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Religião

A Casa da Família Abraâmica: por um mundo de tolerância e paz

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Por Micha Moussallem
Publicado dez 4, 2025 - 11:00

Em 2019, o Papa Francisco tornou-se o primeiro pontífice a realizar uma visita oficial em Abu Dhabi. Durante o encontro, ele e o Grão-Imã de Al Azhar, Dr. Ahmed Al Tayeb, entraram para a história ao assinar um documento sobre a fraternidade humana, que defende a tolerância, a paz universal e a reconciliação entre as religiões.

Para celebrar esse marco e em sintonia com a Carta da Fraternidade Humana, o governo dos Emirados Árabes Unidos decidiu construir, na Ilha de Saadiyat, a Casa da Família Abraâmica — um espaço arquitetônico de quase 6.000 metros quadrados dedicado às três religiões monoteístas. Inaugurado em 2023, o complexo abriga uma igreja, uma mesquita, uma sinagoga e um fórum de encontro.

O projeto tornou-se possível porque os valores promovidos pela Carta da Fraternidade Humana coincidem com os que orientam os Emirados Árabes Unidos, país onde mais de 200 nacionalidades convivem em paz.

Convencido de que a coexistência entre religiões é viável por meio do diálogo, da compreensão mútua e da prática pacífica da fé, o governo quis oferecer a crentes — e também a não crentes — do mundo todo a oportunidade de participar de um diálogo inter-religioso. Isso se dá por meio de fóruns, eventos, masterclasses e também pela simples visita aos três locais de culto, promovendo o conhecimento recíproco das tradições de fé.

O amplo programa educativo desenvolvido pela Casa da Família Abraâmica foi criado em parceria com algumas das mais renomadas escolas e universidades do mundo.

Os valores de tolerância promovidos pela instituição estão profundamente enraizados na própria história dos Emirados Árabes Unidos.

Desde os primeiros séculos do Islã, nos séculos VII e VIII, há registros da presença de mosteiros e igrejas nas ilhas de Sir Bani Yas, em Abu Dhabi, e Siniya, em Umm Al Quwain — evidências de uma antiga comunidade cristã na região. Também há indícios de uma comunidade judaica, comprovados pela descoberta de uma lápide gravada em hebraico com a inscrição: “Aqui repousa David, filho de Moisés.”


Arquitetura e simbolismo

A Casa da Família Abraâmica é obra do arquiteto anglo-ganense Sir David Adjaye Omobe, reconhecido internacionalmente e vencedor da Medalha de Ouro do Real Instituto de Arquitetos Britânicos. Entre seus projetos destacam-se o Centro do Prêmio Nobel, em Oslo; o Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana, em Washington D.C.; e a Fundação Aïshti, em Beirute.

Adjaye é conhecido por seu estilo eclético, pelo uso inovador de materiais e luz, e pela criação de monumentos simbólicos que unem o íntimo ao coletivo.

Para expressar os valores transmitidos pela Casa da Família Abraâmica, o arquiteto começou identificando os materiais tradicionalmente usados nos três espaços de culto — calcário, madeira e bronze — e incorporou aqueles às construções, realçando as referências religiosas e a singularidade de cada uma. Fez questão de que os três edifícios tivessem a mesma imponência, beleza e dimensão, evitando qualquer percepção de hierarquia entre as religiões.


A Mesquita Ahmed El Tayeb

A mesquita recebeu o nome do Grão-Imã de Al Azhar, Dr. Ahmed El Tayeb, coautor do documento sobre fraternidade humana ao lado do Papa Francisco. Voltada para Meca, ela reúne elementos característicos da arte religiosa islâmica, como os sete arcos externos, que simbolizam a transcendência divina e a perfeição espiritual — além da importância do número sete no Islã.

No interior, nove abóbadas se encontram para formar o teto. As janelas de mashrabiya, esculpidas à mão segundo a tradição artesanal árabe, permitem a entrada da luz natural preservando a privacidade dos fiéis. Painéis decorativos de fibra funcionam ainda como divisórias entre homens e mulheres.


A Igreja de São Francisco

Dedicada a São Francisco de Assis, santo do século XIII e patrono do Papa Francisco, a igreja está orientada para o leste, na direção do nascer do sol — símbolo da luz divina e da glória de Deus no cristianismo. Seu interior é marcado por uma “floresta” de colunas voltadas para o leste. A luz refletida reforça a verticalidade do espaço, representando tanto a encarnação de Cristo (luz descendente) quanto a ressurreição (luz ascendente).

Mais de 13 mil metros lineares de madeira compõem a abóbada da igreja. As ripas dispostas acima do altar evocam os raios do sol e remetem ao altar da Basílica de São Pedro, em Roma.


A Sinagoga Maimônides

Voltada para Jerusalém, a sinagoga leva o nome do filósofo e teólogo judeu do século XII, Moisés Maimônides. Concebida como um refúgio para a oração, sua fachada em treliça remete às folhas de palmeira usadas na construção das sukkot — cabanas erguidas durante o festival de Sucot, que celebra o êxodo do povo judeu do Sinai e o fim da escravidão.

A estrutura protege do sol durante o dia e permite contemplar as estrelas à noite. No interior, uma malha de bronze representa a chupá, o dossel sob o qual os casais judeus se casam.

Em um mundo onde a tolerância e a paz entre os seres humanos parecem cada vez mais escassas, uma iniciativa como a Casa da Família Abraâmica nos interpela — e só pode ser recebida com profundo respeito e admiração.


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