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Enorme explosão provocada por um ataque israelita perto de Al-Mansouri, no sul do Líbano. (AFP)
O essencial da semana
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Por LevantTime .
Publicado em set 6, 2026 - 23:27
Enquanto os Estados Unidos pareciam ter optado apenas pela guerra econômica contra o Irã, o exército americano lançou abruptamente na terça-feira ataques contra o território iraniano, em retaliação a ataques contra petroleiros, desencadeando uma espiral de violência ao longo da semana. No Líbano, Israel libertou vários civis detidos em suas prisões, enquanto suas forças armadas ocupavam a colina estratégica de Ali el-Taher e prosseguiam com seus bombardeios massivos na zona que controla no sul do país. A semana de 31 de agosto a 6 de setembro foi marcada por uma nítida aceleração dos acontecimentos no Oriente Médio, depois de uma semana anterior que parecia mergulhada na estagnação. Na frente iraniana, já na noite de terça-feira, o exército americano realizou ataques direcionados em território iraniano, os primeiros em quase um mês. Esta captura de tela, feita em 6 de setembro de 2026 a partir de imagens de vídeo sem data divulgadas no mesmo dia pelo Comando Central dos EUA, mostra o que o Centcom apresenta como um dos petroleiros iranianos que destruiu em retaliação a tentativas de ataques com mísseis contra navios militares. (Centcom via AFP) No entanto, o ritmo relativamente contido desses ataques dá a impressão de que o governo americano optou por uma escalada controlada, mantendo ao mesmo tempo o bloqueio e as pressões econômicas contra Teerã. Ainda assim, a tensão não parou de crescer ao longo da semana. Explosões foram ouvidas no sábado na ilha altamente estratégica de Kharg, por onde passa a maior parte do petróleo iraniano. O presidente americano Donald Trump, por sua vez, ameaçou atacar o complexo nuclear de Kuh-e Kolang — “montanha da picareta” em persa, ou Pickaxe Mountain —, uma instalação fortemente protegida e enterrada a grande profundidade, não muito longe de Natanz, o principal centro de enriquecimento de urânio do Irã. Mais cedo na semana, ele havia formulado a equação do “petroleiro por petroleiro”, prometendo atingir um navio iraniano cada vez que os Guardiões da Revolução atacassem um petroleiro no Estreito de Ormuz. Foi exatamente isso que o exército americano fez no sábado, incendiando dois navios iranianos. No plano político, Donald Trump endureceu ainda mais o tom em relação a Teerã. Depois de afirmar em uma entrevista que as negociações estavam definitivamente congeladas “porque um acordo com eles não vale o papel em que está escrito”, ele declarou no sábado que o “conflito” com o Irã não era uma “guerra”, mas “algo corriqueiro” para os Estados Unidos. Uma forma de mexer com os nervos dos iranianos ao mesmo tempo em que tranquiliza sua opinião pública às vésperas das eleições de meio de mandato. Um porto, além de instalações de armazenamento e depósitos, foi danificado após um ataque militar americano realizado na província iraniana de Hormozgan, no sul do país, que faz fronteira com o estreito de mesmo nome, em 6 de setembro de 2026. (AFP) Ao mesmo tempo, a mídia americana Axios publicou no sábado uma reportagem sugerindo que os Estados Unidos já estão pensando além deste conflito, iniciado em 28 de fevereiro. O site afirma, citando autoridades americanas e outras fontes informadas, que o governo Trump está elaborando uma estratégia mais ampla para o Oriente Médio do pós-guerra. Ela se basearia na construção de um alinhamento regional destinado a conter o Irã, encerrar as repercussões regionais dos ataques de 7 de outubro de 2023 realizados pelo Hamas em Gaza e ampliar o círculo de normalização entre Israel e os países da região. A ameaça contra Kuh-e Kolang, que marca o ressurgimento da questão nuclear iraniana, ecoa um anúncio da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que lamentou, em 1º de setembro, o fato de o Irã não ter reaberto seus sites aos inspetores após os ataques de maio de 2025. Vale lembrar que, apesar da magnitude da ofensiva israelo-americana contra os sites iranianos, é quase certo que o estoque de urânio enriquecido permaneça intacto e tenha sido colocado em local seguro pelas autoridades iranianas, que continuam apegadas ao que consideram ser seu direito de desenvolver um programa nuclear. Após o anúncio da AIEA, os Estados Unidos, mas também a França, a Grã-Bretanha e a Alemanha, manifestaram a intenção de apresentar uma resolução ao Conselho de Segurança da ONU condenando o descumprimento pelo Irã de seus compromissos em matéria de não proliferação nuclear. Uma unidade visível que contrasta com o clima frio entre Washington e seus aliados europeus desde o início do conflito. Já os iranianos parecem continuar a reagir às turbulências da mesma maneira: atacando vários países vizinhos, como o Kuwait, os Emirados Árabes Unidos e a Jordânia, sem no entanto atacar diretamente Israel. Ataques maciços no sul do Líbano Na frente libanesa, Israel intensifica suas operações de destruição nas aldeias do sul, chegando a usar, em alguns casos, barris de explosivos. O presidente libanês Joseph Aoun pediu a Washington e à comunidade internacional que “façam cessar” os ataques israelenses no território libanês, que deixaram sete mortos no domingo em meio a uma trégua frágil. Os bombardeios atingiram diferentes localidades da região de Nabatiye. Vinte pessoas também ficaram feridas, entre elas crianças, segundo o Ministério da Saúde. Um ataque destruiu ainda o antigo hospital Ghandour, fora de funcionamento há anos. Libertação de detidos e tomada de Ali al-Taher Mas o evento mais importante da semana no sul foi a tomada, pelos israelenses, da colina estratégica de Ali al-Taher, na região de Nabatiye. O local era um importante quartel-general do Hezbollah, formado por um vasto emaranhado de túneis, de onde operavam combatentes do partido xiita, mas também, segundo algumas informações, combatentes iranianos. Na noite de quinta-feira, os israelenses anunciaram ter assumido o controle do complexo. No domingo, o ministro israelense da Defesa, Israel Katz, declarou que ainda restavam túneis a serem dinamitados. Esse “sucesso” militar talvez não tenha sido uma surpresa após semanas de bombardeios, mas a reação do Hezbollah foi, sim, surpreendente. Depois de garantir por muito tempo que se recusaria a ceder essa colina estratégica — assim como os iranianos, que também haviam ameaçado intervir —, o partido xiita acabou minimizando o impacto desse desenvolvimento por meio de seus veículos de mídia e porta-vozes, sem, no entanto, confirmar oficialmente a perda do local, que havia se recusado a preservar entregando-o ao exército libanês. A outra grande surpresa da semana foi a libertação, por Israel, de cinco civis libaneses e sírios detidos em suas prisões. Essa medida ocorreu após uma visita a Tel Aviv do embaixador dos Estados Unidos no Líbano, Michel Issa. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira “ocorre em seguimento aos esforços empreendidos por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os corpos dos líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano” entre 1984 e 1986. Mais uma vez, a reação do Hezbollah chama a atenção. Embora considere a medida positiva, mas insuficiente, o partido voltou a atacar as autoridades libanesas, acusando-as de “submissão ao inimigo” e responsabilizando-as pelo desastre no sul. Chegou até a alertá-las contra “os conflitos internos”. Será que os reveses militares do partido poderiam levá-lo a se voltar ainda mais contra o cenário interno? Por fim, o exército israelense fez no domingo uma declaração importante, anunciando que está considerando reduzir sua zona de ocupação no Sul do Líbano, passando da atual "zona amarela" para uma "zona cinza". Segundo essa interpretação, tal mudança refletiria uma diminuição da ameaça representada pelo Hezbollah. A medida, no entanto, ainda não foi aprovada pela liderança política israelense. Iêmen e Palestina A semana também foi particularmente tensa no Iêmen, onde os confrontos entre os rebeldes houthis e as forças governamentais não pararam de se intensificar, culminando em um sábado especialmente sangrento, com mais de 60 mortos em um único dia, elevando para cerca de 200 o número de vítimas desde quinta-feira. A ofensiva dos houthis busca sobretudo tomar o controle de certas áreas ao redor da passagem de Bab al-Mandab, o que daria a esse aliado do Irã uma vantagem adicional sobre outro ponto estratégico crucial, depois do estreito de Ormuz. Na Palestina, declarações particularmente preocupantes de Israel Katz sobre Gaza marcaram a semana. Ele afirmou, sem apresentar provas, que a maioria dos habitantes da faixa desejava deixá-la, ressaltando que Israel estava "pronto para essa evacuação em massa". Isso deixa entender que o calvário dos habitantes de Gaza está longe de terminar. Por fim, vale destacar que a AIEA anunciou, em 1º de setembro, que infraestruturas descobertas em Deir ez-Zor, na Síria, indicam que o antigo regime de Bashar al-Assad preparava secretamente um programa nuclear avançado, capaz de resultar na fabricação de uma arma atômica com a ajuda de especialistas norte-coreanos.
