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Analisar

Ficamos mais burros?

Ou estamos vivendo uma transformação na estrutura do conhecimento?
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Por Mona Fayad
Publicado em set 5, 2026 - 20:01
A pergunta «O mundo ficou mais burro?» reaparece com frequência nos debates contemporâneos sobre mídia digital, mecanismos de busca e redes sociais. À primeira vista, parece uma pergunta simples, mas esconde uma questão muito mais profunda, ligada à própria natureza do conhecimento: como ele é produzido, como é transmitido e como é consumido. Talvez a pergunta «Ficamos mais burros?» não seja a mais precisa. Talvez devêssemos perguntar: o conhecimento ainda é transmitido de uma maneira que permita compreendê-lo e torná-lo produtivo? A maioria dos leitores ainda recorre aos textos originais? Ou se limita aos seus resumos e ao que é dito a respeito deles por meio daquilo que circula entre os leitores? Uma das chaves para compreender esse fenômeno encontra-se nos trabalhos do psicólogo britânico Frederic Bartlett, que realizou, na década de 1930, uma série de experiências sobre aquilo que chamou de «reprodução serial». Nessas experiências, uma pessoa ouvia uma história e depois precisava contá-la a outra, que por sua vez a contava a uma terceira, e assim por diante. Os resultados foram impressionantes: a cada nova transmissão, a história não era reproduzida exatamente como havia sido contada, mas reformulada. Alguns detalhes desapareciam, outros eram ampliados e outros ainda eram substituídos por elementos mais compatíveis com o contexto, as experiências e a cultura do receptor. Depois de passar por um número suficiente de intermediários, a história original já havia se transformado em algo inteiramente diferente. Esse modelo simples revela uma verdade fundamental: a memória não é um recipiente neutro, mas um mecanismo de reconstrução. E, quando o conhecimento passa por múltiplos intermediários, ele não é «preservado», mas «reproduzido». É aqui que começam a aparecer as semelhanças com o nosso mundo contemporâneo e o receio de que estejamos ficando mais burros. Na era da mídia digital, o conhecimento já não circula por meio da transmissão oral, mas através de cadeias de mediação: um artigo é resumido, depois citado, em seguida republicado sob a forma de uma postagem curta e, por fim, reduzido mais uma vez a uma frase ou a um título. Nesse contexto, podemos retomar uma imagem metafórica usada em um texto jornalístico: uma biblioteca cujos livros são substituídos por resumos, e depois por resumos dos resumos, até que o leitor se veja diante de sucessivas camadas de redução. Algo semelhante ao que poderíamos chamar de «cadeia do guaxinim», que não lê o original, mas remexe em seus restos. Vale esclarecer que a escolha do «guaxinim» não é aleatória. Essa metáfora condensa simbolicamente uma condição cognitiva que vem se consolidando. Esse animal, que vive nas margens das cidades e remexe em latas de lixo, não produz seu alimento, mas se nutre dos restos daquilo que outros produziram. Apesar de sua inteligência prática e de sua capacidade de desmontar, recolher e aproveitar objetos, ele não compreende verdadeiramente aquilo que tem diante de si, mas lida com as coisas como materiais disponíveis para uso imediato. É assim que o conhecimento passa a se apresentar na era da redução serial: textos são resumidos e depois novamente resumidos, até que deles reste apenas um punhado de fragmentos de sentido, reorganizados e postos novamente em circulação sem qualquer vínculo verdadeiro com sua fonte. Nesse ponto, não apenas nos afastamos do original, mas entramos em uma nova etapa da produção da informação ou do conhecimento, na qual o agente cognitivo deixa de ser um leitor ou pensador para se tornar um coletor de restos de significado, que os redistribui em formatos destinados ao consumo rápido. A «cultura do guaxinim», portanto, não é apenas uma descrição da superficialidade. É também uma caracterização precisa da degradação da própria cadeia do conhecimento: da criação ao resumo, da compreensão ao processamento formal, das ideias a algo que já não passa de um vestígio apagado delas. Mas esse fenômeno não pode ser compreendido separadamente da estrutura tecnológica que o governa. É aqui que entra Marshall McLuhan, que sintetizou seu pensamento na célebre frase: «O meio é a mensagem». O problema não está apenas no conteúdo, mas também na forma através da qual esse conteúdo é transmitido. A mídia digital contemporânea não se limita a transportar informações, mas as remodela segundo a lógica da velocidade, da condensação e da fragmentação. O texto longo torna-se inadequado para o consumo, enquanto uma ideia só parece aceitável se puder ser reduzida a poucas linhas facilmente compartilháveis. Essa transformação produz um paradoxo marcante: vivemos numa época em que o acesso ao conhecimento deixou de ser difícil e se tornou excessivamente fácil. E, com essa facilidade excessiva, surge aquilo que poderíamos chamar de «ilusão cognitiva»: basta ler um pequeno trecho ou um resumo rápido para que a pessoa tenha a sensação de ter assimilado uma ideia. Mas essa sensação de domínio não é necessariamente acompanhada por uma compreensão profunda nem pela capacidade de reconstruir ou criticar o conhecimento. É aqui que aparecem os que poderíamos chamar de «semiletrados»: indivíduos que possuem os sinais do conhecimento, mas não sua estrutura; seu vocabulário, mas não sua lógica interna. O problema se torna ainda mais complexo quando o observamos sob o ângulo da atenção. Em vez de permanecer em um estado prolongado de concentração, como acontece na leitura tradicional ou na reflexão demorada, a mente passou a viver sob um bombardeio contínuo de informações: notificações, vídeos, manchetes e ondas sucessivas de conteúdo. Essa situação não apenas dispersa a atenção, mas a reconfigura segundo uma lógica de saltos constantes entre pequenas unidades de significado, em vez de permitir a construção gradual e cumulativa de uma ideia. Lembro aqui de uma anedota que costumávamos contar e que circulava muito na época das manifestações populares. Ela ilustra bem a ideia da redução e da transformação do conteúdo. Depois da ocupação da Palestina, muitas manifestações populares tomaram as ruas gritando «Abaixo a Declaração Balfour!». A brincadeira dizia que, no fim da manifestação, o slogan havia se transformado, em árabe, em «Que alguém caia lá de cima!», uma frase inteiramente diferente que preservava algo do ritmo e da sonoridade da original. Talvez essa imagem nos ajude a compreender melhor o que acontece na linguagem cotidiana quando o conhecimento se transforma em mensagens curtas repetidas coletivamente. A manifestação começa com uma fórmula política precisa. Mas, com a repetição, a imersão coletiva e o ritmo sonoro, ela vai se transformando pouco a pouco em outra fórmula, completamente diferente. Esta pode conservar o ritmo e a carga emocional da primeira, mas perde seu significado e seu sentido original. O que permanece não é o sentido, mas a energia emocional da frase. Aqui se manifesta, de outra maneira, aquilo que Bartlett havia observado: não importa apenas o que foi dito, mas como aquilo foi repetido e como voltou a ser compreendido dentro de um contexto social em transformação. Se reunirmos todos esses fios, podemos dizer que aquilo que vivemos hoje não é propriamente um «colapso da inteligência», mas uma transformação das condições em que ela opera. A mente humana não mudou radicalmente, mas o ambiente em que funciona se transformou profundamente: passamos de um ambiente que permitia a acumulação lenta para outro que impõe a reprodução rápida e fragmentada do conhecimento. Essa mudança cria uma tensão permanente entre duas formas de pensamento: um pensamento reflexivo, que precisa de tempo, e um pensamento rápido, que exige resposta imediata. Sob essa perspectiva, a pergunta «Ficamos mais burros?» torna-se parcialmente enganosa. Talvez seja mais preciso dizer que estamos cada vez mais expostos a condições que tornam o pensamento profundo menos estável, ou menos possível, e o conhecimento mais vulnerável à fragmentação e à reciclagem. Quanto à burrice, se podemos usar o termo, talvez ela não seja uma propriedade da mente, mas um efeito colateral e uma característica da estrutura cultural que se formou. Trata-se de uma tecnologia que está remodelando nossa relação com o mundo. Assim, em vez de enxergar esse fenômeno como um declínio das capacidades humanas, podemos compreendê-lo como uma transformação do «ambiente do conhecimento»: um ambiente em que se tornou fácil saber alguma coisa, mas mais difícil compreendê-la de fato e em profundidade.
