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Em 2010, Israel interceptou com violência o Mavi Marmara, um navio turco fretado por uma ONG humanitária para socorrer a Faixa de Gaza, então sob bloqueio israelita. Esse incidente, a gota de água, fará vir à tona a animosidade entre o governo de Erdogan e o Estado hebraico. (AFP)
Opinião
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Por Youssef Mouawad
Publicado em set 5, 2026 - 13:25
A guerra ainda não parou no nosso sul e já corre o risco de eclodir junto aos nossos vizinhos. Ou seja, vivemos a prazo, de conflito em conflito. E com razão! Por pouco o bombardeamento de uma base síria não descambou numa batalha campal entre Ancara e Telavive. Foi a 18 de agosto passado, e Benjamin Netanyahu não foi com meias palavras: o seu país não iria tolerar uma implantação militar turca suscetível de avançar para o sul da Síria. A mensagem foi tanto mais brutal quanto oito ataques tinham visado a base aérea de Abu al-Duhur, situada a 70 quilómetros da fronteira turca. Recorde-se, aliás, que desde a queda de Bashar al-Assad em dezembro de 2024, Erdogan é o principal mentor da nova Síria, a de Ahmed al-Charaa, ajudando-a a reconstruir as suas forças armadas e transformando-a num parceiro estratégico. Já não é a Síria de Hafez al-Assad Terá sido este novo pico de tensão entre Ancara e Telavive que precipitou a reunião entre o chefe da diplomacia síria, Assaad Chaïbani, e o diretor do Mossad, Roman Gofman, a 23 de agosto passado, na Jordânia? Ora, esse encontro discreto não provocou uma onda de indignação no mundo árabe, como aconteceu com a visita imprevista de Anwar al-Sadat a Israel em 1977. Um tabu foi oficialmente quebrado e, de facto, quem poderia ter acreditado que tal concertação seria possível sob o regime baathista? O Estado hebraico deveria ter-se congratulado, mas, ao contrário do que se esperava, não interrompeu nem os seus ataques aéreos nem as suas incursões territoriais, como a de 27 de agosto em Quneitra. É que as coisas mudaram. Sob Hafez al-Assad, a Síria era uma potência regional que, sem ser temível, era temida pelos seus vizinhos imediatos, fossem eles países árabes ou não. Evitava-se procurar confronto com ela e, por isso, o país conduzia, dentro de certos limites, uma política externa agressiva que resvalava muitas vezes para a provocação. E assim, em virtude da autonomia da sua ação e da margem de manobra que se concedia, tinha constituído, nem que fosse apenas geograficamente, uma zona-tampão entre, por um lado, uma Turquia "erdoganesca", que exibia o seu islamismo assumido, e, por outro, um Israel, o Estado consubstancialmente judeu. Ora, eis que, num país esgotado por uma gestão baathista e devastado por anos de guerra civil, a Turquia, ao começar a marcar posições, vai inevitavelmente encontrar-se frente a frente com um Israel que ocupa uma parte do território sírio. O que esperar? Tendo em conta o ego desmedido tanto de Netanyahu como de Erdogan, e no caso de estes dois chefes de Estado permanecerem nos seus respetivos cargos, devemos esperar um duelo épico em território sírio, libanês, jordano, ou até noutros locais. Este combate será feito de fintas, de esquivas, de golpes baixos, mas também de ataques frontais, de corpo a corpo e de escaladas de tensão até ao ponto de rutura. E isto mesmo que o relatório do Congressional Research Service de setembro de 2025 considere pouco provável um confronto direto entre a Turquia e Israel, precisamente porque ambos os Estados conhecem o custo de uma guerra, caso esta viesse a eclodir. No entanto, no domínio da polemologia, os dirigentes e outras elites não são necessariamente atores racionais! Tanto mais que, aos olhos dos observadores israelitas, o slogan que impera na Anatólia, a saber, « Make Turkey great again », não é de molde a tranquilizar o Estado sionista. Washington terá cada vez mais dificuldade em conter ou separar os dois adversários que já se posicionam em ordem de batalha. A Turquia, um novo Irão? Sim, é uma hipótese, mas apenas num confronto direto com Israel, tendo a Síria se tornado da noite para o dia uma zona onde «se sobrepõem dois perímetros de segurança», o turco e o israelita, o muçulmano e o judeu. E não se pode excluir que o militantismo xiita, esse mobilizador de « proxies », acabe por se aliar, ainda que momentaneamente, a uma «versão irmãos-muçulmana» do islamismo político defendido por Ancara! Teríamos assim, contra todas as expectativas, um Hezbollah apoiado pelo seu inimigo de ontem, Ahmed al-Charaa, um islamista vindo da Jabhat al-Nusra e da Hayat Tahrir al-Cham! Contra o adversário comum, uma inversão de alianças é sempre legítima e oportuna. Mas isso não passaria de uma aliança tática, ditada pelas necessidades do momento, sem qualquer garantia quanto ao futuro. Tendo o nacionalismo árabe sido posto de lado, a Turquia não se vai contentar em conquistar economicamente o mercado sírio, com os seus 25 milhões de consumidores: vai querer exercer influência política em Damasco, mobilizando para isso o seu aparelho militar e de segurança. O poder instável do presidente sírio, incapaz de assegurar certas funções soberanas nem de enquadrar os diversos corpos do Estado, terá necessariamente de recorrer à experiência do seu vizinho do norte. Será, no entanto, de acreditar que este último vai ser arrastado pela espiral de uma «beligerância anunciada»? Tudo aponta nesse sentido, e já se podem perceber os primeiros sinais de um envolvimento que lembra o dos Estados Unidos no Vietname sob Lyndon Johnson. Pois, se o Estado sírio pretende reconstituir-se, precisará antes de mais de um exército capaz de conter as tendências centrífugas dos alauitas, dos drusos e de outras facções que apelam à fragmentação do país. Ora, cabe a Ancara garantir isso e reforçar a autoridade central sediada em Damasco. Mas Israel, que adquiriu maus hábitos na Síria e pretende manter aí liberdade de ação aérea, não pode aceitar um exército estruturado segundo o modelo da NATO e que possa servir de proxy a um projeto neo-otomano. E o Líbano, da primazia à secundarização? Está agora montado um novo cenário para um novo guião que definirá novas regras do jogo! O que será feito do Hezbollah, apanhado numa ratoeira? Bem, poderia beneficiar, neste cenário, ainda que apenas em parte, do apoio logístico de Damasco, apoio que lhe fez gravemente falta desde a queda de Bachar al-Assad. E talvez que, com um deslocamento das placas tectónicas, o Líbano passasse do estatuto de palco inicial ao de palco secundário de um conflito regional. Mas, para ser sincero, isso de pouco nos vai valer!
