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Analisar

Ficamos mais burros?

Ou estamos vivendo uma transformação na estrutura do conhecimento?
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Por Mona Fayad
Publicado em set 5, 2026 - 20:01
A pergunta «O mundo ficou mais burro?» reaparece com frequência nos debates contemporâneos sobre mídia digital, mecanismos de busca e redes sociais. À primeira vista, parece uma pergunta simples, mas esconde uma questão muito mais profunda, ligada à própria natureza do conhecimento: como ele é produzido, como é transmitido e como é consumido. Talvez a pergunta «Ficamos mais burros?» não seja a mais precisa. Talvez devêssemos perguntar: o conhecimento ainda é transmitido de uma maneira que permita compreendê-lo e torná-lo produtivo? A maioria dos leitores ainda recorre aos textos originais? Ou se limita aos seus resumos e ao que é dito a respeito deles por meio daquilo que circula entre os leitores? Uma das chaves para compreender esse fenômeno encontra-se nos trabalhos do psicólogo britânico Frederic Bartlett, que realizou, na década de 1930, uma série de experiências sobre aquilo que chamou de «reprodução serial». Nessas experiências, uma pessoa ouvia uma história e depois precisava contá-la a outra, que por sua vez a contava a uma terceira, e assim por diante. Os resultados foram impressionantes: a cada nova transmissão, a história não era reproduzida exatamente como havia sido contada, mas reformulada. Alguns detalhes desapareciam, outros eram ampliados e outros ainda eram substituídos por elementos mais compatíveis com o contexto, as experiências e a cultura do receptor. Depois de passar por um número suficiente de intermediários, a história original já havia se transformado em algo inteiramente diferente. Esse modelo simples revela uma verdade fundamental: a memória não é um recipiente neutro, mas um mecanismo de reconstrução. E, quando o conhecimento passa por múltiplos intermediários, ele não é «preservado», mas «reproduzido». É aqui que começam a aparecer as semelhanças com o nosso mundo contemporâneo e o receio de que estejamos ficando mais burros. Na era da mídia digital, o conhecimento já não circula por meio da transmissão oral, mas através de cadeias de mediação: um artigo é resumido, depois citado, em seguida republicado sob a forma de uma postagem curta e, por fim, reduzido mais uma vez a uma frase ou a um título. Nesse contexto, podemos retomar uma imagem metafórica usada em um texto jornalístico: uma biblioteca cujos livros são substituídos por resumos, e depois por resumos dos resumos, até que o leitor se veja diante de sucessivas camadas de redução. Algo semelhante ao que poderíamos chamar de «cadeia do guaxinim», que não lê o original, mas remexe em seus restos. Vale esclarecer que a escolha do «guaxinim» não é aleatória. Essa metáfora condensa simbolicamente uma condição cognitiva que vem se consolidando. Esse animal, que vive nas margens das cidades e remexe em latas de lixo, não produz seu alimento, mas se nutre dos restos daquilo que outros produziram. Apesar de sua inteligência prática e de sua capacidade de desmontar, recolher e aproveitar objetos, ele não compreende verdadeiramente aquilo que tem diante de si, mas lida com as coisas como materiais disponíveis para uso imediato. É assim que o conhecimento passa a se apresentar na era da redução serial: textos são resumidos e depois novamente resumidos, até que deles reste apenas um punhado de fragmentos de sentido, reorganizados e postos novamente em circulação sem qualquer vínculo verdadeiro com sua fonte. Nesse ponto, não apenas nos afastamos do original, mas entramos em uma nova etapa da produção da informação ou do conhecimento, na qual o agente cognitivo deixa de ser um leitor ou pensador para se tornar um coletor de restos de significado, que os redistribui em formatos destinados ao consumo rápido. A «cultura do guaxinim», portanto, não é apenas uma descrição da superficialidade. É também uma caracterização precisa da degradação da própria cadeia do conhecimento: da criação ao resumo, da compreensão ao processamento formal, das ideias a algo que já não passa de um vestígio apagado delas. Mas esse fenômeno não pode ser compreendido separadamente da estrutura tecnológica que o governa. É aqui que entra Marshall McLuhan, que sintetizou seu pensamento na célebre frase: «O meio é a mensagem». O problema não está apenas no conteúdo, mas também na forma através da qual esse conteúdo é transmitido. A mídia digital contemporânea não se limita a transportar informações, mas as remodela segundo a lógica da velocidade, da condensação e da fragmentação. O texto longo torna-se inadequado para o consumo, enquanto uma ideia só parece aceitável se puder ser reduzida a poucas linhas facilmente compartilháveis. Essa transformação produz um paradoxo marcante: vivemos numa época em que o acesso ao conhecimento deixou de ser difícil e se tornou excessivamente fácil. E, com essa facilidade excessiva, surge aquilo que poderíamos chamar de «ilusão cognitiva»: basta ler um pequeno trecho ou um resumo rápido para que a pessoa tenha a sensação de ter assimilado uma ideia. Mas essa sensação de domínio não é necessariamente acompanhada por uma compreensão profunda nem pela capacidade de reconstruir ou criticar o conhecimento. É aqui que aparecem os que poderíamos chamar de «semiletrados»: indivíduos que possuem os sinais do conhecimento, mas não sua estrutura; seu vocabulário, mas não sua lógica interna. O problema se torna ainda mais complexo quando o observamos sob o ângulo da atenção. Em vez de permanecer em um estado prolongado de concentração, como acontece na leitura tradicional ou na reflexão demorada, a mente passou a viver sob um bombardeio contínuo de informações: notificações, vídeos, manchetes e ondas sucessivas de conteúdo. Essa situação não apenas dispersa a atenção, mas a reconfigura segundo uma lógica de saltos constantes entre pequenas unidades de significado, em vez de permitir a construção gradual e cumulativa de uma ideia. Lembro aqui de uma anedota que costumávamos contar e que circulava muito na época das manifestações populares. Ela ilustra bem a ideia da redução e da transformação do conteúdo. Depois da ocupação da Palestina, muitas manifestações populares tomaram as ruas gritando «Abaixo a Declaração Balfour!». A brincadeira dizia que, no fim da manifestação, o slogan havia se transformado, em árabe, em «Que alguém caia lá de cima!», uma frase inteiramente diferente que preservava algo do ritmo e da sonoridade da original. Talvez essa imagem nos ajude a compreender melhor o que acontece na linguagem cotidiana quando o conhecimento se transforma em mensagens curtas repetidas coletivamente. A manifestação começa com uma fórmula política precisa. Mas, com a repetição, a imersão coletiva e o ritmo sonoro, ela vai se transformando pouco a pouco em outra fórmula, completamente diferente. Esta pode conservar o ritmo e a carga emocional da primeira, mas perde seu significado e seu sentido original. O que permanece não é o sentido, mas a energia emocional da frase. Aqui se manifesta, de outra maneira, aquilo que Bartlett havia observado: não importa apenas o que foi dito, mas como aquilo foi repetido e como voltou a ser compreendido dentro de um contexto social em transformação. Se reunirmos todos esses fios, podemos dizer que aquilo que vivemos hoje não é propriamente um «colapso da inteligência», mas uma transformação das condições em que ela opera. A mente humana não mudou radicalmente, mas o ambiente em que funciona se transformou profundamente: passamos de um ambiente que permitia a acumulação lenta para outro que impõe a reprodução rápida e fragmentada do conhecimento. Essa mudança cria uma tensão permanente entre duas formas de pensamento: um pensamento reflexivo, que precisa de tempo, e um pensamento rápido, que exige resposta imediata. Sob essa perspectiva, a pergunta «Ficamos mais burros?» torna-se parcialmente enganosa. Talvez seja mais preciso dizer que estamos cada vez mais expostos a condições que tornam o pensamento profundo menos estável, ou menos possível, e o conhecimento mais vulnerável à fragmentação e à reciclagem. Quanto à burrice, se podemos usar o termo, talvez ela não seja uma propriedade da mente, mas um efeito colateral e uma característica da estrutura cultural que se formou. Trata-se de uma tecnologia que está remodelando nossa relação com o mundo. Assim, em vez de enxergar esse fenômeno como um declínio das capacidades humanas, podemos compreendê-lo como uma transformação do «ambiente do conhecimento»: um ambiente em que se tornou fácil saber alguma coisa, mas mais difícil compreendê-la de fato e em profundidade.
