

A Igreja no Líbano está hoje envolvida no turbilhão de três “guerras santas”: duas formas distintas de fundamentalismo islâmico (xiita e sunita), um fundamentalismo judaico e uma mudança religiosa escatológica, o “sionismo cristão”. Essas visões espirituais concorrentes compartilham um mesmo ponto central: Jerusalém, a cidade suprema da paz.
Durante sua visita ao Líbano, o papa Leão XIV dirigiu-se ao povo libanês com a mesma mensagem que vem transmitindo ao mundo desde sua eleição, especialmente aos jovens cristãos do Oriente: “Sejam arquitetos de sua própria paz; sejam instrumentos poderosos para uma paz entre religiões”. Essas palavras destinam-se a homens e mulheres de um país que é parte integrante da Terra Santa e que, por isso, carrega uma missão de unidade e comunhão.
O Líbano é visto como um farol e uma salvaguarda para todos os cristãos do Oriente Médio, pois continua sendo o único país da região onde o cristianismo histórico permanece profundamente enraizado na sociedade. O Papa João Paulo II definiu a nação como “uma mensagem de liberdade e um exemplo de pluralismo tanto para o Oriente quanto para o Ocidente”. Ligado ao Vaticano há séculos e, ao mesmo tempo, profundamente oriental, o Líbano, por meio dos maronitas e de suas escolas, transformou-se em uma ponte extraordinária entre Oriente e Ocidente.
Por outro lado, em certas correntes religiosas norte-americanas, especialmente associadas ao “sionismo cristão”, o Oriente Médio, incluindo o Líbano, é percebido como um palco profético centrado na existência e na segurança do Estado de Israel. Nessa perspectiva, os conflitos regionais não são apenas políticos: fazem parte de uma leitura escatológica da história, ligada ao fim dos tempos. Cabe à Igreja abordá-los com uma linguagem que una verdade e caridade.
Prudência e discernimento
É certo que a Igreja também acredita no fim dos tempos, mas o faz com a prudência e o discernimento adquiridos ao longo de dois milênios e após muitas de suas próprias falhas. Sem a graça de Deus, tais desvios ainda podem ocorrer. No entanto, a Igreja tem algo a dizer sobre o tema, sobretudo quanto à instrumentalização da religião para legitimar a violência. Para ela, a única violência “legítima” é aquela exercida contra “o que torna o homem impuro”, aquilo que “sai do coração: maus pensamentos, homicídios, adultério, imoralidade sexual, roubos, falsos testemunhos, calúnias” (Mateus 15).
Essa violência dirige-se, antes de tudo, contra si mesma. Também pode ser exercida externamente, nos limites da legítima defesa. Ainda assim, esse conceito, embora presente no Catecismo da Igreja Católica, deve ser utilizado com a devida cautela. De fato, ele passa atualmente por revisão doutrinária, especialmente quando invocado coletivamente sob o rótulo de “guerra justa”.
Wilayat al-Faqih
No Irã, a doutrina islâmica da Wilayat al-Faqih estabelece que, durante a ocultação do 12º Imã, conhecido como o “Imã da Era” (século X), o governo fica sob a responsabilidade de um faqih, um jurista-teólogo. Essa teoria, desenvolvida principalmente pelo aiatolá Khomeini, fundamenta uma teocracia que concede primazia ao clero xiita sobre o poder político. O faqih é considerado o Líder Supremo, governando a comunidade muçulmana, a Ummah, com poder de veto em todos os domínios, legislativo, judicial e militar. Cabe a ele conduzir uma política o mais próxima possível daquela que seria adotada pelo próprio Mahdi.
Incorporada à Constituição da República Islâmica do Irã, a aplicação dessa doutrina no Líbano pelo Hezbollah levanta a séria questão de sua incompatibilidade com o pluralismo sectário. Em 1995, o xeque Mohammed Hussein Fadlallah proclamou-se marja al-taqlid, ou fonte de emulação, em um ato que representou um desafio aberto ao princípio da Wilayat al-Faqih, em nome de uma tradição “pluralista e não hierárquica” dentro do islã xiita.
“Os sinais da Hora”
Em um artigo publicado na revista L’Histoire em abril de 2016, o historiador Jean-Pierre Filiu abordou a questão do “jihad do fim dos tempos”. Diversas figuras da teocracia iraniana, do ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad ao secretário-geral do Hezbollah, Hassan Nasrallah, já vincularam publicamente o regime iraniano e seu proselitismo ideológico e militar ao início do “fim dos dias”.
Segundo Filiu, “tanto no sunismo quanto no xiismo, o fim dos tempos será anunciado por uma série de sinais, conhecidos como ‘os sinais da Hora’”. Ao lado de indícios mais convencionais, como o crescimento do paganismo, o desprezo pela religião e pelos laços familiares, a corrupção e a imoralidade, há outros mais específicos: as estações se tornarão enganosas, o tempo se contrairá, desertos serão urbanizados, uma montanha de ouro surgirá do Eufrates e os Roums, os cristãos, atacarão as cidades de Aamaq e Dabiq, na Síria. O grupo Estado Islâmico frequentemente invocou esses sinais, inclusive nomeando sua revista Dabiq.
