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Analisar

Ficamos mais burros?

Ou estamos vivendo uma transformação na estrutura do conhecimento?
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Por Mona Fayad
Publicado em set 5, 2026 - 20:01
A pergunta «O mundo ficou mais burro?» reaparece com frequência nos debates contemporâneos sobre mídia digital, mecanismos de busca e redes sociais. À primeira vista, parece uma pergunta simples, mas esconde uma questão muito mais profunda, ligada à própria natureza do conhecimento: como ele é produzido, como é transmitido e como é consumido. Talvez a pergunta «Ficamos mais burros?» não seja a mais precisa. Talvez devêssemos perguntar: o conhecimento ainda é transmitido de uma maneira que permita compreendê-lo e torná-lo produtivo? A maioria dos leitores ainda recorre aos textos originais? Ou se limita aos seus resumos e ao que é dito a respeito deles por meio daquilo que circula entre os leitores? Uma das chaves para compreender esse fenômeno encontra-se nos trabalhos do psicólogo britânico Frederic Bartlett, que realizou, na década de 1930, uma série de experiências sobre aquilo que chamou de «reprodução serial». Nessas experiências, uma pessoa ouvia uma história e depois precisava contá-la a outra, que por sua vez a contava a uma terceira, e assim por diante. Os resultados foram impressionantes: a cada nova transmissão, a história não era reproduzida exatamente como havia sido contada, mas reformulada. Alguns detalhes desapareciam, outros eram ampliados e outros ainda eram substituídos por elementos mais compatíveis com o contexto, as experiências e a cultura do receptor. Depois de passar por um número suficiente de intermediários, a história original já havia se transformado em algo inteiramente diferente. Esse modelo simples revela uma verdade fundamental: a memória não é um recipiente neutro, mas um mecanismo de reconstrução. E, quando o conhecimento passa por múltiplos intermediários, ele não é «preservado», mas «reproduzido». É aqui que começam a aparecer as semelhanças com o nosso mundo contemporâneo e o receio de que estejamos ficando mais burros. Na era da mídia digital, o conhecimento já não circula por meio da transmissão oral, mas através de cadeias de mediação: um artigo é resumido, depois citado, em seguida republicado sob a forma de uma postagem curta e, por fim, reduzido mais uma vez a uma frase ou a um título. Nesse contexto, podemos retomar uma imagem metafórica usada em um texto jornalístico: uma biblioteca cujos livros são substituídos por resumos, e depois por resumos dos resumos, até que o leitor se veja diante de sucessivas camadas de redução. Algo semelhante ao que poderíamos chamar de «cadeia do guaxinim», que não lê o original, mas remexe em seus restos. Vale esclarecer que a escolha do «guaxinim» não é aleatória. Essa metáfora condensa simbolicamente uma condição cognitiva que vem se consolidando. Esse animal, que vive nas margens das cidades e remexe em latas de lixo, não produz seu alimento, mas se nutre dos restos daquilo que outros produziram. Apesar de sua inteligência prática e de sua capacidade de desmontar, recolher e aproveitar objetos, ele não compreende verdadeiramente aquilo que tem diante de si, mas lida com as coisas como materiais disponíveis para uso imediato. É assim que o conhecimento passa a se apresentar na era da redução serial: textos são resumidos e depois novamente resumidos, até que deles reste apenas um punhado de fragmentos de sentido, reorganizados e postos novamente em circulação sem qualquer vínculo verdadeiro com sua fonte. Nesse ponto, não apenas nos afastamos do original, mas entramos em uma nova etapa da produção da informação ou do conhecimento, na qual o agente cognitivo deixa de ser um leitor ou pensador para se tornar um coletor de restos de significado, que os redistribui em formatos destinados ao consumo rápido. A «cultura do guaxinim», portanto, não é apenas uma descrição da superficialidade. É também uma caracterização precisa da degradação da própria cadeia do conhecimento: da criação ao resumo, da compreensão ao processamento formal, das ideias a algo que já não passa de um vestígio apagado delas. Mas esse fenômeno não pode ser compreendido separadamente da estrutura tecnológica que o governa. É aqui que entra Marshall McLuhan, que sintetizou seu pensamento na célebre frase: «O meio é a mensagem». O problema não está apenas no conteúdo, mas também na forma através da qual esse conteúdo é transmitido. A mídia digital contemporânea não se limita a transportar informações, mas as remodela segundo a lógica da velocidade, da condensação e da fragmentação. O texto longo torna-se inadequado para o consumo, enquanto uma ideia só parece aceitável se puder ser reduzida a poucas linhas facilmente compartilháveis. Essa transformação produz um paradoxo marcante: vivemos numa época em que o acesso ao conhecimento deixou de ser difícil e se tornou excessivamente fácil. E, com essa facilidade excessiva, surge aquilo que poderíamos chamar de «ilusão cognitiva»: basta ler um pequeno trecho ou um resumo rápido para que a pessoa tenha a sensação de ter assimilado uma ideia. Mas essa sensação de domínio não é necessariamente acompanhada por uma compreensão profunda nem pela capacidade de reconstruir ou criticar o conhecimento. É aqui que aparecem os que poderíamos chamar de «semiletrados»: indivíduos que possuem os sinais do conhecimento, mas não sua estrutura; seu vocabulário, mas não sua lógica interna. O problema se torna ainda mais complexo quando o observamos sob o ângulo da atenção. Em vez de permanecer em um estado prolongado de concentração, como acontece na leitura tradicional ou na reflexão demorada, a mente passou a viver sob um bombardeio contínuo de informações: notificações, vídeos, manchetes e ondas sucessivas de conteúdo. Essa situação não apenas dispersa a atenção, mas a reconfigura segundo uma lógica de saltos constantes entre pequenas unidades de significado, em vez de permitir a construção gradual e cumulativa de uma ideia. Lembro aqui de uma anedota que costumávamos contar e que circulava muito na época das manifestações populares. Ela ilustra bem a ideia da redução e da transformação do conteúdo. Depois da ocupação da Palestina, muitas manifestações populares tomaram as ruas gritando «Abaixo a Declaração Balfour!». A brincadeira dizia que, no fim da manifestação, o slogan havia se