Opinião
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Por Youssef Mouawad - Publicado em set 5, 2026 - 13:25
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Em 2010, Israel interceptou com violência o Mavi Marmara, um navio turco fretado por uma ONG humanitária para socorrer a Faixa de Gaza, então sob bloqueio israelita. Esse incidente, a gota de água, fará vir à tona a animosidade entre o governo de Erdogan e o Estado hebraico. (AFP)
A guerra ainda não parou no nosso sul e já corre o risco de eclodir junto aos nossos vizinhos. Ou seja, vivemos a prazo, de conflito em conflito. E com razão! Por pouco o bombardeamento de uma base síria não descambou numa batalha campal entre Ancara e Telavive. Foi a 18 de agosto passado, e Benjamin Netanyahu não foi com meias palavras: o seu país não iria tolerar uma implantação militar turca suscetível de avançar para o sul da Síria. A mensagem foi tanto mais brutal quanto oito ataques tinham visado a base aérea de Abu al-Duhur, situada a 70 quilómetros da fronteira turca. Recorde-se, aliás, que desde a queda de Bashar al-Assad em dezembro de 2024, Erdogan é o principal mentor da nova Síria, a de Ahmed al-Charaa, ajudando-a a reconstruir as suas forças armadas e transformando-a num parceiro estratégico. Já não é a Síria de Hafez al-Assad Terá sido este novo pico de tensão entre Ancara e Telavive que precipitou a reunião entre o chefe da diplomacia síria, Assaad Chaïbani, e o diretor do Mossad, Roman Gofman, a 23 de agosto passado, na Jordânia? Ora, esse encontro discreto não provocou uma onda de indignação no mundo árabe, como aconteceu com a visita imprevista de Anwar al-Sadat a Israel em 1977. Um tabu foi oficialmente quebrado e, de facto, quem poderia ter acreditado que tal concertação seria possível sob o regime baathista? O Estado hebraico deveria ter-se congratulado, mas, ao contrário do que se esperava, não interrompeu nem os seus ataques aéreos nem as suas incursões territoriais, como a de 27 de agosto em Quneitra. É que as coisas mudaram. Sob Hafez al-Assad, a Síria era uma potência regional que, sem ser temível, era temida pelos seus vizinhos imediatos, fossem eles países árabes ou não. Evitava-se procurar confronto com ela e, por isso, o país conduzia, dentro de certos limites, uma política externa agressiva que resvalava muitas vezes para a provocação. E assim, em virtude da autonomia da sua ação e da margem de manobra que se concedia, tinha constituído, nem que fosse apenas geograficamente, uma zona-tampão entre, por um lado, uma Turquia "erdoganesca", que exibia o seu islamismo assumido, e, por outro, um Israel, o Estado consubstancialmente judeu. Ora, eis que, num país esgotado por uma gestão baathista e devastado por anos de guerra civil, a Turquia, ao começar a marcar posições, vai inevitavelmente encontrar-se frente a frente com um Israel que ocupa uma parte do território sírio. O que esperar? Tendo em conta o ego desmedido tanto de Netanyahu como de Erdogan, e no caso de estes dois chefes de Estado permanecerem nos seus respetivos cargos, devemos esperar um duelo épico em território sírio, libanês, jordano, ou até noutros locais. Este combate será feito de fintas, de esquivas, de golpes baixos, mas também de ataques frontais, de corpo a corpo e de escaladas de tensão até ao ponto de rutura. E isto mesmo que o relatório doCongressional Research Servicede setembro de 2025 considere pouco provável um confronto direto entre a Turquia e Israel, precisamente porque ambos os Estados conhecem o custo de uma guerra, caso esta viesse a eclodir. No entanto, no domínio da polemologia, os dirigentes e outras elites não são necessariamente atores racionais! Tanto mais que, aos olhos dos observadores israelitas, o slogan que impera na Anatólia, a saber, «Make Turkey great again», não é de molde a tranquilizar o Estado sionista. Washington terá cada vez mais dificuldade em conter ou separar os dois adversários que já se posicionam em ordem de batalha. A Turquia, um novo Irão? Sim, é uma hipótese, mas apenas num confronto direto com Israel, tendo a Síria se tornado da noite para o dia uma zona onde «se sobrepõem dois perímetros de segurança», o turco e o israelita, o muçulmano e o judeu. E não se pode excluir que o militantismo xiita, esse mobilizador de «proxies», acabe por se aliar, ainda que momentaneamente, a uma «versão irmãos-muçulmana» do islamismo político defendido por Ancara! Teríamos assim, contra todas as expectativas, um Hezbollah apoiado pelo seu inimigo de ontem, Ahmed al-Charaa, um islamista vindo da Jabhat al-Nusra e da Hayat Tahrir al-Cham! Contra o adversário comum, uma inversão de alianças é sempre legítima e oportuna. Mas isso não passaria de uma aliança tática, ditada pelas necessidades do momento, sem qualquer garantia quanto ao futuro. Tendo o nacionalismo árabe sido posto de lado, a Turquia não se vai contentar em conquistar economicamente o mercado sírio, com os seus 25 milhões de consumidores: vai querer exercer influência política em Damasco, mobilizando para isso o seu aparelho militar e de segurança. O poder instável do presidente sírio, incapaz de assegurar certas funções soberanas nem de enquadrar os diversos corpos do Estado, terá necessariamente de recorrer à experiência do seu vizinho do norte. Será, no entanto, de acreditar que este último vai ser arrastado pela espiral de uma «beligerância anunciada»? Tudo aponta nesse sentido, e já se podem perceber os primeiros sinais de um envolvimento que lembra o dos Estados Unidos no Vietname sob Lyndon Johnson. Pois, se o Estado sírio pretende reconstituir-se, precisará antes de mais de um exército capaz de conter as tendências centrífugas dos alauitas, dos drusos e de outras facções que apelam à fragmentação do país. Ora, cabe a Ancara garantir isso e reforçar a autoridade central sediada em Damasco. Mas Israel, que adquiriu maus hábitos na Síria e pretende manter aí liberdade de ação aérea, não pode aceitar um exército estruturado segundo o modelo da NATO e que possa servir de proxy a um projeto neo-otomano. E o Líbano, da primazia à secundarização? Está agora montado um novo cenário para um novo guião que definirá novas regras do jogo! O que será feito do Hezbollah, apanhado numa ratoeira? Bem, poderia beneficiar, neste cenário, ainda que apenas em parte, do apoio logístico de Damasco, apoio que lhe fez gravemente falta desde a queda de Bachar al-Assad. E talvez que, com um deslocamento das placas tectónicas, o Líbano passasse do estatuto de palco inicial ao de palco secundário de um conflito regional. Mas, para ser sincero, isso de pouco nos vai valer!
O Essencial do Dia
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Por LevantTime . - Publicado em set 5, 2026 - 00:55
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O comboio do CICV que transportava os civis libertados, partindo da zona ocupada por Israel no sul do Líbano, seguiu até o ponto que marca o início da área controlada pelas autoridades libanesas. (AFP)
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) anunciou nesta sexta-feira que transferiu para o Líbano outras quatro pessoas libertadas por Israel, um dia após a libertação de um primeiro civil. Segundo o CICV, trata-se de três libaneses e dois sírios. É a primeira vez que uma operação desse tipo ocorre desde o início, em abril, das negociações entre o Líbano e Israel, sob mediação dos Estados Unidos. Beirute havia solicitado, durante a última rodada de negociações, em agosto, a libertação de um primeiro grupo de cidadãos libaneses capturados por Israel no sul do Líbano, onde trava uma guerra contra o Hezbollah, aliado do Irã. Familiares estimam que cerca de 30 pessoas estejam detidas, entre elas combatentes do movimento islâmico. O presidente libanês, Joseph Aoun, agradeceu em comunicado aos Estados Unidos e ao CICV e afirmou que essa libertação «confirma o acerto da posição» do Líbano, que participa de negociações com Israel rejeitadas pelo Hezbollah. Os Estados Unidos elogiaram na quinta-feira «o governo de Israel e o governo do Líbano por demonstrarem boa-fé por meio desses primeiros passos», expressando a esperança de que isso sirva «de base para discussões mais amplas sobre outras questões civis». Os dois países devem realizar uma nova rodada de negociações em setembro, em uma data ainda não definida. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira «ocorre após os esforços realizados por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os restos mortais de líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano» entre 1984 e 1986. Israel intensifica seus ataques No terreno, ataques israelenses deixaram três mortos e 23 feridos nesta sexta-feira no sul e no leste do Líbano, segundo um veículo de imprensa estatal. Israel intensificou nesta sexta-feira seus ataques na região, depois de anunciar, na noite de quinta-feira, que havia assumido o controle da crista montanhosa de Ali Taher, que servia como posição estratégica para o Hezbollah, aliado do Irã, e domina, entre outras áreas, a cidade de Nabatiye. O Exército agora reforçará suas posições na região para «impedir que o inimigo volte a se posicionar na área», declarou o ministro da Defesa israelense, Israel Katz. Outro ataque também atingiu a região de Tiro, especialmente a localidade de Rmadiye, segundo a Agência Nacional de Notícias (ANI). Para Trump, a guerra no Irã é «coisa pequena» Sobre a guerra no Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tentou nesta sexta-feira minimizar seu impacto para o país, às vésperas das cruciais eleições legislativas de meio de mandato. «Muita gente não chama isso de guerra. Eu digo que é um conflito militar, porque para nós é coisa pequena (“small potatoes”). Não é nada demais. Fizemos a Venezuela e fizemos isso», respondeu a jornalistas no Salão Oval, ao ser questionado sobre seu vice-presidente, JD Vance, que no dia anterior havia dito não querer descrever o conflito como uma guerra. Enquanto a forte alta dos preços dos combustíveis ligada à guerra ameaça custar aos republicanos de Donald Trump sua maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato de novembro, sua administração tenta minimizar a dimensão do conflito. Segundo o presidente, os Estados Unidos realizam «ataques pontuais» e «não estão atualmente combatendo». Trump também afirmou que os Estados Unidos controlam o estreito de Ormuz e que dizimaram as Forças Armadas iranianas. «O que conseguimos foi extraordinário. Assumimos o controle da Venezuela e, essencialmente, assumimos o controle do Irã», declarou.