O Essencial do Dia
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Por LevantTime . - Publicado em set 5, 2026 - 00:55
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O comboio do CICV que transportava os civis libertados, partindo da zona ocupada por Israel no sul do Líbano, seguiu até o ponto que marca o início da área controlada pelas autoridades libanesas. (AFP)
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) anunciou nesta sexta-feira que transferiu para o Líbano outras quatro pessoas libertadas por Israel, um dia após a libertação de um primeiro civil. Segundo o CICV, trata-se de três libaneses e dois sírios. É a primeira vez que uma operação desse tipo ocorre desde o início, em abril, das negociações entre o Líbano e Israel, sob mediação dos Estados Unidos. Beirute havia solicitado, durante a última rodada de negociações, em agosto, a libertação de um primeiro grupo de cidadãos libaneses capturados por Israel no sul do Líbano, onde trava uma guerra contra o Hezbollah, aliado do Irã. Familiares estimam que cerca de 30 pessoas estejam detidas, entre elas combatentes do movimento islâmico. O presidente libanês, Joseph Aoun, agradeceu em comunicado aos Estados Unidos e ao CICV e afirmou que essa libertação «confirma o acerto da posição» do Líbano, que participa de negociações com Israel rejeitadas pelo Hezbollah. Os Estados Unidos elogiaram na quinta-feira «o governo de Israel e o governo do Líbano por demonstrarem boa-fé por meio desses primeiros passos», expressando a esperança de que isso sirva «de base para discussões mais amplas sobre outras questões civis». Os dois países devem realizar uma nova rodada de negociações em setembro, em uma data ainda não definida. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira «ocorre após os esforços realizados por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os restos mortais de líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano» entre 1984 e 1986. Israel intensifica seus ataques No terreno, ataques israelenses deixaram três mortos e 23 feridos nesta sexta-feira no sul e no leste do Líbano, segundo um veículo de imprensa estatal. Israel intensificou nesta sexta-feira seus ataques na região, depois de anunciar, na noite de quinta-feira, que havia assumido o controle da crista montanhosa de Ali Taher, que servia como posição estratégica para o Hezbollah, aliado do Irã, e domina, entre outras áreas, a cidade de Nabatiye. O Exército agora reforçará suas posições na região para «impedir que o inimigo volte a se posicionar na área», declarou o ministro da Defesa israelense, Israel Katz. Outro ataque também atingiu a região de Tiro, especialmente a localidade de Rmadiye, segundo a Agência Nacional de Notícias (ANI). Para Trump, a guerra no Irã é «coisa pequena» Sobre a guerra no Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tentou nesta sexta-feira minimizar seu impacto para o país, às vésperas das cruciais eleições legislativas de meio de mandato. «Muita gente não chama isso de guerra. Eu digo que é um conflito militar, porque para nós é coisa pequena (“small potatoes”). Não é nada demais. Fizemos a Venezuela e fizemos isso», respondeu a jornalistas no Salão Oval, ao ser questionado sobre seu vice-presidente, JD Vance, que no dia anterior havia dito não querer descrever o conflito como uma guerra. Enquanto a forte alta dos preços dos combustíveis ligada à guerra ameaça custar aos republicanos de Donald Trump sua maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato de novembro, sua administração tenta minimizar a dimensão do conflito. Segundo o presidente, os Estados Unidos realizam «ataques pontuais» e «não estão atualmente combatendo». Trump também afirmou que os Estados Unidos controlam o estreito de Ormuz e que dizimaram as Forças Armadas iranianas. «O que conseguimos foi extraordinário. Assumimos o controle da Venezuela e, essencialmente, assumimos o controle do Irã», declarou.
Homenagem
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Por Michel Hajji Georgiou - Publicado em set 4, 2026 - 23:28
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De Hassan Rifaï, fica a imagem de um jurista respeitado, sereno, referência em direito administrativo e constitucional, que argumentava com voz calma e trêmula para apontar os desvios e descaminhos dos políticos em relação ao regime democrático parlamentar e à Constituição. No entanto, o ex-deputado e ex-ministro, falecido em 3 de setembro de 2025, era também um homem revoltado. Um inconformista. Mesmo aos cem anos. Sobretudo aos cem anos! Já o havia sido na infância, arengando multidões em Baalbeck contra o Mandato, e continuou assim ao longo de toda a sua carreira como advogado e parlamentar. Aos cem anos, completamente desiludido com a República e seus flibusteiros, sua cólera contida não havia se apaziguado. «O Líbano é um país impossível!», dizia ao autor destas linhas em uma entrevista realizada alguns anos antes de sua morte e jamais publicada. Mas atenção. Hassan Rifaï não era niilista, nem alguém que negasse tudo por princípio. Lutara a vida inteira por uma determinada ideia do Líbano. Mais precisamente, pelo Grande Líbano, unido e plural. E sabia avaliar em sua justa medida a experiência libanesa, com tudo o que ela tivera de positivo. Mas o ser humano o havia decepcionado. E era precisamente o ser humano que ele procurava. Nunca o encontrou na cena pública libanesa. Pelo menos, não a serviço da República. Rifaï era um homem do direito, sempre elegante, irrepreensível, tudo o que se espera de um homem de sua estatura moral e intelectual. Mas também era intransigente. Implacável, até. Sem dúvida, seu apego ao país e ao regime democrático o levara a reconhecer uma única fidelidade: um determinado código de valores e uma determinada ideia da República. Por isso se mostrava crítico diante de todos os erros e de todos os desvios, começando pelos cometidos por seus próprios amigos políticos. Não poupava ninguém. Nem comunidades nem clãs, nem líderes religiosos, ele próprio era laico, e muito menos os responsáveis políticos. Ninguém escapava ao seu crivo, e Rifaï sentia um certo prazer em desconstruir os mitos e as ideias feitas que transformavam este ou aquele presidente da República ou primeiro-ministro em um líder excepcional. Seus critérios eram objetivos: a coerência entre os atos e os princípios democráticos. Assim, ninguém encontrava verdadeiramente graça aos seus olhos. A constatação era terrível: nenhum dos dirigentes, ao longo da história do país, havia realmente respeitado a democracia parlamentar libanesa. Nenhum. Não porque colocasse todos no mesmo plano. Tinha distância crítica suficiente para reconhecer as qualidades e os defeitos de uns e de outros. Gostava de citar Léon Duguit: «O direito constitucional não tem outro guarda-freio senão a boa-fé dos homens que o aplicam.» Quase fizera dessa frase seu credo republicano. E seu veredicto era implacável: essa boa-fé, simplesmente, ele não a encontrara. Políticos demais, homens de Estado de menos. E, sobretudo, muita mentira e hipocrisia. Um dia, um grande dirigente lhe aconselhou: «Não construa estradas para as pessoas. Caso contrário, elas deixarão de procurá-lo.» Apesar do respeito que nutria por aquele aliado político, a frase o deixara perplexo e chocado. Ela continha, por si só, toda uma concepção do poder: jamais resolver definitivamente o problema daquele que se pretende representar, pois, desaparecendo sua necessidade, desapareceria também a própria razão de sua dependência. O projeto do Estado ficava, assim, adiado indefinidamente. Ou, de todo modo, quando existiam pessoas de bem, o sistema não lhes permitia chegar aos cargos de responsabilidade. Rifaï era um rebelde, sim, mas com o rigor e a precisão de um ourives do direito administrativo e constitucional. E era provavelmente isso que o distinguia no meio político libanês. Rebelde o suficiente, em todo caso, para pagar um preço por isso. Em agosto de 1982, foi vítima de uma tentativa de assassinato depois de se opor ao diktat israelense. Em Taif, em 1989, foi praticamente posto à margem por ter percebido de imediato as falhas existentes e as armadilhas acrescentadas às reformas constitucionais. A partir de 1992, sob a ocupação síria, sofreu ostracismo político por se opor ao aparato de segurança que sustentava a tutela síria e à política de Rafic Hariri. Mas era justo. Podia se opor ao confessionalismo político e, ao mesmo tempo, reconhecer que sua abolição no estágio atual seria uma catástrofe para o Líbano, e que uma democracia reduzida à mera lógica dos números faria soar de uma vez por todas o dobre de finados da fórmula libanesa e da presença cristã no país. Podia concordar com a ideia de que os cristãos haviam sido prejudicados pelas reformas constitucionais de Taif, os sunitas também, sustentava, ao mesmo tempo em que lembrava os excessos cometidos no exercício do poder pelos presidentes da