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O Essencial do Dia

O "MOU acabou", de Trump: uma manobra ou um reconhecimento dos fatos?

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Trump e Erdoğan passam em revista os «jenízaros», no complexo presidencial turco em Ancara. (Doug Mills / AFP)
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Por LevantTime .
Publicado jul 8, 2026 - 23:20

O cessar-fogo entre Washington e Teerã está vivendo seus últimos dias ou até mesmo suas últimas horas? A pergunta se torna ainda mais pertinente desde a manhã de quarta-feira, quando as tensões entre as duas capitais se agravaram perigosamente em meio a um novo confronto militar em torno do Estreito de Ormuz.

Desde o fim das operações militares israelenses e americanas contra seu território, a República Islâmica adotou uma política de alto risco. Agora, leva a provocação ao limite na tentativa de arrancar o máximo de concessões do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no âmbito das negociações iniciadas com base no memorando de entendimento (MOU) assinado pelos dois países em junho passado. Teerã parece apostar na disposição de Trump de privilegiar uma solução diplomática para o conflito, por razões econômicas, financeiras e de política interna, para elevar ainda mais a pressão sem temer que as negociações, que deverão ser retomadas nas próximas semanas, sejam interrompidas.

Teerã também estaria tentando testar os limites da paciência de Trump? A hipótese também pode ser considerada. Seja como for, a República Islâmica está envolvida em um jogo perigoso. Sua estratégia pode fazer ruir o memorando de entendimento e levar o presidente americano a cumprir suas ameaças de realizar uma operação militar de grande escala, porém pontual, para forçar o governo iraniano a aceitar suas condições.

Ao decretar o fim do acordo de junho com a frase curta, mas categórica, “The MOU is over” (“O memorando de entendimento acabou”), durante a cúpula da Otan realizada em Ancara, e ao dirigir uma série de insultos aos líderes da República Islâmica, classificando-os, entre outras coisas, como “mentirosos” e “doentes”, Donald Trump deixou claro seu esgotamento. No entanto, não chegou a anunciar medidas que apontassem para uma ruptura definitiva. Pelo contrário, afirmou que caberá a seus negociadores decidir se as conversas devem ou não continuar. Caso optem por mantê-las, deverão prestar contas a ele, acrescentou.

Ainda assim, no fim da noite de quarta-feira, fez questão de reforçar sua irritação. “Não tenho certeza de que quero fechar um acordo com eles (os líderes iranianos)”, declarou. “Podemos continuar com esses jogos, mas não sei se quero concluir um acordo. Vamos simplesmente terminar o trabalho.” Questionado por um jornalista que lembrou que, no mês passado, ele havia elogiado alguns altos funcionários iranianos e perguntou o que havia mudado desde então, Trump respondeu: “Passei a conhecê-los”…

Ataques americanos contra 80 alvos

O Irã tem seus cálculos. Donald Trump também tem os seus. A grande questão é saber quem prevalecerá.

O discurso americano ocorreu após uma nova escalada de violência durante a noite no Estreito de Ormuz, provocada por disparos iranianos, feitos na terça-feira, contra três petroleiros que navegavam pelo corredor marítimo de Omã, rejeitado por Teerã.

Para Washington, esses ataques representam uma violação flagrante do cessar-fogo firmado em junho. A resposta americana foi imediata: o restabelecimento da proibição da produção e da venda de petróleo iraniano e de seus derivados. Horas depois, os Estados Unidos realizaram ataques contra mais de 80 alvos militares no Irã, deixando oito mortos, segundo a imprensa iraniana. Explosões foram registradas nas proximidades do Estreito de Ormuz, especialmente na região de Bushehr, perto da ilha de Kharg, principal terminal petrolífero do país.

A República Islâmica respondeu atacando, segundo informações divulgadas por ela própria à imprensa, “85 instalações militares americanas localizadas em bases no Kuwait e no Bahrein”, conforme noticiado pelos meios de comunicação iranianos. No Kuwait, os ataques iranianos provocaram interrupções no fornecimento de energia elétrica.

Ameaças e contra-ameaças

A quarta-feira foi marcada por uma sucessão de ameaças americanas e contra-ameaças iranianas. Teerã, cuja má-fé já não deixa dúvidas, considera que foi Washington quem violou o cessar-fogo e que “Donald Trump deve assumir pessoalmente as consequências”, segundo Ali Akbar Velayati, conselheiro do líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei. Em sua conta na plataforma X, ele afirmou que “o eixo da resistência não ficará de braços cruzados caso o aventureirismo americano continue”, em uma referência à possível entrada em ação de grupos aliados da região.