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A restauração do Estado libanês
Por
Jacques Mechelany
Publicado

Pela primeira vez desde 2009, um presidente libanês atravessou esta semana as portas da Casa Branca não como um suplicante em busca de atenção, mas como portador de um plano concreto. Na terça-feira, o presidente Joseph Aoun sentou-se diante de Donald Trump e lhe entregou uma proposta por escrito: um roteiro para desmantelar o arsenal do Hezbollah, reunir todas as armas do país sob a autoridade exclusiva do Estado libanês e, em contrapartida, obter a retirada israelense do território que as forças de Israel ainda ocupam no sul do país. Trump, por sua vez, adotou um tom quase paternal. "Sentimos muito boa vontade em relação ao Líbano", declarou aos jornalistas, acrescentando que o país havia sido "muito mal tratado" e merecia ser "tratado com o respeito que lhe é devido". Reconheceu, na mesma frase, que "há um problema com o Hezbollah" — como se estivesse diagnosticando, em uma só formulação, tanto a tragédia do Líbano quanto a sua oportunidade. Seria fácil enxergar nessa visita apenas um símbolo travestido de substância — uma operação de comunicação para um presidente ansioso em mostrar aos eleitores libaneses e aos financiadores do Golfo que Beirute voltou a ter amigos em Washington. Seria igualmente fácil vê-la como mais um capítulo na longa história de emissários americanos e acordos-quadro que prometeram muito e entregaram pouco. Mas essa leitura deixaria escapar o que há de genuinamente novo aqui, e o que está verdadeiramente em jogo. Pela primeira vez em décadas, é o Estado libanês — não uma milícia, não um padrinho estrangeiro, não um senhor da guerra confessional — que chega à mesa com um plano que lhe pertence. Se esse plano terá êxito ou não determinará se o Líbano passará a próxima geração como um país soberano, ou se permanecerá, como nos últimos cinquenta anos, um campo de batalha alugado para as guerras alheias. Um presidente sem milícia, mas com um exército A própria trajetória de Joseph Aoun é inseparável do episódio que se desenrola hoje em Washington. Ele foi eleito presidente em 9 de janeiro de 2025, encerrando um vácuo paralisante de dois anos durante o qual o Parlamento havia fracassado doze vezes seguidas na tentativa de eleger um chefe de Estado. Chegou ao Palácio de Baabda não como líder de partido ou herdeiro dinástico, mas como ex-comandante do Exército Libanês — uma escolha orquestrada, em grande medida, por uma intensa pressão diplomática de Washington e Riad, que viam em Aoun uma figura rara: alguém que gozava da confiança de todas as comunidades do país e estava livre dos jogos de milícias que esvaziaram o Estado libanês desde a guerra civil. Sua eleição foi, em si mesma, um sintoma do enfraquecimento do Hezbollah: desgastado por quinze meses de guerra contra Israel, privado de seu secretário-geral Hassan Nasrallah e de grande parte de seu comando, e com seu protetor iraniano absorto em suas próprias dificuldades, o partido já não conseguia, como havia feito por dois anos, bloquear um presidente que não controlava inteiramente. Esse contexto é fundamental para compreender o que ocorreu esta semana. Aoun não foi a Washington como um mediador fazendo a ponte entre o Hezbollah e Israel. Foi como chefe de Estado eleito de um país que, pela primeira vez em duas gerações, tenta agir como tal — reivindicando o monopólio sobre o uso legítimo da força, princípio tão elementar à própria noção de Estado que raramente precisava ser enunciado, e cuja ausência no Líbano era tão óbvia há cinquenta anos que se tornara banal; e cuja reafirmação é hoje tão notável que se converteu no fato central da vida política libanesa. O acordo-quadro trilateral e as cláusulas ocultas da soberania Esta visita não ocorreu num vácuo. Em 26 de junho, após cinco rodadas de negociações indiretas e diretas realizadas sob a égide de Washington, os representantes libaneses e israelenses assinaram o que agora se chama de Acordo-Quadro Trilateral — o primeiro acordo de qualquer natureza entre os dois Estados desde o efêmero tratado de paz de 1983, que desmoronou sob pressão síria e interna menos de um ano após sua assinatura. Assinado pelos embaixadores dos dois países em Washington na presença do secretário de Estado americano Marco Rubio, este acordo de quatorze pontos compromete as duas partes, "com o pleno apoio dos Estados Unidos", a trabalhar para encerrar o estado de conflito que as opõe, a garantir sua soberania e segurança mútuas e, eventualmente, a normalizar suas relações. As autoridades libanesas trataram de apresentá-lo — precaução necessária, dado que a palavra "normalização" continua sendo explosiva na vida política libanesa — como um quadro de segurança e soberania, e não como um tratado de paz. Mas sua lógica aponta em apenas uma direção. São os mecanismos do acordo que deveriam concentrar a atenção de Beirute, pois revelam tanto suas promessas quanto seus limites. O acordo não obriga Israel a se retirar da faixa de território libanês que ocupa desde o cessar-fogo que encerrou a guerra de novembro de 2024. Em vez disso, cria o que se chama de "zonas-piloto": dois perímetros delimitados — um ao sul do rio Litani, mas fora da zona de segurança israelense inicial, e outro, uma pequena faixa ao norte do Litani, dentro dessa zona — onde as forças israelenses se retirariam em troca de um desdobramento verificado do exército libanês e do desmantelamento de toda infraestrutura militar do Hezbollah presente nessas áreas. Foi em uma dessas zonas-piloto, a localidade de Zawtar el-Gharbiyeh, que as tropas libanesas entraram no mesmo dia do encontro entre Aoun e Trump, ao lado de Froun e Srifa, as outras duas aldeias cobertas por esta primeira fase. A mensagem, deliberadamente calculada, era clara: o Estado age quando diz que vai agir, e é o exército — e não qualquer facção armada — o seu instrumento. Foi esse plano que Aoun levou ao Salão Oval: uma proposta para acelerar e ampliar esse modelo, respaldada por uma proposta escrita sobre o desmantelamento do arsenal remanescente do Hezbollah, em troca de pressão de Trump sobre o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu para ampliar a retirada para além das duas zonas-piloto simbólicas e cumprir integralmente os termos originais do cessar-fogo. Trump chegou a declarar que estaria disposto a se dirigir diretamente ao Hezbollah, caso Aoun assim o solicitasse — uma oferta que, independentemente de seu valor prático, sinaliza uma Casa Branca mais comprometida com a estabilização do Líbano do que esteve desde a presidência de George W. Bush. A linha vermelha de Netanyahu, e por que ela não deve ditar as condições do Líbano Se as ambições do Estado libanês têm um teto, ele está sendo fixado agora em Israel. Em visita às tropas estacionadas na faixa ocupada do sul do Líbano, algumas semanas antes da viagem de Aoun, Netanyahu não deixou margem para ambiguidade: as forças israelenses "não sairão do sul do Líbano enquanto a ameaça não for eliminada" — uma formulação que não vincula a retirada a nenhum calendário nem à soberania libanesa, mas apenas ao julgamento unilateral de Israel sobre o momento em que o Hezbollah estará suficientemente desarmado. Ele continuou a autorizar ataques quase diários em território libanês, que Beirute considera uma flagrante violação do cessar-fogo, e as forças israelenses continuam ocupando o que hoje se denomina as «cinco colinas» — alturas situadas dentro do território libanês —, que o Hezbollah, e cada vez mais o próprio governo libanês, citam como a prova mais concreta de que é Israel, e não o Hezbollah, quem viola hoje o cerne do acordo firmado com o cessar-fogo de novembro de 2024. O diagnóstico merece atenção, pois revela a assimetria incômoda que perpassa todo o projeto de desarmamento. Pede-se ao Estado libanês que cumpra uma tarefa concreta, verificável e sequenciada — coletar e destruir todo um arsenal não estatal construído ao longo de quatro décadas — dentro de um calendário político definido, enquanto a obrigação recíproca de Israel, a retirada, permanece refém de uma avaliação israelense da ameaça, subjetiva e indefinidamente revisável. A avaliação da Anistia Internacional sobre o acordo-quadro foi direta a esse respeito, classificando-o como um acordo que «trai as vítimas de crimes de guerra» ao deixar de vincular qualquer mecanismo de responsabilização à continuidade dos ataques israelenses contra civis libaneses, ao mesmo tempo em que exige um desarmamento unilateral do lado libanês. Nada disso é um argumento contra o desarmamento — muito pelo contrário. É um argumento para que o Estado libanês, e seus aliados no exterior, exijam que as obrigações do acordo-quadro sejam recíprocas, e que a alavancagem de Washington sobre Netanyahu — que Trump demonstrou esta semana estar disposto a usar — seja empregada generosamente para obter a retirada das «cinco colinas» e o fim dos ataques, e não apenas para repreender Beirute sobre prazos. A fórmula que Aoun usou diante de seus interlocutores americanos — segundo a qual só Trump possui a alavancagem necessária para mover Netanyahu — não é um recurso retórico. É o reconhecimento preciso de onde reside o poder real nessa equação, e uma forma implícita de exigir que Washington o utilize. A recusa do Hezbollah, e o terreno que se desfaz sob seus pés Como era de se esperar, o Hezbollah não aceitou nada disso. Nos dias que antecederam a viagem de Aoun a Washington, o secretário-geral Naïm Qassem fez uma de suas intervenções públicas mais incisivas, classificando o acordo-quadro de junho de «nulo e sem efeito», de «humilhação» e de um acordo redigido «inteiramente em favor de Israel». Ele exortou Aoun a abandoná-lo completamente e a buscar apenas negociações indiretas, insistindo que «a prioridade é restaurar a soberania e pôr fim à presença israelense» — uma formulação que inverte exatamente o sequenciamento adotado pelo governo e que, na prática, equivaleria a conceder ao Hezbollah um direito de veto indefinido sobre o monopólio estatal das armas, condicionando o desarmamento a uma retirada israelense para a qual a manutenção do próprio armamento do grupo oferece a Israel todos os pretextos para protelar. É preciso nomear a armadilha dupla que o Hezbollah tenta construir aqui, pois ela constitui a verdadeira batalha retórica de todo o debate sobre o desarmamento. O partido afirma que não se desarmará enquanto houver tropas israelenses em solo libanês. Israel afirma que não se retirará enquanto o Hezbollah permanecer armado. Ambas as posições podem ser sinceramente sustentadas, e ambas servem, convenientemente, para adiar indefinidamente a verdadeira prova de soberania que o Líbano aguarda desde que o Acordo de Taif, em 1989, prometeu — sem jamais cumprir — a dissolução de