República entre 1943 e 1990 e advertia contra qualquer surto de nostalgia por essas práticas sob a bandeira dos «direitos dos cristãos». Uma deriva rumo a um regime presidencial ou semipresidencial constituía, a seu ver, um perigo para os cristãos. A importância do regime parlamentar herdado da Terceira República francesa residia precisamente no fato de que o presidente da República não era politicamente responsável perante a Câmara dos Deputados. Isso o colocava, segundo Rifaï, em uma posição privilegiada. Acima da disputa, podia conduzir o navio da República a bom porto sem ficar atolado nas lutas pelo poder. Essa responsabilidade moral de preservar a Constituição e a República era, a seus olhos, muito mais importante do que qualquer responsabilidade política. Mas ainda era preciso convencer disso os principais interessados. Rifaï podia reconhecer a importância de uma descentralização administrativa e, ao mesmo tempo, recusar que essa reivindicação se transformasse em um slogan ideológico a mascarar uma vontade separatista. Nesse sentido, lembrava que Beirute e o Monte Líbano haviam sido privilegiados na construção do Grande Líbano, ao passo que as regiões periféricas, sobretudo a sua, Baalbeck, haviam sido desprezadas. Isso contribuíra para enfraquecer o sentimento nacional libanês, que dependia, afinal, de um bem-estar baseado no respeito à dignidade humana. A adesão à cidadania pressupunha que todos fossem tratados da mesma forma do ponto de vista do desenvolvimento. Sem igualdade entre os cidadãos, a soberania só podia vacilar. Esse, aliás, foi o sentido de sua primeira intervenção no Parlamento, em 1968. Os acontecimentos que se seguiram conferiram uma gravidade singular àquele alerta. Os desequilíbrios econômicos, sociais e territoriais contribuíram para alimentar as reivindicações da esquerda e de setores da rua muçulmana, em um país já atravessado por tensões comunitárias, ingerências externas e pelo crescente poder das organizações armadas. Contribuíram, assim, para o enfraquecimento progressivo do Estado, antes da guerra, das ocupações sucessivas e do surgimento de estruturas paraestatais. Em última análise, Hassan Rifaï encarna um pouco esse modelo libanês de personalidade cosmopolita, complexa, situada fora das trincheiras comunitárias e partidárias, respeitada de maneira quase unânime, sobretudo fora dos círculos políticos, mas consultada dentro desses mesmos círculos apenas quando necessário e por interesse. O Líbano não gosta de espíritos independentes e insubmissos demais, embora seu sistema ainda conserve brechas que permitem que essas pessoas existam e façam sua voz ser ouvida. Elas são toleradas, mas devem permanecer à margem. Disso depende a sobrevivência do Estado-zaamat e do Estado-jamaat, que prefere invariavelmente recorrer a tutores estrangeiros em vez de se voltar para pessoas capazes de gerar, propor e implementar soluções a partir de dentro. O sistema político libanês e seus protagonistas detestam a noção de responsabilidade, que lhes causa profunda ansiedade, e preferem a dependência ou, pior ainda, a servilidade. Ora, repetia Rifaï, citando mais uma vez Léon Duguit: «Onde está a responsabilidade, está o poder.» Deve surpreender, então, que no Líbano, onde a responsabilidade não está em lugar algum, o poder também não esteja em lugar algum? Ou, mais exatamente, que esteja sempre em outro lugar?
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Tensões políticas persistentes num contexto de estagnação militar

As divergências entre americanos e israelenses em relação ao Líbano aprofundam-se cada vez mais, à medida que as declarações de autoridades do Estado hebraico se afastam dos compromissos assumidos nas negociações diretas com os libaneses, sobretudo desde a assinatura do acordo-quadro entre as duas partes em junho. Assim, declarações do ministro israelense da Defesa, Israel Katz, afirmando que o exército não se retiraria da parte ocupada do Sul, provocaram uma resposta contundente do Departamento de Estado na quinta-feira, que considerou essas afirmações incompatíveis com os compromissos assumidos no acordo-quadro. Enquanto isso, nessa quinta-feira, as destruições israelenses continuaram sem trégua no sul do Líbano. Segundo a MTV, os israelenses também estariam se preparando para fazer explodir os túneis do Hezbollah na colina de Ali el-Taher, onde os iranianos construíram ao longo dos anos impressionantes túneis subterrâneos que se estendem por centenas de quilômetros, além de sofisticadas infraestruturas militares cujo objetivo era abrir caminho para um ataque do Hezbollah à Galileia. No plano político, a quinta-feira foi marcada por uma declaração do primeiro-ministro libanês Nawaf Salam, criticando a "atitude ilógica" do Estado hebraico, apesar do início da implementação do acordo-quadro no terreno. Ele também se queixou de que uma primeira mensagem nesse sentido havia sido removida de sua conta no X e que foi obrigado a republicá-la. Essa postura inflexível de Israel se insere na perspectiva das eleições de outubro próximo. E essa escalada no terreno não se limita ao Líbano. Na quinta-feira, um novo assassinato ocorreu em Gaza, apesar dos repetidos apelos americanos por uma trégua. Na Faixa, o exército israelense matou dois palestinos, entre eles um chefe de polícia, perto de Khan Younes, classificando a vítima de "terrorista" que representava "uma ameaça" para seus soldados. Os distúrbios também continuam na Cisjordânia, onde um jornalista palestino, Mohammad Awad, foi preso perto de Ramallah sob o pretexto de trabalhar para o Hamas. Até o embaixador americano em Israel, Mike Huckabee, condenou o "terror horrível" praticado pelos colonos israelenses na Cisjordânia. Discurso violento e trégua frágil com o Irã Na frente iraniana, uma retórica excessivamente agressiva continua a envolver o controle do Estreito de Ormuz, que se tornou definitivamente o epicentro desta guerra entre Irã e Estados Unidos. Se no terreno ainda não foi registrada nenhuma escalada entre os dois beligerantes, a retórica se inflamou após as declarações do presidente americano Donald Trump na véspera, segundo as quais os Estados Unidos tinham "controle total" do estreito e mantinham um "bloqueio hermético" sobre os portos iranianos. Isso foi suficiente para desencadear uma onda de reações indignadas por parte dos iranianos. O exército iraniano denunciou na quinta-feira "as mentiras" de Trump. "As falsas afirmações dos Estados Unidos de que navios atravessam normalmente o Estreito de Ormuz (...) não passam de mentiras e invenções", declarou Ebrahim Zolfaghari, porta-voz do comando central Khatam al-Anbiya, em declarações relatadas pela AFP. Segundo ele, o estreito permanece "sob a gestão e o controle total da República Islâmica, e nenhum navio comercial ou petroleiro teve nem terá a possibilidade de navegar com segurança por ali sem a autorização e a supervisão das poderosas forças armadas iranianas". Outro alto funcionário iraniano também havia desmentido anteriormente as declarações do presidente americano. "Hoje, vocês veem que o Estreito de Ormuz está sob a gestão e o controle da República Islâmica, e que nosso país segue seu caminho com toda segurança", afirmou Hossein Taeb, chefe das forças paramilitares do Basij, vinculadas aos Guardiões da Revolução. Por sua vez, o ministro das Relações Exteriores Abbas Araghchi escreveu quinta-feira em sua conta no X que os Estados Unidos fizeram "cálculos errados" decorrentes de falhas de inteligência. Outra declaração e nova provocação: o deputado iraniano Behnam Saeedi, membro da comissão de segurança nacional, afirmou que navios israelenses e embarcações militares americanas seriam proibidos de passar pelo estreito. Por ora, nada indica que a trégua esteja prestes a ser rompida. O conflito transmite cada vez mais uma sensação de impasse. Os iranianos não perdem uma oportunidade de reivindicar compensações por qualquer passagem pelo estreito, sendo o exemplo mais recente o derramamento de petróleo ao largo de Omã, causado evidentemente por um ataque a um petroleiro, que acaba de atingir as costas iranianas. As autoridades do país passaram a exigir indenizações por esse motivo. Embora a calma na frente entre os Estados Unidos e o Irã pareça se manter, o mesmo não se pode dizer dos houthis iemenitas, aliados dos iranianos, que reivindicaram um ataque com drones contra uma refinaria saudita do gigante Aramco no início da noite. Ainda sem nenhuma reação americana significativa. Vale destacar que, segundo a emissora saudita Al Arabiya, o ministro saudita da Defesa se reuniu quinta-feira com uma delegação iraquiana para tratar das relações nos campos militar e de defesa. Poderia haver alguma ligação com o acordo firmado na semana passada entre a Arábia Saudita, o Paquistão e a Turquia sobre defesa coletiva? Em todo caso, trata-se do primeiro encontro após ataques realizados contra o reino a partir do Iraque.

