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Enorme explosão provocada por um ataque israelita perto de Al-Mansouri, no sul do Líbano. (AFP)
O essencial da semana
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Por LevantTime .
Publicado em set 6, 2026 - 23:27
Enquanto os Estados Unidos pareciam ter optado apenas pela guerra econômica contra o Irã, o exército americano lançou abruptamente na terça-feira ataques contra o território iraniano, em retaliação a ataques contra petroleiros, desencadeando uma espiral de violência ao longo da semana. No Líbano, Israel libertou vários civis detidos em suas prisões, enquanto suas forças armadas ocupavam a colina estratégica de Ali el-Taher e prosseguiam com seus bombardeios massivos na zona que controla no sul do país. A semana de 31 de agosto a 6 de setembro foi marcada por uma nítida aceleração dos acontecimentos no Oriente Médio, depois de uma semana anterior que parecia mergulhada na estagnação. Na frente iraniana, já na noite de terça-feira, o exército americano realizou ataques direcionados em território iraniano, os primeiros em quase um mês. Esta captura de tela, feita em 6 de setembro de 2026 a partir de imagens de vídeo sem data divulgadas no mesmo dia pelo Comando Central dos EUA, mostra o que o Centcom apresenta como um dos petroleiros iranianos que destruiu em retaliação a tentativas de ataques com mísseis contra navios militares. (Centcom via AFP) No entanto, o ritmo relativamente contido desses ataques dá a impressão de que o governo americano optou por uma escalada controlada, mantendo ao mesmo tempo o bloqueio e as pressões econômicas contra Teerã. Ainda assim, a tensão não parou de crescer ao longo da semana. Explosões foram ouvidas no sábado na ilha altamente estratégica de Kharg, por onde passa a maior parte do petróleo iraniano. O presidente americano Donald Trump, por sua vez, ameaçou atacar o complexo nuclear de Kuh-e Kolang — “montanha da picareta” em persa, ou Pickaxe Mountain —, uma instalação fortemente protegida e enterrada a grande profundidade, não muito longe de Natanz, o principal centro de enriquecimento de urânio do Irã. Mais cedo na semana, ele havia formulado a equação do “petroleiro por petroleiro”, prometendo atingir um navio iraniano cada vez que os Guardiões da Revolução atacassem um petroleiro no Estreito de Ormuz. Foi exatamente isso que o exército americano fez no sábado, incendiando dois navios iranianos. No plano político, Donald Trump endureceu ainda mais o tom em relação a Teerã. Depois de afirmar em uma entrevista que as negociações estavam definitivamente congeladas “porque um acordo com eles não vale o papel em que está escrito”, ele declarou no sábado que o “conflito” com o Irã não era uma “guerra”, mas “algo corriqueiro” para os Estados Unidos. Uma forma de mexer com os nervos dos iranianos ao mesmo tempo em que tranquiliza sua opinião pública às vésperas das eleições de meio de mandato. Um porto, além de instalações de armazenamento e depósitos, foi danificado após um ataque militar americano realizado na província iraniana de Hormozgan, no sul do país, que faz fronteira com o estreito de mesmo nome, em 6 de setembro de 2026. (AFP) Ao mesmo tempo, a mídia americana Axios publicou no sábado uma reportagem sugerindo que os Estados Unidos já estão pensando além deste conflito, iniciado em 28 de fevereiro. O site afirma, citando autoridades americanas e outras fontes informadas, que o governo Trump está elaborando uma estratégia mais ampla para o Oriente Médio do pós-guerra. Ela se basearia na construção de um alinhamento regional destinado a conter o Irã, encerrar as repercussões regionais dos ataques de 7 de outubro de 2023 realizados pelo Hamas em Gaza e ampliar o círculo de normalização entre Israel e os países da região. A ameaça contra Kuh-e Kolang, que marca o ressurgimento da questão nuclear iraniana, ecoa um anúncio da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que lamentou, em 1º de setembro, o fato de o Irã não ter reaberto seus sites aos inspetores após os ataques de maio de 2025. Vale lembrar que, apesar da magnitude da ofensiva israelo-americana contra os sites iranianos, é quase certo que o estoque de urânio enriquecido permaneça intacto e tenha sido colocado em local seguro pelas autoridades iranianas, que continuam apegadas ao que consideram ser seu direito de desenvolver um programa nuclear. Após o anúncio da AIEA, os Estados Unidos, mas também a França, a Grã-Bretanha e a Alemanha, manifestaram a intenção de apresentar uma resolução ao Conselho de Segurança da ONU condenando o descumprimento pelo Irã de seus compromissos em matéria de não proliferação nuclear. Uma unidade visível que contrasta com o clima frio entre Washington e seus aliados europeus desde o início do conflito. Já os iranianos parecem continuar a reagir às turbulências da mesma maneira: atacando vários países vizinhos, como o Kuwait, os Emirados Árabes Unidos e a Jordânia, sem no entanto atacar diretamente Israel. Ataques maciços no sul do Líbano Na frente libanesa, Israel intensifica suas operações de destruição nas aldeias do sul, chegando a usar, em alguns casos, barris de explosivos. O presidente libanês Joseph Aoun pediu a Washington e à comunidade internacional que “façam cessar” os ataques israelenses no território libanês, que deixaram sete mortos no domingo em meio a uma trégua frágil. Os bombardeios atingiram diferentes localidades da região de Nabatiye. Vinte pessoas também ficaram feridas, entre elas crianças, segundo o Ministério da Saúde. Um ataque destruiu ainda o antigo hospital Ghandour, fora de funcionamento há anos. Libertação de detidos e tomada de Ali al-Taher Mas o evento mais importante da semana no sul foi a tomada, pelos israelenses, da colina estratégica de Ali al-Taher, na região de Nabatiye. O local era um importante quartel-general do Hezbollah, formado por um vasto emaranhado de túneis, de onde operavam combatentes do partido xiita, mas também, segundo algumas informações, combatentes iranianos. Na noite de quinta-feira, os israelenses anunciaram ter assumido o controle do complexo. No domingo, o ministro israelense da Defesa, Israel Katz, declarou que ainda restavam túneis a serem dinamitados. Esse “sucesso” militar talvez não tenha sido uma surpresa após semanas de bombardeios, mas a reação do Hezbollah foi, sim, surpreendente. Depois de garantir por muito tempo que se recusaria a ceder essa colina estratégica — assim como os iranianos, que também haviam ameaçado intervir —, o partido xiita acabou minimizando o impacto desse desenvolvimento por meio de seus veículos de mídia e porta-vozes, sem, no entanto, confirmar oficialmente a perda do local, que havia se recusado a preservar entregando-o ao exército libanês. A outra grande surpresa da semana foi a libertação, por Israel, de cinco civis libaneses e sírios detidos em suas prisões. Essa medida ocorreu após uma visita a Tel Aviv do embaixador dos Estados Unidos no Líbano, Michel Issa. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira “ocorre em seguimento aos esforços empreendidos por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os corpos dos líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano” entre 1984 e 1986. Mais uma vez, a reação do Hezbollah chama a atenção. Embora considere a medida positiva, mas insuficiente, o partido voltou a atacar as autoridades libanesas, acusando-as de “submissão ao inimigo” e responsabilizando-as pelo desastre no sul. Chegou até a alertá-las contra “os conflitos internos”. Será que os reveses militares do partido poderiam levá-lo a se voltar ainda mais contra o cenário interno? Por fim, o exército israelense fez no domingo uma declaração importante, anunciando que está considerando reduzir sua zona de ocupação no Sul do Líbano, passando da atual "zona amarela" para uma "zona cinza". Segundo essa interpretação, tal mudança refletiria uma diminuição da ameaça representada pelo Hezbollah. A medida, no entanto, ainda não foi aprovada pela liderança política israelense. Iêmen e Palestina A semana também foi particularmente tensa no Iêmen, onde os confrontos entre os rebeldes houthis e as forças governamentais não pararam de se intensificar, culminando em um sábado especialmente sangrento, com mais de 60 mortos em um único dia, elevando para cerca de 200 o número de vítimas desde quinta-feira. A ofensiva dos houthis busca sobretudo tomar o controle de certas áreas ao redor da passagem de Bab al-Mandab, o que daria a esse aliado do Irã uma vantagem adicional sobre outro ponto estratégico crucial, depois do estreito de Ormuz. Na Palestina, declarações particularmente preocupantes de Israel Katz sobre Gaza marcaram a semana. Ele afirmou, sem apresentar provas, que a maioria dos habitantes da faixa desejava deixá-la, ressaltando que Israel estava "pronto para essa evacuação em massa". Isso deixa entender que o calvário dos habitantes de Gaza está longe de terminar. Por fim, vale destacar que a AIEA anunciou, em 1º de setembro, que infraestruturas descobertas em Deir ez-Zor, na Síria, indicam que o antigo regime de Bashar al-Assad preparava secretamente um programa nuclear avançado, capaz de resultar na fabricação de uma arma atômica com a ajuda de especialistas norte-coreanos.