todas as milícias. A tarefa do governo libanês — e é mérito de Aoun que seu governo tenha começado a compreendê-la — consiste em romper esse ciclo, em vez de arbitrá-lo, demonstrando, por meio das implantações nas zonas-piloto, que o Estado é capaz de estender sua autoridade de boa-fé independentemente da cooperação do Hezbollah, e usando essa boa-fé demonstrada para obter, através de Washington e não do arsenal do Hezbollah, uma reciprocidade israelense real e verificável. Há sinais de que esse ciclo já está se fragmentando, e o Hezbollah sabe disso. Quando o ministro iraniano das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, chegou a Beirute no início do ano carregando, segundo diversas fontes, dinheiro em espécie destinado ao partido, as autoridades libanesas teriam bloqueado a entrada desses recursos — um episódio menor, mas revelador, que teria sido impensável na economia política libanesa apenas três anos atrás, quando os circuitos que ligavam o Hezbollah a Teerã operavam com total impunidade. Araghchi passou a afirmar, com diplomacia, que o Irã "apoia qualquer decisão tomada pelo partido", mas "não intervém" — um recuo calculado em relação à época em que autoridades iranianas apresentavam o arsenal do Hezbollah como um elemento de dissuasão regional inegociável. Aoun, por sua vez, mostrou uma franqueza incomum em resposta, afirmando a seus interlocutores que as decisões do Hezbollah cabem, em última instância, a Teerã, e declarando, em termos que teriam sido perigosos para qualquer presidente libanês pronunciar há dez anos, que "ninguém negocia em nosso nome". O Eixo da Resistência, enfraquecido pela queda do regime Assad na Síria, pela decapitação do comando do Hezbollah por Israel e pelas próprias preocupações de um Irã absorvido por seus conflitos internos, simplesmente não é mais a força que era quando a última tentativa de desarmamento fracassou, em 2006. Nada garante o sucesso desta vez. Mas o equilíbrio das pressões virou, pela primeira vez em décadas, a favor do Estado. O Hezbollah e seu patrono iraniano se encontram, de forma mais ampla, em uma posição sensivelmente enfraquecida no plano regional. O confronto americano-iraniano no Golfo tensiona os recursos financeiros e militares que Teerã pode destinar a seus aliados regionais, enquanto o exército sírio reforçou a vigilância ao longo da fronteira, ampliando sua presença nas zonas limítrofes e fechando passagens clandestinas e túneis de contrabando que antes serviam para reabastecer o Hezbollah. Esse esforço estrangula o partido por outro ângulo: seu estoque de mísseis, drones e munições já foi consideravelmente reduzido pelos ataques israelenses e por meses de combates, e o fechamento do corredor sírio complica a reposição do que foi perdido, ao mesmo tempo em que seca os circuitos de financiamento que antes passavam por Damasco. Por fim, as destruições infligidas ao sul do Líbano, e as centenas de milhares de pessoas que deslocaram, erodiram o apoio ao Hezbollah dentro das próprias comunidades que ele afirma defender — um custo político e moral que pode ser mais difícil de reverter do que qualquer perda militar. O dinheiro do Golfo e a alavancagem que ele compra Se Washington fornece a força diplomática desse processo, o Golfo fornece sua lógica econômica, com uma franqueza que as elites libanesas de uma geração anterior, acostumadas ao mecenato do Golfo sem maiores condições, acharam desconcertante. A Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Kuwait disseram diretamente a Aoun e ao primeiro-ministro Nawaf Salam que os fundos de reconstrução e investimento estariam condicionados a um plano de desarmamento com um calendário preciso — e não a uma mera aspiração vaga. Tom Barrack, o enviado da administração Trump para a região, descreveu esse arranjo em termos quase transacionais: os governos do Golfo, disse ele, fizeram saber a Beirute que «se vocês fizerem essas coisas, viremos ao sul do Líbano e financiaremos uma zona industrial, a renovação e a geração de empregos». A Arábia Saudita e o Catar, dentro dessa lógica, investiriam diretamente no sul assim que as armas do Hezbollah desaparecessem, transformando esse mesmo território — que abrigou durante quatro décadas as infraestruturas de uma milícia — em vitrine do que poderia ser, economicamente, um Líbano desarmado e sob controle do Estado. A dimensão do que está assim suspenso à espera do desarmamento não é trivial. A avaliação rápida de danos e necessidades do Banco Mundial estima as necessidades totais de reconstrução e recuperação do Líbano após a guerra de 2024 em cerca de 11 bilhões de dólares, dos quais 4,6 bilhões em danos apenas no setor habitacional e 3,4 bilhões em perdas adicionais para o comércio, a indústria e o turismo. A economia libanesa, já exausta desde o colapso financeiro de 2019, contraiu-se mais 7,1% em 2024 em consequência da guerra. Washington teria aprovado um pacote de 230 milhões de dólares destinado especificamente a apoiar as operações de desarmamento conduzidas pelo exército libanês, e uma conferência internacional mais ampla sobre o apoio às forças armadas libanesas — esperada para os próximos meses — deverá coordenar o financiamento que dará ao exército os meios para ser, de fato, a força capaz de impor o monopólio estatal das armas, e não apenas de proclamá-lo. Esse é, em suma, o conjunto de incentivos que o Estado libanês nunca teve à sua disposição até agora: uma coalização internacional crível e bem financiada, pronta a financiar concretamente os benefícios do desarmamento, e não apenas a exigi-lo em palavras. Isso dá a Beirute algo a oferecer às comunidades céticas do sul — as cidades e aldeias xiitas que abrigaram as infraestruturas do Hezbollah por uma geração — e que precisarão constatar um desenvolvimento tangível, e não simples lições estrangeiras sobre soberania, para que a presença do Estado seja percebida como uma melhoria real, e não como uma ocupação com outro nome. O dinheiro, por si só, não dissolverá oitenta anos de desconfiança confessional. Mas sem ele, nenhum governo libanês poderia razoavelmente pedir ao sul que trocasse um patrono armado familiar por uma promessa de proteção estatal ainda jamais testada. A ONU recua enquanto o Estado avança Outra mudança estrutural merece atenção, pois redesenhará a arquitetura de segurança do sul do Líbano independentemente do desfecho das negociações sobre o desarmamento: o Conselho de Segurança das Nações Unidas votou pelo encerramento da UNIFIL, a missão de manutenção da paz que patrulha a fronteira libano-israelense desde 1978, cujo mandato e operações deverão terminar no final de 2026. Por quase cinquenta anos, a UNIFIL foi ao mesmo tempo indispensável e insuficiente — uma presença de observação sem o mandato nem o poder de fogo necessários para desarmar efetivamente o Hezbollah, mas cujos capacetes azuis ofereciam um amortecedor diplomático e um olhar reconhecido internacionalmente sobre uma fronteira volátil. A sua retirada elimina esse amortecedor precisamente no momento em que se pede ao exército libanês que assuma a plena responsabilidade por um território que a UNIFIL antes ajudava a vigiar. Lida com ceticismo, essa decisão poderia parecer a comunidade internacional lavando as mãos de um problema que geriu sem resolver durante meio século, deixando Beirute sozinha diante da superioridade militar israelense e das capacidades residuais do Hezbollah. Lida com mais otimismo — e é o otimismo que o governo de Aoun parece adotar —, a retirada da UNIFIL funciona como um mecanismo de intimação, um prazo definitivo que não deixa mais ao exército libanês a possibilidade de permanecer um parceiro subordinado no sul do seu próprio país. Qual dessas duas leituras se revelará correta dependerá quase inteiramente de saber se o financiamento e a formação internacionais prometidos em conjunto com o desarmamento se concretizarão segundo o calendário de que o exército precisa, e não segundo aquele que convém aos ciclos orçamentários estrangeiros. O que a restauração do Estado realmente exige É preciso esclarecer o que significa «restaurar o Estado libanês» neste contexto, pois a expressão é invocada por cada campo em Beirute para fins diferentes, frequentemente contraditórios. Isso não significa simplesmente deslocar soldados para aldeias antes controladas pelo Hezbollah, ainda que essa seja uma primeira etapa necessária — a mesma que está em curso nas zonas piloto. Significa, mais fundamentalmente, restabelecer o princípio constitucional — inscrito no Acordo de Taif há trinta e seis anos e jamais aplicado — segundo o qual o Estado libanês detém sozinho o monopólio legítimo da violência organizada em seu território. Todas as outras crises não resolvidas da governança libanesa — da paralisia dos sucessivos governos à incapacidade do país de conduzir uma política externa independente, passando pelo colapso do seu setor bancário — remetem, de uma forma ou de outra, à existência de um ator armado não estatal mais poderoso do que o exército que deveria responder perante a autoridade civil eleita. O governo de Aoun, e o gabinete do Primeiro-Ministro Salam ao seu lado, fizeram a aposta calculada de que o momento finalmente chegou para fazer valer esse princípio — não pelo tipo de confronto que mergulhou o Líbano na guerra civil em 1975 ou que levou os homens armados do Hezbollah às ruas de Beirute em maio de 2008, mas por meio de uma sequência negociada, garantida internacionalmente e incentivada economicamente, que ofereça ao que resta da base do Hezbollah uma saída honrosa, e às comunidades xiitas do sul um interesse tangível no sucesso do Estado. É uma aposta baseada numa leitura honesta da correlação de forças regional: um Hezbollah privado dos seus principais comandantes e de grande parte do seu arsenal pela campanha israelense de 2024, um Irã absorto nos seus próprios confrontos e incapaz de reabastecer ou reconstituir o partido como fazia outrora, um regime sírio que não oferece mais ao Hezbollah o corredor logístico do qual ele dependia há décadas, e um bloco formado pelos Estados Unidos e pelo Golfo mais disposto do que em qualquer momento desde 2006 a investir capital diplomático e financeiro real na construção do Estado libanês, em vez de se limitar a conter o caos libanês. Nada disso torna o sucesso inevitável. O Hezbollah mantém um arsenal ainda considerável, uma base política dedicada, e demonstrou em 2008 a sua disposição de virar as armas contra outros libaneses quando julgou a sua posição existencialmente ameaçada. O próprio comportamento de Israel — a continuação da ocupação das cinco colinas, os ataques quase diários, a condicionalidade sem prazo definido imposta por Netanyahu à retirada — confere ao argumento do Hezbollah, segundo o qual se pede ao Líbano que desarme unilateralmente num