
O Palácio de Beştepe, epicentro do mundo

Em 8 de julho de 2026, Ancara tornou-se o palco de uma virada estratégica para a defesa coletiva europeia e transatlântica. Sob a presidência de Recep Tayyip Erdogan, a abertura da cúpula de 48 horas no Palácio Presidencial de Beştepe marca o lançamento oficial do que várias autoridades e analistas já classificam como “Otan 3.0”. O evento vai além do protocolo: redefine as prioridades institucionais da Aliança diante de múltiplos desafios, entre eles a guerra prolongada na Ucrânia, uma confrontação latente com o Irã, o risco potencial de terrorismo e a preocupação com as ondas de imigração.
Tudo isso ocorre em um momento em que a política americana prioriza o continente americano em detrimento da Europa e do Oriente Médio. Nesse jogo de equilíbrios, a Turquia surge como um ator central, capaz de mediar conflitos, projetar influência regional e recalibrar as prioridades de segurança europeias e transatlânticas. Esta cúpula poderá redefinir tanto os meios quanto os objetivos da Aliança.
Otan 3.0, uma oportunidade para o poder turco
A evolução da Aliança passa agora a ser compreendida em três grandes fases. A Otan 1.0 foi a da Guerra Fria. A Otan 2.0 correspondeu às intervenções posteriores ao 11 de setembro. Agora, a Otan 3.0, conceito popularizado pelo secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, redefine as prioridades. Já não se trata apenas de olhar para o Leste, para as planícies ucranianas e a Rússia, mas também de incorporar o flanco sul. Mark Rutte, secretário-geral da Aliança, tem insistido nesse ponto: a Otan deve ser capaz de enfrentar simultaneamente uma ameaça continental no Leste, representada pela Rússia, e uma instabilidade híbrida no Sul, marcada pelo terrorismo e pelas crises migratórias, especialmente no Mar Negro, no Oriente Médio e no Norte da África. Trata-se de um triunfo diplomático de Erdogan, que conseguiu convencer seus aliados de que a segurança da Europa depende tanto do Bósforo quanto de Varsóvia.
A “vitrine” tecnológica apresentada por Ancara
Para Erdogan, esta cúpula representa, antes de tudo, uma demonstração da força da indústria militar turca. Os avanços tecnológicos do país reforçam seu peso no cenário geopolítico regional e internacional. Ao integrar um fórum industrial à cúpula da Otan, Erdogan destaca as 3.500 empresas de defesa da Turquia. O país já não é apenas um comprador de equipamentos, como sistemas de defesa antiaérea ou caças de quinta geração. Agora também exibe seus drones Bayraktar, que provaram sua eficácia na Ucrânia, além de veículos blindados e sistemas eletrônicos de defesa.
Essa “vitrine” evidencia uma realidade que já vinha se desenhando há duas décadas: o retorno da Turquia ao centro do cenário internacional após um século de eclipse. No entanto, a realização da cúpula em Ancara provocou fortes críticas de organizações não governamentais devido à repressão interna. Mais de 200 prisões preventivas de opositores e ativistas foram registradas pouco antes do encontro, lembrando que a estabilidade turca tem um elevado custo político.
Exigência turca de suspensão das restrições
Ancara chega à cúpula com reivindicações claras. A primeira delas é o fim das restrições comerciais dentro da própria Otan. Diversos países ocidentais, entre eles Estados Unidos, França e Alemanha, mantêm embargos de fato sobre componentes críticos necessários para a fabricação de drones e sistemas de defesa. Essas restrições, impostas após a compra dos mísseis russos S-400 pela Turquia e as operações militares contra os curdos na Síria, sufocam a indústria nacional de defesa. Erdogan considera essas medidas injustas. Grandes empresas como a Baykar, fabricante dos drones de ataque Bayraktar, e a Turkish Aerospace Industries, produtora de caças e helicópteros de ataque, dependem da importação de motores e componentes ocidentais específicos para cumprir suas gigantescas carteiras de pedidos e, sobretudo, concluir o desenvolvimento do caça de quinta geração Kaan.
