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Enorme explosão provocada por um ataque israelita perto de Al-Mansouri, no sul do Líbano. (AFP)
O essencial da semana
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Por LevantTime .
Publicado em set 6, 2026 - 23:27
Enquanto os Estados Unidos pareciam ter optado apenas pela guerra econômica contra o Irã, o exército americano lançou abruptamente na terça-feira ataques contra o território iraniano, em retaliação a ataques contra petroleiros, desencadeando uma espiral de violência ao longo da semana. No Líbano, Israel libertou vários civis detidos em suas prisões, enquanto suas forças armadas ocupavam a colina estratégica de Ali el-Taher e prosseguiam com seus bombardeios massivos na zona que controla no sul do país. A semana de 31 de agosto a 6 de setembro foi marcada por uma nítida aceleração dos acontecimentos no Oriente Médio, depois de uma semana anterior que parecia mergulhada na estagnação. Na frente iraniana, já na noite de terça-feira, o exército americano realizou ataques direcionados em território iraniano, os primeiros em quase um mês. Esta captura de tela, feita em 6 de setembro de 2026 a partir de imagens de vídeo sem data divulgadas no mesmo dia pelo Comando Central dos EUA, mostra o que o Centcom apresenta como um dos petroleiros iranianos que destruiu em retaliação a tentativas de ataques com mísseis contra navios militares. (Centcom via AFP) No entanto, o ritmo relativamente contido desses ataques dá a impressão de que o governo americano optou por uma escalada controlada, mantendo ao mesmo tempo o bloqueio e as pressões econômicas contra Teerã. Ainda assim, a tensão não parou de crescer ao longo da semana. Explosões foram ouvidas no sábado na ilha altamente estratégica de Kharg, por onde passa a maior parte do petróleo iraniano. O presidente americano Donald Trump, por sua vez, ameaçou atacar o complexo nuclear de Kuh-e Kolang — “montanha da picareta” em persa, ou Pickaxe Mountain —, uma instalação fortemente protegida e enterrada a grande profundidade, não muito longe de Natanz, o principal centro de enriquecimento de urânio do Irã. Mais cedo na semana, ele havia formulado a equação do “petroleiro por petroleiro”, prometendo atingir um navio iraniano cada vez que os Guardiões da Revolução atacassem um petroleiro no Estreito de Ormuz. Foi exatamente isso que o exército americano fez no sábado, incendiando dois navios iranianos. No plano político, Donald Trump endureceu ainda mais o tom em relação a Teerã. Depois de afirmar em uma entrevista que as negociações estavam definitivamente congeladas “porque um acordo com eles não vale o papel em que está escrito”, ele declarou no sábado que o “conflito” com o Irã não era uma “guerra”, mas “algo corriqueiro” para os Estados Unidos. Uma forma de mexer com os nervos dos iranianos ao mesmo tempo em que tranquiliza sua opinião pública às vésperas das eleições de meio de mandato. Um porto, além de instalações de armazenamento e depósitos, foi danificado após um ataque militar americano realizado na província iraniana de Hormozgan, no sul do país, que faz fronteira com o estreito de mesmo nome, em 6 de setembro de 2026. (AFP) Ao mesmo tempo, a mídia americana Axios publicou no sábado uma reportagem sugerindo que os Estados Unidos já estão pensando além deste conflito, iniciado em 28 de fevereiro. O site afirma, citando autoridades americanas e outras fontes informadas, que o governo Trump está elaborando uma estratégia mais ampla para o Oriente Médio do pós-guerra. Ela se basearia na construção de um alinhamento regional destinado a conter o Irã, encerrar as repercussões regionais dos ataques de 7 de outubro de 2023 realizados pelo Hamas em Gaza e ampliar o círculo de normalização entre Israel e os países da região. A ameaça contra Kuh-e Kolang, que marca o ressurgimento da questão nuclear iraniana, ecoa um anúncio da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que lamentou, em 1º de setembro, o fato de o Irã não ter reaberto seus sites aos inspetores após os ataques de maio de 2025. Vale lembrar que, apesar da magnitude da ofensiva israelo-americana contra os sites iranianos, é quase certo que o estoque de urânio enriquecido permaneça intacto e tenha sido colocado em local seguro pelas autoridades iranianas, que continuam apegadas ao que consideram ser seu direito de desenvolver um programa nuclear. Após o anúncio da AIEA, os Estados Unidos, mas também a França, a Grã-Bretanha e a Alemanha, manifestaram a intenção de apresentar uma resolução ao Conselho de Segurança da ONU condenando o descumprimento pelo Irã de seus compromissos em matéria de não proliferação nuclear. Uma unidade visível que contrasta com o clima frio entre Washington e seus aliados europeus desde o início do conflito. Já os iranianos parecem continuar a reagir às turbulências da mesma maneira: atacando vários países vizinhos, como o Kuwait, os Emirados Árabes Unidos e a Jordânia, sem no entanto atacar diretamente Israel. Ataques maciços no sul do Líbano Na frente libanesa, Israel intensifica suas operações de destruição nas aldeias do sul, chegando a usar, em alguns casos, barris de explosivos. O presidente libanês Joseph Aoun pediu a Washington e à comunidade internacional que “façam cessar” os ataques israelenses no território libanês, que deixaram sete mortos no domingo em meio a uma trégua frágil. Os bombardeios atingiram diferentes localidades da região de Nabatiye. Vinte pessoas também ficaram feridas, entre elas crianças, segundo o Ministério da Saúde. Um ataque destruiu ainda o antigo hospital Ghandour, fora de funcionamento há anos. Libertação de detidos e tomada de Ali al-Taher Mas o evento mais importante da semana no sul foi a tomada, pelos israelenses, da colina estratégica de Ali al-Taher, na região de Nabatiye. O local era um importante quartel-general do Hezbollah, formado por um vasto emaranhado de túneis, de onde operavam combatentes do partido xiita, mas também, segundo algumas informações, combatentes iranianos. Na noite de quinta-feira, os israelenses anunciaram ter assumido o controle do complexo. No domingo, o ministro israelense da Defesa, Israel Katz, declarou que ainda restavam túneis a serem dinamitados. Esse “sucesso” militar talvez não tenha sido uma surpresa após semanas de bombardeios, mas a reação do Hezbollah foi, sim, surpreendente. Depois de garantir por muito tempo que se recusaria a ceder essa colina estratégica — assim como os iranianos, que também haviam ameaçado intervir —, o partido xiita acabou minimizando o impacto desse desenvolvimento por meio de seus veículos de mídia e porta-vozes, sem, no entanto, confirmar oficialmente a perda do local, que havia se recusado a preservar entregando-o ao exército libanês. A outra grande surpresa da semana foi a libertação, por Israel, de cinco civis libaneses e sírios detidos em suas prisões. Essa medida ocorreu após uma visita a Tel Aviv do embaixador dos Estados Unidos no Líbano, Michel Issa. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira “ocorre em seguimento aos esforços empreendidos por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os corpos dos líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano” entre 1984 e 1986. Mais uma vez, a reação do Hezbollah chama a atenção. Embora considere a medida positiva, mas insuficiente, o partido voltou a atacar as autoridades libanesas, acusando-as de “submissão ao inimigo” e responsabilizando-as pelo desastre no sul. Chegou até a alertá-las contra “os conflitos internos”. Será que os reveses militares do partido poderiam levá-lo a se voltar ainda mais contra o cenário interno? Por fim, o exército israelense fez no domingo uma declaração importante, anunciando que está considerando reduzir sua zona de ocupação no Sul do Líbano, passando da atual "zona amarela" para uma "zona cinza". Segundo essa interpretação, tal mudança refletiria uma diminuição da ameaça representada pelo Hezbollah. A medida, no entanto, ainda não foi aprovada pela liderança política israelense. Iêmen e Palestina A semana também foi particularmente tensa no Iêmen, onde os confrontos entre os rebeldes houthis e as forças governamentais não pararam de se intensificar, culminando em um sábado especialmente sangrento, com mais de 60 mortos em um único dia, elevando para cerca de 200 o número de vítimas desde quinta-feira. A ofensiva dos houthis busca sobretudo tomar o controle de certas áreas ao redor da passagem de Bab al-Mandab, o que daria a esse aliado do Irã uma vantagem adicional sobre outro ponto estratégico crucial, depois do estreito de Ormuz. Na Palestina, declarações particularmente preocupantes de Israel Katz sobre Gaza marcaram a semana. Ele afirmou, sem apresentar provas, que a maioria dos habitantes da faixa desejava deixá-la, ressaltando que Israel estava "pronto para essa evacuação em massa". Isso deixa entender que o calvário dos habitantes de Gaza está longe de terminar. Por fim, vale destacar que a AIEA anunciou, em 1º de setembro, que infraestruturas descobertas em Deir ez-Zor, na Síria, indicam que o antigo regime de Bashar al-Assad preparava secretamente um programa nuclear avançado, capaz de resultar na fabricação de uma arma atômica com a ajuda de especialistas norte-coreanos.
