


A semana passada encerrou-se, domingo, com dois acontecimentos de inegável importância. O primeiro foi a visita do primeiro-ministro Nawaf Salam a Bagdá, onde manteve reuniões com os líderes iraquianos de caráter predominantemente econômico.
Acompanhado pelo ministro de Energia Joe Saddi, o chefe do governo discutiu, nomeadamente, com seu homólogo iraquiano a possibilidade de incluir a refinaria de Trípoli na reativação do oleoduto que liga o Iraque à Síria, com vistas à exportação do petróleo iraquiano.
Um acordo nesse sentido foi assinado há alguns dias entre a Síria e o Iraque, e o governo libanês busca reativar o papel da refinaria de Trípoli nesse contexto.

O segundo acontecimento tem um caráter macro-político e supranacional: uma troca de mensagens entre o Hezbollah e o escorregadio e misterioso Líder Supremo iraniano Moujtaba Khamenei.
Esse documento revela que o Hezbollah reafirma sua lealdade ao Líder iraniano, destacando que o conflito atual na região é «o prolongamento da batalha de Karbala».
Reafirmando sua determinação em prosseguir com «a resistência armada», o Hezbollah enfatiza sua «total solidariedade com o Irã e os Guardiões da Revolução Islâmica», acrescentando que o partido «permanece sob a liderança do xeique Naïm Kassem» e continua «fiel à liderança de Moujtaba Khamenei».
Em continuidade à reafirmação do ato de lealdade por parte do Hezbollah, uma mensagem atribuída a Moujtaba Khamenei e dirigida ao partido pró-iraniano destaca que «a perseverança no caminho da resistência trará a vitória divina prometida aos mujahidins que seguem o caminho da verdade».
Trégua na frente americano-iraniana
No plano das operações militares, a frente americano-iraniana vive, desde a noite de sexta-feira, uma trégua precária.
Após 13 dias consecutivos de bombardeios americanos em território iraniano e de represálias iranianas sobre os países vizinhos do Golfo, as noites de sexta e de sábado foram tranquilas, enquanto a frente iemenita se agrava e o sul do Líbano permanece, por ora, distante da escalada.
A guerra americana contra o Irã acaba de tomar um novo rumo em direção a um futuro que permanece incerto.
Enquanto a escalada era palpável há cerca de 13 dias, e a semana foi marcada por maciços bombardeios americanos em território iraniano e por contínuas represálias iranianas sobre os países vizinhos do Golfo e a Jordânia, a tensão militar arrefeceu abruptamente na sexta-feira.
Os iranianos vivem sua segunda noite de calma, pode-se constatar na manhã de domingo. Segundo a mídia americana, essa trégua decorre de uma ordem dada pelo presidente americano Donald Trump na sexta-feira. Os iranianos também suspenderam seus ataques contra os países vizinhos.
Várias questões inquietam a mídia diante desse desenvolvimento. Essa trégua é temporária ou tende a durar? No que deve desembocar — em novas negociações ou num agravamento do conflito com, por exemplo, combates terrestres? O que realmente motivou a decisão de Trump?
Essa última questão é crucial. Pois, para muitos veículos americanos, como o New York Times ou CNN, o governo americano temeria o esgotamento do estoque de mísseis interceptadores que protegem os países do Golfo. Temeria também o alargamento do conflito no Oriente Médio.
Trump, por sua vez, continua enviando sinais contraditórios. Ao mesmo tempo em que garante estar cogitando ataques ainda mais contundentes contra o Irã, assegurou estar «conversando com os líderes iranianos no momento», avaliando que eles «estão se tornando cada vez mais sérios» por «uma razão óbvia», fazendo alusão aos bombardeios devastadores desferidos pela aviação americana.
Essa repentina trégua contrasta com o comportamento israelense dos últimos dias.
Mantidos à margem dos últimos ataques contra o Irã, enquanto eram o parceiro privilegiado (senão os instigadores) do início desta guerra contra o Irã no final de fevereiro, os israelenses tomaram medidas de precaução extremas ao longo desta semana, pedindo à população que estivesse pronta para se abrigar a qualquer momento.
Várias companhias aéreas suspenderam seus voos para Tel Aviv nos últimos dias.
Segundo algumas informações, os israelenses teriam se declarado prontos para realizar ataques precisos em território iraniano, mas teriam sido impedidos de fazê-lo pelo presidente Trump.
Mas na manhã de domingo, o governo israelense aprovou a prorrogação do estado de emergência até 11 de agosto.
De qualquer forma, um encontro a ser acompanhado de perto na semana que vem é a reunião prevista entre o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e o presidente americano, em Washington, na terça-feira.
Netanyahu demorou a conseguir esse encontro, sinal de que as tensões persistem entre os dois homens em relação à guerra no Irã.
O premiê israelense conseguirá influenciar as decisões de seu parceiro americano, sabendo que ambos precisam levar em conta prazos eleitorais internos cruciais nos próximos meses?
Para o presidente Trump, as eleições de meio de mandato podem se mostrar complicadas, já que a alta dos preços do petróleo e a inflação, relacionadas à guerra no Irã, abalaram seriamente sua popularidade.
Quanto a Netanyahu, ele joga mais uma vez seu futuro político.
No entanto, essas divergências e esses cálculos não mudam muito a relação estratégica entre os dois países. Um fato veio reforçar essa tese esta semana: na quinta-feira, o secretário americano de Energia anunciou um acordo próximo com a Arábia Saudita para o desenvolvimento de um programa nuclear civil, provocando reações preocupadas de parlamentares democratas e de setores israelenses, que dizem temer uma nova corrida ao armamento nuclear no Oriente Médio.
No mesmo dia, o presidente Trump publicou uma mensagem em sua rede socialTruth Social, com um conteúdo surpreendente: ele garante que esse acordo com os sauditas só poderá se concretizar se o país reconhecer Israel e assinar os Acordos de Abraão, já ratificados por vários países do Golfo.
Satisfação do lado israelense, onde Netanyahu considera que seria 'um avanço histórico'. Do lado da Arábia Saudita, silêncio.
Primeiro desdobramento conturbado do exército no sul do Líbano
No terreno, é forçoso reconhecer que, se o Irã respeitou essa trégua implícita com os Estados Unidos ao conter seus mísseis e drones durante dois dias, a frente iemenita, do lado dos rebeldes houthis pró-iranianos, continua a se inflamar.
Os rebeldes houthis mostraram-se ameaçadores durante toda a semana, direcionando seus mísseis para a Arábia Saudita — uma primeira vez desde 2022 — e complicando a passagem de navios no mar Vermelho.
Eles alvejaram dois petroleiros sauditas ao longo desta semana (apenas um, segundo as autoridades sauditas).
Em resposta, o governo iemenita legítimo pró-saudita lançou ataques contra as regiões controladas pelos rebeldes.
Essa frente iemenita ativada pelos iranianos parece, por ora, ofuscar a frente do sul do Líbano.
O Hezbollah continua sem responder às operações israelenses em curso nas zonas ocupadas e mesmo além delas.
Embora declarem respeitar o cessar-fogo (em particular o negociado pelos iranianos no âmbito do processo de Islamabad, e não o obtido pelas autoridades libanesas no acordo-quadro assinado diretamente com os israelenses, em Washington), os quadros da milícia pró-iraniana levam em conta o cansaço de suas tropas, mas também, e sobretudo, o de seu público, grande parte do qual ainda se encontra deslocado.