transformado, em árabe, em «Que alguém caia lá de cima!», uma frase inteiramente diferente que preservava algo do ritmo e da sonoridade da original. Talvez essa imagem nos ajude a compreender melhor o que acontece na linguagem cotidiana quando o conhecimento se transforma em mensagens curtas repetidas coletivamente. A manifestação começa com uma fórmula política precisa. Mas, com a repetição, a imersão coletiva e o ritmo sonoro, ela vai se transformando pouco a pouco em outra fórmula, completamente diferente. Esta pode conservar o ritmo e a carga emocional da primeira, mas perde seu significado e seu sentido original. O que permanece não é o sentido, mas a energia emocional da frase. Aqui se manifesta, de outra maneira, aquilo que Bartlett havia observado: não importa apenas o que foi dito, mas como aquilo foi repetido e como voltou a ser compreendido dentro de um contexto social em transformação. Se reunirmos todos esses fios, podemos dizer que aquilo que vivemos hoje não é propriamente um «colapso da inteligência», mas uma transformação das condições em que ela opera. A mente humana não mudou radicalmente, mas o ambiente em que funciona se transformou profundamente: passamos de um ambiente que permitia a acumulação lenta para outro que impõe a reprodução rápida e fragmentada do conhecimento. Essa mudança cria uma tensão permanente entre duas formas de pensamento: um pensamento reflexivo, que precisa de tempo, e um pensamento rápido, que exige resposta imediata. Sob essa perspectiva, a pergunta «Ficamos mais burros?» torna-se parcialmente enganosa. Talvez seja mais preciso dizer que estamos cada vez mais expostos a condições que tornam o pensamento profundo menos estável, ou menos possível, e o conhecimento mais vulnerável à fragmentação e à reciclagem. Quanto à burrice, se podemos usar o termo, talvez ela não seja uma propriedade da mente, mas um efeito colateral e uma característica da estrutura cultural que se formou. Trata-se de uma tecnologia que está remodelando nossa relação com o mundo. Assim, em vez de enxergar esse fenômeno como um declínio das capacidades humanas, podemos compreendê-lo como uma transformação do «ambiente do conhecimento»: um ambiente em que se tornou fácil saber alguma coisa, mas mais difícil compreendê-la de fato e em profundidade.
Opinião
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Por Youssef Mouawad - Publicado em set 5, 2026 - 13:25
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Em 2010, Israel interceptou com violência o Mavi Marmara, um navio turco fretado por uma ONG humanitária para socorrer a Faixa de Gaza, então sob bloqueio israelita. Esse incidente, a gota de água, fará vir à tona a animosidade entre o governo de Erdogan e o Estado hebraico. (AFP)
A guerra ainda não parou no nosso sul e já corre o risco de eclodir junto aos nossos vizinhos. Ou seja, vivemos a prazo, de conflito em conflito. E com razão! Por pouco o bombardeamento de uma base síria não descambou numa batalha campal entre Ancara e Telavive. Foi a 18 de agosto passado, e Benjamin Netanyahu não foi com meias palavras: o seu país não iria tolerar uma implantação militar turca suscetível de avançar para o sul da Síria. A mensagem foi tanto mais brutal quanto oito ataques tinham visado a base aérea de Abu al-Duhur, situada a 70 quilómetros da fronteira turca. Recorde-se, aliás, que desde a queda de Bashar al-Assad em dezembro de 2024, Erdogan é o principal mentor da nova Síria, a de Ahmed al-Charaa, ajudando-a a reconstruir as suas forças armadas e transformando-a num parceiro estratégico. Já não é a Síria de Hafez al-Assad Terá sido este novo pico de tensão entre Ancara e Telavive que precipitou a reunião entre o chefe da diplomacia síria, Assaad Chaïbani, e o diretor do Mossad, Roman Gofman, a 23 de agosto passado, na Jordânia? Ora, esse encontro discreto não provocou uma onda de indignação no mundo árabe, como aconteceu com a visita imprevista de Anwar al-Sadat a Israel em 1977. Um tabu foi oficialmente quebrado e, de facto, quem poderia ter acreditado que tal concertação seria possível sob o regime baathista? O Estado hebraico deveria ter-se congratulado, mas, ao contrário do que se esperava, não interrompeu nem os seus ataques aéreos nem as suas incursões territoriais, como a de 27 de agosto em Quneitra. É que as coisas mudaram. Sob Hafez al-Assad, a Síria era uma potência regional que, sem ser temível, era temida pelos seus vizinhos imediatos, fossem eles países árabes ou não. Evitava-se procurar confronto com ela e, por isso, o país conduzia, dentro de certos limites, uma política externa agressiva que resvalava muitas vezes para a provocação. E assim, em virtude da autonomia da sua ação e da margem de manobra que se concedia, tinha constituído, nem que fosse apenas geograficamente, uma zona-tampão entre, por um lado, uma Turquia "erdoganesca", que exibia o seu islamismo assumido, e, por outro, um Israel, o Estado consubstancialmente judeu. Ora, eis que, num país esgotado por uma gestão baathista e devastado por anos de guerra civil, a Turquia, ao começar a marcar posições, vai inevitavelmente encontrar-se frente a frente com um Israel que ocupa uma parte do território sírio. O que esperar? Tendo em conta o ego desmedido tanto de Netanyahu como de Erdogan, e no caso de estes dois chefes de Estado permanecerem nos seus respetivos cargos, devemos esperar um duelo épico em território sírio, libanês, jordano, ou até noutros locais. Este combate será feito de fintas, de esquivas, de golpes baixos, mas também de ataques frontais, de corpo a corpo e de escaladas de tensão até ao ponto de rutura. E isto mesmo que o relatório doCongressional Research Servicede setembro de 2025 considere pouco provável um confronto direto entre a Turquia e Israel, precisamente porque ambos os Estados conhecem o custo de uma guerra, caso esta viesse a eclodir. No entanto, no domínio da polemologia, os dirigentes e outras elites não são necessariamente atores racionais! Tanto mais que, aos olhos dos observadores israelitas, o slogan que impera na Anatólia, a saber, «Make Turkey great again», não é de molde a tranquilizar o Estado sionista. Washington terá cada vez mais dificuldade em conter ou separar os dois adversários que já se posicionam em ordem de batalha. A Turquia, um novo Irão? Sim, é uma hipótese, mas apenas num confronto direto com Israel, tendo a Síria se tornado da noite para o dia uma zona onde «se sobrepõem dois perímetros de segurança», o turco e o israelita, o muçulmano e o judeu. E não se pode excluir que o militantismo xiita, esse mobilizador de «proxies», acabe por se aliar, ainda que momentaneamente, a uma «versão irmãos-muçulmana» do islamismo político defendido por Ancara! Teríamos assim, contra todas as expectativas, um Hezbollah apoiado pelo seu inimigo de ontem, Ahmed al-Charaa, um islamista vindo da Jabhat al-Nusra e da Hayat Tahrir al-Cham! Contra o adversário comum, uma inversão de alianças é sempre legítima e oportuna. Mas isso não passaria de uma aliança tática, ditada pelas necessidades do momento, sem qualquer garantia quanto ao futuro. Tendo o nacionalismo árabe sido posto de lado, a Turquia não se vai contentar em conquistar economicamente o mercado sírio, com os seus 25 milhões de consumidores: vai querer exercer influência política em Damasco, mobilizando para isso o seu aparelho militar e de segurança. O poder instável do presidente sírio, incapaz de assegurar certas funções soberanas nem de enquadrar os diversos corpos do Estado, terá necessariamente de recorrer à experiência do seu vizinho do norte. Será, no entanto, de acreditar que este último vai ser arrastado pela espiral de uma «beligerância anunciada»? Tudo aponta nesse sentido, e já se podem perceber os primeiros sinais de um envolvimento que lembra o dos Estados Unidos no Vietname sob Lyndon Johnson. Pois, se o Estado sírio pretende reconstituir-se, precisará antes de mais de um exército capaz de conter as tendências centrífugas dos alauitas, dos drusos e de outras facções que apelam à fragmentação do país. Ora, cabe a Ancara garantir isso e reforçar a autoridade central sediada em Damasco. Mas Israel, que adquiriu maus hábitos na Síria e pretende manter aí liberdade de ação aérea, não pode aceitar um exército estruturado segundo o modelo da NATO e que possa servir de proxy a um projeto neo-otomano. E o Líbano, da primazia à secundarização? Está agora montado um novo cenário para um novo guião que definirá novas regras do jogo! O que será feito do Hezbollah, apanhado numa ratoeira? Bem, poderia beneficiar, neste cenário, ainda que apenas em parte, do apoio logístico de Damasco, apoio que lhe fez gravemente falta desde a queda de Bachar al-Assad. E talvez que, com um deslocamento das placas tectónicas, o Líbano passasse do estatuto de palco inicial ao de palco secundário de um conflito regional. Mas, para ser sincero, isso de pouco nos vai valer!
O Essencial do Dia
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Por LevantTime . - Publicado em set 5, 2026 - 00:55
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O comboio do CICV que transportava os civis libertados, partindo da zona ocupada por Israel no sul do Líbano, seguiu até o ponto que marca o início da área controlada pelas autoridades libanesas. (AFP)
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) anunciou nesta sexta-feira que transferiu para o Líbano outras quatro pessoas libertadas por Israel, um dia após a libertação de um primeiro civil. Segundo o CICV, trata-se de três libaneses e dois sírios. É a primeira vez que uma operação desse tipo ocorre desde o início, em abril, das negociações entre o Líbano e Israel, sob mediação dos Estados Unidos. Beirute havia solicitado, durante a última rodada de negociações, em agosto, a libertação de um primeiro grupo de cidadãos libaneses capturados por Israel no sul do Líbano, onde trava uma guerra contra o Hezbollah, aliado do Irã. Familiares estimam que cerca de 30 pessoas estejam detidas, entre elas combatentes do movimento islâmico. O presidente libanês, Joseph Aoun, agradeceu em comunicado aos Estados Unidos e ao CICV e afirmou que essa libertação «confirma o acerto da posição» do Líbano, que participa de negociações com Israel rejeitadas pelo Hezbollah. Os Estados Unidos elogiaram na quinta-feira «o governo de Israel e o governo do Líbano por demonstrarem boa-fé por meio desses primeiros passos», expressando a esperança de que isso sirva «de base para discussões mais amplas sobre outras questões civis». Os dois países devem realizar uma nova rodada de negociações em setembro, em uma data ainda não definida. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira «ocorre após os esforços realizados por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os restos mortais de líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano» entre 1984 e 1986. Israel intensifica seus ataques No terreno, ataques israelenses deixaram três mortos e 23 feridos nesta sexta-feira no sul e no leste do Líbano, segundo um veículo de imprensa estatal. Israel intensificou nesta sexta-feira seus ataques na região, depois de anunciar, na noite de quinta-feira, que havia assumido o controle da crista montanhosa de Ali Taher, que servia como posição estratégica para o Hezbollah, aliado do Irã, e domina, entre outras áreas, a cidade de Nabatiye. O Exército agora reforçará suas posições na região para «impedir que o inimigo volte a se posicionar na área», declarou o ministro da Defesa israelense, Israel Katz. Outro ataque também atingiu a região de Tiro, especialmente a localidade de Rmadiye, segundo a Agência Nacional de Notícias (ANI). Para Trump, a guerra no Irã é «coisa pequena» Sobre a guerra no Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tentou nesta sexta-feira minimizar seu impacto para o país, às vésperas das cruciais eleições legislativas de meio de mandato. «Muita gente não chama isso de guerra. Eu digo que é um conflito militar, porque para nós é coisa pequena (“small potatoes”). Não é nada demais. Fizemos a Venezuela e fizemos isso», respondeu a jornalistas no Salão Oval, ao ser questionado sobre seu vice-presidente, JD Vance, que no dia anterior havia dito não querer descrever o conflito como uma guerra. Enquanto a forte alta dos preços dos combustíveis ligada à guerra ameaça custar aos republicanos de Donald Trump sua maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato de novembro, sua administração tenta minimizar a dimensão do conflito. Segundo o presidente, os Estados Unidos realizam «ataques pontuais» e «não estão atualmente combatendo». Trump também afirmou que os Estados Unidos controlam o estreito de Ormuz e que dizimaram as Forças Armadas iranianas. «O que conseguimos foi extraordinário. Assumimos o controle da Venezuela e, essencialmente, assumimos o controle do Irã», declarou.