Opinião
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Por Youssef Mouawad - Publicado em set 5, 2026 - 13:25
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Em 2010, Israel interceptou com violência o Mavi Marmara, um navio turco fretado por uma ONG humanitária para socorrer a Faixa de Gaza, então sob bloqueio israelita. Esse incidente, a gota de água, fará vir à tona a animosidade entre o governo de Erdogan e o Estado hebraico. (AFP)
A guerra ainda não parou no nosso sul e já corre o risco de eclodir junto aos nossos vizinhos. Ou seja, vivemos a prazo, de conflito em conflito. E com razão! Por pouco o bombardeamento de uma base síria não descambou numa batalha campal entre Ancara e Telavive. Foi a 18 de agosto passado, e Benjamin Netanyahu não foi com meias palavras: o seu país não iria tolerar uma implantação militar turca suscetível de avançar para o sul da Síria. A mensagem foi tanto mais brutal quanto oito ataques tinham visado a base aérea de Abu al-Duhur, situada a 70 quilómetros da fronteira turca. Recorde-se, aliás, que desde a queda de Bashar al-Assad em dezembro de 2024, Erdogan é o principal mentor da nova Síria, a de Ahmed al-Charaa, ajudando-a a reconstruir as suas forças armadas e transformando-a num parceiro estratégico. Já não é a Síria de Hafez al-Assad Terá sido este novo pico de tensão entre Ancara e Telavive que precipitou a reunião entre o chefe da diplomacia síria, Assaad Chaïbani, e o diretor do Mossad, Roman Gofman, a 23 de agosto passado, na Jordânia? Ora, esse encontro discreto não provocou uma onda de indignação no mundo árabe, como aconteceu com a visita imprevista de Anwar al-Sadat a Israel em 1977. Um tabu foi oficialmente quebrado e, de facto, quem poderia ter acreditado que tal concertação seria possível sob o regime baathista? O Estado hebraico deveria ter-se congratulado, mas, ao contrário do que se esperava, não interrompeu nem os seus ataques aéreos nem as suas incursões territoriais, como a de 27 de agosto em Quneitra. É que as coisas mudaram. Sob Hafez al-Assad, a Síria era uma potência regional que, sem ser temível, era temida pelos seus vizinhos imediatos, fossem eles países árabes ou não. Evitava-se procurar confronto com ela e, por isso, o país conduzia, dentro de certos limites, uma política externa agressiva que resvalava muitas vezes para a provocação. E assim, em virtude da autonomia da sua ação e da margem de manobra que se concedia, tinha constituído, nem que fosse apenas geograficamente, uma zona-tampão entre, por um lado, uma Turquia "erdoganesca", que exibia o seu islamismo assumido, e, por outro, um Israel, o Estado consubstancialmente judeu. Ora, eis que, num país esgotado por uma gestão baathista e devastado por anos de guerra civil, a Turquia, ao começar a marcar posições, vai inevitavelmente encontrar-se frente a frente com um Israel que ocupa uma parte do território sírio. O que esperar? Tendo em conta o ego desmedido tanto de Netanyahu como de Erdogan, e no caso de estes dois chefes de Estado permanecerem nos seus respetivos cargos, devemos esperar um duelo épico em território sírio, libanês, jordano, ou até noutros locais. Este combate será feito de fintas, de esquivas, de golpes baixos, mas também de ataques frontais, de corpo a corpo e de escaladas de tensão até ao ponto de rutura. E isto mesmo que o relatório doCongressional Research Servicede setembro de 2025 considere pouco provável um confronto direto entre a Turquia e Israel, precisamente porque ambos os Estados conhecem o custo de uma guerra, caso esta viesse a eclodir. No entanto, no domínio da polemologia, os dirigentes e outras elites não são necessariamente atores racionais! Tanto mais que, aos olhos dos observadores israelitas, o slogan que impera na Anatólia, a saber, «Make Turkey great again», não é de molde a tranquilizar o Estado sionista. Washington terá cada vez mais dificuldade em conter ou separar os dois adversários que já se posicionam em ordem de batalha. A Turquia, um novo Irão? Sim, é uma hipótese, mas apenas num confronto direto com Israel, tendo a Síria se tornado da noite para o dia uma zona onde «se sobrepõem dois perímetros de segurança», o turco e o israelita, o muçulmano e o judeu. E não se pode excluir que o militantismo xiita, esse mobilizador de «proxies», acabe por se aliar, ainda que momentaneamente, a uma «versão irmãos-muçulmana» do islamismo político defendido por Ancara! Teríamos assim, contra todas as expectativas, um Hezbollah apoiado pelo seu inimigo de ontem, Ahmed al-Charaa, um islamista vindo da Jabhat al-Nusra e da Hayat Tahrir al-Cham! Contra o adversário comum, uma inversão de alianças é sempre legítima e oportuna. Mas isso não passaria de uma aliança tática, ditada pelas necessidades do momento, sem qualquer garantia quanto ao futuro. Tendo o nacionalismo árabe sido posto de lado, a Turquia não se vai contentar em conquistar economicamente o mercado sírio, com os seus 25 milhões de consumidores: vai querer exercer influência política em Damasco, mobilizando para isso o seu aparelho militar e de segurança. O poder instável do presidente sírio, incapaz de assegurar certas funções soberanas nem de enquadrar os diversos corpos do Estado, terá necessariamente de recorrer à experiência do seu vizinho do norte. Será, no entanto, de acreditar que este último vai ser arrastado pela espiral de uma «beligerância anunciada»? Tudo aponta nesse sentido, e já se podem perceber os primeiros sinais de um envolvimento que lembra o dos Estados Unidos no Vietname sob Lyndon Johnson. Pois, se o Estado sírio pretende reconstituir-se, precisará antes de mais de um exército capaz de conter as tendências centrífugas dos alauitas, dos drusos e de outras facções que apelam à fragmentação do país. Ora, cabe a Ancara garantir isso e reforçar a autoridade central sediada em Damasco. Mas Israel, que adquiriu maus hábitos na Síria e pretende manter aí liberdade de ação aérea, não pode aceitar um exército estruturado segundo o modelo da NATO e que possa servir de proxy a um projeto neo-otomano. E o Líbano, da primazia à secundarização? Está agora montado um novo cenário para um novo guião que definirá novas regras do jogo! O que será feito do Hezbollah, apanhado numa ratoeira? Bem, poderia beneficiar, neste cenário, ainda que apenas em parte, do apoio logístico de Damasco, apoio que lhe fez gravemente falta desde a queda de Bachar al-Assad. E talvez que, com um deslocamento das placas tectónicas, o Líbano passasse do estatuto de palco inicial ao de palco secundário de um conflito regional. Mas, para ser sincero, isso de pouco nos vai valer!