Homenagem
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Por Michel Hajji Georgiou - Publicado em set 6, 2026 - 13:31
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O jogador argentino, que encerrou sua carreira internacional em 31 de agosto de 2026, não era nada menos que um prestidigitador dos estádios. Sua trajetória, feita de prodígios, quedas e redenção, talvez diga algo sobre nossa necessidade intacta de encantamento em um mundo que, no entanto, pretende ter se livrado dele. Anunciada poucas semanas depois da final da Copa do Mundo de 2026 perdida para a Espanha, a aposentadoria internacional de Lionel Messi não deixou de provocar uma emoção para a qual é difícil encontrar muitos equivalentes na história recente do futebol. Provavelmente seria preciso remontar a Maradona, ou ainda a Cruyff ou Pelé, para reencontrar essa sensação de que, com a retirada de um jogador, desaparece algo que ultrapassa em muito o próprio esporte, como se certa maneira de habitar o futebol, ou até mesmo de acreditar nele, também chegasse ao fim. Longe dos glacis da razão Chega das estatísticas intermináveis e das insuportáveis querelas, tediosas e estéreis, em torno de “quem é o melhor de todos os tempos». O autor destas linhas nunca foi um fanático pela bola, nem por classificações verticais ou por uma hierarquia do mérito em geral e, portanto, aprecia o talento de cada jogador com o mesmo olhar maravilhado de uma criança de 11 anos. De resto, essa obsessão particularmente contemporânea pelos números estraga todo o prazer do espetáculo. E com razão: o procedimento que consiste em somar gols, assistências, Bolas de Ouro, Ligas dos Campeões, Copas América, Copas do Mundo… só pode ser redutor. Em outro registro, ele não deixa de evocar a crítica desenvolvida pelo filósofo germano-americano Eric Voegelin à tentação gnóstica moderna: a de um saber convencido de que pode encerrar a realidade em um sistema e abolir aquilo que lhe resiste. Os recordes são provavelmente um indicador do gênio de Lionel Messi. Mas tantos outros grandes jogadores que fizeram vibrar os estádios e os corações, sem realizar sequer metade dos feitos de Messi, permanecem, ainda assim, eternos na memória. Aquilo que os tornou verdadeiramente singulares encontra-se em outro lugar, longe dos glacis da razão. Algo mais se jogou em torno deles. Algo que pertence a certo sentido profundo da transcendência, que o entendimento jamais poderia apreender plenamente. Esse é o caso de Lionel Messi há mais de vinte anos, desde o dia em que, sob o olhar do “ícone”Diego Maradona, fez sua primeira entrada, em junho de 2006, na arena da Copa do Mundo com as cores da Albiceleste contra Sérvia e Montenegro. Ora, esse elemento indizível que constitui o gênio de Messi, como o de outros, talvez toque em um dos paradoxos mais curiosos da modernidade: a persistência da magia em um mundo que se construiu precisamente contra ela. O mundo desencantado Max Weber falava do desencantamento do mundo para designar esse lento processo pelo qual a modernidade ocidental submeteu progressivamente a existência à racionalização, ao cálculo, à previsibilidade e à explicação causal. O mundo já não deveria ser atravessado por forças obscuras, sinais, intervenções sobrenaturais ou vontades invisíveis; deveria, ao menos em princípio, tornar-se inteligível. Infelizmente, o esporte moderno, e mais amplamente o mundo moderno herdado da globalização, insere-se perfeitamente nessa dinâmica. O futebol de hoje, e não apenas o futebol, é provavelmente um dos objetos mais quantificados que existem. O menor gesto é medido, e tudo é cuidadosamente calculado e modelado. Da matemática à inteligência artificial, o talento bruto depende agora mais da ciência do que do encantamento. É aquilo que há de humano, em sua relação espontânea, até selvagem, com o invisível que nasce do coração, que desaparece diante de nossos olhos em benefício da quadratura do VAR. É, de certo modo, o assassinato do esporte em nome de mais rigor e equidade… ainda que a eutanásia dessa parcela de espontaneidade sublime acabe provocando, ela própria, injustiças flagrantes. Basta, para constatá-lo, voltar a algumas das decisões controversas da Copa do Mundo de 2026. Paradoxo dos paradoxos, o próprio Lionel Messi foi, desde a origem, filho dessa modernidade técnica, da qual certamente deve parte de sua carreira excepcional. Seu corpo, pequeno demais para os padrões esperados, foi corrigido por meio de tratamento hormonal. Identificado muito cedo, seu talento foi assumido por uma instituição que organizou sua formação, alimentação, desenvolvimento físico e integração em uma máquina esportiva já globalizada. Nada, em aparência, poderia estar mais distante do velho relato heroico. À primeira vista, a história se parece mais com distopias do tipo Gattaca do que com mitos e narrativas messiânicas. E, no entanto, esse velho relato de fato retornou, e até com uma insistência quase constrangedora. Desde o início de sua carreira, Lionel Messi foi colocado sob o microscópio. Mas quanto mais se esforçavam para explicá-lo e desmistificá-lo, menos conseguiam dissipar inteiramente a impressão produzida por alguns de seus gestos. O homem simplesmente não consegue ser circunscrito nem reduzido a um acúmulo de dados. Na idade em que a maioria dos grandes jogadores volta para as sombras, ele continua surpreendendo. Estupefazendo, até, ao trazer ao esporte essa parcela de insensatez que escapa à hipersistematização quase robótica do mundo. É provavelmente aí que se deve procurar esse outro lugar que caracteriza Messi. Numa sobrevivência da magia num momento em que até os espaços que permitiam a expressão positiva de uma humanidade feita de carne e sangue se veem progressivamente “disciplinados”por essa atração hipnótica por uma nova gnose puritana em nome da modernidade. O Messias fabricado pela máquina Embora oriundo, de certo modo, da máquina matricial, Lionel Messi constitui, por si só, um questionamento desse modelo de prêt-à-porter. Uma espécie de alter ego do Neo de Matrix, lançado numa simulação governada por parâmetros que pretendem calcular tudo. O destino do argentino adquiriu progressivamente, quase contra sua vontade, a forma de uma narrativa messiânica. O trocadilho com seu nome seria fácil demais se sua própria história não o tivesse constantemente relançado: a da criança frágil, cujo corpo parecia querer negar a realização à qual seu talento a destinava. Depois, a do exílio ainda muito jovem para Barcelona, da adoção por uma cidade estrangeira, da ascensão quase irreal, do reconhecimento mundial e, em seguida, dessa estranha dificuldade de ser reconhecido pelos seus… Durante muito tempo, a Argentina manteve com seu filho pródigo uma relação de hainamoration. Pouco importavam seus resultados, seu talento, seu brilho… ele precisava responder a uma única pergunta, impiedosa: por que não era Maradona? A comparação era certamente inevitável, mas também profundamente injusta. Tudo separava os dois homens em sua maneira de estar no mundo. Maradona carregava a Argentina com tudo o que ela podia ter de passional, contraditório, excessivo e teatral. Falava, provocava, brigava, caía, voltava, misturava ao futebol sua vida privada, suas cóleras, seus compromissos políticos… até sua própria destruição. Seu próprio corpo parecia transformar-se em um dos lugares onde se encenavam as contradições de seu país. Maradona era a própria encarnação daquilo que o mundo