O profeta e o filósofo (4/10)
Por
Wissam Saadé
Publicado

Em abril de 2026, Wissam Saadé proferiu quatro conferências na Universidade de Bolonha. A primeira delas, a convite do professor Giovanni Giorgini, intitulada “O profeta e o filósofo: a hierarquia do conhecimento entre a falsafa de Avicena e o neoplatonismo ismaelita de al-Kirmānī”, é apresentada aqui em uma versão revista e ampliada, publicada como uma série de dez artigos. A série explora o panorama intelectual do neoplatonismo islâmico por meio de uma leitura comparativa de Avicena e al-Kirmānī. Embora ambos os pensadores compartilhem um horizonte amplamente neoplatônico, moldado por uma metafísica emanacionista, uma hierarquia do ser e uma síntese do pensamento aristotélico e platônico, desenvolvem projetos filosóficos distintos: Avicena no interior da tradição da falsafa peripatética e al-Kirmānī no âmbito da teologia ismaelita. Apesar desses diferentes contextos intelectuais, seus sistemas permanecem em diálogo contínuo sobre a natureza do conhecimento, a relação entre razão e revelação e a ascensão da alma. Seus respectivos projetos também expressam concepções contrastantes do político, lançando luz sobre diferentes maneiras de compreender o lugar da filosofia em relação à autoridade, à lei e à organização da comunidade. Este artigo constitui a quarta parte desta série de dez artigos. IV - Não há lugar para caixas-pretas: Avicena e a secularização do projeto ismaelita Avicena cresceu ouvindo os missionários ismaelitas (dāʿīs) que visitavam sua casa em Bukhara. Tanto seu pai quanto seu irmão eram seguidores da daʿwa ismaelita e discutiam com frequência sua filosofia, em particular a versão sijistāniana, centrada na dualidade entre o Intelecto e a Alma. Enquanto al-Kirmānī procurou transcender essa dualidade adaptando a Década farabiana à sua concepção de um Deus imprevisível e inescrutável, Avicena buscou superar tanto a incognoscibilidade de Deus quanto a própria dualidade entre Intelecto e Alma. Para Avicena, a lógica constitui o principal veículo de salvação. Ele sustenta que a perfeição da alma é sinônimo da perfeição do intelecto: inteligir plenamente a estrutura do universo equivale a alcançar o objetivo último da existência humana. Avicena argumentou que o intelecto potencial pode alcançar a conjunção (ittiṣāl) com o Intelecto Ativo por meio de uma combinação de lógica formal e intuição intelectual (ḥads), sem necessidade de recorrer a um mediador vivo como o Imam. Além disso, embora Avicena sustente que Deus é simples e único, afirma que o Primeiro Intelecto pode inteligir o Originador e, de fato, o faz. Na realidade, todo o processo de emanação no sistema aviceniano é desencadeado pelo ato mediante o qual o Primeiro Intelecto conhece sua Causa. Nesse quadro, Deus é tornado “inteligível”, uma concepção que al-Kirmānī teria considerado perigosamente próxima do shirk, pois ameaça a transcendência absoluta e inescrutável do Divino. Avicena herdou bastante do “projeto filosófico ismaelita”. A noção de que a existência não é um caos, mas uma escala ascendente de Intelectos, constitui um pilar central do projeto ismaelita, particularmente em al-Sijistānī e al-Nasafī. Avicena tomou essa hierarquia e a transformou: de “hierarquias missionárias” (marātib daʿwiyya) ou “símbolos gnósticos”, fez necessidades lógicas. Para ele, o sistema dos Dez Intelectos é simultaneamente “ciência natural” e “metafísica”, de maneira semelhante a al-Kirmānī, para quem a própria “natureza” é “metafísica”. O projeto ismaelita está centrado na “salvação da alma” por meio do conhecimento, e Avicena colocou esse eixo no próprio coração de sua filosofia. Sua obra sobre a “Alma” não constitui simplesmente uma investigação médica ou biológica; é um estudo da “alienação da alma” e de sua luta para retornar ao seu reino celestial, tal como expresso em sua célebre Ode sobre a Alma . Essa “nostalgia cósmica” é um eco direto da espiritualidade ismaelita no ambiente em que cresceu. Em última análise, Avicena “secularizou” o projeto ismaelita. Tomou a estrutura fundamental da metafísica ismaelita, os Intelectos, as Almas, as Esferas e as hierarquias, e a despojou do caráter secreto e exclusivo vinculado ao Imam, tornando-a acessível a qualquer mente humana dotada de “intuição” (ḥads) e lógica. Substituiu a interpretação esotérica (taʾwīl) pela demonstração aristotélica (burhān). Ao fazê-lo, porém, estava fundando, à sua maneira, uma nova “religião filosófica”, mais confiante e estrategicamente mais fundamentada até mesmo que a de al-Fārābī. Al-Fārābī via o Profeta sobretudo sob uma perspectiva política, identificando-o como o “Governante Supremo” que emprega a faculdade da imaginação para traduzir verdades filosóficas abstratas em uma linguagem acessível às massas. Avicena, em contraste, sustentava que o Profeta possui uma extraordinária “intuição intelectual” (ḥads), que lhe permite entrar instantaneamente em conexão com o Intelecto Ativo, sem necessidade de passar pelo estudo discursivo. Ao apresentar a profecia como uma faculdade intelectual natural, embora excepcional, Avicena efetivamente integrou a “religião” ao domínio da “ciência”. A religião foi assim reformulada como um ramo especializado da psicologia, situando o filósofo como juiz último de sua validade. Nesse quadro, o filósofo já não necessita de uma politeia , como em al-Fārābī, nem de uma daʿwa imperial, como no ismaelismo, para alcançar a salvação. Esta se transforma, em vez disso, em um acontecimento cognitivo interior: o “retorno” da alma alienada à sua fonte por meio do poder autônomo do ʿaql. Para Avicena, se a filosofia deveria substituir o Imam ou a daʿwa como fonte da verdade última, precisava ser autossuficiente. Ele queria provar a existência de Deus utilizando apenas a lógica, sem recorrer a “sinais”, à “revelação” ou sequer ao mundo físico e ao movimento. O Deus de al-Kirmānī é o “Oculto dos ocultos” (Ghayb al-Ghuyūb), situado para além da existência e da não existência. Isso cria um “hiato” que somente um Imam ou um Taʿlīm secreto pode preencher. Avicena, ao contrário, não deixa lugar para caixas-pretas: seu universo é inteiramente transparente ao intelecto. Ao provar a existência de Deus como uma necessidade lógica, Avicena assegurou que o intelecto humano pudesse, ao menos em teoria, compreender toda a cadeia do ser. O Burhān al-Ṣiddīqīn O Burhān al-Ṣiddīqīn, a “Prova dos Verazes”, é uma das demonstrações da existência de Deus mais sofisticadas e influentes da história da filosofia islâmica. Formulada e assim denominada por Avicena em seu Ishārāt wa-l-Tanbīhāt , foi explicitamente distinguida dos argumentos teológicos anteriores dos