


As negociações diretas entre Líbano e Israel começaram oficialmente. O objetivo é alcançar um acordo de paz. A condição central imposta por Israel é o desarmamento do Hezbollah. Outros temas também estão sobre a mesa, como cooperação econômica, reconstrução do Sul do Líbano e segurança na fronteira norte de Israel.
Antes de entrar nos detalhes, surge uma pergunta simples: qual é a alternativa à paz? Qual é a alternativa à recuperação e à reconstrução do Líbano? Não existe uma resposta clara.
O Estado libanês está ausente há décadas. A milícia iraniana instalada no país decide quando começar uma guerra, quando negociar, quando apoiar Gaza ou quando provocar Israel. Decide também quando desestabilizar países vizinhos. Constrói túneis para alimentar conflitos, em vez de erguer abrigos e hospitais.
Com o tempo, o Hezbollah ficou preso em um beco estratégico. A guerra que lançou para servir ao projeto iraniano mudou de rumo. O slogan da “unidade dos frontes” já não sustenta o conflito. O grupo não consegue mais encerrá-lo. Teerã recuou. Retirou, pouco a pouco, a cobertura política. O regime iraniano só quer ganhar tempo. Mantém o Hezbollah como carta de reserva.
Israel também mudou. Já não aceita a continuidade da ameaça representada pela milícia. Empurrou seus combatentes para além do rio Litani. Foi mais fácil do que cumprir a frase famosa de Nabih Berri, que sugeriu “mover o rio Litani para a fronteira com Israel”.
Hoje, o Hezbollah já não segue as antigas regras de dissuasão. Na prática, não reage. Aceitou uma trégua. E uma trégua é só uma pausa entre guerras. Os líderes libaneses ficaram ausentes por anos. Acordaram tarde. Tentaram agir. Depois recuaram. E o que eles não fizerem, Israel fará. O preço será alto para o Líbano.
Foi nesse contexto que um evento histórico ocorreu: a visita excepcional do papa Leão XIV. A visita ganhou peso político com o tema “Bem-aventurados os que trabalham pela paz”. Poucas horas após a partida do pontífice, a comissão que monitorava violações do cessar-fogo se transformou em um comitê de negociações diretas.
Essas negociações servem ao interesse nacional do Líbano. Fortalecem sua segurança. Reafirmam sua vocação como “país-mensagem”, não como foco permanente de conflito. Representam também uma alternativa ao discurso do Hezbollah, baseado em guerras sem fim e em uma “resistência pela resistência”, que só favorece a influência iraniana.
O tabu das conversas diretas com Israel caiu. Durante décadas, ninguém tocava no assunto. Mas surge a pergunta: se o Líbano não negociar em defesa de seus próprios interesses, quem o fará? O Hezbollah negocia em nome do Irã e de sua agenda regional. Por isso, o início das conversas diretas marca a retomada da soberania libanesa e o início da queda da influência iraniana no país.
As discussões começaram de maneira séria. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, designou uma equipe do Conselho de Segurança Nacional para integrar o comitê técnico, conhecido como “mecanismo”. A Presidência libanesa nomeou o embaixador Simon Karam como representante oficial.
As conversas vão além das violações do cessar-fogo. Pretendem preparar o terreno para relações econômicas e cooperação futura. A embaixada dos Estados Unidos em Beirute apoiou a iniciativa. Em comunicado, afirmou que “o progresso sustentável só é possível quando as preocupações e aspirações de ambas as partes são consideradas”.
O embaixador Michel Issa saudou a decisão do governo libanês. Para ele, as negociações são um passo construtivo. Podem abrir caminho, no futuro, para que os dois países coexistam com paz, respeito e dignidade. Ele reafirmou também o compromisso de seu país com a estabilidade e a segurança da região.
O início das conversas não resolve tudo. Mas representa uma abertura importante. Prossegue paralelamente às operações israelenses destinadas a desmantelar o braço militar do Hezbollah e a encerrar suas atividades econômicas e sociais.
O cenário mais tenso pode vir do Irã. Teerã pode optar por um confronto direto se acreditar que o Hezbollah perdeu sua utilidade ou se temer pelo futuro do regime. Nesse caso, poderia sacrificar totalmente a milícia para obter algum ganho estratégico. Esse e outros cenários podem surgir nos bastidores das negociações entre Líbano e Israel.