontecimentos que se seguiram conferiram uma gravidade singular àquele alerta. Os desequilíbrios econômicos, sociais e territoriais contribuíram para alimentar as reivindicações da esquerda e de setores da rua muçulmana, em um país já atravessado por tensões comunitárias, ingerências externas e pelo crescente poder das organizações armadas. Contribuíram, assim, para o enfraquecimento progressivo do Estado, antes da guerra, das ocupações sucessivas e do surgimento de estruturas paraestatais. Em última análise, Hassan Rifaï encarna um pouco esse modelo libanês de personalidade cosmopolita, complexa, situada fora das trincheiras comunitárias e partidárias, respeitada de maneira quase unânime, sobretudo fora dos círculos políticos, mas consultada dentro desses mesmos círculos apenas quando necessário e por interesse. O Líbano não gosta de espíritos independentes e insubmissos demais, embora seu sistema ainda conserve brechas que permitem que essas pessoas existam e façam sua voz ser ouvida. Elas são toleradas, mas devem permanecer à margem. Disso depende a sobrevivência do Estado-zaamat e do Estado-jamaat, que prefere invariavelmente recorrer a tutores estrangeiros em vez de se voltar para pessoas capazes de gerar, propor e implementar soluções a partir de dentro. O sistema político libanês e seus protagonistas detestam a noção de responsabilidade, que lhes causa profunda ansiedade, e preferem a dependência ou, pior ainda, a servilidade. Ora, repetia Rifaï, citando mais uma vez Léon Duguit: «Onde está a responsabilidade, está o poder.» Deve surpreender, então, que no Líbano, onde a responsabilidade não está em lugar algum, o poder também não esteja em lugar algum? Ou, mais exatamente, que esteja sempre em outro lugar?
Analisar
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Por Jad Akhawi - Publicado set 4, 2026 - 15:00
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A batalha de Ali al-Taher não foi apenas um confronto militar em torno de uma colina estratégica no sul do Líbano. Apesar de sua área limitada, o local se transformou em um ponto de convergência de cálculos militares, políticos e regionais, revelando um dos aspectos centrais do conflito que persiste no Líbano: quem controla o território, quem detém as armas e quem decide sobre a guerra e a paz? O mais significativo não é apenas a entrada de Israel no local, mas a insistência do Hezbollah em se recusar a entregá-lo ao Exército libanês, embora o Exército seja a única instituição legítima que deveria assumir a responsabilidade pelo território libanês, sobretudo nas áreas de fronteira diretamente ligadas à segurança e à soberania do país. Por que o Hezbollah se recusou? Porque a entrega de Ali al-Taher ao Exército não teria sido entendida como uma simples medida no terreno. Teria carregado um significado político que ia muito além da própria colina. Uma medida desse tipo teria equivalido a um reconhecimento de fato da autoridade do Estado libanês sobre as decisões de segurança e militares no Sul, assim como do princípio de que nenhuma outra força armada pode agir como se exercesse autoridade efetiva sobre o terreno. O local tornou-se, assim, um teste da autoridade do Estado, e não apenas uma posição militar avançada. Quem matou os combatentes? Esse continua sendo o episódio mais obscuro da narrativa da batalha. A versão israelense fala em combatentes mortos e outros que fugiram, enquanto as informações independentes sobre quantas pessoas estavam no local, qual era a natureza de sua missão e qual foi seu destino final continuam incompletas. As versões contraditórias também levantam inúmeras perguntas que não podem ser respondidas apenas com base em comunicados militares. E não se trata de um simples detalhe operacional: A maioria dos combatentes foi morta dentro do local? Eles conseguiram se retirar por túneis e passagens? Ou haviam sido evacuados antes do início da operação israelense? Cada um desses cenários tem um significado diferente. Se os combatentes permaneceram no local até o último momento, isso significaria que houve um confronto direto que terminou com uma clara superioridade militar israelense. Se, por outro lado, eles foram evacuados previamente, as perguntas passariam a ser quem tomou essa decisão, por que ela foi tomada e se a evacuação fazia parte de um entendimento mais amplo ou se foi apenas uma medida militar preventiva. E se ficar comprovado que um número significativo deles deixou o local antes da entrada das forças israelenses, as principais perguntas serão então: como eles saíram, quem facilitou sua saída e isso ocorreu com o conhecimento de atores locais ou internacionais? Até o momento, não há elementos públicos suficientes para determinar qual desses cenários corresponde ao que de fato ocorreu. Mas a ausência de informações não reduz a importância dessas perguntas. Ao contrário, aumenta as dúvidas sobre o que aconteceu nas horas que antecederam a tomada do local. E quanto à visita do embaixador dos Estados Unidos a Israel? O momento merece atenção. A escalada em torno