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Guerras iranianas: quem pagará o preço?

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Por Rabih Dandachli
Publicado jul 25, 2026 - 15:31

O confronto que hoje abala o Oriente Médio já não constitui apenas um novo capítulo do conflito entre o Irã e seus adversários, nem pode ser reduzido a uma disputa entre Teerã, os Estados Unidos e Israel. Os acontecimentos recentes revelam uma realidade que vai muito além da própria guerra. Eles levantam uma questão mais fundamental: qual será a configuração da ordem regional que emergirá desse confronto, que lugar o Irã ocupará nela e que futuro aguarda a rede de grupos armados por meio da qual Teerã construiu uma parte essencial de sua influência no mundo árabe.

Durante muitos anos, a estratégia iraniana baseou-se em uma equação relativamente simples: proteger o próprio território enquanto expandia sua influência e sua capacidade de dissuasão para além de suas fronteiras por meio de uma rede de aliados e grupos armados que se estende do Iraque ao Iêmen, passando pelo Líbano. Esse modelo proporcionou a Teerã aquilo que considerava uma “profundidade estratégica”, permitindo-lhe exercer pressão sobre seus adversários a partir de múltiplos teatros de operações, sem transformar necessariamente o território iraniano no principal campo de batalha.

No entanto, a guerra atual está revelando os limites dessa equação e pode muito bem marcar o início de sua inversão contra aqueles que a conceberam.

A questão já não se limita às ações dos aliados do Irã. Os próprios países vizinhos do Irã passaram a integrar diretamente o teatro de operações, enquanto vários Estados árabes foram atingidos por mísseis e drones iranianos. Em 28 de fevereiro, Kuwait, Catar, Emirados Árabes Unidos e Bahrein anunciaram ter interceptado mísseis iranianos, enquanto a Jordânia também interceptou outros após sua entrada em seu espaço aéreo. Nas semanas seguintes, os ataques e suas repercussões estenderam-se a outros países do Golfo. Em 11 de março, o Conselho de Segurança adotou a Resolução 2817, condenando os ataques iranianos contra Estados da região e exigindo que Teerã lhes pusesse fim.

É aqui que surge o primeiro paradoxo que merece atenção: como o Irã pode exigir respeito à sua própria soberania enquanto considera a de seus vizinhos uma variável que pode ser ignorada sempre que seus cálculos militares assim o exigirem?

Não há dúvida de que o próprio Irã sofreu ataques militares significativos e justificou sua resposta com base no direito à legítima defesa. Essa realidade não pode ser ignorada em qualquer análise objetiva do conflito. Contudo, o direito de um Estado de se defender não lhe confere automaticamente o direito de transformar outros países em uma extensão geográfica do campo de batalha, sobretudo quando esses países procuram permanecer fora do conflito ou conter sua escalada.

Da exportação da influência à exportação do custo da guerra

Uma das principais características da política regional do Irã é que, ao longo das últimas décadas, ela não se limitou a ampliar sua influência política. Também vinculou parte de sua segurança nacional à construção de capacidades militares para além de suas próprias fronteiras.

Do ponto de vista iraniano, a lógica era simples: enfrentar os adversários longe do território iraniano para dispor de maior margem de manobra e de uma capacidade de dissuasão mais robusta. Mas essa estratégia tem outra face: transferir o custo dos conflitos do Irã para outros Estados e outras sociedades.

É isso que confere aos acontecimentos atuais sua verdadeira dimensão.

Os países do Golfo, por exemplo, já não são os mesmos de vinte anos atrás. A Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Catar, o Kuwait, Omã e o Bahrein investem hoje em modelos econômicos cada vez mais baseados na estabilidade, na atração de investimentos, na aviação, no turismo, na tecnologia, na logística e em uma integração mais profunda aos mercados globais.

Para esses países, a segurança já não se resume à proteção das fronteiras. Ela se tornou um dos pilares de seu modelo econômico e de sua capacidade de realizar seus projetos de futuro.