Homenagem
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Por Michel Hajji Georgiou - Publicado em set 6, 2026 - 13:31
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O jogador argentino, que encerrou sua carreira internacional em 31 de agosto de 2026, não era nada menos que um prestidigitador dos estádios. Sua trajetória, feita de prodígios, quedas e redenção, talvez diga algo sobre nossa necessidade intacta de encantamento em um mundo que, no entanto, pretende ter se livrado dele. Anunciada poucas semanas depois da final da Copa do Mundo de 2026 perdida para a Espanha, a aposentadoria internacional de Lionel Messi não deixou de provocar uma emoção para a qual é difícil encontrar muitos equivalentes na história recente do futebol. Provavelmente seria preciso remontar a Maradona, ou ainda a Cruyff ou Pelé, para reencontrar essa sensação de que, com a retirada de um jogador, desaparece algo que ultrapassa em muito o próprio esporte, como se certa maneira de habitar o futebol, ou até mesmo de acreditar nele, também chegasse ao fim. Longe dos glacis da razão Chega das estatísticas intermináveis e das insuportáveis querelas, tediosas e estéreis, em torno de “quem é o melhor de todos os tempos». O autor destas linhas nunca foi um fanático pela bola, nem por classificações verticais ou por uma hierarquia do mérito em geral e, portanto, aprecia o talento de cada jogador com o mesmo olhar maravilhado de uma criança de 11 anos. De resto, essa obsessão particularmente contemporânea pelos números estraga todo o prazer do espetáculo. E com razão: o procedimento que consiste em somar gols, assistências, Bolas de Ouro, Ligas dos Campeões, Copas América, Copas do Mundo… só pode ser redutor. Em outro registro, ele não deixa de evocar a crítica desenvolvida pelo filósofo germano-americano Eric Voegelin à tentação gnóstica moderna: a de um saber convencido de que pode encerrar a realidade em um sistema e abolir aquilo que lhe resiste. Os recordes são provavelmente um indicador do gênio de Lionel Messi. Mas tantos outros grandes jogadores que fizeram vibrar os estádios e os corações, sem realizar sequer metade dos feitos de Messi, permanecem, ainda assim, eternos na memória. Aquilo que os tornou verdadeiramente singulares encontra-se em outro lugar, longe dos glacis da razão. Algo mais se jogou em torno deles. Algo que pertence a certo sentido profundo da transcendência, que o entendimento jamais poderia apreender plenamente. Esse é o caso de Lionel Messi há mais de vinte anos, desde o dia em que, sob o olhar do “ícone”Diego Maradona, fez sua primeira entrada, em junho de 2006, na arena da Copa do Mundo com as cores da Albiceleste contra Sérvia e Montenegro. Ora, esse elemento indizível que constitui o gênio de Messi, como o de outros, talvez toque em um dos paradoxos mais curiosos da modernidade: a persistência da magia em um mundo que se construiu precisamente contra ela. O mundo desencantado Max Weber falava do desencantamento do mundo para designar esse lento processo pelo qual a modernidade ocidental submeteu progressivamente a existência à racionalização, ao cálculo, à previsibilidade e à explicação causal. O mundo já não deveria ser atravessado por forças obscuras, sinais, intervenções sobrenaturais ou vontades invisíveis; deveria, ao menos em princípio, tornar-se inteligível. Infelizmente, o esporte moderno, e mais amplamente o mundo moderno herdado da globalização, insere-se perfeitamente nessa dinâmica. O futebol de hoje, e não apenas o futebol, é provavelmente um dos objetos mais quantificados que existem. O menor gesto é medido, e tudo é cuidadosamente calculado e modelado. Da matemática à inteligência artificial, o talento bruto depende agora mais da ciência do que do encantamento. É aquilo que há de humano, em sua relação espontânea, até selvagem, com o invisível que nasce do coração, que desaparece diante de nossos olhos em benefício da quadratura do VAR. É, de certo modo, o assassinato do esporte em nome de mais rigor e equidade… ainda que a eutanásia dessa parcela de espontaneidade sublime acabe provocando, ela própria, injustiças flagrantes. Basta, para constatá-lo, voltar a algumas das decisões controversas da Copa do Mundo de 2026. Paradoxo dos paradoxos, o próprio Lionel Messi foi, desde a origem, filho dessa modernidade técnica, da qual certamente deve parte de sua carreira excepcional. Seu corpo, pequeno demais para os padrões esperados, foi corrigido por meio de tratamento hormonal. Identificado muito cedo, seu talento foi assumido por uma instituição que organizou sua formação, alimentação, desenvolvimento físico e integração em uma máquina esportiva já globalizada. Nada, em aparência, poderia estar mais distante do velho relato heroico. À primeira vista, a história se parece mais com distopias do tipo Gattaca do que com mitos e narrativas messiânicas. E, no entanto, esse velho relato de fato retornou, e até com uma insistência quase constrangedora. Desde o início de sua carreira, Lionel Messi foi colocado sob o microscópio. Mas quanto mais se esforçavam para explicá-lo e desmistificá-lo, menos conseguiam dissipar inteiramente a impressão produzida por alguns de seus gestos. O homem simplesmente não consegue ser circunscrito nem reduzido a um acúmulo de dados. Na idade em que a maioria dos grandes jogadores volta para as sombras, ele continua surpreendendo. Estupefazendo, até, ao trazer ao esporte essa parcela de insensatez que escapa à hipersistematização quase robótica do mundo. É provavelmente aí que se deve procurar esse outro lugar que caracteriza Messi. Numa sobrevivência da magia num momento em que até os espaços que permitiam a expressão positiva de uma humanidade feita de carne e sangue se veem progressivamente “disciplinados”por essa atração hipnótica por uma nova gnose puritana em nome da modernidade. O Messias fabricado pela máquina Embora oriundo, de certo modo, da máquina matricial, Lionel Messi constitui, por si só, um questionamento desse modelo de prêt-à-porter. Uma espécie de alter ego do Neo de Matrix, lançado numa simulação governada por parâmetros que pretendem calcular tudo. O destino do argentino adquiriu progressivamente, quase contra sua vontade, a forma de uma narrativa messiânica. O trocadilho com seu nome seria fácil demais se sua própria história não o tivesse constantemente relançado: a da criança frágil, cujo corpo parecia querer negar a realização à qual seu talento a destinava. Depois, a do exílio ainda muito jovem para Barcelona, da adoção por uma cidade estrangeira, da ascensão quase irreal, do reconhecimento mundial e, em seguida, dessa estranha dificuldade de ser reconhecido pelos seus… Durante muito tempo, a Argentina manteve com seu filho pródigo uma relação de hainamoration. Pouco importavam seus resultados, seu talento, seu brilho… ele precisava responder a uma única pergunta, impiedosa: por que não era Maradona? A comparação era certamente inevitável, mas também profundamente injusta. Tudo separava os dois homens em sua maneira de estar no mundo. Maradona carregava a Argentina com tudo o que ela podia ter de passional, contraditório, excessivo e teatral. Falava, provocava, brigava, caía, voltava, misturava ao futebol sua vida privada, suas cóleras, seus compromissos políticos… até sua própria destruição. Seu próprio corpo parecia transformar-se em um dos lugares onde se encenavam as contradições de seu país. Maradona era a própria encarnação daquilo que o mundo esperava do futebol: uma alma rebelde, levando por vezes o jogo até a imoralidade, mas dentro de uma espécie de gigantomaquia futebolística. Maradona era épico. E, sobretudo, havia colocado seu país no firmamento do futebol em 1986. Messi, por sua vez, não oferecia nada disso. Era silencioso, às vezes quase ausente da narrativa que os outros construíam ao seu redor, ausência que durante muito tempo foi interpretada como defeito. Quase apagado, sem personalidade. Era justamente isso que os dois gigantes, Maradona e Pelé, lhe censuravam: falta de liderança, ser liso demais. Uma espécie de bebê de proveta milagroso dos estádios. Também se censurava ao menino de Rosario não cantar suficientemente o hino, não ser argentino o bastante, ter sido “fabricado”por Barcelona e, naturalmente, não vencer com a seleção aquilo que ganhava quase continuamente com seu clube. A profecia inacabada A final da Copa do Mundo de 2014, perdida de maneira dramática para a Alemanha, seguida pelas finais da Copa América de 2015 e 2016, havia transformado progressivamente essa suspeita em acusação. Quando perdeu seu pênalti contra o Chile em 2016 e anunciou depois que deixava a seleção, ele já era, no entanto, um dos maiores jogadores da história do futebol. Mas sua narrativa permanecia estranhamente inacabada. O sentimento de incompletude pouco dizia respeito ao seu currículo. Tratava-se antes daquela necessidade quase arcaica continuamente imposta aos heróis modernos: concluir seu percurso iniciático. Com as cores argentinas, Messi brilhava e depois caía pesadamente. Mas não se levantava. Não cumpria a profecia. E, aos olhos de seu povo, isso reforçava o sentimento de hainamoration: um deus caído continua sendo um deus, apesar de tudo. Mas acrescido daquilo que, aos olhos de seus adoradores, constitui um substrato de humanidade insuportável e, portanto, perfeitamente detestável: suas taras, suas fraquezas. Os argentinos amavam Maradona apesar de sua decadência espetacular e de sua humanidade falível. Mas isso porque ele havia “merecido”essa decadência, porque ela se tornara, de algum modo, aceitável depois do México de 1986. Messi, por sua vez, ainda não tinha o direito de cair, porque ainda não havia chegado ao topo. Não, a profecia não estava cumprida. Começava até a virar caricatura. Messi voltou, portanto. Mas ainda teve de esperar por sua redenção. Foi preciso a Copa América de 2021, no Maracanã, para que essa relação feita de suspeita, expectativa e decepção com seu público e seu povo começasse verdadeiramente a mudar. E foi preciso, sobretudo, a Copa do Mundo de 2022 para que a história adquirisse aquela forma quase perfeita demais que ninguém teria ousado escrever sem parecer ceder a uma facilidade de roteirista. Fato estranho, Maradona havia morrido em 2020. Era como se uma espécie de maldição nacional opressiva tivesse sido levantada. Ao mesmo tempo, o povo argentino precisava de uma figura paterna substituta, e a pressão não fazia senão redobrar. Mas talvez misturada, dessa vez, com um pouco de ternura? O que aconteceu no Catar em 2022 é ainda mais interessante porque o próprio Messi aparece ligeiramente diferente. Protesta mais, responde às provocações, irrita-se, fala com uma violência de que poucos o julgavam capaz e deixa até escapar aquele “¿Qué mirás, bobo?”diante dos neerlandeses, para diversão da Argentina. Buenos Aires finalmente descobre, com atraso, aquilo que sempre esperou dele. Um pouco de Maradona dentro de muito Messi. Mas Messi não se transforma, por isso, em Maradona. E talvez seja precisamente aí que ocorra a verdadeira reconciliação: a Argentina deixa de lhe pedir que seja Maradona. A partir de 2022, Messi já não precisa encarnar outro modelo do gênio nacional. Finalmente pode tornar-se, também para seu país, aquilo que já havia sido em todos os outros lugares: Messi. Simplesmente. O ato final da profecia É verdade que o triunfo de 2022 poderia ter constituído um final perfeito. Mas, como no caso de Maradona, o ato final da profecia heroica é a queda. Ninguém esperava realmente algo excepcional de Messi em 2026. Aos 39 anos, considerava-se amplamente que ele já fazia parte dos “heróis cansados». A queda do Capitólio havia ocorrido com o episódio amargo de sua saída do FC Barcelona e sua desventura no PSG. Já não atuava senão na liga americana, com as cores de Miami… na periferia do mundo do futebol, nas terras distantes do soccer. E a nova geração já estava ali, pronta para mandar os ancestrais a Bicêtre. No entanto, aquela Copa do Mundo de 2026, que parecia destinada a não passar de um epílogo, transformou-se num último golpe de brilho sensacional. A Argentina chegou novamente à final, com Messi, aos 39 anos, ainda como seu “líder histórico”e seu recurso nos momentos decisivos, realizando algo que não deixava de lembrar o que Roberto Baggio fizera pela Itália em 1994, aos… 27 anos: um deus ex machina permanente. Baggio fracassou às portas do triunfo contra o Brasil depois de praticamente carregar a Itália até Pasadena. Seu pênalti enviado por cima do travessão deixaria uma das imagens mais cruéis da história das Copas do Mundo: a de um homem imóvel, de cabeça baixa, mãos na cintura, enquanto o Brasil celebrava a vitória. Aquele que havia “morrido de pé». O duende italiano jamais conheceu a apoteose. Mas essa morte simbólica, longe de apagar seu Mundial, acabou também entrando para sua lenda. A história foi mais clemente com Messi, apesar de uma campanha de ódio contra ele, misturada a acusações de trapaça e favoritismo, num pano de fundo de decisões arbitrais controversas e atos antidesportivos de sua equipe, como havia sido outrora com Maradona. Ainda mais, até. Uma final em sua sexta Copa do Mundo, às portas da aposentadoria, com uma atuação individual extraordinária? É precisamente aí que reside aquilo que há de mágico no fenômeno Messi e que desafia a razão e sua avalanche de estatísticas. O gênio não pode ser encerrado numa soma de parâmetros e variáveis. Sua condição física, mesmo ótima, não pode explicar por si só aquilo de que o mundo inteiro foi testemunha. E pouco importa que sua história nos lembre que o herói, por mais mítico que seja, não pode abolir a sinistra influência de Saturno. O reencantamento do mundo Pois, para além da profecia cumprida, da ascensão à queda, com sua parcela de alegrias e desventuras, o argentino ofereceu ao mundo uma última volta que pertence à arte, quando não a uma forma de poesia homérica. Com a retirada de Lionel Messi da cena internacional, desaparece um pouco da magia do mundo… até que outro herói providencial volte a encantar os estádios. Durante mais de vinte anos, Messi terá encarnado a coexistência de dois mundos que julgávamos incompatíveis: o da racionalização extrema do esporte moderno e aquele, muito mais antigo, do herói, do sinal, da espera e do encantamento. Quando Messi parte, algo dessa contradição aparece de repente. Outros prodígios já surgiram, mas talvez descubramos, justamente no momento em que um de seus últimos grandes representantes deixa a cena, o quanto continuamos precisando de transcendência. O mundo moderno provavelmente não suprimiu o encantamento. Apenas o deslocou. Durante noventa minutos, esse homem chamado Lionel Messi, que o encarnou nos gramados, parte depois de ter realizado tudo. E até mais.
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Ficamos mais burros?

Ou estamos vivendo uma transformação na estrutura do conhecimento?
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Por Mona Fayad - Publicado em set 5, 2026 - 20:01
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A pergunta “O mundo ficou mais burro?”reaparece com frequência nos debates contemporâneos sobre mídia digital, mecanismos de busca e redes sociais. À primeira vista, parece uma pergunta simples, mas esconde uma questão muito mais profunda, ligada à própria natureza do conhecimento: como ele é produzido, como é transmitido e como é consumido. Talvez a pergunta “Ficamos mais burros?”não seja a mais precisa. Talvez devêssemos perguntar: o conhecimento ainda é transmitido de uma maneira que permita compreendê-lo e torná-lo produtivo? A maioria dos leitores ainda recorre aos textos originais? Ou se limita aos seus resumos e ao que é dito a respeito deles por meio daquilo que circula entre os leitores? Uma das chaves para compreender esse fenômeno encontra-se nos trabalhos do psicólogo britânico Frederic Bartlett, que realizou, na década de 1930, uma série de experiências sobre aquilo que chamou de “reprodução serial”. Nessas experiências, uma pessoa ouvia uma história e depois precisava contá-la a outra, que por sua vez a contava a uma terceira, e assim por diante. Os resultados foram impressionantes: a cada nova transmissão, a história não era reproduzida exatamente como havia sido contada, mas reformulada. Alguns detalhes desapareciam, outros eram ampliados e outros ainda eram substituídos por elementos mais compatíveis com o contexto, as experiências e a cultura do receptor. Depois de passar por um número suficiente de intermediários, a história original já havia se transformado em algo inteiramente diferente. Esse modelo simples revela uma verdade fundamental: a memória não é um recipiente neutro, mas um mecanismo de reconstrução. E, quando o conhecimento passa por múltiplos intermediários, ele não é “preservado”, mas “reproduzido”. É aqui que começam a aparecer as semelhanças com o nosso mundo contemporâneo e o receio de que estejamos ficando mais burros. Na era da mídia digital, o conhecimento já não circula por meio da transmissão oral, mas através de cadeias de mediação: um artigo é resumido, depois citado, em seguida republicado sob a forma de uma postagem curta e, por fim, reduzido mais uma vez a uma frase ou a um título. Nesse contexto, podemos retomar uma imagem metafórica usada em um texto jornalístico: uma biblioteca cujos livros são substituídos por resumos, e depois por resumos dos resumos, até que o leitor se veja diante de sucessivas camadas de redução. Algo semelhante ao que poderíamos chamar de “cadeia do guaxinim”, que não lê o original, mas remexe em seus restos. Vale esclarecer que a escolha do “guaxinim”não é aleatória. Essa metáfora condensa simbolicamente uma condição cognitiva que vem se consolidando. Esse animal, que vive nas margens das cidades e remexe em latas de lixo, não produz seu alimento, mas se nutre dos restos daquilo que outros produziram. Apesar de sua inteligência prática e de sua capacidade de desmontar, recolher e aproveitar objetos, ele não compreende verdadeiramente aquilo que tem diante de si, mas lida com as coisas como materiais disponíveis para uso imediato. É assim que o conhecimento passa a se apresentar na era da redução serial: textos são resumidos e depois novamente resumidos, até que deles reste apenas um punhado de fragmentos de sentido, reorganizados e postos novamente em circulação sem qualquer vínculo verdadeiro com sua fonte. Nesse ponto, não apenas nos afastamos do original, mas entramos em uma nova etapa da produção da informação ou do conhecimento, na qual o agente cognitivo deixa de ser um leitor ou pensador para se tornar um coletor de restos de significado, que os redistribui em formatos destinados ao consumo rápido. A “cultura do guaxinim”, portanto, não é apenas uma descrição da superficialidade. É também uma caracterização precisa da degradação da própria cadeia do conhecimento: da criação ao resumo, da compreensão ao processamento formal, das ideias a algo que já não passa de um vestígio apagado