de Ali al-Taher coincidiu com uma movimentação diplomática americana em relação a Israel, enquanto surgiam informações sobre conversas a respeito do local e sobre a possibilidade de que ele acabasse sendo entregue ao Exército libanês. Isso não significa necessariamente que a decisão tenha sido tomada fora do Líbano, nem que tenha sido alcançado um acordo plenamente definido entre Washington, Tel Aviv e Beirute. Mas sugere que o local já não é visto apenas como uma questão militar local. Não há base para afirmar que a visita do embaixador americano tenha feito parte de um acordo secreto sobre Ali al-Taher. Tampouco se pode afirmar com certeza que tudo o que ocorreu tenha sido resultado de um entendimento prévio entre as partes envolvidas. No entanto, está claro que Washington vê o futuro do local como parte de um dossiê mais amplo, relacionado ao cessar-fogo, à estabilização da fronteira, à prevenção de qualquer presença militar fora da autoridade do Estado libanês e à necessidade de impedir que as áreas fronteiriças se transformem em plataformas permanentes de confronto. Ali al-Taher passa, assim, a fazer parte de negociações que vão muito além de sua geografia. O local pode ser pequeno no mapa, mas está ligado a grandes questões relacionadas aos arranjos no Sul, ao papel do Exército libanês, ao futuro das armas fora do controle do Estado e aos limites da influência israelense na região. O paradoxo que colocou o Hezbollah em uma posição constrangedora O grande paradoxo político é que o Hezbollah se recusou a entregar a colina ao Exército libanês, mas no fim também não conseguiu mantê-la. Se a operação israelense terminar com a retirada das forças israelenses e a entrega do local ao Exército libanês, o desfecho será muito diferente da situação que o Hezbollah tentou impor ou preservar: o Hezbollah se recusou a entregar o local ao Estado, Israel o expulsou de lá e, em seguida, o Estado voltou a assumir a responsabilidade. Em outras palavras, o Hezbollah se recusou a reconhecer voluntariamente a autoridade do Exército, mas pode acabar diante de uma realidade que impõe essa autoridade por outros meios. É isso que torna a situação politicamente constrangedora, porque o resultado final pode parecer ter alcançado, de forma indireta, aquilo que o Hezbollah se recusou a fazer diretamente. Daí surge uma pergunta evidente: por que a entrega do local ao Exército não foi considerada a opção menos custosa para o Líbano? Essa medida poderia ter sido apresentada como um fortalecimento do papel do Estado, uma forma de proteger o Sul e um meio de impedir que Israel utilizasse a presença do Hezbollah como pretexto para permanecer no terreno ou avançar ainda mais. A recusa em entregar o local ao Exército, ao contrário, manteve-o na zona de confronto e permitiu que Israel apresentasse sua operação como uma resposta a uma presença militar fora da autoridade do Estado. Ali al-Taher resume o problema libanês A questão vai muito além dessa colina. O Líbano não pode recuperar sua soberania enquanto coexistirem duas autoridades militares: a do Exército e a de armas fora do controle do Estado. Também não pode pedir à comunidade internacional que respeite suas fronteiras enquanto as decisões militares dentro dessas fronteiras continuarem divididas entre as instituições do Estado e uma organização armada que dispõe de capacidades independentes. Ao mesmo tempo, o Líbano não pode exigir que Israel se retire de seu território enquanto as decisões de segurança relativas a esse mesmo território continuarem sendo objeto de uma disputa interna. Enquanto houver armas fora do controle do Estado, o argumento israelense continuará existindo e o Sul seguirá exposto a novas rodadas de escalada. A soberania não se compartilha. Ou o Exército libanês é a única autoridade militar, ou o Líbano continuará sendo um palco aberto para conflitos regionais, nos quais se cruzam cálculos iranianos, israelenses e americanos, enquanto o Estado e a sociedade pagam o preço do confronto. Por isso, a verdadeira pergunta depois de Ali al-Taher não é: Quem ganhou a colina? Mas: Quem a controlará quando a batalha terminar? Se a resposta for o Exército libanês, Ali al-Taher poderá marcar o início de uma transição no Sul, da lógica da «resistência» para a lógica da responsabilidade do Estado. Isso poderia constituir um primeiro passo rumo a uma redefinição da segurança nacional, de modo que a defesa das fronteiras passe a ser responsabilidade das instituições do Estado, e não de uma força que atue de maneira autônoma. Se Israel permanecer, porém, o Líbano terá mais uma vez perdido parte de sua soberania, independentemente da narrativa que cada lado apresentar para justificar o que aconteceu. Em ambos os casos, permanece uma verdade essencial: nem o Hezbollah pode substituir o Estado, nem Israel pode ser o garantidor de sua soberania. A soberania libanesa só pode ser recuperada pelo Estado libanês, protegida por seu Exército e consolidada por uma decisão política clara que ponha fim à dualidade das armas e das autoridades.