esperava do futebol: uma alma rebelde, levando por vezes o jogo até a imoralidade, mas dentro de uma espécie de gigantomaquia futebolística. Maradona era épico. E, sobretudo, havia colocado seu país no firmamento do futebol em 1986. Messi, por sua vez, não oferecia nada disso. Era silencioso, às vezes quase ausente da narrativa que os outros construíam ao seu redor, ausência que durante muito tempo foi interpretada como defeito. Quase apagado, sem personalidade. Era justamente isso que os dois gigantes, Maradona e Pelé, lhe censuravam: falta de liderança, ser liso demais. Uma espécie de bebê de proveta milagroso dos estádios. Também se censurava ao menino de Rosario não cantar suficientemente o hino, não ser argentino o bastante, ter sido “fabricado”por Barcelona e, naturalmente, não vencer com a seleção aquilo que ganhava quase continuamente com seu clube. A profecia inacabada A final da Copa do Mundo de 2014, perdida de maneira dramática para a Alemanha, seguida pelas finais da Copa América de 2015 e 2016, havia transformado progressivamente essa suspeita em acusação. Quando perdeu seu pênalti contra o Chile em 2016 e anunciou depois que deixava a seleção, ele já era, no entanto, um dos maiores jogadores da história do futebol. Mas sua narrativa permanecia estranhamente inacabada. O sentimento de incompletude pouco dizia respeito ao seu currículo. Tratava-se antes daquela necessidade quase arcaica continuamente imposta aos heróis modernos: concluir seu percurso iniciático. Com as cores argentinas, Messi brilhava e depois caía pesadamente. Mas não se levantava. Não cumpria a profecia. E, aos olhos de seu povo, isso reforçava o sentimento de hainamoration: um deus caído continua sendo um deus, apesar de tudo. Mas acrescido daquilo que, aos olhos de seus adoradores, constitui um substrato de humanidade insuportável e, portanto, perfeitamente detestável: suas taras, suas fraquezas. Os argentinos amavam Maradona apesar de sua decadência espetacular e de sua humanidade falível. Mas isso porque ele havia “merecido”essa decadência, porque ela se tornara, de algum modo, aceitável depois do México de 1986. Messi, por sua vez, ainda não tinha o direito de cair, porque ainda não havia chegado ao topo. Não, a profecia não estava cumprida. Começava até a virar caricatura. Messi voltou, portanto. Mas ainda teve de esperar por sua redenção. Foi preciso a Copa América de 2021, no Maracanã, para que essa relação feita de suspeita, expectativa e decepção com seu público e seu povo começasse verdadeiramente a mudar. E foi preciso, sobretudo, a Copa do Mundo de 2022 para que a história adquirisse aquela forma quase perfeita demais que ninguém teria ousado escrever sem parecer ceder a uma facilidade de roteirista. Fato estranho, Maradona havia morrido em 2020. Era como se uma espécie de maldição nacional opressiva tivesse sido levantada. Ao mesmo tempo, o povo argentino precisava de uma figura paterna substituta, e a pressão não fazia senão redobrar. Mas talvez misturada, dessa vez, com um pouco de ternura? O que aconteceu no Catar em 2022 é ainda mais interessante porque o próprio Messi aparece ligeiramente diferente. Protesta mais, responde às provocações, irrita-se, fala com uma violência de que poucos o julgavam capaz e deixa até escapar aquele “¿Qué mirás, bobo?”diante dos neerlandeses, para diversão da Argentina. Buenos Aires finalmente descobre, com atraso, aquilo que sempre esperou dele. Um pouco de Maradona dentro de muito Messi. Mas Messi não se transforma, por isso, em Maradona. E talvez seja precisamente aí que ocorra a verdadeira reconciliação: a Argentina deixa de lhe pedir que seja Maradona. A partir de 2022, Messi já não precisa encarnar outro modelo do gênio nacional. Finalmente pode tornar-se, também para seu país, aquilo que já havia sido em todos os outros lugares: Messi. Simplesmente. O ato final da profecia É verdade que o triunfo de 2022 poderia ter constituído um final perfeito. Mas, como no caso de Maradona, o ato final da profecia heroica é a queda. Ninguém esperava realmente algo excepcional de Messi em 2026. Aos 39 anos, considerava-se amplamente que ele já fazia parte dos “heróis cansados». A queda do Capitólio havia ocorrido com o episódio amargo de sua saída do FC Barcelona e sua desventura no PSG. Já não atuava senão na liga americana, com as cores de Miami… na periferia do mundo do futebol, nas terras distantes do soccer. E a nova geração já estava ali, pronta para mandar os ancestrais a Bicêtre. No entanto, aquela Copa do Mundo de 2026, que parecia destinada a não passar de um epílogo, transformou-se num último golpe de brilho sensacional. A Argentina chegou novamente à final, com Messi, aos 39 anos, ainda como seu “líder histórico”e seu recurso nos momentos decisivos, realizando algo que não deixava de lembrar o que Roberto Baggio fizera pela Itália em 1994, aos… 27 anos: um deus ex machina permanente. Baggio fracassou às portas do triunfo contra o Brasil depois de praticamente carregar a Itália até Pasadena. Seu pênalti enviado por cima do travessão deixaria uma das imagens mais cruéis da história das Copas do Mundo: a de um homem imóvel, de cabeça baixa, mãos na cintura, enquanto o Brasil celebrava a vitória. Aquele que havia “morrido de pé». O duende italiano jamais conheceu a apoteose. Mas essa morte simbólica, longe de apagar seu Mundial, acabou também entrando para sua lenda. A história foi mais clemente com Messi, apesar de uma campanha de ódio contra ele, misturada a acusações de trapaça e favoritismo, num pano de fundo de decisões arbitrais controversas e atos antidesportivos de sua equipe, como havia sido outrora com Maradona. Ainda mais, até. Uma final em sua sexta Copa do Mundo, às portas da aposentadoria, com uma atuação individual extraordinária? É precisamente aí que reside aquilo que há de mágico no fenômeno Messi e que desafia a razão e sua avalanche de estatísticas. O gênio não pode ser encerrado numa soma de parâmetros e variáveis. Sua condição física, mesmo ótima, não pode explicar por si só aquilo de que o mundo inteiro foi testemunha. E pouco importa que sua história nos lembre que o herói, por mais mítico que seja, não pode abolir a sinistra influência de Saturno. O reencantamento do mundo Pois, para além da profecia cumprida, da ascensão à queda, com sua parcela de alegrias e desventuras, o argentino ofereceu ao mundo uma última volta que pertence à arte, quando não a uma forma de poesia homérica. Com a retirada de Lionel Messi da cena internacional, desaparece um pouco da magia do mundo… até que outro herói providencial volte a encantar os estádios. Durante mais de vinte anos, Messi terá encarnado a coexistência de dois mundos que julgávamos incompatíveis: o da racionalização extrema do esporte moderno e aquele, muito mais antigo, do herói, do sinal, da espera e do encantamento. Quando Messi parte, algo dessa contradição aparece de repente. Outros prodígios já surgiram, mas talvez descubramos, justamente no momento em que um de seus últimos grandes representantes deixa a cena, o quanto continuamos precisando de transcendência. O mundo moderno provavelmente não suprimiu o encantamento. Apenas o deslocou. Durante noventa minutos, esse homem chamado Lionel Messi, que o encarnou nos gramados, parte depois de ter realizado tudo. E até mais.
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Ficamos mais burros?

Ou estamos vivendo uma transformação na estrutura do conhecimento?