vazio, um fundamento real, e não meramente retórico, junto a libaneses que, de outra forma, poderiam apoiar o projeto do Estado. E o exército libanês, por mais profissionalizado que seja e independentemente da confiança que goza para além das divisões confessionais, continua a ser subequipado e subfinanciado para assumir simultaneamente a segurança do sul, a manutenção da linha face às incursões israelenses e a ordem interna — o que explica precisamente por que a conferência de financiamento e o pacote americano de 230 milhões de dólares importam tanto quanto qualquer comunicado emitido pelo Salão Oval. A aposta que é preciso fazer em Beirute O que não se deve perder de vista, em meio a esses obstáculos bem reais, é a raridade desta configuração na história contemporânea do Líbano. É difícil identificar outro momento, desde o Acordo de Taif, em que um chefe de Estado libanês foi a Washington portando seu próprio plano escrito, em vez de receber um plano que lhe foi ditado; em que as capitais do Golfo condicionaram sua ajuda à soberania, em vez de simplesmente financiar padrinhos confessionais rivais, como fizeram ao longo dos anos 1990 e 2000; em que o padrinho regional do Hezbollah esteve tão constrangido; e em que uma administração americana se mostrou disposta — como Trump fez esta semana ao propor dialogar pessoalmente com o Hezbollah e ao comprometer-se a pressionar Netanyahu — a investir capital político em nome do Estado libanês, em vez de tratar o Líbano como um teatro secundário do confronto israelense-iraniano. Nossa convicção é que os amigos do Líbano — em Washington, no Golfo e entre os libaneses comuns, esgotados por cinquenta anos vivendo dentro das guerras alheias — deveriam encarar esta configuração pelo que ela é: não uma garantia, mas uma janela de oportunidade genuína, e uma janela que não permanecerá aberta indefinidamente. A posição regional do Irã pode se estabilizar. A atenção do Golfo pode se voltar para outras prioridades. As administrações americanas mudam, e com elas o investimento pessoal que um determinado presidente está disposto a fazer em relação a um pequeno país mediterrâneo de seis milhões de habitantes. O governo Netanyahu pode concluir que uma ocupação indefinida tem, do ponto de vista da política interna, um custo menor do que uma retirada negociada. Qualquer uma dessas mudanças pode fechar a janela que, por ora, permanece aberta. O que as instituições do Estado libanês mais precisam neste momento não é de um novo documento-quadro nem de mais um aperto de mão fotografado, por mais bem-vindos que sejam um e outro. Elas precisam que o exército libanês seja devidamente equipado para expandir o modelo das zonas piloto a todo o sul do Litani, segundo um calendário medido em meses e não em anos. Elas precisam que Washington trate a reciprocidade israelense — uma retirada efetiva das cinco colinas, o fim dos ataques em território libanês, o respeito aos termos reais do cessar-fogo — como um objetivo tão urgente quanto o desarmamento do Hezbollah, e não como uma consideração secundária a ser negociada depois que Beirute já tiver cedido sua principal alavanca. Elas precisam que o financiamento da reconstrução prometido pelo Golfo chegue ao sul com rapidez suficiente para que as comunidades que ali vivem percebam o retorno do Estado como uma melhoria tangível em seu cotidiano, e não como a simples substituição de um grupo de homens armados por outro. Elas precisam que o que resta da base do Hezbollah receba, de forma constante e crível, um lugar dentro de um Estado libanês funcional, em vez de ser tratado unicamente como um problema de segurança a ser resolvido pela força. E, por fim, elas precisam de uma reforma radical do sistema político e jurídico confessional libanês, que fracassou — uma reforma que lance as sementes de uma nação capaz de colocar a identidade nacional acima das lealdades e divisões confessionais inscritas na sua ordem constitucional desde 1943, e que permita o surgimento de uma nova classe política determinada a fazer do Líbano um Estado funcional em casa e um parceiro confiável no exterior. Nada disso é garantido por um aperto de mãos no Salão Oval. Mas para um país que passou meio século ouvindo que a sua soberania era refém das agendas alheias — síria, israelense, iraniana e, muitas vezes, das suas próprias facções —, ver um presidente libanês cruzar as portas da Casa Branca com o seu próprio plano, em vez de ir pedir que lhe apresentem um, não é pouca coisa. Este é o primeiro teste real, em toda uma geração, para saber se o Estado libanês pode finalmente tornar-se o único ator armado dentro da sua própria casa. O Líbano, e a região que o observa, passarão os próximos meses descobrindo se o Estado é finalmente capaz de superar essa prova.

Os Houthis revelam a fraqueza da "República Islâmica"
Por
Khairallah Khairallah
Publicado

As ameaças feitas pelos Houthis no Iêmen contra o Reino da Arábia Saudita e contra o tráfego marítimo que atende seus portos não têm qualquer horizonte, nem político nem militar. Simplesmente não têm condições de cumprir a ameaça de impor um bloqueio aos portos sauditas. Na realidade, com suas declarações grandiosas e sem qualquer conteúdo concreto, os Houthis desperdiçaram a oportunidade de se tornarem um componente pleno do cenário político iemenita, cujo objetivo é alcançar uma solução política que não exclua nenhuma das partes. Ao demonstrarem abertamente seu alinhamento com a "República Islâmica", eles próprios se excluíram desse processo político. Demonstraram, simplesmente, que são antes de tudo iranianos, e não iemenitas, e que qualquer esperança de vê-los recuperar um mínimo de consciência nacional não passava de uma ilusão. No fim das contas, essa aposta não foi mais do que uma perda de tempo. Nos últimos anos, especialmente desde a assinatura do acordo entre a Arábia Saudita e o Irã, mediado pela China em março de 2023, os Houthis haviam demonstrado certa contenção, adotando uma neutralidade apenas de fachada. Procuraram manter o diálogo com Riad, evitando qualquer tipo de provocação. As conversas, ora diretas, ora indiretas, buscavam estabelecer uma fórmula de convivência entre as duas partes. Então, de forma repentina, quando a "República Islâmica" no Irã, ou mais precisamente o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, decidiu intensificar a escalada militar, os Houthis, por meio de seu líder Abdel Malek al-Houthi, revelaram sua verdadeira natureza: não podem ser outra coisa senão um instrumento do Irã. Eles decidiram participar da ofensiva iraniana contra os Estados Árabes do Golfo e contra a Jordânia, uma ofensiva que reflete um fracasso iraniano sem precedentes. Dessa forma, os Houthis demonstraram que não passam de mais um braço da Guarda Revolucionária, assim como o Hezbollah no Líbano. É verdade que podem perturbar a navegação no Mar Vermelho e no Golfo de Áden contando com piratas somalis que possam ser recrutados para determinadas operações. Mas isso não significa, de forma alguma, que sejam capazes de fechar o estreito de Bab el-Mandeb, passagem obrigatória para o Mar Vermelho e o Canal de Suez. A razão é muito simples: os Houthis não controlam o porto iemenita de Mokha, que domina o tráfego em Bab el-Mandeb. Eles perderam esse porto ainda no outono de 2014, quando forças iemenitas os expulsaram do sul do país, incluindo esse ponto estratégico. Não é segredo para ninguém que essas forças locais, que também retomaram Áden, Mokha e várias posições na província de Shabwa, contavam com o apoio dos Emirados Árabes Unidos, cuja política no Iêmen tinha como objetivo claro impedir que os Houthis assumissem o controle de todo o país, especialmente da região sul. Mais cedo ou mais tarde, a comunidade internacional e as potências regionais terão de voltar sua atenção para o Iêmen, dada a importância estratégica excepcional do país, pelo menos por duas razões. A primeira é que o território iemenita pode servir de corredor para oleodutos capazes de contornar o Estreito de Ormuz. A segunda é que, caso não seja possível transportar petróleo por dutos que atravessem o Iêmen até o Mar Vermelho ou o Mar da Arábia, nem os países da região nem o restante do mundo poderão suportar por muito tempo a permanência do Irã no Iêmen. Em outras palavras, é impossível aceitar que o Irã continue dificultando a navegação no Mar Vermelho a partir do território iemenita. Não é segredo para ninguém que a "República Islâmica", por meio dos Houthis, está determinada a manter seu domínio sobre o Iêmen para utilizá-lo no fechamento do estreito de Bab el-Mandeb e atacar embarcações que seguem em direção ao Canal de Suez. Essa é, de fato, a intenção dos Houthis. No entanto, a perda do controle do porto de Mokha os priva dos meios necessários para transformar essas ameaças em realidade. Também é importante lembrar que os Houthis controlam Sanaã e uma parte significativa do território iemenita desde 21 de setembro de 2014. Nada demonstra melhor o empenho do Irã em manter sua presença no Iêmen do que sua recente insistência em violar a proibição imposta ao aeroporto de Sanaã. Teerã enviou um avião civil sob o pretexto de transportar uma delegação iemenita que participaria do funeral do falecido "Líder Supremo", Ali Khamenei. O Irã não parou por aí. Após um longo período de relativa calma e de diálogo com Riad, os Houthis lançaram repentinamente uma campanha contra o Reino da Arábia Saudita, acompanhada de ameaças explícitas. Essa fase havia permitido aos Houthis obter certas vantagens, diretamente ou por meio da mediação do Sultanato de Omã. A questão que hoje se coloca tem duas dimensões. A primeira diz respeito à real capacidade dos Houthis de concretizar suas ameaças contra a Arábia Saudita e contra a navegação no Mar Vermelho. A segunda refere-se ao fracasso do regime iraniano. Quanto ao primeiro ponto, os Houthis continuam tendo capacidade para atacar navios mercantes e petroleiros que transitam pelo Mar Vermelho, principalmente porque controlam o porto de Hodeida, de enorme importância estratégica nessa costa. Já o Irã optou por atacar os Estados árabes do Golfo e a Jordânia, em vez de enfrentar diretamente os Estados Unidos ou Israel. Teerã mira o Kuwait, o Bahrein, os Emirados Árabes Unidos, o Catar e o Sultanato de Omã, enquanto encarrega os Houthis de atacar a Arábia Saudita. Em contrapartida, evita atingir qualquer navio de guerra americano que navegue pelo Golfo. Em última análise, as ameaças dos Houthis não passam de um sintoma do fracasso de um regime iraniano cujo esgotamento já não pode mais ser ocultado. Elas revelam, em prejuízo do Iêmen e dos iemenitas, que o fim desse regime é agora inevitável. É apenas uma questão de tempo, desde que os Houthis expuseram ao mundo a fraqueza da "República Islâmica" e a dimensão de seu fracasso.

