

As receitas da competição devem alcançar 13 bilhões de dólares, tornando esta edição o evento esportivo mais lucrativo da história. Um resultado que fortalece a posição de Gianni Infantino em sua busca pela reeleição à presidência da FIFA no próximo ano.
Esta Copa do Mundo também esteve entre os eventos esportivos mais caros já realizados nos Estados Unidos. No mercado secundário, o preço dos ingressos atingiu níveis recordes, com valor médio de 10.800 dólares e picos de 32.000 dólares por unidade. Uma situação que pode ser vista como boa ou má notícia, dependendo de quem se trate: comprador ou vendedor.
Embora as condições climáticas tenham afetado algumas partidas, ficaram muito longe das dezenas de adiamentos temidos por alguns observadores. Da mesma forma, os pesadelos logísticos que poderiam ser esperados pela primeira vez com a organização de uma Copa do Mundo dividida entre três países, Estados Unidos, México e Canadá, acabaram não se concretizando.
Com 48 seleções participantes e 104 partidas disputadas, o torneio proporcionou a sua cota de surpresas, aquelas que dão à Copa do Mundo seu brilho e sua imprevisibilidade. Cabo Verde, o segundo menor país a se classificar para a competição, tornou-se uma das grandes revelações do torneio ao segurar a Espanha em um empate na partida de estreia. A Noruega, de volta à Copa do Mundo após uma longa ausência, chegou às quartas de final graças ao seu poderoso atacante Erling Haaland, que rapidamente se transformou em um dos favoritos da torcida, enquanto os torcedores noruegueses popularizavam sua já famosa "celebração viking".
Canadá e Egito também escreveram uma nova página de sua história na competição. O Egito chegou às oitavas de final, tornando-se uma das nove seleções africanas classificadas para a fase eliminatória. Entre as seis confederações da FIFA, a África teve um desempenho até mais convincente do que a Europa, levando treze equipes além da fase de grupos.
Lionel Messi dissipou definitivamente qualquer dúvida sobre seu lugar entre os maiores jogadores da história das Copas do Mundo, senão da própria história do futebol. Ao conduzir sua equipe até a final, tornou-se o segundo jogador a disputar três finais de Copa do Mundo.
Mas esses êxitos não devem esconder os pontos obscuros do torneio. Esta edição ficará marcada como a Copa do Mundo mais politizada da história e a primeira realizada enquanto o país anfitrião, os Estados Unidos, estava em guerra com o Irã. Essa situação teve consequências imediatas, começando pela recusa em conceder vistos a mais de uma dúzia de integrantes da delegação oficial iraniana. O Departamento de Estado dos Estados Unidos também negou a entrada no país ao árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, alegando "preocupações que exigem uma análise mais aprofundada".
Além disso, embora a assistência de vídeo à arbitragem (VAR) tenha sido criada principalmente para alertar o árbitro principal sobre erros claros ou incidentes graves que ele não tivesse visto, acabou ocupando um espaço excessivo no jogo. Assim, anulou um gol da Croácia e tirou do Egito o que poderia ter sido o gol da vitória. Para seus críticos, o VAR esvaziou progressivamente a arbitragem de sua dimensão de julgamento humano, privando o futebol de grande parte de sua dramaticidade. O futebol é uma arte antes de ser uma mecânica. É justamente por essa parcela de imprevisibilidade que as multidões se apaixonam por ele.
A isso somou-se um episódio, no mínimo, singular: a intervenção do presidente Donald Trump, que atribuiu a si próprio o mérito pelas decisões da arbitragem envolvendo o atacante Folarin Balogun, chegando a afirmar que interveio pessoalmente para conseguir a suspensão de um cartão vermelho.
Mas, como sempre acontece na FIFA, é o dinheiro que fala mais alto. Apesar das inúmeras controvérsias que cercaram Gianni Infantino ao longo do último ano, ele não parece ter perdido muito apoio. Assim, a Espanha não foi a única vencedora desta Copa do Mundo, que se tornou uma verdadeira extensão das relações internacionais e uma das expressões mais visíveis do poder brando.
A Copa do Mundo talvez seja a última língua verdadeiramente universal ainda falada pela humanidade. Ela produz memória ao mesmo tempo que constrói sentimentos de pertencimento. Nesse universo, FIFA, Donald Trump, Gianni Infantino, dinheiro, patrocinadores e até o VAR não aparecem como fenômenos distintos, mas como manifestações de uma mesma realidade: a política já não se limita a observar a partida das arquibancadas; ela desceu ao gramado.
Ainda assim, apesar de todas as tentativas de politização, os torcedores continuam chorando diante de um gol, maravilhando-se com um feito inesperado e acreditando que uma pequena nação ainda pode derrotar uma grande potência do futebol. Essa é a justiça simbólica que a política jamais consegue comprar completamente. Desde a primeira Copa do Mundo realizada no Uruguai, em 1930, passando pelas edições da Itália em 1934, da Inglaterra em 1966 e pela de 2002, a competição mais prestigiosa do futebol nunca deixou de ser cercada por controvérsias e escândalos.
