


Os americanos são conhecidos por serem diretos, especialmente nas perguntas que fazem a seus interlocutores, esperando respostas automáticas e maniqueístas: sim ou não, branco ou preto.
Kash Patel, diretor do FBI, durante sua sabatina no Senado, foi bombardeado pelo senador Eric Swalwell com a mesma pergunta: “O senhor informou o ministro da Justiça sobre a menção do nome de Donald Trump no dossiê Epstein, sim ou não?”. Patel não deu a resposta categórica que se esperava.
Se essa pergunta, por se tratar de um fato, tem uma resposta simples, a que o senador Lindsey Graham fez em Washington ao comandante do Exército, o general Rodolphe Haykal, é bem mais complexa, porque envolve uma opinião, até mesmo um posicionamento político.
“Você considera o Hezbollah uma organização terrorista?” é a pergunta por excelência à qual o comandante do Exército não poderia responder com um simples sim ou não. Sua réplica, “Não, no contexto libanês”, não foi habilidosa, mas também não foi falsa.
Ele poderia ter dito que, enquanto o governo libanês não banir oficialmente essa organização, não cabe a ele se pronunciar sobre o tema, já que é um militar que executa as diretrizes do poder político.
Ainda assim, e correndo o risco de chocar, o Hezbollah não é (ainda) considerado no Líbano uma organização fora da lei, sobretudo porque está representado dentro do próprio governo e do Parlamento.
Diferentemente do IRA, que separou seu braço paramilitar do braço político (o Sinn Féin) e, com líderes como Gerry Adams, conseguiu fazer a política prevalecer sobre a milícia, no Hezbollah é o braço militar que domina o político, assim como todo o sistema libanês. Deputados do Hezbollah se apresentam em trajes milicianos, defendem todas as posições do grupo, inclusive o início de guerras e hostilidades que devastaram o país.
O mais lamentável é que outras facções políticas, por oportunismo ou, pior ainda, por convicção, também defendem o Hezbollah, que, ao longo de suas “trinta gloriosas” (1994 a 2024), conseguiu estender sua rede por toda a administração libanesa, inclusive o Exército.
É inegável que, desde 27 de setembro de 2024, o declínio da milícia teve início. No entanto, exigir que subordinados mudem de posição da noite para o dia é utópico. O episódio da iluminação da gruta de Raouché é o exemplo mais evidente. É preciso dar tempo ao tempo, como escreveu Cervantes, mesmo que nossas instituições políticas e militares revelem certo dom-quixotismo ao ignorar o “elefante na sala” e atacar outros problemas que jamais serão realmente resolvidos enquanto o Hezbollah não for definitivamente desmilitarizado.
Mas o tempo urge, e não temos o luxo de esperar.
Por isso, a resposta de Rodolphe Haykal não é errada: tudo é relativo, tudo depende da percepção. No momento em que a pergunta lhe foi feita, o Hezbollah não era, aos olhos do Estado, uma organização terrorista. Caso contrário, isso significaria que os ministros Chéhadé, Issa el Khoury, Nassar, Raggi e Saddi, assim como todos os deputados soberanistas, convivem e dialogam com criminosos e, em certo sentido, o seriam também. Pode-se sempre dizer, em sua defesa, que Judas tinha amigos irrepreensíveis, mas essa continua sendo uma visão simplista da realidade.
Portanto, de forma objetiva, o fato de o general Haykal ter dado uma resposta que não corresponde necessariamente às aspirações da maioria dos libaneses não é, em si, particularmente condenável. O lamentável é que o campo lobotomizado do Hezbollah, seus cães de guarda e outros atingidos pela síndrome de Mar Mikhaël, ainda mais poderosa que a de Estocolmo e que acaba de completar vinte anos, já tenham usado e abusado, de forma “epsteiniana”, das palavras do general Haykal para ressuscitar o tripé “exército, povo e resistência”, um verdadeiro triolismo que o país e sua população sofreram por décadas.
Resta esperar que o presidente não conceda, no retorno de Rodolphe Haykal, uma nova condecoração, ainda mais considerando que a anterior (após Raouché) foi a mais alta distinção. A menos que se crie uma nova categoria: a do mérito relativo, uma medalha por serviços prestados à confusão nacional, entregue com honras por um Estado que prefere condecorar suas contradições a enfrentar sua própria realidade.