mutakallimūn, que dependem do caráter criado do mundo (ḥudūth al-ʿālam), bem como dos argumentos dos filósofos naturais, baseados no movimento e na causalidade física. A ambição de Avicena era construir uma demonstração que partisse não do mundo como efeito, mas da própria existência enquanto tal. O horizonte corânico desse argumento é frequentemente associado ao versículo: ‎سَنُرِيهِمْ آيَاتِنَا فِي الْآفَاقِ وَفِي أَنفُسِهِمْ حَتَّىٰ يَتَبَيَّنَ لَهُمْ أَنَّهُ الْحَقُّ “Nós lhes mostraremos Nossos sinais nos horizontes e neles mesmos, até que lhes fique claro que é a Verdade” (Alcorão 41:53) ao lado da afirmação de que o testemunho divino é suficiente como prova. As interpretações clássicas distinguem entre dois modos de demonstração: o burhān al-āfāq, argumento a partir do mundo exterior que infere o Criador a partir das coisas criadas, e o burhān al-ṣiddīqīn, que procede diretamente da própria existência ao Existente Necessário (wājib al-wujūd), sem passar pelos seres contingentes nem pelo movimento cosmológico. Existência necessária e existência possível No cerne do argumento de Avicena encontra-se a distinção ontológica entre existência necessária e possível. Os seres que observamos são contingentes: passam a existir e deixam de existir, o que indica que sua existência não é autossuficiente, mas requer um determinante que faça pender a balança entre o ser e o não ser. Se todo ser contingente exigisse outro ser contingente ad infinitum , nenhuma existência efetiva jamais estaria assegurada. Uma regressão infinita de causas é, portanto, impossível como estrutura explicativa. A cadeia da contingência deve terminar em um ser cuja existência seja necessária em si mesma, cuja essência seja idêntica à existência. Esse é o Existente Necessário, Deus. Esse movimento metafísico é reforçado pela célebre tese de Avicena segundo a qual a existência é um acidente (ʿaraḍ) que sobrevém à essência. No caso dos seres contingentes, as essências são, em si mesmas, indiferentes à existência ou à não existência; a existência é, portanto, algo que lhes é concedido de fora. Essa distinção conceitual permite a Avicena articular uma forma radical de dependência ontológica: as essências “recebem” a existência do Existente Necessário, o único que existe por si mesmo. O mundo é assim composto de quididades à espera da existência, enquanto Deus é existência pura sem quididade. Nesse quadro, Deus é o doador do ser (wāhib al-wujūd), e a existência se torna um “transbordamento” ou emanação metafísica sobre essências que, de outro modo, permaneceriam imersas no não ser. Essa doutrina, contudo, foi duramente criticada por Averróis (Ibn Rushd), que rejeitou a noção de que a existência seja um acidente acrescentado à essência. Para ele, tal separação é puramente conceitual e não possui realidade fora da mente. Perguntar como a existência “se liga” a uma essência constitui, a seu ver, um erro categorial: nada existe antes da existência de modo que esta pudesse ser acrescentada a algo. Contra Avicena, Averróis insiste que, na realidade, o ser de uma coisa é idêntico à sua essência. Sua crítica à concepção aviceniana da existência como acidente constitui, assim, uma defesa da unidade ontológica contra aquilo que considerava uma abstração desnecessária. Emanação e hierarquia dos Intelectos O debate se estende à cosmologia por meio da doutrina compartilhada, embora interpretada de maneiras diferentes, da emanação. Avicena formula o princípio segundo o qual “do Uno só pode proceder o uno”. Do Existente Necessário emerge o Primeiro Intelecto, que, por sua vez, produz uma estrutura triádica por meio da intelecção de si mesmo: conhecimento do Primeiro Princípio, conhecimento de si mesmo como necessário e conhecimento de si mesmo como contingente. Essa cascata prossegue através de uma hierarquia de dez Intelectos, culminando no Intelecto Ativo (al-ʿaql al-faʿʿāl), que governa o mundo sublunar. Essa arquitetura cosmológica integra a metafísica à astronomia: cada esfera celeste está associada a um intelecto e a uma alma. A alma de cada esfera é responsável por seu movimento, concebido não mecanicamente, mas como uma forma de desejo ou aspiração à perfeição. Assim, todo o cosmos se torna uma hierarquia inteligível de intelectos, almas e corpos. Averróis, em contraste, reorienta esse sistema metafísico para um quadro mais estritamente aristotélico. Rejeita a necessidade de múltiplos intelectos intermediários e reafirma a primazia do movimento físico como ponto de partida da demonstração. Suas provas da existência de Deus fundamentam-se na própria natureza: o argumento da providência (dalīl al-ʿināya), que observa a ordem e a adequação do mundo à vida, e o argumento da invenção (dalīl al-ikhtirāʿ), que aponta para a complexidade estruturada dos seres vivos, impossível de explicar apenas pelo acaso. A causa última é o Motor Imóvel, inferido a partir da realidade do movimento eterno dos céus. A cosmologia aviceniana e o pensamento ismaelita Dentro desse panorama intelectual mais amplo, a doutrina dos dez Intelectos torna-se uma estrutura compartilhada, embora contestada, entre o pensamento aviceniano e o ismaelita. Ambos os sistemas pressupõem que a transcendência divina requer mediação: Deus não governa o mundo diretamente, mas por meio de uma hierarquia de intelectos imateriais. Ambos também associam o número dez a uma arquitetura cosmológica completa, na qual o décimo intelecto, o Intelecto Ativo, governa o mundo sublunar. Nesse sentido, a cosmologia é simultaneamente metafísica e epistemológica: explica tanto a estrutura do universo quanto as condições do conhecimento humano. Outra convergência aparece no papel do Intelecto Ativo como mediador entre o inteligível e a cognição humana. Ele é a fonte das formas, o princípio que atualiza o intelecto humano e a condição do conhecimento filosófico. Em Avicena, o acesso a ele permanece aberto ao filósofo por meio da intuição intelectual. No pensamento ismaelita, particularmente em Ḥamīd al-Dīn al-Kirmānī, esse acesso torna-se estruturalmente vinculado à figura do Imam, que encarna e transmite seu significado dentro de uma ordem hierárquica do conhecimento. O que emerge desse quadro comparativo não é simplesmente uma divergência acerca das provas da existência de Deus, mas uma divergência mais profunda sobre a própria estrutura da realidade: se a existência é fundamentalmente analógica ou idêntica, se a mediação constitui uma necessidade metafísica ou uma construção interpretativa e se a filosofia culmina em uma intuição intelectual autônoma ou em uma ordem hierarquicamente organizada de significado revelado. (N. do E.: Este texto foi traduzido do inglês.)