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As dissensões iranianas inibem o diálogo com os EUA

À medida que os contornos do acordo-quadro celebrado entre Washington e a República Islâmica do Irão se vão delineando progressiva e timidamente — e talvez também os seus não-ditos —, dois parâmetros fundamentais, que poderíamos qualificar de «periféricos» ao processo político global em curso, emergem de forma cada vez mais explícita: por um lado, as divergências iranianas no seio do poder e as fissuras que surgem agora publicamente no núcleo do regime; e, por outro, a construção gradual, pelos Estados Unidos, com paciência e minúcia, do que parece ser uma nova ordem político-militar-securitária na região, com o efeito de cortar as asas ao regime dos mulás e de reduzir ao mínimo a sua influência extraterritorial. O primeiro destes dois parâmetros complica, ou mesmo inibe, aquilo que alguns designam, por abuso de linguagem, como «o diálogo e as negociações» entre Washington e a República Islâmica. Vários meios de comunicação iranianos, bem como fontes fidedignas que acompanham de perto a evolução da situação interna no Irão, ecoam há vários dias sérias fissuras que abalaram o aparelho político do regime dos mulás ao mais alto nível. Confirma-se, a este respeito, que a ala radical do poder não perdeu a sua influência preponderante, manifestando-se através de violentas críticas públicas dirigidas ao campo dito «moderado» ou pragmático, que conseguiu fazer aprovar o acordo-quadro com os Estados Unidos. A contestação dos radicais traduziu-se em ataques frontais contra o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, cuja entrevista à televisão estatal iraniana, há alguns dias, foi abruptamente interrompida e cortada antes de terminar. O outro «símbolo» das negociações com os Estados Unidos, o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, foi recebido com vaias por peregrinos iranianos durante a sua recente visita a Karbala, no Iraque. Estes incidentes levaram o presidente iraniano, Massoud Pezechkian, a denunciar publicamente, no início desta semana, a campanha contra os negociadores iranianos. As críticas não se limitam, contudo, à personalidade dos negociadores, mas abrangem de forma mais ampla e profunda as orientações do presidente iraniano e os membros do Conselho Superior de Segurança Nacional que deram luz verde ao acordo-quadro assinado com os Estados Unidos. Facto significativo: os ataques contra o presidente Pezechkian e os negociadores partem de instâncias radicais de alto nível que representam a espinha dorsal do regime. O sítio libanês al-Janoubiya, que reflete o ponto de vista da oposição xiita libanesa e que geralmente está muito bem informado sobre a situação no Irão, relata que 63 dos 84 membros do «Conselho dos Peritos do Regime» publicaram recentemente um comunicado a exigir que os negociadores da República Islâmica respeitem as «linhas vermelhas» definidas pelo «walih el-faqih», o Guia Supremo. Al-Janoubiya indica ainda que a «direção das escolas religiosas» (as «hawzat»), sob tutela do walih el-faqih, publicou igualmente um comunicado alertando o presidente iraniano, os negociadores e os membros do Conselho Superior de Segurança Nacional contra qualquer «laxismo» na aplicação das «linhas vermelhas» mencionadas no documento assinado com Washington. Estas tensões internas explicariam o facto de a delegação iraniana presente no Doha, que deveria reunir-se com os negociadores americanos para conversações de caráter técnico, ter recusado qualquer negociação direta. Os delegados iranianos dialogavam assim com os mediadores paquistaneses, enquanto os representantes americanos trocavam impressões com os responsáveis qataris! Essas negociações indiretas, conduzidas por meio dos mediadores paquistaneses e cataris, resultaram na adoção de uma medida simbólica: o descongelamento de 3 bilhões de dólares em ativos iranianos bloqueados, enquanto Teerã havia exigido inicialmente o descongelamento de 12 bilhões de dólares, para depois se contentar em reivindicar os 6 bilhões congelados no Qatar — o que também não conseguiu obter. Além disso, os 3 bilhões desbloqueados na quarta-feira servirão para a compra de produtos humanitários, provavelmente no mercado americano… A nova ordem americana O segundo parâmetro que marca o febril jogo de xadrez que se desenrola na região é a nova ordem americana — político-militar-securitária —, que parece estar se consolidando progressivamente na zona do Levante e, de forma mais ampla, em toda a região. Os sinais desse dispositivo americano ficaram evidentes nos últimos dias e semanas. A sequência dos acontecimentos nesse âmbito é particularmente reveladora: às vésperas da assinatura pelo Líbano e por Israel do acordo-quadro sob a égide de Washington, o Secretário de Estado, Marco Rubio, reunia-se no Bahrein com os membros da conferência ministerial do Conselho de Cooperação do Golfo, e ao término desse encontro, os países do Golfo e o Sr. Rubio publicaram um comunicado conjunto apoiando sem ambiguidade as orientações do governo libanês relativas às negociações diretas com Israel (a União Europeia também manifestou, de forma independente das iniciativas americanas, seu apoio total à linha de conduta adotada pelo poder libanês). Com o respaldo dos EUA, da União Europeia e dos países do Golfo, o Líbano assinou assim seu acordo-quadro com Israel, cujo principal efeito é manter o Irã afastado do processo de saída da crise e de encerramento do estado de guerra no Líbano, consolidando, dessa forma, a opção soberanista adotada por Beirute. A dinâmica estabelecida pelo presidente Joseph Aoun, pelo primeiro-ministro Nawaf Salam e pelo seu governo poderá implicar um envolvimento militar americano, por meio de especialistas e oficiais de alta patente, na execução do processo gradual de desdobramento do exército libanês e de retirada das forças do Estado hebreu do sul do Líbano. Dado significativo: a Câmara dos Representantes dos EUA rejeitou no início desta semana, por ampla maioria, um projeto de resolução apresentado pelo Partido Democrata que impunha ao presidente Donald Trump severas restrições a um possível envolvimento militar americano no Líbano. Esse papel americano foi, aliás, discutido com os dirigentes libaneses durante a visita que o comandante do Centcom, o almirante Brad Cooper, realizou