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Homenagem

Hassan Rifaï, o sábio rebelde
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Michel Hajji Georgiou
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set 4, 2026 - 23:28

De Hassan Rifaï, fica a imagem de um jurista respeitado, sereno, referência em direito administrativo e constitucional, que argumentava com voz calma e trêmula para apontar os desvios e descaminhos dos políticos em relação ao regime democrático parlamentar e à Constituição. No entanto, o ex-deputado e ex-ministro, falecido em 3 de setembro de 2025, era também um homem revoltado. Um inconformista. Mesmo aos cem anos. Sobretudo aos cem anos! Já o havia sido na infância, arengando multidões em Baalbeck contra o Mandato, e continuou assim ao longo de toda a sua carreira como advogado e parlamentar. Aos cem anos, completamente desiludido com a República e seus flibusteiros, sua cólera contida não havia se apaziguado. «O Líbano é um país impossível!», dizia ao autor destas linhas em uma entrevista realizada alguns anos antes de sua morte e jamais publicada. Mas atenção. Hassan Rifaï não era niilista, nem alguém que negasse tudo por princípio. Lutara a vida inteira por uma determinada ideia do Líbano. Mais precisamente, pelo Grande Líbano, unido e plural. E sabia avaliar em sua justa medida a experiência libanesa, com tudo o que ela tivera de positivo. Mas o ser humano o havia decepcionado. E era precisamente o ser humano que ele procurava. Nunca o encontrou na cena pública libanesa. Pelo menos, não a serviço da República. Rifaï era um homem do direito, sempre elegante, irrepreensível, tudo o que se espera de um homem de sua estatura moral e intelectual. Mas também era intransigente. Implacável, até. Sem dúvida, seu apego ao país e ao regime democrático o levara a reconhecer uma única fidelidade: um determinado código de valores e uma determinada ideia da República. Por isso se mostrava crítico diante de todos os erros e de todos os desvios, começando pelos cometidos por seus próprios amigos políticos. Não poupava ninguém. Nem comunidades nem clãs, nem líderes religiosos, ele próprio era laico, e muito menos os responsáveis políticos. Ninguém escapava ao seu crivo, e Rifaï sentia um certo prazer em desconstruir os mitos e as ideias feitas que transformavam este ou aquele presidente da República ou primeiro-ministro em um líder excepcional. Seus critérios eram objetivos: a coerência entre os atos e os princípios democráticos. Assim, ninguém encontrava verdadeiramente graça aos seus olhos. A constatação era terrível: nenhum dos dirigentes, ao longo da história do país, havia realmente respeitado a democracia parlamentar libanesa. Nenhum. Não porque colocasse todos no mesmo plano. Tinha distância crítica suficiente para reconhecer as qualidades e os defeitos de uns e de outros. Gostava de citar Léon Duguit: «O direito constitucional não tem outro guarda-freio senão a boa-fé dos homens que o aplicam.» Quase fizera dessa frase seu credo republicano. E seu veredicto era implacável: essa boa-fé, simplesmente, ele não a encontrara. Políticos demais, homens de Estado de menos. E, sobretudo, muita mentira e hipocrisia. Um dia, um grande dirigente lhe aconselhou: «Não construa estradas para as pessoas. Caso contrário, elas deixarão de procurá-lo.» Apesar do respeito que nutria por aquele aliado político, a frase o deixara perplexo e chocado. Ela continha, por si só, toda uma concepção do poder: jamais resolver definitivamente o problema daquele que se pretende representar, pois, desaparecendo sua necessidade, desapareceria também a própria razão de sua dependência. O projeto do Estado ficava, assim, adiado indefinidamente. Ou, de todo modo, quando existiam pessoas de bem, o sistema não lhes permitia chegar aos cargos de responsabilidade. Rifaï era um rebelde, sim, mas com o rigor e a precisão de um ourives do direito administrativo e constitucional. E era provavelmente isso que o distinguia no meio político libanês. Rebelde o suficiente, em todo caso, para pagar um preço por isso. Em agosto de 1982, foi vítima de uma tentativa de assassinato depois de se opor ao diktat israelense. Em Taif, em 1989, foi praticamente posto à margem por ter percebido de imediato as falhas existentes e as armadilhas acrescentadas às reformas constitucionais. A partir de 1992, sob a ocupação síria, sofreu ostracismo político por se opor ao aparato de segurança que sustentava a tutela síria e à política de Rafic Hariri. Mas era justo. Podia se opor ao confessionalismo político e, ao mesmo tempo, reconhecer que sua abolição no estágio atual seria uma catástrofe para o Líbano, e que uma democracia reduzida à mera lógica dos números faria soar de uma vez por todas o dobre de finados da fórmula libanesa e da presença cristã no país. Podia concordar com a ideia de que os cristãos haviam sido prejudicados pelas reformas constitucionais de Taif, os sunitas também, sustentava, ao mesmo tempo em que lembrava os excessos cometidos no exercício do poder pelos presidentes da República entre 1943 e 1990 e advertia contra qualquer surto de nostalgia por essas práticas sob a bandeira dos «direitos dos cristãos». Uma deriva rumo a um regime presidencial ou semipresidencial constituía, a seu ver, um perigo para os cristãos. A importância do regime parlamentar herdado da Terceira República francesa residia precisamente no fato de que o presidente da República não era politicamente responsável perante a Câmara dos Deputados. Isso o colocava, segundo Rifaï, em uma posição privilegiada. Acima da disputa, podia conduzir o navio da República a bom porto sem ficar atolado nas lutas pelo poder. Essa responsabilidade moral de preservar a Constituição e a República era, a seus olhos, muito mais importante do que qualquer responsabilidade política. Mas ainda era preciso convencer disso os principais interessados. Rifaï podia reconhecer a importância de uma descentralização administrativa e, ao mesmo tempo, recusar que essa reivindicação se transformasse em um slogan ideológico a mascarar uma vontade separatista. Nesse sentido, lembrava que Beirute e o Monte Líbano haviam sido privilegiados na construção do Grande Líbano, ao passo que as regiões periféricas, sobretudo a sua, Baalbeck, haviam sido desprezadas. Isso contribuíra para enfraquecer o sentimento nacional libanês, que dependia, afinal, de um bem-estar baseado no respeito à dignidade humana. A adesão à cidadania pressupunha que todos fossem tratados da mesma forma do ponto de vista do desenvolvimento. Sem igualdade entre os cidadãos, a soberania só podia vacilar. Esse, aliás, foi o sentido de sua primeira intervenção no Parlamento, em 1968. Os acontecimentos que se seguiram conferiram uma gravidade singular àquele alerta. Os desequilíbrios econômicos, sociais e territoriais contribuíram para alimentar as reivindicações da esquerda e de setores da rua muçulmana, em um país já atravessado por tensões comunitárias, ingerências externas e pelo crescente poder das organizações armadas. Contribuíram, assim, para o enfraquecimento progressivo do Estado, antes da guerra, das ocupações sucessivas e do surgimento de estruturas paraestatais. Em última análise, Hassan Rifaï encarna um pouco esse modelo libanês de personalidade cosmopolita, complexa, situada fora das trincheiras comunitárias e partidárias, respeitada de maneira quase unânime, sobretudo fora dos círculos políticos, mas consultada dentro desses mesmos círculos apenas quando necessário e por interesse. O Líbano não gosta de espíritos independentes e insubmissos demais, embora seu sistema ainda conserve brechas que permitem que essas pessoas existam e façam sua voz ser ouvida. Elas são toleradas, mas devem permanecer à margem. Disso depende a sobrevivência do Estado- zaamat e do Estado- jamaat , que prefere invariavelmente recorrer a tutores estrangeiros em vez de se voltar para pessoas capazes de gerar, propor e implementar soluções a partir de dentro. O sistema político libanês e seus protagonistas detestam a noção de responsabilidade, que lhes causa profunda ansiedade, e preferem a dependência ou, pior ainda, a servilidade. Ora, repetia Rifaï, citando mais uma vez Léon Duguit: «Onde está a responsabilidade, está o poder.» Deve surpreender, então, que no Líbano, onde a responsabilidade não está em lugar algum, o poder também não esteja em lugar algum? Ou, mais exatamente, que esteja sempre em outro lugar?