Homenagem
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Por Michel Hajji Georgiou - Publicado em set 6, 2026 - 13:31
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O jogador argentino, que encerrou sua carreira internacional em 31 de agosto de 2026, não era nada menos que um prestidigitador dos estádios. Sua trajetória, feita de prodígios, quedas e redenção, talvez diga algo sobre nossa necessidade intacta de encantamento em um mundo que, no entanto, pretende ter se livrado dele. Anunciada poucas semanas depois da final da Copa do Mundo de 2026 perdida para a Espanha, a aposentadoria internacional de Lionel Messi não deixou de provocar uma emoção para a qual é difícil encontrar muitos equivalentes na história recente do futebol. Provavelmente seria preciso remontar a Maradona, ou ainda a Cruyff ou Pelé, para reencontrar essa sensação de que, com a retirada de um jogador, desaparece algo que ultrapassa em muito o próprio esporte, como se certa maneira de habitar o futebol, ou até mesmo de acreditar nele, também chegasse ao fim. Longe dos glacis da razão Chega das estatísticas intermináveis e das insuportáveis querelas, tediosas e estéreis, em torno de “quem é o melhor de todos os tempos». O autor destas linhas nunca foi um fanático pela bola, nem por classificações verticais ou por uma hierarquia do mérito em geral e, portanto, aprecia o talento de cada jogador com o mesmo olhar maravilhado de uma criança de 11 anos. De resto, essa obsessão particularmente contemporânea pelos números estraga todo o prazer do espetáculo. E com razão: o procedimento que consiste em somar gols, assistências, Bolas de Ouro, Ligas dos Campeões, Copas América, Copas do Mundo… só pode ser redutor. Em outro registro, ele não deixa de evocar a crítica desenvolvida pelo filósofo germano-americano Eric Voegelin à tentação gnóstica moderna: a de um saber convencido de que pode encerrar a realidade em um sistema e abolir aquilo que lhe resiste. Os recordes são provavelmente um indicador do gênio de Lionel Messi. Mas tantos outros grandes jogadores que fizeram vibrar os estádios e os corações, sem realizar sequer metade dos feitos de Messi, permanecem, ainda assim, eternos na memória. Aquilo que os tornou verdadeiramente singulares encontra-se em outro lugar, longe dos glacis da razão. Algo mais se jogou em torno deles. Algo que pertence a certo sentido profundo da transcendência, que o entendimento jamais poderia apreender plenamente. Esse é o caso de Lionel Messi há mais de vinte anos, desde o dia em que, sob o olhar do “ícone”Diego Maradona, fez sua primeira entrada, em junho de 2006, na arena da Copa do Mundo com as cores da Albiceleste contra Sérvia e Montenegro. Ora, esse elemento indizível que constitui o gênio de Messi, como o de outros, talvez toque em um dos paradoxos mais curiosos da modernidade: a persistência da magia em um mundo que se construiu precisamente contra ela. O mundo desencantado Max Weber falava do desencantamento do mundo para designar esse lento processo pelo qual a modernidade ocidental submeteu progressivamente a existência à racionalização, ao cálculo, à previsibilidade e à explicação causal. O mundo já não deveria ser atravessado por forças obscuras, sinais, intervenções sobrenaturais ou vontades invisíveis; deveria, ao menos em princípio, tornar-se inteligível. Infelizmente, o esporte moderno, e mais amplamente o mundo moderno herdado da globalização, insere-se perfeitamente nessa dinâmica. O futebol de hoje, e não apenas o futebol, é provavelmente um dos objetos mais quantificados que existem. O menor gesto é medido, e tudo é cuidadosamente calculado e modelado. Da matemática à inteligência artificial, o talento bruto depende agora mais da ciência do que do encantamento. É aquilo que há de humano, em sua relação espontânea, até selvagem, com o invisível que nasce do coração, que desaparece diante de nossos olhos em benefício da quadratura do VAR. É, de certo modo, o assassinato do esporte em nome de mais rigor e equidade… ainda que a eutanásia dessa parcela de espontaneidade sublime acabe provocando, ela própria, injustiças flagrantes. Basta, para constatá-lo, voltar a algumas das decisões controversas da Copa do Mundo de 2026. Paradoxo dos paradoxos, o próprio Lionel Messi foi, desde a origem, filho dessa modernidade técnica, da qual certamente deve parte de sua carreira excepcional. Seu corpo, pequeno demais para os padrões esperados, foi corrigido por meio de tratamento hormonal. Identificado muito cedo, seu talento foi assumido por uma instituição que organizou sua formação, alimentação, desenvolvimento físico e integração em uma máquina esportiva já globalizada. Nada, em aparência, poderia estar mais distante do velho relato heroico. À primeira vista, a história se parece mais com distopias do tipo Gattaca do que com mitos e narrativas messiânicas. E, no entanto, esse velho relato de fato retornou, e até com uma insistência quase constrangedora. Desde o início de sua carreira, Lionel Messi foi colocado sob o microscópio. Mas quanto mais se esforçavam para explicá-lo e desmistificá-lo, menos conseguiam dissipar inteiramente a impressão produzida por alguns de seus gestos. O homem simplesmente não consegue ser circunscrito nem reduzido a um acúmulo de dados. Na idade em que a maioria dos grandes jogadores volta para as sombras, ele continua surpreendendo. Estupefazendo, até, ao trazer ao esporte essa parcela de insensatez que escapa à hipersistematização quase robótica do mundo. É provavelmente aí que se deve procurar esse outro lugar que caracteriza Messi. Numa sobrevivência da magia num momento em que até os espaços que permitiam a expressão positiva de uma humanidade feita de carne e sangue se veem progressivamente “disciplinados”por essa atração hipnótica por uma nova gnose puritana em nome da modernidade. O Messias fabricado pela máquina Embora oriundo, de certo modo, da máquina matricial, Lionel Messi constitui, por si só, um questionamento desse modelo de prêt-à-porter. Uma espécie de alter ego do Neo de Matrix, lançado numa simulação governada por parâmetros que pretendem calcular tudo. O destino do argentino adquiriu progressivamente, quase contra sua vontade, a forma de uma narrativa messiânica. O trocadilho com seu nome seria fácil demais se sua própria história não o tivesse constantemente relançado: a da criança frágil, cujo corpo parecia querer negar a realização à qual seu talento a destinava. Depois, a do exílio ainda muito jovem para Barcelona, da adoção por uma cidade estrangeira, da ascensão quase irreal, do reconhecimento mundial e, em seguida, dessa estranha dificuldade de ser reconhecido pelos seus… Durante muito tempo, a Argentina manteve com seu filho pródigo uma relação de hainamoration. Pouco importavam seus resultados, seu talento, seu brilho… ele precisava responder a uma única pergunta, impiedosa: por que não era Maradona? A comparação era certamente inevitável, mas também profundamente injusta. Tudo separava os dois homens em sua maneira de estar no mundo. Maradona carregava a Argentina com tudo o que ela podia ter de passional, contraditório, excessivo e teatral. Falava, provocava, brigava, caía, voltava, misturava ao futebol sua vida privada, suas cóleras, seus compromissos políticos… até sua própria destruição. Seu próprio corpo parecia transformar-se em um dos lugares onde se encenavam as contradições de seu país. Maradona era a própria encarnação daquilo que o mundo esperava do futebol: uma alma rebelde, levando por vezes o jogo até a imoralidade, mas dentro de uma espécie de gigantomaquia futebolística. Maradona era épico. E, sobretudo, havia colocado seu país no firmamento do futebol em 1986. Messi, por sua vez, não oferecia nada disso. Era silencioso, às vezes quase ausente da narrativa que os outros construíam ao seu redor, ausência que durante muito tempo foi interpretada como defeito. Quase apagado, sem personalidade. Era justamente isso que os dois gigantes, Maradona e Pelé, lhe censuravam: falta de liderança, ser liso demais. Uma espécie de bebê de proveta milagroso dos estádios. Também se censurava ao menino de Rosario não cantar suficientemente o hino, não ser argentino o bastante, ter sido “fabricado”por Barcelona e, naturalmente, não vencer com a seleção aquilo que ganhava quase continuamente com seu clube. A profecia inacabada A final da Copa do Mundo de 2014, perdida de maneira dramática para a Alemanha, seguida pelas finais da Copa América de 2015 e 2016, havia transformado progressivamente essa suspeita em acusação. Quando perdeu seu pênalti contra o Chile em 2016 e anunciou depois que deixava a seleção, ele já era, no entanto, um dos maiores jogadores da história do futebol. Mas sua narrativa permanecia estranhamente inacabada. O sentimento de incompletude pouco dizia respeito ao seu currículo. Tratava-se antes daquela necessidade quase arcaica continuamente imposta aos heróis modernos: concluir seu percurso iniciático. Com as cores argentinas, Messi brilhava e depois caía pesadamente. Mas não se levantava. Não cumpria a profecia. E, aos olhos de seu povo, isso reforçava o sentimento de hainamoration: um deus caído continua sendo um deus, apesar de tudo. Mas acrescido daquilo que, aos olhos de seus adoradores, constitui um substrato de humanidade insuportável e, portanto, perfeitamente detestável: suas taras, suas fraquezas. Os argentinos amavam Maradona apesar de sua decadência espetacular e de sua humanidade falível. Mas isso porque ele havia “merecido”essa decadência, porque ela se tornara, de algum modo, aceitável depois do México de 1986. Messi, por sua vez, ainda não tinha o direito de cair, porque ainda não havia chegado ao topo. Não, a profecia não estava cumprida. Começava até a virar caricatura. Messi voltou, portanto. Mas ainda teve de esperar por sua redenção. Foi preciso a Copa América de 2021, no Maracanã, para que essa relação feita de suspeita, expectativa e decepção com seu público e seu povo começasse verdadeiramente a mudar. E foi preciso, sobretudo, a Copa do Mundo de 2022 para que a história adquirisse aquela forma quase perfeita demais que ninguém teria ousado escrever sem parecer ceder a uma facilidade de roteirista. Fato estranho, Maradona havia morrido em 2020. Era como se uma espécie de maldição nacional opressiva tivesse sido levantada. Ao mesmo tempo, o povo argentino precisava de uma figura paterna substituta, e a pressão não fazia senão redobrar. Mas talvez misturada, dessa vez, com um pouco de ternura? O que aconteceu no Catar em 2022 é ainda mais interessante porque o próprio Messi aparece ligeiramente diferente. Protesta mais, responde às provocações, irrita-se, fala com uma violência de que poucos o julgavam capaz e deixa até escapar aquele “¿Qué mirás, bobo?”diante dos neerlandeses, para diversão da Argentina. Buenos Aires finalmente descobre, com atraso, aquilo que sempre esperou dele. Um pouco de Maradona dentro de muito Messi. Mas Messi não se transforma, por isso, em Maradona. E talvez seja precisamente aí que ocorra a verdadeira reconciliação: a Argentina deixa de lhe pedir que seja Maradona. A partir de 2022, Messi já não precisa encarnar outro modelo do gênio nacional. Finalmente pode tornar-se, também para seu país, aquilo que já havia sido em todos os outros lugares: Messi. Simplesmente. O ato final da profecia É verdade que o triunfo de 2022 poderia ter constituído um final perfeito. Mas, como no caso de Maradona, o ato final da profecia heroica é a queda. Ninguém esperava realmente algo excepcional de Messi em 2026. Aos 39 anos, considerava-se amplamente que ele já fazia parte dos “heróis cansados». A queda do Capitólio havia ocorrido com o episódio amargo de sua saída do FC Barcelona e sua desventura no PSG. Já não atuava senão