O Essencial do Dia
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Por LevantTime . - Publicado em set 5, 2026 - 00:55
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O comboio do CICV que transportava os civis libertados, partindo da zona ocupada por Israel no sul do Líbano, seguiu até o ponto que marca o início da área controlada pelas autoridades libanesas. (AFP)
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) anunciou nesta sexta-feira que transferiu para o Líbano outras quatro pessoas libertadas por Israel, um dia após a libertação de um primeiro civil. Segundo o CICV, trata-se de três libaneses e dois sírios. É a primeira vez que uma operação desse tipo ocorre desde o início, em abril, das negociações entre o Líbano e Israel, sob mediação dos Estados Unidos. Beirute havia solicitado, durante a última rodada de negociações, em agosto, a libertação de um primeiro grupo de cidadãos libaneses capturados por Israel no sul do Líbano, onde trava uma guerra contra o Hezbollah, aliado do Irã. Familiares estimam que cerca de 30 pessoas estejam detidas, entre elas combatentes do movimento islâmico. O presidente libanês, Joseph Aoun, agradeceu em comunicado aos Estados Unidos e ao CICV e afirmou que essa libertação «confirma o acerto da posição» do Líbano, que participa de negociações com Israel rejeitadas pelo Hezbollah. Os Estados Unidos elogiaram na quinta-feira «o governo de Israel e o governo do Líbano por demonstrarem boa-fé por meio desses primeiros passos», expressando a esperança de que isso sirva «de base para discussões mais amplas sobre outras questões civis». Os dois países devem realizar uma nova rodada de negociações em setembro, em uma data ainda não definida. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira «ocorre após os esforços realizados por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os restos mortais de líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano» entre 1984 e 1986. Israel intensifica seus ataques No terreno, ataques israelenses deixaram três mortos e 23 feridos nesta sexta-feira no sul e no leste do Líbano, segundo um veículo de imprensa estatal. Israel intensificou nesta sexta-feira seus ataques na região, depois de anunciar, na noite de quinta-feira, que havia assumido o controle da crista montanhosa de Ali Taher, que servia como posição estratégica para o Hezbollah, aliado do Irã, e domina, entre outras áreas, a cidade de Nabatiye. O Exército agora reforçará suas posições na região para «impedir que o inimigo volte a se posicionar na área», declarou o ministro da Defesa israelense, Israel Katz. Outro ataque também atingiu a região de Tiro, especialmente a localidade de Rmadiye, segundo a Agência Nacional de Notícias (ANI). Para Trump, a guerra no Irã é «coisa pequena» Sobre a guerra no Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tentou nesta sexta-feira minimizar seu impacto para o país, às vésperas das cruciais eleições legislativas de meio de mandato. «Muita gente não chama isso de guerra. Eu digo que é um conflito militar, porque para nós é coisa pequena (“small potatoes”). Não é nada demais. Fizemos a Venezuela e fizemos isso», respondeu a jornalistas no Salão Oval, ao ser questionado sobre seu vice-presidente, JD Vance, que no dia anterior havia dito não querer descrever o conflito como uma guerra. Enquanto a forte alta dos preços dos combustíveis ligada à guerra ameaça custar aos republicanos de Donald Trump sua maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato de novembro, sua administração tenta minimizar a dimensão do conflito. Segundo o presidente, os Estados Unidos realizam «ataques pontuais» e «não estão atualmente combatendo». Trump também afirmou que os Estados Unidos controlam o estreito de Ormuz e que dizimaram as Forças Armadas iranianas. «O que conseguimos foi extraordinário. Assumimos o controle da Venezuela e, essencialmente, assumimos o controle do Irã», declarou.
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Guerras iranianas: quem pagará o preço?
Por
Rabih Dandachli
Publicado

O confronto que hoje abala o Oriente Médio já não constitui apenas um novo capítulo do conflito entre o Irã e seus adversários, nem pode ser reduzido a uma disputa entre Teerã, os Estados Unidos e Israel. Os acontecimentos recentes revelam uma realidade que vai muito além da própria guerra. Eles levantam uma questão mais fundamental: qual será a configuração da ordem regional que emergirá desse confronto, que lugar o Irã ocupará nela e que futuro aguarda a rede de grupos armados por meio da qual Teerã construiu uma parte essencial de sua influência no mundo árabe. Durante muitos anos, a estratégia iraniana baseou-se em uma equação relativamente simples: proteger o próprio território enquanto expandia sua influência e sua capacidade de dissuasão para além de suas fronteiras por meio de uma rede de aliados e grupos armados que se estende do Iraque ao Iêmen, passando pelo Líbano. Esse modelo proporcionou a Teerã aquilo que considerava uma “profundidade estratégica”, permitindo-lhe exercer pressão sobre seus adversários a partir de múltiplos teatros de operações, sem transformar necessariamente o território iraniano no principal campo de batalha. No entanto, a guerra atual está revelando os limites dessa equação e pode muito bem marcar o início de sua inversão contra aqueles que a conceberam. A questão já não se limita às ações dos aliados do Irã. Os próprios países vizinhos do Irã passaram a integrar diretamente o teatro de operações, enquanto vários Estados árabes foram atingidos por mísseis e drones iranianos. Em 28 de fevereiro, Kuwait, Catar, Emirados Árabes Unidos e Bahrein anunciaram ter interceptado mísseis iranianos, enquanto a Jordânia também interceptou outros após sua entrada em seu espaço aéreo. Nas semanas seguintes, os ataques e suas repercussões estenderam-se a outros países do Golfo. Em 11 de março, o Conselho de Segurança adotou a Resolução 2817, condenando os ataques iranianos contra Estados da região e exigindo que Teerã lhes pusesse fim. É aqui que surge o primeiro paradoxo que merece atenção: como o Irã pode exigir respeito à sua própria soberania enquanto considera a de seus vizinhos uma variável que pode ser ignorada sempre que seus cálculos militares assim o exigirem? Não há dúvida de que o próprio Irã sofreu ataques militares significativos e justificou sua resposta com base no direito à legítima defesa. Essa realidade não pode ser ignorada em qualquer análise objetiva do conflito. Contudo, o direito de um Estado de se defender não lhe confere automaticamente o direito de transformar outros países em uma extensão geográfica do campo de batalha, sobretudo quando esses países procuram permanecer fora do conflito ou conter sua escalada. Da exportação da influência à exportação do custo da guerra Uma das principais características da política regional do Irã é que, ao longo das últimas décadas, ela não se limitou a ampliar sua influência política. Também vinculou parte de sua segurança nacional à construção de capacidades militares para além de suas próprias fronteiras. Do ponto de vista iraniano, a lógica era simples: enfrentar os adversários longe do território iraniano para dispor de maior margem de manobra e de uma capacidade de dissuasão mais robusta. Mas essa estratégia tem outra face: transferir o custo dos conflitos do Irã para outros Estados e outras sociedades. É isso que confere aos acontecimentos atuais sua verdadeira dimensão. Os países do Golfo, por exemplo, já não são os mesmos de vinte anos atrás. A Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Catar, o Kuwait, Omã e o Bahrein investem hoje em modelos econômicos cada vez mais baseados na estabilidade, na atração de investimentos, na aviação, no turismo, na tecnologia, na logística e em uma integração mais profunda aos mercados globais. Para esses países, a segurança já não se resume à proteção das fronteiras. Ela se tornou um dos pilares de seu modelo econômico e de sua capacidade de realizar seus projetos de futuro. Assim, quando seus aeroportos, infraestruturas estratégicas, espaço aéreo ou rotas marítimas passam a integrar um confronto entre o Irã e um terceiro ator, a questão deixa de ser um incidente militar isolado. O que está diretamente em jogo é o próprio conceito de soberania que deveria reger as relações entre os Estados da região. Mais do que isso, essa política não se expressa apenas por meio do Estado iraniano. É aqui que começa a segunda dimensão do problema: a dos aliados e grupos armados ligados ao Irã . Os houthis: quando um grupo armado decide as relações entre dois Estados Os acontecimentos mais recentes no Iêmen oferecem talvez o exemplo mais revelador do dilema que hoje se impõe à região. Os houthis anunciaram o que chamaram de um “bloqueio marítimo” contra a Arábia Saudita e ameaçaram embarcações ligadas aos portos sauditas, levando o confronto muito além dos limites do conflito interno iemenita. Essas ameaças já levaram petroleiros que transportavam petróleo saudita a alterar suas rotas, demonstrando que suas consequências vão muito além das declarações políticas e afetam o comércio, a energia e a navegação internacional. A pergunta não deveria ser apenas: por que os houthis agem dessa maneira? A questão mais importante é outra: quem concedeu a um grupo armado que atua no Iêmen o poder de tomar decisões capazes de determinar as relações entre esse país e um Estado vizinho tão importante quanto a Arábia Saudita, expondo ao mesmo tempo o próprio Iêmen a consequências militares e econômicas potencialmente muito graves? Não se trata apenas de uma questão iemenita. Ela está no centro da crise produzida, em vários países árabes, pelo modelo de grupos armados que atuam paralelamente ao Estado. O problema já não consiste apenas no fato de o Irã contar com aliados armados na região. Alguns desses aliados são agora capazes de redefinir as relações de seu próprio Estado com os países vizinhos à margem das instituições estatais. E essa é uma diferença fundamental. Um