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Homenagem

Samir Kassir: essas ausências que nos assombram

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Retrato do autor
Por Jad Akhawi
Publicado jun 1, 2026 - 23:20

Todos os anos, quando chega o dois de Junho, Samir Kassir regressa à memória como se nunca tivesse verdadeiramente desaparecido. Os anos decorrem, os rostos mudam, as circunstâncias e os acontecimentos sucedem-se, mas há pessoas que o tempo não consegue reduzir a meras recordáções. Permanecem presentes nos pormenores das nossas vidas, nas palavras que escrevemos, nas ideias que defendemos, nos sonhos que não tiveram tempo de se cumprir.

Vinte e um anos passaram desde o assassínio de Samir Kassir, e tenho ainda a sensação de que aquela manhã funesta não terminou realmente. Samir não era para mim um jornalista, um escritor ou um pensador cujos artigos e ideias eu acompanhava à distância. Era um amigo, um ser excepcional, que possuía essa rara faculdade de conciliar a cultura profunda com a simplicidade humana, a ousadia intelectual com o calor pessoal.

Acreditava no Líbano como o crente acredita na sua grande causa. O Líbano não era para ele um slogan político nem um discurso mediático, mas um espaço de liberdade, de vida, de pluralidade. Via para além do momento presente e lia o futuro numa época em que muitos eram incapazes de ver o presente.

Conheci-o próximo das pessoas, apesar da sua estatura intelectual. Ouvia mais do que falava, dialogava mais do que atacava, e persuadia pela força da ideia antes do que pela elevação da voz. Nada tem de estranho, pois, que tenha deixado uma impressão profunda em todos quantos o conheceram ou dele se aproximaram.

Quando Samir foi assassinado, não senti apenas a perda de um grande jornalista. Tive a sensação de que uma parte do sonho libanês acabava de ser submetida a uma tentativa de assassínio. Nesse dia, o luto não era somente pessoal, era também nacional. Era a consciência de que a palavra livre tinha passado a ser um alvo, e de que os homens de convicção pagavam a sua coragem com a vida.

Mas o destino quis que a chama de Samir permanecesse acesa através de quem havia partilhado a sua vida, Giselle Khoury.

Giselle era muito mais do que a esposa de Samir. Era a companheira da sua trajectória intelectual e humana, a testemunha dos seus sonhos, das suas lutas, das suas vitórias e das suas desilusões. Após o assassínio, ela poderia ter-se retirado para o seu luto íntimo e contentado-se com guardar as recordáções. Escolheu um caminho muito mais difícil.

Escolheu continuar o que Samir havia começado.

Carregou o seu nome, a sua causa e a sua memória com um amor raro e uma fidelidade excepcional. Não permitiu que o tempo dobrasse a sua página, não permitiu que os assassinos triunfassem sobre a ideia matando aquele que a transportava. Continuou a falar dele como se ele se mantivesse ao seu lado, e continuou a defender a liberdade, a justiça e a verdade tal como ele próprio o fazia.

Em Giselle via algo de Samir, e na sua continuidade, um prolongamento dele. Ela sabia que o ser parte, mas que a mensagem permanece. Por isso não comemorava cada ano a memória de Samir como uma simples ocasião de tristeza, mas transformava-a num acto de fidelidade e numa afirmação obstinada de que a palavra deve permanecer mais forte do que o medo.

Quando Giselle partiu por sua vez, o luto pareceu-me redobrar. Como se uma bela página da história cultural e mediática do Líbano acabasse de se fechar. Os dois corpos tinham partido, mas a história permanecia. A história de um amor que havia unido dois seres, cada um dos quais acreditava no outro como acreditava no Líbano. E a história de uma luta pela liberdade que não se detém nos limites de uma única vida.

Neste vigésimo primeiro aniversário do assassínio de Samir Kassir, não é apenas o retrato do grande escritor e do brilhante pensador que reencontro em mim. Reencontro o amigo, o ser humano, o rosto que carregava sempre uma fé profunda na capacidade dos libaneses para construírem um futuro melhor.

E reencontro também Giselle Khoury, que provou que a fidelidade não é uma palavra que se diz, mas um caminho que se percorre. Guardou o depósito até ao último dia da sua vida e carregou a chama caída das mãos de Samir, para a transmitir por sua vez a uma nova geração que acredita na liberdade, na soberania e no Estado.

Os assassinos conseguiram talvez, naquela manhã de Junho de 2005, silenciar a voz de Samir. Não conseguiram silenciar a ideia. As grandes ideias não morrem, e os homens que semeiam a liberdade nos espíritos alheios nunca desaparecem verdadeiramente.

Hoje, vinte e um anos depois, Samir Kassir permanece presente entre nós. Em cada palavra livre, em cada jornalista que recusa ceder, em cada cidadão que sonha com um Estado justo, em cada libanês que ainda acredita que este país merece um futuro melhor.

A longa ausência não apagou a memória, tornou-a ainda mais presente. Certos seres, qualquer que seja a distância que o tempo coloca entre eles e nós, permanecem mais próximos do que muitos dos que vivem ao nosso lado.

Assim era Samir Kassir.

Assim ficou Giselle Khoury.

E assim perdurará a história de liberdade e fidelidade que os uniu, viva na memória do Líbano enquanto houver alguém que acredite na palavra livre e no direito das pessoas a sonhar.

Os seus nomes permanecerão como testemunho de que a memória não é um simples regresso ao passado, mas uma resistência ao esquecimento, e de que a liberdade que defenderam extrai a sua força daqueles que recusam renunciar a ela.

Entre Samir e Giselle estende-se a história de um país que procura sempre encontrar-se a si mesmo, e que encontra em pessoas como eles mais uma razão para se agarrar à esperança.

Os seres passam, mas a impressão verdadeira permanece, iluminando o caminho das gerações vindouras e atestando que o Líbano só se constrói com liberdade, e só se preserva com memória.

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