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Por Mona Fayad - Publicado em set 5, 2026 - 20:01
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A pergunta “O mundo ficou mais burro?”reaparece com frequência nos debates contemporâneos sobre mídia digital, mecanismos de busca e redes sociais. À primeira vista, parece uma pergunta simples, mas esconde uma questão muito mais profunda, ligada à própria natureza do conhecimento: como ele é produzido, como é transmitido e como é consumido. Talvez a pergunta “Ficamos mais burros?”não seja a mais precisa. Talvez devêssemos perguntar: o conhecimento ainda é transmitido de uma maneira que permita compreendê-lo e torná-lo produtivo? A maioria dos leitores ainda recorre aos textos originais? Ou se limita aos seus resumos e ao que é dito a respeito deles por meio daquilo que circula entre os leitores? Uma das chaves para compreender esse fenômeno encontra-se nos trabalhos do psicólogo britânico Frederic Bartlett, que realizou, na década de 1930, uma série de experiências sobre aquilo que chamou de “reprodução serial”. Nessas experiências, uma pessoa ouvia uma história e depois precisava contá-la a outra, que por sua vez a contava a uma terceira, e assim por diante. Os resultados foram impressionantes: a cada nova transmissão, a história não era reproduzida exatamente como havia sido contada, mas reformulada. Alguns detalhes desapareciam, outros eram ampliados e outros ainda eram substituídos por elementos mais compatíveis com o contexto, as experiências e a cultura do receptor. Depois de passar por um número suficiente de intermediários, a história original já havia se transformado em algo inteiramente diferente. Esse modelo simples revela uma verdade fundamental: a memória não é um recipiente neutro, mas um mecanismo de reconstrução. E, quando o conhecimento passa por múltiplos intermediários, ele não é “preservado”, mas “reproduzido”. É aqui que começam a aparecer as semelhanças com o nosso mundo contemporâneo e o receio de que estejamos ficando mais burros. Na era da mídia digital, o conhecimento já não circula por meio da transmissão oral, mas através de cadeias de mediação: um artigo é resumido, depois citado, em seguida republicado sob a forma de uma postagem curta e, por fim, reduzido mais uma vez a uma frase ou a um título. Nesse contexto, podemos retomar uma imagem metafórica usada em um texto jornalístico: uma biblioteca cujos livros são substituídos por resumos, e depois por resumos dos resumos, até que o leitor se veja diante de sucessivas camadas de redução. Algo semelhante ao que poderíamos chamar de “cadeia do guaxinim”, que não lê o original, mas remexe em seus restos. Vale esclarecer que a escolha do “guaxinim”não é aleatória. Essa metáfora condensa simbolicamente uma condição cognitiva que vem se consolidando. Esse animal, que vive nas margens das cidades e remexe em latas de lixo, não produz seu alimento, mas se nutre dos restos daquilo que outros produziram. Apesar de sua inteligência prática e de sua capacidade de desmontar, recolher e aproveitar objetos, ele não compreende verdadeiramente aquilo que tem diante de si, mas lida com as coisas como materiais disponíveis para uso imediato. É assim que o conhecimento passa a se apresentar na era da redução serial: textos são resumidos e depois novamente resumidos, até que deles reste apenas um punhado de fragmentos de sentido, reorganizados e postos novamente em circulação sem qualquer vínculo verdadeiro com sua fonte. Nesse ponto, não apenas nos afastamos do original, mas entramos em uma nova etapa da produção da informação ou do conhecimento, na qual o agente cognitivo deixa de ser um leitor ou pensador para se tornar um coletor de restos de significado, que os redistribui em formatos destinados ao consumo rápido. A “cultura do guaxinim”, portanto, não é apenas uma descrição da superficialidade. É também uma caracterização precisa da degradação da própria cadeia do conhecimento: da criação ao resumo, da compreensão ao processamento formal, das ideias a algo que já não passa de um vestígio apagado delas. Mas esse fenômeno não pode ser compreendido separadamente da estrutura tecnológica que o governa. É aqui que entra Marshall McLuhan, que sintetizou seu pensamento na célebre frase: “O meio é a mensagem”. O problema não está apenas no conteúdo, mas também na forma através da qual esse conteúdo é transmitido. A mídia digital contemporânea não se limita a transportar informações, mas as remodela segundo a lógica da velocidade, da condensação e da fragmentação. O texto longo torna-se inadequado para o consumo, enquanto uma ideia só parece aceitável se puder ser reduzida a poucas linhas facilmente compartilháveis. Essa transformação produz um paradoxo marcante: vivemos numa época em que o acesso ao conhecimento deixou de ser difícil e se tornou excessivamente fácil. E, com essa facilidade excessiva, surge aquilo que poderíamos chamar de “ilusão cognitiva”: basta ler um pequeno trecho ou um resumo rápido para que a pessoa tenha a sensação de ter assimilado uma ideia. Mas essa sensação de domínio não é necessariamente acompanhada por uma compreensão profunda nem pela capacidade de reconstruir ou criticar o conhecimento. É aqui que aparecem os que poderíamos chamar de “semiletrados”: indivíduos que possuem os sinais do conhecimento, mas não sua estrutura; seu vocabulário, mas não sua lógica interna. O problema se torna ainda mais complexo quando o observamos sob o ângulo da atenção. Em vez de permanecer em um estado prolongado de concentração, como acontece na leitura tradicional ou na reflexão demorada, a mente passou a viver sob um bombardeio contínuo de informações: notificações, vídeos, manchetes e ondas sucessivas de conteúdo. Essa situação não apenas dispersa a atenção, mas a reconfigura segundo uma lógica de saltos constantes entre pequenas unidades de significado, em vez de permitir a construção gradual e cumulativa de uma ideia. Lembro aqui de uma anedota que costumávamos contar e que circulava muito na época das manifestações populares. Ela ilustra bem a ideia da redução e da transformação do conteúdo. Depois da ocupação da Palestina, muitas manifestações populares tomaram as ruas gritando “Abaixo a Declaração Balfour!”. A brincadeira dizia que, no fim da manifestação, o slogan havia se transformado, em árabe, em “Que alguém caia lá de cima!”, uma frase inteiramente diferente que preservava algo do ritmo e da sonoridade da original. Talvez essa imagem nos ajude a compreender melhor o que acontece na linguagem cotidiana quando o conhecimento se transforma em mensagens curtas repetidas coletivamente. A manifestação começa com uma fórmula política precisa. Mas, com a repetição, a imersão coletiva e o ritmo sonoro, ela vai se transformando pouco a pouco em outra fórmula, completamente diferente. Esta pode conservar o ritmo e a carga emocional da primeira, mas perde seu significado e seu sentido original. O que permanece não é o sentido, mas a energia emocional da frase. Aqui se manifesta, de outra maneira, aquilo que Bartlett havia observado: não importa apenas o que foi dito, mas como aquilo foi repetido e como voltou a ser compreendido dentro de um contexto social em transformação. Se reunirmos todos esses fios, podemos dizer que aquilo que vivemos hoje não é propriamente um “colapso da inteligência”, mas uma transformação das condições em que ela opera. A mente humana não mudou radicalmente, mas o ambiente em que funciona se transformou profundamente: passamos de um ambiente que permitia a acumulação lenta para outro que impõe a reprodução rápida e fragmentada do conhecimento. Essa mudança cria uma tensão permanente entre duas formas de pensamento: um pensamento reflexivo, que precisa de tempo, e um pensamento rápido, que exige resposta imediata. Sob essa perspectiva, a pergunta “Ficamos mais burros?”torna-se parcialmente enganosa. Talvez seja mais preciso dizer que estamos cada vez mais expostos a condições que tornam o pensamento profundo menos estável, ou menos possível, e o conhecimento mais vulnerável à fragmentação e à reciclagem. Quanto à burrice, se podemos usar o termo, talvez ela não seja uma propriedade da mente, mas um efeito colateral e uma característica da estrutura cultural que se formou. Trata-se de uma tecnologia que está remodelando nossa relação com o mundo. Assim, em vez de enxergar esse fenômeno como um declínio das capacidades humanas, podemos compreendê-lo como uma transformação do “ambiente do conhecimento”: um ambiente em que se tornou fácil saber alguma coisa, mas mais difícil compreendê-la de fato e em profundidade.
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A taxa sobre a gasolina: a transição ecológica pela asfixia económica!