partido político é livre para adotar a posição regional que desejar, apoiar o Irã ou se opor a ele, e expressar sua posição em relação aos Estados Unidos, a Israel ou à Arábia Saudita. Isso faz parte da vida política. Mas, quando um partido ou organização dispõe de uma capacidade militar autônoma que lhe permite transformar sua posição política em uma guerra que acaba envolvendo todo o Estado, estamos diante de uma realidade completamente diferente. Do Iêmen ao Líbano e ao Iraque O que o caso do Iêmen revela hoje guarda muitos paralelos com a experiência vivida pelo próprio Líbano, ainda que as circunstâncias e os contextos sejam diferentes. Nos últimos anos, os libaneses experimentaram o que significa ver a decisão de entrar em guerra escapar às instituições do Estado e passar a depender de cálculos que as ultrapassam, transformando um país já atingido por uma profunda crise econômica e política em um dos teatros de uma confrontação regional muito mais ampla. O debate, portanto, não diz respeito apenas à posição dos libaneses em relação a Israel, nem à legitimidade da resistência à ocupação em determinados momentos da história. Ele levanta uma questão muito mais precisa: quem detém hoje a autoridade para levar o Líbano à guerra? O Estado ou uma organização que atua dentro do Estado? O Iraque enfrenta um dilema semelhante, embora sob uma forma diferente. Bagdá procura preservar suas relações com o Irã, de um lado, e com os países árabes, os Estados Unidos e a comunidade internacional, de outro, enquanto as iniciativas de determinadas facções armadas podem colocar o Estado iraquiano diante das consequências de decisões que seu próprio governo jamais tomou. A confrontação atual também demonstrou que os cálculos de algumas facções armadas iraquianas nem sempre coincidem com os de Teerã. Segundo diversos relatos, grupos com os quais o Irã construiu relações estreitas ao longo dos anos manifestaram reservas quanto ao envolvimento em uma guerra de grande escala na qual o Iraque seria o primeiro a pagar o preço. Trata-se de uma evolução que merece toda a atenção. Porque a pergunta que começa a surgir nesses meios talvez já não seja: estamos com o Irã ou contra o Irã? A verdadeira questão é outra: O interesse do Irã nesta guerra coincide necessariamente com o interesse do Iraque, do Líbano ou do Iêmen? Os grupos armados: da “profundidade estratégica” ao fardo estratégico Talvez seja aqui que resida o maior paradoxo da estratégia iraniana. Durante décadas, Teerã investiu na construção de uma rede de relações com grupos armados em toda a região, considerando essa rede um componente essencial de sua capacidade de dissuasão e de sua segurança nacional. No entanto, aquilo que durante muito tempo foi visto como uma fonte de profundidade estratégica poderá transformar-se, no novo contexto regional, em um fardo estratégico . Toda vez que um grupo armado utiliza o território de um Estado árabe para ameaçar outro Estado, aumenta a pressão não apenas sobre esse grupo, mas também sobre o país a partir do qual ele atua. E, à medida que mísseis, drones e rotas marítimas passam a ser instrumentos utilizados por atores que operam fora das instituições oficiais do Estado, torna-se cada vez mais difícil considerar as armas desses grupos como uma simples questão interna do país em que estão instalados. O Irã e seus aliados poderão estar cometendo aqui um grave erro estratégico se partirem do pressuposto de que o Oriente Médio que emergirá da guerra atual continuará aceitando as mesmas regras que prevaleciam antes do conflito. A região está mudando, e as regras do jogo também Uma transformação muito mais profunda está em curso no Oriente Médio. A Arábia Saudita e os Estados do Golfo estão redefinindo suas prioridades. Outros países árabes procuram reconstruir suas instituições após anos de guerras e divisões internas. Há uma tendência crescente de considerar que a estabilidade econômica, a segurança regional e a soberania nacional já não são questões separadas, mas interesses estreitamente interligados. Nesse contexto, torna-se difícil imaginar uma ordem regional estável que aceite de forma duradoura a existência de organizações armadas capazes de tomar, de maneira autônoma, decisões militares contra outros Estados. Nenhum Estado pode exigir que seus vizinhos respeitem sua soberania se ele próprio não detiver, dentro de suas fronteiras, o monopólio do uso da força e da decisão de entrar em guerra. Da mesma forma, nenhuma organização armada pode pretender fazer parte do sistema político quando isso lhe convém e comportar-se como um Estado independente quando estão em jogo as decisões sobre guerra e paz. Essa equação pode continuar viável enquanto o custo das confrontações permanecer limitado. Mas ela se torna muito mais frágil quando um único drone ou um único míssil é capaz de atingir uma infraestrutura estratégica, paralisar um aeroporto, ameaçar uma rota marítima ou arrastar dois Estados para uma confrontação mais ampla. É por isso que o que está em jogo hoje pode ir muito além de um simples reajuste do equilíbrio de forças entre o Irã e seus adversários. Poderá redefinir aquilo que, daqui em diante, será considerado aceitável ou inaceitável dentro do próprio sistema regional de segurança. O maior erro de cálculo do Irã O maior erro de cálculo de Teerã hoje talvez seja acreditar que ampliar o alcance da confrontação fortalece automaticamente sua capacidade de dissuasão. Isso pode ser verdade do ponto de vista estritamente militar, ao menos por algum tempo. Mas uma estratégia não se mede apenas pelo número de frentes que um ator é capaz de abrir. Ela também deve ser avaliada pela ordem política e de segurança que essas frentes deixarão quando a guerra terminar. Se as ações do Irã e as ameaças lançadas pelas forças que lhe são aliadas levarem a Arábia Saudita, os Estados do Golfo, a Jordânia e outros países a aprofundar sua cooperação em matéria de defesa, aumentar a pressão internacional sobre grupos armados que atuam à margem do Estado e fortalecer, no Líbano, no Iraque e no Iêmen, as demandas internas em favor do monopólio das instituições legítimas sobre as decisões de guerra e paz, então o Irã poderá descobrir que a própria guerra por meio da qual buscava demonstrar a amplitude de sua influência acabou contribuindo para enfraquecer o ambiente que tornou essa influência possível. Essa possibilidade não deve ser subestimada. Porque o poder regional do Irã nunca se apoiou apenas em seus mísseis, em seu programa nuclear ou em suas capacidades militares convencionais. Uma parte essencial desse poder dependeu da capacidade de Teerã de atuar nas zonas cinzentas do Estado árabe: um Estado que existe sem deter o monopólio da força; um governo que governa sem exercer o monopólio das decisões militares; fronteiras internacionalmente reconhecidas que, ainda assim, não conseguem impedir a circulação de armas nem a expansão do conflito. Se essas zonas cinzentas começarem a desaparecer, um dos principais pilares da influência regional do Irã enfrentará um desafio de enorme magnitude. As guerras do Irã e as de seus aliados: quem pagará o preço? O desfecho da confrontação atual permanece aberto a múltiplos cenários. Ainda é impossível determinar com certeza qual será a forma da ordem regional que dela emergirá. Uma realidade, porém, já começa a se impor: uma região submetida a um grau tão elevado de ameaça e instabilidade não retornará simplesmente à situação que existia antes da guerra. Os Estados reavaliarão suas alianças, seus dispositivos de defesa, suas fronteiras e suas relações com o Irã. Também repensarão a forma como encaram os grupos armados capazes de ameaçá-los a partir do território de outros Estados. Os próprios aliados do Irã talvez precisem responder a uma pergunta ainda mais importante do que a da vitória ou da derrota no conflito atual: O que restará deles e de seus próprios Estados quando a guerra terminar? Os houthis podem ameaçar a Arábia Saudita, mas será o Iêmen o primeiro a sofrer as consequências de uma nova guerra. As facções armadas iraquianas podem optar por envolver-se em uma confrontação regional de maior alcance, mas será o Iraque quem arcará com seus custos econômicos, políticos e de segurança. No Líbano, uma organização armada pode considerar-se parte de uma equação regional mais ampla. Mas, quando os combates terminarem, serão os libaneses que permanecerão sozinhos diante da necessidade de reconstruir sua economia, seu Estado e suas instituições. Quanto ao Irã, ele pode ampliar os teatros de confrontação e demonstrar sua capacidade de atingir seus adversários para além de suas fronteiras. Mas, ao fazê-lo, também corre o risco de transformar o temor que sua influência inspira no próprio fundamento de uma nova ordem regional concebida precisamente para contê-la. É aí que reside o grande paradoxo. Aquilo que o Irã construiu ao longo de décadas como uma fonte de profundidade estratégica poderá, pelo uso excessivo desse mesmo instrumento, tornar-se a principal razão pela qual a região buscará estabelecer uma nova arquitetura de segurança destinada a impedir que qualquer Estado ou grupo armado detenha o poder de decidir o destino de outros Estados. A verdadeira questão, portanto, já não é saber se o Irã e seus aliados são capazes de abrir novas frentes. Eles já demonstraram que são. A pergunta mais difícil é saber se eles têm plena consciência de que cada nova frente pode acelerar o surgimento de um Oriente Médio que já não estará disposto a aceitar as regras que permitiram o nascimento e a permanência desses aliados. As guerras do Irã podem ter origem nos cálculos estratégicos de Teerã. Mas serão, muitas vezes, os Estados e os povos transformados em campos de batalha que pagarão o preço mais elevado. E, no Oriente Médio que está tomando forma, o monopólio do Estado sobre a decisão de fazer a guerra e celebrar a paz poderá deixar de ser apenas uma exigência de soberania interna para tornar-se uma das condições fundamentais de qualquer ordem regional viável.

