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Religião

A encíclica de Leão XIV sobre a IA: Torre de Babel ou Cidade Santa (2/3)
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Fady Noun
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jun 13, 2026 - 01:23

Para ilustrar seu argumento e dar-lhe uma dimensão bíblica, o papa Leão XIV utiliza, em sua encíclica Magnifica humanitas sobre a era digital e a Inteligência Artificial (IA), uma metáfora: a humanidade deve escolher entre construir uma nova “Torre de Babel” ou erguer a “Cidade santa”. A história da Torre de Babel é um episódio bíblico do Livro do Gênesis. Pouco depois do Dilúvio, quando todos falavam a mesma língua, os homens decidiram construir uma cidade e uma torre cujo topo alcançasse o céu, para tornar célebre o próprio nome. Então Deus confundiu sua língua para que eles deixassem de se compreender e os dispersou por toda a superfície da Terra (Gênesis 11:1-9). O mito teve uma fecundidade extraordinária na história das ideias e inspirou reflexões sobre a origem da diversidade das línguas, o poder do esforço coletivo, o pecado do orgulho, a totalização do conhecimento, entre outros temas. O tema da “Cidade santa”, iniciado no Livro de Neemias, encerra o Novo Testamento e ocupa um lugar central na obra de Santo Agostinho. A Cidade santa simboliza tudo aquilo que é humana e divinamente possível e desejável: paz, justiça, as relações de amizade de Cristo com seus santos, fidelidade doutrinal, entre outros valores. Para a fé cristã, cabe à humanidade elevar-se acima de si mesma para construir essa Cidade, seguindo as grandes orientações da doutrina social da Igreja. A irresponsabilidade da “Realpolitik” Ao descrever o mundo em que vivemos, Leão XIV observa que, longe de todas as promessas feitas pelas nações após a Segunda Guerra Mundial e do grito “Nunca mais a guerra” lançado pela Europa, “a lógica do equilíbrio armado e da dissuasão parece estar voltando para se impor”. “Mas, ao contrário do cenário bipolar da Guerra Fria, acrescenta o Papa, a multiplicação dos atores e das frentes de conflito torna hoje essa lógica cada vez mais frágil. A intensificação dos confrontos conduz a guerras assimétricas e ‘híbridas’, travadas também nos campos econômico, financeiro e informático, com o recurso à desinformação e a campanhas que alimentam o medo, para influenciar a opinião pública. Em muitos países, inclusive nos países do Sul, o aumento dos gastos militares é apresentado como a única resposta a um futuro incerto ou a ameaças percebidas, enquanto o custo real recai sobre os mais pobres, que veem diminuir os recursos destinados à saúde, à educação e aos serviços sociais.” “Por trás de tudo isso, insiste Leão XIV, esconde-se um falso ‘realismo’, baseado não apenas na lógica consolidada da força, mas também em uma convicção cultural e antropológica, como se a guerra fizesse inevitavelmente parte da natureza humana. Sempre foi assim, dizem, com exceção de breves intervalos, e sempre será assim! O problema, portanto, já não é a paz, perdida como referência no cenário internacional, mas como e quando agir militarmente, ao mesmo tempo em que se afirma que seria irresponsável não se preparar para o confronto inevitável. O que é realmente irresponsável é a Realpolitik , essa forma de ‘realismo’ político que semeia, tanto nas consciências quanto na cultura, a resignação diante de uma guerra inevitável e que considera a paz e o diálogo como posições utópicas ou irracionais, que ignoram os riscos envolvidos.” (§205). O modo de produção da economia digital Em outro momento, Leão XIV se dedica ao modo de produção da economia digital. Ela se baseia, afirma, “no trabalho silencioso de milhões de seres humanos, empregados em atividades pouco visíveis, mas essenciais: etiquetagem de dados, moderação de conteúdos, muitas vezes extremamente nocivos, treinamento de modelos. Em muitos casos, trata-se de jovens, em sua maioria mulheres, que trabalham arduamente por salários miseráveis. A esse cansaço invisível soma-se outro, ainda mais brutal, relacionado à extração dos recursos necessários para a produção dos dispositivos e dos microprocessadores sobre os quais se apoia a IA”. “Em algumas regiões do mundo, destaca o Sumo Pontífice, crianças e adolescentes trabalham em condições perigosas na trituração dos materiais dos quais são extraídas as terras raras. Corpos marcados, mutilados, utilizados para que o fluxo de processamento nunca seja interrompido. Além disso, redes criminosas utilizam plataformas online, sistemas de mensagens, pagamentos anônimos e técnicas de criação de perfis para recrutar, controlar e transportar vítimas do tráfico humano, frequentemente menores de idade, transformando homens e mulheres em ‘dados’ a serem rastreados e em ‘pacotes’ a serem deslocados dentro dos mesmos circuitos digitais que sustentam grande parte da economia mundial.” E acrescenta: “Essa realidade interpela profundamente a consciência moral do nosso tempo. Não basta invocar a eficiência, nem celebrar os benefícios da inovação, se eles se baseiam em uma cadeia de exploração que permanece deliberadamente invisível.” A paz, fruto da justiça e da caridade Para o papa Prévost, “a paz não é uma esperança ingênua nem uma simples ausência de guerra”, mas “o fruto, sempre possível, da justiça e da caridade”. Ilustrando essa afirmação, Leão cita J.R.R. Tolkien, o grande escritor católico britânico do século XX, descrevendo, pela boca de Gandalf, um dos protagonistas da trilogia O Senhor dos Anéis , nossa responsabilidade: “Não nos cabe dominar todas as marés do mundo, mas fazer aquilo que está ao nosso alcance para o auxílio dos anos em que fomos colocados, arrancando o mal dos campos que conhecemos, para que aqueles que viverem depois de nós possam ter uma terra limpa para cultivar”. Para nós, cujas terras cultiváveis e oliveiras são pulverizadas com glifosato e fósforo, essas palavras deveriam soar particularmente verdadeiras. Próximo artigo: Contra a ilusão pós-humanista, a capacidade de relação e de amor (3/3) Leia também sobre o mesmo tema: A encíclica Magnifica Humanitas de Leão XIV, texto fundador sobre a IA (1/3)

A Encíclica "Magnifica humanitas" de Leão XIV, texto fundador sobre a IA (1/3)