O futebol pode ser um substituto pacífico para a guerra. Também pode ajudar torcedores de todo o mundo a reconhecer aquilo que os aproxima, em vez daquilo que os divide, para além dos confrontos, da politização, das acusações de corrupção ou do sportwashing. Mas essa não é toda a história.
A Copa do Mundo talvez seja um luxo. Mas é um luxo ao qual ninguém pensa seriamente em renunciar. A cada quatro anos, milhões de apaixonados se afastam discretamente do trabalho para acompanhar os jogos, deixam seus filhos acordados até tarde da noite e suspendem, durante uma partida, o curso normal de suas vidas. Ninguém pode lhes tirar esse prazer.
A Copa do Mundo é uma extraordinária fábrica de memórias. Os torcedores mais experientes se lembram de onde estavam nas maiores vitórias de sua seleção, assim como nas derrotas mais dolorosas, e de quem estava ao seu lado nesses momentos: um pai que já faleceu, um amigo, um filho que hoje é adulto. O futebol também alimenta a esperança de que um futuro diferente continua possível, aquele em que os mais modestos podem, durante um torneio, inverter a hierarquia e alcançar o topo. Uma dramaturgia que nunca desaparece, presente até mesmo nos hinos nacionais, eles próprios atravessados pela memória da guerra, dos soldados e da violência.
A proliferação das teorias da conspiração, por si só, demonstra a intensidade da paixão que a Copa do Mundo desperta nos quatro cantos do planeta. Segundo a FIFA, cerca de três bilhões de telespectadores acompanharam a final da edição de 2026. Uma audiência dessa magnitude gera receitas colossais provenientes dos direitos de transmissão, dos contratos de patrocínio, da venda de ingressos e dos serviços de hospitalidade.
À semelhança de seus antecessores, Sepp Blatter e João Havelange, que comandaram a FIFA durante muitos anos, Gianni Infantino demonstrou uma notável habilidade para se aproximar dos poderosos deste mundo. Recebeu a medalha da Ordem da Amizade das mãos de Vladimir Putin e criou o "Prêmio da Paz da FIFA", concedido a Donald Trump. Ao ampliar a Copa do Mundo para 48 seleções, a FIFA também ampliou o campo das rivalidades, dos interesses e das relações de poder em um contexto internacional cada vez mais marcado pelas transformações geopolíticas.
Afirmar que seria necessário "manter a política fora do esporte" é uma ilusão conveniente. Não se pode esperar que o esporte seja um santuário preservado de qualquer influência política. Em contrapartida, é legítimo exigir mais coerência, transparência e responsabilidade. A tecnologia pode contribuir para alcançar esses objetivos, mas também pode dificultá-los quando atua por trás da cortina digital da assistência de vídeo à arbitragem (VAR).
Não se discutem gostos, embora uma ínfima minoria, por sensibilidade estética, veja nas camisas de futebol o símbolo de um jogo intrinsecamente violento. A realidade é que o futebol fascina quase todo mundo, porque desperta algo profundamente arcaico: a necessidade do ritual coletivo.
Como escreveu o sociólogo Émile Durkheim, as coisas sagradas "são separadas e cercadas de proibições". Para muitos, o futebol tornou-se um verdadeiro dia de culto, um rito que alimenta o orgulho de uma comunidade e reúne pacificamente indivíduos em torno de identidades compartilhadas. Ele responde ao desejo de pertencer a algo que transcende o próprio indivíduo, nessa "efervescência coletiva" (collective effervescence) que cria vínculos entre pessoas que, às vezes, têm muito pouco em comum, unidas pela celebração de uma vitória inesperada.
Essa dinâmica também abre perspectivas inesperadas. A questão da lealdade à nação, expressa por meio da identidade nacional de um jogador, pode ser mais complexa do que parece. O futebolista americano Folarin Balogun, nascido nos Estados Unidos de pais nigerianos e também elegível para representar a Inglaterra, é um exemplo disso. Apoiar uma seleção nacional significa, em certa medida, celebrar o pluralismo e a capacidade das sociedades de produzir verdadeiras sínteses identitárias, nas quais o "eu" se transforma em "nós". Foi precisamente isso que permitiu, por exemplo, reunir os habitantes de Nova York em torno de uma mesma emoção.
O teólogo católico Michael Novak defendia que "o esporte nasce de um profundo impulso natural em direção à perfeição". A política também responde a reflexos tribais. Mas o futebol lhes oferece um palco infinitamente menos cruel do que os campos de batalha e até mesmo do que as urnas. Talvez resida aí, afinal, sua forma mais discreta de graça.