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Analisar

Ficamos mais burros?

Ou estamos vivendo uma transformação na estrutura do conhecimento?
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Por Mona Fayad
Publicado em set 5, 2026 - 20:01
A pergunta «O mundo ficou mais burro?» reaparece com frequência nos debates contemporâneos sobre mídia digital, mecanismos de busca e redes sociais. À primeira vista, parece uma pergunta simples, mas esconde uma questão muito mais profunda, ligada à própria natureza do conhecimento: como ele é produzido, como é transmitido e como é consumido. Talvez a pergunta «Ficamos mais burros?» não seja a mais precisa. Talvez devêssemos perguntar: o conhecimento ainda é transmitido de uma maneira que permita compreendê-lo e torná-lo produtivo? A maioria dos leitores ainda recorre aos textos originais? Ou se limita aos seus resumos e ao que é dito a respeito deles por meio daquilo que circula entre os leitores? Uma das chaves para compreender esse fenômeno encontra-se nos trabalhos do psicólogo britânico Frederic Bartlett, que realizou, na década de 1930, uma série de experiências sobre aquilo que chamou de «reprodução serial». Nessas experiências, uma pessoa ouvia uma história e depois precisava contá-la a outra, que por sua vez a contava a uma terceira, e assim por diante. Os resultados foram impressionantes: a cada nova transmissão, a história não era reproduzida exatamente como havia sido contada, mas reformulada. Alguns detalhes desapareciam, outros eram ampliados e outros ainda eram substituídos por elementos mais compatíveis com o contexto, as experiências e a cultura do receptor. Depois de passar por um número suficiente de intermediários, a história original já havia se transformado em algo inteiramente diferente. Esse modelo simples revela uma verdade fundamental: a memória não é um recipiente neutro, mas um mecanismo de reconstrução. E, quando o conhecimento passa por múltiplos intermediários, ele não é «preservado», mas «reproduzido». É aqui que começam a aparecer as semelhanças com o nosso mundo contemporâneo e o receio de que estejamos ficando mais burros. Na era da mídia digital, o conhecimento já não circula por meio da transmissão oral, mas através de cadeias de mediação: um artigo é resumido, depois citado, em seguida republicado sob a forma de uma postagem curta e, por fim, reduzido mais uma vez a uma frase ou a um título. Nesse contexto, podemos retomar uma imagem metafórica usada em um texto jornalístico: uma biblioteca cujos livros são substituídos por resumos, e depois por resumos dos resumos, até que o leitor se veja diante de sucessivas camadas de redução. Algo semelhante ao que poderíamos chamar de «cadeia do guaxinim», que não lê o original, mas remexe em seus restos. Vale esclarecer que a escolha do «guaxinim» não é aleatória. Essa metáfora condensa simbolicamente uma condição cognitiva que vem se consolidando. Esse animal, que vive nas margens das cidades e remexe em latas de lixo, não produz seu alimento, mas se nutre dos restos daquilo que outros produziram. Apesar de sua inteligência prática e de sua capacidade de desmontar, recolher e aproveitar objetos, ele não compreende verdadeiramente aquilo que tem diante de si, mas lida com as coisas como materiais disponíveis para uso imediato. É assim que o conhecimento passa a se apresentar na era da redução serial: textos são resumidos e depois novamente resumidos, até que deles reste apenas um punhado de fragmentos de sentido, reorganizados e postos novamente em circulação sem qualquer vínculo verdadeiro com sua fonte. Nesse ponto, não apenas nos afastamos do original, mas entramos em uma nova etapa da produção da informação ou do conhecimento, na qual o agente cognitivo deixa de ser um leitor ou pensador para se tornar um coletor de restos de significado, que os redistribui em formatos destinados ao consumo rápido. A «cultura do guaxinim», portanto, não é apenas uma descrição da superficialidade. É também uma caracterização precisa da degradação da própria cadeia do conhecimento: da criação ao resumo, da compreensão ao processamento formal, das ideias a algo que já não passa de um vestígio apagado delas. Mas esse fenômeno não pode ser compreendido separadamente da estrutura tecnológica que o governa. É aqui que entra Marshall McLuhan, que sintetizou seu pensamento na célebre frase: «O meio é a mensagem». O problema não está apenas no conteúdo, mas também na forma através da qual esse conteúdo é transmitido. A mídia digital contemporânea não se limita a transportar informações, mas as remodela segundo a lógica da velocidade, da condensação e da fragmentação. O texto longo torna-se inadequado para o consumo, enquanto uma ideia só parece aceitável se puder ser reduzida a poucas linhas facilmente compartilháveis. Essa transformação produz um paradoxo marcante: vivemos numa época em que o acesso ao conhecimento deixou de ser difícil e se tornou excessivamente fácil. E, com essa facilidade excessiva, surge aquilo que poderíamos chamar de «ilusão cognitiva»: basta ler um pequeno trecho ou um resumo rápido para que a pessoa tenha a sensação de ter assimilado uma ideia. Mas essa sensação de domínio não é necessariamente acompanhada por uma compreensão profunda nem pela capacidade de reconstruir ou criticar o conhecimento. É aqui que aparecem os que poderíamos chamar de «semiletrados»: indivíduos que possuem os sinais do conhecimento, mas não sua estrutura; seu vocabulário, mas não sua lógica interna. O problema se torna ainda mais complexo quando o observamos sob o ângulo da atenção. Em vez de permanecer em um estado prolongado de concentração, como acontece na leitura tradicional ou na reflexão demorada, a mente passou a viver sob um bombardeio contínuo de informações: notificações, vídeos, manchetes e ondas sucessivas de conteúdo. Essa situação não apenas dispersa a atenção, mas a reconfigura segundo uma lógica de saltos constantes entre pequenas unidades de significado, em vez de permitir a construção gradual e cumulativa de uma ideia. Lembro aqui de uma anedota que costumávamos contar e que circulava muito na época das manifestações populares. Ela ilustra bem a ideia da redução e da transformação do conteúdo. Depois da ocupação da Palestina, muitas manifestações populares tomaram as ruas gritando «Abaixo a Declaração Balfour!». A brincadeira dizia que, no fim da manifestação, o slogan havia se transformado, em árabe, em «Que alguém caia lá de cima!», uma frase inteiramente diferente que preservava algo do ritmo e da sonoridade da original. Talvez essa imagem nos ajude a compreender melhor o que acontece na linguagem cotidiana quando o conhecimento se transforma em mensagens curtas repetidas coletivamente. A manifestação começa com uma fórmula política precisa. Mas, com a repetição, a imersão coletiva e o ritmo sonoro, ela vai se transformando pouco a pouco em outra fórmula, completamente diferente. Esta pode conservar o ritmo e a carga emocional da primeira, mas perde seu significado e seu sentido original. O que permanece não é o sentido, mas a energia emocional da frase. Aqui se manifesta, de outra maneira, aquilo que Bartlett havia observado: não importa apenas o que foi dito, mas como aquilo foi repetido e como voltou a ser compreendido dentro de um contexto social em transformação. Se reunirmos todos esses fios, podemos dizer que aquilo que vivemos hoje não é propriamente um «colapso da inteligência», mas uma transformação das condições em que ela opera. A mente humana não mudou radicalmente, mas o ambiente em que funciona se transformou profundamente: passamos de um ambiente que permitia a acumulação lenta para outro que impõe a reprodução rápida e fragmentada do conhecimento. Essa mudança cria uma tensão permanente entre duas formas de pensamento: um pensamento reflexivo, que precisa de tempo, e um pensamento rápido, que exige resposta imediata. Sob essa perspectiva, a pergunta «Ficamos mais burros?» torna-se parcialmente enganosa. Talvez seja mais preciso dizer que estamos cada vez mais expostos a condições que tornam o pensamento profundo menos estável, ou menos possível, e o conhecimento mais vulnerável à fragmentação e à reciclagem. Quanto à burrice, se podemos usar o termo, talvez ela não seja uma propriedade da mente, mas um efeito colateral e uma característica da estrutura cultural que se formou. Trata-se de uma tecnologia que está remodelando nossa relação com o mundo. Assim, em vez de enxergar esse fenômeno como um declínio das capacidades humanas, podemos compreendê-lo como uma transformação do «ambiente do conhecimento»: um ambiente em que se tornou fácil saber alguma coisa, mas mais difícil compreendê-la de fato e em profundidade.