na liga americana, com as cores de Miami… na periferia do mundo do futebol, nas terras distantes do soccer. E a nova geração já estava ali, pronta para mandar os ancestrais a Bicêtre. No entanto, aquela Copa do Mundo de 2026, que parecia destinada a não passar de um epílogo, transformou-se num último golpe de brilho sensacional. A Argentina chegou novamente à final, com Messi, aos 39 anos, ainda como seu “líder histórico”e seu recurso nos momentos decisivos, realizando algo que não deixava de lembrar o que Roberto Baggio fizera pela Itália em 1994, aos… 27 anos: um deus ex machina permanente. Baggio fracassou às portas do triunfo contra o Brasil depois de praticamente carregar a Itália até Pasadena. Seu pênalti enviado por cima do travessão deixaria uma das imagens mais cruéis da história das Copas do Mundo: a de um homem imóvel, de cabeça baixa, mãos na cintura, enquanto o Brasil celebrava a vitória. Aquele que havia “morrido de pé». O duende italiano jamais conheceu a apoteose. Mas essa morte simbólica, longe de apagar seu Mundial, acabou também entrando para sua lenda. A história foi mais clemente com Messi, apesar de uma campanha de ódio contra ele, misturada a acusações de trapaça e favoritismo, num pano de fundo de decisões arbitrais controversas e atos antidesportivos de sua equipe, como havia sido outrora com Maradona. Ainda mais, até. Uma final em sua sexta Copa do Mundo, às portas da aposentadoria, com uma atuação individual extraordinária? É precisamente aí que reside aquilo que há de mágico no fenômeno Messi e que desafia a razão e sua avalanche de estatísticas. O gênio não pode ser encerrado numa soma de parâmetros e variáveis. Sua condição física, mesmo ótima, não pode explicar por si só aquilo de que o mundo inteiro foi testemunha. E pouco importa que sua história nos lembre que o herói, por mais mítico que seja, não pode abolir a sinistra influência de Saturno. O reencantamento do mundo Pois, para além da profecia cumprida, da ascensão à queda, com sua parcela de alegrias e desventuras, o argentino ofereceu ao mundo uma última volta que pertence à arte, quando não a uma forma de poesia homérica. Com a retirada de Lionel Messi da cena internacional, desaparece um pouco da magia do mundo… até que outro herói providencial volte a encantar os estádios. Durante mais de vinte anos, Messi terá encarnado a coexistência de dois mundos que julgávamos incompatíveis: o da racionalização extrema do esporte moderno e aquele, muito mais antigo, do herói, do sinal, da espera e do encantamento. Quando Messi parte, algo dessa contradição aparece de repente. Outros prodígios já surgiram, mas talvez descubramos, justamente no momento em que um de seus últimos grandes representantes deixa a cena, o quanto continuamos precisando de transcendência. O mundo moderno provavelmente não suprimiu o encantamento. Apenas o deslocou. Durante noventa minutos, esse homem chamado Lionel Messi, que o encarnou nos gramados, parte depois de ter realizado tudo. E até mais.
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Ficamos mais burros?

Ou estamos vivendo uma transformação na estrutura do conhecimento?
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Por Mona Fayad - Publicado em set 5, 2026 - 20:01
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A pergunta “O mundo ficou mais burro?”reaparece com frequência nos debates contemporâneos sobre mídia digital, mecanismos de busca e redes sociais. À primeira vista, parece uma pergunta simples, mas esconde uma questão muito mais profunda, ligada à própria natureza do conhecimento: como ele é produzido, como é transmitido e como é consumido. Talvez a pergunta “Ficamos mais burros?”não seja a mais precisa. Talvez devêssemos perguntar: o conhecimento ainda é transmitido de uma maneira que permita compreendê-lo e torná-lo produtivo? A maioria dos leitores ainda recorre aos textos originais? Ou se limita aos seus resumos e ao que é dito a respeito deles por meio daquilo que circula entre os leitores? Uma das chaves para compreender esse fenômeno encontra-se nos trabalhos do psicólogo britânico Frederic Bartlett, que realizou, na década de 1930, uma série de experiências sobre aquilo que chamou de “reprodução serial”. Nessas experiências, uma pessoa ouvia uma história e depois precisava contá-la a outra, que por sua vez a contava a uma terceira, e assim por diante. Os resultados foram impressionantes: a cada nova transmissão, a história não era reproduzida exatamente como havia sido contada, mas reformulada. Alguns detalhes desapareciam, outros eram ampliados e outros ainda eram substituídos por elementos mais compatíveis com o contexto, as experiências e a cultura do receptor. Depois de passar por um número suficiente de intermediários, a história original já havia se transformado em algo inteiramente diferente. Esse modelo simples revela uma verdade fundamental: a memória não é um recipiente neutro, mas um mecanismo de reconstrução. E, quando o conhecimento passa por múltiplos intermediários, ele não é “preservado”, mas “reproduzido”. É aqui que começam a aparecer as semelhanças com o nosso mundo contemporâneo e o receio de que estejamos ficando mais burros. Na era da mídia digital, o conhecimento já não circula por meio da transmissão oral, mas através de cadeias de mediação: um artigo é resumido, depois citado, em seguida republicado sob a forma de uma postagem curta e, por fim, reduzido mais uma vez a uma frase ou a um título. Nesse contexto, podemos retomar uma imagem metafórica usada em um texto jornalístico: uma biblioteca cujos livros são substituídos por resumos, e depois por resumos dos resumos, até que o leitor se veja diante de sucessivas camadas de redução. Algo semelhante ao que poderíamos chamar de “cadeia do guaxinim”, que não lê o original, mas remexe em seus restos. Vale esclarecer que a escolha do “guaxinim”não é aleatória. Essa metáfora condensa simbolicamente uma condição cognitiva que vem se consolidando. Esse animal, que vive nas margens das cidades e remexe em latas de lixo, não produz seu alimento, mas se nutre dos restos daquilo que outros produziram. Apesar de sua inteligência prática e de sua capacidade de desmontar, recolher e aproveitar objetos, ele não compreende verdadeiramente aquilo que tem diante de si, mas lida com as coisas como materiais disponíveis para uso imediato. É assim que o conhecimento passa a se apresentar na era da redução serial: textos são resumidos e depois novamente resumidos, até que deles reste apenas um punhado de fragmentos de sentido, reorganizados e postos novamente em circulação sem qualquer vínculo verdadeiro com sua fonte. Nesse ponto, não apenas nos afastamos do original, mas entramos em uma nova etapa da produção da informação ou do conhecimento, na qual o agente cognitivo deixa de ser um leitor ou pensador para se tornar um coletor de restos de significado, que os redistribui em formatos destinados ao consumo rápido. A “cultura do guaxinim”, portanto, não é apenas uma descrição da superficialidade. É também uma caracterização precisa da degradação da própria cadeia do conhecimento: da criação ao resumo, da compreensão ao processamento formal, das ideias a algo que já não passa de um vestígio apagado delas. Mas esse fenômeno não pode ser compreendido separadamente da estrutura tecnológica que o governa. É aqui que entra Marshall McLuhan, que sintetizou seu pensamento na célebre frase: “O meio é a mensagem”. O problema não está apenas no conteúdo, mas também na forma através da qual esse conteúdo é transmitido. A mídia digital contemporânea não se limita a transportar informações, mas as remodela segundo a lógica da velocidade, da condensação e da fragmentação. O texto longo torna-se inadequado para o consumo, enquanto uma ideia só parece aceitável se puder ser reduzida a poucas linhas facilmente compartilháveis. Essa transformação produz um paradoxo marcante: vivemos numa época em que o acesso ao conhecimento deixou de ser difícil e se tornou excessivamente fácil. E, com essa facilidade excessiva, surge aquilo que poderíamos chamar de “ilusão cognitiva”: basta ler um pequeno trecho ou um resumo rápido para que a pessoa tenha a sensação de ter assimilado uma ideia. Mas essa sensação de domínio não é necessariamente acompanhada por uma compreensão profunda nem pela capacidade de reconstruir ou criticar o conhecimento. É aqui que aparecem os que poderíamos chamar de “semiletrados”: indivíduos que possuem os sinais do conhecimento, mas não sua estrutura; seu vocabulário, mas não sua lógica interna. O problema se torna ainda mais complexo quando o observamos sob o ângulo da atenção. Em vez de permanecer em um estado prolongado de concentração, como acontece na leitura tradicional ou na reflexão demorada, a mente passou a viver sob um bombardeio contínuo de informações: notificações, vídeos, manchetes e ondas sucessivas de conteúdo. Essa situação não apenas dispersa a atenção, mas a reconfigura segundo uma lógica de saltos constantes entre pequenas unidades de significado, em vez de permitir a construção gradual e cumulativa de uma ideia. Lembro aqui de uma anedota que costumávamos contar e que circulava muito na época das manifestações populares. Ela ilustra bem a ideia da redução e da transformação do conteúdo. Depois da ocupação da Palestina, muitas manifestações populares tomaram as ruas gritando “Abaixo a Declaração Balfour!”. A brincadeira dizia que, no fim da manifestação, o slogan havia se transformado, em árabe, em “Que alguém caia lá de cima!”, uma frase inteiramente diferente que preservava algo do ritmo e da sonoridade da original. Talvez essa imagem nos ajude a compreender melhor o que acontece na linguagem cotidiana quando o conhecimento se transforma em mensagens curtas repetidas coletivamente. A manifestação começa com uma fórmula política precisa. Mas, com a repetição, a imersão coletiva e o ritmo sonoro, ela vai se transformando pouco a pouco em outra fórmula, completamente diferente. Esta pode conservar o ritmo e a carga emocional da primeira, mas perde seu significado e seu sentido original. O que permanece não é o sentido, mas a energia emocional da frase. Aqui se manifesta, de outra maneira, aquilo que Bartlett havia observado: não importa apenas o que foi dito, mas como aquilo foi repetido e como voltou a ser compreendido dentro de um contexto social em transformação. Se reunirmos todos esses fios, podemos dizer que aquilo que vivemos hoje não é propriamente um “colapso da inteligência”, mas uma transformação das condições em que ela opera. A mente humana não mudou radicalmente, mas o ambiente em que funciona se transformou profundamente: passamos de um ambiente que permitia a acumulação lenta para outro que impõe a reprodução rápida e fragmentada do conhecimento. Essa mudança cria uma tensão permanente entre duas formas de pensamento: um pensamento reflexivo, que precisa de tempo, e um pensamento rápido, que exige resposta imediata. Sob essa perspectiva, a pergunta “Ficamos mais burros?”torna-se parcialmente enganosa. Talvez seja mais preciso dizer que estamos cada vez mais expostos a condições que tornam o pensamento profundo menos estável, ou menos possível, e o conhecimento mais vulnerável à fragmentação e à reciclagem. Quanto à burrice, se podemos usar o termo, talvez ela não seja uma propriedade da mente, mas um efeito colateral e uma característica da estrutura cultural que se formou. Trata-se de uma tecnologia que está remodelando nossa relação com o mundo. Assim, em vez de enxergar esse fenômeno como um declínio das capacidades humanas, podemos compreendê-lo como uma transformação do “ambiente do conhecimento”: um ambiente em que se tornou fácil saber alguma coisa, mas mais difícil compreendê-la de fato e em profundidade.