Em sua primeira encíclica de pontificado, Leão XIV aborda de frente os imensos benefícios, mas também os perigos atuais e potenciais da inteligência artificial (IA). Ele defende “a paz possível” em uma época em que acredita que “a guerra faz inevitavelmente parte da natureza humana”. Pouco mais de um ano após sua entronização, o papa Leão XIV apresentou, em 15 de maio passado, sua primeira encíclica, Magnifica humanitas (Magnífica Humanidade), que aborda de frente os imensos benefícios, mas também os perigos atuais e potenciais da inteligência artificial (IA), um avanço tecnológico sem precedentes na história da humanidade, mas também uma poderosa ferramenta capaz de subjugar a humanidade e desfigurar o ser humano. O paralelismo entre “Magnífica Humanidade” e a encíclica Rerum Novarum de Leão XIII (1891) é evidente, inclusive na forma: Leão XIV assinou simbolicamente seu texto em 15 de maio de 2026, data do 135º aniversário da encíclica fundadora da “Doutrina Social da Igreja”. O papa já havia explicado que escolheu seu nome pontifício para homenagear Leão XIII, estabelecendo um paralelo direto entre as transformações da primeira Revolução Industrial e as provocadas pela inteligência artificial. Em 1891, a encíclica Rerum Novarum , que inspiraria toda a doutrina social da Igreja ao longo do século XX, estabeleceu uma série de princípios para lembrar que a economia e o progresso técnico em geral, então em plena transformação, deveriam permanecer a serviço do ser humano, e não o contrário. Em meio à Revolução Industrial, o Papa Leão XIII queria alertar para o perigo que representavam para a humanidade, de um lado, o advento de um capitalismo desenfreado e, de outro, o projeto socialista de uma economia estatal. Entre esses grandes princípios destacavam-se a dignidade do trabalhador, a necessidade de o Estado promover o bem comum, o destino universal dos bens contra sua apropriação por poucos, a subsidiariedade, segundo a qual uma autoridade superior só deve realizar aquilo que os níveis inferiores não podem fazer por si mesmos, a legitimidade tanto do sindicalismo quanto da propriedade privada, além da necessidade da opção preferencial pelos pobres. Uma herança “ampliada” A encíclica Magnifica Humanitas foi recebida como um texto fundador para a era digital, comparável a Rerum Novarum para a Revolução Industrial. Ela retoma essa herança, adaptando-a ao novo ambiente digital, pois “a inteligência artificial, por isso, deve ser entendida não como um apêndice temático, nem como uma emergência a gerir, mas como uma transformação que interpela, a partir de dentro, as categorias da Doutrina social” (§17). Para muitos intelectuais, Leão XIV se revela, graças a esse documento, o homem do momento. Assim, a encíclica incorpora ao princípio da destinação universal dos bens os dados digitalizados: “Quando esses bens permanecem concentrados nas mãos de poucos, sem formas adequadas de partilha e acesso, cria-se um novo desequilíbrio que contradiz a destinação universal dos bens” (§67). Outro exemplo: a encíclica redefine a subsidiariedade porque o “nível superior” já não é representado pelo Estado, mas pelas grandes plataformas tecnológicas que determinam as condições de acesso à vida pública (§71). Toda a sociedade é interpelada À semelhança das grandes encíclicas sociais da tradição católica, Magnifica humanitas interpela toda a sociedade. Trata-se de um apelo universal dirigido tanto aos desenvolvedores de algoritmos e líderes políticos quanto aos cidadãos comuns, crentes ou não, para recolocar a dignidade humana inalienável no centro da inovação. A encíclica é marcada por uma grande fidelidade doutrinária. Ela retoma os conceitos de João Paulo II sobre a dignidade do trabalho humano ( Laborem exercens ), de Bento XVI sobre o desenvolvimento humano integral diante da técnica ( Caritas in veritate ) e de Francisco sobre o destino universal dos bens e a denúncia do paradigma tecnocrático ( Laudato si’ ), além da promoção da fraternidade diante do individualismo digital transmitido pelas telas ( Fratelli tutti ). Atualidade teológica “É preciso devolver atualidade à ideia de que a humanidade é algo grandioso”, escreveu certa vez o papa Bento XVI. Apenas por seu título, a encíclica de Leão XIV ecoa diretamente essa aspiração. A “Magnífica Humanidade” deve ser contemplada “no rosto do Filho”, afirma o papa americano (§133). Um Filho “por quem e para quem tudo foi criado” (Cl 1,16), mas que se apresentou a seus contemporâneos e ao mundo como “o Filho do Homem”, o irmão de todos ( Fratelli tutti ). Nesse sentido, Magnifica humanitas é uma encíclica profundamente personalista, que coloca a pessoa humana “no centro” e não na periferia da atividade humana. Ela também é profundamente moral. Mas não se trata da moral pessoal e sim da moral determinada pelo surgimento e pela utilização dessa ferramenta extraordinária que é a IA. Trata-se, em particular, da moral de seu modo de produção, das relações entre nações ricas e pobres, da relação entre capital e trabalho e da concentração do poder cognitivo, econômico e político nas mãos de multinacionais ou de indivíduos. É também a moral do uso do poder digital no mundo da educação, para fins civis ou militares, bem como para o bem comum ou para a malícia criminosa. Uma grande cegueira espiritual A encíclica também é moral pelo julgamento que faz de nossa época, marcada, segundo o Papa, “de notável cegueira espiritual e cultural.”. No §204, lê-se: “Vivemos numa época de notável cegueira espiritual e cultural. Um falso pragmatismo convida-nos a cortar as raízes da memória, como se fosse possível inaugurar uma espécie de “nova criação” desligada do passado; mesmo quem invoca grandes princípios morais pode cair neste niilismo histórico, iludindo-se com a ideia de que as atrocidades do século XX (N. do E.: as das duas Guerras Mundiais e das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, do gulag soviético, da Shoá e dos campos de extermínio do Camboja, entre outras) não se podem repetir. Na realidade, as mesmas dinâmicas ressurgem sob novas formas.” Como vemos diante de nossos olhos no Oriente Médio, na África, na Ásia e até mesmo na velha Europa. Próximo artigo: Torre de Babel ou Cidade Santa (2/3)

Bkerké dá identidade às esposas de padres casados
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Fady Noun
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jun 3, 2026 - 10:30