Opinião
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Por Youssef Mouawad - Publicado em set 5, 2026 - 13:25
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Em 2010, Israel interceptou com violência o Mavi Marmara, um navio turco fretado por uma ONG humanitária para socorrer a Faixa de Gaza, então sob bloqueio israelita. Esse incidente, a gota de água, fará vir à tona a animosidade entre o governo de Erdogan e o Estado hebraico. (AFP)
A guerra ainda não parou no nosso sul e já corre o risco de eclodir junto aos nossos vizinhos. Ou seja, vivemos a prazo, de conflito em conflito. E com razão! Por pouco o bombardeamento de uma base síria não descambou numa batalha campal entre Ancara e Telavive. Foi a 18 de agosto passado, e Benjamin Netanyahu não foi com meias palavras: o seu país não iria tolerar uma implantação militar turca suscetível de avançar para o sul da Síria. A mensagem foi tanto mais brutal quanto oito ataques tinham visado a base aérea de Abu al-Duhur, situada a 70 quilómetros da fronteira turca. Recorde-se, aliás, que desde a queda de Bashar al-Assad em dezembro de 2024, Erdogan é o principal mentor da nova Síria, a de Ahmed al-Charaa, ajudando-a a reconstruir as suas forças armadas e transformando-a num parceiro estratégico. Já não é a Síria de Hafez al-Assad Terá sido este novo pico de tensão entre Ancara e Telavive que precipitou a reunião entre o chefe da diplomacia síria, Assaad Chaïbani, e o diretor do Mossad, Roman Gofman, a 23 de agosto passado, na Jordânia? Ora, esse encontro discreto não provocou uma onda de indignação no mundo árabe, como aconteceu com a visita imprevista de Anwar al-Sadat a Israel em 1977. Um tabu foi oficialmente quebrado e, de facto, quem poderia ter acreditado que tal concertação seria possível sob o regime baathista? O Estado hebraico deveria ter-se congratulado, mas, ao contrário do que se esperava, não interrompeu nem os seus ataques aéreos nem as suas incursões territoriais, como a de 27 de agosto em Quneitra. É que as coisas mudaram. Sob Hafez al-Assad, a Síria era uma potência regional que, sem ser temível, era temida pelos seus vizinhos imediatos, fossem eles países árabes ou não. Evitava-se procurar confronto com ela e, por isso, o país conduzia, dentro de certos limites, uma política externa agressiva que resvalava muitas vezes para a provocação. E assim, em virtude da autonomia da sua ação e da margem de manobra que se concedia, tinha constituído, nem que fosse apenas geograficamente, uma zona-tampão entre, por um lado, uma Turquia "erdoganesca", que exibia o seu islamismo assumido, e, por outro, um Israel, o Estado consubstancialmente judeu. Ora, eis que, num país esgotado por uma gestão baathista e devastado por anos de guerra civil, a Turquia, ao começar a marcar posições, vai inevitavelmente encontrar-se frente a frente com um Israel que ocupa uma parte do território sírio. O que esperar? Tendo em conta o ego desmedido tanto de Netanyahu como de Erdogan, e no caso de estes dois chefes de Estado permanecerem nos seus respetivos cargos, devemos esperar um duelo épico em território sírio, libanês, jordano, ou até noutros locais. Este combate será feito de fintas, de esquivas, de golpes baixos, mas também de ataques frontais, de corpo a corpo e de escaladas de tensão até ao ponto de rutura. E isto mesmo que o relatório doCongressional Research Servicede setembro de 2025 considere pouco provável um confronto direto entre a Turquia e Israel, precisamente porque ambos os Estados conhecem o custo de uma guerra, caso esta viesse a eclodir. No entanto, no domínio da polemologia, os dirigentes e outras elites não são necessariamente atores racionais! Tanto mais que, aos olhos dos observadores israelitas, o slogan que impera na Anatólia, a saber, «Make Turkey great again», não é de molde a tranquilizar o Estado sionista. Washington terá cada vez mais dificuldade em conter ou separar os dois adversários que já se posicionam em ordem de batalha. A Turquia, um novo Irão? Sim, é uma hipótese, mas apenas num confronto direto com Israel, tendo a Síria se tornado da noite para o dia uma zona onde «se sobrepõem dois perímetros de segurança», o turco e o israelita, o muçulmano e o judeu. E não se pode excluir que o militantismo xiita, esse mobilizador de «proxies», acabe por se aliar, ainda que momentaneamente, a uma «versão irmãos-muçulmana» do islamismo político defendido por Ancara! Teríamos assim, contra todas as expectativas, um Hezbollah apoiado pelo seu inimigo de ontem, Ahmed al-Charaa, um islamista vindo da Jabhat al-Nusra e da Hayat Tahrir al-Cham! Contra o adversário comum, uma inversão de alianças é sempre legítima e oportuna. Mas isso não passaria de uma aliança tática, ditada pelas necessidades do momento, sem qualquer garantia quanto ao futuro. Tendo o nacionalismo árabe sido posto de lado, a Turquia não se vai contentar em conquistar economicamente o mercado sírio, com os seus 25 milhões de consumidores: vai querer exercer influência política em Damasco, mobilizando para isso o seu aparelho militar e de segurança. O poder instável do presidente sírio, incapaz de assegurar certas funções soberanas nem de enquadrar os diversos corpos do Estado, terá necessariamente de recorrer à experiência do seu vizinho do norte. Será, no entanto, de acreditar que este último vai ser arrastado pela espiral de uma «beligerância anunciada»? Tudo aponta nesse sentido, e já se podem perceber os primeiros sinais de um envolvimento que lembra o dos Estados Unidos no Vietname sob Lyndon Johnson. Pois, se o Estado sírio pretende reconstituir-se, precisará antes de mais de um exército capaz de conter as tendências centrífugas dos alauitas, dos drusos e de outras facções que apelam à fragmentação do país. Ora, cabe a Ancara garantir isso e reforçar a autoridade central sediada em Damasco. Mas Israel, que adquiriu maus hábitos na Síria e pretende manter aí liberdade de ação aérea, não pode aceitar um exército estruturado segundo o modelo da NATO e que possa servir de proxy a um projeto neo-otomano. E o Líbano, da primazia à secundarização? Está agora montado um novo cenário para um novo guião que definirá novas regras do jogo! O que será feito do Hezbollah, apanhado numa ratoeira? Bem, poderia beneficiar, neste cenário, ainda que apenas em parte, do apoio logístico de Damasco, apoio que lhe fez gravemente falta desde a queda de Bachar al-Assad. E talvez que, com um deslocamento das placas tectónicas, o Líbano passasse do estatuto de palco inicial ao de palco secundário de um conflito regional. Mas, para ser sincero, isso de pouco nos vai valer!
O Essencial do Dia
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Por LevantTime . - Publicado em set 5, 2026 - 00:55
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O comboio do CICV que transportava os civis libertados, partindo da zona ocupada por Israel no sul do Líbano, seguiu até o ponto que marca o início da área controlada pelas autoridades libanesas. (AFP)
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) anunciou nesta sexta-feira que transferiu para o Líbano outras quatro pessoas libertadas por Israel, um dia após a libertação de um primeiro civil. Segundo o CICV, trata-se de três libaneses e dois sírios. É a primeira vez que uma operação desse tipo ocorre desde o início, em abril, das negociações entre o Líbano e Israel, sob mediação dos Estados Unidos. Beirute havia solicitado, durante a última rodada de negociações, em agosto, a libertação de um primeiro grupo de cidadãos libaneses capturados por Israel no sul do Líbano, onde trava uma guerra contra o Hezbollah, aliado do Irã. Familiares estimam que cerca de 30 pessoas estejam detidas, entre elas combatentes do movimento islâmico. O presidente libanês, Joseph Aoun, agradeceu em comunicado aos Estados Unidos e ao CICV e afirmou que essa libertação «confirma o acerto da posição» do Líbano, que participa de negociações com Israel rejeitadas pelo Hezbollah. Os Estados Unidos elogiaram na quinta-feira «o governo de Israel e o governo do Líbano por demonstrarem boa-fé por meio desses primeiros passos», expressando a esperança de que isso sirva «de base para discussões mais amplas sobre outras questões civis». Os dois países devem realizar uma nova rodada de negociações em setembro, em uma data ainda não definida. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira «ocorre após os esforços realizados por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os restos mortais de líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano» entre 1984 e 1986. Israel intensifica seus ataques No terreno, ataques israelenses deixaram três mortos e 23 feridos nesta sexta-feira no sul e no leste do Líbano, segundo um veículo de imprensa estatal. Israel intensificou nesta sexta-feira seus ataques na região, depois de anunciar, na noite de quinta-feira, que havia assumido o controle da crista montanhosa de Ali Taher, que servia como posição estratégica para o Hezbollah, aliado do Irã, e domina, entre outras áreas, a cidade de Nabatiye. O Exército agora reforçará suas posições na região para «impedir que o inimigo volte a se posicionar na área», declarou o ministro da Defesa israelense, Israel Katz. Outro ataque também atingiu a região de Tiro, especialmente a localidade de Rmadiye, segundo a Agência Nacional de Notícias (ANI). Para Trump, a guerra no Irã é «coisa pequena» Sobre a guerra no Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tentou nesta sexta-feira minimizar seu impacto para o país, às vésperas das cruciais eleições legislativas de meio de mandato. «Muita gente não chama isso de guerra. Eu digo que é um conflito militar, porque para nós é coisa pequena (“small potatoes”). Não é nada demais. Fizemos a Venezuela e fizemos isso», respondeu a jornalistas no Salão Oval, ao ser questionado sobre seu vice-presidente, JD Vance, que no dia anterior havia dito não querer descrever o conflito como uma guerra. Enquanto a forte alta dos preços dos combustíveis ligada à guerra ameaça custar aos republicanos de Donald Trump sua maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato de novembro, sua administração tenta minimizar a dimensão do conflito. Segundo o presidente, os Estados Unidos realizam «ataques pontuais» e «não estão atualmente combatendo». Trump também afirmou que os Estados Unidos controlam o estreito de Ormuz e que dizimaram as Forças Armadas iranianas. «O que conseguimos foi extraordinário. Assumimos o controle da Venezuela e, essencialmente, assumimos o controle do Irã», declarou.