no início da semana a Beirute. Três outros desenvolvimentos significativos ilustraram ainda o processo americano em curso: - A onda de prisões no Iraque de parlamentares, altos dirigentes políticos e empresários próximos do regime iraniano, bem como a decisão tomada há 48 horas pelo governo iraquiano de fixar para as milícias pró-iranianas o prazo limite de 30 de setembro para entregarem suas armas ao Estado. - A realização, esta semana no Bahrein, pelo comandante do Centcom de uma reunião regional ampliada de segurança e defesa com altos responsáveis militares do Líbano, da Síria, do Bahrein, da Arábia Saudita, do Egito, da Jordânia, do Kuwait, dos Emirados Árabes Unidos, de Omã, do Qatar e do Iêmen. - O anúncio, há vinte e quatro horas, pelo Departamento do Tesouro americano, da decisão dos Estados membros do Centro de Combate ao Financiamento do Terrorismo (TFTC) de impor medidas contra as fontes de financiamento do Hezbollah (incluindo o Qard el-Hassan). Face a esta dinâmica americana, o regime iraniano tenta se agarrar a dois trunfos que busca preservar: a manutenção do seu papel preponderante no Líbano (seriamente questionado pela posição firme do poder libanês a esse respeito); e o reconhecimento da sua soberania sobre o Estreito de Ormuz, ignorando as regulamentações e o Direito internacional nessa matéria. A esse respeito, um alto funcionário americano indicou ao site Axios que os negociadores americanos deixaram claro aos delegados iranianos presentes em Doha que a insistência do Irã em impor uma taxa de passagem aos navios que utilizam o Estreito de Ormuz corre o risco de torpedear o acordo-quadro entre Washington e Teerã. Caso(s) a seguir, portanto…

O "lugar teológico" dos movimentos eclesiais (2/2)

Reunidos no dia 29 de maio passado por iniciativa do movimento dos Focolares, 35 representantes e membros de movimentos eclesiais puderam se expressar publicamente sobre suas identidades particulares e sua missão. Tomando a palavra diante da assembleia reunida na catedral da Ressurreição, Jean Barbara, ex-presidente de Charis e presidente de uma constelação de comunidades unidas sob a bandeira “Gládio do Espírito” (“o gládio do Espírito é a palavra de Deus”, Efésios 6,17), apresentou o ponto de vista do cardeal Josef Ratzinger sobre os movimentos eclesiais. Ele citou um documento pouco conhecido do prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, redigido em 1998 a pedido de João Paulo II e intitulado O lugar teológico dos movimentos eclesiais , no qual define os movimentos como um “lugar teológico” complementar às paróquias. Na época, a Igreja, embora sempre tivesse incentivado os movimentos de apostolado dos leigos a se envolverem ativamente em seu interior, ainda não havia definido a teologia desses movimentos. O cardeal Ratzinger observou em seu estudo que, em 1970, ao sair de um “inverno” no qual o cansaço dos cristãos era evidente, algo havia acontecido que ninguém havia previsto: em toda a Igreja Católica, a experiência da efusão do Espírito se espalhava como fogo e alcançava milhões de fiéis. A Igreja assistia à multiplicação de novos grupos de oração e movimentos. Falava-se até mesmo de uma “nova Pentecostes”. Em 1998, porém, grupos de oração e comunidades já conheciam sua parcela de doenças infantis, constatou o “cardeal panzer”. Por isso, havia se tornado necessário que a Igreja refletisse sobre a maneira de relacionar adequadamente os novos movimentos e as estruturas permanentes da Igreja. Em outras palavras, era necessário determinar corretamente o seu “lugar teológico”. Diversas tentativas haviam sido feitas para resolver a questão. Sustentava-se que a Igreja era institucional, enquanto os movimentos eram carismáticos; que a Igreja era cristológica, enquanto os movimentos eram pneumatológicos; e, finalmente, que a Igreja era hierárquica, enquanto os movimentos eram proféticos. No entanto, o cardeal Ratzinger afirmou que a Igreja institucional era igualmente carismática, pneumatológica e profética quanto os movimentos em questão, embora de outra maneira. De sua parte, ele abordou essa problemática sob dois ângulos históricos precisos: distinguindo as dimensões local e universal da Igreja, que alguns identificam respectivamente com seu rosto petrino e seu rosto mariano, e revisitando o papel dos movimentos eclesiais na história da Igreja. Desde o início da Igreja, demonstrou o cardeal Ratzinger, evocando as figuras apostólicas e episcopais de São Paulo e de São Tiago, primeiro bispo de Jerusalém, essas duas estruturas coexistem. Certamente, havia uma certa interconexão entre elas, mas era possível distingui-las claramente: de um lado, os ministérios eclesiais locais, que assumiram progressivamente formas permanentes por meio dos colégios episcopais e sacerdotais; de outro, o ministério apostólico através dos movimentos eclesiais. Ele concluiu afirmando que a dimensão universal, ou seja, o elemento que transcende os ministérios locais, é tão indispensável quanto estes últimos. Em apoio a esse argumento, Ratzinger traçou um panorama dos diversos movimentos apostólicos na história da Igreja, desde o surgimento da vida eremítica no século IV, com Santo Antão, o Grande, até o nascimento, no século XIX, de congregações missionárias principalmente femininas nos continentes ainda pouco alcançados pelo cristianismo, passando pelo movimento monástico com São Basílio, pelo monaquismo missionário que floresceu entre os séculos VI e IX e contribuiu para a evangelização das ilhas britânicas e dos povos germânicos, pelas ordens mendicantes do século XIII, que contribuíram grandemente para a cristianização da Europa, e pelos movimentos missionários do século XIX, que assumiram a missão mundial nas Américas, na África e na Ásia. Em suma, o cardeal Ratzinger destacava a existência de uma continuidade histórica entre a vida eremítica, o monaquismo, as ordens mendicantes, as congregações missionárias e os movimentos atuais. A resposta do Espírito Santo Com base nessas duas perspectivas, Ratzinger observou que, na Igreja, há sempre necessidade de ministérios e missões que não estejam ligados exclusivamente à Igreja local; que os movimentos apostólicos surgem necessariamente sob formas sempre novas ao longo da história, pois são a resposta do Espírito Santo às situações mutáveis pelas quais passa a Igreja; e, finalmente, que, quando