Uma revolução virtuosa na Igreja Maronita: Bkerké decidiu conferir identidade às esposas de seus padres casados, as “khouriyètes”. Elas se chamam Rita, Paulette, Nadia, Nour, Charlotte, Dounia e todas são casadas com padres maronitas. São as “khouriyètes”, forma feminina da palavra “khoury” (padre), um nome afetuoso que carregam há muito tempo. Em 16 de maio, elas tiveram a alegria de participar do primeiro encontro nacional de esposas de padres da Igreja Maronita, que decidiu lhes conceder uma identidade e garantir que sejam parte integrante da trajetória sacerdotal de seus maridos. Em uma mensagem dirigida à assembleia, o cardeal Mario Grech destacou o duplo movimento representado por essa iniciativa: a fidelidade à tradição oriental da Igreja Maronita e a abertura ao lugar e ao papel de destaque que a mulher deve desempenhar na sociedade contemporânea. O encontro, um marco histórico, foi preparado e lançado conjuntamente pela diocese de Antélias, presidida por dom Antoine Bou Najem, e pelo Comitê Patriarcal de Acompanhamento do Sínodo sobre a Sinodalidade, presidido por dom Mounir Khairallah, bispo de Batroun. O tema foi: “Vocação e missão da khouriyé na Igreja”. Para as 154 esposas de padres presentes, o encontro representou um enorme presente: o reconhecimento comunitário e a garantia de formação permanente. “Havia até mesmo uma esposa de padre cujo filho também é um padre casado”, conta divertindo-se Rita Abou-Mitri, de 49 anos, coordenadora do grupo de esposas de padres na diocese de Antélias. Essa instância desempenhou um papel fundamental na concretização desse primeiro encontro nacional. “A participante mais antiga celebrava cinquenta anos de casamento, enquanto a mais recente estava casada havia apenas uma semana!”, acrescenta entre risos. O número de “khouriyètes” no Líbano é bem mais elevado, observa Rita, ressaltando que ainda faltam dados precisos sobre o tema. A importância do papel dos padres maronitas na sociedade libanesa dispensa explicações, tanto nos centros urbanos quanto nos vilarejos. Seu casamento é parte integrante da tradição maronita e costuma ser visto como um elemento de estabilidade, fecundidade e unidade. Dentro da Igreja Maronita, eles desfrutam de um status particular: a opção pelo estado de vida é feita antes da ordenação. Como padres diocesanos, não podem ser consagrados bispos nem voltar a se casar após a morte da esposa. No Ocidente, o Papa Francisco autorizou sua presença e ordenação, devido ao crescimento desse clero e aos fluxos migratórios que o levam para fora do Oriente Médio. Enfermeira formada, Rita e seu marido, Georges Abou-Mitri, pároco da igreja São Miguel de Beit Chaâr (Metn), têm três filhos: dois meninos de 15 e 18 anos e uma menina de 11 anos. Eles se conheceram quando Georges se preparava para o sacerdócio no seminário de Ghazir (Kesrouan). A formação universitária dele inclui gestão hoteleira, acompanhamento espiritual e filosofia. Nenhum sentimento de traição ou culpa afeta o relacionamento do casal. O padre Georges já havia optado pelo casamento naquela época, após um processo de discernimento conduzido com seu diretor espiritual. “Deixar Deus por Deus” Para esse casal, as vocações matrimoniais e sacerdotais não se contradizem. Uma das “regras de ouro” da vida em comum é a flexibilidade, princípio estabelecido por São Vicente de Paulo para as Filhas da Caridade: “Há ocasiões em que não se pode seguir a ordem prevista para o dia (…); a caridade está acima de todas as regras (…). Deus chama você para a oração e, ao mesmo tempo, o chama para um pobre doente. Isso se chama deixar Deus por Deus.” “É uma lei de liberdade”, comenta Rita. “Como qualquer mãe, há momentos em que preciso sair da missa para cuidar dos filhos ou deixar uma reunião se uma urgência exigir. Ao mesmo tempo, devo demonstrar muita discrição em minhas relações com as diferentes comissões sociais e caritativas da paróquia, as organizações juvenis, a preparação anual para a primeira comunhão, os grupos de senhoras, as relações com o meio escolar etc.” “É a nossa parceria que faz a família crescer”, continua ela. Para Rita, essa palavra significa que as duas vocações são pensadas e vividas juntas e que, entre as duas, formam uma equipe pastoral, sem que essa síntese introduza uma falsa hierarquia no casamento. Existe um equilíbrio delicado a ser encontrado no serviço mútuo que prestam um ao outro. Sabendo que é prioritário que o sacerdócio do padre Georges seja frutífero, sem que o casamento termine em solidão e exaustão ou que os filhos sejam negligenciados. “Pelo contrário”, destaca Rita, “nosso bom relacionamento se reflete na maneira como meu marido se relaciona com seus paroquianos. Se há tensão no ar, o que acontece às vezes, ou se o cansaço se torna muito evidente, isso cria problemas, e eles percebem imediatamente. Além disso, nossas duas famílias priorizam a agenda de Georges e reorganizam seus horários em função dela. As crianças também se adaptam.” Rita ressalta, porém, que nos primeiros anos do casamento, para cuidar dos filhos pequenos, precisou abrir mão de seu contrato de trabalho em um grande hospital de Beirute. Durante esse período, a família contou com o salário de professor de seu marido, que ministra aulas de catequese e oferece acompanhamento espiritual em duas escolas diferentes. Também é costume nas paróquias maronitas que o padre receba um salário. No entanto, esse valor não é padronizado e depende dos recursos de cada paróquia. No melhor dos casos, chega a 600 dólares por mês. Algumas paróquias reduzem esse valor a uma ajuda de custo de 100 dólares mensais, considerando que o padre pode obter rendimentos adicionais com os batizados, casamentos e funerais que celebra. Ainda assim, na Igreja Maronita, a moradia do padre normalmente é garantida pela paróquia, seus filhos estudam gratuitamente e ele dispõe de seguro médico e hospitalar coberto pela diocese, além de um fundo de aposentadoria. “Se o padre é celibatário ou casado, pouco importa, desde que não olhe para trás, assuma o jugo do serviço e siga Cristo com alegria”, afirma dom Paul Nahed, ele próprio um padre casado e secretário-geral do Comitê Patriarcal para o Acompanhamento do Sínodo sobre a Sinodalidade. O cardeal Grech: “Um verdadeiro chamado” Recebidas e acompanhadas pelo patriarca Raï, por dom Mounir Khairallah, bispo de Batroun responsável pelo acompanhamento do Sínodo sobre a Sinodalidade, por dom Antoine Bou Najem, bispo de Antélias, e por dom Paul Nahed, as participantes do encontro puderam assistir a uma mensagem em vídeo do cardeal Mario Grech, secretário-geral do Sínodo dos Bispos em Roma, que o padre Nahed considerou “surpreendentemente aberta”. “Sua iniciativa”, declarou o cardeal Grech, “embora surpreendente, permitiu-me apreciar o valor do caminho que sua Igreja empreende para permanecer fiel à própria tradição (…). Considerando que a tradição das Igrejas orientais sempre destacou a importância do clero casado, é essencial, na época atual e diante das crescentes transformações socioculturais, reconhecer que as mulheres ocupam um papel mais compatível com suas imensas capacidades; um papel que possa acompanhar plenamente a trajetória sacerdotal e até mesmo tornar-se parte integrante dela, e não algo secundário.” Dirigindo-se diretamente às esposas presentes, o cardeal acrescentou: “Permaneçam fiéis ao seu chamado. Trata-se, de fato, de um verdadeiro chamado. Vivam ao lado de seus maridos como sacerdotes, oferecendo-lhes suas capacidades, sua inteligência e, sobretudo, sua fé, sua esperança e seu amor; esse amor que encontra sua força no maravilhoso dom que Deus lhes concedeu: tornar-se mães dentro da comunidade eclesial.” Divididas em pequenos grupos, as mulheres presentes participaram da chamada “conversa no Espírito”, um momento de partilha e escuta daquilo que o Espírito Santo, por meio da comunidade dos fiéis, diz à Igreja. Elas também puderam conversar com o patriarca Raï, que respondeu pacientemente às inúmeras perguntas relacionadas aos aspectos práticos de sua situação, especialmente sobre a viuvez. Um comitê ficará encarregado do acompanhamento do encontro e da implementação de um programa de formação bíblica e pastoral. Para Rita Abou-Mitri, “o espírito de escuta, discernimento e participação dominou o dia, refletindo uma atmosfera espiritual na qual as participantes enxergaram um Pentecostes”.