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Do excesso de poder ao poder do Estado
Por
Samir Abdelmalak
Publicado

O Oriente Médio atravessa transformações sem precedentes que estão redesenhando o equilíbrio regional de poder e de segurança. Após anos de guerras abertas e conflitos por procuração, a região avança gradualmente para uma nova abordagem baseada no fortalecimento do Estado nacional, na redução da influência de organizações armadas não estatais e na reconstrução das instituições militares e de segurança como a única garantia de estabilidade. Nesse contexto, o Líbano tem uma oportunidade rara de repensar sua arquitetura de defesa em sintonia com as mudanças regionais, preservando ao mesmo tempo seus interesses nacionais. Ao longo das últimas décadas, o Hezbollah acumulou capacidades militares e tecnológicas avançadas nas áreas de comando, inteligência, drones, guerra eletrônica, comunicações e logística. Esse conjunto de conhecimentos constitui um valioso capital humano que não deve ser desperdiçado. Pelo contrário, dentro do marco da autoridade legítima do Estado, ele deveria ser incorporado às Forças Armadas Libanesas e às instituições de segurança do país, fortalecendo assim a soberania estatal, em vez de perpetuar a dualidade da autoridade na área da segurança. A experiência internacional, da África do Sul à Colômbia, demonstra que o fim dos conflitos não se alcança pela exclusão dos combatentes nem pelo desperdício da experiência que adquiriram, mas por sua reintegração às instituições do Estado, de acordo com critérios profissionais e jurídicos claramente definidos. O êxito de qualquer processo de transição depende, em última instância, da capacidade do Estado de incorporar essas competências, ao mesmo tempo em que afirma seu monopólio absoluto sobre o uso da força e sobre a decisão de fazer a guerra ou firmar a paz. As transformações que hoje remodelam a região, juntamente com as novas prioridades econômicas e de segurança que elas impõem, tornam indispensável que o Líbano inicie um diálogo nacional sobre uma estratégia abrangente de defesa. Esse processo deve ser acompanhado por um plano de modernização das Forças Armadas Libanesas, pela criação de um Centro Nacional de Inovação em Defesa e Cibersegurança e pelo aproveitamento da experiência libanesa nas áreas de tecnologias e de indústrias de defesa de ponta. A nova equação já não se baseia na existência de múltiplos centros de poder, mas em um Estado fortalecido por suas instituições, capaz de proteger suas fronteiras, conquistar a confiança da comunidade internacional e atrair investimentos. O momento atual não é de acerto de contas, mas de construir um novo pacto nacional que coloque todas as capacidades e todos os conhecimentos a serviço da República. Os Estados não se reerguem porque um lado derrota o outro, mas quando o próprio Estado se torna o único vencedor e quando as armas, a decisão soberana e a própria soberania passam integralmente para a autoridade das instituições constitucionais. Somente assim o Líbano poderá abrir caminho para a estabilidade e a prosperidade em um Oriente Médio que se transforma rapidamente.

Contornar Ormuz… Explica a Loucura Iraniana
Por
Khairallah Khairallah
Publicado

No fundo, uma pergunta se impõe: o que levou o Irã a violar de maneira tão flagrante o memorando de entendimento firmado com os Estados Unidos durante as negociações realizadas na Suíça com uma delegação americana chefiada pelo vice-presidente J. D. Vance? Não há dúvida de que existem muitas razões capazes de explicar o comportamento estranho do Irã, próximo da irracionalidade. Isso levou o presidente Donald Trump a chamar as autoridades iranianas de “doentes” e “mentirosas”, afirmando que é impossível lidar com elas. Ele foi ainda mais longe, empregando expressões que revelavam uma profunda decepção com os dirigentes iranianos antes de anunciar o fim do memorando de entendimento. A explicação mais importante para essa conduta irracional, porém, está na decisão dos países da região de buscar formas de contornar o Estreito de Ormuz, seja pelo Mar Vermelho, seja pelo Mar Mediterrâneo. Isso exige entendimentos com a Jordânia e a Síria, ou com o Iraque e a Türkiye, para que o petróleo e o gás cheguem a portos capazes de abastecer a Europa e outras regiões do mundo sem permanecer à mercê do Irã. Teerã simplesmente percebeu que o tempo, no qual havia apostado durante anos, já não favorecia sua estratégia e que avançavam iniciativas concretas para reduzir a dependência do Estreito de Ormuz, considerado por ele sua principal carta de pressão diante dos Estados Unidos. A busca dos países do Golfo por novas rotas para oleodutos e gasodutos privou a “República Islâmica” de sua carta mais forte, justamente aquela que levou o governo americano a firmar o memorando de entendimento com o Irã, sem perceber que negociava com um regime de natureza muito diferente, alheio a qualquer valor relacionado ao direito internacional e ao respeito pela soberania dos demais Estados. Desde sua criação, em 1979, o regime iraniano seguiu uma única política: a chantagem. De toda forma, a decisão dos Estados Unidos de recorrer a ataques militares em resposta às ações da Guarda Revolucionária contra navios petroleiros, entre eles um catariano e outro saudita que atravessavam o Estreito de Ormuz, refletiu a descoberta, ainda que tardia, por parte do presidente americano, da verdadeira natureza dos dirigentes iranianos e do próprio regime. Mesmo que tardiamente, é melhor que Donald Trump tenha finalmente compreendido o regime iraniano do que jamais tê lo compreendido. Nunca deveria ter sido necessário tanto tempo para que Donald Trump percebesse com quem estava lidando e entendesse que o regime iraniano jamais mudou. Em nenhum momento respeitou o direito internacional nem os valores humanos mais elementares. A tragédia provocada pela “República Islâmica” no Sul do Líbano é uma prova eloquente disso. Para Teerã, o memorando de entendimento com o governo americano nunca passou de uma oportunidade para ganhar tempo. O regime tampouco respeitou sua cláusula fundamental, aquela que, na visão de Washington, garantia a liberdade de navegação pelo Estreito de Ormuz. Manter Ormuz aberto era uma questão estratégica para o próprio Trump, que via na queda dos preços do petróleo uma grande conquista a ser apresentada ao público americano. Ele precisava desse resultado para fortalecer sua posição diante do cidadão comum dos Estados Unidos. Por isso reagiu com enorme irritação quando a Guarda Revolucionária voltou a dificultar a navegação pelo Estreito de Ormuz. Naquele momento, porém, o Irã já havia percebido o quanto os países da região levavam a sério os esforços para reduzir sua dependência da passagem. Isso explica o renovado foco de Teerã no Iêmen e nos houthis, que voltaram a ameaçar a Arábia Saudita depois de um período relativamente longo de contenção. Para o Irã, os houthis podem desempenhar um papel decisivo ao interromper a navegação no Mar Vermelho e impedir a passagem de navios petroleiros. Não foi por acaso que a “República Islâmica” violou as restrições internacionais impostas ao Aeroporto de Sanaa para demonstrar que os houthis continuam sendo uma de suas principais cartas e que não têm condições de escapar à disciplina imposta por Teerã. Há ainda outro ponto de enorme importância. Donald Trump não foi o único a redescobrir a verdadeira natureza do Irã e do regime de Teerã. O Paquistão também acabou constatando, de forma bastante simples, que sua mediação entre os Estados Unidos e o Irã não serve para grande coisa. Tudo o que realmente pode fazer é continuar sendo mais uma carta nas mãos de Teerã, nada além disso. A “República Islâmica” explorou o Paquistão ao máximo. Islamabad ajudou a convencer o governo Trump de que era possível alcançar um acordo equilibrado com o Irã, baseado na preservação da liberdade de navegação pelo Estreito de Ormuz. A estratégia iraniana de ganhar tempo acabou se voltando contra o próprio Irã. Antes de qualquer outro ator, os países da região deixaram claro que não aceitam permanecer reféns do Estreito de Ormuz. É isso, mais do que qualquer outro fator, que explica a crescente irracionalidade de Teerã, que não previu que Donald Trump acabaria perdendo a paciência e recorrendo novamente à lógica da força. A guerra voltou? Essa é a grande pergunta, e ainda é cedo demais para respondê la. Há, contudo, uma certeza: privar a “República Islâmica” da carta representada pelo Estreito de Ormuz, juntamente com o esforço dos países da região para contorná lo, levou Teerã a colocar em risco o memorando de entendimento firmado com os Estados Unidos. Afinal, que valor ainda pode ter esse acordo se o Irã já não dispõe da carta de Ormuz para pressionar o mundo e influenciar os preços globais do petróleo e do gás? O estreito era o grande trunfo de Teerã. Foi graças a ele que o Irã conseguiu um memorando de entendimento no qual os Estados Unidos fizeram importantes concessões, entre elas vincular o Irã à busca de uma solução para o Líbano. O esforço dos países da região para contornar o Estreito de Ormuz se assemelha é como tirar de uma criança seu brinquedo favorito. No fim das contas, o comportamento da Guarda Revolucionária não passa da reação de uma criança que acaba de de perder seu brinquedo favorito.