Filiu relembra ainda dois exemplos históricos de “oportunismo apocalíptico”, no Sudão em 1883 e em Meca em 1979, ambos derrotados. A tomada da Grande Mesquita, em 20 de novembro de 1979, durante a peregrinação do Hajj, envolveu o sequestro de fiéis por fundamentalistas islâmicos opositores da família real saudita. O líder do cerco, um ex-cabo da Guarda Nacional Saudita, buscava o reconhecimento de seu cunhado como o Mahdi, alegando que a Casa de Saud havia perdido sua legitimidade devido à corrupção, ao luxo e à abertura ao Ocidente.
Filiu também ilustra o iluminismo apocalíptico da República Islâmica do Irã por meio de Mahmoud Ahmadinejad, presidente entre 2005 e 2013, que acreditava no retorno iminente do Imã Oculto e afirmou ter sido “envolvido pela luz do Mahdi durante seu discurso na ONU”.
O Hezbollah também proclamou uma “vitória divina” após um mês de confrontos com Israel no verão de 2006, evocando uma intervenção do Mahdi ao lado dos combatentes xiitas, observa o historiador.
E quanto a Israel?
E quanto a Israel? Sabe-se como o pequeno “lar nacional” da Declaração Balfour se transformou em uma potência militar regional. O Líbano também acompanhou de perto a guerra em Gaza, onde o governo de extrema direita do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu respondeu às atrocidades de 7 de outubro com um genocídio.
Para revelar o messianismo nacionalista de Benjamin Netanyahu, basta citar seu discurso televisivo de 26 de outubro de 2023: “Somos o povo da luz; eles são o povo das trevas, e a luz triunfará sobre as trevas. Nossa guerra contra o Hamas é um teste para toda a humanidade; é uma luta entre o eixo do mal iraniano, que inclui Hezbollah e Hamas, e o eixo da liberdade e do progresso. Chegou o momento de nos unirmos por um único objetivo: avançar e alcançar a vitória com forças conjuntas e uma profunda crença na justiça e na eternidade do povo judeu. Cumpriremos a profecia de Isaías.”
Hamas e o hadith
A dimensão escatológica do Hamas, criado pela Irmandade Muçulmana, é evidente em sua carta fundacional de 18 de agosto de 1988. Entre seus objetivos estão a criação de um Estado palestino, a libertação dos territórios ocupados e a eliminação de Israel. Um dos trechos mais significativos é o hadith escatológico citado no artigo 7: “A Hora não chegará até que os muçulmanos lutem contra os judeus e os matem; até que os judeus se escondam atrás de pedras e árvores, e estas dirão: ‘Ó muçulmano, há um judeu escondido atrás de mim, venha e mate-o!’”.
“Sionismo cristão” e a segunda vinda
Não é necessário reconstituir aqui a história do sionismo, que levou à criação do Estado de Israel. Para nossos propósitos, basta dizer que a crença no papel do Estado de Israel na história da salvação está presente de maneira muito específica em certos círculos evangélicos norte-americanos, que veem Israel como o cumprimento de profecias bíblicas. Para muitos de seus apoiadores, os acontecimentos no Oriente Médio são interpretados por meio de uma leitura escatológica da história. Esses grupos acreditam que o retorno de Israel à sua terra, “do Nilo ao Eufrates”, aceleraria a segunda vinda de Cristo.
Por meio de uma leitura literal da Bíblia, essa crença distingue-se do sionismo nacionalista. Para esses evangélicos, a própria existência do Estado de Israel traria Jesus de volta à Terra e garantiria o triunfo de Deus sobre as forças do mal, enquanto os judeus que se converterem ao cristianismo seriam salvos.
O “sionismo cristão” foi denunciado novamente muito recentemente pelas Igrejas da Terra Santa. Em uma declaração datada de 17 de janeiro de 2026, os patriarcas ortodoxos grego e armênio classificaram-no como uma “ideologia nociva”. Segundo o texto, essas ideologias “induzem o público ao erro, semeiam confusão e prejudicam a unidade dos fiéis”. Os signatários alertam para “uma possível instrumentalização política que poderia prejudicar a presença cristã na Terra Santa e em todo o Oriente Médio”. O alerta é claro.
Para além de mísseis, alianças e rivalidades geopolíticas, a verdadeira batalha pelo Líbano — e por sua Igreja — está em demonstrar que é possível preservar a diversidade religiosa, construir um Estado justo e resistir à instrumentalização política do sagrado. Isso pode parecer utópico, mas se conseguir enfrentar esse desafio em uma região marcada pelas formas mais cegas de arbitrariedade religiosa, o país poderá deixar de ser um campo de batalha para se tornar um farol e um ponto de referência espiritual para todo o Oriente Médio.