A antropologia diante de seu espelho
Por
Yakzan Takki
Publicado

Os antropólogos não ficaram nada satisfeitos ao ver sua disciplina apresentada como um foco de «pensamento político de grupo», nem ao ler que a «neutralidade científica» seria, na melhor das hipóteses, uma ilusão e, na pior, uma imposição política. Reagiram com indignação ao Report on the State of Scholarship in the Humanities and the Humanistic Social Sciences , encomendado pela Universidade Vanderbilt e pela Universidade Washington em St. Louis e elaborado por um grupo de dez acadêmicos. Publicado recentemente, o relatório apresenta a antropologia como exemplo de uma disciplina que atravessa uma deterioração generalizada dos padrões científicos, acompanhada de um clima intelectual nocivo no qual divergências razoáveis sobre temas politicamente controversos são reprimidas e punidas. O que resta, então, da ciência quando a divergência sobre o próprio método passa a estar sujeita a pressões políticas, morais e identitárias? A antropologia é uma disciplina relativamente recente, mas está entre os campos que vêm adquirindo uma presença cada vez maior na pesquisa contemporânea, particularmente na confluência entre história, política, sociedade e cultura. A antropologia política, em particular, ampliou seu campo de estudo, passando do poder e das instituições para o Estado, o nacionalismo, a identidade, a cidadania, a violência, a memória coletiva, a religião e as práticas cotidianas do poder. Também estabeleceu um diálogo cada vez maior com a história, a ciência política e a filosofia política. Instituições e programas acadêmicos contemporâneos apresentam, assim, a antropologia e a política como um campo interdisciplinar que permite compreender culturas, políticas e assuntos internacionais em suas dimensões históricas, sociais e culturais, por meio da coleta e interpretação de fatos provenientes de diferentes regiões do mundo. Em 2023, a American Anthropological Association e a Canadian Anthropology Society cancelaram uma mesa intitulada Let’s Talk About Sex, Baby: Why Biological Sex Remains a Necessary Analytic Category in Anthropology . As duas associações justificaram a decisão em nome da segurança e da dignidade de seus membros, bem como da «integridade científica» do programa. Argumentaram que a mesa partia de pressupostos que apresentavam o sexo e o gênero, de maneira simplista, como categorias binárias. A decisão, no entanto, suscitou objeções de organizações dedicadas à defesa da liberdade acadêmica, entre elas a PEN America e a FIRE, que consideraram que cancelar uma mesa devido ao possível «dano» que ela poderia causar levantava sérias questões relacionadas à liberdade de debate. Uma instituição científica pode se recusar a permitir que uma pergunta científica seja formulada por considerar que algumas das possíveis respostas poderiam ser prejudiciais? E pode fazê-lo com base em julgamentos que talvez não levem em conta toda a complexidade física, biológica e antropológica do problema? Essa preocupação com um conhecimento que permanece em grande medida conjectural reacendeu, em 2026, intensos debates no contexto de uma crise mais ampla relacionada à politização, aos padrões científicos e à sua reconfiguração, em um cenário marcado por importantes rupturas teóricas em relação à filosofia do século anterior. Esses ataques vêm, em particular, de forças políticas que promovem uma leitura biológica do mundo. Outros discursos políticos também recorrem a argumentos biológicos e sociais para apresentar as diferenças humanas como fatos naturais e imutáveis: os bilionários seriam gênios que merecem sua fortuna, enquanto os pobres seriam pessoas fracas, nascidas para continuar pobres. Esses discursos questionam muitas das contribuições das ciências sociais em torno da raça, do gênero, da classe e do poder. O problema não é determinar se as ciências sociais são «de esquerda» ou «de direita», mas constatar que os limites daquilo que pode ser legitimamente submetido à investigação científica são, às vezes, estabelecidos antes mesmo que a pesquisa tenha início. No entanto, a antropologia surgiu precisamente para desconstruir aquilo que parece natural e evidente. Hoje, corre o risco de transformar algumas de suas conclusões teóricas em postulados que já não seria permitido questionar. Em outras palavras, poderia passar da crítica das evidências estabelecidas à produção de novas evidências. As ciências sociais perturbam a ordem estabelecida das relações e distinções sociais e questionam os discursos do poder. Deveriam, por isso, ser silenciadas? Elas também podem contribuir para a justiça social. Mas o que acontece quando a própria justiça social se torna um critério para determinar qual conhecimento é aceitável? Um relatório declara uma crise nas humanidades e nas ciências sociais, e a antropologia se torna um caso emblemático do conflito. O cancelamento da mesa sobre o sexo biológico constitui um exemplo. A pergunta, então, é a seguinte: estamos diante de uma politização da ciência ou de uma correção científica legítima? A tarefa parece difícil. Para um pesquisador, reivindicar uma neutralidade científica pode equivaler a negar sua própria relação com o mundo e até mesmo constituir uma forma de má-fé. Por outro lado, a objetividade continua sendo um princípio fundamental da ciência, que deve ser constantemente reforçado por procedimentos e princípios que tornem possível a busca da verdade. Nos Estados Unidos, os ataques foram inicialmente dirigidos às ciências sociais antes de se estenderem à ciência do clima, à microbiologia e até mesmo às vacinas. Na Europa, os estudos de gênero há muito são alvo de ataques em países como a Hungria. Na França, uma intervenção da ministra do Ensino Superior, Frédérique Vidal, em 2021, levou à solicitação de uma investigação sobre determinadas correntes dos estudos críticos. Por isso, é essencial destacar os protocolos e princípios que regem o trabalho científico, que não se baseia na neutralidade do pesquisador, mas na objetividade de seu método, assim como as condições sob as quais a ciência pode questionar aquilo que parece evidente e ser, desse modo, verdadeiramente crítica. A política não deveria determinar o que é cientificamente verdadeiro, assim como a ciência tampouco deveria pretender existir à margem da política e da sociedade. Carolyn Rouse, professora de antropologia em Princeton e presidente da American Anthropological Association, criticou, em particular, os autores do relatório por terem utilizado inteligência artificial para analisar grandes volumes de textos, embora esse método seja cada vez mais comum em muitas das ciências sociais. Ela também afirmou que obrigar antropólogos biológicos a ensinar que existem apenas dois sexos equivaleria «a transformar um departamento de astronomia em um departamento de astrologia». Essa divergência de perspectivas ocorre em um momento em que o mundo acadêmico enfrenta uma ofensiva sem precedentes. Ele precisa de especialistas em comunicação capazes de explicar ao público o valor do ensino superior. No entanto, muitos acadêmicos continuam fazendo e dizendo coisas que permanecem em grande medida incompreensíveis fora de seus próprios círculos. O mesmo ocorre com presidentes de universidades que tropeçam durante suas audiências no Congresso, especialistas em saúde pública cujas declarações se contradizem e centros de reflexão que tentam reconstruir a confiança e organizar as objeções levantadas contra os fundamentos teóricos de uma antropologia que se concebe em constante evolução. A noção de «neutralidade» na pesquisa costuma ser associada a Max Weber. No entanto, o célebre conceito de «neutralidade axiológica» remete a uma questão mais complexa: a distinção entre a referência a valores, inevitável na escolha e na construção de um objeto de pesquisa, e os juízos de valor formulados pelo pesquisador. A tradução francesa de duas conferências de Weber, reunidas sob o título Le Savant et le Politique , foi publicada pela Plon em 1959, em tradução de Julien Freund e precedida de uma introdução de Raymond Aron. A própria tradução de Wertfreiheit como neutralité axiologique , ou «neutralidade axiológica», tem sido objeto de debate desde então, e alguns preferem falar em «não imposição de valores». Outra contribuição importante para a construção da objetividade científica é a teoria da reflexividade de Pierre Bourdieu (1930-2002), que ressalta que o pesquisador em ciências sociais também está sujeito a vieses. A antropologia nunca foi uma ciência «neutra» no sentido em que a física ou a matemática poderiam sê-lo. Os pesquisadores chegam ao trabalho de campo com sua própria cultura, sua língua, sua posição social e seus questionamentos prévios. Uma das razões citadas com maior frequência para explicar a crescente desconfiança em relação ao mundo acadêmico é a percepção de que ele possui uma «agenda política», seguida de perto pelo custo do ensino superior e pela ideia de que os diplomas universitários já não preparam adequadamente os formandos para o mercado de trabalho. Durante anos, os acadêmicos emprestaram a credibilidade de suas instituições a diversos projetos políticos. Agora estão em falência reputacional. Se não repararem os danos, muitas de suas instituições poderão acabar também em falência financeira. A ciência objetiva, afinal, não pode ser separada de uma sociedade democrática submetida às mesmas exigências críticas de objetividade e contextualização. A ciência é um empreendimento coletivo e, para definir o que pode ser considerado conhecimento, requer alguma forma de democracia. Uma das críticas atualmente dirigidas às universidades sustenta que a liberdade de expressão está sob ataque. No entanto, essas acusações procuram, às vezes, questionar um liberalismo intelectual que não levou à censura, mas ao estabelecimento de limites definidos pela lei, particularmente diante de discursos antidemocráticos, racistas ou misóginos que alguns desses críticos pretendem voltar a legitimar. E, no entanto, às vezes são as mesmas pessoas que, sem temer a contradição, atacam a liberdade acadêmica por meio de políticas destinadas a controlar ou silenciar pesquisadores, assim como todos aqueles que trabalham em defesa das liberdades e dos direitos nos campos da justiça, do jornalismo ou de uma cultura emancipadora, a serviço do interesse público e do bem comum, com o propósito de tornar possível um mundo habitável para o maior número de pessoas. A ciência não morre quando é politizada. Morre quando já não pode ser corrigida.