delas. Mas esse fenômeno não pode ser compreendido separadamente da estrutura tecnológica que o governa. É aqui que entra Marshall McLuhan, que sintetizou seu pensamento na célebre frase: “O meio é a mensagem”. O problema não está apenas no conteúdo, mas também na forma através da qual esse conteúdo é transmitido. A mídia digital contemporânea não se limita a transportar informações, mas as remodela segundo a lógica da velocidade, da condensação e da fragmentação. O texto longo torna-se inadequado para o consumo, enquanto uma ideia só parece aceitável se puder ser reduzida a poucas linhas facilmente compartilháveis. Essa transformação produz um paradoxo marcante: vivemos numa época em que o acesso ao conhecimento deixou de ser difícil e se tornou excessivamente fácil. E, com essa facilidade excessiva, surge aquilo que poderíamos chamar de “ilusão cognitiva”: basta ler um pequeno trecho ou um resumo rápido para que a pessoa tenha a sensação de ter assimilado uma ideia. Mas essa sensação de domínio não é necessariamente acompanhada por uma compreensão profunda nem pela capacidade de reconstruir ou criticar o conhecimento. É aqui que aparecem os que poderíamos chamar de “semiletrados”: indivíduos que possuem os sinais do conhecimento, mas não sua estrutura; seu vocabulário, mas não sua lógica interna. O problema se torna ainda mais complexo quando o observamos sob o ângulo da atenção. Em vez de permanecer em um estado prolongado de concentração, como acontece na leitura tradicional ou na reflexão demorada, a mente passou a viver sob um bombardeio contínuo de informações: notificações, vídeos, manchetes e ondas sucessivas de conteúdo. Essa situação não apenas dispersa a atenção, mas a reconfigura segundo uma lógica de saltos constantes entre pequenas unidades de significado, em vez de permitir a construção gradual e cumulativa de uma ideia. Lembro aqui de uma anedota que costumávamos contar e que circulava muito na época das manifestações populares. Ela ilustra bem a ideia da redução e da transformação do conteúdo. Depois da ocupação da Palestina, muitas manifestações populares tomaram as ruas gritando “Abaixo a Declaração Balfour!”. A brincadeira dizia que, no fim da manifestação, o slogan havia se transformado, em árabe, em “Que alguém caia lá de cima!”, uma frase inteiramente diferente que preservava algo do ritmo e da sonoridade da original. Talvez essa imagem nos ajude a compreender melhor o que acontece na linguagem cotidiana quando o conhecimento se transforma em mensagens curtas repetidas coletivamente. A manifestação começa com uma fórmula política precisa. Mas, com a repetição, a imersão coletiva e o ritmo sonoro, ela vai se transformando pouco a pouco em outra fórmula, completamente diferente. Esta pode conservar o ritmo e a carga emocional da primeira, mas perde seu significado e seu sentido original. O que permanece não é o sentido, mas a energia emocional da frase. Aqui se manifesta, de outra maneira, aquilo que Bartlett havia observado: não importa apenas o que foi dito, mas como aquilo foi repetido e como voltou a ser compreendido dentro de um contexto social em transformação. Se reunirmos todos esses fios, podemos dizer que aquilo que vivemos hoje não é propriamente um “colapso da inteligência”, mas uma transformação das condições em que ela opera. A mente humana não mudou radicalmente, mas o ambiente em que funciona se transformou profundamente: passamos de um ambiente que permitia a acumulação lenta para outro que impõe a reprodução rápida e fragmentada do conhecimento. Essa mudança cria uma tensão permanente entre duas formas de pensamento: um pensamento reflexivo, que precisa de tempo, e um pensamento rápido, que exige resposta imediata. Sob essa perspectiva, a pergunta “Ficamos mais burros?”torna-se parcialmente enganosa. Talvez seja mais preciso dizer que estamos cada vez mais expostos a condições que tornam o pensamento profundo menos estável, ou menos possível, e o conhecimento mais vulnerável à fragmentação e à reciclagem. Quanto à burrice, se podemos usar o termo, talvez ela não seja uma propriedade da mente, mas um efeito colateral e uma característica da estrutura cultural que se formou. Trata-se de uma tecnologia que está remodelando nossa relação com o mundo. Assim, em vez de enxergar esse fenômeno como um declínio das capacidades humanas, podemos compreendê-lo como uma transformação do “ambiente do conhecimento”: um ambiente em que se tornou fácil saber alguma coisa, mas mais difícil compreendê-la de fato e em profundidade.
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Os exilados em Israel: entre a ferida identitária e a ausência de justiça de transição

O caso dos libaneses exilados em Israel está entre os mais complexos e sensíveis de toda a problemática libanesa, justamente porque se encontra na interseção de três dimensões profundamente entrelaçadas: as consequências das ocupações síria e israelense, os legados da guerra civil e a profunda fratura que atravessa as próprias concepções de Estado, soberania e justiça. O Estado esteve ausente do sul do Líbano durante décadas, deixando as populações à mercê das tensões entre a ocupação e as armas das milícias. Quando retornou após a libertação, o fez com uma lógica estritamente securitária e judicial, distante de qualquer verdadeiro espírito de reconciliação nacional. É por isso que este caso permaneceu como uma ferida aberta: o Líbano jamais viveu uma verdadeira experiência de justiça de transição à altura do pós-guerra e das múltiplas ocupações que devastaram o país. No plano humano, seria impensável negar a tragédia vivida por milhares de pessoas e suas famílias, tragédia que se manifesta em: · O desenraizamento forçado de seu meio natural. · A dolorosa separação de seus familiares e de suas aldeias. · Uma crise de identidade e pertencimento que os condenou a viver suspensos entre dois países. Quanto às crianças nascidas ou criadas lá, elas enfrentam uma crise ainda mais profunda: nunca se integraram plenamente à sociedade que as acolheu, enquanto alguns, em seu próprio país, o Líbano, as observam com desconfiança e hostilidade. É nesse ponto que surge a questão moral fundamental: é legítimo estender a responsabilidade jurídica e política às esposas, aos filhos e aos netos? Famílias inteiras pagam hoje o preço de escolhas impostas por circunstâncias esmagadoras a alguns de seus membros, enquanto a grande maioria jamais pegou em armas nem participou de qualquer atividade de segurança. Para esclarecer melhor o quadro, é importante estabelecer algumas verdades incontestáveis. A autenticidade da identidade: essas pessoas são libanesas de origem, não estrangeiras nem recém-chegadas a esta terra. A escolha pela sobrevivência: elas não partiram para Israel por vontade própria, mas sob a imposição de um exílio forçado. Diante de duas opções igualmente amargas, enfrentar ameaças de eliminação física feitas por seus adversários da época, com o Sayyed Hassan Nasrallah declarando: “Nós vamos degolá-los em suas camas”, ou viver uma dura errância longe da pátria e dos entes queridos, escolheram permanecer vivas. A ausência do Estado: elas não conspiraram contra o Estado; foi o Estado que as abandonou, entregando-as às ocupações e às tutelas estrangeiras. O histórico pacífico: elas não estiveram envolvidas em assassinatos de primeiros-ministros, na eliminação de deputados soberanistas, nem explodiram mesquitas ou infraestruturas públicas. Entre justiça e vingança A diferença essencial reside na distinção entre uma justiça baseada na responsabilidade individual e uma vingança coletiva acompanhada de ostracismo permanente. A justiça pressupõe que as responsabilidades sejam estabelecidas com precisão, caso por caso, que os julgamentos ocorram em condições justas e que seja rejeitado o princípio segundo o qual a culpa seria transmitida de geração em geração. Conclusão política e humanitária Este caso não será resolvido com slogans acusatórios; ele exige a abordagem de um “Estado verdadeiro”, baseada no reconhecimento das especificidades do período de ocupação e das circunstâncias opressivas que o acompanharam, na distinção clara entre aqueles que cometeram crimes comprovados e aqueles que foram vítimas dos acontecimentos, no respeito a um Judiciário libanês independente e à primazia do Estado de Direito e, por fim, no tratamento da dimensão humana das famílias e das crianças, longe de qualquer lógica de represália e ódio. O caso dos expulsos para Israel não pode, e não deve, ser confundido com qualquer outro caso, porque o verdadeiro adversário nesta questão é o próprio Estado libanês, e não qualquer outra parte. É por isso que a responsabilidade nacional e moral recai antes de tudo sobre o Presidente da República, em sua condição de chefe de Estado e principal garantidor da segurança e da integridade do país, bem como do destino de todos os seus cidadãos sem exceção. Aquele que um dia escolheu enfrentar Israel em nome da dignidade e da soberania não pode se mostrar hoje incapaz de encontrar um caminho que permita trazer de volta seus filhos dos exílios forçados e reintegrá-los à sua pátria sob a proteção da lei, da justiça e da reconciliação nacional. Em última instância, o desafio fundamental que se coloca diante do Líbano continua sendo o mesmo: realizar a transição da memória da guerra e da divisão para o espaço de um Estado capaz de conciliar justiça e reconciliação, sem jamais sacrificar nem a soberania nem a dignidade humana de seus cidadãos.