Em Ormuz, diplomacia coercitiva e "teoria do louco"!

Preparem-se! Ao bombardear o Irã pela enésima noite consecutiva, os Estados Unidos teriam buscado apenas se comunicar com Teerã. Cada ataque a um alvo militar ou civil, assim como cada destruição de radar, rampa de lançamento ou refinaria de petróleo, não passaria de uma mensagem ao adversário. Seria apenas um aceno para retomar ou continuar as negociações sob certas condições! Foi o que teria afirmado Thomas Schelling, ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 2005. Em sua visão, é sobretudo quando os canhões trovejam ou o fogo cai do céu que os beligerantes trocam mensagens e se comunicam entre si, sendo a guerra apenas uma forma de negociação conduzida por outros meios. A derrapagem americana Em sua obra The strategy of conflict , o ensaísta americano parte de uma distinção entre a estratégia de dissuasão (deterrence) e a de coerção (compellence) e a explora até seus limites extremos. Assim, estaríamos no campo da dissuasão enquanto os porta-aviões americanos desfilavam pelos mares quentes sem acionar o gatilho. Depois veio uma escalada seguida de um cessar-fogo. Os bons ofícios de Islamabad definiriam, em 17 de junho passado, os contornos do famoso MOU (Memorandum of Understanding) . Na opinião geral, a habilidade e a resiliência da diplomacia iraniana embaralharam as cartas, e Trump foi obrigado a reduzir suas expectativas: não exigiria mais a mudança do regime dos aiatolás, contentando-se com o livre acesso ao Estreito de Ormuz. Aos olhos do mundo, os americanos haviam demonstrado falta de credibilidade e de determinação ao passar da dissuasão para a coerção e, em seguida, para a negociação. Mas Trump não havia dito sua última palavra. Irritado com as manobras dos plenipotenciários persas e com a interpretação tendenciosa que estes faziam do artigo 5 do referido MOU, ele se valeu do pretexto de uma agressão menor para colocar a guerra novamente na ordem do dia. E eis o Golfo Pérsico novamente sob fogo cerrado americano (1). O precedente vietnamita Muito se repetiu que a atitude do presidente americano era errática, que sua estratégia era vacilante e que sua condução das operações era desconexa, já que seus objetivos não estavam claramente definidos! Mas não seria precipitar conclusões para sobrecarregar um presidente atípico? É certo que, a menos que seja forçado a isso, o inquilino da Casa Branca não gosta de recorrer à violência armada; ele não é um belicista como Netanyahu, nem um extremista como os Guardiões da Revolução. Por outro lado, ele se adapta ao terreno e pode, como outros atores políticos, tirar o melhor proveito de um confronto, sendo a guerra por essência proteiforme. E se às vezes esboça uma retirada, é para retornar à ofensiva logo em seguida, quando menos se espera. Além disso, a história americana nos deu ao menos um exemplo de negociações conduzidas sob alta pressão! Com Lyndon B. Johnson, os Estados Unidos se atolaram na antiga Indochina francesa. Em aplicação da teoria do «containment» do perigo comunista, o apoio militar americano passou da contrainsurgência para a guerra de desgaste. Eleito presidente, Richard Nixon tinha uma única preocupação: trazer os soldados de volta para casa sem perder muito a face. O secretário de Estado Henry Kissinger ficou encarregado de liquidar esse legado sangrento. Em Paris, foram iniciadas negociações entre as partes envolvidas, incluindo americanos e norte-vietnamitas. Como estes últimos não pareciam ceder a seus argumentos, o «dear Henry» combinou, com consumada habilidade, negociações intensivas e violenta escalada militar, «segundo o princípio da diplomacia coercitiva (coercive diplomacy) e da teoria do louco (madman theory) já esboçada por Richard Nixon» (2). E os Acordos de Paris foram então assinados em janeiro de 1973. Ormuz e o Jabal Amel Um esquema idêntico se reproduz agora ao redor de Ormuz, desde que Trump compreendeu que a dissuasão por si só não era suficiente para resolver a questão e que não podia se dar ao luxo de uma guerra de desgaste, tendo o adversário iraniano se revelado muito mais resistente do que ele imaginava! Os observadores atentos podem se tranquilizar; será doravante a lógica da «compellence» que ditará o ritmo. A força bruta que os americanos empregaram por mais de doze noites consecutivas não visa destruir as forças armadas iranianas, mas compelir Teerã a mudar de comportamento. É tornando «o custo político, militar e econômico da guerra suficientemente elevado» que os Estados Unidos vão forçar o país dos aiatolás a se mostrar razoável à mesa de negociações — negociações que não foram verdadeiramente interrompidas, apesar das declarações e das fanfarronices. Em suma, os ataques aéreos serviriam de alavanca diplomática. A moral da fábula À luz dessa categorização, consideremos o que nos aguarda no Sul do Líbano: Israel vai prosseguir sua guerra de coerção enquanto o Hezbollah não tiver capitulado. A política da terra arrasada e da destruição sistemática, alavanca diplomática sem igual, continuará diante dos nossos olhos. Diante do inevitável, Arafat retirou-se de Beirute com armas e bagagens: foi em 1982. A pedido das lideranças sunitas, ele renunciou a transformar nossa capital em outro Stalingrado. Que lhe sejam rendidas as devidas homenagens! Dito isso, podemos esperar a mesma compreensão por parte de Teerã? Essa capital recalcitrante, esse laboratório da subversão khomeinista, tem outros planos em mente: pretende lutar até o último dos xiitas. Libaneses, assim é o mundo! E a história dirá que o iraniano não demonstrou a mesma empatia que o palestino! 1- Como prova da pertinência da teoria das trocas, o fato de que as aeronaves americanas estão destruindo instalações iranianas desde o último dia 7 de julho, enquanto Teerã retalia apenas atacando o Kuwait, o Catar, o Bahrein, Omã e a Jordânia, sob o pretexto de que esses países abrigam bases americanas. É de fato surpreendente ver que alvos exclusivamente americanos, como os porta-aviões, permanecem intactos até agora! 2- A teoria ou estratégia do louco (madman theory) designa uma abordagem de política externa concebida pelo presidente Richard Nixon. Ela sugeria aos adversários que tinham diante de si um líder com comportamento imprevisível e dotado de uma enorme capacidade de destruição.