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De Pequim a Washington, múltiplas incertezas
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Entre Donald Trump e Xi Jinping, as declarações refletiam uma atmosfera positiva, mas os bastidores dessa cúpula de gigantes deverão se esclarecer com o tempo. O Irã, por sua vez, mantém suas provocações. Entre o Líbano e Israel, uma prorrogação da trégua e uma futura cooperação militar. Esta semana foi marcada por negociações cruciais, cujas repercussões serão sentidas na próxima etapa. Desde o início da semana, os olhares estavam voltados para os preparativos da cúpula sino-americana em Pequim e para a terceira rodada de negociações entre as delegações libanesa e israelense em Washington. No âmbito da cúpula de Pequim, no plano simbólico, a recepção reservada ao presidente americano Donald Trump foi espetacular, à altura do evento. Em seus estilos distintos, os chefes de Estado americano e chinês transmitiram mensagens cruciais sobre sua futura colaboração econômica e sobre as negociações relativas aos dossiês internacionais de interesse comum. Entre esses temas, destacaram-se os casos de Taiwan, que a China deseja anexar, mas cuja independência é apoiada pelos Estados Unidos, e o do Irã, aliado tradicional da China. Como esses dois dossiês passam agora a estar ligados? O futuro dirá. Mas alguns sinais já apontam tendências. Em uma entrevista, o presidente Trump pediu às autoridades taiwanesas que não proclamassem a independência do país apoiando-se no respaldo de Washington, algo que Taiwan ignorou ao divulgar uma declaração reivindicando sua independência logo após o fim da cúpula. No que diz respeito ao Irã, o tema foi amplamente abordado durante essa reunião, como já era esperado. Os presidentes americano e chinês exibiram uma posição comum: a necessidade de reabrir o estreito de Ormuz. O presidente Trump declarou claramente que seu homólogo chinês, que havia recebido alguns dias antes o ministro iraniano das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, está disposto a contribuir para as negociações. Outro indicador importante que emerge dessa cúpula é que a China deverá passar a importar petróleo dos Estados Unidos, reduzindo assim sua dependência do petróleo do Oriente Médio e do estreito de Ormuz… e, incidentalmente, de seu aliado iraniano. Embora ainda não haja distanciamento suficiente para avaliar corretamente os resultados dessa cúpula, as declarações do presidente Trump merecem ser examinadas com atenção. É verdade que ele afirmou aos jornalistas, ao final da reunião, que poderia aceitar o “congelamento” do enriquecimento de urânio no Irã por um período de 20 anos, caso tivesse “as garantias necessárias”. O processo de negociações indiretas, aliás, não morreu nesse aspecto, como indica a visita do ministro do Interior do Paquistão a Teerã neste fim de semana. Mas o tom parece ter mudado bruscamente durante o fim de semana: o chefe da Casa Branca declarou, em meio a uma fala, que “sua paciência com o Irã está se esgotando”. Em sua rede social, ele publicou no domingo uma imagem gerada por IA em que aparece com o Exército americano ao fundo no estreito de Ormuz, acompanhada da enigmática frase: “A calma antes da tempestade”. Isso coincide com informações insistentes divulgadas pela imprensa israelense, segundo as quais cresce nos Estados Unidos a convicção de que um retorno à guerra seria necessário; uma probabilidade de “50%”, segundo uma autoridade israelense. Iniciativas europeias Em relação ao estreito de Ormuz, os iranianos continuam reivindicando seu direito de administrar essa via marítima. O Irã afirma ainda ter recebido ligações de líderes europeus para discutir as condições de uma passagem segura pelo estreito. Em troca de quê? Outro acontecimento de destaque nesta semana foi a reunião dos ministros das Relações Exteriores dos países do BRICS, também realizada na quinta-feira, na Índia. A conferência ministerial abordou, entre outros temas, o Oriente Médio e foi palco de um confronto verbal entre os ministros iraniano e emiradense. O primeiro aproveitou a ocasião para acusar os Emirados Árabes Unidos de serem “parceiros” no ataque israelo-americano contra seu país… embora, convém lembrar, tenham sido os mísseis iranianos que atingiram os Emirados desde o início do conflito. Nenhum comunicado oficial conjunto foi publicado sobre a guerra no Irã, precisamente por causa das divergências entre os dois países. Fato notável: outro aliado do Irã, o presidente Vladimir Putin, conversou no sábado com seu homólogo emiradense, Mohammed bin Zayed, sobre o conflito iraniano, segundo a Reuters. O comunicado oficial afirma que “as duas partes ressaltam a importância do processo político e diplomático”. Uma tentativa de tirar o Irã de seu isolamento? Por fim, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu colocou os Emirados em uma situação delicada nesta semana ao afirmar ter realizado uma “visita secreta” ao país no início da guerra. Abu Dhabi se apressou em desmentir a informação. O país vem atraindo cada vez mais a atenção da mídia, sobretudo desde sua saída espetacular da OPEP, no início de maio. No Líbano, prorrogação do cessar-fogo A semana libanesa foi marcada pelas negociações em Washington, na quinta e na sexta-feira, entre uma delegação libanesa presidida pela primeira vez pelo experiente ex-embaixador Simon Karam e uma delegação israelense ainda liderada pelo embaixador israelense nos Estados Unidos, Yechiel Leiter. Negociações que abordaram tanto a situação política quanto a militar. Essa terceira rodada, desde o início de abril, começou sob fortes pressões: os combates continuam intensos no sul do Líbano, com um avanço israelense além do rio Litani nesta semana; declarações cada vez mais virulentas do Hezbollah, multiplicando acusações de “traição” contra o presidente da República, Joseph Aoun, e o primeiro-ministro Nawaf Salam; além de relatos sobre “preocupações” americanas em relação a esse processo. Os resultados dessas conversas, no entanto, não refletiram esse início trabalhoso. Por um lado, o processo não entrou em colapso, como alguns temiam, já que a próxima rodada já foi marcada pelos americanos para o início de junho. Por outro, embora os detalhes dessas reuniões a portas fechadas ainda não tenham sido totalmente revelados, delas saíram resultados concretos: uma prorrogação de 45 dias do cessar-fogo entre Israel e o Hezbollah e o início de um “processo de segurança”, que começará com uma reunião entre militares dos dois países em 29 de maio, no Pentágono. Infelizmente, a proclamação desse cessar-fogo não foi acompanhada por ações no terreno, mesmo enquanto as autoridades libanesas tentam implementar uma trégua que seria respeitada “por todas as partes”, segundo informações vazadas no sábado. Segundo essas mesmas informações reproduzidas pela imprensa local, o presidente Joseph Aoun teria pedido ao presidente do Parlamento, Nabih Berri, que convencesse o Hezbollah a cessar seus ataques, para que o cessar das hostilidades fosse observado por ambos os lados. O partido pró-iraniano teria respondido que o faria caso Israel também se comprometesse. No entanto, no terreno, a tensão parece ter aumentado ainda mais: os israelenses publicaram ordens de evacuação ao norte do Litani, e as sirenes soam regularmente no norte de Israel por causa dos drones do Hezbollah. Esses drones, justamente, que realmente incomodam o Exército israelense, segundo a admissão do próprio país, também terão repercussões negativas para o Líbano. Segundo um relatório reproduzido por meios de comunicação locais, os israelenses consideram uma ocupação mais profunda do que os 10 quilômetros já tomados, já que a ameaça não vem mais apenas de mísseis cuja trajetória pode ser calculada, mas também de drones rudimentares e explosivos, difíceis de detectar pelos sistemas de defesa. Salam na Síria Outra personalidade que ganhou destaque nesta semana foi o primeiro-ministro Nawaf Salam, que se distinguiu por uma declaração muito firme reafirmando a posição do Estado libanês em relação ao processo de negociações em Washington, rejeitando todas as acusações de “traição” dirigidas contra ele, assim como contra o presidente. Além disso, Salam foi recebido em 14 de maio pelo presidente sírio Ahmad al-Chareh, em Damasco. Em suas declarações após a visita, reiterou que “o Líbano não aceitará mais permanecer como uma plataforma para operações contra países amigos”, apontando claramente para o Hezbollah, ao mesmo tempo em que Damasco desmonta regularmente redes subversivas ligadas ao grupo, acusado de tentar desestabilizar o regime sírio. Paralelamente, as negociações bilaterais trataram da coordenação de esforços relacionados às negociações com Israel. O alcance exato dessas conversas também deverá ficar mais claro no período que vem, sabendo-se que a Síria também é alvo de incursões israelenses regulares no sul do país. Também merece destaque nesta semana, no que se refere à situação no Líbano, um episódio curioso divulgado em 15 de maio, envolvendo uma “queixa” libanesa apresentada à ONU, datada de 21 de abril, que acusa o Irã de interferir nos assuntos libaneses e de ter arrastado o Líbano para a guerra com Israel. A informação não foi desmentida pelo Ministério das Relações Exteriores do Líbano durante várias horas, antes que o órgão publicasse um esclarecimento que parece refletir uma tentativa de relativizar a informação inicial. Em um comunicado, o ministério assegura que não se trata de uma “queixa”, mas de uma “carta” à ONU, na qual responde a acusações iranianas indiretas contra o Estado libanês no caso do ataque contra quatro “diplomatas” iranianos em um hotel em Beirute no início da guerra. A denúncia iraniana contra Israel sugere que as autoridades libanesas estavam cientes da relocação dessas pessoas. Um novo episódio que reacende ainda mais as tensões, agora já bem estabelecidas, entre o Irã e as autoridades libanesas.