Quando a sociologia branqueia o Hezbollah
Por
Makram Rabah
Publicado

Há uma lógica que reaparece toda vez que a questão das armas do Hezbollah vem à tona. Ela procura apresentar o partido não como uma autoridade armada que confiscou a decisão de uma comunidade e de um país, mas como a extensão natural da comunidade xiita libanesa, como se questionar o Hezbollah fosse questionar os próprios xiitas e como se desarmá-lo significasse arrancar toda uma comunidade de sua história, de sua memória e de seus meios de proteção. Essa lógica não é apenas equivocada. É ofensiva. Ela reduz os xiitas ao seu medo. Transforma sua longa história no simples prelúdio de um fuzil. Trata toda uma comunidade como se ela só pudesse existir dentro da estrutura de um partido armado, como se Jabal Amel, Najaf, a jurisprudência islâmica, o reformismo, os ulemás, os intelectuais, os agricultores, os estudantes, os comerciantes e toda a experiência nacional dos xiitas libaneses não tivessem sido mais do que uma preparação para a Wilayat al-Faqih. A verdade é simples: os xiitas não começaram com o Hezbollah e tampouco terminarão com ele. Antes do partido já existia uma longa história de conhecimento, de vida política, de organização social, de moderação, de representação e de luta por justiça. Existiam o Sayyed Mohsen al Amin, o imã Musa al Sadr, o Sayyed Mohammad Mahdi Shamseddine e o Sayyed Hani Fahs. Existia um discurso xiita libanês que compreendia o significado do Estado, o sentido da convivência nacional e o valor da dignidade, uma dignidade que não pode ser reduzida a armas fora das instituições, que não se mede pelo número de foguetes e que não se vende no mercado dos eixos regionais. O Hezbollah se beneficiou do medo, da ocupação israelense, da ausência do Estado, de uma marginalização histórica e das feridas muito reais infligidas ao sul do Líbano, ao Vale do Bekaa e aos subúrbios do sul de Beirute. Mas tirar proveito de uma ferida não dá a ninguém o direito de se apropriar do corpo que a carrega. O que pode ter começado, em determinado momento, como uma resposta ao medo acabou se transformando, pouco a pouco, em um sistema permanente de fabricação do medo. O partido diz às pessoas: eu as protejo do perigo. Em seguida, faz de sua própria existência uma razão permanente para convocar esse perigo. Diz que protege o sul do Líbano, mas transforma a região em um campo de batalha permanente. Diz que protege os xiitas, mas faz com que eles paguem o preço de suas guerras, de suas sanções, de suas alianças e de decisões sobre as quais não têm qualquer voz. Quanto ao discurso sobre hospitais, escolas, empréstimos, salários e serviços, ele não demonstra a legitimidade das armas. Ele revela a dimensão da catástrofe. Quando um cidadão precisa de um partido para nascer, estudar, receber atendimento médico, conseguir um empréstimo, trabalhar e enterrar seu mártir, já não se trata de um simples ambiente de apoio, mas de uma estrutura de cativeiro social. Os serviços não conferem o direito de declarar guerra. A assistência não justifica o confisco do poder de decisão. Um salário mensal não transforma uma família em falsa testemunha da legitimidade das armas. As máfias também oferecem proteção. Os regimes totalitários também distribuem pão. As organizações criminosas também sabem tornar as pessoas dependentes delas. Mas a questão não é o que um poder como esse oferece. A questão é o que ele toma. E o Hezbollah tomou muito mais do que deu. Tomou a decisão sobre a guerra e a paz. Tomou o direito à dissidência dentro da comunidade xiita. Tomou a imagem dos xiitas no Líbano e no mundo árabe. Apropriou-se da religião para transformá-la em uma máquina de mobilização. Apropriou-se do martírio para convertê-lo em capital político. Apropriou-se do medo para transformá-lo em um contrato de submissão de longo prazo. A coisa mais perigosa que o Hezbollah fez foi atrelar o destino dos xiitas ao seu próprio destino. Fez com que toda pressão exercida contra o partido parecesse uma pressão contra eles, toda crítica ao partido parecesse uma ofensa dirigida a eles e toda tentativa de desarmá-lo fosse apresentada como uma ameaça à sua própria existência. Isso não é genialidade social. É chantagem política cuidadosamente calculada. Quando um partido coloca, na mesma corrente, um hospital, uma escola, um empréstimo, um salário, um mártir e um foguete, ele não está construindo uma sociedade normal. Está construindo uma grande jaula, uma jaula com muitas portas de serviço, mas da qual não existe uma saída política livre. Os xiitas têm todo o direito de perguntar: quem vai nos proteger? Essa é uma pergunta legítima. Ela não pode ser descartada, porque o Estado libanês falhou com eles, assim como falhou com outros, e porque o sul do Líbano pagou um preço altíssimo em ocupações, guerras e destruição. Mas uma pergunta legítima não pode ser transformada em uma resposta eterna em favor de uma milícia. “Quem vai nos proteger?” não significa que as armas devam permanecer para sempre fora do Estado. Não significa que a decisão de uma comunidade e de um país deva continuar nas mãos de uma organização vinculada a um projeto regional. Tampouco significa que as pessoas devam ser obrigadas a escolher entre o partido e o extermínio, entre o Estado e o massacre, entre o Líbano e o Irã. A proteção não se alcança tornando o medo permanente. Ela se constrói por meio de um Estado capaz, de um único Exército, de uma única autoridade para decidir, de fronteiras que não estejam sob o controle de uma organização e de uma política externa que não seja conduzida nem pelos subúrbios do sul de Beirute nem de Teerã. Proteger os xiitas significa reintegrá-los ao Estado, e não convencê-los de que o Estado é impossível e de que o partido constitui o seu único destino. Os que afirmam que o fracasso do Estado justifica a sobrevivência da milícia se parecem com aqueles que dizem que o fracasso de um médico justifica entregar o paciente, para sempre, aos cuidados de um charlatão. A memória utilizada para justificar as armas também é uma memória incompleta. Sim, existem 1978, 1982, a ocupação israelense e o abandono oficial. Mas existe também uma outra memória: a das guerras travadas dentro do próprio país, da repressão às vozes xiitas independentes, das acusações de traição lançadas contra os dissidentes, do arrastamento do Líbano para a guerra de 2006, do envio de jovens para a Síria, o Iraque e o Iêmen, da transformação do sul do Líbano em uma plataforma de um conflito que seus habitantes não decidem e da obrigação imposta às pessoas de chamar derrota de vitória e ruína de firmeza. Ninguém tem o direito de falar em nome da memória xiita enquanto apaga dessa memória tudo o que o partido fez aos próprios xiitas. Ninguém tem o direito de invocar as imagens da ocupação israelense para impedir que se levantem perguntas sobre a ocupação da decisão política pelo partido. E ninguém tem o direito de transformar um medo antigo em uma escritura de propriedade sobre o futuro. Os xiitas são maiores do que o Hezbollah. O sul do Líbano e suas aldeias não são um depósito para os mísseis do Irã. Os subúrbios do sul de Beirute não são um quartel. O Vale do Bekaa não é um corredor militar. O martírio não é um cheque em branco nas mãos de um partido. A religião não é uma carteira partidária. A privação não é uma licença perpétua para confiscar o Estado. A memória não é uma prisão. O medo não é uma identidade. O que se exige não é deixar os xiitas sem proteção, mas libertá-los de uma falsa equação que lhes diz que sua segurança só pode vir da força que confiscou sua capacidade de decidir. O que se exige não é ignorar suas feridas, mas impedir que essas feridas sejam transformadas em objeto de comércio. O que se exige não é negar que o Estado fracassou, mas rejeitar que esse fracasso se transforme em um mandato permanente para um partido armado. Um Estado se constrói quando é retomado das mãos das milícias, e não quando o que dele resta lhes é entregue. A pior maneira de dizer que se está defendendo os xiitas é apresentá-los como uma comunidade aprisionada a um único destino, sem outro futuro além das armas, sem outra segurança além do partido e sem outra dignidade além de um projeto cujas decisões ela não controla. Essa defesa pode parecer, à primeira vista, um gesto de solidariedade. Na essência, porém, ela representa um apagamento. Ela não enxerga o xiita como um cidadão livre, mas como alguém dependente, aprisionado pelo medo, que precisa de um tutor armado para lhe explicar o significado da própria sobrevivência. A verdade é mais simples do que toda essa retórica: o Hezbollah já não protege os xiitas do perigo. Tornou-se o próprio perigo do qual lhes pede que temam tudo, menos ele mesmo. E quando a proteção se transforma em cativeiro, quando a condição de vítima se transforma em moeda de troca e quando as armas se transformam em destino, o dever da palavra já não é perguntar como preservar esse sistema, mas como libertar as pessoas dele. Uma comunidade que deu ao mundo estudiosos, reformadores, figuras da resistência, pensadores e cidadãos não pode ser reduzida a uma organização, sobretudo a uma organização que fracassou moralmente antes mesmo de fracassar politicamente. Pessoas que pagaram o preço da ocupação, das guerras e do abandono não podem ser obrigadas a pagar um novo preço para que o partido continue acima do Estado. Quem realmente deseja fazer justiça aos xiitas deve começar reconhecendo que eles não pertencem a ninguém: nem a um partido, nem a um eixo, nem a um Líder Supremo. Os xiitas são cidadãos libaneses. Sua proteção está em um Estado que os proteja, e não em uma milícia que instrumentaliza o seu medo. E o seu futuro está no Líbano, não na espera de uma nova guerra decidida por outros e paga por eles.