Assim, quando seus aeroportos, infraestruturas estratégicas, espaço aéreo ou rotas marítimas passam a integrar um confronto entre o Irã e um terceiro ator, a questão deixa de ser um incidente militar isolado. O que está diretamente em jogo é o próprio conceito de soberania que deveria reger as relações entre os Estados da região.

Mais do que isso, essa política não se expressa apenas por meio do Estado iraniano.

É aqui que começa a segunda dimensão do problema: a dos aliados e grupos armados ligados ao Irã.

Os houthis: quando um grupo armado decide as relações entre dois Estados

Os acontecimentos mais recentes no Iêmen oferecem talvez o exemplo mais revelador do dilema que hoje se impõe à região.

Os houthis anunciaram o que chamaram de um “bloqueio marítimo” contra a Arábia Saudita e ameaçaram embarcações ligadas aos portos sauditas, levando o confronto muito além dos limites do conflito interno iemenita. Essas ameaças já levaram petroleiros que transportavam petróleo saudita a alterar suas rotas, demonstrando que suas consequências vão muito além das declarações políticas e afetam o comércio, a energia e a navegação internacional.

A pergunta não deveria ser apenas: por que os houthis agem dessa maneira?

A questão mais importante é outra: quem concedeu a um grupo armado que atua no Iêmen o poder de tomar decisões capazes de determinar as relações entre esse país e um Estado vizinho tão importante quanto a Arábia Saudita, expondo ao mesmo tempo o próprio Iêmen a consequências militares e econômicas potencialmente muito graves?

Não se trata apenas de uma questão iemenita.

Ela está no centro da crise produzida, em vários países árabes, pelo modelo de grupos armados que atuam paralelamente ao Estado.

O problema já não consiste apenas no fato de o Irã contar com aliados armados na região. Alguns desses aliados são agora capazes de redefinir as relações de seu próprio Estado com os países vizinhos à margem das instituições estatais.

E essa é uma diferença fundamental.

Um partido político é livre para adotar a posição regional que desejar, apoiar o Irã ou se opor a ele, e expressar sua posição em relação aos Estados Unidos, a Israel ou à Arábia Saudita. Isso faz parte da vida política.

Mas, quando um partido ou organização dispõe de uma capacidade militar autônoma que lhe permite transformar sua posição política em uma guerra que acaba envolvendo todo o Estado, estamos diante de uma realidade completamente diferente.

Do Iêmen ao Líbano e ao Iraque

O que o caso do Iêmen revela hoje guarda muitos paralelos com a experiência vivida pelo próprio Líbano, ainda que as circunstâncias e os contextos sejam diferentes.

Nos últimos anos, os libaneses experimentaram o que significa ver a decisão de entrar em guerra escapar às instituições do Estado e passar a depender de cálculos que as ultrapassam, transformando um país já atingido por uma profunda crise econômica e política em um dos teatros de uma confrontação regional muito mais ampla.

O debate, portanto, não diz respeito apenas à posição dos libaneses em relação a Israel, nem à legitimidade da resistência à ocupação em determinados momentos da história. Ele levanta uma questão muito mais precisa: quem detém hoje a autoridade para levar o Líbano à guerra?

O Estado ou uma organização que atua dentro do Estado?

O Iraque enfrenta um dilema semelhante, embora sob uma forma diferente. Bagdá procura preservar suas relações com o Irã, de um lado, e com os países árabes, os Estados Unidos e a comunidade internacional, de outro, enquanto as iniciativas de determinadas facções armadas podem colocar o Estado iraquiano diante das consequências de decisões que seu próprio governo jamais tomou.

A confrontação atual também demonstrou que os cálculos de algumas facções armadas iraquianas nem sempre coincidem com os de Teerã. Segundo diversos relatos, grupos com os quais o Irã construiu relações estreitas ao longo dos anos manifestaram reservas quanto ao envolvimento em uma guerra de grande escala na qual o Iraque seria o primeiro a pagar o preço.