O rosário, "oração do pobre" e força de ação do Céu
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Fady Noun
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mai 25, 2026 - 11:54

“É preciso dizer: o rosário impede você de cair ainda mais.” É nesse tom de evidência, sem entrar em detalhes, que fala Raoul*, aposentado apaixonado por línguas, pai de família libanês-canadense altamente qualificado e regularmente ameaçado pelo desemprego! Neste mês de maio, que a Igreja dedica à Virgem Maria, são incontáveis os relatos de ajuda recebida por meio do terço. Para Fahed F., um legítimo habitante de Kesrouan, sem o terço e a visita ao santuário mariano de Béchouate, no Vale do Bekaa, seu casamento teria permanecido sem filhos. “Comece a rezar!”, ouve interiormente esse empresário logo após entregar as chaves de seu carro a um operário encarregado de uma tarefa. Ao retornar, o homem, que discretamente multiplicava as “Ave-Marias” perto do canteiro onde seus funcionários trabalhavam, descobre que seu carro havia derrapado na pista molhada da via expressa do Metn e poderia ter terminado em um barranco, não fosse o grande arbusto que providencialmente interrompeu sua trajetória. Esses testemunhos confirmam, à sua maneira, as palavras do papa Leão XIV, que esteve em 8 de maio no santuário de Pompeia, na Itália, para comemorar o primeiro aniversário de seu pontificado: “O rosário”, disse ele, “é a oração do pobre (...). É um relicário da teologia cristã mais essencial.” Em especial, dos dogmas da Encarnação e da Redenção. De fato, recolhidos ao acaso das conversas, esses testemunhos mostram que o terço é realmente “a oração do pobre”, a oração multifuncional do céu, aquela à qual se recorre espontaneamente, a qualquer momento e em qualquer circunstância, para obter uma graça, deter uma guerra, facilitar o parto de uma criança, pedir coragem para se reerguer, passar em um exame ou evitar um acidente. Uma tradição que vem do século XIII A recitação do terço e do rosário tem suas raízes na Europa medieval. Durante a campanha contra a seita dos albigenses, no início do século XIII, a Virgem apareceu a São Domingos e explicou que, mais poderosa para vencer a heresia do que as polêmicas e as batalhas, a arma da oração deveria ser utilizada. Era preciso repetir sem cessar: “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pobres pecadores!” Essa é a origem do rosário. Uma alegoria diz que a própria Virgem Maria entregou a São Domingos esse precioso colar de nós ou contas, que hoje vemos adornando o retrovisor de tantos carros. Nos conventos, passou-se então a fazer os monges analfabetos recitarem as 150 “Ave-Marias” do rosário, enquanto aprendiam de memória os 150 salmos do Saltério. Composto por cinco dezenas de “Ave-Marias”, cada uma pontuada por um “Pai-Nosso” e um “Glória ao Pai”, o terço é uma oração repetitiva. O rosário contava originalmente com três terços, permitindo percorrer os quinze mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos. A palavra “mistério” é usada aqui no sentido de um episódio fundamental da vida de Cristo. Um quarto conjunto de cinco “mistérios”, chamados “luminosos”, foi acrescentado a essa prática por João Paulo II no início do século XXI, mas permanece opcional. Uma meditação sobre um dos “mistérios” da vida de Cristo acompanha a recitação de cada dezena. Para tornar o rosário acessível, em termos de tempo, ao maior número de pessoas, e não apenas aos religiosos, a Igreja atribuiu dias da semana a cada grupo de “mistérios”, de modo que a recitação completa de um rosário inteiro possa ser distribuída ao longo de três ou quatro dias. Enraizamento na História Seu enraizamento na história da Igreja confere ao terço uma legitimidade espiritual sólida. Sua grande força está na acessibilidade. Ele se adapta às preocupações e aos momentos livres de cada um. É claro que a experiência mostra que sua repetitividade às vezes leva a uma recitação mecânica ou ao sono e que é necessário esforço para concluir o terço. Ainda assim, esse esforço nunca deixa de ser recompensado. Poderoso ponto de apoio nos diversos momentos difíceis da vida, nos problemas de saúde, nos reveses profissionais e nas ansiedades de todos os tipos, o terço também pode levar à descoberta de novas profundezas nas Sagradas Escrituras e a um verdadeiro encontro pessoal com Cristo. “O maior milagre do rosário é aquele que acontece no coração”, garante Marielle, mãe maronita que cresceu em uma família onde o terço era rezado diariamente. Ela admite que, quando criança, quase sempre adormecia durante a oração e que ainda hoje não sabe rezar o terço sozinha. “Com meu marido”, diz ela, “muitas vezes conseguimos transformá-lo em um momento de graça, de troca, de encontro com o Senhor e de poderosa intercessão. Todas as nossas preocupações passam por ali!” Mudar o curso da História Mas a “Rainha do Céu e da Terra” não se contenta em assistir apenas às pessoas. Ela também quer conduzir ao seu filho povos, continentes e o mundo inteiro. Sua intercessão, especialmente por meio do rosário, pode mudar o curso da história. O exemplo mais citado nesse sentido é o papel atribuído ao rosário durante a famosa Batalha de Lepanto, no mar Jônico, em 7 de outubro de 1571, quando se enfrentaram a frota otomana de Selim II e a frota da coalizão da Santa Liga, liderada pela Espanha e pela República de Veneza. Com a perda de 187 embarcações das 251 envolvidas e mais de 20 mil homens, o desfecho da batalha foi considerado providencial. Naquele dia, a expansão otomana sofreu um golpe decisivo. Como consequência, o Papa Pio V fixou em 7 de outubro a festa litúrgica do Rosário. A antiga presença árabe-muçulmana na Europa deixou ao continente duas lembranças belíssimas: Lourdes e Fátima. O vilarejo de Fátima, em Portugal, leva o nome da filha favorita do Profeta do islã. Por trás dessa toponímia incomum está a memória duradoura da Andaluzia e da presença árabe na Península Ibérica. Por que Maria escolheu esse vilarejo para alertar sobre as tragédias do século XX permanece um mistério seu. O que se sabe, porém, é que ela se apresentou às três crianças que a viram como Nossa Senhora do Rosário e pediu sua recitação diária. “A mais nobre das damas” No caso de Lourdes, uma tradição oral recolhida por cronistas leva a crer que esse nome deriva da palavra árabe “ warda ” (rosa, flor), por meio da transformação do “ waw ” árabe na consoante líquida francesa “l”; também se supõe que a gruta de Massabielle, onde a Virgem apareceu em 1858 a Santa Bernadette, tire seu nome do árabe “as-sabil”, que significa fonte ou nascente. Esses detalhes aparecem em uma crônica que relata como, em 778, o imperador Carlos Magno, ao retornar de sua campanha na Espanha, foi detido ao longo dos Pireneus diante de uma fortaleza ocupada por um príncipe chamado Mirat, anagrama de amir ou emir?, que resistia tanto às exigências de rendição quanto às promessas de se tornar “conde e cavaleiro de Carlos Magno” e conservar todas as suas posses, caso aceitasse o batismo. Como último recurso, o capelão de Carlos Magno, o bispo de Le Puy, após implorar fervorosamente a Nossa Senhora de Le Puy, obteve autorização para subir à cidadela como emissário. Sabendo que os muçulmanos tinham grande veneração pela Virgem Maria, ele propôs a Mirat que, se não reconhecesse Carlos Magno, aceitasse ao menos como soberana “a mais nobre Senhora que jamais existiu”. Convencido pela ideia, Mirat declarou-se “pronto para entregar as armas ao servo de Nossa Senhora e receber o batismo, com a condição de que seu condado jamais dependesse, nem para ele nem para seus descendentes, de outra autoridade senão dela”. Carlos Magno confirmou o acordo e Mirat recebeu o batismo das mãos do bispo da diocese de Le Puy. Esse encontro marcou o fim da “Reconquista” na França. Testemunhos que interpelam Esses testemunhos nos interpelam. Por sua influência, Lourdes e Fátima são relíquias sagradas, quase promessas. O santuário de Lourdes continuará até o fim do mundo carregando a marca da Virgem Maria, a “ warda sirriya ” ou “rosa mística” da ladainha do rosário, como desejava Mirat, o sarraceno. Digamos, em conclusão, que a Igreja Católica só pode se alegrar com a santidade dos papas que a governaram há mais de um século. Mas a evidente multiplicação das aparições da Virgem ao longo desse período mostra que ela também julgou útil intervir diretamente no curso da história. No Oriente Médio, nós a vimos no Cairo, em 1968; em Beirute, em 1970; em Damasco, em 1982; e em Mossul, em 1991. Pois nada escapa a Maria, seja em nossas condutas pessoais ou nos tempos inquietantes que o planeta atravessa. Constatamos, no Líbano e em outros lugares, que seus alertas continuam plenamente atuais. No Líbano, tivemos a ideia original de instituir uma festa nacional civil simbolizando nossa convivência comum, tomando emprestada da Virgem Maria a festa da Anunciação, em 25 de março, para fazê-lo. Porque, felizmente, a última palavra sempre lhe pertence. “Se Deus, em sua ira, destruísse o mundo, eu lhe devolveria os pedaços”, são as impressionantes palavras que ela teria confiado um dia ao padre Jean-Edouard Lamy, apóstolo e místico francês (1853-1931). Sim, o rosário é verdadeiramente à imagem da “Serva do Senhor”: a encarnação orante do espírito de serviço e a certeza de que a oração fervorosa e sincera supera em eficácia “as polêmicas e a guerra”. Uma “oração do pobre”, uma oração para tudo fazer e até mesmo, como garante a própria Virgem Maria, para tudo refazer. (*) Os nomes foram alterados.

O Líbano e sua Igreja no turbilhão de três guerras santas
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Fady Noun
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mar 17, 2026 - 15:30