Guerra na Ucrânia: erros estratégicos russos e inabilidade ocidental (3/5)

A guerra na Ucrânia continua a ser o centro de um amplo debate alimentado, entre outros fatores, por bombardeamentos quase diários que visam, de ambos os lados, centros nevrálgicos e, mais especificamente, as capitais russa e ucraniana. Para melhor compreender as diferentes dimensões deste antigo conflito, é necessário revisitar os prolegômenos e a gênese do que desembocou nesta guerra (fratricida?), expondo as motivações e as aspirações das diferentes partes envolvidas — nomeadamente o Ocidente (Estados Unidos e Europa, alargada a todos os países da OTAN, com exceção da Turquia) —, e recordando também os primórdios da ofensiva russa e o fracasso das tentativas de alcançar uma paz, ou pelo menos negociações, sabendo que as responsabilidades neste contexto são múltiplas. Para compreender bem os contornos e as implicações dos diversos aspetos da guerra na Ucrânia, algumas questões fundamentais devem ser colocadas desde o início. O que representam a Rússia e a Ucrânia para o Ocidente? Quais poderiam ser as repercussões concretas de uma eventual vitória clara de um dos dois protagonistas? E, por consequência, quais seriam as implicações para o Ocidente e para o Médio Oriente? Numa série de cinco artigos, Jean-Patrick Dayras , contra-almirante da marinha francesa, expõe a sua visão e análise da questão. A Ucrânia poderia ter sido um Estado associado à Europa sem ser membro, nem candidato, e muito menos fazer parte da OTAN. Pode-se responsabilizar, a este respeito, os Estados Unidos e a Europa, sem esquecer o Reino Unido. Do lado ucraniano, foram cometidos erros lamentáveis em relação à população russófona e às regiões do leste. Uma postura mais firme, mas construtiva em relação à Rússia, e o desejo de permanecer próximo deste país onde vivem muitos ucranianos, poderiam ter suavizado as tensões e conduzido a uma parceria com a Europa e a Rússia. Não é algo garantido, mas deveria ter sido tentado. Os europeus, os Estados Unidos, a Rússia e a Ucrânia têm uma parte de responsabilidade e todos saíram perdedores. Por que razão tal acordo não teria podido ser alcançado? Para o Ocidente, a sua atitude reforçou os BRICS+ e todos os países que se voltam para esta associação de Estados, em vez de se orientarem para as democracias que pretendem impor à força o seu modelo de governação — e de governar o mundo. Com o passar do tempo, três pontos merecem ser destacados na lista de falhas (não erros, mas falhas deliberadas, portanto com culpa atribuída): Os acordos de Minsk 1 e 2, que não foram implementados Angela Merkel e François Hollande assumem uma boa parte da responsabilidade a este respeito. Após a invasão russa, Angela Merkel e François Hollande declararam, em entrevistas, que os acordos de Minsk não tinham, aos seus olhos, vocação para ser aplicados, mas que tinham permitido ganhar tempo para que a Ucrânia reforçasse o seu exército . Estas declarações suscitaram uma viva controvérsia. Para a Rússia, foram apresentadas como prova de que os acordos nunca tinham sido negociados de boa fé. Merkel e Hollande responderam que o seu objetivo era evitar uma guerra mais alargada em 2014-2015 e que o reforço das capacidades ucranianas tinha sido uma consequência da ausência de um acordo duradouro, e não o único objetivo dos acordos. É difícil atribuir a não aplicação de Minsk apenas a Hollande ou a Merkel. A sua responsabilidade é geralmente analisada como a de mediadores que não conseguiram fazer cumprir os acordos, e não como a dos principais decisores. As responsabilidades mais frequentemente apontadas dizem respeito às partes diretamente envolvidas no conflito — a Ucrânia, a Rússia e as autoridades separatistas —, que tinham interpretações incompatíveis sobre a ordem pela qual os compromissos deveriam ser implementados. Nem todos os historiadores e especialistas concordam na interpretação dessas declarações. No entanto, há um consenso geral de que os acordos de Minsk eram extremamente difíceis de colocar nos trilhos , pois as duas partes divergiam quanto à sequência de sua aplicação: a Ucrânia queria primeiro a segurança e o controle da fronteira, enquanto a Rússia insistia primeiro nas reformas políticas e no estatuto do Donbass. A atitude de Boris Johnson não foi honrosa Tranquilizar os ucranianos garantindo-lhes apoio total, bem como o fornecimento de armas e munições que lhes assegurariam uma vitória rápida, é um ato culposo, até mesmo criminoso. A negociação é muito melhor do que a guerra, menos custosa em vidas humanas, em vidas destruídas, em devastações, em custos e no ódio feroz que depois se instala entre dois povos intimamente ligados. Isso era previsível, uma vez que essas consequências já haviam sido claramente visíveis nos Bálcãs. Os erros estratégicos russos . A Rússia cometeu claramente o que se denomina nas escolas de geoestrategia ou de guerra de pressuposições sobre o inimigo. Pressuposições equivocadas, neste caso. A entrada na Ucrânia, sem declaração de guerra, foi um fator de união para todo o povo ucraniano, cuja atitude merece ser citada como exemplo. Certamente, o Sr. Putin acreditava que o governo seria derrubado ou cairia por conta própria, permitindo-lhe transformar a Ucrânia em outra Bielorrússia subjugada a Moscou. O Sr. Putin enganou-se de guerra. Essa guerra não correspondia a nenhuma estratégia militar. Tratava-se de uma estratégia política equivocada, baseada em hipóteses falsas: derrubar um poder tido como fraco, liderado por um homem de comunicação sem grande envergadura. O desenrolar dos eventos prova que, de fato, o Sr. Zelensky estava nas mãos dos americanos. Do ponto de vista tático, não foi muito mais brilhante. A chegada massiva de tanques exigia abastecimento de combustível e munições. Evidentemente, essas necessidades não foram atendidas. É o famoso «a logística virá depois». Não, ela deve ao menos acompanhar, e se possível preceder. Os Estados Unidos compreenderam isso muito bem e o demonstraram, em particular, durante a guerra de libertação do Kuwait. A ameaça dos drones foi subestimada, ou mesmo ignorada. Os russos combatiam contra um país invadido, mas altamente industrializado, com pessoas capacitadas e engenhosas. E elas o demonstraram. Já não se tratava da grande guerra patriótica que foi amplamente mediatizada durante décadas e incutida nos jovens russos desde a mais tenra idade. Era uma outra guerra que não tinha mais nada de patriótica. Para os ucranianos, era exatamente isso: uma guerra patriótica. Seu país estava sendo invadido, seu território e seus campos ocupados, suas casas e cidades destruídas, suas mulheres violadas, feridas ou mortas, assim como seus filhos. Eles combatiam em sua própria terra, pela sua pátria, pelo seu país e pelos seus. O governo não caiu, ainda está lá, mesmo que não seja o mais indicado para iniciar negociações de paz. Seria hora de pensar em ter para a Ucrânia um novo homem e uma nova equipe, com uma visão diferente do seu futuro, ao mesmo tempo firmemente determinados a negociar palmo a palmo com o Sr. Putin. As condições prévias para o início de uma negociação são, com muita frequência, bloqueios garantidos que levam ao fracasso. É o que está acontecendo. Outras responsabilidades que contribuem para o prolongamento da guerra : As manobras políticas muito (demasiadamente) ativas dos Estados Bálticos e da Polônia principalmente — mesmo que esta última esteja revendo recentemente sua posição — dirigidas aos países europeus e à Comissão Europeia sob as «ordens» de uma mulher que não possui o valor esperado para essa função, a Sra. Von Der Leyen. O financiamento da Ucrânia pelos Estados Unidos e pela Europa — parte do qual pode estar a ser desviado do destino previsto — e cada vez mais por esta última, à medida que os EUA se distanciam da resolução deste conflito, alimenta a continuação da guerra e a resistência dos ucranianos, e, consequentemente, as suas exigências. O Sr. Zelensky puxa pela manga dos chefes de Estado e de governo europeus, por vezes com um tom ameaçador, para obter prebendas cada vez mais onerosas para a Europa e para a França. O que não é mencionado: Os políticos, na Europa como em qualquer outro lugar, não apreciam verdadeiramente ver as suas fraquezas ou os seus abusos de poder e de influência sobre a consciência dos seus concidadãos serem denunciados. Desde o Maïdan, era preciso estar do lado da Ucrânia, desses pobres ucranianos que sofriam sob o jugo russo, sobretudo os jovens. Que bom argumento de venda é dizer que os jovens são oprimidos por um poder, como se o facto de ser jovem conferisse um