Crise, catástrofe e abalo do mundo (6/7)
Por
Wissam Saadé
Publicado

Este ensaio propõe um percurso pelas figuras da crise e da catástrofe, desde as cosmologias antigas até a experiência vivida do abalo do mundo. Ao colocar em diálogo as heranças gregas, bíblicas e indianas com o pensamento de Jan Patočka, investiga-se a maneira como as civilizações conceberam a desordem, o colapso, o irreversível e até mesmo a própria possibilidade da ação quando o sentido começa a vacilar. Publicado aqui em sete capítulos-ensaios, este texto segue um fio exigente, mas essencial: compreender se a catástrofe constitui uma ruptura súbita, uma lenta desagregação do mundo ou a verdade mais profunda do nosso tempo. Eis a sexta parte. A decisão e a guerra: Arjuna, figura épica do Mahābhārata, diante de Carl Schmitt Conjurar a catástrofe? Ela não se combate: gravita, assombra e infiltra-se nas próprias formas da razão. Separar crise e catástrofe? Talvez isso já não seja possível: a primeira transformou-se em ritmo; a segunda, em horizonte. Aquilo que chamamos de governar reduz-se, então, a esta arte frágil: permanecer na linha da incerteza, onde o mundo oscila entre o seu fim e o seu recomeço. A tese de Carl Schmitt, segundo a qual “soberano é aquele que decide sobre o estado de exceção”, eleva a crise ao momento de verdade do político. Essa elevação, porém, só pode ser plenamente compreendida quando recolocada no horizonte mais amplo da catástrofe. Em Schmitt, o estado de exceção jamais surge como um simples acidente que afeta uma ordem de outro modo estável; ele sempre se desdobra sobre o pano de fundo de uma ameaça, real ou antecipada, de colapso da ordem jurídica e institucional. A catástrofe desempenha, assim, uma função hermenêutica essencial: constitui a condição de inteligibilidade da crise e justifica a necessidade de uma decisão soberana capaz de impedir a dissolução do político na anomia. [1] Nessa perspectiva, o vocabulário da urgência, da necessidade e do perigo existencial não serve apenas para descrever uma situação extrema; ele também contribui para constituir o cenário no qual a soberania pode manifestar-se. A catástrofe torna-se menos um acontecimento empírico do que uma configuração conceitual, um limiar dramático em que o político é reconduzido à sua possibilidade mais pura. Longe de ser contingente, a exceção funciona como um dispositivo que reconduz continuamente o direito à sua origem extranormativa: o próprio ato de decidir. Essa dramaturgia, contudo, exige um distanciamento crítico. Ao identificar a catástrofe como momento fundador do político, Schmitt tende a naturalizar uma visão de mundo em que a sobrevivência coletiva parece permanentemente ameaçada, legitimando assim uma capacidade decisória praticamente sem limites. Tal esquema obscurece a possibilidade de que as próprias ordens jurídicas incorporem mecanismos internos de resiliência: procedimentos graduais, controles institucionais e normas de exceção cuidadosamente delimitadas precisamente para impedir que uma crise degenere em colapso. Ao pressupor que somente uma decisão soberana pode evitar a catástrofe, o pensamento schmittiano constrói uma topologia do político na qual a exceção se torna a pedra angular implícita de toda normatividade. Vista à luz da catástrofe, a crise schmittiana aparece menos como um fato objetivo do que como uma estrutura conceitual destinada a legitimar uma forma de poder que só se afirma mediante a suspensão da norma. A fragilidade revelada pela exceção não atinge apenas a ordem jurídica; alcança também o próprio pensamento que a transforma em instrumento da soberania. Ao vincular estreitamente decisão e catástrofe, Schmitt propõe uma concepção do político fundada no extremo, correndo o risco de confundir a exceção com a norma latente da vida coletiva. Giorgio Agamben leva essa lógica ao seu ponto de inversão. Em Homo Sacer e Estado de Exceção , sustenta que a fronteira entre norma e exceção se dissolveu e que o estado de exceção já não constitui uma interrupção, mas o paradigma contemporâneo do governo. [2] O soberano schmittiano, figura concentrada do poder, cede lugar a uma administração difusa da vida, na qual a “vida nua” permanece exposta a um poder indefinidamente expansível. A catástrofe deixa de ser uma ameaça externa que justifica a decisão para tornar-se uma estrutura permanente da política moderna: um modo de governo biopolítico que generaliza a emergência e desfaz a própria distinção entre legalidade e ilegalidade. Desse modo, Agamben demonstra que o pensamento de Schmitt, concebido originalmente para pensar a exceção, encontra paradoxalmente sua realização em um mundo onde a exceção se converteu em regra. Em A Crise sem Fim: Ensaio sobre a Experiência Moderna do Tempo, Myriam Revault d’Allonnes sustenta que a crise possui uma ambivalência constitutiva: ela é, ao mesmo tempo, a forma temporal própria da modernidade, um mundo suspenso e atravessado por transformações permanentes, e o sinal paradoxal do esgotamento do político quando essa crise se torna permanente. Mas, se toda temporalidade acaba por confundir-se com a crise, o que resta do momento decisivo? Onde Schmitt via na exceção a cena originária da soberania, Revault d’Allonnes diagnostica, ao contrário, a dissolução do vínculo que unia crise e decisão. [3] A krisis , entendida etimologicamente como o momento do julgamento, desliza progressivamente para uma inércia crônica: em vez de abrir um espaço para a intervenção, torna-se o pano de fundo indecidível de um mundo governado pela gestão. Esse deslocamento transforma profundamente a própria estrutura do político. A crise deixa de ser um acontecimento singular que exige um ato soberano para tornar-se uma condição ordinária, monitorada, quantificada e administrada por meio de dispositivos de previsão e otimização. Sob essa forma, deixa de representar um limiar crítico e converte-se em uma lógica de neutralização: a crise é antecipada, modelizada e absorvida por protocolos técnicos de regulação. O político passa, então, a definir-se menos por sua capacidade de decidir do que por sua aptidão para estabilizar continuamente um mundo percebido como intrinsecamente instável. Nesse contexto, a catástrofe ocupa o lugar deixado vago pela crise. Enquanto esta é incorporada às rotinas da governança, a catástrofe torna-se a única forma de acontecimento capaz de reativar o gesto decisório. Longe de constituir uma ruptura imprevisível, ela funciona como um horizonte regulador: um espectro mobilizado para justificar a exceção e reintroduzir a decisão soberana ali onde a crise, banalizada, já não oferece essa possibilidade. Essa inversão ilumina a maneira pela qual os poderes contemporâneos mobilizam a possibilidade do colapso, seja climático, sanitário, financeiro ou securitário, para legitimar dispositivos de exceção integrados à própria normalidade da governança. Esse deslocamento inscreve-se naquilo que se pode chamar de paradigma bio-datapolítico: uma arquitetura do poder própria da era tecnocientífica, na qual a gestão da vida e a gestão dos dados se encontram indissociavelmente articuladas. O biológico e o digital, a vida e a informação, constituem hoje os vetores convergentes de uma racionalidade orientada para a antecipação, a modelização e a regulação preventiva. Já não se trata apenas, como ocorria na biopolítica foucaultiana, de administrar populações; trata-se de produzir ambientes calculáveis, comportamentos previsíveis e riscos quantificáveis. A tecnociência deixa de ser um instrumento a serviço da política para tornar-se a própria condição de sua possibilidade, sua infraestrutura mais profunda. A biopolítica administra a vida; a bio-datapolítica formaliza a vida em dados para torná-la antecipável, modulável e algoritmizável. Esse paradigma encontra profundas ressonâncias na cosmologia do karman, na qual todo ato ( karman ) se inscreve como traço imanente e potência de permanência, acumulando-se em uma continuidade causal que excede o instante de sua realização. O sujeito aparece, assim, menos como um agente autônomo do que como o nó de uma cadeia de causalidades entrelaçadas, atravessado por determinações integradas que configuram seus possíveis devires. O mundo apresenta-se, então, como um tecido de correlações invisíveis, mas operativas, no qual a infraestrutura do real é concebida como inteligibilidade relacional do devir: uma matriz sociocósmica em que ação, consequência e disposição das existências se articulam segundo uma racionalidade simultaneamente normativa, processual e profundamente estratificada. [4] Onde o pensamento védico articulava uma ontologia operativa do mundo por meio do rito, a era digital parece instituir uma ontologia computacional da realidade, na qual o real é continuamente produzido como efeito do cálculo, da modelização e da otimização. Em um universo algorítmico como esse, a crise perde sua intensidade histórica. Ela se dessingulariza, se desdramatiza e é reduzida a uma variável no interior de sistemas adaptativos voltados ao processamento contínuo de sinais fracos, seja na saúde pública, nos mercados financeiros, no clima ou na segurança. A política reduz-se a um ciclo permanente de ajustes, calibrações e respostas preventivas. A catástrofe, em contrapartida, adquire uma função paradoxal: longe de ser apenas o colapso temido, torna-se o mecanismo imaginário que naturaliza a exceção, automatiza as decisões e amplia indefinidamente a lógica da vigilância e do controle em nome da emergência futura. Pensar o futuro do político exige, portanto, reexaminar o entrelaçamento entre crise e catástrofe à luz do tecnocapitalismo algorítmico. Não para ceder a uma visão apocalíptica do presente, mas para recuperar a possibilidade de uma crítica que não seja absorvida pela desrealização do poder: um poder que governa menos por decisões do que por correlações, menos pelo direito do que pelo cálculo e menos pelo acontecimento do que por sua antecipação indefinida. O encontro com a Bhagavad Gītā, esse diálogo filosófico e espiritual situado no coração do Mahābhārata , no qual Krishna instrui Arjuna sobre a ação, o dever e a lucidez, permite operar um deslocamento decisivo em nossa maneira de pensar a decisão, a crise e a catástrofe. Onde Schmitt vê na crise a justificação do poder decisório, o texto indiano faz dela, ao contrário, o lugar de um ensinamento interior. A cena inaugural, em que Arjuna permanece paralisado diante do colapso simbólico da ordem guerreira, constitui efetivamente uma crise, mas não uma crise schmittiana. Ela não exige a suspensão da norma; revela, antes, que a ação jamais pode fundamentar-se em uma norma exterior. A crise é uma catástrofe interior, uma dissolução dos referenciais, uma impossibilidade de agir que exige não um soberano decisionista, mas uma transformação da percepção. A verdadeira decisão nasce não da exceção, mas da desidentificação. Krishna ensina a Arjuna que a ação deve ser desprovida de apropriação ( niṣkāma karma ), que o sujeito da ação não é o ego e que somente uma visão não egológica da ordem do mundo ( dharma ) pode tornar a ação justa. A decisão, portanto, não é ruptura, mas compreensão; não é suspensão da norma, mas intuição do real. Onde Schmitt afirma que o soberano funda a ordem por meio da decisão, a Gītā sugere que é a própria ordem cósmica, ṛta e dharma , que torna possível uma decisão que não seja violência. [5] Essa inversão se aprofunda ainda mais quando a Bhagavad Gītā aborda a questão da catástrofe. Em Schmitt e Agamben, a catástrofe aparece como o quadro dentro do qual o político se manifesta: o horizonte do poder de exceção ou a norma difusa do governo. Na Gītā , ao contrário, ela pertence a uma ordem inteiramente diversa: é interior, existencial e cognitiva. Durante a teofania (capítulo XI), a visão do Tempo, destruidor dos mundos ( kālo ’smi lokakṣayakṛt ), não remete a um colapso político, mas à verdade cósmica do devir, que dissolve a ilusão de um domínio soberano sobre o mundo. Diante dessa catástrofe ontológica, a questão já não consiste em decidir com maior firmeza, mas em