O braço de ferro industrial: SAFE e SAMP/T
A segunda exigência da Turquia diz respeito ao programa europeu SAFE (Security Action for Europe). Com um orçamento de 150 bilhões de euros, esse mecanismo financeiro da União Europeia, criado em maio de 2025, tem como objetivo subsidiar compras conjuntas de armamentos e fortalecer as indústrias militares europeias até 2030. Até o momento, a Turquia permanece excluída porque não se alinha de forma rigorosa à política externa europeia. Erdogan considera essa exclusão discriminatória: “A Europa não pode dividir o peso da defesa se exclui o segundo maior Exército da Otan de seus investimentos tecnológicos”.
O terceiro tema é o mais complexo: o sistema franco-italiano de mísseis SAMP/T (Sistema Solo-Ar de Média Distância/Terrestre). Trata-se do equivalente europeu ao Patriot americano, cuja venda a Ancara foi restringida por Washington após a aquisição dos S-400. O SAMP/T é um sistema móvel de defesa antimísseis e antiaérea de média e longa distância, altamente automatizado e de última geração. A Turquia deseja adquirir essa tecnologia para desenvolver seu próprio escudo antimísseis, denominado Steel Dome ou Domo de Aço. Embora Paris e Roma tenham mudado sua posição estratégica e aberto negociações para um possível fornecimento, o principal obstáculo continua sendo industrial e tecnológico. Ancara exige transferência de tecnologia e coprodução em território turco, e não apenas autorização para compra. França e Itália permanecem cautelosas, exigindo garantias rigorosas sobre propriedade intelectual e sobre a não interferência com os sistemas S-400.
A afinidade entre Trump e Erdogan diante do bloqueio do Congresso
A cúpula também é palco da “diplomacia da amizade” entre Donald Trump e Recep Tayyip Erdogan. O presidente americano não esconde sua admiração pelo “grande líder” turco. Essa relação pessoal permitiu destravar o dossiê dos F-35. O anúncio iminente de Donald Trump de reintegrar a Turquia ao programa F-35 representa uma importante mudança geopolítica. Excluída do programa em 2019 após adquirir os mísseis russos S-400, Ancara vive atualmente um claro processo de reaproximação diplomática, simbolizado pelo projeto americano de venda de motores para o caça Kaan, em um contrato de 700 milhões de dólares.
Apesar disso, o Congresso americano mantém o veto legal que impede a entrega dos F-35, já pagos e armazenados nos Estados Unidos, enquanto a Turquia continuar em posse da tecnologia russa dos S-400, considerada uma ameaça à furtividade da aeronave. Para contornar o impasse, Washington estuda revender os S-400 turcos a um terceiro país neutro, como a Coreia do Sul. Essa aproximação altera o equilíbrio de forças no Oriente Médio e na Europa, provocando forte oposição de Israel e da Grécia, que pressionam Washington a bloquear a operação.
O controle do Mar Negro
Ancara, guardiã dos estreitos. Desde 2022, o Mar Negro transformou-se em um cenário de confronto militar direto, afetando os corredores globais de exportação de grãos e de energia. Como anfitriã da cúpula da Otan, a Turquia reafirma seu papel de guardiã soberana dos estreitos de Bósforo e dos Dardanelos, conforme estabelece a Convenção de Montreux de 1936, utilizando esse instrumento para restringir o acesso de navios de guerra de países não ribeirinhos. Essa posição obriga a Aliança a repensar sua presença naval e coloca Ancara como um ator indispensável na segurança de uma região estratégica, altamente sensível e de acesso controlado.
O MCM e a defesa coletiva no Mar Negro
Diante da crescente militarização da Crimeia e da instalação de sistemas russos de mísseis costeiros, a Otan criou uma força trilateral composta por Turquia, Romênia e Bulgária, operacional desde julho de 2024: o MCM (Mine Countermeasures Black Sea Task Group). Sua principal missão é proteger o Mar Negro contra minas à deriva e contra atos de sabotagem direcionados às infraestruturas marítimas críticas. A Turquia desempenha um papel central nessa iniciativa, realizando rotações regulares para proteger o flanco leste da Aliança, ao mesmo tempo em que respeita a Convenção de Montreux, considerada essencial para preservar o equilíbrio regional e evitar uma escalada aberta com Moscou.