selo de inteligência e de compreensão do mundo. Em França, poderíamos recordar o triste e desolador episódio de maio de 1968, tão cheio de consequências que perduram até hoje: o início da dissolução do Estado, da autoridade — sobretudo a paterna —, da família a seguir; e naturalmente da Escola, de passagem, e do trabalho. Infelizmente, os políticos ocidentais, sobretudo na Europa Ocidental, lisonjeiam os sentimentos e o sentimentalismo. Tudo o que acontece deve ser interpretado, visto e apreciado através do prisma das emoções. Em 2014, ainda mais em 2022, e hoje mais do que nunca, o mantra deve ser: «Amo a Ucrânia; amo os ucranianos. Os russos são selvagens, violadores, assassinos». Como se todas as guerras e todos os exércitos não partilhassem traços semelhantes, em graus variados, naturalmente. Os franceses devem amar Zelensky? Amam-no, ao que parece. Os políticos, os estrategas dos plateaux televisivos e os media mainstream dizem-no e repetem-no. O que tem de amável o Sr. Zelensky? Ele mais do que Putin? Não, não se deve amar nem o Sr. Putin (evidentemente), nem os russos (por que razão são proscritos?). São todos corruptos. Será preciso lembrar que em 2014 a Ucrânia era considerada um dos países mais corruptos do mundo e que o mal está longe de ter sido erradicado? Então, é preciso amar aqueles a quem o Ocidente permite sobreviver, mas que desviam parte das doações. Outros emigraram para a Europa e aguardam o fim das hostilidades para regressar à Ucrânia, uma vez garantida a paz. O Ocidente faz geopolítica com sentimentos — pelo menos com os da sua população. Mas esse não é um modo de raciocínio, de reflexão nem de análise pertinente. Não é assim que as relações entre países devem ser construídas. Os países não têm amigos, apenas interesses. É com base nisso que os nossos governantes devem decidir as suas posições e as suas relações com os homólogos. O Ocidente faz geopolítica com sentimentos. É certo que Putin não os demonstra, nem Zelensky, aliás. Este último comportou-se frequentemente de forma autoritária e exigente para com a Europa e os países europeus, que devem satisfazer as suas exigências. Próximo artigo O impacto de uma vitória da Ucrânia ou da Rússia (4/5) Leia também sobre o mesmo tema Como o Ocidente escolheu a Ucrânia (1/5) Guerra na Ucrânia: o fracasso dos primeiros esforços de paz (2/5)

A cimeira de Washington: entre esperanças e ilusões

A cena foi impecavelmente coreografada no Salão Oval nesta terça-feira, 21 de julho de 2026. De um lado, Donald Trump, prometendo ajuda militar e oferecendo uma espetacular janela econômica ao suspender um embargo aéreo de quarenta anos. Do outro, o presidente libanês Joseph Aoun, exibindo um documento oficial apresentado como o roteiro definitivo para desarmar o Hezbollah. Para os observadores ocidentais, a troca parece perfeita: a ampliação da soberania do Estado libanês em troca do apoio dos Estados Unidos para expulsar de vez a influência iraniana do Levante. No entanto, por trás dos sorrisos protocolares, dos apertos de mão, dos abraços e das brincadeiras, essa cúpula, embora muito promissora, corre o risco de se tornar mais uma ilusão diplomática. O entusiasmo demonstrado em Washington ignora deliberadamente três pontos cegos estruturais que relativizam esse otimismo: os limites da pressão americana sobre Israel; a falta de credibilidade do Estado libanês quando se trata de enfrentar o arsenal da milícia pró-iraniana; e o próprio fator iraniano. A equação apresentada por Joseph Aoun baseia-se em um princípio de condicionalidade rigorosa: o desarmamento do Hezbollah está condicionado à retirada total e definitiva das forças israelenses do sul do Líbano. Trata-se de uma posição clássica, anunciada por Aoun em diversas ocasiões, e essa declaração na Casa Branca acalma a tempestade política em Beirute que antecedeu a cúpula. No entanto, Washington dispõe de influência limitada quando o assunto é a segurança de Israel sob a perspectiva do Estado israelense. Donald Trump afirmou que Israel "está se retirando", demonstrando uma postura flexível em relação a Tel Aviv e Beirute, e nenhum cronograma vinculante foi anunciado. O Exército israelense obedece apenas à sua própria doutrina de segurança nacional, que exige o direito de supervisão e de intervenção militar imediata diante de qualquer ameaça percebida. Essa exigência de uma soberania compartilhada ou violada é intrinsecamente incompatível com o plano defendido pela Presidência libanesa. Os tiros de advertência disparados pelos israelenses contra o nosso Exército em Zawtar al-Gharbiya, poucas horas antes da cúpula, lembraram que, na Linha Azul, é o Exército israelense quem dita o ritmo, e não os comunicados do Departamento de Estado. Donald Trump, cujo apoio a Israel continua sendo a base de sua política para o Oriente Médio, jamais arriscará um rompimento direto com seu aliado. Sem uma garantia absoluta da eliminação das armas do Hezbollah, a pressão americana continuará superficial e a retirada israelense permanecerá estagnada. Nesse mesmo ponto, persistem dúvidas sobre a credibilidade do Poder Executivo libanês. A comunidade internacional deposita pouca confiança em um plano de desarmamento que repete, essencialmente, o mesmo plano elaborado em agosto de 2025, quando Israel se retirou do território libanês, mantendo apenas cinco posições adjacentes à fronteira. Além disso, à luz dos últimos vinte anos, a memória política internacional impõe o ceticismo. Das promessas vazias do diálogo nacional de 2006 aos Acordos de Doha de 2008, passando pela Declaração de Baabda de 2012 e pelas retiradas israelenses de 2006 e 2025, em conformidade com a Resolução 1701, todos os textos que pretendiam colocar as armas sob o controle exclusivo do Estado acabaram relegados ao esquecimento. O plano apresentado por Aoun a Trump dificilmente escapará dessa regra. Ao que tudo indica, ele foi elaborado sem o consentimento dos partidos xiitas armados Hezbollah e Amal, que controlam uma parcela significativa das decisões políticas em Beirute. Além disso, o presidente Aoun deu a entender na Casa Branca que Nabih Berri é favorável ao fim da guerra. Isso mantém a ambiguidade diplomática. Ainda assim, essa cúpula foi mais do que necessária, sobretudo porque mantém em andamento um processo que continua sendo o único capaz de garantir um mínimo de tranquilidade no sul do país. O Exército libanês, que Washington vê como uma possível força substituta, é uma instituição respeitada, mas não entrará em um confronto direto para apreender os mísseis do Hezbollah ao norte do rio Litani. Essa é claramente a vontade do presidente Joseph Aoun, pois, segundo os cálculos de sua equipe, uma decisão desse tipo corre o risco de desencadear uma instabilidade sociopolítica, embora os moradores do sul estejam, a princípio, entusiasmados com o envio das tropas para suas vilas e embora o Hezbollah apresente sinais evidentes de enfraquecimento. Dessa forma, esse plano de desarmamento do Hezbollah, vazado em Washington, parece mais uma estratégia de comunicação do que um plano consistente ou uma estratégia destinada a contribuir para a manutenção da estabilidade. O Hezbollah, por sua vez, continua dispondo de uma capacidade de desestabilização que não hesitará em utilizar, apesar de seu enfraquecimento. A milícia pró-iraniana, juntamente com seu aliado Nabih Berri, pode paralisar o Estado por dentro ou provocar incidentes armados calculados nas chamadas "zonas piloto" do sul, ou mesmo fora delas, para levar Israel a reagir e demonstrar ao mundo a impotência do Exército libanês. Além do otimismo gerado por essa cúpula, relacionado ao apoio de Washington ao Exército e às pressões para restabelecer a estabilidade, e apesar dos grandes obstáculos enfrentados pelo plano de Joseph Aoun, a verdadeira surpresa está na reabertura das ligações aéreas diretas com os Estados Unidos. Se essa medida representa um inegável alívio econômico e psicológico para a diáspora e para o turismo, ela também deve ser interpretada como um sinal político de que o aeroporto de Beirute agora está sob vigilância efetiva do Exército libanês, o que é extremamente positivo. Quanto ao restante, no médio prazo, o horizonte do Líbano até o fim de 2026 está longe de apontar para uma normalização pacífica ou para um desarmamento ordenado. O cenário mais provável é o de um status quo armado, sob supervisão internacional, com grande expectativa de sucesso nas zonas piloto para que elas sirvam de trampolim para medidas mais amplas. Assim, o Líbano continuará navegando em meio às incertezas, em um ambiente geopolítico em plena transformação.

