


Faleceu em 9 de dezembro de 2019, mas Môrice Awwad continua sendo uma exceção no panorama cultural e literário libanês. Este é o retrato de um homem rebelde, candidato ao Prêmio Nobel de Literatura em 2015, e de sua relação visceral com a língua materna, o vernáculo libanês, que transformou em seu estandarte, território matriz e razão de ser.
Môrice Awwad nasceu em 1934, em um Grande Líbano que ainda dava seus primeiros passos hesitantes. Já estava, no entanto, atravessado pelas tensões do que estava por vir: a independência, a idade de ouro, depois a violência e o retorno da servidão. Mas mais importante do que seu nascimento é o nascimento da língua dentro dele. É preciso imaginar Awwad mergulhado, quase literalmente, em uma placenta linguística libanesa, por mais estranha que pareça a imagem, nas entranhas de sua mãe. “Lembro de ter ouvido minha mãe chorar quando ainda estava dentro dela”, escreveria depois.
Desde a infância em sua casa em Bsalim, formou-se um vínculo que jamais se romperia: a língua da mãe, o libanês falado, tornou-se seu primeiro lar. O único que nunca se quebraria. “Minha língua é a língua da minha mãe”, dizia ele. E não era um slogan. A língua herdada da figura materna era uma verdade física, uma memória incorporada, uma fidelidade anterior a qualquer ato de vontade. A língua materna é, de certo modo, o espelho lacaniano que dá à criança sua primeira consciência de si mesma — ainda mais quando a figura paterna está ausente. Há uma exclusão radical do Nome-do-Pai, violento e ausente, levada ao extremo. Tanto que Môrice, nascido Khoury, “adotou” o sobrenome Awwad até a morte e chegou a transformá-lo depois em Môrice Kfargharib. O nome do pai foi substituído pelo do desarraigamento, do estrangeiro. O eixo vernáculo permanecerá intacto até o fim.
Nesse contexto, compreende-se seu desejo de territorializar a língua como ponto de ancoragem para não se dissolver. Toda a sua vida — o seminário de Ghazir, os retornos à vila, os anos nas gráficas, as leituras em francês, as dúvidas religiosas, a pobreza assumida, as noites de escrita — girou em torno de um único centro de gravidade: jamais abandonar a primeira língua, a que recebeu com ternura e necessidade. Escrever, para Awwad, não era separar verbo e corpo. “Quando escrevo, acaricio um corpo”, dizia. E esse corpo era sempre o mesmo: a língua-mãe.
A língua-matriz: o lugar anterior à língua
Todo mundo fala do “dialeto libanês”. Môrice Awwad não. Ele fala de um ventre. Não vê o libanês como fala inferior, mas como matriz, lugar de nascimento, espaço onde algo começa de novo a cada sílaba. O qaf se torna hamza, como se quisesse amputar a palavra de uma figura opressiva e caduca: o pai? O h final desaparece porque nunca respirou nas casas. As regras cedem ao sopro.
Nada disso é improvisação linguística nascida do narcisismo chauvinista. É um retorno às origens: à língua anterior à gramática, à separação, à escola, ao Estado.
Quando traduz O Pequeno Príncipe ou o Novo Testamento, Awwad não “vulgariza”. O processo é de integração, de reencarnação no útero nacional. Dá ao texto um grão, um calor, um tremor, e devolve a palavra ao lugar onde se torna carne. Leonard Cohen cantava: “Mostre-me o lugar onde a Palavra se fez homem”, com sua dupla ressonância espiritual e erótica. Awwad nem precisa que lhe mostrem esse lugar de criação. Ele o conhece. Viveu ali nove meses antes de respirar. E ofereceu a Palavra.
O “naquis” da língua: tradição, ruptura, continuidade
Môrice Awwad circula por vários mundos: a tradição oral levantina, o pensamento cristão, a poesia árabe clássica, influências latinas e francesas, as marcas da guerra. Recusa-se a escolher. Leva todos consigo. Nesse sentido, seu pensamento não é separatista nem está aprisionado pelo narcisismo identitário. Se fosse, seria totalmente alheio aos espaços infinitos que rejeitam qualquer confinamento: os espaços da poesia e da liberdade.
Mas nunca cede no essencial: nem o árabe clássico nem o francês literário podem expressar o que só a língua-matriz sabe dizer. É poeta-passador, mas também poeta-insurgente: recusa que o libanês seja relegado a adorno folclórico e combate a ideia de que só as línguas sagradas podem carregar o universal. Forja uma modernidade que não se proclama, mas se escreve dentro da tradição. Sua obra não equilibra polos: resolve um conflito interior. A língua-mãe triunfa sobre a língua da escola.
Coerência total: língua, pátria, combate
Em Môrice Awwad, tudo se encaixa. O homem pode parecer teatral, até excêntrico, com seu gosto pelo estilo, erotização exagerada da Palavra e figura de poeta selvagem. Mas é perfeitamente coerente. Não há poesia de um lado e compromisso de outro. A mesma língua serve para escrever um poema de amor, denunciar uma injustiça e dizer “Líbano”. O erotismo se transforma, quando necessário, em cantos patrióticos, e Awwad se envolve em lutas por soberania, liberdade e direitos humanos, mas nunca como seguidor. Age a partir da convicção profunda de que defender a língua-matriz equivale a defender a pátria e o território-mãe. Poder-se-ia até dizer que erotiza ambos.