A Igreja no Líbano está hoje envolvida no turbilhão de três “guerras santas”: duas formas distintas de fundamentalismo islâmico (xiita e sunita), um fundamentalismo judaico e uma mudança religiosa escatológica, o “sionismo cristão”. Essas visões espirituais concorrentes compartilham um mesmo ponto central: Jerusalém, a cidade suprema da paz. Durante sua visita ao Líbano, o papa Leão XIV dirigiu-se ao povo libanês com a mesma mensagem que vem transmitindo ao mundo desde sua eleição, especialmente aos jovens cristãos do Oriente: “Sejam arquitetos de sua própria paz; sejam instrumentos poderosos para uma paz entre religiões”. Essas palavras destinam-se a homens e mulheres de um país que é parte integrante da Terra Santa e que, por isso, carrega uma missão de unidade e comunhão. O Líbano é visto como um farol e uma salvaguarda para todos os cristãos do Oriente Médio, pois continua sendo o único país da região onde o cristianismo histórico permanece profundamente enraizado na sociedade. O Papa João Paulo II definiu a nação como “uma mensagem de liberdade e um exemplo de pluralismo tanto para o Oriente quanto para o Ocidente”. Ligado ao Vaticano há séculos e, ao mesmo tempo, profundamente oriental, o Líbano, por meio dos maronitas e de suas escolas, transformou-se em uma ponte extraordinária entre Oriente e Ocidente. Por outro lado, em certas correntes religiosas norte-americanas, especialmente associadas ao “sionismo cristão”, o Oriente Médio, incluindo o Líbano, é percebido como um palco profético centrado na existência e na segurança do Estado de Israel. Nessa perspectiva, os conflitos regionais não são apenas políticos: fazem parte de uma leitura escatológica da história, ligada ao fim dos tempos. Cabe à Igreja abordá-los com uma linguagem que una verdade e caridade. Prudência e discernimento É certo que a Igreja também acredita no fim dos tempos, mas o faz com a prudência e o discernimento adquiridos ao longo de dois milênios e após muitas de suas próprias falhas. Sem a graça de Deus, tais desvios ainda podem ocorrer. No entanto, a Igreja tem algo a dizer sobre o tema, sobretudo quanto à instrumentalização da religião para legitimar a violência. Para ela, a única violência “legítima” é aquela exercida contra “o que torna o homem impuro”, aquilo que “sai do coração: maus pensamentos, homicídios, adultério, imoralidade sexual, roubos, falsos testemunhos, calúnias” (Mateus 15). Essa violência dirige-se, antes de tudo, contra si mesma. Também pode ser exercida externamente, nos limites da legítima defesa. Ainda assim, esse conceito, embora presente no Catecismo da Igreja Católica, deve ser utilizado com a devida cautela. De fato, ele passa atualmente por revisão doutrinária, especialmente quando invocado coletivamente sob o rótulo de “guerra justa”. Wilayat al-Faqih No Irã, a doutrina islâmica da Wilayat al-Faqih estabelece que, durante a ocultação do 12º Imã, conhecido como o “Imã da Era” (século X), o governo fica sob a responsabilidade de um faqih, um jurista-teólogo. Essa teoria, desenvolvida principalmente pelo aiatolá Khomeini, fundamenta uma teocracia que concede primazia ao clero xiita sobre o poder político. O faqih é considerado o Líder Supremo, governando a comunidade muçulmana, a Ummah, com poder de veto em todos os domínios, legislativo, judicial e militar. Cabe a ele conduzir uma política o mais próxima possível daquela que seria adotada pelo próprio Mahdi. Incorporada à Constituição da República Islâmica do Irã, a aplicação dessa doutrina no Líbano pelo Hezbollah levanta a séria questão de sua incompatibilidade com o pluralismo sectário. Em 1995, o xeque Mohammed Hussein Fadlallah proclamou-se marja al-taqlid, ou fonte de emulação, em um ato que representou um desafio aberto ao princípio da Wilayat al-Faqih, em nome de uma tradição “pluralista e não hierárquica” dentro do islã xiita. “Os sinais da Hora” Em um artigo publicado na revista L’Histoire em abril de 2016, o historiador Jean-Pierre Filiu abordou a questão do “jihad do fim dos tempos”. Diversas figuras da teocracia iraniana, do ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad ao secretário-geral do Hezbollah, Hassan Nasrallah, já vincularam publicamente o regime iraniano e seu proselitismo ideológico e militar ao início do “fim dos dias”. Segundo Filiu, “tanto no sunismo quanto no xiismo, o fim dos tempos será anunciado por uma série de sinais, conhecidos como ‘os sinais da Hora’”. Ao lado de indícios mais convencionais, como o crescimento do paganismo, o desprezo pela religião e pelos laços familiares, a corrupção e a imoralidade, há outros mais específicos: as estações se tornarão enganosas, o tempo se contrairá, desertos serão urbanizados, uma montanha de ouro surgirá do Eufrates e os Roums, os cristãos, atacarão as cidades de Aamaq e Dabiq, na Síria. O grupo Estado Islâmico frequentemente invocou esses sinais, inclusive nomeando sua revista Dabiq. Filiu relembra ainda dois exemplos históricos de “oportunismo apocalíptico”, no Sudão em 1883 e em Meca em 1979, ambos derrotados. A tomada da Grande Mesquita, em 20 de novembro de 1979, durante a peregrinação do Hajj, envolveu o sequestro de fiéis por fundamentalistas islâmicos opositores da família real saudita. O líder do cerco, um ex-cabo da Guarda Nacional Saudita, buscava o reconhecimento de seu cunhado como o Mahdi, alegando que a Casa de Saud havia perdido sua legitimidade devido à corrupção, ao luxo e à abertura ao Ocidente. Filiu também ilustra o iluminismo apocalíptico da República Islâmica do Irã por meio de Mahmoud Ahmadinejad, presidente entre 2005 e 2013, que acreditava no retorno iminente do Imã Oculto e afirmou ter sido “envolvido pela luz do Mahdi durante seu discurso na ONU”. O Hezbollah também proclamou uma “vitória divina” após um mês de confrontos com Israel no verão de 2006, evocando uma intervenção do Mahdi ao lado dos combatentes xiitas, observa o historiador. E quanto a Israel? E quanto a Israel? Sabe-se como o pequeno “lar nacional” da Declaração Balfour se transformou em uma potência militar regional. O Líbano também acompanhou de perto a guerra em Gaza, onde o governo de extrema direita do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu respondeu às atrocidades de 7 de outubro com um genocídio. Para revelar o messianismo nacionalista de Benjamin Netanyahu, basta citar seu discurso televisivo de 26 de outubro de 2023: “Somos o povo da luz; eles são o povo das trevas, e a luz triunfará sobre as trevas. Nossa guerra contra o Hamas é um teste para toda a humanidade; é uma luta entre o eixo do mal iraniano, que inclui Hezbollah e Hamas, e o eixo da liberdade e do progresso. Chegou o momento de nos unirmos por um único objetivo: avançar e alcançar a vitória com forças conjuntas e uma profunda crença na justiça e na eternidade do povo judeu. Cumpriremos a profecia de Isaías.” Hamas e o hadith A dimensão escatológica do Hamas, criado pela Irmandade Muçulmana, é evidente em sua carta fundacional de 18 de agosto de 1988. Entre seus objetivos estão a criação de um Estado palestino, a libertação dos territórios ocupados e a eliminação de Israel. Um dos trechos mais significativos é o hadith escatológico citado no artigo 7: “A Hora não chegará até que os muçulmanos lutem contra os judeus e os matem; até que os judeus se escondam atrás de pedras e árvores, e estas dirão: ‘Ó muçulmano, há um judeu escondido atrás de mim, venha e mate-o!’”. “Sionismo cristão” e a segunda vinda Não é necessário reconstituir aqui a história do sionismo, que levou à criação do Estado de Israel. Para nossos propósitos, basta dizer que a crença no papel do Estado de Israel na história da salvação está presente de maneira muito específica em certos círculos evangélicos norte-americanos, que veem Israel como o cumprimento de profecias bíblicas. Para muitos de seus apoiadores, os acontecimentos no Oriente Médio são interpretados por meio de uma leitura escatológica da história. Esses grupos acreditam que o retorno de Israel à sua terra, “do Nilo ao Eufrates”, aceleraria a segunda vinda de Cristo. Por meio de uma leitura literal da Bíblia, essa crença distingue-se do sionismo nacionalista. Para esses evangélicos, a própria existência do Estado de Israel traria Jesus de volta à Terra e garantiria o triunfo de Deus sobre as forças do mal, enquanto os judeus que se converterem ao cristianismo seriam salvos. O “sionismo cristão” foi denunciado novamente muito recentemente pelas Igrejas da Terra Santa. Em uma declaração datada de 17 de janeiro de 2026, os patriarcas ortodoxos grego e armênio classificaram-no como uma “ideologia nociva”. Segundo o texto, essas ideologias “induzem o público ao erro, semeiam confusão e prejudicam a unidade dos fiéis”. Os signatários alertam para “uma possível instrumentalização política que poderia prejudicar a presença cristã na Terra Santa e em todo o Oriente Médio”. O alerta é claro. Para além de mísseis, alianças e rivalidades geopolíticas, a verdadeira batalha pelo Líbano — e por sua Igreja — está em demonstrar que é possível preservar a diversidade religiosa, construir um Estado justo e resistir à instrumentalização política do sagrado. Isso pode parecer utópico, mas se conseguir enfrentar esse desafio em uma região marcada pelas formas mais cegas de arbitrariedade religiosa, o país poderá deixar de ser um campo de batalha para se tornar um farol e um ponto de referência espiritual para todo o Oriente Médio.

Cristãos na Síria: “Desertificação espiritual” no berço do cristianismo (2/2)