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A Europa diante dos seus demónios
Por
Michel Hajji Georgiou
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Não, a guerra que a Rússia desencadeou contra a Ucrânia não pode ser tratada como um episódio periférico nem como um simples conflito territorial, por mais que incomode os simpatizantes de Putin. A agressão russa revela algo muito mais profundo: um choque entre duas visões de mundo. De um lado, a liberdade e o direito. Do outro, a nostalgia de uma ordem imperial, sustentada por um suposto “século de ouro” mitificado, fundado na dominação e no terror. O que acontece hoje em território ucraniano é a tentativa metódica de ressuscitar a lógica imperialista russa e transformá-la no modelo político deste século. A batalha pelo Donbas não é uma disputa local. É um teste para toda a Europa — de coragem, de memória e de futuro. Nada menos. O regime de Vladimir Putin não busca apenas anexar território. Ele almeja restaurar uma arquitetura imperial com referências históricas explícitas: Pedro, o Grande, Catarina II, e a ideia de um “espaço civilizatório” sacralizado pelo mito do “mundo russo”, onde os povos não são sujeitos políticos, mas matéria étnica a ser absorvida, convertida ou apagada. Todo império se funda na negação do direito. Não admite soberania popular, pluralismo ou liberdade individual. A liberdade lhe é estranha. Essa guerra mira a própria ideia de Europa. Porque Europa não é apenas um território. É, desde sua origem, uma forma de habitar o mundo: uma ideia de dignidade humana, de lei, de debate, de igualdade de direitos. É filha do Iluminismo e do repúdio absoluto à lógica do terror. Nasceu da cooperação para reconstruir o que a cultura da exclusão e do extermínio havia destruído em duas guerras. Só existe onde o indivíduo é soberano diante do Estado. O projeto imperial russo é a antítese desse modelo: um despotismo baseado na noção de “espaço vital” — exatamente aquilo contra o qual a Europa se reconstruiu após o horror de Auschwitz e Buchenwald. Por isso, Kyiv se tornou uma fronteira, não entre dois países, mas entre dois modelos de civilização. Se a Ucrânia cair, não será apenas um Estado que desmoronará. Será, mais uma vez, a própria possibilidade de um mundo regido pelo direito internacional. Vemos isso também nas ações de Netanyahu em Gaza e na Cisjordânia. Como escreve Nicolas Tenzer em Nossa Guerra , a invasão russa constitui “uma ofensiva total contra a ordem legítima”. Não é uma crise regional. É um ataque direto à democracia liberal. O Kremlin sabe: se esmagar a Ucrânia, mostrará que a lei é apenas um adorno e que só a força define a verdade. As consequências seriam globais: uma regressão planetária à lógica imperial, de protetorados, vassalos, fronteiras móveis e povos reduzidos ao silêncio. Um retorno à Europa anterior a Westfália. Ainda mais grave é o colapso paralelo do pilar ocidental que, desde 1945, estruturou o mundo livre. Os Estados Unidos, antes arquitetos e garantidores de uma ordem internacional — imperfeita, às vezes cínica, mas estruturante —, retiram-se agora do cenário histórico. O retorno de Donald Trump à Casa Branca confirmou essa mudança drástica: um mundo reduzido a transações, ganhos imediatos e insignificância moral. Trump, fiel a si mesmo, teria negociado Munique com Hitler em nome do pragmatismo contábil, acusado Varsóvia de ser “ingrata” com o Terceiro Reich e aconselhado Churchill a “fazer a paz” alterando algumas fronteiras. Talvez até tivesse parabenizado Quisling pelo pragmatismo. Cobardia disfarçada de realismo. Nada mais velho, mas raramente exibido com tanta arrogância, franqueza e indolência cínica. O que ocorreu em fevereiro entre Trump e Zelenski não foi um incidente diplomático. Foi uma ruptura histórica, quase uma abdicação moral, embora Washington tenha tentado depois recompor os restos de seu erro estratégico. A mensagem enviada a Putin foi claríssima: siga em frente, o caminho está livre. Os Sudetos, versão século XXI. Essa guinada estratégica americana abriu para a Rússia uma janela de oportunidade perigosa: se Washington se retira, Moscou pode intensificar sua ofensiva, convicta de que a Ucrânia colapsará sob o peso da indiferença ocidental. O que está em jogo não é apenas a derrota de um país, mas o desgaste da própria ideia de Ocidente. Tudo em benefício de uma coalizão global de impérios: Moscou, Pequim, Teerã, suas clientelas e operadores políticos na Europa e nos EUA. George Steiner teria estremecido de terror: é a última porta do castelo de Barba Azul que desmorona diante de um mundo quase exangue, como ocorre na Palestina. É o fim de uma cultura. Steiner