Samir Kassir: essas ausências que nos assombram
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Jad Akhawi
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jun 1, 2026 - 23:20

Todos os anos, quando chega o dois de Junho, Samir Kassir regressa à memória como se nunca tivesse verdadeiramente desaparecido. Os anos decorrem, os rostos mudam, as circunstâncias e os acontecimentos sucedem-se, mas há pessoas que o tempo não consegue reduzir a meras recordáções. Permanecem presentes nos pormenores das nossas vidas, nas palavras que escrevemos, nas ideias que defendemos, nos sonhos que não tiveram tempo de se cumprir. Vinte e um anos passaram desde o assassínio de Samir Kassir, e tenho ainda a sensação de que aquela manhã funesta não terminou realmente. Samir não era para mim um jornalista, um escritor ou um pensador cujos artigos e ideias eu acompanhava à distância. Era um amigo, um ser excepcional, que possuía essa rara faculdade de conciliar a cultura profunda com a simplicidade humana, a ousadia intelectual com o calor pessoal. Acreditava no Líbano como o crente acredita na sua grande causa. O Líbano não era para ele um slogan político nem um discurso mediático, mas um espaço de liberdade, de vida, de pluralidade. Via para além do momento presente e lia o futuro numa época em que muitos eram incapazes de ver o presente. Conheci-o próximo das pessoas, apesar da sua estatura intelectual. Ouvia mais do que falava, dialogava mais do que atacava, e persuadia pela força da ideia antes do que pela elevação da voz. Nada tem de estranho, pois, que tenha deixado uma impressão profunda em todos quantos o conheceram ou dele se aproximaram. Quando Samir foi assassinado, não senti apenas a perda de um grande jornalista. Tive a sensação de que uma parte do sonho libanês acabava de ser submetida a uma tentativa de assassínio. Nesse dia, o luto não era somente pessoal, era também nacional. Era a consciência de que a palavra livre tinha passado a ser um alvo, e de que os homens de convicção pagavam a sua coragem com a vida. Mas o destino quis que a chama de Samir permanecesse acesa através de quem havia partilhado a sua vida, Giselle Khoury. Giselle era muito mais do que a esposa de Samir. Era a companheira da sua trajectória intelectual e humana, a testemunha dos seus sonhos, das suas lutas, das suas vitórias e das suas desilusões. Após o assassínio, ela poderia ter-se retirado para o seu luto íntimo e contentado-se com guardar as recordáções. Escolheu um caminho muito mais difícil. Escolheu continuar o que Samir havia começado. Carregou o seu nome, a sua causa e a sua memória com um amor raro e uma fidelidade excepcional. Não permitiu que o tempo dobrasse a sua página, não permitiu que os assassinos triunfassem sobre a ideia matando aquele que a transportava. Continuou a falar dele como se ele se mantivesse ao seu lado, e continuou a defender a liberdade, a justiça e a verdade tal como ele próprio o fazia. Em Giselle via algo de Samir, e na sua continuidade, um prolongamento dele. Ela sabia que o ser parte, mas que a mensagem permanece. Por isso não comemorava cada ano a memória de Samir como uma simples ocasião de tristeza, mas transformava-a num acto de fidelidade e numa afirmação obstinada de que a palavra deve permanecer mais forte do que o medo. Quando Giselle partiu por sua vez, o luto pareceu-me redobrar. Como se uma bela página da história cultural e mediática do Líbano acabasse de se fechar. Os dois corpos tinham partido, mas a história permanecia. A história de um amor que havia unido dois seres, cada um dos quais acreditava no outro como acreditava no Líbano. E a história de uma luta pela liberdade que não se detém nos limites de uma única vida. Neste vigésimo primeiro aniversário do assassínio de Samir Kassir, não é apenas o retrato do grande escritor e do brilhante pensador que reencontro em mim. Reencontro o amigo, o ser humano, o rosto que carregava sempre uma fé profunda na capacidade dos libaneses para construírem um futuro melhor. E reencontro também Giselle Khoury, que provou que a fidelidade não é uma palavra que se diz, mas um caminho que se percorre. Guardou o depósito até ao último dia da sua vida e carregou a chama caída das mãos de Samir, para a transmitir por sua vez a uma nova geração que acredita na liberdade, na soberania e no Estado. Os assassinos conseguiram talvez, naquela manhã de Junho de 2005, silenciar a voz de Samir. Não conseguiram silenciar a ideia. As grandes ideias não morrem, e os homens que semeiam a liberdade nos espíritos alheios nunca desaparecem verdadeiramente. Hoje, vinte e um anos depois, Samir Kassir permanece presente entre nós. Em cada palavra livre, em cada jornalista que recusa ceder, em cada cidadão que sonha com um Estado justo, em cada libanês que ainda acredita que este país merece um futuro melhor. A longa ausência não apagou a memória, tornou-a ainda mais presente. Certos seres, qualquer que seja a distância que o tempo coloca entre eles e nós, permanecem mais próximos do que muitos dos que vivem ao nosso lado. Assim era Samir Kassir. Assim ficou Giselle Khoury. E assim perdurará a história de liberdade e fidelidade que os uniu, viva na memória do Líbano enquanto houver alguém que acredite na palavra livre e no direito das pessoas a sonhar. Os seus nomes permanecerão como testemunho de que a memória não é um simples regresso ao passado, mas uma resistência ao esquecimento, e de que a liberdade que defenderam extrai a sua força daqueles que recusam renunciar a ela. Entre Samir e Giselle estende-se a história de um país que procura sempre encontrar-se a si mesmo, e que encontra em pessoas como eles mais uma razão para se agarrar à esperança. Os seres passam, mas a impressão verdadeira permanece, iluminando o caminho das gerações vindouras e atestando que o Líbano só se constrói com liberdade, e só se preserva com memória.

Ao meu irmão Nassir al-Assaad
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Hadi El-Assaad
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mai 27, 2026 - 17:14

Já se passaram quatorze anos. Quatorze anos desde a partida de Nassir al-Assaad e, ainda assim, a memória do meu irmão permanece intacta no coração de todos aqueles que o conheceram, o amaram, o admiraram ou simplesmente cruzaram seu caminho na estrada em direção a um Líbano que ele sonhava ver livre, soberano e digno. Nassir pertencia àquela geração de homens que não buscavam os holofotes nem as honrarias. Acreditava profundamente nas causas justas sem jamais procurar qualquer benefício pessoal nelas. Artesão discreto, mas determinado, da Revolução dos Cedros de 2005, ao lado de Samir, Fares, Elias e Samir, mas também de Walid, Gebran e outros, ele compreendeu cedo que o Líbano não poderia sobreviver sem liberdade, sem pluralismo e sem um Estado. Era um daqueles que agem mais do que falam. Um daqueles que constroem em silêncio. Um daqueles que recusam compromissos, mas sempre mantêm o respeito pelos outros e a modéstia dos grandes homens. Seu compromisso não era circunstancial nem oportunista. Nascia de uma convicção profunda: a de que o Líbano merece algo melhor do que divisões, tutelas, armas ilegítimas e dependências estrangeiras. Ele acreditava em um Líbano aberto, moderno, enraizado em sua história e fiel à sua vocação de convivência e liberdade. Mas, para além do homem comprometido, Nassir permanecerá sobretudo em nossa memória como um homem de imensa humildade. Apesar de suas responsabilidades, apesar de sua influência real em muitos círculos políticos e intelectuais, conservava uma simplicidade rara, uma proximidade sincera com todos e uma elegância moral que impunha respeito. Para mim, ele não era apenas um homem de convicções ou uma figura engajada de seu tempo. Era, acima de tudo, um irmão. Um irmão profundamente amado, companheiro de jornada, confidente, presença tranquilizadora e fiel. Sua ausência deixou, há quatorze anos, um vazio que o tempo jamais conseguiu preencher de verdade. Certos laços fraternos transcendem as palavras: são feitos de lembranças, olhares, silêncios, momentos simples que continuam habitando uma vida inteira. Sinto sua falta nos grandes marcos e também nos detalhes do cotidiano. Sinto falta de sua sabedoria, de sua discrição, de seu humor sereno e daquela maneira única que tinha de acalmar as coisas sem jamais impor sua presença. Ele era jovem quando nos deixou. Jovem demais. E, como acontece frequentemente com homens de convicção, o tempo parece ter dado ainda mais valor à sua trajetória e ao seu legado. Hoje, enquanto o Líbano atravessa um dos períodos mais difíceis de sua história contemporânea, a memória de Nassir nos lembra que ainda existem homens capazes de colocar o interesse nacional acima dos interesses pessoais, homens capazes de acreditar no Líbano mesmo quando tudo parece empurrar para o desânimo. A mais bela homenagem que podemos lhe prestar não é apenas feita de palavras ou lembranças. É continuar defendendo os valores aos quais ele dedicou sua vida: a soberania, a dignidade do Estado, a liberdade, o diálogo e a esperança. Por ocasião do décimo quarto aniversário de sua partida, pensamos nele com emoção, orgulho e fidelidade. Porque alguns homens nunca desaparecem de verdade. Tornam-se parte da memória das nações. Para Nassir, com afeto, gratidão e respeito.