esses movimentos são acolhidos pelos bispos e sacerdotes no interior das estruturas diocesanas e paroquiais, eles representam um verdadeiro dom de Deus, tanto para a nova evangelização quanto para a atividade missionária. Ao concluir sua apresentação, Jean Barbara declarou: “Os movimentos eclesiais existem e encontram seu lugar na Igreja porque nos encontramos na continuidade histórica da obra apostólica universal do Espírito Santo, do movimento monástico, das ordens religiosas e até nós mesmos. Somos os sucessores dos monges... e de outras ordens religiosas, com uma missão universal. Certamente, numericamente somos apenas uma pequena parcela, mas aos olhos do Senhor, não é o número que conta”. Ao final da reunião, dom Antoine Bou Najem deu um testemunho emocionante sobre aquilo que deve ao movimento dos Focolares. Ao recordar o retiro preparatório para sua ordenação, que realizou em Loppiano, centro do movimento na Itália, afirmou: “Foi em Loppiano que compreendi, profundamente inspirado pela experiência comunitária, que o sacerdócio é um serviço antes de ser uma autoridade, uma doação de si mesmo antes de ser um cargo”. Por sua vez, dom Paolo Borgia pediu espontaneamente aos fiéis e aos movimentos eclesiais que não se esquecessem de citar os sacerdotes e os bispos em suas orações. “Não pensem que eles não precisam disso”, declarou, insistindo que a hierarquia religiosa necessita do apoio e das orações dos leigos. “O maior combate” O cardeal indiano Ivan Dias (1936-2017) conta que, alguns meses antes de se tornar o papa João Paulo II, em 9 de novembro de 1976, o cardeal Karol Wojtyla dizia: “Estamos hoje diante do maior combate que a humanidade já viu. Não acredito que a comunidade cristã o tenha compreendido totalmente. Estamos hoje diante da luta final entre a Igreja e a Anti-Igreja, entre o Evangelho e o Anti-Evangelho”. E o antigo prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos apontava para uma poderosa corrente de secularização, relativismo e indiferença que coloca o mundo sob forte pressão, sufocando e apagando a fé de dezenas de milhões de pessoas. Considerado providencial por João Paulo II, o florescimento dos movimentos eclesiais após o Concílio Vaticano II é um dos fenômenos mais marcantes e inesperados do catolicismo contemporâneo. No Líbano e no mundo, eles fazem hoje parte do panorama eclesial. Enraizados na oração e na Eucaristia, esses movimentos são uma das “armas” que deveriam, em última instância, abalar os fundamentos da “Anti-Igreja” e do relativismo.

Cronologia das tréguas após a guerra dos 40 dias no Irã

Após quarenta dias de guerra entre os Estados Unidos e Israel, de um lado, e o Irã, do outro, e simultaneamente entre Israel e o Hezbollah no Líbano, em 8 de abril de 2026, entrou em vigor um primeiro acordo-quadro de cessar-fogo entre Washington e Teerã. Algumas horas depois, uma série de operações aéreas israelenses em larga escala atingiu mais de trinta posições do Hezbollah no Líbano em um intervalo de dez minutos, deixando mais de 300 mortos e 1.150 feridos, em alguns dos ataques mais letais do conflito, com a aviação israelense lançando precisamente 160 bombas. O acordo entre Estados Unidos e Irã, inicialmente previsto para quinze dias e que não incluía o Líbano, foi prorrogado por prazo indeterminado em 21 de abril. Ele previa, além da interrupção das hostilidades entre as duas partes, a reabertura do Estreito de Ormuz e o início de negociações diplomáticas. Essas negociações resultaram, em 17 de junho de 2026, no protocolo de entendimento, válido por 60 dias, que incluía o fim da guerra no Líbano, assinado por Donald Trump e Massoud Pezeshkian, com o objetivo de estabelecer uma cessação duradoura das hostilidades. Enquanto isso, e sob forte pressão americana, um acordo complementar sobre o Líbano entrou em vigor em 17 de abril de 2026, nove dias após o início do cessar-fogo entre Irã e Estados Unidos e do ataque israelense simultaneamente devastador. Essa trégua, negociada entre Trump, Netanyahu e Joseph Aoun, estabelecia o fim dos combates por um período de dez dias. Ela foi prorrogada e posteriormente levou ao acordo-quadro libano-israelense assinado em Washington em 26 de junho de 2026. A ilusão do cessar-fogo Desde 17 de abril, e mesmo após o acordo-quadro de 26 de junho, o cessar-fogo no Líbano rapidamente demonstrou seus limites no terreno. De fato, as hostilidades não cessaram: entre violações repetidas, ampliação geográfica dos ataques e desastre econômico, o sul do Líbano continuava sendo palco de um confronto de alta intensidade até 26 de junho, passando depois para uma intensidade média a baixa. No mesmo “estande” do Hezbollah mencionado na legenda anterior, um cartaz mostra um combatente fazendo uma saudação militar, com a bandeira libanesa e a bandeira do Hezbollah. Uma cena extremamente rara, quase impensável, já que a bandeira nacional costuma estar ausente das manifestações do Hezbollah, e ainda menos é colocada em destaque diante da bandeira amarela do grupo pró-Irã. (AFP) Para ilustrar melhor a postura da Casa Branca em relação aos cessar-fogos entre Israel e o Hezbollah, que não foi diretamente incluído nas negociações, Donald Trump, questionado no início de junho de 2026 no Salão Oval, afirmou que “um cessar-fogo no Líbano é diferente de um cessar-fogo em outros lugares do mundo”. Essa declaração demonstra sua intenção de separar a situação libanesa do dossiê iraniano, embora os iranianos relacionem os dois conflitos, uma ligação mais próxima da realidade e que fragiliza os acordos, a menos que as autoridades libanesas demonstrem firmeza e solidariedade. Uma assimetria de fogo persistente O Hezbollah, assim como seu público incondicional, continua demonstrando uma negação patológica de uma realidade muito mais sombria do que o imaginário coletivo. Entre o primeiro cessar-fogo Líbano-Israel de abril e 14 de junho de 2026, data do anúncio do protocolo de entendimento Washington-Teerã incluindo o Líbano, os dados coletados demonstram um claro desequilíbrio das forças e da atividade militar no terreno. Durante esse período de 59 dias, as forças israelenses realizaram um total de 5.056 ataques de todos os tipos (principalmente ataques aéreos, drones, artilharia e outros) contra 947 do movimento xiita em todas as modalidades (mísseis antitanque com carga