advertiu, desde 1971: “Me parece ridícula qualquer teoria da cultura que não coloque no centro os mecanismos de terror que levaram à morte, na Europa e na Rússia, desde o início da Primeira Guerra Mundial até o fim da Segunda, por fome ou por massacres sistemáticos, setenta milhões de seres humanos”. Ridícula é pouco. Hoje, soa mais preciso dizer ignominiosa. Esse recuo americano revelou o que Kissinger chamava de “a tentação do desligamento”. O Ocidente sofre de fadiga existencial. Já não acredita em seu próprio relato. Não se atreve a defender o que diz encarnar. Trump não inventou nada nesse sentido: é o sintoma hipertrofiado de uma civilização que duvida de si mesma, de seus referenciais e dos valores morais que construiu para que nunca mais houvesse um Hitler, e que caiu num niilismo mefistofélico. E quando a civilização retrocede, os bárbaros avançam. Perguntem a Rômulo Augústulo e Odoacro. A Europa está sozinha, e não por acidente. De Gaulle antecipou nos anos 1960: uma grande potência não tem amigos, apenas interesses. A dependência estratégica é um erro mortal. Hoje, a solidariedade atlântica depende do capricho de um homem que oscila entre a admiração por Putin e o desprezo por seus aliados. A Europa hesita, treme, calcula — como ocorreu então com Chamberlain, apesar da lucidez de alguns líderes. O que resta, então? Apenas uma alternativa: despertar ou morrer. Escolher existir como potência política soberana ou voltar a ser um protetorado. Entender que a liberdade se defende ao modo de Churchill, longe dos Pétain de hoje: Orbán, Salvini e companhia. A Ucrânia representa hoje o que a Europa esqueceu após quase um século de paz: que a liberdade é uma necessidade vital, não um luxo retórico. E, acima de tudo, que há homens e mulheres que morrem para que a ideia do direito sobreviva. Uma civilização incapaz de reconhecer isso já está morta. Ao perder sua memória, perde sua razão de existir, sua alma. Nossa guerra — porque é de todos, como dever moral — consiste em manter a fronteira simbólica e política entre o mundo do direito e o mundo do império. Se essa fronteira cair, desmorona a humanidade política. Do que define a Europa restará apenas um espaço geográfico. A Ucrânia é, de certa forma, o limite que ainda protege a Europa das trevas. Se essa barreira cair, uma certa ideia de mundo desaparecerá junto. É preciso dizer “não” a Putin e a seus imitadores por toda a Europa, enquanto insistirem em transformar o mundo em recintos identitários submetidos ao coração do império e ao seu poder. A resistência coletiva à tirania sempre permitiu moldar uma civilização que, com todas as suas falhas, foi mais progressista e humana. Esse é, nada mais, nada menos, o preço da nossa própria evolução.

Último tabu caiu: o Líbano não será o último a assinar um acordo de paz

As negociações diretas entre Líbano e Israel começaram oficialmente. O objetivo é alcançar um acordo de paz. A condição central imposta por Israel é o desarmamento do Hezbollah. Outros temas também estão sobre a mesa, como cooperação econômica, reconstrução do Sul do Líbano e segurança na fronteira norte de Israel. Antes de entrar nos detalhes, surge uma pergunta simples: qual é a alternativa à paz? Qual é a alternativa à recuperação e à reconstrução do Líbano? Não existe uma resposta clara. O Estado libanês está ausente há décadas. A milícia iraniana instalada no país decide quando começar uma guerra, quando negociar, quando apoiar Gaza ou quando provocar Israel. Decide também quando desestabilizar países vizinhos. Constrói túneis para alimentar conflitos, em vez de erguer abrigos e hospitais. Com o tempo, o Hezbollah ficou preso em um beco estratégico. A guerra que lançou para servir ao projeto iraniano mudou de rumo. O slogan da “unidade dos frontes” já não sustenta o conflito. O grupo não consegue mais encerrá-lo. Teerã recuou. Retirou, pouco a pouco, a cobertura política. O regime iraniano só quer ganhar tempo. Mantém o Hezbollah como carta de reserva. Israel também mudou. Já não aceita a continuidade da ameaça representada pela milícia. Empurrou seus combatentes para além do rio Litani. Foi mais fácil do que cumprir a frase famosa de Nabih Berri, que sugeriu “mover o rio Litani para a fronteira com Israel”. Hoje, o Hezbollah já não segue as antigas regras de dissuasão. Na prática, não reage. Aceitou uma trégua. E uma trégua é só uma pausa entre guerras. Os líderes libaneses ficaram ausentes por anos. Acordaram tarde. Tentaram agir. Depois recuaram. E o que eles não fizerem, Israel fará. O preço será alto para o Líbano. Foi nesse contexto que um evento histórico ocorreu: a visita excepcional do papa Leão