Ainda no Sul do Líbano, um evento decisivo ocorreu na terça-feira, relacionado com o acordo-quadro líbano-israelense: o desdobramento do exército libanês numa aldeia nos limites da zona ocupada, Zawtar el-Gharbiya.
A entrada do exército libanês nessa localidade não decorreu sem incidentes: o exército israelense abriu fogo na direção dos soldados libaneses, sem causar vítimas, alegando que os veículos libaneses tinham avançado para fora da zona prevista. O exército libanês desmentiu categoricamente essas alegações.
Aoun em Washington
Ainda assim, as autoridades libanesas, regularmente criticadas pelo eixo iraniano, persistem na busca de uma paz duradoura. Prova disso é a deslocação do primeiro-ministro libanês Nawaf Salam na quarta-feira a Zawtar el-Gharbiya, onde hasteou uma bandeira libanesa na localidade e transmitiu uma mensagem tranquilizadora à população do sul sobre o compromisso do Estado ao seu lado.
A visita do comandante-chefe do exército, Rodolphe Haykal, no dia seguinte veio reforçar essa impressão.
Esta mensagem é mais do que nunca crucial para as populações das zonas sinistradas. As primeiras reações dos habitantes de Zawtar ao verem as destruições, depois de terem sido autorizados a regressar para inspecionar os seus bens na sequência do desdobramento do exército, são de partir o coração.
No entanto, o evento-chave desta semana no âmbito da restauração do prestígio do Estado decorreu em Washington. Presente nos Estados Unidos desde sábado, com uma agenda carregada de encontros com altos funcionários americanos (entre os quais o secretário de Estado Marco Rubio, no domingo), o presidente libanês Joseph Aoun foi recebido na terça-feira pelo presidente americano Donald Trump na Casa Branca.
Em termos de forma, a conferência de imprensa conjunta dos dois presidentes revelou uma química genuína entre os dois chefes de Estado, e a mensagem transmitida foi a de um desenvolvimento das relações no bom sentido.
Em termos de conteúdo, todos os ecos foram igualmente favoráveis. Na mesma noite, o presidente americano anunciou uma medida simbólica, mas significativa: o regresso dos voos diretos entre os Estados Unidos e Beirute, interrompidos há mais de 40 anos.
O presidente libanês, por sua vez, expressou em várias ocasiões após este encontro a sua confiança de que o país está no caminho certo. É certo que as dúvidas persistem e os desafios continuam a ser enormes, mas este encontro em Washington não terá sido uma oportunidade desperdiçada.
Sem surpresa, a visita do presidente à capital americana e o seu desempenho valeram-lhe um amplo apoio no seio da classe política libanesa.
Até Nabih Berry, presidente do Parlamento e chefe do Amal, aliado do Hezbollah, que nas últimas semanas se havia distanciado das escolhas do presidente, o contactou por telefone aquando do seu regresso.
O Hezbollah, por sua vez, continua a atacar duramente Aoun: num comunicado virulento divulgado na quinta-feira, o partido acusou o presidente de ter «falhado em obter a mínima reivindicação nacional soberanista», considerando que «não conseguiu um compromisso americano relativamente a uma retirada israelense».
Também neste plano, a milícia xiita parece cada vez mais isolada.
O presidente recebeu, no sábado, uma dose adicional de confiança durante a missa de beatificação do «pai do Grande Líbano», o patriarca Elias Howayek, na sede de verão do patriarcado em Dimane (Bcharré, norte do Líbano), nas palavras do patriarca maronita Bechara Rai.
Nesta manifestação religiosa e política, que reuniu personalidades de todas as comunidades (com a surpreendente exceção de Nabih Berry), o prelado saudou «os sinais positivos» que emanaram do encontro de Washington e reiterou o seu apoio ao presidente.