A alternativa xiita: e se nosso ponto de partida não fosse o correto?

Uma ideia vem ganhando cada vez mais força na vida política libanesa. Sempre que a discussão se volta para a restauração do Estado, o futuro do Hezbollah ou o restabelecimento do equilíbrio nacional, o debate inevitavelmente retorna à mesma pergunta: como construir um movimento xiita independente? É difícil contestar essa questão. Parece lógica, até mesmo óbvia. É natural que qualquer projeto nacional exija uma presença xiita independente e que o monopólio exercido por uma única força sobre a representação de toda uma comunidade precise ser encerrado. Mas as ideias mais perigosas não são aquelas que parecem falsas. São aquelas que parecem tão óbvias que paramos de questioná-las. E se o problema estiver na própria pergunta? E se o caminho para o Estado não passar pela construção de um movimento xiita, mas sim na direção oposta? E se essa dinâmica xiita independente, com toda a diversidade e autonomia que representa, não fosse o ponto de partida, mas sim um dos resultados naturais do sucesso de um projeto verdadeiramente nacional? Quando a prioridade passa a ser fomentar figuras xiitas, unindo-as, investindo nelas ou tornando-as o emblema desta nova fase, o centro de gravidade desloca-se, quase sem nos darmos conta, do Estado para a comunidade. A política torna-se, então, uma tentativa de reorganizar o equilíbrio de poder dentro de uma única comunidade, em vez de redefinir a relação entre todos os libaneses e o seu Estado. É aqui que reside um paradoxo que merece reflexão. Afirmamos querer transcender o sistema sectário, mas baseamos o nosso projeto político na dinâmica interna de uma comunidade. Afirmamos querer construir um Estado de cidadãos, mas começamos por procurar representantes das comunidades. Afirmamos querer levar os libaneses para além do sectarismo, mas pedimos a cada comunidade que indique o seu novo representante antes mesmo do início do projeto nacional. Este paradoxo pode não ser intencional, mas merece ser reexaminado. O Hezbollah não se tornou o que é simplesmente porque monopolizou a representação política da comunidade xiita. Ao longo das décadas, o país construiu um sistema integrado baseado no poder militar, nos serviços sociais, nas instituições, numa narrativa religiosa e nas relações regionais. Esse sistema não pode ser contestado pela criação de outro sistema sectário mais moderado, mas sim pela construção de um Estado que se torne a referência natural em segurança, serviços, economia, justiça e senso de pertencimento. A questão, portanto, não é se precisamos de figuras xiitas independentes. Certamente precisamos. A questão é: onde devemos colocá-las? No centro de um novo projeto xiita? Ou no centro de um novo projeto libanês? A diferença entre essas duas opções não é meramente formal. Na primeira, esses indivíduos se veem incumbidos da responsabilidade de transformar toda uma comunidade, um fardo que ninguém consegue suportar. Na segunda, eles se tornam parceiros na construção de um espaço nacional capaz de atrair todos os libaneses, incluindo os xiitas. Talvez seja aí que resida o erro mais comum ao abordar essa nova fase. Em vez de investir no ambiente que fomenta líderes, investimos nos próprios líderes. Em vez de construirmos instituições, organizações, redes locais, universidades, sindicatos e municípios, buscamos figuras que possam, sozinhas, personificar todo esse trabalho de longo prazo. Mas a política não funciona assim. Líderes não são os idealizadores dos projetos; eles são um dos seus resultados. Enquanto não houver um ambiente capaz de lhes conferir legitimidade e os meios para perdurar, essas figuras permanecerão sem uma base condizente com sua estatura, sem instrumentos à altura de suas ambições e sem a capacidade de alcançar os resultados esperados delas. Portanto, a questão mais urgente não é mais: como construir uma dinâmica xiita independente? A questão essencial passa a ser: como construir um projeto nacional no qual o cidadão xiita, assim como o cidadão sunita, cristão ou druso, reconheça seu espaço político natural? Quando alcançarmos isso, não precisaremos mais fabricar figuras xiitas. Elas emergirão por si mesmas.

Os Pasdaran afirmam querer passar à «ofensiva»

Estamos longe das declarações (falsamente) otimistas dos altos responsáveis paquistaneses ou mesmo dos líderes americanos, que relatavam regularmente «contatos positivos» nas negociações com o Irã e, muitas vezes, a iminência de um acordo entre os dois protagonistas do conflito iraniano. O presidente Donald Trump colocou, é verdade, em modo «pausa» os bombardeios aéreos contra as posições, infraestruturas e depósitos dos Guardiões da Revolução Islâmica. Mas o mesmo não se pode dizer do regime dos mulás, que, evidentemente, aproveita essa calmaria para recuperar o fôlego, reorganizar suas tropas e reconstituir, na medida do possível, seu arsenal ofensivo, ao mesmo tempo que transfere a «frente» e as operações militares para o território de um terceiro, o Iêmen. Nesse contexto, a milícia iemenita dos Houthis, subordinada a Teerã, continuou nas últimas vinte e quatro horas seus ataques contra a Arábia Saudita e as posições ou centros nevrálgicos controlados pelo governo iemenita, apoiado por Riad e reconhecido pela comunidade internacional. Na manhã e no início da tarde desta quarta-feira, 12 de agosto, os Houthis bombardearam novamente o porto de Al-Mukha, controlado pelo exército iemenita, e outras posições leais ao governo. Em represália, as forças governamentais iemenitas bombardearam com artilharia pesada os centros e pontos de concentração dos Houthis na frente de Marib, enquanto drones atacavam veículos militares e fortificações da milícia pró-iraniana em Taiz. Um alto responsável iemenita indicou na tarde de quarta-feira que «dezenas de milicianos houthis foram mortos ou feridos nessas operações, em várias frentes». A rede pan-árabe Al-Hadath relata que «84 milicianos houthis foram mortos em seis dias, entre eles vinte e oito altos responsáveis». Vale destacar que na noite de terça-feira, os Houthis lançaram mísseis balísticos e drones contra forças sauditas em Marib. A milícia pró-iraniana afirmou ainda ter atacado depósitos de munições e armas, além de centros de comando sauditas. Uma guerra psicológica Paralelamente à transferência da tensão militar para o terreno iemenita, uma espécie de guerra psicológica parece crescer entre os dois protagonistas do conflito. O presidente Donald Trump voltou a qualificar os líderes iranianos de «mentirosos» e de figuras «traiçoeiras», sublinhando que não confia no regime dos mulás. O presidente Trump afirmou ainda que «os Guardiões da Revolução estão sem fôlego, estão dizimados e em fuga». E o chefe da Casa Branca acrescentou que está descartado que a República Islâmica possa «fazer o papel de agitador no Oriente Médio». «O Irã não é mais o tirano do Oriente Médio», declarou. Os Guardiões da Revolução, por sua vez, foram ainda mais agressivos e beligerantes em suas declarações. Afirmaram primeiro que não há nenhuma negociação em curso com os americanos a respeito de uma prorrogação do cessar-fogo, acrescentando que, na realidade, «não existe nenhum cessar-fogo para que se fale em sua prorrogação». O conselheiro do comandante dos Pasdaran foi ainda mais explícito quanto às intenções iranianas neste domínio. Refletindo provavelmente a radicalização da cúpula da República Islâmica após as recentes nomeações de seis altos oficiais para cargos-chave militares e de segurança, ele sublinhou de forma muito clara que o Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica passou de uma «doutrina defensiva para uma doutrina ofensiva e deve preparar-se para conduzir operações em território estrangeiro». Acrescentou ainda, esclarecendo ainda mais a nova postura dos Pasdaran: «Um dos caminhos que poderá ser seguido é prolongar esta guerra até ao próximo mandato presidencial (nos Estados Unidos), de forma a desgastá-los (...). Os interesses económicos no mundo podem ser facilmente destruídos.» Precisou também que «o número de mísseis que produzimos diariamente é superior ao número de mísseis que lançamos por dia». A UE e vinte e seis Estados pedem o fim das execuções no Irão Enquanto este alto responsável dos Pasdaran anunciava uma nova «estratégia ofensiva», o Ministério do Interior kuwaitiano indicou na tarde de quarta-feira que o Departamento de Segurança do Estado desmantelou «um complô terrorista que tinha como alvo infraestruturas vitais do país». Paralelamente, e no mesmo registo de transposição da tensão para território alheio, o comandante da «Brigada de Jerusalém» (dependente dos Pasdaran), Ismail Kaani, em visita a Bagdade, declarou na quarta-feira que a decisão do novo governo iraquiano sobre o monopólio das armas nas mãos do Estado «constitui uma facada nas costas do Irão». O responsável iraniano terá pedido às milícias iraquianas subordinadas à República Islâmica que se oponham a esta política de monopólio das armas seguida pelo poder em Bagdade. Resta referir que a União Europeia e outros vinte e seis Estados publicaram um comunicado conjunto a pedir ao regime dos mulás que ponha fim imediato às execuções de jovens e cidadãos iranianos que participaram nas recentes manifestações em várias regiões da República Islâmica.