XIV. A visita ganhou peso político com o tema “Bem-aventurados os que trabalham pela paz”. Poucas horas após a partida do pontífice, a comissão que monitorava violações do cessar-fogo se transformou em um comitê de negociações diretas. Essas negociações servem ao interesse nacional do Líbano. Fortalecem sua segurança. Reafirmam sua vocação como “país-mensagem”, não como foco permanente de conflito. Representam também uma alternativa ao discurso do Hezbollah, baseado em guerras sem fim e em uma “resistência pela resistência”, que só favorece a influência iraniana. O tabu das conversas diretas com Israel caiu. Durante décadas, ninguém tocava no assunto. Mas surge a pergunta: se o Líbano não negociar em defesa de seus próprios interesses, quem o fará? O Hezbollah negocia em nome do Irã e de sua agenda regional. Por isso, o início das conversas diretas marca a retomada da soberania libanesa e o início da queda da influência iraniana no país. As discussões começaram de maneira séria. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, designou uma equipe do Conselho de Segurança Nacional para integrar o comitê técnico, conhecido como “mecanismo”. A Presidência libanesa nomeou o embaixador Simon Karam como representante oficial. As conversas vão além das violações do cessar-fogo. Pretendem preparar o terreno para relações econômicas e cooperação futura. A embaixada dos Estados Unidos em Beirute apoiou a iniciativa. Em comunicado, afirmou que “o progresso sustentável só é possível quando as preocupações e aspirações de ambas as partes são consideradas”. O embaixador Michel Issa saudou a decisão do governo libanês. Para ele, as negociações são um passo construtivo. Podem abrir caminho, no futuro, para que os dois países coexistam com paz, respeito e dignidade. Ele reafirmou também o compromisso de seu país com a estabilidade e a segurança da região. O início das conversas não resolve tudo. Mas representa uma abertura importante. Prossegue paralelamente às operações israelenses destinadas a desmantelar o braço militar do Hezbollah e a encerrar suas atividades econômicas e sociais. O cenário mais tenso pode vir do Irã. Teerã pode optar por um confronto direto se acreditar que o Hezbollah perdeu sua utilidade ou se temer pelo futuro do regime. Nesse caso, poderia sacrificar totalmente a milícia para obter algum ganho estratégico. Esse e outros cenários podem surgir nos bastidores das negociações entre Líbano e Israel.

O Levante em turbulência: perspectivas libanesas e sírias (2/3)

O Levante passou, nos últimos dois anos, por mudanças profundas. Foram transformações rápidas, dramáticas e com impacto direto na geopolítica da região. Desde o ataque do Hamas contra Israel, lançado a partir de Gaza em 7 de outubro de 2023, os acontecimentos se sucederam sem pausa. Para o premiê israelense Benjamin Netanyahu, esse conjunto de crises já anuncia um “novo Oriente Médio”. Ao fim de 2025, o que se pode dizer sobre o quadro político e de segurança do Levante? Com um pouco de distância, fica mais fácil observar o que ocorre no Líbano, na Síria, em Israel, em Gaza e no Irã. Todos esses territórios passam por mudanças profundas e, muitas vezes, simultâneas. O Líbano segue abalado pela explosão no porto de Beirute em 2020 e pelo colapso econômico de 2019. Agora enfrenta outro abalo: a “guerra de apoio” ao Hamas, iniciada pelo Hezbollah em 8 de outubro de 2023. Foi um conflito absurdo e sem justificativa clara. O resultado foi devastador. O líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, foi assassinado. A cúpula militar do partido xiita foi eliminada. Diversas aldeias do sul do Líbano foram destruídas. Israel ocupou cinco posições estratégicas no território libanês. Os compromissos do presidente Nesse cenário, o Líbano considera essencial limitar as incursões israelenses em seu território e em seu espaço aéreo. Isso exige contrapartidas. O governo libanês precisa aplicar as resoluções da ONU e cumprir as promessas feitas pelo presidente Joseph Aoun em seu discurso de posse, em 9 de janeiro de 2025. A população deve apoiar esse esforço. O desmantelamento do aparato militar do Hezbollah é inevitável. O desarmamento total do partido também. Nada disso será fácil. Haverá tensões. Ainda assim, esses passos beneficiarão todas as comunidades libanesas — sobretudo os próprios xiitas. Por isso, o governo deve agir com clareza e firmeza. Síria, Irã e Israel precisam entender esse processo. Trata-se de uma decisão soberana do Líbano e que seguirá até o fim. No longo prazo, essa escolha favorece toda a região. Diante da postura egoísta dos principais atores do Levante, o Líbano pode — e deve — assumir o