O navio de cruzeiro Costa Concordia encalhado em frente à ilha de Giglio após ter atingido rochas submarinas em 13 de janeiro de 2012. (Filippo Monteforte/AFP) Imaginem que, enquanto o navio de cruzeiro Costa Concordia afundava, em 2012, o chefe de sala do restaurante pedia aos passageiros para não esquecerem de pagar a conta. Absurdo? É, no entanto, com poucas diferenças, a lógica adotada pelo nosso governo. Num país paralisado pela crise, onde só a inflação avança, o Estado, procurando desesperadamente financiar o aumento dos salários dos seus funcionários e pensões mais ou menos ajustadas para os militares reformados, encontrou a solução: aumentar o IVA em 1% e taxar a gasolina em trezentas mil libras por bidão. Afinal, por que não? Num sistema onde a impunidade é rainha e a prestação de contas uma ficção administrativa, seria sem dúvida indelicado pedir aos dirigentes que restituíssem os fundos desviados. Já que é para fazer, que se tire dinheiro de um povo que demonstrou uma notável capacidade de aguentar sem reclamar. O que há de mais nobre, aliás, do que pagar impostos para sustentar um setor público cujos alguns funcionários são tão furtivos quanto um bombardeiro B-2, invisíveis 29 dias em 30? Ou aqueles que provam que existe vida após a morte, ainda recebendo o salário muito depois do seu enterro administrativo? E depois, se a taxa de desemprego ronda os 40%, este imposto sobre a gasolina acabará por afetar apenas quem trabalha. Os desempregados, por sua vez, não são supostos andar pelas estradas sem fazer nada. As motivações destes impostos são irrepreensíveis: opor-se a eles seria quase ingratidão para com aqueles que mantêm a ilusão de um simulacro de Estado. Ou pior ainda, para com um exército cujos alguns oficiais de alta patente, em vez de desfrutarem de uma merecida reforma, aceitaram sacrificar-se mais uma vez, presidindo-nos. Shakespeare escreveu, e ele tinha razão: «Sopra, sopra, vento de inverno, tu não és tão cruel quanto a ingratidão do homem», ainda mais porque os novos impostos não afetam o combustível que nos aquece do vento de inverno… E paremos de ver o copo meio vazio. Como dizia o outro, basta pegar num copo mais pequeno para que fique quase cheio. É certo que uma verdadeira taxação do uso do domínio marítimo público, dos cigarros e dos tapetes (que alguns dirigentes fumam) teria sido mais coerente. Mas a taxa sobre a gasolina terá pelo menos o mérito de reduzir o número de automobilistas, fluir o tráfego e, consequentemente, diminuir a poluição. Este governo inova! Acabou de inventar a transição ecológica por asfixia económica. No entanto, demonstramos grande maturidade em relação às leis contra as quais nos indignamos. Lembremos: em 2019, a menção de um imposto de seis dólares no WhatsApp foi suficiente para incendiar o país, dissolver o governo e encher as ruas. Hoje, um imposto que ronda os vinte dólares mensais, acompanhado de um aumento do IVA, passa sem problemas. A nossa revolta manifesta-se nas redes sociais, mas pelo menos é gratuita, e isso, graças ao sentido de responsabilidade e à mobilização geral em torno de uma causa nacional, que tínhamos defendido ardentemente em 2019! No fundo, os nossos governantes aplicaram perfeitamente o conceito de solidariedade invertida: taxar aqueles que não podem dar-se ao luxo de parar, a fim de financiar um Estado que, por sua vez, está parado. A diferença com o Concordia é que, quando o navio afundava, ainda não se cobrava a água ou o acesso ao mar, enquanto no Líbano, estamos a afundar, mas estaremos em dia….

A crise do regime iraniano: arrancar pela raiz, não apenas podar

Em tempos de guerra aberta ou de crise existencial aguda, quando o destino de toda uma população está por um fio, as meias-medidas tornam-se inaceitáveis. Quando uma nação enfrenta os desígnios expansionistas e hegemônicos de um poder sem amarras legais nem princípios, e quando um regime tirânico, manchado de sangue, comete massacres em larga escala com total impunidade, atacando indiscriminadamente civis, jovens e adolescentes, essas circunstâncias extremas exigem clareza. Exigem uma postura firme e inequívoca, muito distante da ambiguidade cínica ou das manobras evasivas. Essa é, sem dúvida, como o leitor já terá suposto, a situação do regime atualmente no poder no Irã. A mais recente rodada de negociações, mais um capítulo de uma saga que se estende por décadas, entre enviados norte-americanos e iranianos não passa de um espejismo. Isso já se tornou um lugar-comum, como demonstram inúmeras experiências anteriores: os dirigentes da República Islâmica aperfeiçoaram a arte do “diálogo” estéril, criando a ilusão de abertura à negociação e ao compromisso. Na prática, sua estratégia raramente vai além de ganhar tempo, manobrar, se proteger e esperar que os ventos geopolíticos soprem a seu favor. Os aiatolás em Teerã apostam na alternância inevitável de poder nas democracias ocidentais para explorar qualquer enfraquecimento ou mudança de governo em países que lhes são “incômodos”. Essa tática já conhecida lhes permite recuar e, em seguida, escalar sua campanha beligerante contra o lado oposto. Enquanto isso, em seu jogo preferido da “negociação”, perseguem um suposto “acordo” que não têm intenção de cumprir. Paralelamente, esses mesmos líderes orquestram massacres impensáveis e detenções em massa, dirigidas especialmente contra jovens e estudantes. Em uma revelação contundente, um integrante da Comissão de Educação do Parlamento iraniano informou recentemente que 28% dos presos após o levante de janeiro passado têm menos de 20 anos. Ainda mais chocante: uma associação iraniana publicou uma lista com os nomes de 200 crianças mortas nos protestos mais recentes. A dimensão do derramamento de sangue levou o analista político libanês-estadunidense Walid Phares, próximo a círculos republicanos, a instar os líderes em Washington a que, se insistirem em manter o “diálogo” com Teerã, exijam como condição prévia inegociável o cessar efetivo e imediato das execuções e das detenções em massa, além da libertação dos presos desde janeiro, antes de qualquer conversa com o regime iraniano. O presidente Donald Trump não errou nesse ponto ao afirmar, durante uma de suas viagens, que há 47 anos os altos funcionários da República Islâmica dão sistematicamente a impressão de querer “dialogar” com o Ocidente quando estão sob pressão, enquanto, ao mesmo tempo, promovem massacres intermitentes e atrocidades indescritíveis que custaram a vida de milhares de presos políticos sob custódia. A natureza essencialmente estéril de qualquer negociação com um regime como o dos aiatolás foi sublinhada com precisão pelo secretário de Estado Marco Rubio, ao destacar que o Irã é governado por clérigos xiitas radicais cujas decisões e opções estratégicas são guiadas exclusivamente por considerações teológicas, muito distantes de qualquer senso de realismo geopolítico. Mas foram as declarações recentes do chanceler iraniano Abbas Araghchi que deixaram ainda mais clara a inclinação enganosa do regime por discussões intermináveis e sua habilidade descarada de escapar a compromissos escritos. Pouco depois da última reunião em Genebra com a delegação norte-americana, ele reconheceu sem rodeios que seria “difícil redigir o texto final de um possível acordo com os Estados Unidos”. Em outras palavras, Teerã reduz qualquer acordo com Washington a um mero exercício retórico: uma linguagem repleta de armadilhas semânticas, deliberadamente ambígua, desenhada para permitir múltiplas interpretações e, assim, possibilitar que o regime contorne de forma dissimulada as obrigações concretas que um acordo desse tipo implicaria. A situação atual da República Islâmica pode ser comparada a uma planta em avançado estado de decomposição. Podá-la apenas, cortando caules e galhos secos enquanto as raízes permanecem intactas, não resolveria nada. Essas raízes, sem serem tocadas, inevitavelmente farão a planta crescer novamente e, em pouco tempo, mais forte do que antes. O mesmo ocorreria com qualquer acordo falho e cheio de armadilhas firmado com o regime dos aiatolás, se não forem arrancadas por completo as raízes profundas, aquelas que, de forma paciente e meticulosa, operam nas sombras para ressuscitar o que um dia esteve apodrecido.