Negociações de Washington: a política dos pequenos passos

Obviamente, não se deveria esperar por resultados ou decisões espetaculares ao término da terceira rodada de negociações diretas líbano-israelenses que ocorreu quinta e sexta-feira no Departamento de Estado, em Washington. No entanto, é preciso reconhecer que a simples realização dessas discussões bilaterais face a face em Washington, sob a supervisão da Administração dos EUA, representa um avanço importante em si. A esse parâmetro simbólico politicamente relevante somaram-se certos indícios que surgiram na noite de sexta-feira, após o término das reuniões maratona realizadas pelas delegações libanesa e israelense. O Departamento de Estado ressaltou que as negociações ocorreram em uma 'atmosfera positiva que até superou nossas expectativas'. Corroborando essa avaliação, a embaixada do Líbano na capital federal indicou que acolhia 'favoravelmente o resultado das discussões' com Israel, esclarecendo que essas negociações fazem parte de um 'processo político' que deveria resultar em um desfecho favorável ao conflito atual no sentido da restauração da soberania do Estado libanês 'por suas próprias forças'. Quanto ao embaixador de Israel em Washington, declarou que as chances de sucesso das negociações com o Líbano são 'grandes'. Concretamente, a reunião maratona de sexta-feira resultou em medidas práticas: a extensão da cessação das hostilidades por um período de 45 dias; a convocação de oficiais e especialistas militares dos dois países para uma reunião em 29 de maio no Pentágono a fim de lançar 'um processo de segurança entre o Líbano e Israel'; a convocação das duas delegações para uma nova rodada de negociações, marcada para 2 e 3 de junho próximos, no Departamento de Estado. Na falta, portanto, de decisões espetaculares e rápidas, o mediador americano opta pela abordagem realista da política dos pequenos passos (cara a Kissinger) que visa estabelecer progressivamente um clima de confiança e cooperação produtiva entre os dois países. Mudança na denominação do feriado de 25 de maio Convém notar, à margem do espírito do processo em andamento em Washington, que o primeiro-ministro Nawaf Salam adotou, na sexta-feira, uma medida simbólica, certamente, mas cujo significado e alcance políticos estão longe de ser insignificantes. Publicou assim uma nota administrativa confirmando o feriado de 25 de maio que havia sido celebrado nos anos anteriores, desde a retirada israelense em 2000, sob o signo da celebração do 'Dia da Resistência e da Libertação'. Para este ano, a nota do primeiro-ministro sobre esse feriado de 25 de maio não faz qualquer menção à 'resistência' nem à 'libertação', mas enfatiza, ao contrário, que o feriado será observado 'em sinal de solidariedade com as famílias dos mártires, os feridos, os prisioneiros, os deslocados e os habitantes do Sul e das aldeias fronteiriças'. Essa menção particular e muito explícita confirma assim que o governo não reconhece mais a existência de uma 'resistência', que o Hezbollah procura encarnar contra vento e maré, ignorando a posição da legalidade e da esmagadora maioria dos libaneses que rejeitam as aventuras guerreiras suicidas da milícia pró-iraniana. Não faz muito tempo, na noite de sexta-feira, o primeiro-ministro declarou que é 'hora de pôr um fim definitivo às aventuras insensatas (alusão ao Hezbollah) levadas a cabo a serviço de projetos estrangeiros', criticando nesse sentido as acusações de 'traição' lançadas pela milícia pró-iraniana. Lembremos nesse contexto que, no dia seguinte ao reinício das hostilidades pelo Hezbollah, em 2 de março passado, para 'vingar a morte do Líder Supremo iraniano Ali Khamenei', em Teerã, o Conselho de Ministros havia aprovado uma resolução estipulando que o aparato de segurança e militar do Hezbollah é daqui em diante considerado como 'ilegal'. Após essa decisão, o ministro da Informação havia solicitado aos meios de comunicação oficiais que deixassem de fazer menção a uma 'resistência' em seus boletins informativos e programas políticos. Morte do chefe militar do Hamas Observemos, em um plano totalmente diferente, mas sempre nesse contexto militar-securitário – desta vez ao nível regional – que o exército israelense eliminou na sexta-feira, durante um ataque direcionado em Gaza, o chefe do aparato militar do Hamas, Ezzeddine Haddad, acusado de ser um dos arquitetos do ataque mortal de 7 de outubro de 2023 contra civis israelenses nas proximidades de Gaza. A cúpula de Pequim O segundo dossier de caráter altamente estratégico que marcou a atualidade dessa sexta-feira, 15 de maio, é o encerramento da cúpula sino-americana que ocorreu em Pequim e que havia começado na sexta-feira. Indubitavelmente, será necessário aguardar alguns dias para que informações críveis e precisas sejam divulgadas a respeito do balanço real das discussões que o presidente Donald Trump e a delegação que o acompanhava tiveram durante esses dois dias com os líderes chineses. Já agora, algumas indicações significativas divulgadas permitem traçar um esboço dos possíveis desdobramentos dessa cúpula histórica sobre o conflito iraniano. O presidente Trump mencionou especificamente uma convergência total dos pontos de vista americano e chinês em relação ao Irã. Concretamente, o presidente Xi Jinping adere à posição da Administração Trump sobre o dossier nuclear, no sentido de que, assim como o chefe da Casa Branca, afirma que em nenhuma circunstância o regime iraniano deveria poder dotar-se de armamento nuclear. Aliás, essa posição chinesa não é nova, como ilustra a atitude que Pequim havia adotado durante a votação das cinco resoluções do Conselho de Segurança da ONU sobre o dossier do enriquecimento de urânio pelo regime iraniano. A primeira dessas resoluções, datada de julho de 2006, 'exigia' que Teerã pusesse fim ao seu enriquecimento de urânio. O regime dos aiatolás havia, evidentemente, ignorado essa resolução. Em dezembro do mesmo ano, o Conselho de Segurança impôs sanções ao Irã para levá-lo a cumprir as injunções das Nações Unidas. Em vão… Três outras resoluções foram votadas pelo Conselho de Segurança em 2007, 2008 e 2010 para impor a Teerã sanções cada vez mais severas. A China, assim como Moscou, não havia imposto um veto, o que refletia uma convergência de visão com os países ocidentais sobre a necessidade de constranger o regime dos aiatolás a interromper o processo de enriquecimento de urânio. Durante suas conversas com o presidente Trump, Xi reitera, portanto, a posição de princípio de seu país nesse sentido. Outro ponto de convergência de Xi com o chefe da Casa Branca (assim como com os países europeus, de maneira geral): a rejeição da soberania do Irã sobre o Estreito de Ormuz e, portanto, a recusa da imposição de um pedágio pelos Guardas da Revolução. Paralelamente, o líder chinês teria se comprometido com seu anfitrião a não fornecer materiais militares ao regime iraniano. Decorre dessas indicações que a cúpula de Pequim poderia ter como consequência um enfraquecimento da posição do Irã diante das condições americanas visando a chegar a uma solução política para o conflito atual. Os próximos dias deverão, em qualquer caso, esclarecer melhor a situação nesse aspecto. A grande questão a esse respeito que será retomada a curto prazo, à luz do balanço da cúpula de Pequim, é saber se o presidente Trump decidirá ou não lançar novas operações militares bem direcionadas em território iraniano com o objetivo, em particular, de capturar urânio enriquecido e infligir novos golpes severos às infraestruturas econômicas do Irã, a fim de levar o regime dos aiatolás a renunciar a suas aventuras irracionais e seu comportamento beligerante e arrogante, desafiando toda razão de maneira totalmente desonrosa.

