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Religião

“Desertificação espiritual” na Síria: uma realidade dura (1/2)

Campanha é lançada para instituir um Dia Internacional dos Cristãos no Oriente Médio

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Bairro em ruínas de Deir Ez-Zor.
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Por Fady Noun
Publicado fev 25, 2026 - 13:33

Uma situação grave se desenrola silenciosamente no Oriente Médio, berço do cristianismo. A região está sendo esvaziada de sua população cristã. Processos semelhantes já haviam sido observados no Iraque após a invasão dos Estados Unidos em 2003 e na Terra Santa. Agora, a Síria enfrenta a mesma realidade.

 

“A ruptura é existencial”, afirma Vincent Gelot, representante no Líbano, na Síria e na Jordânia da L’Œuvre d’Orient, organização não política ligada à Igreja Católica francesa, que atualmente conduz uma campanha para criar um Dia Internacional dos Cristãos no Oriente Médio.

 

Tomando a Síria como exemplo, Vincent Gelot diz: “Em quatorze anos de guerra (2011–2025), o país perdeu quase 80 por cento de sua população cristã.” Estimativas confiáveis indicam que restam entre 300.000 e 400.000 cristãos sírios, em uma população total de aproximadamente 26 a 27 milhões de habitantes. Em Aleppo, apenas cerca de um sexto dos cristãos que viviam na cidade antes da guerra de 2011 ainda permanece.

 

Em Deir Ez-Zor, que foi destruída em 75 por cento, a população cristã caiu para apenas quatro pessoas, frente às 7.000 de antes da guerra. Esses números se baseiam em estimativas, já que não há um censo oficial. Uma fonte confiável do secretariado da Igreja Ortodoxa Grega, a maior igreja da Síria, sugere que os dados são subestimados, embora não tenha divulgado números oficiais. Em todo caso, o êxodo deve continuar enquanto não houver estabilidade política nem uma recuperação econômica consistente, segundo uma fonte da Igreja Maronita.

 

Em 1905, os cristãos representavam cerca de 15 por cento da população síria, aproximadamente três milhões de pessoas, percentual que era de 10 por cento pouco antes do início do conflito, em 2011. De acordo com os dados da L’Œuvre d’Orient, essa participação hoje caiu para menos de 1 por cento.

 

“Trata-se de um declínio brutal, comparável apenas a episódios de genocídio ou limpeza étnica”, enfatiza o dirigente da L’Œuvre d’Orient. “É extremamente raro que uma comunidade local, indígena, neste caso os cristãos, desapareça de forma tão rápida e tão violenta.” Ele acrescenta: “Dos 20 por cento que restam, a comunidade é majoritariamente idosa. Mais da metade tem mais de 50 anos. Em outras palavras, a pirâmide etária está invertida, com uma queda acentuada no número de jovens em relação aos idosos.”

 

Uma comunidade “abandonada”

 

“Os cristãos sírios suportaram a guerra como o restante da população, mas também foram alvos específicos do ISIS. Estruturalmente desarmada e sem apoio confessional regional, a comunidade foi deixada à própria sorte, o que explica a brutalidade do êxodo”, afirma Vincent Gelot. O ataque de 23 de junho de 2025 à Igreja Ortodoxa Grega de São Elias, em Damasco, que matou pelo menos 25 pessoas e deixou mais de 60 feridos, ilustra de forma contundente essa vulnerabilidade.

 

O êxodo cristão foi agravado por três fatores adicionais: os efeitos do terremoto de 2023, as sanções internacionais impostas ao regime de Assad e o serviço militar obrigatório, que afetou todos os jovens sírios até a queda do regime, em dezembro de 2024.

 

Radicado no Líbano há dez anos, Vincent Gelot, 37 anos, vive no país com a esposa e os quatro filhos. Ele supervisiona cerca de 1.000 projetos que sustentam o tecido social dos três países sob sua responsabilidade. Não chegou ao Oriente Médio de terno e gravata. “Aos 23 anos, praticamente sem dinheiro, partiu sozinho em um Renault 4L para encontrar um mundo cristão à beira da extinção. Das planícies de Nínive às fronteiras do Afeganistão, sua jornada durou dois anos. Essa aventura foi como uma conversão”, escreveu a jornalista Guyonne de Montjou, que traçou seu perfil para o site Aleteia.

 

Desde então, ele ascendeu na organização e hoje administra, dentro da L’Œuvre d’Orient, cerca de 18 milhões de euros por ano na região sob sua responsabilidade, apoiando hospitais, escolas, clínicas, centros de refugiados, grupos de apoio e incubadoras estudantis.

 

Papel central das instituições cristãs

 

O número de cristãos na Síria não deve ser medido apenas por seu peso social e cultural. As instituições administradas por congregações cristãs não atendem apenas cristãos; elas oferecem espaços de diálogo intercomunitário e promovem a coesão nacional. Seu desaparecimento enfraqueceria profundamente todo o tecido social, assim como sua abertura à modernidade.

 

Um relatório da L’Œuvre d’Orient, publicado no verão de 2025, destaca a “profunda marginalização, marcada pelo medo e pela insegurança persistente” vivida pelos cristãos na Síria e apresenta recomendações à comunidade internacional.

 

“Apesar de sua situação frágil, os cristãos continuam a servir incansavelmente outras comunidades. Por meio de seus quatro grandes hospitais, 57 escolas em todo o país e uma rede dinâmica de associações, eles ajudam a sustentar a população e a promover o retorno ao emprego”, afirma o relatório.

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