Seu lugar na tradição intelectual libanesa comprometida se situa exatamente aqui: na encruzilhada entre Kamal Al-Hage e Said Aql. De Aql, compartilha a audácia de elevar o libanês acima de seu status subordinado, sem cair em excessos ideológicos. De Al-Hage, compartilha a ideia de que a língua é um pilar ontológico. Mas aí se separam.
Al-Hage, discípulo de Bergson, apesar de seu “nacionalismo libanista”, manteve-se fiel até seu assassinato ao árabe como língua filosófica essencial, portadora de duração, devir e missão espiritual. Awwad atravessa o limite que o filósofo não ousou: abandona a língua herdada para abraçar o território real, o que se fala nas vilas, nas cozinhas, na boca das mães.
Onde Al-Hage inscreve o Líbano na metafísica do árabe, Awwad o inscreve na matéria viva do libanês. Já não é teoria nem espírito, mas corpo e carne. O primeiro espiritualiza a nação; o segundo a encarna. O primeiro escreve para a consciência; o segundo para o sopro. Awwad leva o nacionalismo libanês à sua conclusão mais radical: o país não é conceito, é língua que vem do ventre.
Kazantzakis e a irmandade das línguas-ventre
Esse gesto matricial aproxima Môrice Awwad de uma constelação discreta de escritores que entenderam que a poesia começa quando a língua aceita voltar a se fazer carne: Kazantzakis libertando a demotikí, Lorca devolvendo ao castelhano seu duende andaluz, Joyce fraturando o inglês para deixar que Dublin se infiltrasse, Pasolini elevando o romanesco ao épico, Darwish devolvendo ao árabe clássico o fôlego do povo, Theodorakis revitalizando o rembético na Grécia dos coronéis. Todos fizeram, em seus mundos, o que Awwad faz no Líbano: devolveram à língua seu ventre, sua noite, seu grão, sua ferida. Suas obras, embora distintas, compartilham a mesma convicção: uma língua só vive quando retorna ao ser ou ao lugar que a gerou.
A língua-mãe e a língua da escola: uma leitura lacaniana
Em uma frase aparentemente simples, Môrice Awwad revela todo seu mecanismo interior: “O libanês é a língua da mãe; o árabe clássico é a língua da escola”. A primeira cura e envolve: é amor, ternura, calor. A segunda corrige, disciplina, aprisiona em estrutura mental rígida. A língua libanesa é liberdade e vida ao sair do ventre; o árabe é internato frio e sem alma.
Em termos lacanianos, é lalangue, o banho de significantes onde o sentido ainda não se desprende do corpo. Awwad o diz, com audácia desarmante, à sua maneira: Minha mão está mergulhada na língua libanesa como um embrião no ventre de sua mãe. Quantos escritores tiveram coragem de ir tão fundo na própria alma para devolver à língua essa intimidade amniótica? E, ao confessar que chorou apenas duas vezes, com a morte da mãe e de Assi Rahbani, une espontaneamente as duas matrizes de sua vida: a biológica e a musical do país. Roland Barthes teria reconhecido aí o grão da voz. Não a palavra, mas sua densidade.
A obra: engendrar o Líbano em sua língua
Os 57 livros que deixou — poesia, teatro, romances, traduções, liturgia — como testamento de sua obra-mãe, são menos gêneros do que regressos. Cada texto devolve algo ao primeiro mundo, à primeira voz. Traduzir o Novo Testamento para o libanês é dizer: a Palavra deve ser voz antes de ser conceito. Libanizar O Pequeno Príncipe é pedir ao mundo que recomece na boca de uma criança daqui. O poeta não busca a universalidade; a cria por fidelidade à raiz local mais íntima: o ventre mais antigo.
O poeta da matriz
Apesar das aparências, Môrice Awwad não quis dar ao Líbano uma nova língua. Seu caminho não é identitário. Não é, estritamente, político. Awwad apenas devolveu a língua às entranhas da terra, da mãe, da carne ou da cal. Devolveu à língua um ventre-terra. Ou, mais precisamente, um lugar de origem. Uma razão para sobreviver em um entorno regional percebido como deserto, frio, sinônimo de morte, oposto à placenta da vida.
Em um país onde tudo se deteriora cada vez mais — fronteiras, instituições, identidades e, sobretudo, cultura — Awwad lembra que o único que não colapsa é o que retorna ao início: a língua-mãe. Aquilo que nos distingue. Aquilo que nos identifica.
Nesse sentido, a luta de Môrice Awwad não foi linguística. Foi vital. Um país pode perder sua soberania, seus partidos, seus exércitos, seus símbolos, seus sonhos e ilusões, até suas referências. Mas só sobrevive se conserva sua língua-matriz. E é por isso que, ainda hoje, ele continua sendo o que sempre foi: o homem que devolveu à língua seu ventre materno.