Trata-se de uma evolução que merece toda a atenção.

Porque a pergunta que começa a surgir nesses meios talvez já não seja: estamos com o Irã ou contra o Irã?

A verdadeira questão é outra:

O interesse do Irã nesta guerra coincide necessariamente com o interesse do Iraque, do Líbano ou do Iêmen?

Os grupos armados: da “profundidade estratégica” ao fardo estratégico

Talvez seja aqui que resida o maior paradoxo da estratégia iraniana.

Durante décadas, Teerã investiu na construção de uma rede de relações com grupos armados em toda a região, considerando essa rede um componente essencial de sua capacidade de dissuasão e de sua segurança nacional.

No entanto, aquilo que durante muito tempo foi visto como uma fonte de profundidade estratégica poderá transformar-se, no novo contexto regional, em um fardo estratégico.

Toda vez que um grupo armado utiliza o território de um Estado árabe para ameaçar outro Estado, aumenta a pressão não apenas sobre esse grupo, mas também sobre o país a partir do qual ele atua.

E, à medida que mísseis, drones e rotas marítimas passam a ser instrumentos utilizados por atores que operam fora das instituições oficiais do Estado, torna-se cada vez mais difícil considerar as armas desses grupos como uma simples questão interna do país em que estão instalados.

O Irã e seus aliados poderão estar cometendo aqui um grave erro estratégico se partirem do pressuposto de que o Oriente Médio que emergirá da guerra atual continuará aceitando as mesmas regras que prevaleciam antes do conflito.

A região está mudando, e as regras do jogo também

Uma transformação muito mais profunda está em curso no Oriente Médio.

A Arábia Saudita e os Estados do Golfo estão redefinindo suas prioridades. Outros países árabes procuram reconstruir suas instituições após anos de guerras e divisões internas. Há uma tendência crescente de considerar que a estabilidade econômica, a segurança regional e a soberania nacional já não são questões separadas, mas interesses estreitamente interligados.

Nesse contexto, torna-se difícil imaginar uma ordem regional estável que aceite de forma duradoura a existência de organizações armadas capazes de tomar, de maneira autônoma, decisões militares contra outros Estados.

Nenhum Estado pode exigir que seus vizinhos respeitem sua soberania se ele próprio não detiver, dentro de suas fronteiras, o monopólio do uso da força e da decisão de entrar em guerra.

Da mesma forma, nenhuma organização armada pode pretender fazer parte do sistema político quando isso lhe convém e comportar-se como um Estado independente quando estão em jogo as decisões sobre guerra e paz.

Essa equação pode continuar viável enquanto o custo das confrontações permanecer limitado.

Mas ela se torna muito mais frágil quando um único drone ou um único míssil é capaz de atingir uma infraestrutura estratégica, paralisar um aeroporto, ameaçar uma rota marítima ou arrastar dois Estados para uma confrontação mais ampla.

É por isso que o que está em jogo hoje pode ir muito além de um simples reajuste do equilíbrio de forças entre o Irã e seus adversários.

Poderá redefinir aquilo que, daqui em diante, será considerado aceitável ou inaceitável dentro do próprio sistema regional de segurança.

O maior erro de cálculo do Irã

O maior erro de cálculo de Teerã hoje talvez seja acreditar que ampliar o alcance da confrontação fortalece automaticamente sua capacidade de dissuasão.

Isso pode ser verdade do ponto de vista estritamente militar, ao menos por algum tempo.

Mas uma estratégia não se mede apenas pelo número de frentes que um ator é capaz de abrir. Ela também deve ser avaliada pela ordem política e de segurança que essas frentes deixarão quando a guerra terminar.