compreender que toda decisão verdadeiramente justa pressupõe atravessar o medo e reconfigurar a relação com a ação. A catástrofe, longe de justificar a soberania, torna-se uma pedagogia do desapego. Essa releitura revela-se particularmente fecunda diante da condição contemporânea. Enquanto a bio-datapolítica transforma a crise em gestão algorítmica do futuro, a Gītā propõe outra relação com o tempo: um presente intensificado, alinhado ao dharma , no qual a ação não depende nem do medo da catástrofe nem de sua instrumentalização governamental. O sujeito deixa de ser soberano para tornar-se processual, atravessado pelos guṇa , e a própria agência jamais se reduz a uma reação diante de sinais fracos. Assim, à luz da Gītā , a soberania adquire um significado profundamente diverso. A verdadeira soberania não consiste na capacidade de suspender a norma, mas na capacidade de desprender-se de si mesmo. Ela não é decisória, mas interior; não nasce do colapso, mas da lucidez. Nem a crise nem a catástrofe fundam a ordem: ambas apenas revelam as ilusões do sujeito que acredita governar e os limites dos modelos que fundamentam a ação na urgência, no medo ou na antecipação tecnológica. A Gītā não nega a crise: ela a transfigura. Não nega a catástrofe: ela a cosmologiza. Não nega a decisão: ela a despsicologiza. Com isso, abre um caminho que escapa tanto ao decisionismo schmittiano quanto à exceção normalizada descrita por Agamben, bem como à crise permanente da governança algorítmica: uma outra concepção do sujeito, do tempo e da ação, que desloca o político em direção a uma soberania não soberana. O pensamento político moderno frequentemente inscreveu a ação em uma lógica de ruptura. Em Schmitt, a soberania manifesta-se na decisão tomada em situação de exceção, isto é, na capacidade de decidir quando a ordem parece vacilar. Essa concepção dramática do político faz da crise o momento da verdade e da catástrofe o horizonte que justifica a suspensão das normas. Contudo, uma filosofia da ação fundada na urgência encontra seus limites quando a crise deixa de ser um acontecimento para tornar-se uma condição permanente. Como mostrou Myriam Revault d’Allonnes, a modernidade tardia transforma a crise em uma estrutura temporal difusa: ela deixa de ser um momento decisivo para tornar-se um tempo indefinido, administrado e absorvido pelos dispositivos de previsão, a ponto de obliterar a própria possibilidade da decisão. No quadro bio-datapolítico contemporâneo, marcado pela centralidade dos modelos algorítmicos, a ação política desloca-se progressivamente da intervenção para o cálculo, e da deliberação para a reação a sinais fracos. O próprio sujeito passa a ser configurado como operador de ajustamento, e não como verdadeira potência de agir. É precisamente nesse ponto que a Bhagavad Gītā , sobretudo quando relida por Bal Gangadhar Tilak, abre uma perspectiva filosófica radicalmente distinta. A crise que inaugura o texto, a paralisia de Arjuna diante do colapso simbólico da ordem guerreira, nada tem de schmittiana: ela não exige nem a suspensão da norma nem o surgimento de um soberano. Revela, antes, uma verdade interior: a ação só pode ser legítima quando é libertada do medo, do cálculo e da apropriação. [6] Tilak demonstra de forma contundente que a Gītā não ensina o retiro nem a renúncia, mas uma transformação da subjetividade que torna possível a ação justa. Longe de reduzir o político à decisão soberana, afirma que a ação conforme ao dharma precede toda decisão soberana porque nasce de uma relação adequada com o real. O agente não age para conjurar um colapso; age porque sua ação participa de uma ordem cósmica da qual não é nem senhor nem centro. A Gītā transforma, assim, a própria noção de crise. Esta deixa de ser um limiar político para tornar-se uma prova da percepção. A verdadeira catástrofe não é o desastre exterior, mas o colapso interior do sujeito quando descobre que sua ação já não pode apoiar-se em seus referenciais habituais. A teofania do capítulo XI, em que Krishna se revela como “o Tempo tornado destruidor dos mundos”, não constitui um apocalipse político; ela revela a estrutura ontológica do devir. Não é o mundo que desmorona, mas a ilusão do sujeito soberano. Nesse sentido, a catástrofe não funda uma decisão de exceção: ela constitui um acontecimento de verdade que dissolve a própria ideia de soberania entendida como poder autônomo. Essa perspectiva opõe-se ponto por ponto à lógica contemporânea da governança algorítmica. Enquanto os sistemas de previsão transformam a crise em uma variável de gestão permanente, a Gītā propõe uma temporalidade fundada na intensidade do presente. Agir segundo o dharma significa libertar-se da primazia do futuro sobre o presente e romper com a dinâmica reativa da antecipação ansiosa. Tilak enfatiza que a verdadeira ação começa precisamente onde o sujeito deixa de ser determinado pelo medo das consequências: o ato justo não é efeito do risco, mas expressão de um alinhamento interior. No horizonte dessa filosofia, a soberania deixa de ser a capacidade de decidir na urgência para tornar-se a capacidade de libertar-se das determinações afetivas e heurísticas que governam a reação. Compreende-se, então, que a Gītā , sobretudo na leitura proposta por Tilak, reconfigura profundamente o campo da filosofia política. Ela desloca a soberania do registro da decisão para a da disponibilidade. [7] Rejeita a ideia de que a crise ou a catástrofe possam fundar o político: ambas revelam apenas a ilusão de um sujeito que acreditava ser senhor da ordem e capaz de suspender seu curso. O que a Gītā ilumina é que a ação nada deve à ruptura e tudo deve à lucidez. Ela não depende do colapso, mas de uma compreensão mais profunda de nossa inscrição no real. Longe de justificar o poder pela ameaça, dissolve o poder em uma ética do engajamento não apropriativo. Assim, a Gītā oferece uma importante alternativa conceitual aos modelos ocidentais da crise e da exceção. Ela não nega nem a vulnerabilidade do mundo nem a instabilidade da história, mas recusa transformá-las no motor do político. Propõe uma ontologia da ação na qual a soberania deixa de ser o gesto excepcional de um sujeito transcendente para tornar-se a maneira pela qual uma subjetividade transfigurada assume seu lugar na trama do devir. Nesse sentido, convida a repensar a própria possibilidade da ação em um mundo saturado de crises e assombrado pela catástrofe: não buscando dominar a exceção, mas aprendendo a agir sem ela. Esse deslocamento, contudo, só se torna inteligível quando se reconhece que toda teoria do governo repousa, explícita ou implicitamente, sobre uma cosmologia subjacente. Governar significa sempre, de uma forma ou de outra, situar-se no interior de uma cosmologia implícita. A crise não pode, portanto, ser outra coisa senão um desajuste do próprio mundo; a catástrofe, por sua vez, não pertence apenas à ordem do acontecimento, mas a uma transformação do regime cosmológico do real. O retorno às tradições bíblicas e sânscritas adquire, aqui, uma importância decisiva, pois permite reconstruir as camadas mais profundas de uma cosmosofia política. Trata-se de uma maneira de pensar o político a partir de seus fundamentos cosmológicos, isto é, situando-o no interior de uma concepção abrangente da ordem do mundo ( cosmos ), do tempo e do devir. A cosmosofia política não considera o político como um domínio autônomo, reduzido às instituições, à soberania ou às normas. Ela o compreende como uma modulação de uma ordem cósmica mais profunda, capaz de desdobrar-se segundo diferentes regimes: cíclico, escatológico, caótico ou algorítmico. [1] Carl Schmitt, Teologia Política. Quatro capítulos sobre a doutrina da soberania , trad. George Schwab, Cambridge, MA: MIT Press, 1985 (ed. orig. 1922), p. 5. [2] Ver Giorgio Agamben, Estado de Exceção , trad. Iraci D. Poleti, São Paulo: Boitempo, 2004; bem como Homo Sacer: O poder soberano e a vida nua I , trad. Henrique Burigo, Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002. [3] Myriam Revault d’Allonnes, La Crise sans fin. Essai sur l’expérience moderne du temps , Paris: Seuil, 2012, especialmente a introdução. [4] Em Cuire le monde. Rite et pensée dans l’Inde ancienne (Paris: La Découverte, 1989), Charles Malamoud evidencia uma estrutura decisiva do pensamento védico: o real não se constitui primordialmente como objeto de representação ou contemplação, mas como um campo de operações efetivas, atravessado por procedimentos rituais que asseguram simultaneamente sua transformação e sua inteligibilidade. Nessa perspectiva, o rito não pode ser compreendido como uma linguagem secundária destinada a significar uma ordem cósmica previamente dada. Ao contrário, constitui um dispositivo produtivo por meio do qual o real advém a si mesmo sob formas diferenciadas. A análise da cocção ( pāka ) desempenha aqui um papel paradigmático: condensa uma mesma lógica de transformação que envolve simultaneamente matéria, forma e sentido. Cozinhar não designa apenas uma operação técnica, mas uma verdadeira transmutação do real, na qual o estado das coisas, seu estatuto simbólico e sua inscrição cosmológica são conjuntamente reconfigurados. O pensamento védico pode, assim, ser compreendido como uma forma de ontologia operativa, na medida em que o ser jamais é dado como substância estável, mas sempre como resultado provisório de um conjunto de operações reguladas. Essa ontologia desenvolve-se segundo uma continuidade diferenciada entre três registros que não se opõem, mas se correspondem: o gesto técnico, enquanto organização material da ação; a eficácia ritual, enquanto validade normativa interna dessa ação; e a transformação cósmica, enquanto correlato ontológico do rito realizado. O que emerge de maneira decisiva na obra de Malamoud é que esses níveis não pertencem a esferas heterogêneas, técnicas, simbólicas e metafísicas, mas a uma mesma lógica da transitividade do real. O mundo védico apresenta-se, assim, como um contínuo de operações em que o real jamais é simplesmente constatado, mas continuamente produzido, ajustado e estabilizado por cadeias de gestos eficazes. Delineia-se, desse modo, uma racionalidade do fazer que não separa o saber da operação nem a técnica do cosmos. O mundo deixa de ser um objeto exterior de descrição para tornar-se o correlato interno de uma práxis regulada, na qual conhecer e transformar coincidem no interior de uma mesma economia operativa do real. Ao estender a abordagem de Malamoud, torna-se possível iluminar sob nova perspectiva o regime contemporâneo da operatividade do real. Essa estrutura permite pensar a mutação contemporânea do mundo como a passagem de uma operatividade ritual-simbólica para uma operatividade algorítmica e infraestrutural. O mundo converte-se, então, em um campo de calculabilidade generalizada, no qual a operatividade já não passa pelo rito, mas por dispositivos técnicos contínuos que organizam antecipadamente as próprias condições da ação, da percepção e da decisão. A infraestrutura algorítmica já não se limita a processar o real: ela o configura, o segmenta e o torna antecipável. Institui, assim, uma forma de ritualização imanente, fundada não mais sobre uma mediação simbólica ou sagrada, mas sobre a repetição automatizada de sequências computacionais que estruturam os comportamentos e orientam as condutas. [5] Sarvepalli Radhakrishnan, The Bhagavadgita , Londres: George Allen & Unwin, 1948, pp. 91-118. [6] Bal Gangadhar Tilak, Shrimad Bhagavad Gita Rahasya, or Karma-Yoga-Shastra , Poona: Tilak Bros., 1915 (tradução inglesa do original em marati), especialmente as seções dedicadas à doutrina do karma-yoga e à interpretação da Bhagavad Gītā como ensinamento da ação desinteressada ( niṣkāma karma ). [7] Nagappa K. Gowda, “The Sthitaprajna as the Foundation of the Nation: Tilak and the Gita Rahasya”, em The Bhagavadgita in the Nationalist Discourse , Oxford: Oxford University Press, 2011. O autor analisa a leitura de Tilak da Bhagavad Gītā, mostrando como transforma a figura de Arjuna na subjetividade ética do dharma .