No primeiro artigo que examinou a situação dos cristãos do Oriente Médio, delineamos a realidade demográfica e social enfrentada pelas comunidades cristãs na Síria, sombria em todos os aspectos. Esta segunda parte analisa os desafios espirituais, culturais e históricos em jogo. Ao comentar um relatório da L’Œuvre d’Orient sobre as comunidades cristãs da Síria, concluído no verão de 2025 (ver artigo anterior), o bispo Hugues de Woillemont, diretor da organização, destacou o papel vital que as instituições associativas e caritativas cristãs continuam a desempenhar em toda a sociedade síria, especialmente nas áreas de reconciliação, empoderamento das mulheres e educação. Retomando o relatório, ele afirma: “O pluralismo religioso e étnico é um dos maiores ativos da Síria. No entanto, após meio século de ditadura e quatorze anos de guerra, agravados pela violência sectária no período pós-Assad, é evidente que essa diversidade religiosa e étnica foi consideravelmente enfraquecida e ameaçada no país.” “Além disso, a necessidade crucial de proteger as minorias para garantir a estabilidade e prevenir conflitos foi destacada em inúmeros relatórios da ONU”, observou o bispo Woillemont. “No entanto, os atuais mecanismos europeus e internacionais de ajuda e proteção claramente não levam em conta de forma suficiente a vulnerabilidade e a fragilidade desse ecossistema.” “Estamos defendendo, em particular”, disse o diretor da L’Œuvre d’Orient, “a criação de um fundo dedicado à diversidade étnica e religiosa, bem como de uma plataforma nacional de diálogo intercomunitário. Esses instrumentos nacionais e internacionais poderiam ser apoiados por diversas agências das Nações Unidas e da União Europeia. Longe de fomentar o sectarismo, tais iniciativas ajudariam a sustentar uma transição política e a ancorar essas minorias nas sociedades em que vivem, protegendo a estabilidade nacional e fortalecendo o respeito aos direitos humanos para todos.” Diversidade e memória cultural “Essa questão diz respeito ao equilíbrio, à diversidade e à memória cultural do Oriente Médio”, prosseguiu o diretor da ONG. “Ela também coloca em xeque a responsabilidade histórica da Europa. A presença dessas comunidades é uma garantia de pluralismo e democracia. Sem apoio substancial, escolas fecham, jovens emigram, famílias se dispersam e o mosaico religioso colapsa. Um Dia Internacional ajudaria a tornar visível uma crise silenciosa, a oferecer apoio concreto às instituições educacionais e de saúde e a reconstruir pontes entre o Oriente e o Ocidente.” Para Vincent Gelot, representante da ONG no Líbano, na Síria e na Jordânia, o declínio no número de cristãos não é um dado demográfico comum, mas “uma ruptura histórica e cultural de magnitude teológica”. Em outras palavras, reflete a própria presença de Deus na história. Usando uma expressão do Papa Bento XVI, trata-se de uma “desertificação espiritual” no berço do cristianismo: a substituição de uma verdade sobre a pessoa humana por outra. O desaparecimento de Jesus no plano social não é um desenvolvimento neutro. Marca o ensinamento da forma particular com que Deus amou o mundo em Cristo e da compreensão da humanidade transmitida por esse Deus, ou seja, de toda uma antropologia. Em muitos aspectos, é o equivalente oriental da “morte de Deus” no Ocidente: a perda irreparável de uma verdade sobre a pessoa humana que nenhum outro sistema de pensamento pode substituir. As autoridades religiosas cristãs têm sido particularmente atentas à ameaça ao pluralismo. “A diversidade de religiões e grupos étnicos sempre existiu na Síria; não conseguimos imaginar uma nação que não se pareça com a nossa”, afirmou Jacques Mourad, arcebispo siro-católico de Homs. “Os sírios nunca estiveram ligados a uma forma tão tradicional de islamismo”, acrescentou o arcebispo, ao refletir sobre o impacto da ascensão ao poder do Hay’at Tahrir al-Sham. Em sua avaliação, o ambiente social e cultural em que os cristãos viveram por décadas foi profundamente alterado. De volta à realidade “Vamos colocar os pés no chão: 18 milhões de euros para mil projetos não é muito”, enfatizou Vincent Gelot. “Hoje, a ajuda depende quase exclusivamente de doadores privados ocidentais, por meio das organizações agrupadas na ROACO*, e isso é claramente insuficiente.” “Já passou da hora da comunidade internacional assumir suas responsabilidades e agir de forma concreta em favor das comunidades étnicas e religiosas desta região, cuja própria existência está agora em jogo. Sem apoio substancial, o mosaico religioso vai colapsar. A presença dessas comunidades é uma garantia de pluralismo e democracia para o nosso mundo. Um Dia Internacional daria visibilidade a uma crise silenciosa, ofereceria apoio tangível às instituições educacionais e de saúde e reconstruiria pontes entre o Oriente e o Ocidente. Pedimos uma mobilização imediata, não para preservar um passado congelado, mas para manter viva uma presença que contribuiu para o equilíbrio do Oriente Médio por dois milênios.” “Essas comunidades cristãs são testemunhas insubstituíveis do cristianismo da Igreja primitiva”, enfatizou Gelot. “Os lugares santos estão aqui: Jesus e seus Apóstolos caminharam por esta terra; Tiro e Sidon, hoje no Líbano, são mencionadas nos Evangelhos; São Paulo converteu-se no caminho de Damasco; São Pedro foi a Antioquia; e a Jordânia abriga o local onde Jesus foi batizado por João Batista. Ainda assim, vemos comunidades cristãs nessas regiões arrumarem suas coisas e partirem. Partir é inaceitável. Evidentemente, a saída dos cristãos não põe em questão a Ressurreição de Cristo, mas não é já uma ferida teológica para essas comunidades perderem o acesso aos lugares santos? Além disso, sua partida não é apenas uma perda para elas; é também uma perda para nós, no Ocidente, porque parte de nossas raízes, de nossa civilização, de nosso patrimônio cultural e religioso vem daqui. É também uma perda para os muçulmanos. Os países do Oriente Médio precisam ser ajudados a preservar seu mosaico.” Ancorando as minorias “Dessa forma”, ressaltou Vincent Gelot, “a L’Œuvre d’Orient defende a rápida criação de mecanismos de apoio à reconciliação e de uma forma de justiça adaptada para todos os sírios. Recomenda também a criação de mecanismos internacionais e instrumentos de financiamento para garantir uma reconstrução inclusiva, além de uma mobilização contínua da comunidade internacional para promover a diversidade étnica e religiosa na Síria.” Gelot concluiu: “Longe de incentivar o sectarismo, tais iniciativas ajudariam a sustentar uma transição política e a ancorar essas minorias nas sociedades em que vivem, protegendo a estabilidade nacional e fortalecendo o respeito aos direitos humanos para todos.” *ROACO: Reunião das Agências de Ajuda às Igrejas Orientais (incluindo Aid to the Church in Need, Misereor, a Pontifícia Missão e a L’Œuvre d’Orient). Artigos relacionados: “Desertificação espiritual” na Síria: uma realidade dura (1/2)

“Desertificação espiritual” na Síria: uma realidade dura (1/2)
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Fady Noun
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fev 25, 2026 - 13:33

Uma situação grave se desenrola silenciosamente no Oriente Médio, berço do cristianismo. A região está sendo esvaziada de sua população cristã. Processos semelhantes já haviam sido observados no Iraque após a invasão dos Estados Unidos em 2003 e na Terra Santa. Agora, a Síria enfrenta a mesma realidade. “A ruptura é existencial”, afirma Vincent Gelot, representante no Líbano, na Síria e na Jordânia da L’Œuvre d’Orient , organização não política ligada à Igreja Católica francesa, que atualmente conduz uma campanha para criar um Dia Internacional dos Cristãos no Oriente Médio. Tomando a Síria como exemplo, Vincent Gelot diz: “Em quatorze anos de guerra (2011–2025), o país perdeu quase 80 por cento de sua população cristã.” Estimativas confiáveis indicam que restam entre 300.000 e 400.000 cristãos sírios, em uma população total de aproximadamente 26 a 27 milhões de habitantes. Em Aleppo, apenas cerca de um sexto dos cristãos que viviam na cidade antes da guerra de 2011 ainda permanece. Em Deir Ez-Zor, que foi destruída em 75 por cento, a população cristã caiu para apenas quatro pessoas, frente às 7.000 de antes da guerra. Esses números se baseiam em estimativas, já que não há um censo oficial. Uma fonte confiável do secretariado da Igreja Ortodoxa Grega, a maior igreja da Síria, sugere que os dados são subestimados, embora não tenha divulgado números oficiais. Em todo caso, o êxodo deve continuar enquanto não houver estabilidade política nem uma recuperação econômica consistente, segundo uma fonte da Igreja Maronita. Em 1905, os cristãos representavam cerca de 15 por cento da população síria, aproximadamente três milhões de pessoas, percentual que era de 10 por cento pouco antes do início do conflito, em 2011. De acordo com os dados da L’Œuvre d’Orient, essa participação hoje caiu para menos de 1 por cento. “Trata-se de um declínio brutal, comparável apenas a episódios de genocídio ou limpeza étnica”, enfatiza o dirigente da L’Œuvre d’Orient . “É extremamente raro que uma comunidade local, indígena, neste caso os cristãos, desapareça de forma tão rápida e tão violenta.” Ele acrescenta: “Dos 20 por cento que restam, a comunidade é majoritariamente idosa. Mais da metade tem mais de 50 anos. Em outras palavras, a pirâmide etária está invertida, com uma queda acentuada no número de jovens em relação aos idosos.” Uma comunidade “abandonada” “Os cristãos sírios suportaram a guerra como o restante da população, mas também foram alvos específicos do ISIS. Estruturalmente desarmada e sem apoio confessional regional, a comunidade foi deixada à própria sorte, o que explica a brutalidade do êxodo”, afirma Vincent Gelot. O ataque de 23 de junho de 2025 à Igreja Ortodoxa Grega de São Elias, em Damasco, que matou pelo menos 25 pessoas e deixou mais de 60 feridos, ilustra de forma contundente essa vulnerabilidade. O êxodo cristão foi agravado por três fatores adicionais: os efeitos do terremoto de 2023, as sanções internacionais impostas ao regime de Assad e o serviço militar obrigatório, que afetou todos os jovens sírios até a queda do regime, em dezembro de 2024. Radicado no Líbano há dez anos, Vincent Gelot, 37 anos, vive no país com a esposa e os quatro filhos. Ele supervisiona cerca de 1.000 projetos que sustentam o tecido social dos três países sob sua responsabilidade. Não chegou ao Oriente Médio de terno e gravata. “Aos 23 anos, praticamente sem dinheiro, partiu sozinho em um Renault 4L para encontrar um mundo cristão à beira da extinção. Das planícies de Nínive às fronteiras do Afeganistão, sua jornada durou dois anos. Essa aventura foi como uma conversão”, escreveu a jornalista Guyonne de Montjou, que traçou seu perfil para o site Aleteia. Desde então, ele ascendeu na organização e hoje administra, dentro da L’Œuvre d’Orient , cerca de 18 milhões de euros por ano na região sob sua responsabilidade, apoiando hospitais, escolas, clínicas, centros de refugiados, grupos de apoio e incubadoras estudantis. Papel central das instituições cristãs O número de cristãos na Síria não deve ser medido apenas por seu peso social e cultural. As instituições administradas por congregações cristãs não atendem apenas cristãos; elas oferecem espaços de diálogo intercomunitário e promovem a coesão nacional. Seu desaparecimento enfraqueceria profundamente todo o tecido social, assim como sua abertura à modernidade. Um relatório da L’Œuvre d’Orient , publicado no verão de 2025, destaca a “profunda marginalização, marcada pelo medo e pela insegurança persistente” vivida pelos cristãos na Síria e apresenta recomendações à comunidade internacional. “Apesar de sua situação frágil, os cristãos continuam a servir incansavelmente outras comunidades. Por meio de seus quatro grandes hospitais, 57 escolas em todo o país e uma rede dinâmica de associações, eles ajudam a sustentar a população e a promover o retorno ao emprego”, afirma o relatório.