O Museu Nacional do Irã: espelho de uma história milenar (2/2)

Os museus no Irã desempenham um papel central no apoio à estratégia política e diplomática do país. Também são fundamentais para preservar e exibir os tesouros da civilização persa. O Museu Nacional do Irã se consolida como o principal museu arqueológico e histórico do país. Ele destaca a riqueza do patrimônio persa e abriga coleções inestimáveis que percorrem a história iraniana, desde o Paleolítico, passando por medos, elamitas, aquemênidas, partas e sassânidas, até o período islâmico. Em seu interior, estrutura-se a narrativa oficial do “Irã”: um fio contínuo que vai de Elam e do Império Aquemênida à República Islâmica. Mais de 300 mil objetos compõem esse relato e entrelaçam a história milenar da nação. O Museu Nacional é formado por duas grandes unidades: o Museu do Irã Antigo e o Museu do Período Islâmico. Museu do Irã Antigo Fundado na década de 1930, durante o reinado de Reza Shah, o edifício principal, conhecido como Museu do Irã Antigo, é dedicado ao período pré-islâmico. Sua arquitetura se inspira no estilo sassânida, especialmente no Taq-e Kasra (Arco de Ctesifonte). Projetado pelos arquitetos franceses André Godard e Maxime Siroux, o museu foi inaugurado em 1937. Longe de exibir as lendárias joias do tesouro dos xás, o museu apresenta um amplo percurso da história iraniana por meio de milhares de objetos, entre selos, baixos-relevos, cerâmicas, manuscritos, esculturas e outras peças. Entre os itens de maior destaque estão inscrições e textos do período Uruk tardio (c. 3350-3000 a.C.), que, na década de 2010, foram transferidos para depósitos modernos, com sistemas adequados de conservação e segurança. O museu também abriga um dos “Homens de Sal” de Zanjan: um mineiro mumificado de forma natural, preservado pela salinidade da mina onde foi encontrado, datado aproximadamente do período 550-330 a.C. Outras peças emblemáticas incluem o monumental Bronze de Shami, com 1,94 metro de altura, considerado uma obra-prima da escultura parta. Também se destacam baixos-relevos e capitéis com cabeças de touro provenientes de Persépolis (séculos VI-IV a.C.), de qualidade excepcional, que sintetizam de forma impactante a arte arquitetônica aquemênida. A coleção inclui ainda cerâmicas e artefatos pré-históricos de Tepe Sialk, perto de Kashan, verdadeiras obras de arte datadas entre o VI e o IV milênios a.C. Somam-se a isso os bronzes de Lorestan (c. 1000-650 a.C.) e as taças de ouro e ritons de Marlik (1400-1200 a.C.), considerados o ápice da metalurgia e do artesanato iraniano da Idade do Ferro. Museu do Período Islâmico O departamento de arte islâmica do Museu Nacional do Irã ocupa um edifício moderno e independente, inaugurado em 1996. Ele abriga uma coleção de enorme valor, que percorre a história da Pérsia após o advento do islã, destacando o refinamento do arte islâmica no Irã. O acervo inclui obras safávidas, cerâmicas, manuscritos, peças em metal, têxteis e muitos outros tesouros. Entre as peças mais notáveis está o mihrab ilcanida de Dar-e Behesht, conhecido como a “Porta do Paraíso”. Esse mosaico de azulejos vidrados do século XIV, produzido sob a dinastia ilcanida, é célebre por sua caligrafia intrincada (cúfica, thuluth, naskh) e por seus motivos florais e geométricos. O museu também exibe um recipiente cerâmico do século IX, proveniente de Gorgan, decorado com uma figura antropomórfica com cabeça de touro, aquarelas de Sani ol-Molk do período qajar (século XVIII), além de elegantes astrolábios e outras obras-primas. O papel dos curadores Em um delicado equilíbrio entre poder e memória, os curadores de museus no Irã atuam em um terreno complexo. Frequentemente enfrentam formas sutis de censura: não proibições explícitas, mas sinais, recomendações e “sensibilidades” que precisam ser respeitadas. Até decisões sobre quais obras exibir e como contextualizá-las podem envolver temas sensíveis, como o pluralismo religioso antigo, o papel das mulheres nas sociedades do passado ou as influências estrangeiras. O desafio central é equilibrar a narrativa pré-islâmica, de uma nação antiga e imperial, com a narrativa islâmica e a estratégia identitária do Estado, sem perder o rigor intelectual que qualquer relato histórico exige. Por fim, cabe destacar os esforços de profissionalização em alguns museus de Teerã, como a modernização dos sistemas de armazenamento e segurança e a nomeação de um curador especializado para a seção de inscrições, entre outras medidas. Essas iniciativas refletem um enfoque cada vez mais tecnocrático na gestão do patrimônio. Isso suscita uma pergunta provocadora: em tempos de crise nacional, é inadequado concentrar-se no destino dos museus e das obras de arte em vez do bem-estar das pessoas? Pelo contrário: quanto mais instável se torna o mundo, mais essenciais se tornam a arte e aqueles que a preservam, não apenas como testemunho, mas, sobretudo, para conservar e transmitir nossa história humana compartilhada às futuras gerações. Artigos relacionados: Os museus no Irã: um patrimônio em estado de sítio (1/2)

Trump e o complexo iraquiano
Por
Khairallah Khairallah
Publicado

As negociações conduzidas pela administração norte-americana com a parte iraniana em Mascate e Genebra não tinham outro objetivo senão transmitir uma única mensagem. O teor dessa mensagem é que a «República Islâmica» deve mudar. A mudança deve ocorrer pela via pacífica ou pela força. O presidente Donald Trump não hesitou recentemente em afirmar que a queda do regime iraniano seria «a melhor coisa que poderia acontecer». A partir dessa perspetiva, compreende-se a repetida recusa do presidente norte-americano ao regresso de Nouri al-Maliki ao cargo de primeiro-ministro no Iraque. Do mesmo modo, sob essa ótica, pode entender-se o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e a sua condução a Nova Iorque juntamente com a esposa. Está em curso uma operação de cerco cuidadosamente calculada contra o Irão, acompanhada de um corte contínuo das suas asas após a sua expulsão da Síria e a eliminação prática do «Hezbollah», a joia da coroa do projeto expansionista da «República Islâmica». O que importa sublinhar neste momento é a determinação da administração norte-americana em regressar ao Iraque. Trump parece carregar um verdadeiro complexo chamado Iraque. Os Estados Unidos pagaram um preço elevado pela queda do regime baathista e familiar de Saddam Hussein em 2003. Pagaram com sangue e com centenas de milhares de milhões de dólares para que o Irão emergisse como o único vencedor de uma guerra cujas motivações continuam, até hoje, envoltas em interrogações, sobretudo quanto às razões que levaram a administração de George W. Bush a desencadeá-la. O regresso do presidente norte-americano à questão de Nouri al-Maliki não é mero acaso nas circunstâncias atuais, marcadas por uma perigosa escalada entre a «República Islâmica», por um lado, e os Estados Unidos e Israel, por outro. Trata-se de uma escalada séria, sobretudo à luz da transferência da guerra para o interior do território iraniano no passado mês de junho. Na mente de Trump articulam-se cálculos precisos, entre eles um cálculo relacionado com o Iraque, que passou a cair no regaço iraniano. Os norte-americanos, especificamente a administração de George W. Bush, entregaram o Iraque ao Irão numa bandeja de prata. Tal parece permanecer gravado no pensamento de Donald Trump, que assumiu a tarefa de pôr termo à hegemonia iraniana na região, começando pelo Iraque. Os Estados Unidos colocaram no poder em Bagdade milícias xiitas iraquianas ligadas à «Guarda Revolucionária» iraniana. Essas milícias apressaram-se a voltar-se contra o «ocupante» norte-americano e passaram a servir os interesses iranianos. A administração Bush errou em tudo o que empreendeu no Iraque, sobretudo quando se tornou evidente que não dispunha de um plano coerente para a fase posterior à queda de Saddam Hussein. Trump sabe igualmente que o relançamento do projeto expansionista iraniano na região teve início no Iraque. Com a queda de Bagdade em abril de 2003, os equilíbrios de poder na região alteraram-se profundamente. Com a queda do Iraque, a Síria caiu inteiramente nas mãos do Irão, e o Líbano também, onde a «República Islâmica» assassinou Rafic Hariri há vinte e um anos, após concluir que ele constituía um obstáculo à expansão iraniana, baseada essencialmente na instrumentalização dos instintos sectários e na substituição das instituições do Estado por milícias afiliadas à «Guarda Revolucionária» em diversos países árabes. O rei Abdullah II alertara para os perigos de entregar o Iraque ao Irão mesmo antes do assassinato de Rafic Hariri, em fevereiro de 2005. Em outubro de 2004, falou do «Crescente xiita» no seu sentido político, como um crescente persa que se estendia de Teerão a Beirute, passando por Bagdade e Damasco. O monarca jordano fez essas declarações numa entrevista concedida ao jornal norte-americano The Washington Post. As suas palavras revelaram a sua visão de longo alcance e a sua perceção aguda das consequências que decorreriam da tomada do Iraque pelo Irão. Desde que entrou na Casa Branca, em janeiro de 2016, Trump concentrou-se na ameaça iraniana. Rasgou o acordo sobre o dossiê nuclear iraniano alcançado em 2015 pela administração de Barack Obama. Tal ocorreu em maio de 2018. Nos primeiros dias de 2020, os Estados Unidos eliminaram Qassem Soleimani, comandante da «Força Quds», ponta de lança do projeto expansionista iraniano. A operação ocorreu pouco depois de Soleimani ter deixado o aeroporto de Bagdade, onde chegara vindo de Beirute via Damasco, aeroporto considerado seguro para a «República Islâmica». A eliminação de Soleimani constituiu um ponto de viragem regional decisivo. Nada o demonstra melhor do que a postura de Hassan Nasrallah, o falecido secretário-geral do «Hezbollah», ao falar sobre a personalidade de Soleimani e sobre a natureza da relação que os ligava em todos os domínios, incluindo a coordenação entre o Irão e o partido no Líbano, na Síria, no Iraque, no Iémen e em mais de um Estado do Golfo. Trump regressou à Casa Branca há cerca de um ano e um mês. Voltou em circunstâncias novas, nas quais o Irão se encontra enfraquecido e o seu projeto expansionista sofreu reveses após ter perdido todas as guerras travadas à margem da guerra de Gaza. A partir dessa perspetiva, torna-se natural prosseguir a campanha contra o Irão começando pelo Iraque, ao qual já não pode ser permitido continuar a ser um campo de jogo da «Guarda Revolucionária», como o foram o Líbano e a Síria antes do assassinato de Hassan Nasrallah nos subúrbios do sul de Beirute e antes da fuga de Bashar al-Assad para Moscovo. Não é relevante entrar nos labirintos relativos à personalidade de Nouri al-Maliki nem procurar medir o grau de influência iraniana sobre ele. Para Trump, o essencial é a saída do Irão do Iraque. Não é natural que os Estados Unidos permaneçam presos na armadilha iraniana. Em última análise, o Iraque é governado desde 2003 por pessoas que regressaram a Bagdade sobre tanques norte-americanos. Donald Trump rejeita essa ingratidão com que foi recebida a guerra norte-americana no Iraque há vinte e três anos. Agora, depois de a administração Trump ter colocado o Irão perante a alternativa da rendição ou da exposição a um amplo ataque por mar e ar, parece lógico que Trump procure recuperar o Iraque se o objetivo for realmente pôr fim ao projeto expansionista iraniano.

