

Deixemos de lado, ainda que por um instante, as objeções ao acordo-quadro, as divisões políticas que ele provocou e as diferentes posições que suscitou. Façamos, em vez disso, outra pergunta, talvez mais importante do que o próprio acordo, porque diz respeito ao que virá depois.
Se partirmos da premissa de que o Líbano caminha, mais cedo ou mais tarde, para pôr fim ao seu estado de conflito com seu entorno regional, e de que o Oriente Médio avança gradualmente para uma nova etapa nas relações entre os Estados, o Estado libanês tem uma visão clara do que espera desse novo momento? Alguém sequer começou a refletir sobre a posição econômica e política que o Líbano poderá ocupar caso a ordem regional na qual vive há décadas venha a se transformar?
O que chama a atenção é que o debate libanês permanece quase inteiramente concentrado nos próprios acordos: seus termos, suas garantias, seus mecanismos de implementação e as objeções que despertam. A pergunta que deveria anteceder todas as outras, porém, continua ausente: o que nós, afinal, queremos dessa transformação?
Os Estados não encaram o fim de uma guerra como uma simples conquista política ou de segurança. Eles o veem como um momento decisivo para redefinir suas prioridades econômicas, repensar sua posição regional e redefinir o papel que pretendem desempenhar em seu entorno. Por isso, não se limitam a negociar acordos destinados a encerrar conflitos. Paralelamente, encomendam estudos, elaboram cenários e formulam políticas capazes de transformar a estabilidade em crescimento econômico, investimentos, geração de empregos e influência regional.
No Líbano, porém, esse debate sequer parece ter começado. Não há conhecimento de nenhum estudo nacional que avalie o impacto que uma transformação dessa natureza poderia ter sobre a economia libanesa, nem existe uma visão abrangente capaz de identificar os setores que poderão se tornar os motores do crescimento nos próximos anos. Tampouco houve um debate sério sobre o papel que o Líbano deveria aspirar a desempenhar no Mediterrâneo Oriental caso a configuração política da região venha a se transformar. É como se partíssemos do pressuposto de que qualquer acordo, uma vez alcançado, conduzirá automaticamente à prosperidade, quando a experiência internacional demonstra exatamente o contrário: a estabilidade, por si só, não produz desenvolvimento. Ela apenas cria as condições para que ele seja alcançado por aqueles que sabem aproveitá-las.
Mais importante ainda, o Líbano não se vê diante da necessidade de redefinir apenas uma relação, mas da perspectiva de estabelecer relações distintas com dois Estados cujas estruturas econômicas são profundamente diferentes. Essa realidade exige, necessariamente, duas abordagens completamente distintas.
A relação com a Síria, caso venha a se consolidar sobre bases claras que respeitem plenamente a soberania de ambos os Estados, aproximará duas economias que enfrentam desafios bastante semelhantes. Ambos os países buscam reconstruir suas economias, restaurar a confiança, modernizar sua infraestrutura e revitalizar seus setores produtivos. Isso abre espaço para repensar o trânsito de mercadorias e pessoas, modernizar as passagens de fronteira legais, integrar as redes de transporte e energia e participar de um eventual processo de reconstrução dentro de um marco transparente que preserve os interesses libaneses e impeça o retorno dos padrões de dependência e ingerência pelos quais o Líbano pagou um preço elevado ao longo de décadas. Em sua essência, será uma relação baseada na busca de complementaridades entre duas economias que procuram se reerguer juntas.
A relação com Israel, por outro lado, parte de uma realidade completamente diferente. Não estamos falando de duas economias comparáveis, mas de uma enorme disparidade em termos de dimensão econômica, desenvolvimento tecnológico, capacidade de inovação, força industrial, acesso aos mercados globais e capacidade de atrair investimentos. Por isso, a questão assume uma dimensão distinta. O verdadeiro desafio não está no volume do comércio bilateral direto, mas na forma como o Líbano conseguirá se posicionar em um ambiente econômico regional marcado pela presença de uma economia com esse grau de desenvolvimento.
Em situações como essa, países de menor porte não podem construir sua estratégia competindo diretamente com economias maiores nos mesmos setores. Ao contrário, precisam identificar as áreas em que são capazes de gerar valor agregado diferenciado, seja nos serviços, na educação, na economia digital, nas indústrias criativas, nas finanças, na saúde ou em qualquer outro setor que lhes permita desempenhar um papel singular na região.
Isso conduz inevitavelmente à pergunta que deveria estar no centro de qualquer debate nacional nas próximas décadas: qual papel o Líbano deseja desempenhar no Oriente Médio nos anos que virão?
Desde a independência, o Líbano jamais escolheu conscientemente esse papel. Em determinados momentos, a geografia fez dele um centro financeiro; em outros, as guerras o transformaram em um palco de confrontos. Mais tarde, as transformações regionais o levaram a assumir funções transitórias ditadas muito mais pelas circunstâncias do que por uma decisão nacional. Mas, se a região realmente estiver ingressando em uma nova etapa, o Líbano não poderá mais continuar esperando que os acontecimentos externos definam sua função. Pela primeira vez em décadas, caberá aos próprios libaneses decidir que tipo de economia desejam construir, qual modelo de desenvolvimento pretendem adotar e que lugar aspiram ocupar na região.
Diante disso, o que o Líbano necessita não é de mais um debate sobre as cláusulas dos acordos, mas de lançar um grande esforço nacional para elaborar uma visão abrangente do fase posterior aos conflitos. Um esforço que comece pela economia antes da política e pela definição da identidade futura do Líbano antes de discutir a natureza de suas relações com seu ambiente regional. Afinal, os acordos, por si sós, não constroem o futuro dos Estados. Eles apenas abrem novas oportunidades. O futuro de um país dependerá, em última instância, de sua capacidade de aproveitá-las e transformá-las em um projeto nacional coerente.
Talvez a maior ironia seja esta: o Líbano passou tantos anos debatendo a guerra sem jamais discutir seriamente como pretende viver quando os conflitos terminarem. Se a transformação regional que hoje começa a se desenhar vier efetivamente a se concretizar, a verdadeira questão não será saber se somos favoráveis ou contrários a este ou àquele acordo. Será saber se, pela primeira vez, dispomos de uma visão clara do Líbano que queremos construir quando a região ao nosso redor tiver mudado.