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Rumo à neutralização do trunfo iraniano dos Houthis

Trump impõe uma nova e severa regra no estreito de Ormuz

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Numa ação destinada a garantir a livre circulação no estreito de Ormuz, Donald Trump declarou na quarta-feira que qualquer ataque iraniano contra um navio nesse estreito provocará a destruição de uma ponte ou de uma central elétrica no Irã. (Amirhossein Khorgooei / ISNA / AFP)
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Por Michel Touma
Publicado jul 23, 2026 - 00:35

Há mais de 11 dias consecutivos, a República Islâmica do Irã vem sendo submetida, todas as noites, a intensos bombardeios e ataques dos Estados Unidos contra posições da Guarda Revolucionária, infraestrutura militar e rotas de comunicação em diversas regiões do país. Ao mesmo tempo, o bloqueio marítimo imposto pelas Forças Armadas americanas aos portos iranianos está sufocando severamente uma economia que já se encontrava em uma situação especialmente crítica. Para completar, o próprio regime parece estar mergulhado em profundas divisões internas que ameaçam sua própria sobrevivência.

Diante de uma situação cada vez mais entrópica, na qual se envolveram como resultado direto de suas próprias políticas expansionistas e hegemônicas, que não reconheciam limites, as autoridades de Teerã buscam agora “exportar” o conflito, ampliando-o para toda a região, enquanto evitam cuidadosamente Israel. Ao mesmo tempo, tentam explorar ao máximo uma carta que utilizam por meio de métodos característicos de milícias e do crime organizado: a ameaça de paralisar as rotas internacionais de navegação, colocando em risco uma parte significativa da economia mundial. Essa estratégia de exportar sua própria crise se traduziu em ataques com drones e mísseis não apenas contra os países do Golfo, como ocorre desde o início do conflito em junho de 2025, mas também, de forma crescente, contra a Jordânia, o Iraque, onde grupos de oposição iranianos foram alvo de ataques, e, mais recentemente, a Síria.

O mais recente movimento do regime dos aiatolás nessa campanha foi reativar a carta Houthi. A milícia iemenita controlada por Teerã renovou e intensificou, nos últimos dias, suas ameaças contra a Arábia Saudita. Também afirmou ter imposto um bloqueio marítimo aos portos sauditas. A manobra de Teerã é clara: ampliar sua campanha de chantagem e intimidação para o Estreito de Bab el Mandeb e o Mar Vermelho, em uma tentativa de aliviar a pressão militar americana sobre a infraestrutura da Guarda Revolucionária. No entanto, a quarta-feira foi marcada por uma série de declarações contundentes que tendem a neutralizar a carta houthi do Irã. O presidente Donald Trump reiterou, na quarta-feira, como já havia feito durante seu encontro com o presidente Joseph Aoun, que os Estados Unidos não permanecerão passivos caso os Houthis ameacem a liberdade de navegação no Estreito de Bab el Mandeb e no Mar Vermelho.

Em sintonia com essa posição, a Síria e, sem surpresa, o secretário-geral do Conselho de Cooperação do Golfo condenaram energicamente, na quarta-feira, as ameaças dos Houthis contra a Arábia Saudita. Mas a reação mais significativa veio, sem dúvida, do Paquistão, apesar de seu papel como principal mediador entre Irã e Estados Unidos e, sobretudo, como um dos principais aliados da República Islâmica, ao menos até certo ponto. Islamabad condenou duramente os ataques Houthis contra o reino saudita, ressaltando seu compromisso com a segurança e a soberania da Arábia Saudita, lembrando que os dois países são vinculados por um pacto de defesa e segurança. O governo paquistanês advertiu ainda que responderá com firmeza, “se necessário com o uso da força”, conforme especificou, a qualquer ataque contra uma embarcação paquistanesa que transite pela via marítima em questão.

Paralelamente à neutralização da carta houthi do Irã, o presidente Trump elevou o tom, na quarta-feira, em seus esforços para garantir a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz. Declarou de forma inequívoca que, a partir de agora, qualquer ataque iraniano, seja com drones, mísseis ou qualquer outro meio, contra uma embarcação que transite pelo Estreito de Ormuz levará as Forças Armadas americanas a destruir imediatamente uma ponte ou uma usina de energia em território iraniano, inclusive em Teerã ou em seus arredores.

Essa advertência severa reforça a neutralização da carta houthi e deveria, ao menos em princípio, moderar a postura beligerante da Guarda Revolucionária em relação ao Estreito de Ormuz. Ainda assim, o principal negociador iraniano afirmou, na quarta-feira, que “a situação no Estreito de Ormuz não voltará a ser como era antes da guerra”, confirmando a determinação da República Islâmica de exercer controle sobre a hidrovia e cobrar taxas de trânsito, apesar da rejeição categórica dessa medida por parte dos Estados Unidos, da União Europeia, dos países do Golfo e até mesmo da China.

As tensões cada vez maiores apontam para a possibilidade de um ataque americano de grande escala contra o regime iraniano. Dois acontecimentos, entre outros, indicam essa possibilidade: a decisão do novo primeiro-ministro britânico de autorizar o estacionamento de aeronaves americanas em bases militares britânicas e a aprovação, pelo Parlamento da Bulgária, na noite de quarta-feira e por ampla maioria, de um pedido do governo autorizando o reabastecimento de aeronaves de combate americanas em território búlgaro. O Irã havia advertido as autoridades búlgaras contra essa decisão.

Para concluir este capítulo regional, cabe destacar que o novo primeiro-ministro do Iraque, Ali al Zaidi, deverá visitar Teerã em breve. Nas circunstâncias atuais, a viagem assume um significado especial à luz das políticas adotadas pelo atual governo iraquiano, que multiplicou iniciativas e medidas destinadas a conter a influência iraniana no Iraque.

Essa nova orientação da política iraquiana esteve no centro da visita do senhor al Zaidi a Washington há alguns dias, ocasião em que assinou uma série de acordos econômicos com autoridades americanas. Esses acordos foram vistos com grande desconfiança pelo regime iraniano, que denunciou uma mudança estratégica em Bagdá, aproximando-se do Ocidente em detrimento da influência da República Islâmica.

O capítulo libanês

A mudança estratégica voltada para conter o expansionismo iraniano também é claramente visível no tabuleiro libanês. Ela foi ainda mais consolidada após a visita oficial do presidente Joseph Aoun a Washington no início da semana e seu amplamente divulgado encontro com o presidente Trump na Casa Branca.

Essa opção estratégica, que pode ser descrita como soberanista e pró-Ocidente, manifesta-se especialmente no início da implementação do acordo-quadro assinado entre Líbano e Israel em 26 de junho. Nos termos desse acordo, patrocinado pelos Estados Unidos, o Exército israelense retirou-se, na manhã de terça-feira, de Zawtar al Gharbiyeh, onde o Exército libanês foi imediatamente mobilizado e iniciou sua missão de garantir que o Hezbollah deixasse de estar presente na região. E, para destacar a importância do processo iniciado com a assinatura do acordo-quadro entre Líbano e Israel, o primeiro-ministro Nawaf Salam procurou conferir um caráter solene ao processo ao realizar uma visita não anunciada a Zawtar al Gharbiyeh.

A implementação do acordo entre Líbano e Israel e as perspectivas para sua próxima fase serão tema de uma nova rodada de negociações entre os dois países, prevista para 4 de agosto, em Roma, mais uma vez sob os auspícios dos Estados Unidos. Para grande desagrado do campo iraniano…

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