Walid Raad e o “Volkswagen de guerra voador”

Um retorno artístico excepcional do artista visual libanês Walid Raad, após cerca de quarenta anos passados em Nova York, para expor novamente seu trabalho na Bienal de Veneza e, em seguida, no Festival d'Automne, em Paris. Uma grande exposição que se abre com o “chassi invertido” de um Fusca Volkswagen, em um espaço de arte visual de vanguarda repleto de ideias inventivas nascidas da construção de imaginários, denunciando a organização das guerras e das novas bombas, sem qualquer hesitação no equilíbrio ou nos mecanismos de concepção. Trata-se de uma arte que entrelaça o jogo das ideias com arquivos fictícios sobre a geopolítica do Oriente Médio e o “mercado da guerra”, um mercado que persiste no terreno da competição artística, permitindo que os melhores triunfem ilusoriamente na invenção de imaginários marcados por uma ironia poética construída nas lacunas da memória libanesa. Quem não se lembra do bombardeio lançado pela marinha americana após os primeiros ataques sangrentos e suicidas realizados pelo movimento doutrinário Hezbollah, em fevereiro de 1984, contra as forças dos fuzileiros navais americanos estacionadas no Líbano? Depois desses ataques, o navio de guerra USS New Jersey, a caminho da costa libanesa, disparou dezesseis projéteis de 300 polegadas contra posições sírias e drusas, projéteis que pesavam tanto quanto um Fusca Volkswagen. Daí o nome dado pelos libaneses a esses projéteis: os “Volkswagens voadores”. Um desses projéteis caiu no jardim do adolescente na aldeia de Bmariam, no Monte Líbano. Walid Raad e seus primos transformaram então a cratera da bomba em uma piscina para brincar. Essa é a guerra que pode ser revivida, ou transformada em brincadeira, para habitar a paz posteriormente, com um grande artista, figura central da arte contemporânea libanesa, nascido em 1967, movido pela convicção firme de que a verdade humana está sob ataque. A guerra torna-se, assim, algo comum. É dessa forma que ela aparece nos relatos do poder. Como se o próprio erro estivesse sendo encenado. Nada menos sedutor que a verdade, desde que aproximar-se dela seja algo completamente diferente. Desde 1993, Walid Raad vive nos Estados Unidos, retornando ao Líbano aproximadamente todos os meses, onde membros de sua família ainda vivem em Beirute. Em 1997, participou das atividades da Arab Image Foundation, que busca reunir e valorizar o patrimônio visual do Oriente Médio, do Norte da África e da diáspora árabe. Há décadas, suas obras, expostas no Museum of Modern Art, em Nova York, e na Documenta, em Kassel, distinguem-se como a produção de uma figura central da SFA, a Arab Science Fiction, corrente que critica as narrativas oficiais e que é reconhecida especialmente pelas invenções artísticas de um grupo de artistas libaneses residentes no exterior ou pertencentes à diáspora, todos compartilhando a mesma obsessão pelas lacunas da memória de seu país. Ele dividiu espaços expositivos com colegas como Rabih Mroué, Akram Zaatari, Khalil Joreige e Joana Hadjithomas e atualmente está ao lado de alguns deles na Psykalis Bay Foundation, em Milão, na exposição “Crossroads: Beirut Contemporary”. A mostra evoca “uma cidade moldada por ciclos de construção, destruição e reconstrução pós-guerra, não como um patrimônio linear, mas através de arquivos danificados, terrenos instáveis, materiais frágeis e descontinuidades temporais”. Walid Raad é conhecido como um “inventor de fake news sobre o Oriente Médio”, criador de arquivos fictícios em torno da guerra que viveu na infância, inserido em um movimento de arte livre, à maneira da poesia livre, integrado às narrativas políticas, sociais e culturais de uma juventude dividida entre engajamento, utopia realista e rebelião. Atualmente, ele expõe fotografias de arquivo em preto e branco de uma frota americana, em algo que se assemelha a uma percepção íntima de narrativas que misturam armas e infâncias. Mas onde começa a fronteira entre ficção e realidade naquilo que o olhar percebe dos densos incêndios da guerra no Oriente Médio, dos meios de sobrevivência e de uma imagem ainda visível ali, perceptível através das múltiplas camadas de uma memória congelada, assombrada pelo abismo da cratera da guerra e da brincadeira? Ele repousa o olhar para reencontrar o que resta daquela infância despojada de suas falsas pretensões. A beleza encontra sua origem apenas na ferida singular visível em suas obras, nas quais decide romper com o afastamento do mundo e proclamar uma solidão provisória, por mais profunda que seja. É a mesma época dos anos 1980, quando as milícias armadas libanesas atribuíam codinomes aos líderes das diferentes facções, cada um carregando o nome de uma flor. Raad escreve no catálogo da exposição que a mulher responsável pela criação desse sistema de codificação havia estudado botânica na American University of Beirut e também havia feito uma colagem dos retratos de Hosni Mubarak com uma cabeça de peônia. Ele relata como Yasser Arafat, alvo de inúmeras tentativas de assassinato, nunca dormia duas vezes na mesma cama, e como um historiador obsessivo reconstruiu essas diferentes camadas percorrendo, à maneira de Sophie Calle, quartos de hotel em Paris e Cairo para captar as fotografias que expõe, imagens que parecem documentos daquela época. Essas observações aparecem como informações “confiáveis”, até que se percebe que ele está brincando nas “escavações da guerra”, assim como a criança brincava na “cratera da bomba”. Essas fotografias “falsificadas”, essas “camas vazias” às vezes ocupadas por “líderes da OLP” durante um “impossível descanso de guerreiro”, permitem vislumbrar, através delas, todo um povo. Procuram-se “cadáveres sobreviventes” ou “uma causa que nunca dorme”. Algumas dessas imagens são autênticas, outras foram fabricadas para se tornarem autênticas nos labirintos da ficção, como ele vem fazendo desde 1989, ano em que fundou seu coletivo chamado The Atlas Group, uma reunião de “pesquisadores fictícios” dissolvida em 2004 e que contava com apenas um integrante: o próprio Walid Raad. Hoje, de maneira mais simples, ele arquiva novos arquivos falsificados diante da “escassez de arquivos confiáveis” sobre a história contemporânea do Líbano. Por meio da técnica da Arab Science Fiction (SFA), Walid Raad formula, em um contexto pós-guerra, questões sobre estruturas políticas, memória e reparação em um país marcado por guerras sucessivas. Através de uma abordagem ao mesmo tempo satírica, modernista, mitológica e poética, atravessada por uma obsessão recorrente, todas essas obras respondem à lógica do trauma e à repetição rítmica e composicional da guerra de ontem, ou da guerra de amanhã, em destinos dos quais a morte é apagada em sua dor, numa zombaria do destino e da história, porque a guerra nunca terminou e as verdades fabricadas permanecem severas demais para expressar o conflito eterno. Raad se posiciona contra um simbolismo frágil, isto é, contra a ideia de deter-se apenas na memória da infância. A criança não pode viver sem crescer um pouco. Ele não é nada além de um fabricante de brinquedos e que importância isso teria, como diria Friedrich Nietzsche? Raad assume o papel de autoridade artística em tudo aquilo que isso implica, contém e exige. Não no sentido de uma declaração política decisiva, mas de acordo com os dados dramáticos do estado de guerra, como instrumento de ironia contra o jogo do absurdo e as violações, erros e agressões que ele comete. Talvez isso ajude a livrar-se do sentimento de desânimo e, se conseguirmos isso, tudo talvez se torne possível no Líbano. Outros seis artistas libaneses se juntarão a Walid Raad na Bienal de Veneza, formando um conjunto que diz muito sobre a posição estratégica dessa arena artística nos debates contemporâneos sobre memória, arquivo, narrativa e formas de expressão em um contexto geopolítico brutal: o das guerras em curso.

Na falta de pedágio, um «extorsão» iraniana para o Estreito de Ormuz?