Linhas gerais de uma possível política marítima no Líbano (2)

Que política marítima o Líbano poderia, ou deveria, impulsionar como parte de seus esforços de desenvolvimento? E que papel poderia desempenhar a União pelo Mediterrâneo (UpM), que sucedeu a Parceria Euromediterrânea iniciada em Barcelona, nesse contexto? Em essência, a União pelo Mediterrâneo adotou uma abordagem “terrestre”. Seja por meio da cooperação política e de segurança voltada à criação de um espaço comum de paz e estabilidade, da colaboração econômica e financeira para construir uma zona de prosperidade compartilhada, ou de iniciativas culturais e sociais destinadas a promover o entendimento entre culturas e o intercâmbio entre sociedades civis, o objetivo final permanece o mesmo: a formação de um espaço de prosperidade compartilhada dentro de uma Zona de Livre Comércio Euromediterrânea. Tudo isso se estrutura em torno do território. No entanto, o Mediterrâneo é um mar cercado por terras, não territórios separados pelo mar. Que projetos marítimos poderiam ser integrados a esse processo? Três critérios serão decisivos para selecionar e priorizar os eixos temáticos relevantes: – O país deve ser capaz de avançar para a fase de implementação sem obstáculos que travem o impulso proposto. – Priorizar setores capazes de gerar grande número de empregos e oferecer oportunidades reais de crescimento e progresso, promovendo a mobilidade social. – Priorizar projetos conforme as necessidades mais urgentes, ao mesmo tempo em que se fortalece o diálogo e a cooperação com os Estados parceiros. Missões e projetos Além das funções portuárias e comerciais, as responsabilidades marítimas de um Estado abrangem um conjunto de capacidades soberanas e de segurança: vigilância do espaço marítimo, proteção da Zona Econômica Exclusiva (ZEE), combate ao tráfico ilícito, realização de operações de busca e salvamento no mar e prevenção da poluição. Essas missões são estratégicas para a soberania nacional, a estabilidade econômica e a proteção da população. 1 - Proteção da ZEE : A Zona Econômica Exclusiva do Líbano abrange aproximadamente 22.700 km². Os acordos de delimitação marítima com Israel (2022) e Chipre esclareceram o marco jurídico, requisito prévio para uma vigilância eficaz. O controle da ZEE deve ser efetivo e contínuo. 2 - Vigilância e controle das áreas costeiras : Os 225 km de litoral libanês incluem portos comerciais e pesqueiros, zonas urbanas densamente povoadas e instalações industriais e energéticas sensíveis. O controle costeiro é, portanto, uma exigência tanto de segurança quanto de proteção civil. 3 - Combate ao tráfico marítimo ilícito : O Estado é responsável por enfrentar o contrabando de mercadorias, o tráfico de drogas e armas e a migração marítima irregular. 4 - Resgate marítimo e segurança da navegação : Dentro de sua área de responsabilidade, o Líbano realiza operações de busca e salvamento (SAR) no mar, principalmente por meio da Marinha libanesa e da Defesa Civil. Isso exige coordenação estreita entre a Marinha, as autoridades portuárias e os serviços de emergência. Também deveria ser criado um centro marítimo SAR plenamente operacional, em conformidade com os padrões internacionais. 5 - Poluição marítima de origem terrestre : O despejo de esgoto sem tratamento, aterros sanitários costeiros, escoamento urbano, poluição industrial e vazamentos acidentais de hidrocarbonetos nos portos são as principais fontes de contaminação. O possível desenvolvimento de recursos de gás em alto-mar torna indispensável o fortalecimento dos planos de emergência contra a poluição, o reforço das medidas preventivas em terra e a garantia de coordenação estreita entre atores civis e militares. 6 - Formação em profissões marítimas : Componente vital das capacidades marítimas nacionais, determina a segurança da navegação, a eficiência das operações portuárias e logísticas, a credibilidade do Estado no cumprimento de suas missões soberanas e o crescimento futuro da economia azul e das atividades em alto-mar. Também é fonte de integração intercomunitária e geração de empregos. Marco estratégico – Estabelecer um sistema nacional de vigilância marítima (ZEE e litoral). – Reforçar as capacidades de patrulhamento em alto-mar e os meios aéreos. – Criar um centro nacional de coordenação SAR marítimo conforme os padrões internacionais. – Construir uma capacidade nacional estruturada e sustentável de resposta à poluição. – Estabelecer um Instituto de profissões marítimas que integre atores civis e militares. – Fazer do mar um pilar central da estratégia de soberania nacional e do plano de recuperação econômica. Prioridades a definir Dentro desse marco geral de política marítima, o Estado deve estabelecer prioridades claras e concretas: 1 – Criar uma governança marítima nacional que assegure coordenação contínua e efetiva entre todos os atores marítimos civis e militares. 2 – Implementar um sistema nacional de vigilância marítima (ZEE e litoral) que garanta a soberania efetiva do Estado sobre seu domínio marítimo. 3 – Intensificar o combate ao tráfico marítimo e ao crime transnacional, reduzindo perdas econômicas e riscos à segurança. 4 – Desenvolver uma capacidade nacional de busca e salvamento (SAR) no mar, protegendo vidas humanas e cumprindo as obrigações internacionais do Líbano. 5 – Construir uma capacidade nacional para enfrentar a poluição marítima, prevenindo e gerenciando a contaminação, especialmente diante de um eventual desenvolvimento offshore. 6 – Criar um Instituto Libanês de profissões marítimas e garantir a disponibilidade de competências marítimas essenciais. 7 – Colocar o mar no centro da estratégia nacional de recuperação econômica e transformar o domínio marítimo em motor de desenvolvimento sustentável. Um projeto marítimo desse tipo, já parcialmente em curso no Líbano, está plenamente alinhado às prioridades dos parceiros internacionais: garantir a segurança e a estabilidade regional no Mediterrâneo Oriental; combater o tráfico transnacional e o crime organizado; proteger vidas humanas no mar; e salvaguardar o ambiente marinho. Concebido como um programa de cooperação civil e de segurança, em conformidade com o direito internacional e os compromissos multilaterais do Líbano, adota uma abordagem integrada que articula governança, capacidades operacionais, formação, desenvolvimento sustentável, geração de empregos e integração comunitária. Uma estratégia marítima libanesa desse tipo deve avançar em paralelo à necessária revitalização da União pelo Mediterrâneo. Artigo relacionado Um futuro marítimo para o Líbano? (1)

“Duas Líbias” e uma soberania esquiva (3/5)
Por
Michel Hajji Georgiou
Publicado