Teerã também prometeu adotar “medidas decisivas” para defender seus interesses caso Washington aumente a pressão. O Estado-Maior iraniano advertiu que “qualquer país que facilite operações militares americanas contra seu território se tornará um alvo legítimo”, em uma ameaça pouco disfarçada ao Bahrein e ao Kuwait.

Mas, nesse jogo perigoso, o Irã encontra-se praticamente isolado. Estados Unidos, Europa e países do Golfo rejeitam o que Teerã tenta impor pela força: o controle exclusivo do estratégico Estreito de Ormuz, que lhe permitiria influenciar o comércio marítimo mundial e compensar, dessa forma, a perda de sua influência regional.

Em Ancara, o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, e o chanceler alemão, Friedrich Merz, ecoaram a oposição internacional às ambições iranianas. Rutte considerou que a resposta americana foi “absolutamente necessária”, defendendo a necessidade de demonstrar firmeza diante do Irã. Para o chanceler alemão, a reação foi “totalmente justificada”.

Donald Trump voltou a repetir suas ameaças contra a República Islâmica ao longo de toda a quarta-feira, mas, desta vez, o tom adotado foi diferente dos anteriores. O presidente americano parece disposto a ir além, justamente quando meios de comunicação americanos e israelenses noticiavam uma possível coordenação entre Israel e os Estados Unidos nesse contexto.

Para Trump, contudo, a pressão deverá aumentar gradualmente: restabelecimento do bloqueio marítimo, controle da estratégica ilha de Kharg e retomada dos ataques militares. No fim da tarde, ele afirmou que os ataques contra alvos militares iranianos “poderiam ser retomados durante a noite”.

Pouco depois, o Comando Central dos Estados Unidos (Centcom) anunciou em sua conta no Telegram que “mais de 20 navios de guerra americanos patrulham as águas do Oriente Médio”, sem fornecer mais detalhes, “para garantir a estabilidade e a segurança” da região. Uma forma de reafirmar a presença militar americana no Oriente Médio.

A Otan, a Síria e o Líbano

A cúpula da Otan, durante a qual o presidente americano comentou diversos temas, também serviu para esclarecer diferentes dossiês.

Embora tenha sido muito crítico em relação à Aliança e aos países europeus que, segundo ele, não o apoiaram na guerra contra o Irã, Donald Trump anunciou que os Estados Unidos não deixarão a Otan. Também afirmou que estuda vender caças F-35, considerados a joia da aviação militar americana, para Ancara, decisão que certamente desagradará Tel Aviv. Além disso, disse que pretende retirar a Síria da lista de países que apoiam o terrorismo.

Sobre o Líbano, Trump afirmou que existe disposição por parte de Israel para retirar suas forças das áreas ainda ocupadas no sul do país, mas não entrou em detalhes. Segundo ele, essa retirada faz parte das negociações em andamento entre Tel Aviv e Beirute, cuja retomada está prevista para os dias 15 e 16 de julho, em Roma.

Segundo diversas fontes da imprensa, as autoridades libanesas ainda não foram oficialmente informadas dessas datas pelos Estados Unidos e manifestam reservas quanto ao anúncio, feito sem consulta prévia a Beirute. Foram a Itália e Israel que divulgaram as datas e o local das negociações.

Ainda de acordo com essas fontes, o Líbano condiciona sua participação em Roma à retirada israelense de duas “zonas piloto”, prevista no acordo-quadro.

Outro compromisso importante para o Líbano será a visita oficial que o presidente Joseph Aoun fará a Washington em 21 de julho, a convite de seu homólogo americano. O anúncio foi feito na quarta-feira pela embaixada libanesa em Washington. O convite deverá ser entregue ao presidente Aoun nas próximas horas pelo embaixador americano no Líbano, Michel Issa.

A pauta principal das conversas será a implementação do acordo-quadro recentemente assinado entre Israel e o Líbano, que prevê, entre outras medidas, a retirada gradual das forças israelenses do sul do Líbano e o desarmamento do Hezbollah.

Nesse contexto, Trump também foi questionado sobre uma eventual participação da Síria no processo de desarmamento do Hezbollah. Sua resposta foi menos categórica do que em declarações anteriores sobre o tema. “Eles podem ajudar. Vamos a ver. Acho que há progresso e acredito que eles podem fazer um bom trabalho”, afirmou.

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