Início de um fim de semana relativamente calmo, tanto no plano libanês quanto regional, com exceção da continuidade das operações militares no sul do Líbano e em alguns setores do Vale do Bekaa. É neste domingo, 17 de maio, que deverá entrar oficialmente em vigor a prorrogação do cessar-fogo por um período de 45 dias, decidida na sexta-feira durante a terceira rodada das negociações diretas entre libaneses e israelenses, realizada quinta e sexta-feira em Washington, sob a mediação do Departamento de Estado americano. Mesmo que Israel dê oficialmente seu aval a esse novo cessar-fogo — o que dificilmente deixaria de fazer — nada indica que os bombardeios aéreos contra infraestruturas do Hezbollah ou a eliminação, por ataques aéreos seletivos, de dirigentes do partido pró-iraniano serão suspensos por isso. Enquanto se aguarda a “hora H” do início da trégua, o sábado foi marcado por uma intensificação dos ataques da aviação israelense e dos bombardeios de artilharia pesada contra posições da formação xiita em várias localidades dos distritos de Tiro, Sidon e Nabatieh, provocando o deslocamento da população em direção à cidade de Sidon. Ao mesmo tempo, um drone israelense sobrevoava a capital e os subúrbios do sul em baixa altitude. No plano regional, os círculos políticos continuam aguardando a decisão que o presidente Donald Trump deverá tomar em breve sobre o conflito com o Irã, à luz da posição definitiva do regime iraniano em relação às propostas americanas de paz. No sábado, o ministro do Interior do Paquistão esteve em Teerã para discutir com os dirigentes iranianos a possibilidade de relançar a mediação paquistanesa com os Estados Unidos antes que a situação se deteriore no plano militar. Manobra iraniana Neste estágio, fontes iranianas relataram, no sábado, discussões iniciadas por “países europeus” com a República Islâmica para encontrar uma saída para o explosivo problema do estreito de Ormuz. Se essa iniciativa de alguns países europeus se confirmar, ela poderá resultar em uma reabilitação do regime dos aiatolás e em um fortalecimento de sua posição diante da administração Trump. Na prática, o poder iraniano insiste em aproveitar a crise atual para tentar impor sua soberania sobre o estreito de Ormuz, com o objetivo de gerar receitas substanciais que lhe permitam compensar parte das perdas sofridas durante o conflito armado com os Estados Unidos e Israel. Segundo algumas fontes de informação, Teerã buscaria contornar a rejeição internacional unânime a qualquer política de pedágio direto que a Guarda Revolucionária tentava impor aos países que utilizam o estreito. Para a República Islâmica, a solução alternativa que estaria sendo analisada pelo Ministério da Economia consistiria em cobrar, não um pedágio, mas uma espécie de contribuição financeira em troca de “serviços” prestados aos navios que circulam por essa rota marítima. Entre esses “serviços” estaria um “seguro” cobrindo riscos bastante específicos. Esse tipo de “taxa” disfarçada permitiria gerar receitas particularmente elevadas, superiores às que poderiam ser garantidas por um pedágio tradicional. O regime dos aiatolás não se contentaria com esse tipo de “extorsão” estatal; também teria a intenção de levar a manobra ainda mais longe, tomando a decisão unilateral de ampliar consideravelmente a zona marítima do estreito que tenta submeter à sua soberania! Resta saber se os Estados Unidos, e sobretudo os países europeus, aceitarão baixar os braços diante da chantagem iraniana…

Líbano: reconhecer o custo da derrota…
Por
Khairallah Khairallah
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Num mundo onde apenas os interesses próprios têm direito de cidade, o que pode fazer um país como o Líbano quando uma facção interna trabalha directamente ao serviço do Irão e trava uma guerra contra o Estado libanês e as suas instituições? O Líbano nada pode fazer enquanto não existir um consenso nacional sobre a forma de conduzir as negociações directas com Israel em Washington. E, mais importante ainda, nada pode fazer sem reconhecer que lhe incumbe pagar um preço se quiser libertar-se da ocupação israelita que o Hezbollah, e atrás dele a República Islâmica do Irão, provocou. O que aqui temos não é mais do que uma impotência libanesa, nascida da incapacidade de afirmar que o Líbano é um Estado livre e independente, senhor da sua própria decisão de guerra e de paz no seu território. Uma vez mais, é em 2026 que o Líbano deve demonstrar que o seu Estado é o verdadeiro Estado, que não é o Estado do Hezbollah, que não é ele próprio mais do que uma brigada dos Guardas da Revolução iranianos, nada mais. É notável constatar, na fase que precedeu as negociações de Washington, que o presidente do Parlamento Nabih Berri não se encontrou com Simon Karam, chefe da delegação libanesa encarregada de negociar com Israel. Mais ainda, não teve lugar no palácio de Baabda qualquer reunião entre o presidente da República Joseph Aoun, o presidente do Parlamento e o primeiro-ministro Nawaf Salam antes de Simon Karam partir em direcção a Washington. Uma tal reunião era todavia indispensável, na presença do negociador libanês, a fim de atestar que o Estado libanês está ao seu lado e de lhe permitir dizer que representa esse Estado em todas as suas componentes: os cristãos, os sunitas, os drusos e também os xiitas. Na prática, isso significa que o Líbano se apresentou sem ser capaz de assegurar um apoio pleno e cabal à sua delegação, que todavia negociou com os israelitas em Washington sob patrocínio americano. O Líbano escolheu no entanto, com alguma coragem, negociar com Israel, ainda que o Estado hebraico prossiga a sua guerra contra este pequeno país cujo destino permanece nas mãos da República Islâmica governada pelos Guardas da Revolução. A delegação libanesa que negociava com os israelitas tinha de responder a uma única e só questão: está o Líbano disposto a pagar o preço da sua derrota, sim ou não? Para responder a essa questão, havia que começar por reconhecer a própria derrota. Nada testemunha melhor a amplitude dessa derrota do que o controlo exercido por Israel sobre 68 aldeias e cidades do Sul que se aplica a destruir, ao qual se acrescenta o deslocamento de um milhão e duzentos mil cidadãos xiitas do Líbano do Sul. Esta questão está no âmago mesmo do que o Líbano atravessa, pois o país não pode continuar a suportar o peso de uma bomba-relógio: de um lado, esse elevado número de aldeias ocupadas e destruídas; do outro, essa massa de deslocados. Em termos de números, em termos do número de aldeias e cidades sob controlo israelita, incluindo Bint Jbeil, que possui uma simbólica particular, o Líbano não tem outra escolha senão assimilar a situação nascida da perda de duas guerras contra Israel. O paradoxo é que, no fundo, o Líbano não tinha qualquer ligação original com nenhuma dessas duas guerras. Ambas, a "guerra de apoio a Gaza" de 2023 e a "guerra de apoio ao Irão" consequente ao assassínio do "Guia Supremo" Ali Khamenei a 28 de Fevereiro de 2026, se inscreviam no projecto expansionista iraniano, que nunca viu no Líbano mais do que uma simples carta a brandir por Teerão. Está o Líbano disposto a pagar o preço de duas guerras que lhe foram impostas pela força e das quais saiu completamente esmagado? Não é possível esquivar esta questão, que se impõe por si mesma se o Líbano pretende evitar novas destruições e novos deslocamentos, e se recusa verdadeiramente o regresso da ocupação israelita. Porque o que o Líbano deve finalmente admitir é que Israel não é uma organização de beneficência. O Líbano precisava de um consenso nacional para responder a essa questão. Isso significa, simplesmente, que Simon Karam não podia partir para Washington à procura do fim da renovada ocupação israelita sem tal consenso, que englobaria naturalmente Nabih Berri, o qual parece ter preferido, antes das negociações directas, fornecer ao Hezbollah a cobertura que este lhe reclama, o Hezbollah que se encontra ele próprio sob a dominação total dos Guardas da Revolução iranianos. Israel prosseguirá as suas agressões contra o Líbano enquanto as armas do Hezbollah estiverem presentes, e o Líbano terá de continuar a reflectir sobre a forma de se livrar delas, até ao dia em que se coloque a si próprio uma questão de uma simplicidade absoluta: qual é o preço da retirada israelita e da garantia do regresso dos habitantes às suas aldeias e cidades do Sul, ou o que delas resta? Uma vez conhecido esse preço, será preciso uma frente unida, em vez de fazer recair sobre os únicos ombros do presidente da República e do governo representado por Nawaf Salam todo o peso das negociações. Em definitiva, o que quer o Líbano? Quer recuperar o seu território, com fundamento no facto de a restauração da sua soberania territorial constituir para ele a prioridade das prioridades… ou prefere permanecer um "terreno" iraniano, ou seja, o refém dos Guardas da Revolução?

Na Síria, toda justiça seletiva é uma justiça emasculada!