George Sand, um nome masculino para se impor como escritora prolífica (2)

Algumas pessoas aceitam passivamente o seu destino, mas outras tomam as rédeas da própria vida. Isso é ainda mais difícil quando se trata de uma mulher num mundo dominado pelos homens. E, no entanto… algumas mulheres escolheram a luta, conseguindo quebrar os tabus da sua época. Seja com o pincel, a pena, a ciência ou a voz, habitaram o seu tempo com uma ousadia que chegou a ser considerada escandalosa. De Artemisia Gentileschi desafiando a sociedade e os tribunais italianos, há cinco séculos, a George Sand trocando o espartilho pela liberdade de escrever, passando por Camille Claudel, alma dilacerada, pelo rigor e o génio de Marie Curie, ou ainda pela voz universal de Oum Kalthoum… estas mulheres conseguiram superar os preconceitos sociais. Numa série de artigos, propomos uma viagem no tempo ao encontro dessas mulheres rebeldes. Continuamos a nossa série sobre mulheres célebres e rebeldes com George Sand. A literatura do século XIX era dominada essencialmente pelos homens. No entanto, uma mulher recusou-se a aceitar esse estado de coisas: Amantine Aurore Lucile Dupin, também conhecida como George Sand. Ela abalou convenções, costumes e leis. Escritora prolífica, mãe corajosa e apaixonada sem meias-medidas, atravessou a sua época como um furacão, recusando-se a deixar-se prender nas gaiolas douradas das boas maneiras e do politicamente correto. A infância Aurore Dupin passou a infância no Berry, na propriedade de Nohant, ao lado de uma avó aristocrata e culta que lhe proporcionou uma educação refinada e lhe permitiu adquirir uma cultura excecional para a época. Órfã de pai e abandonada pela mãe em consequência de um acordo sórdido, Aurore teve, ainda assim, uma infância feliz, em contacto com a natureza e os livros da avó. Retrato de George Sand, óleo sobre tela realizado por Auguste Charpentier em 1838, conservado no Museu da Vida Romântica em Paris. A batalha pelos filhos e pelas suas terras “Os homens fazem as leis, as mulheres fazem os costumes.” A vida de George Sand muda radicalmente quando ela decide fugir do seu casamento infeliz com o barão Casimir Dudevant. Naquela época, o Código Napoleónico era implacável: a mulher casada era juridicamente uma menor. Os seus bens, o seu dinheiro e até os seus filhos pertenciam legalmente ao marido. Mesmo assim, Aurore recusou-se a submeter-se. Em 1835, iniciou um processo judicial ruidoso de separação de bens e de pessoas. No centro dessa luta estavam os seus maiores tesouros: os filhos, Maurice e Solange, e a sua querida propriedade de Nohant. No século XIX, uma mulher que pedia o divórcio e reivindicava a fortuna familiar provocava um escândalo absoluto. Perante os seus juízes, Sand demonstrou uma determinação feroz e uma notável perspicácia jurídica. Ganhou o processo e recuperou tanto Nohant como a guarda dos filhos. Ganhar a vida com a escrita: uma luta pioneira Livre, mas financeiramente sufocada pelas custas judiciais, ela teve de ganhar a vida com a sua pena para sustentar a família. Para poder publicar os seus livros, circular livremente por Paris sem escolta, assistir a peças de teatro, frequentar as redações dos jornais, entre outras coisas, decidiu usar trajes masculinos (o seu famoso capote cinzento), fumar charutos e adotar um nome masculino. George Sand havia nascido. Ela escrevia à noite, às vezes até catorze horas por dia, encadeando páginas para pagar a educação dos filhos e manter sua propriedade. Em seus romances, os temas abordados — como o desejo feminino, por exemplo — eram por vezes ousados e inéditos para a época. Tornou-se a primeira mulher na França a viver da própria escrita, tratando de igual para igual com os gênios de seu tempo: Balzac, Flaubert e Victor Hugo, para grande desgosto deles. Para ela, escrever não era um passatempo, mas um ato de fé: “A arte pela arte é uma palavra vã. A arte pelo verdadeiro, a arte pelo belo, a arte pelo bem — eis a religião que busco.” A apaixonada absoluta: o idílio com Chopin “Há apenas uma felicidade na vida: amar e ser amado.” George Sand não fazia nada pela metade, e muito menos quando se tratava de amar. Era uma apaixonada absoluta que buscava na paixão uma elevação da alma, mesmo que isso custasse sofrimento e escândalo. Após uma ligação turbulenta e destruidora com o poeta Alfred de Musset, que terminou em grande escândalo, e após múltiplos relacionamentos, ela viveria com Chopin uma das mais belas — e das mais complexas — histórias de amor do romantismo. Quando se conheceram, Chopin estava doente e atormentado. Sand, ao contrário, transbordava uma força vital. Foi amor à primeira vista. Partiram então para um inverno em Maiorca, na Cartuxa de Valldemossa. Naquele lugar agreste e chuvoso, enquanto Chopin cuspía sangue e compunha seus mais belos Prelúdios , Sand se transformou em amante, musa e enfermeira dedicada. Velou pelo seu querido gênio, cuidou do cotidiano e escreveu seus romances à luz das velas enquanto ele improvisava ao piano. O relacionamento durou quase nove anos, oscilando entre fusão artística e dolorosas rupturas. Apesar de todas as suas decepções, o amor permaneceu sempre o grande motor de sua existência. Um legado de sombras e luzes “As decepções não matam e as esperanças fazem viver.” No ocaso de sua vida, aquela que era carinhosamente chamada de “boa dama de Nohant” fez sua despedida, retirada em sua querida propriedade. Deixou para trás mais de setenta romances, milhares de cartas e a memória de uma mulher íntegra, que soube transformar suas batalhas íntimas em uma obra universal. Ela se foi deixando uma certeza a todas as mulheres — e aos homens também — que trilhariam seus passos: a liberdade não se negocia, ela se conquista! Leia também sobre o mesmo tema Quando uma artista da velha Florença empunha seu pincel (1)