Desde a Primavera Árabe de 2011, a Líbia não vive uma transição inconclusa, mas se instalou em um estado duradouro de dissolução política. Longe de abrir caminho para a reconstrução, a queda brutal do regime de Muammar Gaddafi desencadeou uma longa sequência de fragmentação. Nesse processo, a violência armada substituiu progressivamente o Estado como princípio organizador do poder, como ocorreu no Sudão. Esta série propõe uma leitura estrutural da guerra líbia como um sistema estabilizado e coerente em si mesmo, inserido em rivalidades regionais e internacionais, e hoje capaz de eliminar qualquer alternativa política que não se ajuste à sua lógica. A noção de “duas Líbias” aparece com frequência nas análises do caso líbio, como metáfora da fragmentação territorial do país. No entanto, a fórmula é enganosa, pois sugere uma divisão política aparentemente clara, quase simétrica, entre um Ocidente dominado por Trípoli e um Oriente estruturado em torno de Benghazi. Essa representação, porém, simplifica perigosamente uma realidade muito mais inquietante: a Líbia não está dividida entre duas soberanias em disputa, mas despojada de soberania como um todo. As instituições que afirmam encarná-la não governam na prática. Sobrevivem por delegação, sob proteção armada, em permanente dependência de forças externas ou de atores que exercem autoridade sobre elas. No oeste, o Governo de Unidade Nacional, chefiado pelo primeiro-ministro Abdul Hamid Dbeibeh e reconhecido pela comunidade internacional, existe dentro de uma espécie de ficção jurídica permanente. Goza de reconhecimento diplomático, acesso formal aos ativos líbios no exterior e de um assento nas Nações Unidas. Mas esse reconhecimento não lhe confere qualquer capacidade real de impor decisões no território que, em teoria, governa. Em Trípoli, governar significa negociar incessantemente com grupos armados que controlam bairros, estradas e instituições estratégicas. O Executivo não decide. Sobrevive interpretando Sherazade, negociando sua própria prorrogação dia após dia, operando por meio de uma coalizão frouxa de atores civis e armados que permanecem autônomos no terreno: as Forças Especiais de Dissuasão, de orientação salafista; o Aparato de Apoio à Estabilidade, estruturado em torno de líderes de milícias locais; as facções de Misrata; as Brigadas de Trípoli, entre outros. Essa negociação permanente reduziu o Estado a uma casca vazia e procedimental. Os ministérios funcionam de forma intermitente. As políticas públicas existem, em grande parte, apenas no papel. Os orçamentos são absorvidos por mecanismos informais de redistribuição destinados a preservar equilíbrios armados frágeis. O Banco Central, frequentemente apresentado como o último pilar do país, também se tornou objeto de disputas por controle e de pressões cruzadas. No leste, uma ordem relativa No leste, a soberania tampouco é mais sólida, apesar da aparência de hierarquia militar. A autoridade de Khalifa Haftar se apoia em um mosaico de lealdades tribais, estruturas de segurança e apoios externos. Impõe um certo ordenamento, mas um ordenamento militar, não institucional. Não se sustenta em uma administração autônoma, e sim em uma cadeia de comando e em uma economia de guerra. A pretensão de soberania esbarra aí em uma contradição fundamental: como exercer soberania plena quando o poder depende estruturalmente de padrinhos externos para sobreviver? As decisões estratégicas, em matéria de guerra, economia ou diplomacia, são invariavelmente moldadas pelas expectativas e linhas vermelhas de seus apoiadores regionais e internacionais. O leste da Líbia não governa de fato. No melhor dos casos, administra sua dependência. Como era previsível, a coexistência desses dois polos não produz qualquer equilíbrio estabilizador. Ao contrário, gera um sistema de obstrução mútua e de desordem contida, porém persistente, mais agudo porque nenhum dos lados é suficientemente forte para impor uma unificação duradoura, nem fraco o bastante para ser marginalizado. A Líbia se instala, assim, em uma configuração em que a divisão se torna funcional: permite aos atores locais conservar suas posições e aos atores externos projetar influência sem assumir o custo de uma reconstrução efetiva do Estado. O petróleo, motor da fragmentação Essa ausência de soberania real se torna ainda mais evidente na gestão dos recursos. Em vez de fomentar a coesão nacional, o petróleo se converteu em um dos principais motores da fragmentação. Terminais, campos e oleodutos são controlados ou bloqueados segundo cálculos locais, e a produção pode ser interrompida a qualquer momento como instrumento de pressão política. Quanto às receitas, quando circulam, servem para sustentar redes de clientelismo, e não qualquer projeto nacional. O paradoxo líbio é que o país possui recursos suficientes para financiar sua própria reconstrução, mas permanece estruturalmente incapaz de convertê-los em soberania. Nesse esquema, a renda não fortalece o Estado; ao contrário, perpetua sua dispersão, dinâmica reforçada pela própria arquitetura institucional. Governos se sucedem, acordos se acumulam, processos de diálogo se multiplicam, cada um apresentado como passo decisivo rumo à reunificação, mas, na prática, nenhum altera a correlação de forças no terreno. As instituições líbias não passam de pontos de trânsito fantasmagóricos e vazios, onde promessas feitas por todos os lados jamais se cumprem. Nesse cenário de desolação, a própria noção de legitimidade perdeu qualquer sentido operacional. A legitimidade eleitoral é invocada apenas para ser neutralizada; a legitimidade revolucionária está esgotada; a legitimidade baseada na segurança é contestada. O que resta, na prática, são reivindicações parciais, locais e provisórias de autoridade, ancoradas sobretudo em capacidades de coerção. Seu correlato, a soberania, entendida como a capacidade de decidir e impor normas em um território, se dissolve nessa proliferação de fontes de poder concorrentes. Na Líbia, a autoridade já não se articula: fragmenta-se, negocia-se, resiste, mas raramente governa. Um impasse enraizado A fragmentação territorial não está congelada. É fluida, adaptável, talvez até reversível no curto prazo, mas, como a dinâmica geral, persistente em sua lógica. Zonas passam de uma autoridade a outra sem alterar a estrutura global do conflito. Cidades mudam de mãos, alianças se reconfiguram, mas a ausência de um centro unificador permanece constante. É justamente essa fluidez que torna a situação líbia tão resistente às tentativas de resolução. Não existe uma linha de frente estável sobre a qual se possa impor um cessar-fogo duradouro, nem um único ator capaz de arrastar todo o país para um processo político vinculante. Cada iniciativa esbarra em uma realidade simples: ninguém pode comprometer todos, e todos podem bloquear qualquer um. Por sua vez, os atores externos são frequentemente acusados de alimentar a divisão. Na prática, porém, eles apenas exploram uma configuração já existente, apoiando ora um lado, ora outro, ajustando seu nível de envolvimento, sem tentar seriamente restaurar uma soberania que consideram irrealista no curto prazo. A Líbia se converte, assim, em um espaço a ser administrado e, de fato, em mais uma ferida aberta nesta região da África. Quanto às soluções… A população civil fica presa em uma dupla armadilha. De um lado, depende de instituições frágeis para serviços essenciais. De outro, vive sob a pressão constante dos grupos armados. Em um contexto em que a política se esvaziou como horizonte coletivo, não surpreende que o exílio se torne uma estratégia individual de sobrevivência. Falar em “duas Líbias” é perder completamente o ponto central. Uma descrição mais precisa seria a de um país administrado por partes, no qual o Estado é pouco mais que papelão, a soberania uma pretensão vazia e a guerra uma maldição inexorável. Não se trata de uma situação temporária nem acidental, mas do produto de uma década de compromissos, arranjos improvisados e cálculos racionais mal orientados. Enquanto essa arquitetura não for questionada, qualquer reunificação será puramente formal. A Líbia poderá mudar de governo, assinar novos acordos ou convocar mais uma conferência, mas não recuperará uma soberania real enquanto a violência continuar sendo a porta de entrada para o poder e a dependência de atores externos, seu principal modo de funcionamento. Próximo artigo: Líbia como uma ferida regional aberta Artigos relacionados: – 2011, a Líbia na era pós-estatal (1/5) – O conflito líbio: uma «milicianização» exagerada da política (2/5)