

A desinformação e a distorção dos fatos históricos definitivamente não têm limites para certos setores. Por ocasião da Páscoa católica, no dia 5 de abril passado, um dirigente do Hezbollah, Hassan Dorr, publicou na plataforma X, anteriormente conhecida como Twitter, a seguinte mensagem:

https://x.com/HasanDorr/status/2040735419952718037?s=20
“Em resposta ao chamado de ó Santa Maria:
A ‘Resistência’ envia suas saudações aos nossos irmãos cristãos por ocasião da #Páscoa, tendo como alvo a base ‘Stella Maris’, pertencente aos assassinos de Jesus Cristo, que a paz esteja com ele, na #Palestina ocupada.”
O ativista ligado ao Hezbollah acompanhou sua mensagem com um vídeo da operação. De acordo com os elementos visuais exibidos na tela, o vídeo parece ser uma gravação de uma transmissão ao vivo da Al Mayadeen, canal de notícias pan-árabe por satélite alinhado ao Hezbollah, com uma faixa indicando “Imagens da Resistência Islâmica no Líbano”. O vídeo da operação também traz o logotipo do chamado aparelho de guerra midiática do Hezbollah.
Enquanto Dorr associou a operação ao domingo de Páscoa, a emissora do Hezbollah, Al Manar, havia publicado o seguinte em seu site em inglês no dia 31 de março de 2026, às 20h59, horário de Beirute:
“A Resistência Islâmica atacou a base Stella Maris, uma base estratégica de vigilância e controle marítimo ao longo da costa norte de Israel, às 20h00 da terça-feira, 31 de março de 2026, com uma salva de foguetes avançados: comunicado número 22.” Tradução diplomática
Além disso, o vídeo completo da operação à qual Dorr faz referência em X encontra-se no seguinte endereço, datado de 31 de março de 2026: https://x.com/OSINTWarfare/status/2040856427963494574?s=20, e também no site da Al Manar: https://www.almanartv.com.lb/article/724772/, igualmente marcado com a data de 31 de março de 2026.
Isso demonstra que a operação não tinha qualquer relação com a Páscoa, exceto na encenação construída por Dorr, que instrumentaliza as celebrações cristãs para inflamar tensões religiosas entre judeus, cristãos e muçulmanos.
Análise
Dorr retoma a antiga e já desacreditada acusação de deicídio atribuída aos judeus. Essa tese sustenta que o povo judeu carregaria uma responsabilidade coletiva pela morte de Jesus, inclusive ao longo das gerações posteriores à sua crucificação.
No entanto, a Igreja Católica rejeita a acusação de deicídio desde o Concílio de Trento, em meados do século XVI. No catecismo decorrente desse concílio, a Igreja ensinava que a humanidade pecadora como um todo é responsável pela morte de Jesus, sendo que os cristãos teriam, nesse sentido, uma responsabilidade particular.
Durante o Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965, o papa Paulo VI promulgou a declaração Nostra Aetate, que rejeitou a ideia de uma culpa judaica coletiva e transgeracional pela crucificação de Jesus. O texto afirma que o que foi cometido durante sua Paixão não pode ser imputado indistintamente a todos os judeus que viviam então, nem aos judeus de hoje.
O Papa Bento XVI também rejeitou a acusação de deicídio dirigida aos judeus em seu livro Jesus de Nazaré, publicado em 2011, ressaltando que ela não possui fundamento nas Escrituras.
Em síntese, o Concílio de Trento ampliou a responsabilidade para toda a humanidade pecadora, o Vaticano II rejeitou explicitamente qualquer culpa coletiva judaica, e as fontes católicas e cristãs contemporâneas tratam amplamente a acusação de deicídio como um tropo antissemita ou antijudaico baseado em culpa coletiva, alertando inclusive, mais recentemente, contra seu uso durante a Semana Santa.
Manipulação
A mensagem manipuladora de Dorr apresenta várias dimensões.
Em primeiro lugar, trata-se de uma alegação sem fundamento, já descartada no plano litúrgico pelas autoridades cristãs.
Em segundo lugar, instrumentaliza a Crucificação, um marco central do cristianismo. Sua afirmação busca estimular tensões religiosas entre certos cristãos, que poderiam se sentir inclinados a apoiar as ações do Hezbollah contra Israel, entendido aqui como os judeus, com o objetivo de “vingar a morte de Jesus”, embora a ideia de vingança contrarie os ensinamentos cristãos mais básicos.
Essa tentativa de angariar apoio transconfessional ao campo do Hezbollah permite aos propagandistas sustentar que as ações do grupo servem ao conjunto do Líbano, com uma base de apoio que ultrapassaria a comunidade xiita. Comunidade esta que, aliás, acabou por se somar às demais confissões libanesas ao denunciar e rejeitar publicamente as ações do Hezbollah.
Hoje, a dissidência xiita atinge seu nível mais alto já observado, em razão do deslocamento das populações xiitas e da destruição de suas casas causados pelas atividades militares do Hezbollah e pelas represálias israelenses.
Ao apresentar o Hezbollah, grupo que se define como uma resistência islâmica, como a força que ataca os judeus para fazer justiça aos cristãos e ao próprio Jesus, Dorr implica tanto o Islã quanto os muçulmanos em conflitos de natureza religiosa.
Em terceiro lugar, e sobretudo, Dorr ignora o essencial: a Páscoa representa a passagem da morte para a vida. Trata-se de uma celebração da ressurreição e da vida eterna.
A mensagem incendiária de Dorr chega com três dias, cinco séculos e dois mil anos de atraso e está equivocada.