papel de catalisador de uma mudança mais ampla. No plano interno, os laços entre as comunidades libanesas estão desgastados. É preciso reconstruí-los. O presidente Joseph Aoun é o único capaz de iniciar essa nova etapa. Para isso, deve agir como chefe de Estado em sentido pleno. Sem determinação, coragem e clareza, o Líbano não voltará a ser um país próspero e estável. O terremoto sírio A queda do regime de Bashar al-Assad teve o impacto mais profundo sobre o Líbano. Durante cinquenta anos, a ditadura síria impôs ao país do Cedro uma hegemonia pesada, que alterou toda a sua vida política. Com o colapso do regime, surgiu uma nova ordem na Síria. O vazio foi repentino, mas previsível. A queda se acelerou porque a população não reagiu em defesa do governo. As tropas se desintegraram. O novo regime ainda é frágil. Suas bases internas são limitadas. Minorias continuam sofrendo abusos, e as autoridades não respondem de forma firme. Isso enfraquece o governo. O presidente Ahmed al-Chareh foi recebido com honras por Donald Trump e Emmanuel Macron. Agora precisa provar que as merece. Seu futuro depende do distanciamento que conseguir manter em relação ao Hamas e ao Irã. Sem isso, não terá estabilidade. A sobrevivência política de seu governo passa por essa escolha. Próximo artigo: O Levante em turbulência: o Irã no olho do furacão

Líbano, terra de encontros, terra de unidade cristã

“Obrigado por vir” é provavelmente uma das frases que Leão XIV mais ouviu durante sua estadia no Líbano. Para muitos, a calorosa recepção dada ao Papa foi uma surpresa. Leão XIV elogiou a “simplicidade” da nossa fé. Ele deve ter redescoberto no Líbano algo da fé dos camponeses do Peru, a de um povo intocado pela sofisticação intelectual do Ocidente. “Uau! Obrigado ao Peru, e especialmente a Chiclayo, por terem moldado tão belamente este homem de Deus, tão cheio de zelo e compaixão”, escreveu um engenheiro aposentado no Facebook, que passou três dias vidrado na televisão. Madre Marie Makhlouf, superiora das Irmãs da Cruz, e as duas mulheres que receberam o conforto de seu abraço, em Bkerké e no porto, certamente concordariam. Ora, o Papa Leão XIV conhece o Líbano intimamente, e o povo viu a alegria do encontro em seus rostos. No avião de regresso a Roma, na terça-feira passada, o Papa partilhou algumas reflexões pessoais que serviram de comentário à sua visita. Falou do seu livro favorito, A Prática da Presença de Deus , do Frei Lourenço da Ressurreição, um humilde monge francês do século XVII. “Se não houver um encontro pessoal com Jesus Cristo, haverá ‘etnicismo disfarçado de cristianismo’”, disse certa vez o Papa Francisco, referindo-se aos povos que se autodenominam cristãos. Um encontro pessoal com Jesus Cristo não é tão comum como se possa pensar. Uma possível viagem à Argélia Leão XIV também falou dos esforços que tem vindo a fazer para amenizar as tensões com Israel e os Estados Unidos, tanto pessoalmente como através da diplomacia do Vaticano, uma vez que a região corre o risco de uma potencial conflagração no conflito entre Israel e o Hezbollah. Confirmou ainda ter lido a carta aberta que lhe foi dirigida pelo partido pró-Irã, à qual respondeu essencialmente instando-os a renunciar às armas e a optar pelo diálogo. Essa resposta provavelmente foi transmitida pelo xeique Ali Khatib, presidente do Conselho Supremo Xiita, com quem o Papa se encontrou no encontro inter-religioso de segunda-feira e com quem, segundo o Núncio Apostólico Paulo Borghia, teve posteriormente uma reunião privada. "A paz", afirmou Leão XIV durante a missa na orla de Beirute, "é tanto um objetivo quanto um meio". Além disso, o Papa mencionou seu desejo de visitar a Argélia, terra natal de Santo Agostinho e um local de encontro cristão-muçulmano, depois do Líbano. Parece, portanto, que ele nutre esse desejo, assim como todos os seus antecessores. Desde o Concílio Vaticano II e a declaração "Nostra Aetate", a Igreja universal tem feito esforços constantes para promover o diálogo entre os mundos cristão e muçulmano. Esse esforço finalmente frutificou na declaração conjunta sobre a fraternidade em Abu Dhabi (2019) e na encíclica Fratelli Tutti, que reiterou e expandiu sua essência. A Perspectiva Ecumênica Por fim, o Papa falou da perspectiva ecumênica compartilhada por sua peregrinação à antiga Niceia, berço do Credo, e ao Líbano. Aqui também, Leão XIV segue os passos de seus predecessores, particularmente Bento XVI, que, em 2012, ao apresentar a exortação apostólica do Sínodo sobre o Oriente Médio às Igrejas Orientais a partir do Líbano, confiou à Terra dos Cedros, o coração de todos os cristãos do Oriente Médio, a tarefa de “reunir