


Não, a guerra que a Rússia desencadeou contra a Ucrânia não pode ser tratada como um episódio periférico nem como um simples conflito territorial, por mais que incomode os simpatizantes de Putin. A agressão russa revela algo muito mais profundo: um choque entre duas visões de mundo. De um lado, a liberdade e o direito. Do outro, a nostalgia de uma ordem imperial, sustentada por um suposto “século de ouro” mitificado, fundado na dominação e no terror.
O que acontece hoje em território ucraniano é a tentativa metódica de ressuscitar a lógica imperialista russa e transformá-la no modelo político deste século. A batalha pelo Donbas não é uma disputa local. É um teste para toda a Europa — de coragem, de memória e de futuro. Nada menos.
O regime de Vladimir Putin não busca apenas anexar território. Ele almeja restaurar uma arquitetura imperial com referências históricas explícitas: Pedro, o Grande, Catarina II, e a ideia de um “espaço civilizatório” sacralizado pelo mito do “mundo russo”, onde os povos não são sujeitos políticos, mas matéria étnica a ser absorvida, convertida ou apagada. Todo império se funda na negação do direito. Não admite soberania popular, pluralismo ou liberdade individual. A liberdade lhe é estranha.
Essa guerra mira a própria ideia de Europa. Porque Europa não é apenas um território. É, desde sua origem, uma forma de habitar o mundo: uma ideia de dignidade humana, de lei, de debate, de igualdade de direitos. É filha do Iluminismo e do repúdio absoluto à lógica do terror. Nasceu da cooperação para reconstruir o que a cultura da exclusão e do extermínio havia destruído em duas guerras. Só existe onde o indivíduo é soberano diante do Estado.
O projeto imperial russo é a antítese desse modelo: um despotismo baseado na noção de “espaço vital” — exatamente aquilo contra o qual a Europa se reconstruiu após o horror de Auschwitz e Buchenwald. Por isso, Kyiv se tornou uma fronteira, não entre dois países, mas entre dois modelos de civilização. Se a Ucrânia cair, não será apenas um Estado que desmoronará. Será, mais uma vez, a própria possibilidade de um mundo regido pelo direito internacional.
Vemos isso também nas ações de Netanyahu em Gaza e na Cisjordânia. Como escreve Nicolas Tenzer em Nossa Guerra, a invasão russa constitui “uma ofensiva total contra a ordem legítima”. Não é uma crise regional. É um ataque direto à democracia liberal. O Kremlin sabe: se esmagar a Ucrânia, mostrará que a lei é apenas um adorno e que só a força define a verdade. As consequências seriam globais: uma regressão planetária à lógica imperial, de protetorados, vassalos, fronteiras móveis e povos reduzidos ao silêncio. Um retorno à Europa anterior a Westfália.
Ainda mais grave é o colapso paralelo do pilar ocidental que, desde 1945, estruturou o mundo livre. Os Estados Unidos, antes arquitetos e garantidores de uma ordem internacional — imperfeita, às vezes cínica, mas estruturante —, retiram-se agora do cenário histórico. O retorno de Donald Trump à Casa Branca confirmou essa mudança drástica: um mundo reduzido a transações, ganhos imediatos e insignificância moral.
Trump, fiel a si mesmo, teria negociado Munique com Hitler em nome do pragmatismo contábil, acusado Varsóvia de ser “ingrata” com o Terceiro Reich e aconselhado Churchill a “fazer a paz” alterando algumas fronteiras. Talvez até tivesse parabenizado Quisling pelo pragmatismo. Cobardia disfarçada de realismo. Nada mais velho, mas raramente exibido com tanta arrogância, franqueza e indolência cínica.
O que ocorreu em fevereiro entre Trump e Zelenski não foi um incidente diplomático. Foi uma ruptura histórica, quase uma abdicação moral, embora Washington tenha tentado depois recompor os restos de seu erro estratégico. A mensagem enviada a Putin foi claríssima: siga em frente, o caminho está livre. Os Sudetos, versão século XXI.
Essa guinada estratégica americana abriu para a Rússia uma janela de oportunidade perigosa: se Washington se retira, Moscou pode intensificar sua ofensiva, convicta de que a Ucrânia colapsará sob o peso da indiferença ocidental. O que está em jogo não é apenas a derrota de um país, mas o desgaste da própria ideia de Ocidente. Tudo em benefício de uma coalizão global de impérios: Moscou, Pequim, Teerã, suas clientelas e operadores políticos na Europa e nos EUA.
George Steiner teria estremecido de terror: é a última porta do castelo de Barba Azul que desmorona diante de um mundo quase exangue, como ocorre na Palestina. É o fim de uma cultura. Steiner advertiu, desde 1971: “Me parece ridícula qualquer teoria da cultura que não coloque no centro os mecanismos de terror que levaram à morte, na Europa e na Rússia, desde o início da Primeira Guerra Mundial até o fim da Segunda, por fome ou por massacres sistemáticos, setenta milhões de seres humanos”. Ridícula é pouco. Hoje, soa mais preciso dizer ignominiosa.
Esse recuo americano revelou o que Kissinger chamava de “a tentação do desligamento”. O Ocidente sofre de fadiga existencial. Já não acredita em seu próprio relato. Não se atreve a defender o que diz encarnar. Trump não inventou nada nesse sentido: é o sintoma hipertrofiado de uma civilização que duvida de si mesma, de seus referenciais e dos valores morais que construiu para que nunca mais houvesse um Hitler, e que caiu num niilismo mefistofélico. E quando a civilização retrocede, os bárbaros avançam. Perguntem a Rômulo Augústulo e Odoacro.
A Europa está sozinha, e não por acidente. De Gaulle antecipou nos anos 1960: uma grande potência não tem amigos, apenas interesses. A dependência estratégica é um erro mortal. Hoje, a solidariedade atlântica depende do capricho de um homem que oscila entre a admiração por Putin e o desprezo por seus aliados. A Europa hesita, treme, calcula — como ocorreu então com Chamberlain, apesar da lucidez de alguns líderes.
O que resta, então? Apenas uma alternativa: despertar ou morrer. Escolher existir como potência política soberana ou voltar a ser um protetorado. Entender que a liberdade se defende ao modo de Churchill, longe dos Pétain de hoje: Orbán, Salvini e companhia.
A Ucrânia representa hoje o que a Europa esqueceu após quase um século de paz: que a liberdade é uma necessidade vital, não um luxo retórico. E, acima de tudo, que há homens e mulheres que morrem para que a ideia do direito sobreviva. Uma civilização incapaz de reconhecer isso já está morta. Ao perder sua memória, perde sua razão de existir, sua alma.
Nossa guerra — porque é de todos, como dever moral — consiste em manter a fronteira simbólica e política entre o mundo do direito e o mundo do império. Se essa fronteira cair, desmorona a humanidade política. Do que define a Europa restará apenas um espaço geográfico. A Ucrânia é, de certa forma, o limite que ainda protege a Europa das trevas. Se essa barreira cair, uma certa ideia de mundo desaparecerá junto.
É preciso dizer “não” a Putin e a seus imitadores por toda a Europa, enquanto insistirem em transformar o mundo em recintos identitários submetidos ao coração do império e ao seu poder. A resistência coletiva à tirania sempre permitiu moldar uma civilização que, com todas as suas falhas, foi mais progressista e humana. Esse é, nada mais, nada menos, o preço da nossa própria evolução.