A marcha rumo ao suplício havia sido filmada: não é todo dia que se massacram 288 civis, entre eles 12 crianças! A cena ocorreu em 2013, no bairro de Tadamon, na periferia sul de Damasco, e “dentro das regras”. Mais de 24 vídeos registraram espetáculos de horror arrepiantes, entre eles o seguinte: milicianos pró-governo conduzem civis vendados e com as mãos amarradas para trás até a borda de uma vala; ali os empurram antes de abrir fogo indiscriminadamente para executá-los. Os corpos, segundo relatos, são então queimados e enterrados com a ajuda de um trator para não deixar vestígios. Como cúmulo da abominação, essas “façanhas” da dinastia Assad foram filmadas em detalhes pelos próprios carrascos. Porém, por uma sucessão de circunstâncias, esse vídeo incriminador passou a circular nas redes sociais a partir de 2022 e tornou-se emblemático da ferocidade do regime. Uma prova contundente que mostra o chamado Amjad Youssef, protagonista principal desse filme de horror, distribuindo a morte com total tranquilidade! Justiça seletiva não é justiça para todos! Esse subalterno sírio, um simples executor sem patente, havia sido capturado no fim de abril passado pelas autoridades sírias, e é fácil imaginar a euforia que tomou os familiares das vítimas e a população em geral ao anúncio de sua prisão. Mas eis que, ao reaparecer diante das câmeras, durante um programa transmitido pelo Ministério do Interior sírio, ele fez confissões no mínimo surpreendentes: assumiu toda a responsabilidade e afirmou ter agido sozinho, quando todos esperavam que incriminasse seus superiores hierárquicos para tentar salvar a própria pele. Ficou então claro, aos olhos de todos, que se tratava de uma confissão forçada destinada a proteger e absolver certos caciques do regime deposto que teriam mudado de lado. E a opinião pública passou a se perguntar se o governo atual não teria firmado acordos inconfessáveis com esses renegados, cujos nomes já circulam discretamente. Deixou-se entender que isso teria ocorrido provavelmente por razões de segurança e para garantir estabilidade e apaziguamento em certas regiões do país. Mas isso não é tudo. Línguas maldosas chegaram a insinuar que propinas teriam sido pagas a responsáveis do aparelho de segurança (1). O que levou um pesquisador do “Centro de Estudos sobre Conflitos” da Universidade de Utrecht a declarar: “Passamos de uma justiça transicional para uma justiça seletiva e de fachada” (2). De fato, concentrar a justiça em certos culpados, em vez de outros, não contribui para assegurar sua transparência. Por iniciativa própria? No início deste mês de maio, outro personagem sinistro — desta vez um general — foi preso: Khardal Dayoub esteve envolvido, em agosto de 2013, no ataque com armas químicas contra Ghouta Oriental. O saldo da operação: cerca de 1.500 vítimas, entre elas mais de 400 crianças. Quem não se lembra da visão daqueles cadáveres com espuma saindo pela boca? Agora, mais do que nunca, uma prestação de contas se impõe: o povo sírio tem direito à verdade. E que não venham nos dizer, na televisão nacional, que esse general, mal orientado, agiu por conta própria! 1- Michael Safi & Melvyn Ingleby, “Syria arrests suspected leader of Tadamon massacre”, The Guardian , 24 de abril de 2026. 2- Melvyn Ingleby & William Christou, “Security or justice? Syria faces post-Assad reckoning after string of arrests”, The Guardian , 4 de maio de 2026.

Mohammad Hussein Chamseddine, o ameli que lutou por «outro Líbano»

O texto a seguir é uma tradução do discurso proferido em árabe pelo nosso colega Michel Hajji Georgiou durante uma mesa-redonda organizada na sexta-feira, 15 de maio, em Beirute, pelo site de notícias e análises Janoubiya , em homenagem à memória do escritor e cientista político Mohammad Hussein Shamseddine. O evento contou com a participação do nosso colega Ali Mohammad Hassan al-Amine, diretor do Janoubiya , do ex-ministro Ibrahim Mohammad Mahdi Shamseddine, do nosso colaborador e cientista político Hisham Dibsi, e do escritor e cientista político Hassan Bazih. O objetivo do texto é situar o pensamento e a obra de Shamseddine dentro da continuidade do legado histórico, político e moral libanista e estatista dos ulemás de Jabal Amel. Caros amigos, Gostaria, em primeiro lugar, de agradecer ao senhor Ali el-Amine por esta iniciativa de prestar homenagem ao nosso amigo Mohammad Hussein Chamseddine, e pelo seu convite para esta ocasião, nomeadamente na presença de personalidades de tal envergadura, por todas as quais nutro um profundo respeito. Mohammad Hussein é, sem dúvida, um dos meus mestres, a quem devo uma grande parte da experiência que adquiri e da formação da minha concepção da ideia libanesa ao longo das duas últimas décadas, desde o período que se seguiu à declaração dos bispos maronitas em 2000 e que conduziu ao 14 de Março de 2005. Gostaria de aproveitar esta ocasião — pois Mohammad Hussein «vivia plenamente o outro» ao ponto de já não distinguir entre a sua própria obra e a dos seus companheiros de caminho — para saudar a memória destes últimos. Falar de Mohammad Hussein Chamseddine é falar, ao mesmo tempo, de Samir Frangieh, de Nassir el-Assaad, de Saoud el-Mawla, de Farès Souhaid, de Tony Khawaja — a lista é longa — e de todos aqueles que, vivos ou desaparecidos, contribuíram para a fundação do Congresso Permanente para o Diálogo Libanês no início dos anos noventa. É falar também do sayyed Hani Fahs e do sayyed Mohammad Hassan el-Amine, e, à sua cabeça, do imam Mohammad Mahdi Chamseddine. A simbologia do lugar em que nos encontramos impõe-nos que saudemos a sua memória. Peço alguma indulgência aos presentes, pois ao falar de Mohammad Hussein falo ao mesmo tempo de uma tradição da qual aprendo lenta e cuidadosamente, graças aos meus amigos e mestres xiitas: a tradição do Jabal Amel, essa fonte luminosa e inesgotável de conhecimento, de sabedoria e de fiqh. Uma tradição mais sólida do que todas as provas que a afligiram no passado, e do que as que hoje a despedaçam. A luz desta cultura libanesa autenticamente humana ultrapassará sem dúvida esta nova provação de fogo e de sangue pela qual atravessa uma vez mais. Mohammad Hussein Chamseddine partiu como tinha vivido: em bicos de pés, na calma e na humildade, sem elogio excessivo nem oração fúnebre. Não acordou na manhã em que o Líbano se preparava, mais uma vez, para ser imolado no altar de duas patologias: uma martyropato-lógica, a outra exterminadora. Como um mestre que cumpriu a sua missão, partiu sem a tranquilidade da certeza de que o seu legado e o seu pensamento lhe sobreviveriam. À semelhança de todos os que lutaram durante mais de meio século para que o Grande Líbano soberano e o seu viver juntos perdurassem, parte sem sequer saber se o próprio Líbano sobreviverá. É esta, com certeza, uma das componentes do infortúnio libanês: um século após a fundação do seu Estado, o próprio Líbano continua ameaçado de desaparição. E vemos agora, diante dos nossos olhos, como uma parte da sua terra, que me é cara, este berço da cultura de que quero falar através de Chamseddine, foi criminalmente reduzida a cinzas e a pó. Tal é a maldição do Líbano. Tal é a maldição de Caim. * * * Mohammad, o mestre — pois era assim que se lhe chegava — não era um simples pensador. Era um educador, um pedagógico, que tratava os seus interlocutores segundo o nível da sua cultura e da sua reflexão, oferecendo o seu saber com um agudo sentido do serviço, sem exibicionismos inúteis. Preciso, rigoroso, conciso, pouco dado às palavras. Mas pródigo em sentido. E deixava-vos sempre com muito mais do que a bagagem intelectual com que lhe tinham chegado. Era ainda algo mais difícil: um pensador político que oferecia a sua obra como um presente aos outros sem reclamar nada em troca. Toda a literatura política sobre a qual construímos a dinâmica da soberania e da independência desde os anos noventa, desde os documentos do Agrupamento de Kornet Chehwan até aos do secretariado-geral e das conferências anuais do 14 de Março, passando pelo Apelo de Beirute de 2004, nasceu sobre a mesa de Mohammad ou passou pelas suas mãos, brotando desse espírito indissociável do dos seus colegas. * * * Caros amigos, É para mim uma honra que Ibrahim Chamseddine esteja entre nós esta noite. Mohammad Hussein foi um dos discípulos do imam Mohammad Mahdi Chamseddine, de quem herdou a convicção de que a wilayat el-umma prima sobre a wilayat el-faqih , e a certeza de que o caminho xiita no Líbano não passa por Teerão mas pelo Pacto Nacional Libanês. Esta convicção não nasceu apenas da conjuntura política. É uma memória que se estende do Jabal Amel até ao presente, através de uma cadeia intelectual que começou com o sayyed Mohsen el-Amine, atravessou o imam Moussa al-Sadr, atingiu a sua profundidade com o imam Mohammad Mahdi Chamseddine, e encontrou depois a sua tradução crítica nas reflexões do sayyed Hani Fahs e do sayyed Mohammad Hassan el-Amine, em cujo legado simbólico nos encontramos reunidos esta noite, na presença do seu filho Ali. Esta cadeia conceptual não é um mero registo histórico de ideias. Constitui uma resposta a uma questão que os xiitas libaneses vivem hoje no coração da guerra: a que aponta o imam Hussein? Qual é o sentido de Karbala? * * * O sayyed Mohammad Hassan el-Amine colocou esta questão na sua conferência em Teïrdebbah em 1993, com a precisão de quem conhece os limites da certeza. A sua resposta: Achoura é uma memória viva, mas que morre do uso que dela se faz. Quando se reduz a um simples rito, a um «cabide onde pendurar novos pesares», a uma ocasião para libertar um luto acumulado que se alimenta de uma desilasão após outra, Karbala deixa de ser uma energia motriz para se tornar um fardo. Advertiu contra duas vias igualmente erradas: a primeira faz do presente uma réplica repetida da história, iludindo-se de que «a mera evocação de Karbala basta para criar no nosso tempo um movimento de adesão total às causas do direito e da justiça». A segunda rompe inteiramente o vínculo entre o presente e o passado, reduzindo Karbala a uma mera narrativa trágica. A terceira via, a sua, consiste em ler o acontecimento nas suas condições históricas a fim de extrair o que, das motivações humanas, persistiu através do tempo: a liberdade, a justiça, a dignidade. Qual é, pois, o fundo de Karbala nesta leitura? O sayyed Mohammad Hassan el-Amine exprimiu-o de maneira inesquecível: Hussein tinha visto «a jóia da justiça, da unidade, da liberdade e da igualdade ser roubada à