Líbano: o Hezb entrou em uma fase sem retorno?

Desde o fim da guerra de julho de 2006, libaneses e observadores se acostumaram a medir o poder do Hezbollah pelo número de mísseis que possuía, pela dimensão de seu arsenal ou por sua capacidade de ameaçar Israel. Mas os acontecimentos atuais impõem um critério completamente diferente. A questão já não é quais armas ainda lhe restam, mas se ele ainda é capaz de reconstruir o poder que acumulou ao longo de mais de quatro décadas. É justamente aí que está o principal desafio do momento. Após o encontro entre o presidente da República, general Joseph Aoun, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, da intensa atividade diplomática americana que o antecedeu e o sucedeu, do processo de negociações iniciado em Roma, assim como das discussões cada vez mais frequentes sobre a ampliação do deslocamento do Exército libanês e sobre a relação estabelecida entre a reconstrução do país e o restabelecimento, pelo Estado, de sua autoridade em matéria de segurança, fica claro que a abordagem internacional já não busca apenas o desarmamento do Hezbollah, seja por decisão política ou por meio de uma operação militar. Agora, o objetivo é tornar a reconstrução de seu poder militar cada vez mais difícil, ou até impossível. Em outras palavras, a estratégia deixou de se concentrar na destruição das capacidades militares e passou a impedir sua reconstrução. É à luz dessa mudança que deve ser compreendido o que se pode chamar de “erosão estrutural”, um processo que afeta simultaneamente cinco dimensões interdependentes: o território, o arsenal, o ambiente social, as instituições e a profundidade regional. Primeiro: a perda do território como espaço militar As aldeias do sul do Líbano não eram apenas locais de posicionamento dos combatentes do Hezbollah. Faziam parte de uma arquitetura militar complexa, composta por túneis, depósitos de armas, centros de comando e posições fortificadas de lançamento. A guerra mais recente atingiu essa infraestrutura com uma intensidade sem precedentes. Ao mesmo tempo, o deslocamento do Exército libanês e os mecanismos internacionais de monitoramento tornam qualquer tentativa de reconstrução mais difícil e muito mais exposta à detecção e a ataques. O controle do território já não se resume à simples presença geográfica. Ele implica a capacidade de utilizá-lo para fins militares. E essa capacidade está se deteriorando rapidamente. Segundo: o enfraquecimento das capacidades militares O Hezbollah ainda possui armas e mantém capacidade para realizar operações limitadas, caso decida fazê-lo. Mas existe uma diferença fundamental entre possuir meios para provocar danos táticos e ser capaz de sustentar uma guerra estratégica de longa duração. Seu arsenal de mísseis de precisão sofreu perdas significativas. As estruturas de comando e controle tornaram-se mais vulneráveis, enquanto as linhas de abastecimento já não funcionam como antes. Ao mesmo tempo, as transferências de armas pela Síria e pelo Iraque tornaram-se muito mais complexas devido às mudanças políticas e de segurança nesses dois países, somadas a um controle regional e internacional cada vez mais rigoroso. Assim, o Hezbollah parece estar mais apto a utilizar o que ainda possui do que a substituir aquilo que perdeu. Terceiro: a transformação do ambiente social Talvez este seja o fator mais sensível. O sul do Líbano saiu da guerra profundamente marcado pela destruição, pelo deslocamento da população e pelas perdas econômicas. Diante da urgência da reconstrução, uma parcela cada vez maior da população passou a depender mais do Estado, bem como da ajuda árabe e internacional. Ao mesmo tempo, as instituições sociais e financeiras do Hezbollah já não parecem capazes de desempenhar o papel que exerceram após a guerra de 2006, devido às restrições econômicas, às dificuldades logísticas e às mudanças no contexto regional. Isso não significa que esteja ocorrendo uma mudança política dentro da comunidade xiita. No entanto, as prioridades parecem estar mudando. A busca por estabilidade e pela reconstrução da vida cotidiana tende, gradualmente, a prevalecer sobre a lógica do confronto permanente. Nesse contexto, oferecer uma base social para a reconstrução da infraestrutura militar torna-se mais difícil do que nunca. Quarto: o Estado retoma seu lugar Pela primeira vez em muitos anos, o Estado libanês atua, com apoio internacional explícito, para reafirmar seu papel na segurança do sul do Líbano. O Exército libanês já não é apenas uma força posicionada ao lado de outros atores. Agora, é vista como a única instituição legítima chamada a exercer o monopólio do uso da força armada. Nessa perspectiva, as negociações em andamento já não se assemelham a simples acordos provisórios de segurança. Elas buscam consolidar uma nova realidade na qual as áreas de atuação do Exército estejam exclusivamente sob a autoridade do Estado, enquanto a ajuda internacional e a reconstrução permanecem condicionadas à manutenção dessa situação. Com isso, a margem de manobra militar do Hezbollah diminui gradualmente, não apenas no terreno, mas também nos planos jurídicos e políticos. Quinto: uma profundidade regional profundamente transformada Desde sua criação, o Hezb contou com uma rede regional de apoio estabelecida pelo Irã por meio da Síria e, posteriormente, do Iraque. Hoje, essa rede enfrenta desafios crescentes. As fronteiras estão sob vigilância reforçada. Os equilíbrios políticos em Damasco e Bagdá mudaram. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos buscam incorporar essas restrições a uma arquitetura regional de segurança de longo prazo, destinada a impedir a reconstrução das capacidades militares em troca de reconstrução e estabilidade. O objetivo já não é confiscar cada arma, mas tornar qualquer projeto de rearmamento politicamente, economicamente e militarmente proibitivo. Além das armas: a batalha pela capacidade de regeneração A importância dessas mudanças reside no fato de que elas não atingem apenas um elemento isolado. Elas afetam todo o mecanismo que permitia ao Hezbollah reconstruir continuamente seu poder. O território já não oferece o mesmo nível de segurança. As linhas de abastecimento tornaram-se mais frágeis. O ambiente social está mais desgastado. O Estado fortalece sua presença. E o apoio internacional manifesta-se com uma clareza inédita. Diante disso, a verdadeira pergunta já não é: o Hezbollah ainda possui mísseis? Agora, a questão é outra: daqui a cinco anos, ele ainda será capaz de recuperar o nível de poder que tinha antes da guerra? É a resposta a essa pergunta que definirá o futuro do Líbano, muito mais do que o número de mísseis ainda disponíveis atualmente. Rumo a um novo modelo Se Washington conseguir, juntamente com seus parceiros regionais e internacionais, consolidar nos próximos meses os avanços obtidos no processo de Roma, o Líbano poderá entrar em uma transição histórica, passando da lógica do “equilíbrio pelas armas” para a do monopólio do uso da força pelo Estado. Essa transição não será rápida nem estará livre de obstáculos ou de tentativas de sabotagem. Ainda assim, os sinais atuais sugerem que a estratégia internacional já não consiste em derrotar militarmente o Hezbollah, mas em integrá-lo gradualmente ao sistema político libanês, ao mesmo tempo em que o priva, passo a passo, dos fatores que fizeram dele, ao longo das últimas décadas, uma potência militar regional. É nesse ponto que a noção de erosão estrutural adquire todo o seu significado. A história mostra que organizações armadas não desaparecem quando perdem uma batalha, mas quando perdem a capacidade de compensar suas perdas e de reconstruir seu poder. Talvez seja justamente esse o principal desafio que o Hezb enfrenta hoje. E, provavelmente, também o verdadeiro fio condutor da nova fase em que entram o Líbano e toda a região.