em unidade os filhos dispersos de Deus”. “É a única Igreja de Cristo que se expressa na variedade de tradições litúrgicas, espirituais, culturais e disciplinares das seis veneráveis ​​Igrejas Católicas Orientais sui juris, bem como na Tradição Latina”, disse ele na Missa de abertura do Sínodo em Roma, em 2010. “Foi essa perspectiva interior que me guiou em minhas viagens apostólicas à Turquia, à Terra Santa — Jordânia, Israel e Palestina — e a Chipre, onde pude experimentar em primeira mão as alegrias e as preocupações das comunidades cristãs.” Desde então, Francisco realizou viagens ao Cairo, ao Iraque e ao Bahrein. Mas em um Líbano cuja soberania havia sido destruída por um Hezbollah completamente subserviente ao Irã, entregue nas mãos de uma oligarquia inescrupulosa e de rivalidades internas insensatas entre líderes cristãos, a Igreja Maronita se viu, naquele momento, diante de uma tarefa que a sobrecarregou e a impediu de cumprir a missão que lhe fora confiada. Além disso, as Igrejas apontadas por Bento XVI, devido a um clericalismo paralisante, ainda precisam aprender hoje a respeitar-se mutuamente, a discernir seus respectivos carismas, a escutar-se umas às outras e a trabalhar juntas. Como bem disse o Cardeal Pizzaballa, Patriarca Latino de Jerusalém, à luz do que acontece em Gaza, cuja presença no Líbano durante a visita papal foi notada: “Não somos mais chamados a construir estruturas, mas sim relações”. Líbano, terra de boas relações. “Já não nos é chamado a construir estruturas, mas sim relações.” O Líbano, terra de boas relações e de convivência entre muçulmanos e cristãos, deve também tornar-se a terra pioneira da unidade cristã.

Uma Política de Negação e Suicídio Coletivo
Por
Jawad Pakradouni
Publicado

No livro didático de história do ensino médio francês, há um capítulo na página 138 intitulado "O Nascimento do Estado de Israel". No entanto, curiosamente, o conteúdo pula da página 137 para a página 140, com as duas páginas do capítulo mencionado coladas. Dessa forma, nossos filhos serão poupados de aprender sobre a criação de um país que o nosso se recusa a reconhecer e, portanto, não existe oficialmente... Imagine os resultados no exame de conclusão do ensino médio se esse tema for abordado. Enquanto isso, o exército desse país inexistente está dizimando tudo em seu caminho ou durante seus sobrevoos. Pode-se concluir que estamos sendo atacados por fantasmas ou espíritos. Não precisamos de forças regulares ou da chamada "resistência" paramilitar, mas sim de um exorcista. Em outra nota, o Banco Central do Líbano (BDL) anunciou um aumento nos limites de gastos das Circulares 158 e 166, em duzentos e cem dólares, respectivamente. Esses valores serão virtuais, não tangíveis (ou seja, pagáveis ​​apenas com cartão de débito). Um canal de televisão entrevistou várias pessoas que ficaram satisfeitas, até eufóricas, com essa decisão, esse presente na véspera do feriado, aparentemente esquecendo que inicialmente foram roubadas de seu dinheiro, contentando-se com as migalhas de seus próprios fundos que os bancos lhes devolvem. Com esse maravilhoso presente, os bancos estão essencialmente lhes dando caridade com o próprio dinheiro delas. Mais uma vez, o Estado e os bancos se recusam a reconhecer sua responsabilidade. Em circunstâncias normais, essa situação teria sido devastadora para as instituições públicas e financeiras, mas quando o público tem a memória de um peixinho dourado e se recusa obstinadamente a reconhecer que foi literalmente roubado, adeus responsabilidade e olá impunidade. E, falando em impunidade e esquecimento, o melhor exemplo é o dia 4 de agosto. As autoridades, mais uma vez, recusam-se a reconhecer qualquer envolvimento, ou mesmo um simples erro administrativo, e nós mesmos tendemos a esquecer o que foi um dos piores cataclismos a atingir o país: o show tem que continuar… A política da negação é um suicídio coletivo. Se algum dia um livro de história for escrito sobre o nosso país, as gerações futuras provavelmente pararão na independência… e, para o resto, será uma página em branco. Ao aceitarmos subservientemente a nossa situação, em nome daquela fabulosa estupidez chamada resiliência, tornamo-nos especialistas em apagar-nos antes mesmo de sermos registados…

Síria, entre desafios e oportunidades: um novo começo (1/4)