Pequim: as consequências da cúpula dos dois «imperadores»

O mundo tinha, na quinta-feira 14 de maio, os olhos fixos em Pequim, onde o encontro entre o presidente dos Estados Unidos, que ainda quer parecer grande, e o presidente Xi Jinping, que aspira a sê-lo ainda mais, poderia ter consequências importantes para muitos países, tanto a curto como a longo prazo. Para alguns, sem dúvida numerosos, essas consequências poderiam ser dramáticas. O que acontecerá com o estado do mundo depois? Ninguém poderia ainda afirmar. O presidente Trump falou sem dúvida, antes de tudo, de comércio. O presidente Xi também. O primeiro evocará rapidamente suas vitórias, palavra que ele adora, em seu site, como de costume. O presidente chinês exibirá seu sorriso enigmático e imóvel que deixará transparecer sua satisfação por ter obtido o que queria. Pode-se presumir que os acordos comerciais foram os primeiros a serem discutidos e obtidos. Serão equilibrados? Não é certo… O presidente dos Estados Unidos tem uma necessidade urgente de satisfazer sua opinião pública e o povo americano, que agora está cansado de ver os preços do petróleo dispararem, a inflação e o desemprego aumentarem, e que está fatigado de ver também crescer a escassez de certas matérias necessárias, incluindo fertilizantes bloqueados no Golfo Árabo-Pérsico (GAP). Sem contar outras matérias indispensáveis para fazer funcionar a máquina econômica americana, que não está realmente atingindo o objetivo reivindicado durante a campanha presidencial e repetido à vontade sob o slogan MAGA ( Make America Great Again ). Saberemos mais sobre isso quando as vitórias de um forem anunciadas sem que seu interlocutor - não seu parceiro - mencione seus ganhos. Todas essas discussões e negociações têm um gosto geopolítico ligado à situação interna americana, à necessidade da China de recuperar o nível de fornecimento de petróleo e das matérias necessárias para seu próprio desenvolvimento e para um crescimento cada vez mais urgente. Os dois assuntos prioritários que formam esse pano de fundo geopolítico são certamente o Irã e o Estreito de Ormuz, intimamente ligados, bem como Taiwan. O segundo ponto será importante a longo prazo. Em um primeiro momento, as discussões provavelmente focaram no fim do apoio americano à defesa de Taiwan contra uma redução das demonstrações e ameaças contra a ilha por parte da China. Portanto, a manutenção do status quo no imediato. Nenhum dos dois quer ir para um confronto. Xi tem tempo... até 2049. Até lá, outras pressões, outras negociações ocorrerão e a situação do Ocidente será talvez, na visão de Xi, bem diferente. O Ocidente pode estar preocupado, até lá, com outros assuntos que não a defesa de Taiwan, distante dos EUA, mesmo que a liberdade de navegação no estreito chamado de Formosa (150 km de largura) sempre será uma pedra no caminho. O constrangimento de Trump Mas tudo não é tão simples para o presidente dos Estados Unidos. Ele não deve dar a impressão de abandonar Taiwan ao seu triste destino sem comprometer sua posição, já abalada, de protetor dos países da península Arábica e sem manchar sua imagem de força e poder diante dos Guardiões da Revolução Islâmica. Como destacava um artigo anterior do Levant Time, esses países poderiam rapidamente estimar que a defesa americana representa um perigo, o que poderia levar um ou mais deles a desejar a saída dos americanos das bases que ocupam naquela zona. Talvez seja por isso que Israel decidiu fornecer aos Emirados Árabes Unidos um domo de ferro. Teria Trump imposto essa medida? Em benefício de quem resultaria esse vazio? E se a China, forte de suas relações com o Irã, lhes assegurasse, por sua mera presença, essa segurança procurada para se voltarem para suas atividades nos domínios do turismo, de eventos mundiais, de alta tecnologia, do luxo e das finanças, como outrora? A China seria a grande vencedora para elaborar e desenvolver suas rotas da seda. O presidente Trump, que ao chegar à Casa Branca para um segundo mandato pensava ter que se interessar apenas pela situação de segurança interna - luta contra a imigração e o narcotráfico - e pela China externamente, seu único concorrente aos seus olhos, percebe que ter sido puxado pela manga por Benjamin Netanyahu é uma armadilha em que caiu bem ingenuamente. O Irã e o Estreito de Ormuz A chave é, portanto, dedicar-se a tratar o primeiro assunto, e tratá-lo bem para não voltar a ele e para não ficar atolado. Há neste assunto comum, Irã e Estreito de Ormuz, dois aspectos sobre os quais os dois presidentes têm interesse comum: o nuclear e a liberdade de navegação marítima. A China se opõe à proliferação nuclear. Sempre deixou isso claro. Quanto à livre circulação no Estreito de Ormuz, ela tem o maior interesse em vê-la restaurada o mais rapidamente possível. O que não a impedirá de querer limitar, ou até proibir, a livre circulação no Estreito de Taiwan. A geopolítica é às vezes maliciosa! É cedo demais para ir além em especulações. Vamos esperar pelas declarações de vitória do Sr. Trump que certamente não deixarão de surgir e o que dirá ou não dirá Xi. No que diz respeito à navegação marítima e a todas as consequências das decisões que serão tomadas ou adotadas pelos Ocidentais sobre o Estreito de Ormuz, parece útil lembrar que a organização dessa circulação não se limita a acordos com conotação comercial ou geopolítica unicamente. Esta questão se refere à aplicação de tratados e regulamentos internacionais. O Irã assinou em 10 de dezembro de 1982, em Montego Bay, a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, chamada Convenção de Montego Bay (UNCLOS). Mas nunca a ratificou. O Irã é, portanto, signatário mas não é um Estado parte da Convenção, o que implica que não está vinculado por todas as obrigações convencionais da UNCLOS, como estão os Estados que ratificaram o tratado. Esta situação é comparável à dos Estados Unidos: eles também assinaram certos textos relacionados à UNCLOS, mas nunca ratificaram a Convenção em si. O assunto é particularmente importante para o Estreito de Ormuz. O Irã sustenta há muito tempo que não está completamente vinculado por certas regras de "passagem de trânsito" previstas pela UNCLOS em estreitos internacionais, precisamente porque não ratificou a Convenção. É por isso que os Guardiões da Revolução Islâmica se arrogam o direito de cobrar impostos pela passagem (direito de pedágio). No entanto, muitos Estados consideram que várias disposições essenciais da UNCLOS — em particular a liberdade de navegação — constituem hoje "direito internacional consuetudinário", portanto são aplicáveis mesmo aos Estados não membros. Será vital para o mundo inteiro observar como este assunto será tratado e resolvido. Muitas passagens ou estreitos poderiam ser afetados por esta questão e a navegação cobrada por Estados ribeirinhos. Antes de encerrar - provisoriamente - este assunto, é importante não dar crédito a certos comentaristas que intervêm em canais de televisão ou rádio para tratar do assunto dos estreitos e que abordam sem distinção os casos de canais como Suez ou Panamá. Os canais não são estreitos. Os Dardanelos constituem outro caso particular, assim como o Bósforo, cuja passagem é regulada pela Convenção de Montreux de 1936, escrupulosamente aplicada e respeitada, em particular no que diz respeito à presença de forças marítimas que não pertencem aos Estados ribeirinhos do Mar Negro.