A festa de São Maron: história, sacrifícios e promessa de futuro
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Nayla Assaf
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fev 9, 2026 - 20:03

« O Líbano não pertence aos Maronitas; são os Maronitas que pertencem ao Líbano » Patriarca Nasrallah Sfeir São Maron, cuja festa é celebrada neste 9 de fevereiro, não é apenas uma figura religiosa; ele é, para os Maronitas e para o Líbano, um símbolo fundador de liberdade, fidelidade e resiliência. Enraizado na ascese e na oração no século IV, este eremita sírio inspirou uma tradição espiritual que se estendeu ao longo dos séculos e que se tornaria a Igreja Maronita: um pilar essencial da história libanesa e uma força viva na construção de uma identidade pluralista no coração do Médio Oriente. Ao longo das eras, os Maronitas enfrentaram provações e perseguições, moldando sua identidade nas montanhas do Monte Líbano, muitas vezes à margem das grandes potências, mas sempre no centro da vida religiosa, cultural e social do país. Sua fidelidade à fé e aos seus valores andou de mãos dadas com um profundo compromisso com a liberdade humana e a coexistência — uma mensagem rara em uma região marcada por turbulências incessantes. Os Maronitas não apenas sobreviveram; eles contribuíram diretamente para o nascimento do que hoje chamamos de Líbano . Sua presença histórica influenciou o desenvolvimento político e social do país, dando origem a uma visão de coexistência entre diferentes comunidades e uma estrutura institucional única. Eles construíram escolas, hospitais, universidades e instituições sociais que apoiaram a sociedade libanesa, muitas vezes na ausência de um Estado plenamente organizado. Cada pedra colocada, cada criança instruída, cada doente cuidado reflete a ideia de que o serviço ao próximo é uma dimensão essencial da identidade maronita. Conflitos internos e divisões No entanto, esta história gloriosa não deve obscurecer os desafios internos. As querelas intestinas dentro da comunidade maronita – sejam elas políticas, sociais ou econômicas – por vezes enfraqueceram a sua coesão. As divisões, amplificadas pelo contexto nacional, fragmentaram correntes de pensamento e por vezes desviaram a atenção das questões essenciais. Num Líbano já fragilizado por crises estruturais, estas tensões internas deram a impressão de que o legado histórico dos maronitas estava ameaçado de erosão e que o seu papel central se diluiria face às rivalidades contemporâneas. Contudo, a história ensina uma verdade profunda: mesmo quando as dificuldades parecem intransponíveis, as sociedades capazes de extrair da sua memória coletiva e dos seus valores fundadores podem renascer. O legado maronita está longe de ser uma relíquia empoeirada do passado; constitui uma poderosa reserva moral e espiritual. Os Maronitas resistiram à adversidade durante séculos – das perseguições medievais às transformações modernas – sem nunca renegar a essência da sua vocação. Hoje, mais do que nunca, esta coragem moral, esta fidelidade à dignidade humana, podem ser colocadas ao serviço de um Líbano renovado . Ao retomar os valores de liberdade, diálogo e respeito mútuo que guiaram seus antepassados, os Maronitas podem contribuir para superar as divisões que afligem o país. Não se trata de um apelo à uniformidade, mas à reafirmação de um papel positivo e construtivo em uma sociedade pluralista. Um elo para o diálogo Este papel não se limita à proteção dos interesses comunitários. Abrange uma responsabilidade mais ampla: ser um elo, uma ponte de diálogo entre as diferentes componentes da nação, uma voz para a justiça social, um catalisador de harmonia numa paisagem frequentemente fraturada. Os Maronitas, no passado, encarnaram a ideia de um Líbano que poderia ser um espaço de coexistência pacífica e de criatividade humana. Esta ideia não está morta. Ela ainda vive, pronta para ser intensificada por aqueles que desejam torná-la uma realidade viva. O futuro dos maronitas não deve ser definido pelas rivalidades internas, mas pela sua capacidade de transcender estas divisões e de se unirem em torno do que mais importa: a perenidade do Líbano como terra de acolhimento, de pluralismo e de dignidade humana. Os desafios atuais — sejam políticos, econômicos ou sociais — não são insuperáveis se a comunidade souber extrair do seu legado espiritual e moral. A mensagem intemporal de São Maron, que inspirou gerações a viver com fé e coragem, permanece relevante hoje. Esta mensagem não está confinada aos arquivos do passado: ela vive nas instituições educativas, nos mosteiros, nos centros sociais, em cada gesto de ajuda mútua e solidariedade. Enquanto esta chama perdurar, existe uma possibilidade real de que os maronitas — e com eles todo o Líbano — se reergam, unidos na diversidade, confiantes no futuro . Neste dia de São Maron, recordemos que a nossa herança é tanto uma memória quanto uma fonte de esperança. E que o futuro, apesar dos obstáculos, pode ser escrito com audácia e lucidez, apoiando-se nas lições e sacrifícios do passado, enquanto se olha para um Líbano de concórdia e prosperidade.