Em 8 de dezembro de 2024, o regime de Bashar al-Assad chegou ao fim. Após mais de 50 anos de ditadura sangrenta e 13 anos de guerra civil que deixaram mais de 600 mil mortos e deslocaram mais de um quarto da população, um novo amanhecer desponta sobre a Síria, trazendo a promessa de um recomeço. Como em qualquer país devastado por uma guerra civil, tudo precisa ser reconstruído. Além disso, graças à sua localização geográfica, à riqueza em recursos naturais e ao apoio dos países do Golfo, a nova Síria, sob o comando de Ahmad al-Charaa, enfrenta várias oportunidades. Por outro lado, o país também terá que lidar com grandes desafios, especialmente no campo da segurança. Vale, portanto, examinar quais são as oportunidades e os desafios que a Síria enfrenta hoje. Riqueza no subsolo Um dos maiores trunfos da Síria é a riqueza de seu solo. O país possui importantes reservas de petróleo e gás. As reservas de petróleo são estimadas em cerca de 2,5 bilhões de barris, o equivalente a cinco anos de consumo de um país como o Reino Unido. Acredita-se ainda que a Síria detenha cerca de 700 bilhões de metros cúbicos de gás natural em suas águas territoriais, o que a colocaria em terceiro lugar entre os produtores de gás do Mediterrâneo Oriental, atrás do Egito (2.130 bilhões) e de Israel (1.090 bilhões). No entanto, para obter números definitivos nesse setor, são necessárias mais explorações e análises. O país também abriga importantes depósitos de minerais como ferro, calcário e mármore e, principalmente, grandes reservas de fosfato. Antes da guerra civil, a Síria era o quinto maior exportador mundial desse mineral. Uma localização geográfica estratégica Outro trunfo histórico do país é sua localização. Os portos mediterrâneos de Tartus e Latakia, situados na costa oriental do Mediterrâneo, têm potencial para se tornar-se grandes centros regionais do comércio global. Além disso, por estar no cruzamento entre Ásia, África, o mundo árabe e a Europa, a reabilitação e reintegração da Síria ao comércio internacional fortaleceriam rotas comerciais estratégicas. O país se posicionaria-se, assim, no eixo Países do Golfo, Jordânia, Síria, Turquia e Europa. Essa rota poderia garantir o abastecimento de petróleo à Europa, oferecendo uma alternativa ao gás russo. Também permitiria o transporte terrestre de mercadorias, mais econômico que o aéreo e mais rápido que o marítimo. Esse novo eixo ajudaria ainda a contornar o Estreito de Ormuz, marcado por tensões geopolíticas entre o Irã e seus vizinhos, e o Golfo de Áden, ao sul do Iêmen, onde navios enfrentam ataques de rebeldes houthis e piratas somalis. Assim, a Síria se tornaria-se o elo que faltava em para uma nova rota comercial ligando Índia, Arábia Saudita e Europa. Uma eventual normalização das relações com Israel também abriria a possibilidade de uma rota comercial conectando Turquia, Síria, Israel, Egito e África, criando novas oportunidades econômicas e comerciais para todos os países envolvidos. Agricultura diversificada e resiliente Embora quase dois terços do território sírio sejam áridos, o país ainda conta com muitas regiões férteis, como as áreas de Aleppo, Barada (perto de Damasco) e a costa síria, especialmente Tartus e Latakia, que têm clima mediterrâneo ideal para o cultivo de oliveiras, frutas cítricas e diversos vegetais. No nordeste, as regiões de Jazira e o vale do Eufrates, irrigados pelo rio de mesmo nome, permitem uma ampla produção de cereais, como trigo e cevada. O país também produz culturas industriais, como algodão e tabaco. Antes da guerra, a agricultura representava cerca de 15% do PIB sírio e as exportações agrícolas somavam mais de 400 milhões de dólares por ano. A recuperação das terras agrícolas e a modernização da infraestrutura poderiam aumentar significativamente a produtividade e a renda. Mais importante ainda, a reintegração da Síria na esfera árabe abriria novos mercados para exportação. Uma indústria versátil Além da riqueza natural, a Síria não se limita-se à extração de recursos. O país também os processa. A indústria síria tem peso relevante no PIB. Refinarias de hidrocarbonetos e fábricas de alimentos empregam grande parte da população, e boa parte da produção é destinada à exportação. O setor industrial também se destaca-se na fabricação de materiais de construção, como cimento, além de têxteis e peças mecânicas. Antes da guerra, a Síria era um importante polo produtor de medicamentos, atendendo 85% das necessidades internas. Com a modernização de sua infraestrutura e parcerias com grandes grupos farmacêuticos, o país poderia se tornar um ator regional ou até global na produção farmacêutica. Graças à riqueza de seu solo, aos recursos humanos e à localização estratégica, a Síria tem muitos trunfos. Com a melhora da segurança, o retorno da diáspora qualificada e da mão de obra, o fim das sanções e os investimentos estrangeiros, sobretudo dos países do Golfo, o país pode rapidamente se transformar-se em um importante polo econômico regional.