Negociações de Washington: um avanço apesar das dificuldades

O dia 14 de maio de 2026 marcou o início da terceira rodada de negociações diretas entre as delegações israelense e libanesa em Washington, na sede do Departamento de Estado. Ao contrário do previsto, não foi o ex-ministro israelense Ron Dermer, próximo ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, quem presidiu a delegação israelense nesta sessão, mas o embaixador de Israel em Washington, Yechiel Leiter, como nas reuniões anteriores. Por sua vez, a delegação libanesa foi presidida desta vez pelo ex-embaixador em Washington Simon Karam, um negociador experiente que já havia sido designado pelo presidente da República Joseph Aoun para integrar o comitê de supervisão do cessar-fogo no Sul do Líbano (antes do presente conflito). De acordo com informações do correspondente da MTV presente no local, a atmosfera no início dessas negociações, que devem durar até sexta-feira, não é de otimismo. Com efeito, a parte israelense continua insistindo no desarmamento do Hezbollah antes de qualquer outro avanço, ameaçando estender a guerra em caso de fracasso nas negociações. A delegação libanesa vê-se obrigada, ainda segundo o correspondente, a manter contato contínuo com o Líbano, o que reflete divergências internas sobre a posição a adotar. No entanto, não se pode negar o progresso que representa a realização dessas reuniões em si. Em Beirute, acompanhava-se, evidentemente, com muito atenção essas negociações. Por volta das 17h (hora de Beirute), quando as conversações mal tinham começado, o presidente Aoun recebia, no palácio de Baabda, o primeiro-ministro Nawaf Salam, para discutir as negociações em curso. Decidiram «manter contato contínuo» para os próximos passos, segundo o comunicado oficial. Joe Raggi esclarece a situação Som oficial diferente é o do ministro libanês das Relações Exteriores, Joe Raggi, que esclarece a situação em meio à confusão geral, precisando que para Beirute não se trata de chegar a um acordo de paz nesta etapa, mas de pôr fim à guerra. Do lado do Hezbollah, não há mudança nas posições. As declarações hostis às negociações diretas prosseguiram, como nos dias anteriores. Vale ressaltar, neste contexto, essa brincadeira do deputado Hussein Hajj Hassan: «A Resistência está em perfeita forma, e ninguém conseguirá tornar realidade os desejos americanos e israelenses.» Mas o que deve ser retido especialmente deste dia são as declarações do presidente do Parlamento Nabih Berri, que também é líder do movimento Amal (aliado xiita do Hezbollah). Em entrevista a um jornal local, estimou que «tudo desabará» se não houver um verdadeiro cessar-fogo. Ele até estabeleceu as seguintes condições: retirada total dos territórios ocupados; reconstrução; implantação do exército libanês e retorno dos habitantes do Sul para suas casas. Uma forma de voltar ao centro das atenções quando, poucos dias atrás, um responsável do Hezbollah, Mahmoud Comati, acusava o presidente Aoun de não levar em consideração o presidente do Parlamento em sua decisão de iniciar negociações… A isso respondeu o líder das Forças Libanesas Samir Geagea em entrevista à MTV: Berri pode dar sua opinião sobre os resultados das negociações, mas não pode gerenciá-las; o dossiê está nas mãos do presidente da República. Enquanto isso, o Sul continua em chamas. Na quinta-feira, os avisos de evacuação israelenses chegaram até aldeias no Vale do Bekaa, como Sohmor, demonstrando mais uma vez que a expansão dos combates está em andamento. Os ataques aéreos, bombardeios de drones e assassinatos direcionados continuam num ritmo acelerado. Assim como os ataques do Hezbollah que também prosseguem. A visita de Trump à China O outro acontecimento do dia é mundial e poderia ter consequências em múltiplas frentes. O presidente americano Donald Trump é recebido com grande pompa na China por seu homólogo Xi Jinping. Com sua exuberância habitual, Trump chamou Xi de «amigo» e prometeu um «futuro fabuloso» para as relações entre os dois gigantes. Xi julgou a visita «histórica». Mas além dessas declarações espetaculares e da recepção impressionante com muitas bandeiras chinesas e americanas, discussões difíceis marcam esses dois dias de visita oficial. Os americanos chegaram bem preparados, com uma delegação impressionante acompanhando o presidente e reunindo, além dos principais responsáveis da Administração Trump, cerca de quinze dos maiores empresários dos EUA. Os tópicos polêmicos e os dossiês envolvendo questões internacionais não são raros: Taiwan (sobre este ponto, a declaração de Xi Jinping foi particularmente firme); a guerra comercial; a guerra na Ucrânia… Mas o tema que mais interessa ao Oriente Médio é inegavelmente a guerra no Irã, que foi amplamente discutida entre as duas delegações, como sugerem as declarações que se seguiram. À noite (horário do Levante), o presidente Trump declarou à Fox News que «o presidente chinês ofereceu sua ajuda a respeito do Estreito de Ormuz» e «se comprometeu a não enviar equipamentos militares ao Irã». Até agora, estava claro que Teerã recebia armas desse aliado a quem vendia petróleo a preço preferencial. Nas entrelinhas dessas declarações, qual poderia ser o «acordo» que teria sido fechado nos bastidores? Não há dúvida de que essa cúpula deve ter repercussões importantes sobre o conflito no Oriente Médio, o que os próximos dias devem esclarecer. O site americano Axios publicou informações segundo as quais as opções do presidente Trump, ao retornar da China, seriam retomar o «projeto de liberdade» que consistia em acompanhar navios que desejam passar pelo estreito sob escolta da marinha americana. Outra opção que estaria sendo considerada: novos ataques às infraestruturas iranianas. Nesse contexto, uma informação que poderia dar uma pista sobre as mudanças vindouras: uma perspectiva de abastecimento da China com petróleo pelos Estados Unidos para reduzir a dependência do Estreito de Ormuz e, consequentemente, a dependência do Irã. O outro desenvolvimento notável deste 14 de maio é a reunião dos ministros das Relações Exteriores dos países do BRICS em Nova Délhi, na Índia, à qual compareceram, entre outros, os ministros iraniano, Abbas Araghchi, e emiradense, xeque Abdallah ben Zayed Al Nahyane. Durante essa reunião, Araghchi atacou violentamente seu colega emiradense (como ele mesmo anunciou em sua conta no Telegram), acusando os Emirados Árabes Unidos de ter participado dos ataques israelense-americanos contra o Irã, e pedindo-lhe que revise sua política em relação a Teerã após constatar que a aliança com Israel não lhe trouxe bem algum. Ironicamente, foi o Irã que vem realizando ataques diários contra os Emirados Árabes Unidos e outros países do Golfo desde o início desta guerra. Os EAU estão pagando o preço por sua saída da OPEP desde o início de maio e por seu reaproximamento com o eixo americano-israelense?

Entre Trump, Putin, Xi Jinping e o Irã: uma nova geopolítica se anuncia (1/2)

Mudanças radicais começam a se delinear em um mundo que, há vinte anos, vê agonizar a ordem global que prevalecia desde o fim da Segunda Guerra Mundial, para dar lugar a uma nova ordem que surge no horizonte. Desde o início de seu segundo mandato e em conformidade com sua Estratégia de Segurança Nacional (NSS 2025), o presidente Donald Trump redefiniu as prioridades dos Estados Unidos. Em primeiro lugar estão os assuntos internos (America First) e o continente americano. Quanto ao restante do mundo, ele considera que a Europa deveria assumir sua própria defesa e deixar de depender dos Estados Unidos como faz desde 1945. Ele acredita que a Rússia, apesar de seu comportamento belicoso, já não representa um perigo, uma vez que se mostrou incapaz de derrotar a Ucrânia e seria incapaz de invadir a Europa. O chefe da Casa Branca também acredita que a rivalidade militar com a China, em relação a Taiwan e ao Mar do Sul da China, não impede uma distensão no plano econômico com Pequim. De fato, o consumidor americano precisa de mercadorias chinesas a preços competitivos e, em contrapartida, as indústrias chinesas têm necessidade urgente do mercado americano, que representa 25% do mercado mundial, sem contar que desejam um acesso mais amplo à tecnologia americana. Quanto à estratégia nacional chinesa, ela está centrada no Partido Comunista Chinês e em seu líder de poderes absolutos, Xi Jinping. Seu objetivo é transformar a China em uma potência global e alcançar autonomia em matérias-primas essenciais para a indústria. Essa autonomia já foi atingida em vários setores, mas o país ainda sofre um atraso crítico na produção autônoma de chips eletrônicos de alta tecnologia, especialmente os voltados à inteligência artificial, que apenas os Estados Unidos podem fornecer. Além disso, Xi Jinping enfrenta o colapso do setor imobiliário e uma superprodução industrial acompanhada pelo enfraquecimento do consumo interno, que absorve cada vez menos esse excedente, sobretudo nos setores de veículos elétricos e energia renovável. Assim, ele tem uma dupla necessidade urgente: reabrir o mercado americano para a indústria chinesa e garantir a continuidade de sua cadeia de abastecimento a partir dos Estados Unidos, especialmente em alimentos, chips eletrônicos, petróleo e gás, aviões Boeing e produtos de alta tecnologia. Os casos russo e iraniano Quanto a Vladimir Putin, ele enfrenta uma desaceleração do crescimento econômico e escassez de mão de obra. Seu governo vende ativos e locais históricos para garantir receitas, evitar a impressão de moeda e prevenir sua desvalorização. O aumento do preço do petróleo beneficia a Rússia no contexto do fechamento do Estreito de Ormuz, mas, embora sua produção esteja no máximo, isso não resolve seus problemas econômicos, sem