religião em nome da própria religião». Tinha visto o islão instrumentalizado para cobrir o seu próprio contrário. Tinha visto os juristas emitirem fatwas, o Corão recitado, a voz do chamamento à oração ressoar, e por detrás de tudo isso um poder que saqueava, tiranizava e aniquilava. E tinha perguntado: «O que podia fazer quem conhecia esta verdade aterradora?» Hussein não foi a Karbala em busca da morte. Foi porque lhe era impossível viver em contradição com o que era. Recusou a lealdade a Yazid, quando teria podido jurá-la e continuar a viver, mas a que vida? Uma vida que aceita a injustiça como condição da sua própria continuação. Essa opção não lhe estava acessível. O fim não era a morte: era a recusa da mentira. E a morte foi o que essa recusa implicou, não o que procurava. É o que ele próprio disse: «Não saí por arogância nem por orgulho, nem para semear a corrupção nem para exercer a injustiça. Saí para buscar a reforma na comunidade do meu avô.» Poder-se-ia objectar que o imam infalivél conhece o seu destino antecipadamente, e que esse conhecimento faz da morte uma escolha e não uma consequência. A resposta é que a infalibilidade não é uma coerção, mas uma harmonia absoluta entre o acto e a verdade. Hussein não aceitou a morte; recusou a mentira, e a morte foi o que essa recusa implicou. A experiência cristã ilumina isto: Cristo conhece o seu destino e não se diz por isso que procurou a morte, mas que se recusou a trair a verdade; o conhecimento do destino não faz da morte um fim, faz dela um testemunho de que existe algo maior do que o medo. E o martírio de Hussein é o que René Girard chamou o «pharmakos», o sacrifício que não reproduz a violência mas desvela o seu mecanismo e o anula. Há um segundo roubo que o sayyed Mohammad Hassan el-Amine assinalou: o roubo da doutrina do livre-arbítrio. Muawiyya «foi o primeiro soberano no islão a brandir o machado da destruição contra a mais alta doutrina que o islão trouxe: a doutrina da escolha», transformando a injustiça em decreto divino e a contestação em impiedade. E foi precisamente contra isso que Hussein se insurgiu: contra a normalização da injustiça, a sua sacralização e a sua elevação à vontade de Deus. Este diagnóstico adquire hoje uma acuidade insuportável. Os que travam a guerra em nome de Hussein reproduzem o que ele resistiu: fazem da guerra uma fatalidade, do martírio uma obrigação e da oposição uma traição. Roubam a jóia uma vez mais, em nome da própria jóia. Permiti-me, na presença de Ibrahim Chamseddine esta noite, recordar o que ele disse em Jeb Jennine em 2008, e que eu havia relatado nos meus escritos de então: «Deus não precisa de homens para o defender. Ninguém pode apresentar-se no Dia do Juízo e dizer: “Enviei-te mártires e mereço portanto o paraíso.” O deus fraco que precisa do nosso sangue não merece ser adorado.» Querido Ibrahim, é como se estivesses a descrever o que se passa cada dia agora… * * * Desde o início do século passado, o sayyed Mohsen el-Amine havia considerado que os ritos que tinham transformado a recordação de Kerbala em sangue derramado cada ano nas ruas da flagelação constituíram uma denaturação do sentido do martírio husseinita: colocavam a morte no centro da cena quando é a dignidade que devia estar aí. Esta posição valeu-lhe acusações de heresia por parte de certos meios entre os próprios ulemas do Jabal Amel. Prosseguiu não obstante na senda do que havia discernido. Mais de meio século depois, o xeque Mohammad Jawad Moughnié, jurisconsulto amilita libanês, foi o primeiro a responder à wilayat el-faqih khomeinista com um tratamento jurídico escrito e explícito, afirmando que o poder político em tempo de oclultação pertence à umma e não ao faqih . Escreveu-o em 1979, pouco antes da sua morte, num momento em que a oposição a Khomeiny era ainda possível. O imam Mohammad Mahdi Chamseddine completou este círculo nos seus testamentos e na sua obra Nizam al-Hukm wal-Idara fi al-Islam , onde distinguiu entre a wilayat el-faqih absoluta, governo do jurisconsulto sobre o Estado e a sociedade, e a wilayat el-umma ʿala nafsiha em tempo de oclultação. Nos seus testamentos, exigiu dos xiitas libaneses que a sua pertença nacional fosse o fundamento, que o Líbano fosse uma pátria definitiva sobre a qual nenhuma outra autoridade pudesse prevalecer. E foi Mohammad Hussein Chamseddine quem transformou esta visão em literatura política concreta, no coração de um projecto libanês nacional, humano e universal. * * * Se Mohsen el-Amine reformou o rito da memória, se Moussa al-Sadr restituiu aos xiitas a sua dignidade social, se Mohammad Jawad Moughnié e Mohammad Mahdi Chamseddine estabeleceram o quadro jurisprudencial da recusa, se Mohammad Hassan el-Amine revelou como o nome de Hussein é roubado para cobrir o que Hussein combateu, foi Mohammad Hussein Chamseddine quem edificou com todos esses materiais a arquitectura política: o projecto do Estado libanês como finalidade, o Estado pertencente a todos os seus filhos, o Estado que garante a diversidade sem a absorver, que vela pelas comunidades e pelos indivíduos no quadro de uma complementaridade cultural natural fundada na boa gestão do modelo do viver juntos e na ideia da identidade composta e da cultura da empatia. O que faz do Líbano o que René Maheu chamou «un style de civilisation». Esta arquitectura política assentava numa pedra angular filosófica da qual nunca se afastou: não existe solução puramente xiita para a questão xiita. Os problemas de cada comunidade no Líbano são os problemas de todos os libaneses, e não se resolvem com a lógica do recuo confessional e identitário, mas com a da solução nacional transversal que transcende a comunidade e alcança a sociedade no seu conjunto. Nisto, Mohammad Hussein prolonga a lógica do imam Mohammad Mahdi Chamseddine, a lógica amilita libanesa: o Estado como projecto único, o único garante válido para todas as componentes libanesas, a começar pelos xiitas. Estas palavras não estão desligadas da realidade: constituem uma resposta directa a todos os que hoje procuram uma «solução xiita para a questão xiita», ou apostam numa saída sectária estreita que «salvaria» supostamente uma comunidade à custa da entidade e do viver juntos. Coerente consigo mesmo e com a sua visão do Líbano, Mohammad trabalhou com os seus companheiros para derrubar todas as barreiras e fundir o pensamento amilita na aspiração de Nasrallah Sfeir à liberdade e de Hassan Khaled à justiça e à igualdade. Quebrou assim a espiral da violência simbólica herdada da guerra, de que a maioria das forças de ocupação se servia para impedir qualquer reconciliação libanesa. Esta dinâmica de retecimento da unidade nacional irritou o poder de tutela, que reagiu violentamente a 7 de Maio de 2001, e reagiu sobretudo face ao Apelo de Beirute de 2004, cujas sessões impediu. Mas a reconciliação triunfou sobre a violência e o ódio a 14 de Março de 2005. Mohammad Hussein não dissimulava, contudo, a sua desilasão face às derivas desse período. Via na mediocridade de uma classe política libanesa que fugia às suas responsabilidades uma das causas fundamentais do recuo do projecto soberanista. Isso manifestou-se no projecto de lei eleitoral dito «ortodogóxo» que acentuou o sectarismo, e depois nos sórdidos conuíos que levaram Michel Aoun à presídência da República e deram ao Hezbollah plena latitude para agir sob a cobertura da legalidade. Mohammad não via nisso meros erros tácticos, mas uma falência política e moral: os líderes à frente das suas comunidades, por excesso de irresponsabilidade e falta de fé na sua própria capacidade de tecer entendimentos internos, e pelo medo do outro, recorrem a um padrinho regional que os abastece de dinheiro, de armas e de excedentes de poder para que os utilizem contra os seus parceiros e os dominem. É aí a prova irrefutável de uma fraqueza que se disfaça sob o rótulo da força, e que apenas conduz à catástrofe, à derrota, depois à frustração e ao abatimento. Por que este apego à reconciliação apesar de tudo? Mohammad tinha uma regra de ouro que repetia, retomada de Hamid Frangieh: «Se os libaneses concordam no mal, ele torna-se bem; e se divergem no bem, ele torna-se mal.» O consenso não era para ele um método entre outros: era a condição da própria existência do Líbano. O meu amigo Hisham Debsi sabe que Mohammad Hussein iniciou a sua vida política como militante nas fileiras do Fatah, e como fundador da Organização Popular Libanesa no Líbano do Sul. À semelhança de Samir Frangieh, completou a sua «viagem ao fim da violência» e, após ter acreditado nas armas como alavanca de mudança, lhes voltou as costas por convicção. Ao escrever sobre Samir Frangieh e Hani Fahs, descrevia na realidade a si próprio: essa viagem do vermelho ao branco, do Fatah à construção de uma cultura nacional integradora. Considerava que a paz não é a mera ausência da guerra, mas «o mais elevado grau da moral e a sua missão mais nobre». * * * Na mesma noite em que o Hezbollah lançou a sua absurda guerra, Mohammad Hussein Chamseddine deixou-nos. A sua partida quase passou despercebida no tumulto do que se desenrolava. Mas esta coincidência encerra um sentido manifesto: aquilo contra o que havia intelectualmente combatido ao longo de toda a sua trajectoria, a leitura de Hussein como herói da morte, o Irão erigido em referência, a jóia da justiça uma vez mais roubada sob o estandarte da própria jóia, foi precisamente isso que explodiu nessa noite. Hoje não nos limitamos a comemorar. Afirmamos que Hussein morreu pela vida e não pela morte. Afirmamos que o xiísmo libanês, o do Jabal Amel, o de Mohsen el-Amine, de Moussa al-Sadr, de Mohammad Jawad Moughnié, de Mohammad Mahdi Chamseddine, de Hani Fahs e de Mohammad Hassan el-Amine, não é o prolongamento de um projecto imperialista, mas uma parte do tecido desta pátria difícil mas necessária. A história não esquecerá que aquele homem frágil, sentado com a sua chávena de café, o seu cigarro e a sua pena como únicos instrumentos de trabalho, edificava, com as suas mãos e o seu espírito, em completo silêncio, o fundamento intelectual de um único projecto libanês: um Líbano fundado não no equilíbrio das forças, mas na força do equilíbrio. Esta longa noite acabará certamente por se dissipar, e a luz do equilíbrio, da razão e do viver juntos se levantará, para que o Grande Líbano volte a ser esse «style de civilisation» único de que Mohammad, Samir e os seus companheiros e inspiradores sempre sonharam e pelo qual incansavelmente trabalharam.