O "MOU acabou", de Trump: uma manobra ou um reconhecimento dos fatos?

O cessar-fogo entre Washington e Teerã está vivendo seus últimos dias ou até mesmo suas últimas horas? A pergunta se torna ainda mais pertinente desde a manhã de quarta-feira, quando as tensões entre as duas capitais se agravaram perigosamente em meio a um novo confronto militar em torno do Estreito de Ormuz. Desde o fim das operações militares israelenses e americanas contra seu território, a República Islâmica adotou uma política de alto risco. Agora, leva a provocação ao limite na tentativa de arrancar o máximo de concessões do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no âmbito das negociações iniciadas com base no memorando de entendimento (MOU) assinado pelos dois países em junho passado. Teerã parece apostar na disposição de Trump de privilegiar uma solução diplomática para o conflito, por razões econômicas, financeiras e de política interna, para elevar ainda mais a pressão sem temer que as negociações, que deverão ser retomadas nas próximas semanas, sejam interrompidas. Teerã também estaria tentando testar os limites da paciência de Trump? A hipótese também pode ser considerada. Seja como for, a República Islâmica está envolvida em um jogo perigoso. Sua estratégia pode fazer ruir o memorando de entendimento e levar o presidente americano a cumprir suas ameaças de realizar uma operação militar de grande escala, porém pontual, para forçar o governo iraniano a aceitar suas condições. Ao decretar o fim do acordo de junho com a frase curta, mas categórica, “The MOU is over” (“O memorando de entendimento acabou”), durante a cúpula da Otan realizada em Ancara, e ao dirigir uma série de insultos aos líderes da República Islâmica, classificando-os, entre outras coisas, como “mentirosos” e “doentes”, Donald Trump deixou claro seu esgotamento. No entanto, não chegou a anunciar medidas que apontassem para uma ruptura definitiva. Pelo contrário, afirmou que caberá a seus negociadores decidir se as conversas devem ou não continuar. Caso optem por mantê-las, deverão prestar contas a ele, acrescentou. Ainda assim, no fim da noite de quarta-feira, fez questão de reforçar sua irritação. “Não tenho certeza de que quero fechar um acordo com eles (os líderes iranianos)”, declarou. “Podemos continuar com esses jogos, mas não sei se quero concluir um acordo. Vamos simplesmente terminar o trabalho.” Questionado por um jornalista que lembrou que, no mês passado, ele havia elogiado alguns altos funcionários iranianos e perguntou o que havia mudado desde então, Trump respondeu: “Passei a conhecê-los”… Ataques americanos contra 80 alvos O Irã tem seus cálculos. Donald Trump também tem os seus. A grande questão é saber quem prevalecerá. O discurso americano ocorreu após uma nova escalada de violência durante a noite no Estreito de Ormuz, provocada por disparos iranianos, feitos na terça-feira, contra três petroleiros que navegavam pelo corredor marítimo de Omã, rejeitado por Teerã. Para Washington, esses ataques representam uma violação flagrante do cessar-fogo firmado em junho. A resposta americana foi imediata: o restabelecimento da proibição da produção e da venda de petróleo iraniano e de seus derivados. Horas depois, os Estados Unidos realizaram ataques contra mais de 80 alvos militares no Irã, deixando oito mortos, segundo a imprensa iraniana. Explosões foram registradas nas proximidades do Estreito de Ormuz, especialmente na região de Bushehr, perto da ilha de Kharg, principal terminal petrolífero do país. A República Islâmica respondeu atacando, segundo informações divulgadas por ela própria à imprensa, “85 instalações militares americanas localizadas em bases no Kuwait e no Bahrein”, conforme noticiado pelos meios de comunicação iranianos. No Kuwait, os ataques iranianos provocaram interrupções no fornecimento de energia elétrica. Ameaças e contra-ameaças A quarta-feira foi marcada por uma sucessão de ameaças americanas e contra-ameaças iranianas. Teerã, cuja má-fé já não deixa dúvidas, considera que foi Washington quem violou o cessar-fogo e que “Donald Trump deve assumir pessoalmente as consequências”, segundo Ali Akbar Velayati, conselheiro do líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei. Em sua conta na plataforma X, ele afirmou que “o eixo da resistência não ficará de braços cruzados caso o aventureirismo americano continue”, em uma referência à possível entrada em ação de grupos aliados da região. Teerã também prometeu adotar “medidas decisivas” para defender seus interesses caso Washington aumente a pressão. O Estado-Maior iraniano advertiu que “qualquer país que facilite operações militares americanas contra seu território se tornará um alvo legítimo”, em uma ameaça pouco disfarçada ao Bahrein e ao Kuwait. Mas, nesse jogo perigoso, o Irã encontra-se praticamente isolado. Estados Unidos, Europa e países do Golfo rejeitam o que Teerã tenta impor pela força: o controle exclusivo do estratégico Estreito de Ormuz, que lhe permitiria influenciar o comércio marítimo mundial e compensar, dessa forma, a perda de sua influência regional. Em Ancara, o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, e o chanceler alemão, Friedrich Merz, ecoaram a oposição internacional às ambições iranianas. Rutte considerou que a resposta americana foi “absolutamente necessária”, defendendo a necessidade de demonstrar firmeza diante do Irã. Para o chanceler alemão, a reação foi “totalmente justificada”. Donald Trump voltou a repetir suas ameaças contra a República Islâmica ao longo de toda a quarta-feira, mas, desta vez, o tom adotado foi diferente dos anteriores. O presidente americano parece disposto a ir além, justamente quando meios de comunicação americanos e israelenses noticiavam uma possível coordenação entre Israel e os Estados Unidos nesse contexto. Para Trump, contudo, a pressão deverá aumentar gradualmente: restabelecimento do bloqueio marítimo, controle da estratégica ilha de Kharg e retomada dos ataques militares. No fim da tarde, ele afirmou que os ataques contra alvos militares iranianos “poderiam ser retomados durante a noite”. Pouco depois, o Comando Central dos Estados Unidos (Centcom) anunciou em sua conta no Telegram que “mais de 20 navios de guerra americanos patrulham as águas do Oriente Médio”, sem fornecer mais detalhes, “para garantir a estabilidade e a segurança” da região. Uma forma de reafirmar a presença militar americana no Oriente Médio. A Otan, a Síria e o Líbano A cúpula da Otan, durante a qual o presidente americano comentou diversos temas, também serviu para esclarecer diferentes dossiês. Embora tenha sido muito crítico em relação à Aliança e aos países europeus que, segundo ele, não o apoiaram na guerra contra o Irã, Donald Trump anunciou que os Estados Unidos não deixarão a Otan. Também afirmou que estuda vender caças F-35, considerados a joia da aviação militar americana, para Ancara, decisão que certamente desagradará Tel Aviv. Além disso, disse que pretende retirar a Síria da lista de países que apoiam o terrorismo. Sobre o Líbano, Trump afirmou que existe disposição por parte de Israel para retirar suas forças das áreas ainda ocupadas no sul do país, mas não entrou em detalhes. Segundo ele, essa retirada faz parte das negociações em andamento entre Tel Aviv e Beirute, cuja retomada está prevista para os dias 15 e 16 de julho, em Roma. Segundo diversas fontes da imprensa, as autoridades libanesas ainda não foram oficialmente informadas dessas datas pelos Estados Unidos e manifestam reservas quanto ao anúncio, feito sem consulta prévia a Beirute. Foram a Itália e Israel que divulgaram as datas e o local das negociações. Ainda de acordo com essas fontes, o Líbano condiciona sua participação em Roma à retirada israelense de duas “zonas piloto”, prevista no acordo-quadro. Outro compromisso importante para o Líbano será a visita oficial que o presidente Joseph Aoun fará a Washington em 21 de julho, a convite de seu homólogo americano. O anúncio foi feito na quarta-feira pela embaixada libanesa em Washington. O convite deverá ser entregue ao presidente Aoun nas próximas horas pelo embaixador americano no Líbano, Michel Issa. A pauta principal das conversas será a implementação do acordo-quadro recentemente assinado entre Israel e o Líbano, que prevê, entre outras medidas, a retirada gradual das forças israelenses do sul do Líbano e o desarmamento do Hezbollah. Nesse contexto, Trump também foi questionado sobre uma eventual participação da Síria no processo de desarmamento do Hezbollah. Sua resposta foi menos categórica do que em declarações anteriores sobre o tema. “Eles podem ajudar. Vamos a ver. Acho que há progresso e acredito que eles podem fazer um bom trabalho”, afirmou.