Trump faz severo aviso ao Irã e aos Houthi
Por
Taline Becharraoui
Publicado

A escalada continua e se intensifica na frente iraniana. Há doze dias, sem interrupção, o Exército dos Estados Unidos bombardeia posições e infraestruturas da Guarda Revolucionária em várias regiões do Irã. A entrada dos Houthis no Iêmen também se confirma. No início da manhã desta quinta-feira, a milícia pró-iraniana anunciou ter atingido dois petroleiros sauditas no Mar Vermelho, como parte do bloqueio marítimo que afirma impor à Arábia Saudita. A ativação da frente iemenita não ficou sem resposta por parte dos Estados Unidos. O presidente Donald Trump fez uma severa advertência ao regime iraniano e aos Houthis. Ao condenar o ataque contra os dois petroleiros sauditas, o chefe da Casa Branca deixou claro que, caso uma agressão semelhante volte a ocorrer, responsabilizará a República Islâmica, “já que é ela quem manipula a milícia Houthi”. O presidente americano destacou que, se um novo ataque acontecer, imporá “uma severa punição ao Irã, assim como aos Houthis”. Por sua vez, o secretário de Estado Marco Rubio declarou nesta quinta-feira que os Houthis fizeram a escolha errada ao se deixarem arrastar para a batalha em curso. Em tom irônico, afirmou que eles “caíram na armadilha” ao decidir entrar na guerra ao lado do Irã. O chefe da diplomacia americana acrescentou que o regime iraniano continuará pagando um preço elevado, “que será ainda maior a cada noite”, até que “volte à razão”. Nesse contexto, vale destacar que o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, questionado em uma entrevista sobre o líder supremo Mojtaba Khamenei, afirmou que não o encontrou recentemente e indicou que pouquíssimas pessoas têm acesso a ele. Outros sinais preocupantes de escalada também surgiram. O Reino Unido e a França fecharam suas embaixadas em Teerã. Os iranianos acusam os britânicos de terem permitido que bombardeiros americanos B-1 decolassem de suas bases para atacar o Irã. Além disso, deputados americanos aprovaram, por estreita maioria, um plano de 95 bilhões de dólares para financiar a guerra no Irã, mas o texto ainda deverá ser submetido à votação no Senado. A aprovação ocorre no momento em que o barril de petróleo volta a superar a marca de 100 dólares. Também merece destaque a visita do primeiro-ministro iraquiano Ali el-Zaidi a Teerã nesta quinta-feira, onde foi recebido pelo presidente iraniano Massoud Pezechkian. Segundo a agência iraniana Irna, “vários acordos bilaterais foram assinados”. O jovem político iraquiano, que poucos dias antes havia sido recebido com grande pompa em Washington por Donald Trump e havia assinado diversos acordos com os Estados Unidos, estaria agora buscando preservar sua relação com o poderoso, embora enfraquecido, vizinho iraniano. O acordo nuclear com a Arábia Saudita O acontecimento mais marcante desta quinta-feira foi, sem dúvida, o anúncio feito pelo secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, sobre um futuro acordo para o desenvolvimento da energia nuclear civil na Arábia Saudita. Segundo a AFP, o ministro mencionou a possibilidade de exportar tecnologia americana e gerar empregos para a construção de usinas nucleares que substituam as atuais usinas movidas a petróleo e gás. Nesse contexto, o presidente Trump destacou nesta quinta-feira que o acordo nuclear em negociação com a Arábia Saudita “está vinculado ao reconhecimento de Israel e à ratificação dos Acordos de Abraão”, já assinados por vários países do Golfo, entre eles os Emirados Árabes Unidos. Até agora, Riad se recusava a considerar o reconhecimento do Estado de Israel sem a criação de um Estado palestino. Embora a reação saudita ainda seja aguardada, a do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu foi imediata após o anúncio de Trump. O gabinete de Netanyahu classificou uma eventual assinatura dos Acordos de Abraão pela Arábia Saudita como “um avanço histórico”. No terreno, a situação entre israelenses e palestinos continua se agravando. O ministro da extrema-direita Itamar Ben-Gvir realizou uma visita altamente controversa à Esplanada das Mesquitas, onde cumprimentou judeus que rezavam no local. A visita foi amplamente criticada, especialmente pela Jordânia, que administra esse importante local sagrado do Islã, já que, segundo o acordo vigente, os judeus podem visitar o local, mas não rezar nele. Enquanto isso, os confrontos entre colonos e palestinos na Cisjordânia continuam. Nesta quinta-feira, dois palestinos foram mortos a facadas durante um confronto com um colono, que também ficou ferido. No Líbano, Hezbollah demonstra irritação No Líbano, multiplicam-se os comentários sobre o saldo da visita do presidente Joseph Aoun a Washington e de sua reunião com o presidente Trump na última terça-feira. Enquanto grande parte da classe política comemorou o sucesso da visita a Washington, o Hezbollah mobilizou uma série de esforços para desacreditar tanto o presidente quanto o primeiro-ministro Nawaf Salam. Em comunicado, o bloco parlamentar do Hezbollah afirmou que a visita presidencial “não conseguiu obter a realização de nenhuma reivindicação nacional soberana e tampouco resultou em um compromisso americano em relação a uma retirada israelense”. O texto da formação pró-iraniana afirma que os dirigentes libaneses estão conduzindo o país “para uma nova tutela estrangeira”. Vale destacar que o presidente do Parlamento e líder do Movimento Amal, Nabih Berri, principal aliado do Hezbollah, telefonou ao presidente após seu retorno ao Palácio de Baabda, apesar de as relações entre os dois terem permanecido relativamente distantes nas últimas semanas.

O não pronunciamento de Riad Salamé: a primazia do direito face aos rumores

Por Antoine Menassa * A Câmara de Acusação de Beirute decidiu, há alguns dias, arquivar o processo contra o ex-governador do Banco do Líbano, Riad Salamé, no caso aberto após a denúncia apresentada, em junho de 2021, pelo empresário Talal Abou-Ghazaleh. Ele o acusava de emitir circulares que modificavam o sistema econômico liberal, de ocultar a real situação dos bancos e de participar, em conluio com essas instituições, da apropriação dos recursos dos depositantes. Em sua decisão de 14 de julho de 2026, a Câmara de Acusação concluiu que não estavam reunidos os elementos constitutivos da infração alegada. Aplicando os princípios do direito penal com imparcialidade e independência, recolocou o caso em seu estrito âmbito jurídico e encerrou a ação movida contra o ex-governador. A decisão foi saudada como uma demonstração do papel da Justiça, que não deve ser guiada por impressões nem pela pressão da opinião pública, mas exclusivamente pela lei e pelas provas. A decisão também demonstra a capacidade da Justiça libanesa de, apesar das crises enfrentadas pelo país, fazer prevalecer o Estado de Direito e os princípios fundamentais da justiça. Para além do caso específico, ela afasta o risco de um precedente jurídico que poderia levar à equiparação de crimes contra o patrimônio, como furto, abuso de confiança, desvio de recursos ou fraude, a violações da Constituição, sem fundamento legal e em contradição com os princípios essenciais do direito penal. No direito, o arquivamento de um processo por falta de elementos não representa uma reabilitação emocional nem uma tomada de posição política. Trata-se de uma decisão judicial que põe fim ao processo quando as provas são insuficientes ou quando os elementos legais da infração não estão comprovados. Essa decisão constitui uma das garantias fundamentais de uma justiça moderna. A cobertura da imprensa sobre esse caso, no entanto, levanta questionamentos. Em 2021, quando as acusações vieram a público, elas receberam ampla repercussão na mídia. Emissoras de televisão, jornais e sites de notícias deram grande destaque ao caso, multiplicando manchetes e alimentando um debate que frequentemente levou a uma condenação prematura de Riad Salamé. Muitos se esqueceram, na época, de que a presunção de inocência é um princípio fundamental, que só pode ser afastada por uma decisão judicial definitiva. Agora, quando a Justiça concluiu pelo arquivamento do caso por inexistência dos elementos constitutivos da infração, a repercussão na mídia parece muito mais limitada. Como se decisões que restabelecem os fatos despertassem menos interesse do que as próprias acusações. Esse contraste levanta dúvidas sobre o papel dos meios de comunicação. Alguns deram ampla divulgação às acusações, mas concederam muito menos visibilidade à decisão judicial que as rejeitou. Como se uma informação só adquirisse valor por meio do escândalo, enquanto decisões judiciais que restabelecem direitos fossem relegadas a segundo plano. A justiça, no entanto, não se mede pela intensidade das acusações, mas pela força das provas e pelo respeito às normas do direito. A decisão da Câmara de Acusação de Beirute recorda que a primazia do direito deve sempre prevalecer sobre os rumores e que a dignidade de uma pessoa não pode ser sacrificada por julgamentos midiáticos proferidos antes daqueles dos tribunais. Por fim, permanece uma questão: até que ponto uma pessoa consegue recuperar sua reputação depois de ser inocentada, quando a condenação midiática já deixou uma marca duradoura na opinião pública? A justiça só cumpre plenamente seu papel quando decisões de arquivamento ou absolvição recebem uma visibilidade comparável à concedida às acusações. Afinal, a verdade merece tanta repercussão quanto as suspeitas, e a equidade merece tanta atenção quanto o escândalo. * Presidente-fundador da Associação de Empresários Libaneses na França (HALFA)