El inquietante testamento de Ghassibé Keyrouz, mano derecha de Nicolás Kluiters, S.J. (3/3)

A festa de São José (19 de março), padroeiro da universidade que leva seu nome, trouxe à memória de seu novo reitor, o padre François Boëdec, SJ, a lembrança de Alban de Jerphanion, o primeiro mártir jesuíta da guerra aparentemente interminável que eclodiu no Líbano em 1975, cujo capítulo mais recente, que se espera seja o último, começou a se desenrolar no início de março. Outros cinco mártires desse conflito tombaram após o padre de Jerphanion. Em homenagem ao seu sacrifício e com a publicação de uma nova biografia dedicada a uma de suas figuras mais santas, o sacerdote neerlandês Nicolas Kluiters, cujo processo de beatificação está em andamento, este trabalho é apresentado aqui, revelando detalhes inéditos sobre as motivações daqueles que mataram o padre Nicolas. Ao mesmo tempo, lança luz sobre o significado mais amplo do dom que ele fez ao Líbano, para que o país pudesse perdurar como modelo de “liberdade e pluralismo” tanto para o Oriente quanto para o Ocidente, em um momento em que uma nação fortemente militarizada ameaça privá-lo de uma parte vital de seu território, marcada pela memória da passagem de Cristo. A oferenda de amor feita por Nicolas Kluiters, SJ, encontrou um eco inesperado na de um companheiro de seminário, Ghassibé Keyrouz, um jovem da aldeia vizinha de Nabha. Dez anos mais novo, Ghassibé demonstrava dons notáveis como catequista, e Nicolas o acolheu sob sua orientação, guiando-o rumo ao sacerdócio. Ghassibé foi morto em 1975, por volta do Natal, quando voltava para casa para passar as festas com sua mãe e sua irmã. No dia anterior, levado por uma misteriosa premonição, escreveu e deixou sobre sua mesa, em seu quarto no colégio Notre-Dame de Jamhour, uma carta testamentária na qual, pressentindo que poderia ser sequestrado e morto, perdoava antecipadamente seus futuros agressores. Essa carta extraordinária se espalhou rapidamente pelo mundo. Eis seus trechos essenciais: “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo: “Quando comecei a escrever este testamento, era como se outra voz falasse por mim. Nestes dias, todos, libaneses e residentes no Líbano, vivem em perigo. Como um deles, vejo a mim mesmo sendo sequestrado e morto na estrada que leva à minha aldeia de Nabha. E se essa intuição se mostrar verdadeira, deixo estas palavras à minha família, às pessoas da minha aldeia e ao meu país. À minha mãe e às minhas irmãs, digo com plena confiança: não fiquem tristes, ou ao menos não chorem nem se desesperem em excesso. Essa ausência, por mais longa que pareça, é na verdade breve. Nós nos reencontraremos, certamente nos reencontraremos na morada eterna do céu. Lá há alegria e há tristeza quando estamos separados. Não tenham medo: a misericórdia de Deus nos reunirá novamente. “Tenho apenas um pedido a lhes fazer: perdoem, de todo o coração, aqueles que me mataram. Rezem comigo para que meu sangue, ainda que seja o de um pecador, sirva como resgate pelo pecado do Líbano; que se una ao de todas as vítimas que tombaram, de todos os lados e de todas as comunidades religiosas, e seja oferecido como preço da paz, do amor e da concórdia, que desapareceram deste país e até mesmo do mundo. Que minha morte ensine a caridade; que Deus os console, os proteja e os guie ao longo da vida. Não tenham medo. Não lamento este mundo de forma alguma. O que me entristece é saber que vocês ficarão tristes. Rezem, rezem, rezem e amem seus inimigos. “E ao meu país, digo: ‘os habitantes de uma mesma casa podem ter opiniões diferentes; eles não se odeiam. Podem se irritar uns com os outros, sem se tornarem inimigos; podem discutir, sem se matarem. Lembrem-se dos dias de harmonia e de caridade; deixem para trás os de ira e discórdia. Juntos comemos, bebemos e trabalhamos; juntos elevamos nossas preces ao Deus único; juntos também devemos morrer. Meu pai foi sócio de um metuali (xiita) a quem eu chamava de ‘tio Hussein’, nome que eu gostava de usar. Permaneceram sócios por setenta e cinco anos sem jamais romper o acordo ou acertar contas. Lembrem-se disso: muitas vezes não se consegue emprestar cem libras ao próprio irmão; no entanto, basta recorrer a alguém da aldeia, seja metuali, maronita, sunita ou druso, para que venha em seu auxílio. Todos sabem disso, mas o pecado nos cega. Cada pessoa deve voltar à oração, segundo sua fé e sua consciência, para que Deus dissipe a ira e reduza a pó os projetos dos poderosos deste mundo, neste solo que não deveria pagar com seu sangue por suas maquinações…’ “No céu, não descansarei enquanto essa situação no Líbano perdurar. “Que meu funeral seja um dia de ordenação, não de sepultamento ou de tristeza. “Para meu enterro, que o padre Boutros celebre a missa, sem grande presença de sacerdotes nem aviso oficial. Se Abou-Khalil puder fazer meu caixão com algumas caixas velhas, será suficiente. Nada de refeição fúnebre. Que as pessoas me perdoem, sem tiros. Sou pó, mas pelo poder de Deus participarei da vida divina. Assim deve ser feito. “As pessoas falarão, mas não se preocupem com isso. Se tivessem um pouco de piedade, não se matariam nem deixariam os lobos triunfarem sobre nós. Como estão profundamente enganadas!” Uma oliveira regada com sangue Nicolas ficou profundamente abalado com a morte violenta de Ghassibé Keyrouz, ocorrida enquanto ele se encontrava temporariamente na Europa. A morte de Keyrouz prefiguraria o próprio destino de Nicolas, assim como o de outros cinco jesuítas que serviam no Líbano. Segundo Christian Taoutel, arquivista da USJ e diretor de seu departamento de história, a guerra civil também vitimou o padre Louis Dumas, que celebrava a missa matinal e foi atingido por um franco-atirador em 25 de outubro de 1975; o padre Michel Allard, morto em 15 de janeiro de 1976 quando um projétil destruiu seu quarto; o padre Alban de Jerphanion, sequestrado e assassinado em março de 1976 enquanto acompanhava um visitante ao aeroporto; e o padre Finnegan, jesuíta americano, atingido por um projétil em 26 de fevereiro de 1984, quando se deslocava da residência jesuíta em Achrafieh ao Hôtel-Dieu de France para celebrar a missa. O padre Finnegan prezava por estar junto aos pacientes e insistia, mesmo sob bombardeio, em visitar os doentes em seus quartos e compartilhar seu sofrimento. A guerra também levou o padre André Masse, diretor do campus da Universidade Saint Joseph em Saïda, morto a tiros em 24 de setembro de 1987 por dois invasores que entraram em seu escritório, aberto a todos. O padre Joseph Nassar, SJ, que encontrou o corpo de André banhado em sangue, limpou o chão após os primeiros socorros e regou uma oliveira que havia plantado com a mistura de água e sangue. Sem buscar confrontar a ditadura síria ou a ideologia islamista monolítica, mesmo com Israel ocupando parte do Líbano, o padre Kluiters, apóstolo de Jesus, do desenvolvimento e da diversidade, continuou a circular livremente pelo Vale do Bekaa. Indiferente à própria segurança, recusou-se a se restringir a Barqa ou a aceitar qualquer forma de isolamento que pudesse distorcer a mensagem de Jesus ou torná-la exclusiva. Ele não servia apenas aos cristãos do Líbano, mas ao próprio princípio de sua “coexistência”. Por isso, passou a ser visto como um espião de Samir Geagea e acabou eliminado de uma terra que já não era destinada a ser “modelo de liberdade e pluralismo para Oriente e Ocidente”, mas havia se tornado um universo punitivo, uma prisão do pensamento e um modelo de intolerância. Sua morte fez de Nicolas Kluiters um testemunho da kénosis, da qual o provincial jesuíta, padre Dany Younès, falaria durante uma cerimônia em homenagem ao padre André Masse, morto dois anos depois. Ecoando as palavras de Cristo, “Ninguém tira a minha vida, mas eu a dou por minha própria vontade”, Dany Younès declarou: “O padre André Masse entregou sua vida para servir um país em guerra”. E acrescentou: “André não veio ao Líbano para morrer. Sim, sua escolha lhe custou a vida. Mas essa escolha encarna um valor central da Companhia de Jesus e da Universidade Saint Joseph. A educação é sempre uma forma de emancipação, uma busca pela paz dentro de uma sociedade em guerra. Recordar hoje André Masse nos convida a cultivar a mesma paixão que o animava, a paixão pela humanidade que desafia as estruturas de opressão”. Não, nem André Masse, nem Nicolas Kluiters, nem qualquer dos membros da Companhia de Jesus que foram vítimas da guerra “vieram ao Líbano para morrer”. Ao contrário, vieram para dar vida. Vieram para que os libaneses, todos os libaneses, sem distinção de religião, “tenham vida e a tenham em abundância”. Essa verdade precisa ser reafirmada hoje, quando uma nação beligerante ameaça arrancar do Líbano um território santificado pela passagem de Cristo, mais precioso ainda que o Vale Santo, os Cedros, o Castelo do Mar, o Templo de Baalbek e o Palácio de Beiteddine juntos. Leia mais sobre o tema: – “Morto para que o Líbano viva”, o derradeiro sacrifício de Nicolas Kluiters SJ – O martírio de Nicolas Kluiters SJ, no Líbano: confrontando o mal

O martírio de Nicolas Kluiters SJ, no Líbano: confrontando o mal (2/3)
بقلم
Fady Noun
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mar 30, 2026 - 23:10

