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Cultura

Gibran Khalil Gibran: uma ponte de luz entre Oriente e Ocidente (1/3)

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«O Murmúrio do Silêncio, 1914». Óleo sobre tela. (Museu Gibran Khalil Gibran)
Retrato do autor
Por Micha Moussallem
Publicado mai 14, 2026 - 11:11

“Não sou mais que uma pequena nuvem que viaja pelo céu,
sem saber para onde vai nem de onde vem.”

Há almas que nenhuma fronteira consegue conter e que nenhum rótulo consegue definir. Gibran Khalil Gibran é uma delas. Ao mesmo tempo ilustre e pouco compreendido, permanece como uma das figuras mais fascinantes do século XX. Nascido no Líbano, cresceu na efervescência de Boston e Nova York.

Por meio de sua obra, Gibran desmentiu a teoria de Rudyard Kipling segundo a qual “o Oriente e o Ocidente jamais poderão se encontrar”, pois conseguiu encarnar tanto o melhor do Oriente místico quanto o melhor do Ocidente moderno e cartesiano.

Frequentemente reduzido ao imenso sucesso mundial de sua obra-prima, O Profeta, o livro mais lido nos Estados Unidos depois da Bíblia, Gibran foi um artista completo, um “buscador do absoluto” que manejava o pincel com o mesmo fervor que a pena. Sua obra ainda ressoa hoje com uma modernidade desconcertante. Era pintor, pensador, poeta, escritor ou tudo isso ao mesmo tempo?

Auguste Rodin, após encontrá-lo em Paris, teria dito sobre ele: “O mundo espera um novo William Blake, e ele nasceu no Oriente.” De fato, assim como Blake, Gibran não se via como um escritor que pintava, mas como um artista cujo pensamento se expressava indistintamente pela escrita ou pela pintura.

Para compreender essa figura, abordaremos as influências que moldaram tanto o pensador, o escritor, considerado um dos mais lidos do mundo depois de William Shakespeare e Lao Tsé, quanto o pintor cujas obras etéreas buscavam representar a alma humana despida de seus artifícios sociais.

1883-1931: uma vida entre dois mundos

Gibran nasceu em 1883, em Bécharré, um vilarejo cristão no norte do Líbano, então sob o Império Otomano, em uma família cristã maronita. Seu avô era padre. Ele tinha apenas 12 anos quando sua mãe emigrou com ele e suas duas irmãs para Boston, nos Estados Unidos, para fugir da miséria e de um marido alcoólatra.

Os primeiros anos nos Estados Unidos foram difíceis, marcados pela morte de seu meio-irmão, de sua irmã e de sua mãe, vítimas da tuberculose. Entre 1908 e 1910, voltou a Beirute para estudar no Collège de la Sagesse, antes de seguir para Paris, onde frequentou por dois anos a Académie Julian para aperfeiçoar sua técnica em pintura. Lá conheceu, entre outros, Auguste Rodin.

As mulheres e Gibran

“A mulher é o templo da vida.”

“Nos olhos de uma mulher, pode-se ler a história da humanidade, pois ela carrega em si o mistério da criação e a força do amor incondicional.”

As mulheres desempenharam um papel essencial na vida de Gibran. Ele lhes dedicava uma admiração e um respeito absolutos, jamais as considerando como objeto de desejo. Como ele próprio confessava, foi sustentado ao longo de toda a vida por mulheres excepcionais. Embora nunca tenha se casado, amou várias mulheres. Durante toda a vida, defendeu a emancipação da mulher árabe, incentivando-a a romper as amarras das tradições e da sociedade patriarcal.

Entre as mulheres de sua vida, está antes de tudo sua mãe, a quem devotava uma admiração total, encantado com a coragem que ela demonstrara ao abandonar tudo para emigrar para os Estados Unidos e oferecer uma vida melhor aos filhos.

Uma anedota ilustra perfeitamente sua relação com as mulheres: durante sua estadia em Paris, uma modelo que posava nua para artistas ficou tão tocada pelo respeito de Gibran que criou um forte vínculo com ele. Em sinal de gratidão, lavava gratuitamente suas roupas todos os dias.

Mary Haskell

Ela foi sua mentora e mecenas. Desempenhou um papel fundamental em sua vida. Foi quem o introduziu nos círculos artísticos e editoriais de Nova York e contribuiu para lançar sua carreira. Embora fosse dez anos mais velha que ele, foi a única mulher a quem Gibran pediu em casamento. A relação entre ambos é detalhada no diário de Mary Haskell, publicado após sua morte.

May Ziadé

Esta é uma das mais belas e estranhas histórias de amor da literatura mundial. Gibran vivia em Nova York e May Ziadé, escritora feminista, no Cairo. Eles trocaram correspondência durante vinte anos sem jamais se encontrarem pessoalmente. Suas cartas misturavam debates intelectuais, apoio moral e paixão mística.

Essa relação ilustra perfeitamente o conceito gibraniano do amor: uma união de almas que transcende a relação física e as fronteiras geográficas. Ele a considerava seu alter ego.

Também pode ser mencionada sua relação de amizade com Barbara Young, sua secretária, que o ajudou em seus textos em inglês no fim da vida.

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