Rumo à neutralização do trunfo iraniano dos Houthis

Há mais de 11 dias consecutivos, a República Islâmica do Irã vem sendo submetida, todas as noites, a intensos bombardeios e ataques dos Estados Unidos contra posições da Guarda Revolucionária, infraestrutura militar e rotas de comunicação em diversas regiões do país. Ao mesmo tempo, o bloqueio marítimo imposto pelas Forças Armadas americanas aos portos iranianos está sufocando severamente uma economia que já se encontrava em uma situação especialmente crítica. Para completar, o próprio regime parece estar mergulhado em profundas divisões internas que ameaçam sua própria sobrevivência. Diante de uma situação cada vez mais entrópica, na qual se envolveram como resultado direto de suas próprias políticas expansionistas e hegemônicas, que não reconheciam limites, as autoridades de Teerã buscam agora “exportar” o conflito, ampliando-o para toda a região, enquanto evitam cuidadosamente Israel. Ao mesmo tempo, tentam explorar ao máximo uma carta que utilizam por meio de métodos característicos de milícias e do crime organizado: a ameaça de paralisar as rotas internacionais de navegação, colocando em risco uma parte significativa da economia mundial. Essa estratégia de exportar sua própria crise se traduziu em ataques com drones e mísseis não apenas contra os países do Golfo, como ocorre desde o início do conflito em junho de 2025, mas também, de forma crescente, contra a Jordânia, o Iraque, onde grupos de oposição iranianos foram alvo de ataques, e, mais recentemente, a Síria. O mais recente movimento do regime dos aiatolás nessa campanha foi reativar a carta Houthi. A milícia iemenita controlada por Teerã renovou e intensificou, nos últimos dias, suas ameaças contra a Arábia Saudita. Também afirmou ter imposto um bloqueio marítimo aos portos sauditas. A manobra de Teerã é clara: ampliar sua campanha de chantagem e intimidação para o Estreito de Bab el Mandeb e o Mar Vermelho, em uma tentativa de aliviar a pressão militar americana sobre a infraestrutura da Guarda Revolucionária. No entanto, a quarta-feira foi marcada por uma série de declarações contundentes que tendem a neutralizar a carta houthi do Irã. O presidente Donald Trump reiterou, na quarta-feira, como já havia feito durante seu encontro com o presidente Joseph Aoun, que os Estados Unidos não permanecerão passivos caso os Houthis ameacem a liberdade de navegação no Estreito de Bab el Mandeb e no Mar Vermelho. Em sintonia com essa posição, a Síria e, sem surpresa, o secretário-geral do Conselho de Cooperação do Golfo condenaram energicamente, na quarta-feira, as ameaças dos Houthis contra a Arábia Saudita. Mas a reação mais significativa veio, sem dúvida, do Paquistão, apesar de seu papel como principal mediador entre Irã e Estados Unidos e, sobretudo, como um dos principais aliados da República Islâmica, ao menos até certo ponto. Islamabad condenou duramente os ataques Houthis contra o reino saudita, ressaltando seu compromisso com a segurança e a soberania da Arábia Saudita, lembrando que os dois países são vinculados por um pacto de defesa e segurança. O governo paquistanês advertiu ainda que responderá com firmeza, “se necessário com o uso da força”, conforme especificou, a qualquer ataque contra uma embarcação paquistanesa que transite pela via marítima em questão. Paralelamente à neutralização da carta houthi do Irã, o presidente Trump elevou o tom, na quarta-feira, em seus esforços para garantir a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz. Declarou de forma inequívoca que, a partir de agora, qualquer ataque iraniano, seja com drones, mísseis ou qualquer outro meio, contra uma embarcação que transite pelo Estreito de Ormuz levará as Forças Armadas americanas a destruir imediatamente uma ponte ou uma usina de energia em território iraniano, inclusive em Teerã ou em seus arredores. Essa advertência severa reforça a neutralização da carta houthi e deveria, ao menos em princípio, moderar a postura beligerante da Guarda Revolucionária em relação ao Estreito de Ormuz. Ainda assim, o principal negociador iraniano afirmou, na quarta-feira, que “a situação no Estreito de Ormuz não voltará a ser como era antes da guerra”, confirmando a determinação da República Islâmica de exercer controle sobre a hidrovia e cobrar taxas de trânsito, apesar da rejeição categórica dessa medida por parte dos Estados Unidos, da União Europeia, dos países do Golfo e até mesmo da China. As tensões cada vez maiores apontam para a possibilidade de um ataque americano de grande escala contra o regime iraniano. Dois acontecimentos, entre outros, indicam essa possibilidade: a decisão do novo primeiro-ministro britânico de autorizar o estacionamento de aeronaves americanas em bases militares britânicas e a aprovação, pelo Parlamento da Bulgária, na noite de quarta-feira e por ampla maioria, de um pedido do governo autorizando o reabastecimento de aeronaves de combate americanas em território búlgaro. O Irã havia advertido as autoridades búlgaras contra essa decisão. Para concluir este capítulo regional, cabe destacar que o novo primeiro-ministro do Iraque, Ali al Zaidi, deverá visitar Teerã em breve. Nas circunstâncias atuais, a viagem assume um significado especial à luz das políticas adotadas pelo atual governo iraquiano, que multiplicou iniciativas e medidas destinadas a conter a influência iraniana no Iraque. Essa nova orientação da política iraquiana esteve no centro da visita do senhor al Zaidi a Washington há alguns dias, ocasião em que assinou uma série de acordos econômicos com autoridades americanas. Esses acordos foram vistos com grande desconfiança pelo regime iraniano, que denunciou uma mudança estratégica em Bagdá, aproximando-se do Ocidente em detrimento da influência da República Islâmica. O capítulo libanês A mudança estratégica voltada para conter o expansionismo iraniano também é claramente visível no tabuleiro libanês. Ela foi ainda mais consolidada após a visita oficial do presidente Joseph Aoun a Washington no início da semana e seu amplamente divulgado encontro com o presidente Trump na Casa Branca. Essa opção estratégica, que pode ser descrita como soberanista e pró-Ocidente, manifesta-se especialmente no início da implementação do acordo-quadro assinado entre Líbano e Israel em 26 de junho. Nos termos desse acordo, patrocinado pelos Estados Unidos, o Exército israelense retirou-se, na manhã de terça-feira, de Zawtar al Gharbiyeh, onde o Exército libanês foi imediatamente mobilizado e iniciou sua missão de garantir que o Hezbollah deixasse de estar presente na região. E, para destacar a importância do processo iniciado com a assinatura do acordo-quadro entre Líbano e Israel, o primeiro-ministro Nawaf Salam procurou conferir um caráter solene ao processo ao realizar uma visita não anunciada a Zawtar al Gharbiyeh. A implementação do acordo entre Líbano e Israel e as perspectivas para sua próxima fase serão tema de uma nova rodada de negociações entre os dois países, prevista para 4 de agosto, em Roma, mais uma vez sob os auspícios dos Estados Unidos. Para grande desagrado do campo iraniano…

O Líbano do patriarca Howayek, a abertura à universalidade (4/4)

Pode-se perguntar até que ponto a escolha do patriarca Élias Howayek em favor de um Líbano pluralista representava uma aposta histórica viável, considerando que as dinâmicas dominantes do mundo árabe no século XX, como a descolonização, a ascensão do nacionalismo, o crescimento do islamismo político e a contestação da modernidade ocidental, evoluíam frequentemente em direção oposta. O Líbano é um "erro da história", como alguns afirmaram, e fizeram de tudo para nos levar a duvidar de nós mesmos? O projeto pluralista defendido pelo patriarca era uma antecipação visionária da diversidade do Oriente Médio ou uma aposta histórica que se tornou progressivamente mais frágil diante das grandes transformações do século XX? Para responder a essa questão, é necessário situar a escolha do patriarca por um Líbano pluralista no "longo prazo" da história do Oriente Médio, em vez de avaliá-la apenas à luz das crises internas libanesas. Na realidade, esse projeto aparece como uma tentativa singular de institucionalizar a diversidade confessional justamente no momento em que as principais dinâmicas regionais tendiam a privilegiar modelos rígidos e homogeneizadores. A tensão permanente entre essas duas lógicas explica, em parte, as dificuldades estruturais enfrentadas pelo Líbano ao longo de um século, ao mesmo tempo em que evidencia a originalidade histórica de sua experiência política. É possível ir ainda mais longe e deslocar a análise do campo estritamente geopolítico para o da história das religiões e das ideias. Essa abordagem leva a refletir sobre a relação entre uma teologia cristã da universalidade e uma concepção política do pluralismo confessional, tal como é reconhecido e praticado no Líbano. É preciso reconhecer que a escolha do patriarca Élias Howayek por um Líbano pluralista decorre não apenas de um cálculo político, mas também de uma concepção cristã da pessoa humana. Assim, o "projeto libanês" constitui, ainda que de forma menos evidente do que hoje nos parece, a tradução política de uma antropologia cristã universal com características próprias: distinção entre o espiritual e o temporal; centralidade da cidadania civil; separação dos poderes; respeito à liberdade religiosa; reconhecimento da pluralidade e do pluralismo como elementos normais da