A festa de São José (19 de março), patrono da universidade que leva seu nome, trouxe à memória de seu novo reitor, padre François Boëdec, SJ, a lembrança de Alban de Jerphanion, o primeiro mártir jesuíta da guerra aparentemente interminável que eclodiu no Líbano em 1975, cujo capítulo mais recente, esperado como o último, começou a se desenrolar no início de março. Cinco outros mártires desse conflito tombaram depois do padre de Jerphanion. Em homenagem ao seu sacrifício e com a publicação de uma nova biografia dedicada a uma de suas figuras mais santas, o sacerdote neerlandês Nicolas Kluiters, cuja causa de beatificação está em curso, este trabalho é apresentado aqui, revelando detalhes inéditos sobre as motivações daqueles que assassinaram o padre Nicolas. Ao mesmo tempo, lança luz sobre o sentido mais amplo do dom que ele ofereceu ao Líbano, para que o país pudesse subsistir como modelo de “liberdade e pluralismo” tanto para o Oriente quanto para o Ocidente, em um momento em que uma nação fortemente militarizada ameaça privá-lo de uma parte vital de seu território, marcada pela memória da passagem de Jesus Cristo. A inserção de um homem profundamente neerlandês em um ambiente libanês não ocorreu com facilidade. Exigiu um alto grau de adaptação e renúncia. Dotado para as artes, Nicolas Kluiters inicialmente aspirava à pintura antes de descobrir uma vocação apostólica. O contraste era marcante: uma sensibilidade refinada diante da dureza do cenário humano ao seu redor. Ele também se afastou conscientemente de um Ocidente cujas conquistas, riqueza e talvez ilusões eram admiradas por seus novos paroquianos. Em seu diário, observa seu biógrafo, escreveu: “Estou convencido de que a cultura ocidental está em pleno declínio em todas as suas formas de expressão. Seus avanços científicos e seu conhecimento representam um desperdício prático de força e energia. (…) A grandeza atual do Ocidente baseia-se na supremacia militar e econômica, e de modo algum em uma grandeza espiritual.” Teve de transmitir suas convicções a homens e mulheres que o viam tanto como um “estrangeiro”, sua pronúncia do árabe era inicialmente pouco inteligível, quanto como um irmão. Em alguns momentos, sentia-se inquieto diante da barreira linguística, ao ver sacerdotes maronitas administrarem os sacramentos a pessoas que deveriam ser seus próprios fiéis. Dentro dele, uma vocação apostólica e uma resistência social permaneciam em tensão constante. Além disso, seu ministério o colocou em contato com uma forma de clericalismo pela qual, por vezes, sentia “profunda repugnância”. Tanto que, poucos meses antes de seu martírio, cogitou dedicar-se a comunidades mais pobres e chegou a considerar partir para o Sudão, acreditando não ser mais útil em Barqa. O padre Peter-Hans Kolvenbach, no entanto, tinha outra avaliação, considerando que as Irmãs dos Sagrados Corações ainda necessitavam de sua presença. A prioridade, portanto, era consolidar seu trabalho, apesar do perigo. Ele retomou sua missão. Torturado e assassinado Reto, direto e por vezes impulsivo, chegava a dar tapas em alunos em sala antes de se corrigir; o padre Nicolas se impôs em Barqa como uma autoridade indispensável tanto no plano espiritual quanto no cívico. No entanto, sua vida não era austera como o cardo libanês, nem era um estóico inconsciente. Homem sensível, estabelecia amizades reservadas e, como qualquer pessoa comum, despertava olhares de admiração, aos quais respondia com discrição. Tornou-se amplamente popular. Foi isso, em última instância, que lhe custou a vida. “Vejam como o povo o segue”, teriam dito seus inimigos. Passou a ser considerado “indesejável” por forças sírias e por grupos xiitas em ascensão que, segundo seu biógrafo, buscavam “esvaziar o vale do Bekaa de seus cristãos”. Procurava-se ativamente uma oportunidade para eliminá-lo. Ele chegou a ser advertido diretamente por um ou dois soldados sírios a quem dera carona. Em 14 de março de 1985, a oportunidade surgiu. Após visitar a região de Hermel, onde havia celebrado missa para um grupo de religiosas, partiu às pressas para retornar a Barqa, tomando a estrada que atravessa as aldeias mistas de Nabha e Qaddâm, um trajeto que costumava desaconselhar aos visitantes. Foi nessa estrada que caiu em uma emboscada, foi preso, torturado e assassinado. Mesmo quarenta anos depois, o relato da biografia permanece chocante. Após dias de busca, seu corpo, já em avançado estado de decomposição, foi encontrado em um desfiladeiro da região, onde havia sido lançado após a morte, com as mãos amarradas por uma corda. O legista determinou que ele havia morrido em 14 de março, dia de seu desaparecimento. Seu funeral foi celebrado em 3 de abril de 1985, no convento dos padres jesuítas em Taanayel. Ele está sepultado no cemitério do convento. O inferno em ação O sadismo de seus torturadores e assassinos era prova suficiente de que não apenas homens estavam em ação, mas que o próprio inferno parecia ter participado. Em sua atividade pastoral, o padre Nicolas por vezes discernia anomalias que atribuía a “espíritos impuros”. Relatava, por exemplo, que durante um batismo o vidro de uma janela se estilhaçou por uma súbita rajada de vento “no momento em que ordenou que Satanás se retirasse”. Duas ou três vezes em sua vida, experimentou uma angústia vaga e avassaladora, como se estivesse sendo tragado por um abismo. Já não está aqui para falar disso, mas o fato de seu corpo ter sido posteriormente encontrado em um desfiladeiro dificilmente parece mera coincidência. Toda vida cristã carrega sua parcela de combate espiritual contra o Adversário, sua própria agonia, seu próprio Jardim das Oliveiras. Dispomos, sobre esse tema, de um testemunho notável do correspondente de guerra francês Jean-Claude Guillebaud. Em seu livro How I Became a Christian Again , ele relata que, ao cobrir a guerra no Líbano, foi confrontado com “a questão do Mal”, devido à “procissão fúnebre de massacres” que acompanhava o conflito. Para ele, esses massacres evidenciavam uma “jubilosidade bárbara que não podia ser explicada apenas por paixões ideológicas ou religiosas”. O corpo do padre Kluiters foi oficialmente identificado por seu dentista, doutor Sleïman Khnaisser, que o reconheceu pelo trabalho realizado em sua mandíbula inferior. O legista declarou que, em toda a sua carreira, nunca havia visto um corpo “tão horrivelmente tratado”. Além das agressões, observou sinais de estrangulamento e corte na garganta. O tratamento brutal infligido ao corpo do padre Nicolas Kluiters permanece como um exemplo contundente dos horrores quase demoníacos que marcaram a guerra civil libanesa. Próximo artigo O inquietante testemunho de Ghassibé Keyrouz, braço direito do padre Nicolas Kluiters, SJ Artigos relacionados "Morto para que o Líbano viva", o derradeiro sacrifício de Nicolas Kluiters SJ

«Morto para que o Líbano viva», o derradeiro sacrifício de Nicolas Kluiters S.J. (1/3)