Se as ações do Irã e as ameaças lançadas pelas forças que lhe são aliadas levarem a Arábia Saudita, os Estados do Golfo, a Jordânia e outros países a aprofundar sua cooperação em matéria de defesa, aumentar a pressão internacional sobre grupos armados que atuam à margem do Estado e fortalecer, no Líbano, no Iraque e no Iêmen, as demandas internas em favor do monopólio das instituições legítimas sobre as decisões de guerra e paz, então o Irã poderá descobrir que a própria guerra por meio da qual buscava demonstrar a amplitude de sua influência acabou contribuindo para enfraquecer o ambiente que tornou essa influência possível.

Essa possibilidade não deve ser subestimada.

Porque o poder regional do Irã nunca se apoiou apenas em seus mísseis, em seu programa nuclear ou em suas capacidades militares convencionais. Uma parte essencial desse poder dependeu da capacidade de Teerã de atuar nas zonas cinzentas do Estado árabe: um Estado que existe sem deter o monopólio da força; um governo que governa sem exercer o monopólio das decisões militares; fronteiras internacionalmente reconhecidas que, ainda assim, não conseguem impedir a circulação de armas nem a expansão do conflito.

Se essas zonas cinzentas começarem a desaparecer, um dos principais pilares da influência regional do Irã enfrentará um desafio de enorme magnitude.

As guerras do Irã e as de seus aliados: quem pagará o preço?

O desfecho da confrontação atual permanece aberto a múltiplos cenários. Ainda é impossível determinar com certeza qual será a forma da ordem regional que dela emergirá.

Uma realidade, porém, já começa a se impor: uma região submetida a um grau tão elevado de ameaça e instabilidade não retornará simplesmente à situação que existia antes da guerra.

Os Estados reavaliarão suas alianças, seus dispositivos de defesa, suas fronteiras e suas relações com o Irã. Também repensarão a forma como encaram os grupos armados capazes de ameaçá-los a partir do território de outros Estados.

Os próprios aliados do Irã talvez precisem responder a uma pergunta ainda mais importante do que a da vitória ou da derrota no conflito atual:

O que restará deles e de seus próprios Estados quando a guerra terminar?

Os houthis podem ameaçar a Arábia Saudita, mas será o Iêmen o primeiro a sofrer as consequências de uma nova guerra.

As facções armadas iraquianas podem optar por envolver-se em uma confrontação regional de maior alcance, mas será o Iraque quem arcará com seus custos econômicos, políticos e de segurança.

No Líbano, uma organização armada pode considerar-se parte de uma equação regional mais ampla. Mas, quando os combates terminarem, serão os libaneses que permanecerão sozinhos diante da necessidade de reconstruir sua economia, seu Estado e suas instituições.

Quanto ao Irã, ele pode ampliar os teatros de confrontação e demonstrar sua capacidade de atingir seus adversários para além de suas fronteiras. Mas, ao fazê-lo, também corre o risco de transformar o temor que sua influência inspira no próprio fundamento de uma nova ordem regional concebida precisamente para contê-la.

É aí que reside o grande paradoxo.

Aquilo que o Irã construiu ao longo de décadas como uma fonte de profundidade estratégica poderá, pelo uso excessivo desse mesmo instrumento, tornar-se a principal razão pela qual a região buscará estabelecer uma nova arquitetura de segurança destinada a impedir que qualquer Estado ou grupo armado detenha o poder de decidir o destino de outros Estados.

A verdadeira questão, portanto, já não é saber se o Irã e seus aliados são capazes de abrir novas frentes. Eles já demonstraram que são.

A pergunta mais difícil é saber se eles têm plena consciência de que cada nova frente pode acelerar o surgimento de um Oriente Médio que já não estará disposto a aceitar as regras que permitiram o nascimento e a permanência desses aliados.

As guerras do Irã podem ter origem nos cálculos estratégicos de Teerã. Mas serão, muitas vezes, os Estados e os povos transformados em campos de batalha que pagarão o preço mais elevado. E, no Oriente Médio que está tomando forma, o monopólio do Estado sobre a decisão de fazer a guerra e celebrar a paz poderá deixar de ser apenas uma exigência de soberania interna para tornar-se uma das condições fundamentais de qualquer ordem regional viável.

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