

Os museus no Irã desempenham um papel central no apoio à estratégia política e diplomática do país. Também são fundamentais para preservar e exibir os tesouros da civilização persa.
O Museu Nacional do Irã se consolida como o principal museu arqueológico e histórico do país. Ele destaca a riqueza do patrimônio persa e abriga coleções inestimáveis que percorrem a história iraniana, desde o Paleolítico, passando por medos, elamitas, aquemênidas, partas e sassânidas, até o período islâmico. Em seu interior, estrutura-se a narrativa oficial do “Irã”: um fio contínuo que vai de Elam e do Império Aquemênida à República Islâmica. Mais de 300 mil objetos compõem esse relato e entrelaçam a história milenar da nação.
O Museu Nacional é formado por duas grandes unidades: o Museu do Irã Antigo e o Museu do Período Islâmico.
Museu do Irã Antigo
Fundado na década de 1930, durante o reinado de Reza Shah, o edifício principal, conhecido como Museu do Irã Antigo, é dedicado ao período pré-islâmico. Sua arquitetura se inspira no estilo sassânida, especialmente no Taq-e Kasra (Arco de Ctesifonte). Projetado pelos arquitetos franceses André Godard e Maxime Siroux, o museu foi inaugurado em 1937.
Longe de exibir as lendárias joias do tesouro dos xás, o museu apresenta um amplo percurso da história iraniana por meio de milhares de objetos, entre selos, baixos-relevos, cerâmicas, manuscritos, esculturas e outras peças.
Entre os itens de maior destaque estão inscrições e textos do período Uruk tardio (c. 3350-3000 a.C.), que, na década de 2010, foram transferidos para depósitos modernos, com sistemas adequados de conservação e segurança.
O museu também abriga um dos “Homens de Sal” de Zanjan: um mineiro mumificado de forma natural, preservado pela salinidade da mina onde foi encontrado, datado aproximadamente do período 550-330 a.C.
Outras peças emblemáticas incluem o monumental Bronze de Shami, com 1,94 metro de altura, considerado uma obra-prima da escultura parta. Também se destacam baixos-relevos e capitéis com cabeças de touro provenientes de Persépolis (séculos VI-IV a.C.), de qualidade excepcional, que sintetizam de forma impactante a arte arquitetônica aquemênida.
A coleção inclui ainda cerâmicas e artefatos pré-históricos de Tepe Sialk, perto de Kashan, verdadeiras obras de arte datadas entre o VI e o IV milênios a.C. Somam-se a isso os bronzes de Lorestan (c. 1000-650 a.C.) e as taças de ouro e ritons de Marlik (1400-1200 a.C.), considerados o ápice da metalurgia e do artesanato iraniano da Idade do Ferro.
Museu do Período Islâmico
O departamento de arte islâmica do Museu Nacional do Irã ocupa um edifício moderno e independente, inaugurado em 1996. Ele abriga uma coleção de enorme valor, que percorre a história da Pérsia após o advento do islã, destacando o refinamento do arte islâmica no Irã. O acervo inclui obras safávidas, cerâmicas, manuscritos, peças em metal, têxteis e muitos outros tesouros.
Entre as peças mais notáveis está o mihrab ilcanida de Dar-e Behesht, conhecido como a “Porta do Paraíso”. Esse mosaico de azulejos vidrados do século XIV, produzido sob a dinastia ilcanida, é célebre por sua caligrafia intrincada (cúfica, thuluth, naskh) e por seus motivos florais e geométricos. O museu também exibe um recipiente cerâmico do século IX, proveniente de Gorgan, decorado com uma figura antropomórfica com cabeça de touro, aquarelas de Sani ol-Molk do período qajar (século XVIII), além de elegantes astrolábios e outras obras-primas.
O papel dos curadores
Em um delicado equilíbrio entre poder e memória, os curadores de museus no Irã atuam em um terreno complexo. Frequentemente enfrentam formas sutis de censura: não proibições explícitas, mas sinais, recomendações e “sensibilidades” que precisam ser respeitadas. Até decisões sobre quais obras exibir e como contextualizá-las podem envolver temas sensíveis, como o pluralismo religioso antigo, o papel das mulheres nas sociedades do passado ou as influências estrangeiras.
O desafio central é equilibrar a narrativa pré-islâmica, de uma nação antiga e imperial, com a narrativa islâmica e a estratégia identitária do Estado, sem perder o rigor intelectual que qualquer relato histórico exige.
Por fim, cabe destacar os esforços de profissionalização em alguns museus de Teerã, como a modernização dos sistemas de armazenamento e segurança e a nomeação de um curador especializado para a seção de inscrições, entre outras medidas. Essas iniciativas refletem um enfoque cada vez mais tecnocrático na gestão do patrimônio.
Isso suscita uma pergunta provocadora: em tempos de crise nacional, é inadequado concentrar-se no destino dos museus e das obras de arte em vez do bem-estar das pessoas? Pelo contrário: quanto mais instável se torna o mundo, mais essenciais se tornam a arte e aqueles que a preservam, não apenas como testemunho, mas, sobretudo, para conservar e transmitir nossa história humana compartilhada às futuras gerações.
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