A festa patronal da Universidade Saint-Joseph (19 de março) trouxe à memória de seu novo reitor, François Boëdec, a lembrança de Alban de Jerphanion, primeiro mártir jesuíta da interminável guerra que eclodiu em 1975 no Líbano e cujo mais recente episódio — que se espera que seja o último — teve início no começo de março. Outros cinco mártires dessa guerra caíram depois do padre de Jerphanion. Em homenagem aos seus sacrifícios, apresentamos uma nova biografia dedicada a uma de suas figuras mais santas: o sacerdote neerlandês Nicolas Kluiters, cujo processo de beatificação está em andamento. A obra traz detalhes inéditos sobre o complô arquitetado pelos serviços secretos sírios e por grupos xiitas para eliminar o padre Nicolas. Ao mesmo tempo, evidencia o sentido mais amplo da entrega que ele fez ao Líbano, para que o país permaneça “um modelo de liberdade e pluralismo” para o Oriente e o Ocidente, em um momento em que uma nação altamente militarizada ameaça amputar uma parte essencial de seu território, marcada pela memória da passagem de Cristo . Exaltado como uma terra de santidade, o Líbano é também, infelizmente, um país onde sacerdotes são assassinados. O novo reitor da Universidade Saint-Joseph, o padre François Boëdec, evocou neste ano (2026), em seu discurso anual sobre o estado e o futuro da instituição, a figura de um dos primeiros “mártires” jesuítas da guerra civil: o padre Alban de Jerphanion, morto com ódio por um grupo de homens armados em 14 de março de 1976, no cruzamento da igreja Mar Mikhaël, quando se dirigia ao aeroporto para deixar um viajante. As palavras do reitor abrem caminho para a evocação de outros cinco jesuítas “mortos para que o Líbano viva”, em especial o sacerdote neerlandês Nicolas Kluiters, cujo processo de beatificação está em curso. Uma biografia documentada foi dedicada a esse sacerdote exemplar pela ensaísta, romancista e jornalista Carole Dagher ( Paixão por uma terra abandonada , Lessius). Como complemento, acaba de ser publicado A arte da reconciliação em um Líbano dilacerado , pela editora Dar el-Machrek, escrito por Francis Berkemeijer, compatriota e contemporâneo do sacerdote assassinado. Esta nova obra traz esclarecimentos sobre as circunstâncias da paixão e da morte violenta daquele que é considerado “um artista da reconciliação”: um homem que, à força de trabalho, tato, abnegação e perseverança, conseguiu desenvolver Barqa, um vilarejo maronita esquecido no vale da Béqaa, a ponto de seus habitantes deixarem de sentir a necessidade de abandoná-lo. O maior feito do padre Nicolas Kluiters foi, sem dúvida, ter conseguido a reconciliação entre duas famílias de Barqa que já não se falavam. Revelados pela primeira vez neste livro, os detalhes de sua morte violenta testemunham o fim corajoso e santo, aos 45 anos, de um homem de Deus após sofrimentos indescritíveis; revelam também até onde podiam chegar a miopia, o cinismo e a crueldade da ditadura síria dos Assad, cujos serviços de inteligência não são alheios à sua morte. Os cristãos, o verdadeiro desafio “O milagre da minha vocação em Barqa é que pude ver como aldeões que lutavam entre si se tornaram homens que trabalham juntos”, escreveu Nicolas em seu diário. “Em Barqa, não há uma casa onde não haja uma foto do padre Nicolas”, afirma o autor da nova biografia, responsável pelos arquivos da Companhia. “Acredito que a reconciliação das famílias de Barqa seja seu maior milagre”, acrescenta. “Para Nicolas, as tensões entre cristãos e muçulmanos não eram o maior desafio. O verdadeiro desafio eram, sobretudo, as vendetas entre clãs cristãos, nas quais frequentemente se chegava a conflitos de sangue e nas quais membros de famílias que viviam no mesmo vilarejo deixavam de manter qualquer contato entre si”, explica o biógrafo. Esses conflitos eclodiam especialmente quando ocorrem casamentos “por rapto” ( khatifé ), precisa o padre Berkemeijer. Como sinais de uma possível evolução das mentalidades rumo à liberdade de escolha dos cônjuges, a geração mais velha podia reagir com rigidez absoluta, levando à ruptura total entre famílias e, às vezes, a atos de vingança. Diz-se que é mais fácil dobrar uma barra de ferro com as próprias mãos do que mudar corações. Essa transformação foi o milagre que se realizou em Barqa graças ao padre Nicolas. Um de seus meios era simplesmente o contato pessoal. Ele conseguiu isso inclusive com um grupo de palestinos que bloqueava a construção de uma capela dedicada a São Charbel, próxima a pastagens de montanha onde os criadores de cabras de Barqa iam no verão. Os palestinos acabaram ajudando na concretagem do teto. Uma região “abandonada” Chegado ao Líbano em 1966, o padre Nicolas exerceu seu apostolado na parte norte da planície central da Béqaa, uma região predominantemente agrícola que, apesar da riqueza de seu solo, permanecia pobre e negligenciada. Ele teve de enfrentar a pobreza espiritual, cultural e material de seu ambiente rural. Em Barqa, onde se concentrava sua ação pastoral, dois clãs de uma mesma família maronita coexistiam sem se falar, frequentando a missa dominical em duas igrejas distintas, situadas em extremos opostos do vilarejo. Nesse ambiente de caráter tribal, a lei da vendeta ainda vigorava, e a ofensa só era “lavada” com sangue. Foi a essa sociedade cristã rústica que ele dedicou a maior parte de sua energia, vivendo durante anos sem casa própria, compartilhando a vida dos habitantes, comendo e dormindo em suas casas. Como bom neerlandês, de caráter reto, teve de se adaptar à flexibilidade do estilo libanês. Barqa não era sua única preocupação. Ele percorria constantemente a região, realizando catequeses, encontros evangelizadores, batismos, formações para a primeira comunhão e celebrações de missa. Ao redor do arquipélago de vilarejos maronitas dispersos ao pé do Monte Líbano (vertente oriental), todos os povoados eram xiitas ou “mistos”. Abandonados à própria sorte, em situação minoritária e expostos às tensões da guerra e aos riscos dos deslocamentos fora de sua região, muitos habitantes pensavam apenas em emigrar. Nicolas compreendeu rapidamente que a escolha era clara: ou oferecer aos habitantes meios de sobrevivência, ou resignar-se à sua partida. Para ele, não havia escolha: lançou-se de corpo e alma no desenvolvimento do vilarejo. Para isso, obteve inclusive um diploma de assistente social na Escola Libanesa de Formação Social, hoje vinculada à Universidade Saint-Joseph. Construção de uma estrada e sistemas de irrigação Em poucos anos, conseguiu, com a colaboração ativa dos habitantes, construir uma estrada que levava às terras agrícolas acima do vilarejo. Ali, promoveu a construção de canais de concreto para irrigar as árvores frutíferas — uma alternativa ao cultivo de haxixe. Também conseguiu construir uma escola complementar no centro do vilarejo, aproximando assim suas duas partes em conflito, e obteve a chegada de religiosas da Congregação dos Sagrados Corações para administrá-la. No mesmo local, graças à Ordem de Malta, foi aberto um dispensário. Por fim, implantou um ateliê de costura em parceria com uma fábrica de Beirute que fornecia os materiais, criando assim trabalho para as mulheres do vilarejo. Amar os homens por amor a Deus não é algo automático. Para o mundo, o desinteresse não existe. Para um cristão, porém, o desinteresse é a única virtude que permite superar a ingratidão com que, às vezes, um trabalho é recebido. Os elementos dessa santidade do trabalho social do padre Nicolas ainda não foram suficientemente definidos para serem propostos como exemplo. Pode-se dizer que incluem, antes de tudo, o profissionalismo na execução das tarefas. O desenvolvimento sustentável não tinha segredos para Nicolas Kluiters. Era um homem metódico que “odiava a improvisação”, segundo o padre Berkemeijer. Incluíam também o espírito de parceria entre as famílias de Barqa, ou entre as famílias e o clero; a ausência total de discriminação entre os beneficiários dos projetos — todos os vilarejos ao redor de Barqa se beneficiaram de seu dispensário —; e, por fim, o amor à pobreza e a fraternidade com os mais pobres. “É da boca dos pobres”, escreveu em seu diário, “que o Senhor me fala mais diretamente.” Próximo artigo: O martírio, no Líbano, de Nicolas Kluiters s.j., enfrentando o Mal (2/3)

Walid Khalidi, o arquiteto do saber palestino
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Rami Rayess
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mar 14, 2026 - 18:47