sociedade, entre outros. De forma ainda mais ampla, o projeto do patriarca Howayek foi lançado no início de um século em que o cristianismo, como um todo, passou por um amplo movimento de abertura. Nesse contexto, podem ser identificados vários fenômenos convergentes: o desenvolvimento missionário, que enfatizava a universalidade do cristianismo mais do que seu enraizamento nacional; a afirmação dos direitos da pessoa na doutrina social da Igreja impulsionada por Leão XIII; e o fortalecimento do movimento ecumênico, que buscava superar as divisões confessionais entre católicos, ortodoxos e protestantes. O Concílio Vaticano II, na década de 1960, consolidaria essa evolução. Nele encontram-se precisamente as intuições presentes no pensamento do patriarca Howayek quarenta anos antes: liberdade religiosa; diálogo inter-religioso e reconhecimento dos valores presentes em outras tradições religiosas, especialmente o Islã; abertura ao mundo moderno ( aggiornamento ); valorização dos leigos e dos movimentos eclesiais de apostolado; abertura ao ecumenismo e à reconciliação com o mundo ortodoxo; declarações cristológicas comuns, entre outros. Não é difícil demonstrar como essas orientações contrastam com aquelas que marcariam o mundo árabe e o Oriente Médio: genocídio e limpeza étnica na Turquia; regimes totalitários cruéis e sanguinários no Iraque, na Síria e no Egito; criação de um "Estado judeu" de apartheid; ascensão do islamismo político, com a Irmandade Muçulmana e a Revolução Islâmica do Irã, entre outros. Essa tese certamente abre um debate que deve ser tratado com nuances. Não se deve apresentar o cristianismo como intrinsecamente pluralista em todos os tempos e lugares. A história cristã, inclusive no Líbano, também registra episódios de confessionalismo, intolerância e estreita aliança entre o poder político e a religião. É justamente por isso que a originalidade de Howayek se destaca ainda mais. Sua escolha em favor do pluralismo permitiu que o Líbano escapasse aos determinismos dos Estados totalitários. Vale repetir: a história do Líbano não deve ser avaliada apenas à luz de suas crises internas nem da demonização do confessionalismo político como origem de todos os nossos males. Pelo contrário, de nossa diversidade assumida, moderada e protegida nasceu uma das experiências humanas mais profundas e originais do século XX, experiência que deve ser dotada de instituições capazes de assegurar seu desenvolvimento e sua estabilidade. Feliz "erro" que nos deu uma pátria como esta. Leia também: Howayek e a exaltação do papel da mulher libanesa (3/4) “O amor à pátria”, o testamento espiritual do patriarca Howayek (2/4) O patriarca Howayek, profeta da convivência (1/4)

Antes da paz… qual é o plano do Líbano?
Por
Houssam El-Eid
Publicado

Deixemos de lado, ainda que por um instante, as objeções ao acordo-quadro, as divisões políticas que ele provocou e as diferentes posições que suscitou. Façamos, em vez disso, outra pergunta, talvez mais importante do que o próprio acordo, porque diz respeito ao que virá depois. Se partirmos da premissa de que o Líbano caminha, mais cedo ou mais tarde, para pôr fim ao seu estado de conflito com seu entorno regional, e de que o Oriente Médio avança gradualmente para uma nova etapa nas relações entre os Estados, o Estado libanês tem uma visão clara do que espera desse novo momento? Alguém sequer começou a refletir sobre a posição econômica e política que o Líbano poderá ocupar caso a ordem regional na qual vive há décadas venha a se transformar? O que chama a atenção é que o debate libanês permanece quase inteiramente concentrado nos próprios acordos: seus termos, suas garantias, seus mecanismos de implementação e as objeções que despertam. A pergunta que deveria anteceder todas as outras, porém, continua ausente: o que nós, afinal, queremos dessa transformação? Os Estados não encaram o fim de uma guerra como uma simples conquista política ou de segurança. Eles o veem como um momento decisivo para redefinir suas prioridades econômicas, repensar sua posição regional e redefinir o papel que pretendem desempenhar em seu entorno. Por isso, não se limitam a negociar acordos destinados a encerrar conflitos. Paralelamente, encomendam estudos, elaboram cenários e formulam políticas capazes de transformar a estabilidade em crescimento econômico, investimentos, geração de empregos e influência regional. No Líbano, porém, esse debate sequer parece ter começado. Não há conhecimento de nenhum estudo nacional que avalie o impacto que uma transformação dessa natureza poderia ter sobre a economia libanesa, nem existe uma visão abrangente capaz de identificar os setores que poderão se tornar os motores do crescimento nos próximos anos. Tampouco houve um debate sério sobre o papel que o Líbano deveria aspirar a desempenhar no Mediterrâneo Oriental caso a configuração política da região venha a se transformar. É como se partíssemos do pressuposto de que qualquer acordo, uma vez alcançado, conduzirá automaticamente à prosperidade, quando a experiência internacional demonstra exatamente o contrário: a estabilidade, por si só, não produz desenvolvimento. Ela apenas cria as condições para que ele seja alcançado por aqueles que sabem aproveitá-las. Mais importante ainda, o Líbano não se vê diante da necessidade de redefinir apenas uma relação, mas da perspectiva de estabelecer relações distintas com dois Estados cujas estruturas econômicas são profundamente diferentes. Essa realidade exige, necessariamente, duas abordagens completamente distintas. A relação com a Síria, caso venha a se consolidar sobre bases claras que respeitem plenamente a soberania de ambos os Estados, aproximará duas economias que enfrentam desafios bastante semelhantes. Ambos os países buscam reconstruir suas economias, restaurar a confiança, modernizar sua infraestrutura e revitalizar seus setores produtivos. Isso abre espaço para repensar o trânsito de mercadorias e pessoas, modernizar as passagens de fronteira legais, integrar as redes de transporte e energia e participar de um eventual processo de reconstrução dentro de um marco transparente que preserve os interesses libaneses e impeça o retorno dos padrões de dependência e ingerência pelos quais o Líbano pagou um preço elevado ao longo de décadas. Em sua essência, será uma relação baseada na busca de complementaridades entre duas economias que procuram se reerguer juntas. A relação com Israel, por outro lado, parte de uma realidade completamente diferente. Não estamos falando de duas economias comparáveis, mas de uma enorme disparidade em termos de dimensão econômica, desenvolvimento tecnológico, capacidade de inovação, força industrial, acesso aos mercados globais e capacidade de atrair investimentos. Por isso, a questão assume uma dimensão distinta. O verdadeiro desafio não está no volume do comércio bilateral direto, mas na forma como o Líbano conseguirá se posicionar em um ambiente econômico regional marcado pela presença de uma economia com esse grau de desenvolvimento. Em situações como essa, países de menor porte não podem construir sua estratégia competindo diretamente com economias maiores nos mesmos setores. Ao contrário, precisam identificar as áreas em que são capazes de gerar valor agregado diferenciado, seja nos serviços, na educação, na economia digital, nas indústrias criativas, nas finanças, na saúde ou em qualquer outro setor que lhes permita desempenhar um papel singular na região. Isso conduz inevitavelmente à pergunta que deveria estar no centro de qualquer debate nacional nas próximas décadas: qual papel o Líbano deseja desempenhar no Oriente Médio nos anos que virão? Desde a independência, o Líbano jamais escolheu conscientemente esse papel. Em determinados momentos, a geografia fez dele um centro financeiro; em outros, as guerras o transformaram em um palco de confrontos. Mais tarde, as transformações regionais o levaram a assumir funções transitórias ditadas muito mais pelas circunstâncias do que por uma decisão nacional. Mas, se a região realmente estiver ingressando em uma nova etapa, o Líbano não poderá mais continuar esperando que os acontecimentos externos definam sua função. Pela primeira vez em décadas, caberá aos próprios libaneses decidir que tipo de economia desejam construir, qual modelo de desenvolvimento pretendem adotar e que lugar aspiram ocupar na região. Diante disso, o que o Líbano necessita não é de mais um debate sobre as cláusulas dos acordos, mas de lançar um grande esforço nacional para elaborar uma visão abrangente do fase posterior aos conflitos. Um esforço que comece pela economia antes da política e pela definição da identidade futura do Líbano antes de discutir a natureza de suas relações com seu ambiente regional. Afinal, os acordos, por si sós, não constroem o futuro dos Estados. Eles apenas abrem novas oportunidades. O futuro de um país dependerá, em última instância, de sua capacidade de aproveitá-las e transformá-las em um projeto nacional coerente. Talvez a maior ironia seja esta: o Líbano passou tantos anos debatendo a guerra sem jamais discutir seriamente como pretende viver quando os conflitos terminarem. Se a transformação regional que hoje começa a se desenhar vier efetivamente a se concretizar, a verdadeira questão não será saber se somos favoráveis ou contrários a este ou àquele acordo. Será saber se, pela primeira vez, dispomos de uma visão clara do Líbano que queremos construir quando a região ao nosso redor tiver mudado.