Conto de Natal: a solução de dois Estados e a estrela da esperança
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Fady Noun
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dez 25, 2025 - 19:32

Diz-se que, certa noite, quando as areias antes cruzadas pelos Magos pareciam cansadas de testemunhar tantos passos que nunca se encontravam, uma nova estrela começou a brilhar mais forte do que todas as outras. Os mais atentos ergueram a cabeça e suspiraram ao vasculhar o céu, sentindo que algo novo e misterioso, nascido do Grande Desconhecido, se fazia presente. A estrela não surgiu sobre uma terra intacta. Brilhava sobre um Oriente Médio marcado por muros, postos de controle, ruínas, orações em conflito e milhares de mortos, viúvas e órfãos. Naquele mesmo instante, numa rua estreita de Belém, uma família montava um pequeno presépio diante de casa. Nada elaborado: juta reaproveitada de um saco de arroz, algumas figuras de plástico gastas, um menino Jesus envolto em um pano amarelado, ovelhas sem pastores e uma Virgem Maria e um São José de cores desbotadas. Um menino perguntou ao pai: — Pai, por que ainda fazemos um presépio aqui? O pai respondeu, simplesmente: — Porque ainda estamos aqui, meu filho. Naquela noite, a criança viu a nova estrela. Ela parecia mover-se devagar, como se esperasse que alguém a seguisse. Ao longe, um pastor do deserto da Judeia levava seu rebanho de volta antes do anoitecer. Tivera encontros ruins e ouvira tiros demais nos últimos dias. Ele também olhou para cima. E em outros lugares, em Bagdá, Gaza, Amã, Jerusalém Oriental, homens e mulheres sentiram a mesma inquietação misturada a um chamado estranho: não permanecer imóveis, esperar contra toda esperança. Assim, todos partiram. Havia pastores que confiaram seus rebanhos a outros; uma professora que queria entender por que “o futuro havia feito as malas”; um sapateiro de Nazaré cuja oficina sobrevivia sobretudo de consertos, porque ninguém comprava nada novo; dois irmãos separados por um muro, mas falando ao telefone; um pastor que conhecia estradas sem placas; um bispo; sapateiros com as mãos ainda cheias de couro, cola e poeira, dizendo a si mesmos que pés cansados logo precisariam de boas sandálias; adultos ansiosos carregando perguntas mais pesadas do que a bagagem. Eles se encontraram em bloqueios, em ônibus superlotados, em salas de espera. Nem sempre falavam a mesma língua, mas compartilhavam o mesmo silêncio. No caminho, cruzaram com figuras inesperadas. Encontraram três sábios que já tinham visto de tudo. Não partilhavam a mesma língua, a mesma oração nem as mesmas roupas. Mas todos fitavam a mesma estrela. A poucos quilômetros dali, em prédios com ar-condicionado, atrás de portas reforçadas, viram líderes políticos cercados de seguranças e discursos. Buscavam a solução de um enigma que remonta ao primeiro Dilúvio. As crianças perguntaram: — O que vocês procuram? Os líderes responderam: — A solução de dois Estados. Então, um idoso vestido de branco, portando um nome do século XIII, avançou. Ao seu lado caminhava um sábio de Al-Azhar. Falavam entre si por silêncios compreendidos. Por fim, todos chegaram a um lugar muito simples. Não uma fortaleza. Não uma cidadela. Uma igreja danificada no sul do Líbano. Ali vivia uma família. Eles viram uma menina recém-nascida, a quem os pais haviam dado, com carinho, o nome de Esperança. Os pastores compartilharam leite e mel. Alguém ofereceu azeitonas. Os generais e chefes de Estado, por uma vez, se calaram. Serviu-se café. Palavras foram trocadas em pequenos grupos. Os viajantes então compreenderam que Deus costuma ser encontrado onde ninguém pensou em procurar. Um jornalista cobriu o acontecimento, e um cineasta se interessou pela história. Quanto à estrela, ela se dividiu em bilhões de pequenas luzes, uma para cada pessoa que corrigia um erro. E o mundo, pouco a pouco, aprendeu a caminhar novamente, como uma criança dando seus primeiros passos.

Como o fermento na massa…
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Fady Noun
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dez 21, 2025 - 10:14

A vocação da Igreja, de toda Igreja e de todas as Igrejas, é traçada por Cristo. Essa vocação é, ao mesmo tempo, ser universal e inclusiva com o objetivo de banir toda discriminação. É ser o fermento na massa e/ou o sal sem o qual todo alimento perde o sabor e se torna intragável. Em outras palavras, assim como o sal é feito para os alimentos, não somos feitos para nós mesmos, somos «seres para os outros». Essa vocação é também de proclamar, por nossas palavras e atos, a «boa nova» de Cristo. «A base de uma história nacional mínima» e de um início de cristalização de uma identidade nacional, constatada pela historiadora Candice Raymond, é o que temos de mais precioso para oferecer aos nossos compatriotas – e devemos falar dela indistintamente como maronitas e como libaneses. Essa base é o nosso orgulho: é o início de uma identidade estável e definida que devemos proteger de tudo o que possa desfigurá-la. É, em particular, o que podemos oferecer de mais precioso a uma comunidade alienada deste Líbano por uma utopia político-religiosa de natureza «milenarista», no sentido de que deve se cumprir dentro da História, e neste caso preciso, concluir a História. A Igreja já passou por isso. Ela condenou o «milenarismo» cristão, e sabemos muito bem, por experiência, o quanto toda utopia gera o terror. Mas é melhor, em vez dessa demonstração que poderia se prolongar, falar do que os maronitas do Líbano podem oferecer de mais digno aos seus compatriotas: o altruísmo. Eis como: Nenhum texto apologético diz isso melhor do que a Carta a Diogneto, um manuscrito dos tempos apostólicos descoberto em Constantinopla por volta de 1436, em uma peixaria onde servia como papel de embrulho: «Pois os cristãos não se distinguem dos outros homens nem pelo país, nem pela língua, nem pelas vestes. Não habitam em cidades que lhes sejam próprias, não se servem de algum dialeto extraordinário, seu modo de vida nada tem de singular. (...) Residem cada um em sua própria pátria, mas como estrangeiros domiciliados. Cumprem todos os seus deveres de cidadãos e suportam todos os encargos como estrangeiros. (...) Casam-se como todos, têm filhos, mas não abandonam seus recém-nascidos. (...) Estão na carne, mas não vivem segundo a carne. Passam sua vida na terra, mas são cidadãos do céu. Obedecem às leis estabelecidas e seu modo de viver supera em perfeição as leis. (...) Em suma, o que a alma é no corpo, os cristãos o são no mundo. A alma está espalhada por todos os membros do corpo como os cristãos nas cidades do mundo.» A Carta a Diogneto é uma ilustração por excelência do que deve ser a cidadania; a maioria de seus critérios pode ser adotada por todo homem, toda mulher. O mesmo vale para muitos outros textos doutrinários que a Igreja nos oferece, incluindo a Doutrina Social da Igreja. Para essa doutrina, as noções de dignidade da pessoa humana, de bem comum, de destinação universal dos bens, de subsidiariedade na tomada de decisão, de solidariedade, são articulações essenciais das relações sociais, lugar por excelência onde se manifestam a piedade e a fidelidade a Deus. No limite, são até textos areligiosos, no sentido de que não é preciso ser cristão para neles se inspirar; é um banquete aberto ao mundo inteiro. A encíclica social Fratelli Tutti do Papa Francisco faz parte desses textos acessíveis a todos, sem distinção de pertencimento religioso. Este texto é um desenvolvimento da Declaração de Abu Dhabi sobre a fraternidade humana, cosassinada por Francisco e o grande imã de al-Azhar, Ahmad el-Tayyeb (2019). Pelo próprio testemunho do Papa, essa declaração nasceu em suas grandes linhas em torno de uma refeição à qual ele havia convidado informalmente o dignatário sunita, na saída de uma reunião de trabalho na biblioteca do Vaticano. O Papa Francisco destaca nela o conceito de amizade social, que é, na verdade, o complemento necessário do conceito de cidadania. Esses elementos da doutrina cristã são sustentados por valores e princípios universais que transcendem culturas e épocas. Quando João Paulo II disse que o Líbano «é muito mais do que um país: é uma mensagem de liberdade e um exemplo de pluralismo para o Oriente e o Ocidente», era isso que ele queria dizer: os valores encarnados e assumidos pelo Líbano de que falamos, e inscritos em nossa Constituição, são válidos para todos, incluindo o mundo ocidental, do qual uma parte está engajada na ladeira escorregadia do humanismo ateu, autorreferencial. As palavras de João Paulo II sublinham, de uma vez por todas, a missão particular, profunda e insubstituível do país do cedro: a de ser um modelo de convivência entre as diferentes comunidades religiosas que o compõem, em particular entre o cristianismo e o islamismo. Ora, como também afirma João Paulo II, «o homem não é a verdade, ele está em busca da verdade». É o postulado filosófico inabalável sobre o qual repousa o Líbano. É a própria fundação desse pluralismo que o torna rico e que, de fato, é a vocação de toda sociedade democrática. É também o «elo perdido» cuja existência permitiria ao princípio da laicidade na França, que nos é tão próximo cultural e politicamente, evitar a intolerância, permanecer comedido. Não que a Igreja não seja o corpo místico Daquele que disse «Eu sou a Verdade», como crê todo Católico. Mas a Igreja sabe também, em particular desde o Vaticano II, que o «Espírito da verdade», Deus Ele mesmo, age também «fora das fronteiras visíveis da Igreja», e que conduz à salvação aqueles que, «sem culpa própria», e por diversas razões, não conheceram Cristo como os cristãos O conhecem.