Não é tarefa simples condensar, em algumas linhas e parágrafos, a trajetória de um grande historiador que viveu quase um século e que permaneceu, até os seus últimos dias, imerso na escrita, na investigação e na reflexão, com o espírito continuamente voltado para o que se passava no seu país — e cuja causa foi, sem desvio, sempre a mesma: a Palestina. Walid Khalidi, que nos deixou há apenas alguns dias, reuniu ao longo da sua longa vida muitas qualidades, sendo talvez a mais marcante aquela com que foi descrito em numerosas ocasiões e que as suas pesquisas e livros confirmam: foi o guardião da narrativa da Nakba e o próprio homem que desmantelou a versão sionista sobre a Palestina. Desde a sua partida, importantes jornais internacionais e árabes publicaram obituários centrados nos seus trabalhos de elevado rigor académico, nos múltiplos papéis que desempenhou na política e nas diversas atividades que empreendeu sob diferentes formas. Pode dizer-se que dois traços essenciais distinguiram a personalidade de Khalidi — este investigador palestino árabe reconhecido tanto no mundo académico ocidental quanto no árabe, graças ao seu conhecimento enciclopédico e à sua autoridade intelectual, em particular sobre a causa palestina. O primeiro prende-se com a sua adesão rigorosa às exigências da investigação científica, sem jamais ceder nesse ponto, o que lhe valeu uma autoridade amplamente reconhecida entre académicos de universidades ocidentais e árabes. Em todos os seus livros publicados, conferências e artigos, Khalidi não se desviou sequer minimamente deste padrão, antes o generalizou a todos os que trabalharam consigo, consolidando assim uma corrente historiográfica decisiva e incontestável. O segundo é o seu espírito institucional, que se concretizou na fundação do Instituto de Estudos Palestinos em Beirute em 1963, concebido como referência científica especializada na causa palestina e no conflito árabe-israelita. Esta instituição de investigação árabe inteiramente independente, sem filiação partidária e sem fins lucrativos, publicou durante o período em que exerceu o cargo de secretário-geral mais de oitocentas obras de referência sobre a causa palestina em árabe, inglês, francês e espanhol, tendo alguns dos seus títulos sido igualmente traduzidos para outras línguas. Basta imaginar a dimensão dos desafios com que se confrontou uma instituição de investigação desta natureza, bem como as pressões que de todos os lados podiam comprometer o seu trabalho — pressões que tornam a preservação da sua independência particularmente difícil, sobretudo por se dedicar ao estudo de uma questão complexa, a causa palestina, cujo conflito é anterior à própria Nakba de 1948. Acresce que esta instituição se apoia — na sua perseverante busca de independência académica — em doações sem contrapartidas, de forma a não ficar tributária de qualquer entidade. Neste domínio, o diretor-geral da instituição, Khalid Farraj, afirma: «Khalidi trabalhou para consolidar dentro da instituição um conjunto de valores e conceitos coletivos que a distinguem de outras organizações. O cerne desses valores reside na fusão entre os que trabalham na instituição e o ideal comum que ele havia estabelecido, bem como na adesão à essência mesma da causa para a qual a instituição foi criada: afirmar o direito de quem é seu legítimo titular, por meio de uma investigação científica rigorosa.» [1] A simples sobrevivência de uma instituição de investigação árabe — numa região que raramente prioriza a pesquisa científica — durante mais de seis décadas, sem jamais se entregar aos «braços» de qualquer entidade política, financeira ou partidária, honra a própria instituição e os que a dirigiram. É o caminho traçado, na sua origem, por Walid Khalidi, que trabalhou durante longos anos para o consolidar. * * * Walid Khalidi foi um homem de princípios. Demitiu-se da Universidade de Oxford em 1956, em protesto contra a participação britânica na agressão tripartida contra o Egito, transferindo-se para a Universidade Americana de Beirute para prosseguir a sua investigação e o seu ensino. É possível medir a dificuldade de semelhante decisão para um professor universitário na casa dos trinta anos que lecionava numa das mais importantes universidades ocidentais: Khalidi colocou as suas convicções nacionais acima dos interesses pessoais, entre os quais a sua carreira académica ocupava o primeiro lugar, interrompida em Oxford e retomada em Beirute — cidade que então pulsava de vida intelectual —, o que lhe permitiu, anos mais tarde, fundar o Instituto de Estudos Palestinos, cuja sede principal permanece em Beirute até hoje. O célebre historiador israelita antissionista Ilan Pappé escreveu a seu respeito: «Numa conversa informal que tivemos (...), soube que havia uma outra razão para o seu desagrado com Oxford: enquanto académico, procurava já nessa época lecionar e escrever sobre a Nakba de 1948, mas ficou claro que Oxford naquele período não reconhecia a Nakba como um tema digno de estudo académico.» [2] Walid Khalidi deixou marcas académicas numerosas e duradouras. Entre as mais significativas destaca-se a sua revelação do conteúdo do «Plano Dalet», elaborado pelas organizações paramilitares sionistas para assumir o controlo dos territórios palestinos, nomeadamente nos anos de 1947 e 1948 — um plano que desmonta de raiz toda a narrativa fundada na ideia de que as terras palestinas eram desabitadas ou de que os seus habitantes as abandonaram voluntariamente. Khalidi debruça-se longamente sobre a resolução de partição da Palestina adotada pelas Nações Unidas, numa formulação que não perdeu nada da sua força: «A resolução de partição adotada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1947 tornou-se de importância decisiva na narrativa dos vencedores, a ponto de uma amnésia histórica coletiva ter apagado tudo o que a precedeu — no passado distante, no intermédio e no imediatamente anterior —, como se a resolução de partição fosse o ponto de partida da questão palestina, e não o ponto culminante trágico (para os palestinos) de tudo o que a antecedeu desde o início do sionismo político.» [3] Porque a investigação científica não pode dissociar-se do curso da política e das suas transformações, Walid Khalidi participou — sem nunca comprometer a sua independência académica — em numerosas esferas de atividade política, contribuindo onde podia para a formulação de uma posição e de uma visão palestinas ancoradas na defesa dos direitos nacionais legítimos. «Fazia parte do círculo próximo dos responsáveis do Movimento dos Nacionalistas Árabes e gozava da confiança de muitos dos seus dirigentes (...), tendo igualmente tecido relações estreitas com os fundadores da Frente Popular de Libertação da Palestina, do movimento Fatah e da Organização de Libertação da Palestina (...). No início dos anos setenta, Khalidi envolveu-se em contactos privados com os Estados Unidos em nome da OLP.» [4] Para quem o desconheça, desempenhou um papel central na redação do célebre discurso que o presidente da OLP, Yasser Arafat, proferiu nas Nações Unidas em 1974. Determinante foi também a sua participação na delegação jordano-palestina conjunta nas conversações de paz de Madrid em 1991, alicerçadas no princípio de «terra por paz» — uma etapa axial na história do conflito árabe-israelita, ainda que tenha sido progressivamente esvaziada do seu conteúdo e contornada pelas negociações de Oslo, conduzidas em sigilo e que culminaram no acordo de 1993. Sobre a Nakba, as aldeias palestinas e o deslocamento sistemático dos palestinos, Walid Khalidi publicou duas obras de referência fundamentais: Para não esquecer e Antes da diáspora — a sua leitura é suficiente para desmontar a narrativa israelita segundo a qual o Estado de Israel se ergueu sobre uma terra sem povo. Os seus livros permanecerão como referência para investigadores e estudantes durante muitos anos; ele que foi um mestre dedicado para centenas de investigadores que se formaram sob a sua tutela, tanto nas universidades como no Instituto de Estudos Palestinos. Após a partida deste grande historiador, a causa palestina incumbe a todos os homens livres do mundo, pois é uma causa moral e humana tanto quanto política. [1] FARRAJ, Khalid, «No centenário de Walid Khalidi: a missão convertida em método de trabalho », Suplemento especial por ocasião do centenário de Walid Khalidi, Revista de Estudos Palestinos (n.° 143), Beirute, verão de 2025 , p. 123. [2] PAPPÉ, Ilan , «Walid Khalidi e o nascimento dos Estudos Palestinos, 1963–2025», ibid. , p. 57. [3] Revista de Estudos Palestinos, vol. 9, n.° 33, inverno de 1998, p. 3. [4] KHALIDI, Rashid , «Walid Khalidi: o pioneiro e o renovador», Suplemento especial, op. cit. , pp. 18–19.

Gebran Tueni, a escola da liberdade
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Michel Hajji Georgiou
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dez 12, 2025 - 19:23

