


Num mundo onde apenas os interesses próprios têm direito de cidade, o que pode fazer um país como o Líbano quando uma facção interna trabalha directamente ao serviço do Irão e trava uma guerra contra o Estado libanês e as suas instituições?
O Líbano nada pode fazer enquanto não existir um consenso nacional sobre a forma de conduzir as negociações directas com Israel em Washington. E, mais importante ainda, nada pode fazer sem reconhecer que lhe incumbe pagar um preço se quiser libertar-se da ocupação israelita que o Hezbollah, e atrás dele a República Islâmica do Irão, provocou.
O que aqui temos não é mais do que uma impotência libanesa, nascida da incapacidade de afirmar que o Líbano é um Estado livre e independente, senhor da sua própria decisão de guerra e de paz no seu território. Uma vez mais, é em 2026 que o Líbano deve demonstrar que o seu Estado é o verdadeiro Estado, que não é o Estado do Hezbollah, que não é ele próprio mais do que uma brigada dos Guardas da Revolução iranianos, nada mais.
É notável constatar, na fase que precedeu as negociações de Washington, que o presidente do Parlamento Nabih Berri não se encontrou com Simon Karam, chefe da delegação libanesa encarregada de negociar com Israel. Mais ainda, não teve lugar no palácio de Baabda qualquer reunião entre o presidente da República Joseph Aoun, o presidente do Parlamento e o primeiro-ministro Nawaf Salam antes de Simon Karam partir em direcção a Washington. Uma tal reunião era todavia indispensável, na presença do negociador libanês, a fim de atestar que o Estado libanês está ao seu lado e de lhe permitir dizer que representa esse Estado em todas as suas componentes: os cristãos, os sunitas, os drusos e também os xiitas. Na prática, isso significa que o Líbano se apresentou sem ser capaz de assegurar um apoio pleno e cabal à sua delegação, que todavia negociou com os israelitas em Washington sob patrocínio americano.
O Líbano escolheu no entanto, com alguma coragem, negociar com Israel, ainda que o Estado hebraico prossiga a sua guerra contra este pequeno país cujo destino permanece nas mãos da República Islâmica governada pelos Guardas da Revolução.
A delegação libanesa que negociava com os israelitas tinha de responder a uma única e só questão: está o Líbano disposto a pagar o preço da sua derrota, sim ou não? Para responder a essa questão, havia que começar por reconhecer a própria derrota. Nada testemunha melhor a amplitude dessa derrota do que o controlo exercido por Israel sobre 68 aldeias e cidades do Sul que se aplica a destruir, ao qual se acrescenta o deslocamento de um milhão e duzentos mil cidadãos xiitas do Líbano do Sul.
Esta questão está no âmago mesmo do que o Líbano atravessa, pois o país não pode continuar a suportar o peso de uma bomba-relógio: de um lado, esse elevado número de aldeias ocupadas e destruídas; do outro, essa massa de deslocados.
Em termos de números, em termos do número de aldeias e cidades sob controlo israelita, incluindo Bint Jbeil, que possui uma simbólica particular, o Líbano não tem outra escolha senão assimilar a situação nascida da perda de duas guerras contra Israel. O paradoxo é que, no fundo, o Líbano não tinha qualquer ligação original com nenhuma dessas duas guerras. Ambas, a "guerra de apoio a Gaza" de 2023 e a "guerra de apoio ao Irão" consequente ao assassínio do "Guia Supremo" Ali Khamenei a 28 de Fevereiro de 2026, se inscreviam no projecto expansionista iraniano, que nunca viu no Líbano mais do que uma simples carta a brandir por Teerão.
Está o Líbano disposto a pagar o preço de duas guerras que lhe foram impostas pela força e das quais saiu completamente esmagado? Não é possível esquivar esta questão, que se impõe por si mesma se o Líbano pretende evitar novas destruições e novos deslocamentos, e se recusa verdadeiramente o regresso da ocupação israelita. Porque o que o Líbano deve finalmente admitir é que Israel não é uma organização de beneficência.
O Líbano precisava de um consenso nacional para responder a essa questão. Isso significa, simplesmente, que Simon Karam não podia partir para Washington à procura do fim da renovada ocupação israelita sem tal consenso, que englobaria naturalmente Nabih Berri, o qual parece ter preferido, antes das negociações directas, fornecer ao Hezbollah a cobertura que este lhe reclama, o Hezbollah que se encontra ele próprio sob a dominação total dos Guardas da Revolução iranianos.
Israel prosseguirá as suas agressões contra o Líbano enquanto as armas do Hezbollah estiverem presentes, e o Líbano terá de continuar a reflectir sobre a forma de se livrar delas, até ao dia em que se coloque a si próprio uma questão de uma simplicidade absoluta: qual é o preço da retirada israelita e da garantia do regresso dos habitantes às suas aldeias e cidades do Sul, ou o que delas resta? Uma vez conhecido esse preço, será preciso uma frente unida, em vez de fazer recair sobre os únicos ombros do presidente da República e do governo representado por Nawaf Salam todo o peso das negociações.
Em definitiva, o que quer o Líbano? Quer recuperar o seu território, com fundamento no facto de a restauração da sua soberania territorial constituir para ele a prioridade das prioridades… ou prefere permanecer um "terreno" iraniano, ou seja, o refém dos Guardas da Revolução?