
Enquanto os Estados Unidos prometeram um «Dia D econômico» ao Irã, essa estratégia só pode se tornar plenamente eficaz com a cooperação da China, maior importadora de petróleo iraniano e principal fornecedora de tecnologias militares ao regime dos aiatolás. Após seis meses de guerra no Oriente Médio, Washington tem motivos para se preocupar com o prolongamento de um conflito que deveria durar apenas algumas semanas. Sem uma solução militar rápida, o governo Trump optou por asfixiar o regime iraniano apresentando novas sanções que atingem não diretamente Teerã, mas seus parceiros comerciais, com o objetivo de isolar a economia iraniana. Entidades chinesas estão entre os alvos deste grande plano do secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, que intimou Pequim a aderir à iniciativa. A cúpula de Xangai Uma situação tão urgente que transformou a cúpula comemorativa do 25º aniversário da Organização de Cooperação de Xangai (OCX) em uma reunião de última chance para os iranianos. Os líderes russo, chinês, iraniano e indiano estão esperados na segunda e terça-feira em Bishkek, capital do Quirguistão, junto com outros seis países da Ásia Central. Entre eles, Vladimir Putin e Xi Jinping, além do presidente iraniano Massoud Pezeshkian e do primeiro-ministro paquistanês Shehbaz Sharif. Se a China é claramente afetada pelo novo sistema de sanções americanas, Pequim descartou essas ameaças, garantindo pelo contrário que defenderá firmemente seus interesses e sua cooperação com o Irã, do qual é um parceiro estratégico de grande peso. Esse braço de ferro corre o risco de agravar ainda mais as tensões entre Pequim e Washington, às vésperas da visita do líder chinês Xi Jinping à capital americana, prevista para setembro. O Irã resiste às sanções que o atingem há décadas mobilizando complexas redes financeiras internacionais para contorná-las. Pequim é uma grande compradora de petróleo iraniano. Frequentemente quita suas faturas em yuan renminbi, a moeda chinesa, que escapa às sanções americanas. Além disso, mesmo que o tráfego marítimo no estreito de Ormuz seja bloqueado, a China pode continuar recebendo petróleo bruto iraniano pelas rotas rodoviárias e ferroviárias da Ásia Central. Custos v/s benefícios Assim, as compras chinesas diminuíram, mas é o que resta a Teerã para sobreviver a uma asfixia total. Segundo especialistas consultados pela AFP, as novas sanções anunciadas na segunda-feira têm como alvo determinadas entidades chinesas acusadas de ajudar Teerã a obter tecnologias cruciais. No entanto, os Estados Unidos abstiveram-se até agora de sancionar as grandes instituições financeiras do país asiático. Pequim e Washington passaram grande parte do ano passado atolados em uma crescente guerra comercial, até o frágil alívio trazido pelo encontro entre Xi Jinping e Donald Trump em outubro de 2025. Para que sua campanha contra o Irã produza resultados, Washington talvez precise «oferecer incentivos» a Pequim para encorajar o gigante asiático a se posicionar ao seu lado, avalia Lim Tai Wei, professor especialista em Ásia Oriental na universidade japonesa de Soka, citado pela AFP. Assim, a China só considerará cooperar com os Estados Unidos «se os custos ligados ao apoio ao Irã se tornarem claramente superiores às vantagens estratégicas e econômicas» de continuar comercializando com esse país. Trump multiplica as distrações Enquanto isso, em Washington, o presidente Donald Trump assiste, impotente, a uma série de reveses que representam ameaças para as eleições de meio de mandato em novembro próximo. Um lago rebatizado, publicações chocantes na internet, contatos reduzidos ao mínimo com a imprensa… Trump não quer mais ter de falar sobre o Irã nem sobre a inflação, os dois temas que pesam sobre seu mandato. O seu índice de popularidade está no mínimo histórico e o Partido Republicano teme uma derrota pesada em novembro, nas eleições que definirão o controle do Congresso — até agora de maioria conservadora. O republicano de 80 anos coloca em prática uma estratégia que já utilizou muitas vezes: criar barulho para tentar abafar um ruído de fundo desfavorável — neste caso, a sucessão de sondagens cada vez mais negativas sobre o seu mandato. Esta semana, Donald Trump monopolizou momentaneamente a atenção da mídia ao anunciar que iria renomear o lago Ontário, na fronteira entre os EUA e o Canadá, como «lago América», o que deixou o Canadá indignado. Um influenciador da direita radical, Matt Walsh, também considerou a ideia «politicamente estúpida», vendo nela um «presente» para a esquerda americana. É preciso reconhecer, no entanto, neste contexto, que a política anti-imigração continua a ser uma das poucas que segue o rumo traçado pelo presidente republicano. O governo comunica amplamente sobre a sua campanha de expulsões em massa, conduzida em condições frequentemente consideradas cruéis pela oposição democrata. O Departamento de Segurança Interna divulgou, por exemplo, na quinta-feira um vídeo mostrando o embarque em um avião de cidadãos haitianos acorrentados, depois que Washington eliminou um estatuto que lhes havia permitido entrar legalmente no país. A montagem, com trilha sonora, foi considerada degradante e racista pelos opositores de Donald Trump. Quanto ao resto, o conflito no Irã dura muito mais do que as poucas semanas prometidas pelo inquilino da Casa Branca e, sobretudo, os americanos ainda aguardam a queda no custo de vida que ele lhes havia garantido. «O melhor presidente» O seu governo acumula medidas de emergência às vésperas das eleições, em diversos domínios: importações massivas de carne bovina estrangeira para baixar os preços; recompra de títulos da dívida americana para tranquilizar os mercados; missão expressa do diretor da CIA para tentar dissuadir a Rússia de atacar um país da OTAN, segundo a imprensa americana. Donald Trump, tão ávido por trocas improvisadas com grupos de jornalistas, tem feito menos isso, ou então encerra essas interações rapidamente. No início do seu segundo mandato, realizava facilmente coletivas de imprensa improvisadas de uma hora, às vezes todos os dias. Agora prefere conceder, como esta semana, uma longa entrevista a um apresentador da esfera MAGA, na qual não é desafiado. O republicano, no entanto, continua a se manifestar bastante na sua plataforma Truth Social, no estilo do «trolling» — provocações gratuitas destinadas a gerar uma reação viral. Esta semana, publicou um «ranking» de vários presidentes americanos que irritou os seus opositores. Lincoln e Washington são classificados como «muito bons», Clinton é «mediano», Biden, Obama e Carter são «fracassos». Ele próprio, sem surpresa, aparece no topo e sozinho, como o «maior» presidente.