Há vinte anos, Gebran Tueni foi literalmente pulverizado num atentado com carro-bomba. Os seus assassinos do eixo Damasco-Teerã, juntamente com os seus acólitos libaneses, haviam-no colocado na lista negra das «personalidades perigosas» a eliminar a todo custo, na medida em que estas últimas haviam conseguido, em poucos anos, reconstituir uma certa ideia libanesa de uma frente plural e coerente, garante da soberania e da liberdade. Uma frente compacta, capaz de transcender as clivagens herdadas da guerra civil e os compartimentos sectários sobre os quais o eixo dançava há décadas para melhor dividir os libaneses e, assim, erguer-se em árbitro dos conflitos que ele próprio criava, segundo a lógica clássica do bombeiro-incendiário. Tueni encarnava, por excelência, o arquétipo do ímpeto, da coragem e da combatividade para uma grande parte da juventude da época. Era respeitado como uma personalidade livre, sem medo e sem mácula, por amplos setores da sociedade libanesa, de todas as comunidades. Dispunha de uma presença mediática incontornável, que não herdara da figura paterna, o imenso Ghassan Tueni. É certo que o diário An-Nahar passou do pai para o filho, mas Gebran forjou a sua própria voz, a sua própria identidade, a sua própria personalidade e as suas próprias lutas, ao mesmo tempo semelhantes e diferentes das de Ghassan. Onde o pai havia saído do campo político no seu sentido mais estreito — o da ação militante — para se afirmar como aquilo que sempre fora na sua essência, um doador de sentido à política, Gebran assumia plenamente o seu engajamento no terreno. Ele estava no acontecimento, não fora dele nem acima. An-Nahar , sob a dupla marca do pai e do filho, ao lado de Samir Kassir e de uma equipa brilhante de jornalistas, analistas e editorialistas, tornara-se, sob a ocupação síria, muito mais do que um partido político: encarnava a ideia de que um outro Líbano era possível, livre, soberano, liberto dos grilhões tribais e comunitários, gerador de sentido e capaz de reencontrar uma visão cultural do Líbano como país-ponte com o mundo. Mais ainda, pela escrita e pelo pensamento, fazia vacilar o conforto gelado e monolítico das tiranias, abrindo as suas colunas a opositores, nomeadamente sírios. É difícil imaginar que duas décadas já tenham passado sem a chama inspiradora e contagiante de Gebran Tueni, um homem de carisma excecional, um tribuno capaz de galvanizar multidões pela força de uma energia simultaneamente elegante e animal. Não é por acaso que duas das suas referências eram Kennedy e Guevara, ambos excelentes oradores apesar do abismo político que os separava. De certa forma, a vivacidade de Kennedy e o ímpeto rebelde de Guevara reconciliavam-se em Gebran. Ele sabia operar sínteses, abolir fronteiras, reunir. Aos olhos dos regimes tirânicos e totalitários, este é o pecado mortal a não cometer. A tentação é grande hoje, vinte anos após o seu assassinato, de congelar Gebran numa ícone: de uma luta política considerada concluída, de um movimento implodido, morto e enterrado, ou de uma causa desencarnada. Um “mártir” de… Isso é matar Gebran de novo, e indefinidamente. O mesmo acontece, aliás, com intelectuais, escritores, pensadores e certas personalidades políticas singulares quando desaparecem, sobretudo quando foram deliberadamente liquidados. As ideias continuam a caminhar, a amadurecer, a crescer, mesmo quando os seus autores deixam de existir. Pelo contrário: entram na vida. Deixam de pertencer ao seu proprietário. Confundem-se com o vento e falam aos homens por si mesmas. Ora, Gebran, na sua postura física como no seu pensamento, não pode ser estatuficado. É um contrassenso, um paradoxo. Basta reler os seus artigos para se dar conta disso. Em Gebran Tueni, liberdade e soberania nunca foram slogans vazios ou posturas morais sem substância. Tratam-se, para ele, das duas condições indissociáveis da existência política do Líbano. A liberdade como ruptura com a mentira A liberdade, para Tueni, nunca é concebida como um direito abstrato ou um princípio decorativo, mas antes de tudo como uma operação de desvelamento. Ele ataca aquilo que se poderia chamar a grande ficção política, a saber, a que transforma a violência em acidentes isolados, os assassinatos em simples fatos diversos e o medo em fatalidade. Contra essa anestesia coletiva, Tueni insiste que a violência é produzida por um clima político, por uma arquitetura de dominação que visa menos os indivíduos do que a própria possibilidade de um espaço público livre. A liberdade começa, assim, para ele, pela recusa dos discursos-álibi. Nomear as responsabilidades, rejeitar os eufemismos, restituir aos fatos a sua causalidade política: tal é o primeiro ato de libertação. Nesse sentido, o jornalismo não é apenas uma profissão; é uma função vital da sociedade, encarregada de impedir que o medo se torne norma. A soberania como domínio da decisão Essa exigência de verdade conduz naturalmente à questão da soberania. Também aqui, Tueni rejeita qualquer definição sentimental ou simbólica. A soberania não é nem bandeira nem reflexo identitário, mas a capacidade efetiva de um Estado decidir por si mesmo. Em textos de grande frontalidade, descreve um Líbano cujas instituições foram esvaziadas de substância, onde a justiça é instrumentalizada, a imprensa amordaçada e onde, sobretudo, a decisão política é delegada ao exterior. Essa delegação não é apenas imposta: é frequentemente interiorizada, racionalizada em nome da estabilidade, dos equilíbrios ou do “realismo”. É precisamente contra essa abdicação que Gebran Tueni sempre lutou. É em revolta contra ela que morreu. Pois, para ele, a soberania não se perde apenas por ocupação militar; ela também se dissolve pela habituação à dependência, pela aceitação progressiva de um Estado reduzido a uma fachada. É a célebre servidão voluntária de La Boétie. A carta a Bashar al-Assad: a soberania pela palavra É precisamente neste contexto que se deve situar e compreender a sua famosa carta aberta dirigida a Bashar al-Assad, que está a mil léguas de uma provocação gratuita ou de uma diatribe. Ela constitui um ato de soberania intelectual em estado puro. Um marco jornalístico, ético e político, duas décadas depois. Ao dirigir-se diretamente ao presidente sírio, Tueni recusa a postura do dominado. Nada de súplicas estúpidas, nada de agressividade ou fanfarra. Ele fala de igual para igual, como jornalista que interpela o tirano-ocupante. Esse simples deslocamento é decisivo, na medida em que rompe com a linguagem codificada da tutela, com as prudências obrigatórias e com a autocensura interiorizada que eram correntes à época. Sobretudo, a carta opera uma inversão fundamental da lógica do tutor: a soberania libanesa não é apresentada como hostilidade em relação à Síria, mas como condição de uma relação saudável entre dois Estados. Tueni afirma que nenhuma estabilidade duradoura pode ser construída sobre a negação da liberdade do outro, e que a dominação enfraquece tanto quem a exerce quanto quem a sofre. A liberdade do Líbano torna-se, assim, um teste moral e político para o poder sírio. Evidentemente, Tueni não é um utopista e sabe perfeitamente que Assad só conhece a linguagem da força bruta. Ainda assim, ele realiza um ato fundador de soberania. É a própria essência da “resistência cultural” defendida na época pelo padre Sélim Abou. Liberdade, pluralismo e convivência Essa exigência de soberania nunca é dissociada, em Gebran Tueni, do pluralismo libanês. A liberdade que ele defende não é a de um campo, de uma comunidade ou de um clã. É o regime político da convivência. Quando a decisão é confiscada e a palavra amordaçada, não são apenas indivíduos que são silenciados: é a própria possibilidade de uma comunidade política plural que é atacada. Por isso Tueni insiste tanto no fato de que as violências políticas não visam apenas pessoas, mas a própria fórmula libanesa. Nesse sentido, defender a liberdade de expressão, a soberania do Estado e a independência da decisão nacional equivale a defender a convivência em si mesma, contra o medo, a fragmentação e a lógica do fato consumado. Tendo militado durante a guerra nas fileiras políticas do leste cristão, Tueni era um “libanista”, e é a partir dessa postura intelectual que ele defendia a ideia do Líbano. Vinte anos depois, diante da ascensão de um particularismo cristão capaz de se acomodar à ideia de um Líbano fragmentado geograficamente, convém lembrar disso. A soberania contra os falsos compromissos Outro aspecto essencial do seu pensamento reside na sua desconfiança em relação aos compromissos vazios. Tueni criticava constantemente os arranjos que, sob a aparência do realismo, consagram a desapropriação. As fórmulas de “lavagem dos corações”, os diálogos sem poder real, os equilíbrios que congelam a injustiça: tudo isso constitui, para ele, uma política de fachada que enfraquece tanto a liberdade quanto a soberania. A seu ver, a soberania verdadeira pressupõe o monopólio estatal da decisão — inclusive em matéria de guerra e de paz — e a recusa de que o destino coletivo seja confiscado por atores não responsáveis perante os cidadãos. Mais uma vez, a liberdade não é apenas o direito de falar, mas o direito de não ser arrastado para escolhas impostas sem consentimento. Não é preciso dizer o quanto essa visão continua atual hoje, num momento em que o Estado libanês continua a tropeçar diante da necessidade de recuperar o monopólio da violência legítima. Um legado que ainda incomoda Vinte anos após o seu assassinato, o pensamento de Gebran Tueni continua desconfortável porque não permite nenhuma escapatória: rejeita tanto a resignação quanto a escalada. O leitmotiv de Tueni é o seguinte: a liberdade deve exercer-se de pleno direito, e a soberania nunca é adquirida de uma vez por todas, mas deve ser defendida diariamente, pela palavra, pelas instituições e pela coragem política. A ideia, a palavra, o verbo só existem quando são acompanhados e traduzidos em atos práticos e decisivos: ancoragens. A carta a Bashar al-Assad é, sem dúvida, a expressão mais nua disso: um texto em que a liberdade deixa de ser discurso para se tornar ato, e em que a soberania se reconstrói primeiro pela palavra dirigida, frontal e assumida. Assim, liberdade e soberania não formam duas lutas paralelas, mas uma única e mesma equação. A liberdade sem soberania é frágil, tolerada, reversível. A soberania sem liberdade não passa de um simulacro. Juntas, constituem a condição mínima para que um povo exista politicamente, sem medo e sem tutela. A unidade nacional e a convivência constituem o cimento que faz desse povo uma força motriz, coerente, viável e viva. Pensar Gebran Tueni, vinte anos depois, não é apenas comemorar a memória de um homem cuja palavra foi silenciada, mas entregar-se a um profundo exame de consciência e ter a coragem de colocar uma pergunta mais exigente: vivemos hoje, num Líbano entregue a todos os ventos, dentro de um quadro em que a liberdade pode produzir soberania e em que a soberania protege verdadeiramente a liberdade? E, sobretudo, soubemos defender a convivência que é a sua condição sine qua non? É sem dúvida por esse critério que se mede realmente a fidelidade ao seu legado.