OTAN 3.0: o despertar do gigante otomano, o reequilíbrio das alianças (1/2)

Em 8 de julho de 2026, Ancara tornou-se o palco de uma virada estratégica para a defesa coletiva europeia e transatlântica. Sob a presidência de Recep Tayyip Erdogan, a abertura da cúpula de 48 horas no Palácio Presidencial de Beştepe marca o lançamento oficial do que várias autoridades e analistas já classificam como “Otan 3.0”. O evento vai além do protocolo: redefine as prioridades institucionais da Aliança diante de múltiplos desafios, entre eles a guerra prolongada na Ucrânia, uma confrontação latente com o Irã, o risco potencial de terrorismo e a preocupação com as ondas de imigração. Tudo isso ocorre em um momento em que a política americana prioriza o continente americano em detrimento da Europa e do Oriente Médio. Nesse jogo de equilíbrios, a Turquia surge como um ator central, capaz de mediar conflitos, projetar influência regional e recalibrar as prioridades de segurança europeias e transatlânticas. Esta cúpula poderá redefinir tanto os meios quanto os objetivos da Aliança. Otan 3.0, uma oportunidade para o poder turco A evolução da Aliança passa agora a ser compreendida em três grandes fases. A Otan 1.0 foi a da Guerra Fria. A Otan 2.0 correspondeu às intervenções posteriores ao 11 de setembro. Agora, a Otan 3.0, conceito popularizado pelo secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, redefine as prioridades. Já não se trata apenas de olhar para o Leste, para as planícies ucranianas e a Rússia, mas também de incorporar o flanco sul. Mark Rutte, secretário-geral da Aliança, tem insistido nesse ponto: a Otan deve ser capaz de enfrentar simultaneamente uma ameaça continental no Leste, representada pela Rússia, e uma instabilidade híbrida no Sul, marcada pelo terrorismo e pelas crises migratórias, especialmente no Mar Negro, no Oriente Médio e no Norte da África. Trata-se de um triunfo diplomático de Erdogan, que conseguiu convencer seus aliados de que a segurança da Europa depende tanto do Bósforo quanto de Varsóvia. A “vitrine” tecnológica apresentada por Ancara Para Erdogan, esta cúpula representa, antes de tudo, uma demonstração da força da indústria militar turca. Os avanços tecnológicos do país reforçam seu peso no cenário geopolítico regional e internacional. Ao integrar um fórum industrial à cúpula da Otan, Erdogan destaca as 3.500 empresas de defesa da Turquia. O país já não é apenas um comprador de equipamentos, como sistemas de defesa antiaérea ou caças de quinta geração. Agora também exibe seus drones Bayraktar, que provaram sua eficácia na Ucrânia, além de veículos blindados e sistemas eletrônicos de defesa. Essa “vitrine” evidencia uma realidade que já vinha se desenhando há duas décadas: o retorno da Turquia ao centro do cenário internacional após um século de eclipse. No entanto, a realização da cúpula em Ancara provocou fortes críticas de organizações não governamentais devido à repressão interna. Mais de 200 prisões preventivas de opositores e ativistas foram registradas pouco antes do encontro, lembrando que a estabilidade turca tem um elevado custo político. Exigência turca de suspensão das restrições Ancara chega à cúpula com reivindicações claras. A primeira delas é o fim das restrições comerciais dentro da própria Otan. Diversos países ocidentais, entre eles Estados Unidos, França e Alemanha, mantêm embargos de fato sobre componentes críticos necessários para a fabricação de drones e sistemas de defesa. Essas restrições, impostas após a compra dos mísseis russos S-400 pela Turquia e as operações militares contra os curdos na Síria, sufocam a indústria nacional de defesa. Erdogan considera essas medidas injustas. Grandes empresas como a Baykar, fabricante dos drones de ataque Bayraktar, e a Turkish Aerospace Industries, produtora de caças e helicópteros de ataque, dependem da importação de motores e componentes ocidentais específicos para cumprir suas gigantescas carteiras de pedidos e, sobretudo, concluir o desenvolvimento do caça de quinta geração Kaan. O braço de ferro industrial: SAFE e SAMP/T A segunda exigência da Turquia diz respeito ao programa europeu SAFE (Security Action for Europe). Com um orçamento de 150 bilhões de euros, esse mecanismo financeiro da União Europeia, criado em maio de 2025, tem como objetivo subsidiar compras conjuntas de armamentos e fortalecer as indústrias militares europeias até 2030. Até o momento, a Turquia permanece excluída porque não se alinha de forma rigorosa à política externa europeia. Erdogan considera essa exclusão discriminatória: “A Europa não pode dividir o peso da defesa se exclui o segundo maior Exército da Otan de seus investimentos tecnológicos”. O terceiro tema é o mais complexo: o sistema franco-italiano de mísseis SAMP/T (Sistema Solo-Ar de Média Distância/Terrestre). Trata-se do equivalente europeu ao Patriot americano, cuja venda a Ancara foi restringida por Washington após a aquisição dos S-400. O SAMP/T é um sistema móvel de defesa antimísseis e antiaérea de média e longa distância, altamente automatizado e de última geração. A Turquia deseja adquirir essa tecnologia para desenvolver seu próprio escudo antimísseis, denominado Steel Dome ou Domo de Aço. Embora Paris e Roma tenham mudado sua posição estratégica e aberto negociações para um possível fornecimento, o principal obstáculo continua sendo industrial e tecnológico. Ancara exige transferência de tecnologia e coprodução em território turco, e não apenas autorização para compra. França e Itália permanecem cautelosas, exigindo garantias rigorosas sobre propriedade intelectual e sobre a não interferência com os sistemas S-400. A afinidade entre Trump e Erdogan diante do bloqueio do Congresso A cúpula também é palco da “diplomacia da amizade” entre Donald Trump e Recep Tayyip Erdogan. O presidente americano não esconde sua admiração pelo “grande líder” turco. Essa relação pessoal permitiu destravar o dossiê dos F-35. O anúncio iminente de Donald Trump de reintegrar a Turquia ao programa F-35 representa uma importante mudança geopolítica. Excluída do programa em 2019 após adquirir os mísseis russos S-400, Ancara vive atualmente um claro processo de reaproximação diplomática, simbolizado pelo projeto americano de venda de motores para o caça Kaan, em um contrato de 700 milhões de dólares. Apesar disso, o Congresso americano mantém o veto legal que impede a entrega dos F-35, já pagos e armazenados nos Estados Unidos, enquanto a Turquia continuar em posse da tecnologia russa dos S-400, considerada uma ameaça à furtividade da aeronave. Para contornar o impasse, Washington estuda revender os S-400 turcos a um terceiro país neutro, como a Coreia do Sul. Essa aproximação altera o equilíbrio de forças no Oriente Médio e na Europa, provocando forte oposição de Israel e da Grécia, que pressionam Washington a bloquear a operação. O controle do Mar Negro Ancara, guardiã dos estreitos. Desde 2022, o Mar Negro transformou-se em um cenário de confronto militar direto, afetando os corredores globais de exportação de grãos e de energia. Como anfitriã da cúpula da Otan, a Turquia reafirma seu papel de guardiã soberana dos estreitos de Bósforo e dos Dardanelos, conforme estabelece a Convenção de Montreux de 1936, utilizando esse instrumento para restringir o acesso de navios de guerra de países não ribeirinhos. Essa posição obriga a Aliança a repensar sua presença naval e coloca Ancara como um ator indispensável na segurança de uma região estratégica, altamente sensível e de acesso controlado. O MCM e a defesa coletiva no Mar Negro Diante da crescente militarização da Crimeia e da instalação de sistemas russos de mísseis costeiros, a Otan criou uma força trilateral composta por Turquia, Romênia e Bulgária, operacional desde julho de 2024: o MCM (Mine Countermeasures Black Sea Task Group). Sua principal missão é proteger o Mar Negro contra minas à deriva e contra atos de sabotagem direcionados às infraestruturas marítimas críticas. A Turquia desempenha um papel central nessa iniciativa, realizando rotações regulares para proteger o flanco leste da Aliança, ao mesmo tempo em que respeita a Convenção de Montreux, considerada essencial para preservar o equilíbrio regional e evitar uma escalada aberta com Moscou.