contar o peso do financiamento da guerra na Ucrânia. Os meios de comunicação russos agora relatam abertamente essas dificuldades. Além disso, o moral das tropas está em queda e a guerra, que já se arrasta há quatro anos, tornou-se impopular. Putin sofre pressões internas e externas, particularmente do presidente Trump, para encerrar o conflito. Por isso, precisa de uma estratégia de saída. Por fim, o Irã está sufocado por um bloqueio naval que já dura mais de um mês, após os ataques americano-israelenses de junho de 2025 e a guerra de fevereiro a abril de 2026. Para o presidente Trump, a República Islâmica representa um grande perigo nuclear, um obstáculo à estabilização do Oriente Médio e um entrave à livre navegação no Estreito de Ormuz. Teerã, por sua vez, permanece inflexível diante de uma solução nos termos exigidos por Washington. Emaranhado de interesses na questão iraniana A Rússia e a China bloqueiam uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que exige a abertura do Estreito de Ormuz pelo Irã e continuam ajudando militarmente o país nos campos da inteligência e da tecnologia. A Rússia fornece munições, mas a China não. Essas ajudas, contudo, permanecem abaixo de um certo limite, para evitar um conflito aberto com Washington. Não existe um eixo claro Teerã-Moscou-Pequim. Pelo contrário, desde abril de 2026 observam-se contatos bilaterais separados entre os Estados Unidos e cada um desses três países. As negociações entre Trump e Putin se intensificam, a cúpula Trump-Xi Jinping ocorreu em Pequim esta semana, e as negociações indiretas por meio do Paquistão entre Washington e Teerã continuam, apesar do fechamento de Ormuz pelo Irã e do bloqueio naval americano imposto aos portos iranianos. Essas negociações acontecem independentemente de Moscou, enquanto Pequim desempenha um papel discreto. Prioridade para as negociações É evidente que Trump, Xi Jinping, Putin e Ali Khamenei precisam negociar devido às restrições internas e externas que cada um enfrenta. Todos sofrem pressões econômicas e enfrentam críticas e oposições internas. Para os Estados Unidos, o problema está no alto custo de vida enfrentado pelo consumidor americano devido ao aumento dos preços dos combustíveis e das tarifas que elevaram o custo das mercadorias chinesas. Já para russos e iranianos, as guerras e as sanções às quais estão submetidos pesam fortemente sobre suas economias e cadeias de abastecimento. A China, por sua vez, beira a recessão devido ao aumento dos preços do petróleo, à necessidade de produtos agrícolas e tecnológicos e à necessidade de um acesso maior ao mercado americano. Esboço de reposicionamento geopolítico entre Trump e Putin Trump havia convidado Putin para o Alasca em agosto de 2025, propondo o levantamento das sanções e o estabelecimento de boas relações econômicas e energéticas em troca da paz na Ucrânia. Três meses depois, ele quase reconhecia a soberania russa sobre os territórios ucranianos ocupados em seu plano de paz de vinte pontos. Está claro que ele já não teme a Rússia e busca manter um equilíbrio estratégico entre Moscou e a Europa, sendo o fim da guerra na Ucrânia necessário para isso. Esses incentivos econômicos e territoriais de Trump não pareciam fazer Putin ceder. No entanto, em 29 de abril passado, o presidente russo ligou para Trump, surpreendendo o chefe da Casa Branca, e manteve com ele uma conversa de 90 minutos. Essa ligação ocorreu quinze dias antes da cúpula Trump-Xi Jinping e sugere tanto as dificuldades internas de Putin quanto seu temor de uma aproximação sino-americana que possa marginalizar a Rússia. Durante a conversa, o presidente russo abordou sobretudo a retomada das trocas econômicas e da cooperação energética entre os dois países, praticamente anuladas desde a invasão da Ucrânia em 2022, sabendo que Trump já havia reiniciado os intercâmbios comerciais com a Rússia. Eles registraram um volume de 4,4 bilhões de dólares em 2025, depois de terem caído a zero desde 2022, enquanto em 2021 somavam 37 bilhões de dólares. Revelações publicadas pelo The Wall Street Journal no fim de 2025 mencionavam um projeto discreto entre Moscou e Washington envolvendo um investimento americano maciço na Rússia. Durante a conversa telefônica mencionada, Trump convenceu Putin a aceitar o breve cessar-fogo na Ucrânia entre 9 e 11 de maio, com a troca de mil prisioneiros de cada lado. Ele esperava prolongar esse cessar-fogo, mas as hostilidades recomeçaram imediatamente após seu término. Apesar da intensidade dos combates no terreno, Putin demonstra hoje grande flexibilidade: em 9 de maio, durante as celebrações da vitória na Segunda Guerra Mundial, declarou que a guerra na Ucrânia está chegando ao fim e que deseja encerrá-la por meio de negociações envolvendo os europeus, anunciando assim sua intenção de construir uma nova relação com a Europa. A possível resolução do conflito na Ucrânia dependerá do posicionamento da China e da Europa após os resultados da cúpula Trump-Xi Jinping e das reações europeias ao discurso de Putin de 9 de maio. O presidente russo teme que uma aproximação entre Pequim e Washington isole ainda mais Moscou, daí sua abertura em direção à Europa.

Gibran Khalil Gibran: uma ponte de luz entre Oriente e Ocidente (1/3)

“Não sou mais que uma pequena nuvem que viaja pelo céu, sem saber para onde vai nem de onde vem.” Há almas que nenhuma fronteira consegue conter e que nenhum rótulo consegue definir. Gibran Khalil Gibran é uma delas. Ao mesmo tempo ilustre e pouco compreendido, permanece como uma das figuras mais fascinantes do século XX. Nascido no Líbano, cresceu na efervescência de Boston e Nova York. Por meio de sua obra, Gibran desmentiu a teoria de Rudyard Kipling segundo a qual “o Oriente e o Ocidente jamais poderão se encontrar”, pois conseguiu encarnar tanto o melhor do Oriente místico quanto o melhor do Ocidente moderno e cartesiano. Frequentemente reduzido ao imenso sucesso mundial de sua obra-prima, O Profeta, o livro mais lido nos Estados Unidos depois da Bíblia, Gibran foi um artista completo, um “buscador do absoluto” que manejava o pincel com o mesmo fervor que a pena. Sua obra ainda ressoa hoje com uma modernidade desconcertante. Era pintor, pensador, poeta, escritor ou tudo isso ao mesmo tempo? Auguste Rodin, após encontrá-lo em Paris, teria dito sobre ele: “O mundo espera um novo William Blake, e ele nasceu no Oriente.” De fato, assim como Blake, Gibran não se via como um escritor que pintava, mas como um artista cujo pensamento se expressava indistintamente pela escrita ou pela pintura. Para compreender essa figura, abordaremos as influências que moldaram tanto o pensador, o escritor, considerado um dos mais lidos do mundo depois de William Shakespeare e Lao Tsé, quanto o pintor cujas obras etéreas buscavam representar a alma humana despida de seus artifícios sociais. 1883-1931: uma vida entre dois mundos Gibran nasceu em 1883, em Bécharré, um vilarejo cristão no norte do Líbano, então sob o Império Otomano, em uma família cristã maronita. Seu avô era padre. Ele tinha apenas 12 anos quando sua mãe emigrou com ele e suas duas irmãs para Boston, nos Estados Unidos, para fugir da miséria e de um marido alcoólatra. Os primeiros anos nos Estados Unidos foram difíceis, marcados pela morte de seu meio-irmão, de sua irmã e de sua mãe, vítimas da tuberculose. Entre 1908 e 1910, voltou a Beirute para estudar no Collège de la Sagesse, antes de seguir para Paris, onde frequentou por dois anos a Académie Julian para aperfeiçoar sua técnica em pintura. Lá conheceu, entre outros, Auguste Rodin. As mulheres e Gibran “A mulher é o templo da vida.” “Nos olhos de uma mulher, pode-se ler a história da humanidade, pois ela carrega em si o mistério da criação e a força do amor incondicional.” As mulheres desempenharam um papel essencial na vida de Gibran. Ele lhes dedicava uma admiração e um respeito absolutos, jamais as considerando como objeto de desejo. Como ele próprio confessava, foi sustentado ao longo de toda a vida por mulheres excepcionais. Embora nunca tenha se casado, amou várias mulheres. Durante toda a vida, defendeu a emancipação da mulher árabe, incentivando-a a romper as amarras das tradições e da sociedade patriarcal. Entre as mulheres de sua vida, está antes de tudo sua mãe, a quem devotava uma admiração total, encantado com a coragem que ela demonstrara ao abandonar tudo para emigrar para os Estados Unidos e oferecer uma vida melhor aos filhos. Uma anedota ilustra perfeitamente sua relação com as mulheres: durante sua estadia em Paris, uma modelo que posava nua para artistas ficou tão tocada pelo respeito de Gibran que criou um forte vínculo com ele. Em sinal de gratidão, lavava gratuitamente suas roupas todos os dias. Mary Haskell Ela foi sua mentora e mecenas. Desempenhou um papel fundamental em sua vida. Foi quem o introduziu nos círculos artísticos e editoriais de Nova York e contribuiu para lançar sua carreira. Embora fosse dez anos mais velha que ele, foi a única mulher a quem Gibran pediu em casamento. A relação entre ambos é detalhada no diário de Mary Haskell, publicado após sua morte. May Ziadé Esta é uma das mais belas e estranhas histórias de amor da literatura mundial. Gibran vivia em Nova York e May Ziadé, escritora feminista, no Cairo. Eles trocaram correspondência durante vinte anos sem jamais se encontrarem pessoalmente. Suas cartas misturavam debates intelectuais, apoio moral e paixão mística. Essa relação ilustra perfeitamente o conceito gibraniano do amor: uma união de almas que transcende a relação física e as fronteiras geográficas. Ele a considerava seu alter ego. Também pode ser mencionada sua relação de amizade com Barbara Young, sua secretária, que o ajudou em seus textos em inglês no fim da vida.