Môrice Awwad, o homem que devolveu à língua sua origem materna
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Michel Hajji Georgiou
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dez 9, 2025 - 19:24

Faleceu em 9 de dezembro de 2019, mas Môrice Awwad continua sendo uma exceção no panorama cultural e literário libanês. Este é o retrato de um homem rebelde, candidato ao Prêmio Nobel de Literatura em 2015, e de sua relação visceral com a língua materna, o vernáculo libanês, que transformou em seu estandarte, território matriz e razão de ser. Môrice Awwad nasceu em 1934, em um Grande Líbano que ainda dava seus primeiros passos hesitantes. Já estava, no entanto, atravessado pelas tensões do que estava por vir: a independência, a idade de ouro, depois a violência e o retorno da servidão. Mas mais importante do que seu nascimento é o nascimento da língua dentro dele. É preciso imaginar Awwad mergulhado, quase literalmente, em uma placenta linguística libanesa, por mais estranha que pareça a imagem, nas entranhas de sua mãe. “Lembro de ter ouvido minha mãe chorar quando ainda estava dentro dela”, escreveria depois. Desde a infância em sua casa em Bsalim, formou-se um vínculo que jamais se romperia: a língua da mãe, o libanês falado, tornou-se seu primeiro lar. O único que nunca se quebraria. “Minha língua é a língua da minha mãe”, dizia ele. E não era um slogan. A língua herdada da figura materna era uma verdade física, uma memória incorporada, uma fidelidade anterior a qualquer ato de vontade. A língua materna é, de certo modo, o espelho lacaniano que dá à criança sua primeira consciência de si mesma — ainda mais quando a figura paterna está ausente. Há uma exclusão radical do Nome-do-Pai, violento e ausente, levada ao extremo. Tanto que Môrice, nascido Khoury, “adotou” o sobrenome Awwad até a morte e chegou a transformá-lo depois em Môrice Kfargharib. O nome do pai foi substituído pelo do desarraigamento, do estrangeiro. O eixo vernáculo permanecerá intacto até o fim. Nesse contexto, compreende-se seu desejo de territorializar a língua como ponto de ancoragem para não se dissolver. Toda a sua vida — o seminário de Ghazir, os retornos à vila, os anos nas gráficas, as leituras em francês, as dúvidas religiosas, a pobreza assumida, as noites de escrita — girou em torno de um único centro de gravidade: jamais abandonar a primeira língua, a que recebeu com ternura e necessidade. Escrever, para Awwad, não era separar verbo e corpo. “Quando escrevo, acaricio um corpo”, dizia. E esse corpo era sempre o mesmo: a língua-mãe. A língua-matriz: o lugar anterior à língua Todo mundo fala do “dialeto libanês”. Môrice Awwad não. Ele fala de um ventre. Não vê o libanês como fala inferior, mas como matriz, lugar de nascimento, espaço onde algo começa de novo a cada sílaba. O qaf se torna hamza, como se quisesse amputar a palavra de uma figura opressiva e caduca: o pai? O h final desaparece porque nunca respirou nas casas. As regras cedem ao sopro. Nada disso é improvisação linguística nascida do narcisismo chauvinista. É um retorno às origens: à língua anterior à gramática, à separação, à escola, ao Estado. Quando traduz O Pequeno Príncipe ou o Novo Testamento, Awwad não “vulgariza”. O processo é de integração, de reencarnação no útero nacional. Dá ao texto um grão, um calor, um tremor, e devolve a palavra ao lugar onde se torna carne. Leonard Cohen cantava: “Mostre-me o lugar onde a Palavra se fez homem”, com sua dupla ressonância espiritual e erótica. Awwad nem precisa que lhe mostrem esse lugar de criação. Ele o conhece. Viveu ali nove meses antes de respirar. E ofereceu a Palavra. O “naquis” da língua: tradição, ruptura, continuidade Môrice Awwad circula por vários mundos: a tradição oral levantina, o pensamento cristão, a poesia árabe clássica, influências latinas e francesas, as marcas da guerra. Recusa-se a escolher. Leva todos consigo. Nesse sentido, seu pensamento não é separatista nem está aprisionado pelo narcisismo identitário. Se fosse, seria totalmente alheio aos espaços infinitos que rejeitam qualquer confinamento: os espaços da poesia e da liberdade. Mas nunca cede no essencial: nem o árabe clássico nem o francês literário podem expressar o que só a língua-matriz sabe dizer. É poeta-passador, mas também poeta-insurgente: recusa que o libanês seja relegado a adorno folclórico e combate a ideia de que só as línguas sagradas podem carregar o universal. Forja uma modernidade que não se proclama, mas se escreve dentro da tradição. Sua obra não equilibra polos: resolve um conflito interior. A língua-mãe triunfa sobre a língua da escola. Coerência total: língua, pátria, combate Em Môrice Awwad, tudo se encaixa. O homem pode parecer teatral, até excêntrico, com seu gosto pelo estilo, erotização exagerada da Palavra e figura de poeta selvagem. Mas é perfeitamente coerente. Não há poesia de um lado e compromisso de outro. A mesma língua serve para escrever um poema de amor, denunciar uma injustiça e dizer “Líbano”. O erotismo se transforma, quando necessário, em cantos patrióticos, e Awwad se envolve em lutas por soberania, liberdade e direitos humanos, mas nunca como seguidor. Age a partir da convicção profunda de que defender a língua-matriz equivale a defender a pátria e o território-mãe. Poder-se-ia até dizer que erotiza ambos. Seu lugar na tradição intelectual libanesa comprometida se situa exatamente aqui: na encruzilhada entre Kamal Al-Hage e Said Aql. De Aql, compartilha a audácia de elevar o libanês acima de seu status subordinado, sem cair em excessos ideológicos. De Al-Hage, compartilha a ideia de que a língua é um pilar ontológico. Mas aí se separam. Al-Hage, discípulo de Bergson, apesar de seu “nacionalismo libanista”, manteve-se fiel até seu assassinato ao árabe como língua filosófica essencial, portadora de duração, devir e missão espiritual. Awwad atravessa o limite que o filósofo não ousou: abandona a língua herdada para abraçar o território real, o que se fala nas vilas, nas cozinhas, na boca das mães. Onde Al-Hage inscreve o Líbano na metafísica do árabe, Awwad o inscreve na matéria viva do libanês. Já não é teoria nem espírito, mas corpo e carne. O primeiro espiritualiza a nação; o segundo a encarna. O primeiro escreve para a consciência; o segundo para o sopro. Awwad leva o nacionalismo libanês à sua conclusão mais radical: o país não é conceito, é língua que vem do ventre. Kazantzakis e a irmandade das línguas-ventre Esse gesto matricial aproxima Môrice Awwad de uma constelação discreta de escritores que entenderam que a poesia começa quando a língua aceita voltar a se fazer carne: Kazantzakis libertando a demotikí, Lorca devolvendo ao castelhano seu duende andaluz, Joyce fraturando o inglês para deixar que Dublin se infiltrasse, Pasolini elevando o romanesco ao épico, Darwish devolvendo ao árabe clássico o fôlego do povo, Theodorakis revitalizando o rembético na Grécia dos coronéis. Todos fizeram, em seus mundos, o que Awwad faz no Líbano: devolveram à língua seu ventre, sua noite, seu grão, sua ferida. Suas obras, embora distintas, compartilham a mesma convicção: uma língua só vive quando retorna ao ser ou ao lugar que a gerou. A língua-mãe e a língua da escola: uma leitura lacaniana Em uma frase aparentemente simples, Môrice Awwad revela todo seu mecanismo interior: “O libanês é a língua da mãe; o árabe clássico é a língua da escola”. A primeira cura e envolve: é amor, ternura, calor. A segunda corrige, disciplina, aprisiona em estrutura mental rígida. A língua libanesa é liberdade e vida ao sair do ventre; o árabe é internato frio e sem alma. Em termos lacanianos, é lalangue, o banho de significantes onde o sentido ainda não se desprende do corpo. Awwad o diz, com audácia desarmante, à sua maneira: Minha mão está mergulhada na língua libanesa como um embrião no ventre de sua mãe. Quantos escritores tiveram coragem de ir tão fundo na própria alma para devolver à língua essa intimidade amniótica? E, ao confessar que chorou apenas duas vezes, com a morte da mãe e de Assi Rahbani, une espontaneamente as duas matrizes de sua vida: a biológica e a musical do país. Roland Barthes teria reconhecido aí o grão da voz. Não a palavra, mas sua densidade. A obra: engendrar o Líbano em sua língua Os 57 livros que deixou — poesia, teatro, romances, traduções, liturgia — como testamento de sua obra-mãe, são menos gêneros do que regressos. Cada texto devolve algo ao primeiro mundo, à primeira voz. Traduzir o Novo Testamento para o libanês é dizer: a Palavra deve ser voz antes de ser conceito. Libanizar O Pequeno Príncipe é pedir ao mundo que recomece na boca de uma criança daqui. O poeta não busca a universalidade; a cria por fidelidade à raiz local mais íntima: o ventre mais antigo. O poeta da matriz Apesar das aparências, Môrice Awwad não quis dar ao Líbano uma nova língua. Seu caminho não é identitário. Não é, estritamente, político. Awwad apenas devolveu a língua às entranhas da terra, da mãe, da carne ou da cal. Devolveu à língua um ventre-terra. Ou, mais precisamente, um lugar de origem. Uma razão para sobreviver em um entorno regional percebido como deserto, frio, sinônimo de morte, oposto à placenta da vida. Em um país onde tudo se deteriora cada vez mais — fronteiras, instituições, identidades e, sobretudo, cultura — Awwad lembra que o único que não colapsa é o que retorna ao início: a língua-mãe. Aquilo que nos distingue. Aquilo que nos identifica. Nesse sentido, a luta de Môrice Awwad não foi linguística. Foi vital. Um país pode perder sua soberania, seus partidos, seus exércitos, seus símbolos, seus sonhos e ilusões, até suas referências. Mas só sobrevive se conserva sua língua-matriz. E é por isso que, ainda hoje, ele continua sendo o que sempre foi: o homem que devolveu à língua seu ventre materno.