tandem, drones, morteiros e outros), o equivalente a 5,34 ataques israelenses para cada ataque do Hezbollah (1). Essa disparidade se traduz em uma média diária de 94 ataques israelenses, com picos de intensidade alarmantes, especialmente em 26 de maio de 2026, quando foram registrados 203 ataques realizados pelo exército israelense em apenas um dia. Desde o início do conflito, números alarmantes Se voltarmos ao início do conflito, nenhum balanço oficial preciso sobre o número bruto de bombas lançadas sobre o Líbano desde 2 de março de 2026 foi divulgado. Os institutos científicos e as autoridades governamentais libanesas, porém, realizaram levantamentos. Entre 2 de março e 16 de abril de 2026 (antes do primeiro cessar-fogo Líbano-Israel), o Conselho Nacional de Pesquisa Científica do Líbano registrou 8.200 ataques israelenses de todos os tipos (ataques aéreos, disparos de artilharia e incursões), incluindo 306 ondas massivas de ataques aéreos apenas durante as duas primeiras semanas de março. Somando esse número ao registrado após 17 de abril (2), o total desde 2 de março até 14 de junho chega a 13.256 ataques israelenses. Por fim, desde meados de junho de 2026, os bombardeios continuam em um ritmo menor, mas diariamente, variando de 10 a mais de 160 projéteis por dia, segundo a FINUL. Paralelamente, nenhum número oficial global e preciso sobre a tonelagem de munições (massa líquida de explosivos ou peso das bombas) foi divulgado desde o início do conflito, nem para o exército israelense nem para o Hezbollah. No entanto, os balanços publicados pelas Forças de Defesa de Israel indicam o uso de bombas guiadas de 250 a 900 kg durante os ataques aéreos, o que representa, em termos aproximados de tonelagem total, 12.500 toneladas de munições aéreas lançadas contra o Líbano. Para efeito de comparação, durante a guerra de 33 dias de 2006, Israel havia lançado sobre o Líbano 7.500 toneladas de bombas. Para maior precisão, registros da FINUL indicam que, em dias típicos de observação, cerca de 97% das trajetórias de explosivos e projéteis observadas provinham das forças israelenses. Do lado do Hezbollah, o arsenal é baseado em foguetes, mísseis antitanque e drones suicidas, em vez de bombas pesadas de aviação. Desde o colapso do primeiro cessar-fogo de 17 de abril, o partido pró-Irã lançou vários milhares de projéteis, com picos de 100 a 200 projéteis em dias de alta intensidade. A carga explosiva individual desses foguetes (do tipo Katyusha/Grad) é geralmente estimada entre 20 e 50 kg, o que deixa uma tonelagem total pelo menos 18 vezes inferior à das munições israelenses. Isso reduz a massa de munições do Hezbollah direcionadas contra Israel para cerca de 700 toneladas. A inovação tecnológica do Hezbollah No final de abril de 2026, o Hezbollah alcançou um novo patamar militar ao mobilizar em grande escala drones kamikazes FPV (First Person View), guiados por cabos ultrafinos de fibra óptica. Inspirados nas táticas do conflito ucraniano e montados a baixo custo (entre 300 e 600 dólares por unidade), esses aparelhos feitos de material não metálico dispensam completamente ondas de rádio e sinal de GPS. Essa característica técnica os torna praticamente indetectáveis pelos radares e imunes aos sistemas israelenses de interferência eletrônica. Graças a um fluxo de vídeo em alta definição ininterrupto, transmitido por cabos ultrafinos de fibra óptica que conectam os drones aos operadores do Hezbollah, esses equipamentos conseguem realizar ataques cirúrgicos de precisão contra veículos blindados das Forças de Defesa de Israel, causando as maiores perdas humanas israelenses desde maio e obrigando o Estado-Maior israelense a repensar seus sistemas de proteção terrestre. Esses “drones kamikazes” representavam, de fato, mais de 50% das operações da milícia pró-Irã até 26 de junho. Do outro lado, a resposta israelense baseava-se principalmente no poder aéreo (60,5% dos ataques) e no uso intenso da artilharia, mirando principalmente infraestruturas, mas sem capacidade de resposta eficaz contra os drones FPV. E o acordo-quadro libano-israelense? Sob um ponto de vista puramente tático e técnico, desde 26 de junho observa-se uma redução relativa da intensidade das operações militares. As campanhas massivas de ataques aéreos israelenses deram lugar a ataques aéreos e ataques de drones mais direcionados, além de ações terrestres limitadas, incluindo demolições de edifícios e infraestruturas. Embora o Hezbollah também pareça ter reduzido ou interrompido seus ataques, o cenário permanece extremamente frágil, diante do fator iraniano, que busca atrasar as negociações em curso em Bürgenstock, e do fator israelense, que prioriza a questão da segurança e pretende esvaziar o sul da linha amarela de seus habitantes que apoiam a milícia pró-Irã. Em conclusão, o “cessar-fogo” é extremamente frágil e o Hezbollah está longe de proclamar uma vitória em voz alta, embora tenha se adaptado a novas táticas e técnicas. Para o Líbano, já enfraquecido por uma crise multidimensional, a implementação das cláusulas do acordo-quadro representa um verdadeiro desafio. (1) e (2): Fadi Hajji-Georgiou, pesquisa e desenvolvimento

Incerteza quanto à retomada do diálogo entre os EUA e o Irã em Doha

Voltamos ao ponto de partida diante da incerteza que envolve, há dois dias, uma retomada, até então anunciada, das discussões entre os Estados Unidos e o Irã em Doha? Provavelmente não, embora a questão seja legítima. A realidade parece mais complexa, mas o jogo está longe de ser fácil. Teerã e Washington não parecem dispostos a fazer novas concessões, além daquelas que já haviam sido aceitas no âmbito do memorando de entendimento que assinaram em 18 de junho. Se Doha recebe hoje os enviados americanos, Steve Witkoff e Jared Kushner, assim como uma delegação técnica iraniana à qual se juntará, na quarta-feira, o vice-ministro iraniano das Relações Exteriores responsável pelos assuntos jurídicos e internacionais, Kazem Gharibabadi, as autoridades do Catar afirmam que, neste momento, não está prevista nenhuma reunião direta de alto nível com autoridades iranianas. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Catar, Majed el-Ansari, afirmou durante uma coletiva de imprensa realizada ao longo do dia que nenhuma reunião direta entre autoridades americanas e iranianas está prevista para os próximos dias. Citado por agências de notícias iranianas e iemenitas, Kazem Gharibabadi esclareceu que o primeiro ciclo de discussões técnicas, no âmbito dos grupos de trabalho designados, será realizado “quando as condições estiverem reunidas e depois que houver um acordo sobre a data e o local”. Ele indicou que “consultas sobre o tema estão em andamento por meio dos países mediadores”. Kazem Gharibabadi deve se reunir na quarta-feira com autoridades catarianas para tratar dos seis bilhões de dólares em ativos iranianos congelados, anunciou na noite de terça-feira o Ministério das Relações Exteriores do Irã. Uma prioridade para a República Islâmica, que enfrenta grandes dificuldades financeiras. O estreito e os ativos congelados Segundo Majed el-Ansari, os enviados americanos Steve Witkoff e Jared Kushner, presentes no emirado, conversarão exclusivamente com os mediadores catarianos e com autoridades locais para avaliar a aplicação do protocolo de acordo assinado em meados de junho. As discussões abordarão todos os temas regionais, incluindo Irã e Líbano. Em outras palavras, os mediadores voltam a atuar para tentar encontrar um terreno comum entre os Estados Unidos e o Irã, que considera ter feito concessões suficientes no âmbito do memorando de entendimento. A principal questão agora é saber como serão resolvidos os impasses envolvendo o Estreito de Ormuz e os ativos congelados. Teerã insiste em seu direito autoproclamado de controlar o estreito, enquanto essa possibilidade enfrenta forte oposição árabe, americana e europeia. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Catar foi muito claro sobre o assunto: Doha não aceitará um controle iraniano do estreito. Majed el-Ansari também confirmou que os fundos iranianos congelados, cujo desbloqueio está previsto no memorando de entendimento, ainda não foram transferidos. Por sua vez, Teerã mantém um discurso inflexível, até mesmo ameaçador. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaïl Baghaï, advertiu que qualquer violação do memorando de entendimento por parte de Washington provocaria uma resposta imediata. “Nenhuma ação ficará sem resposta”, declarou, em uma referência aos ataques americanos contra alvos iranianos quando Teerã atacou petroleiros que atravessaram o Estreito de Ormuz utilizando o corredor previsto pelo Sultanato de Omã, em coordenação com Washington. Esmaïl Baghaï também insistiu na necessidade de os Estados Unidos “respeitarem seu compromisso de pôr fim à guerra em todas as frentes, especialmente no Líbano”. Segundo ele, Washington deve, se necessário, obrigar Israel a respeitar os termos do acordo. Pezeshkian denuncia ataques contra negociadores A importância de uma cessação das hostilidades na frente libanesa também foi destacada pelo presidente iraniano, Massoud Pezeshkian, que, durante uma viagem à província de Qom, fez questão de afirmar que o acordo com Washington foi concluído “em plena coordenação com o líder supremo Mojtaba Khamenei e com o apoio do Conselho Supremo de Segurança Nacional”. Seu discurso, no entanto, confirmou mais uma vez a existência de duas correntes em oposição dentro do Irã. Segundo o site Iran International, Massoud Pezeshkian defendeu a equipe responsável pelas negociações com os Estados Unidos ao afirmar que ela coordenou todos os passos com Mojtaba Khamenei. “Infelizmente, alguns grupos estão trabalhando, na continuidade das operações psicológicas conduzidas por meios de comunicação hostis, para enfraquecer esse avanço atacando a equipe de negociação e questionando as decisões nacionais”, declarou. De acordo com o Iran International, suas declarações ocorrem em um momento em que seu governo enfrenta uma pressão crescente por parte de facções ultraconservadoras contrárias a um diálogo com Washington. O site lembra que várias figuras da linha dura acusaram o presidente e sua equipe de negociadores de terem feito concessões, ao mesmo tempo em que colocaram em dúvida o apoio do líder supremo às principais decisões de segurança. Expectativa no Líbano No Líbano, onde o acordo-quadro com Israel também provoca críticas, ainda se aguarda a implementação das disposições desse documento que prevê, entre outros pontos, uma retirada israelense progressiva das áreas atualmente ocupadas no sul do Líbano, onde as forças regulares devem se posicionar, além do desmantelamento gradual das estruturas militares do Hezbollah. Israel, como se sabe, deve se retirar primeiro de “zonas-piloto”, uma ação coordenada com o Centcom, cujo comandante, o almirante Brad Cooper, realizou na segunda-feira uma visita a Beirute e Tel Aviv. No dia seguinte à visita, o presidente libanês Joseph Aoun recebeu o comandante em chefe do Exército, general Rodolphe Haykal, para discutir o papel das tropas na aplicação do acordo-quadro. No terreno, a situação continua volátil. A artilharia israelense atingiu as aldeias de Hebbariyé, no distrito de Marjeyoun, Beit Yahoun, no distrito de Bint Jbeil, e Majdel Zoun, no distrito de Tiro. Essa localidade está agora dividida em duas após a explosão de um túnel subterrâneo do Hezbollah, que provocou uma enorme detonação. Ao mesmo tempo, os meios de comunicação israelenses informaram sobre uma visita do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e de seu ministro da Defesa, Israel Katz, ao setor controlado pelo Exército israelense no sul do Líbano. Dirigindo-se aos militares, Benjamin Netanyahu afirmou que Tel Aviv “começou a desmantelar o eixo iraniano, atacando diretamente a República Islâmica e estabelecendo uma zona-tampão no sul do Líbano”. Ele garantiu que o Exército permanecerá no sul do país “enquanto o Hezbollah não for desarmado e não representar uma ameaça para Israel”. No entanto, afirmou que o arsenal militar dessa organização “representa apenas 8% do que era antes da guerra” e que “9 mil milicianos foram eliminados”.

Da guerra ao Estado
Por
Yakzan Takki
Publicado

A importância do acordo-quadro proposto entre o Líbano e Israel não reside apenas no fato de buscar pôr fim a um confronto militar. Seu verdadeiro alcance está na profunda transformação que reflete na própria natureza dos acordos do pós-guerra. O documento distancia-se dos tradicionais acordos de cessar-fogo e vai muito além de disciplinar as linhas de contato ou as modalidades de retirada. Ele lança as bases de um novo modelo de resolução de conflitos, no qual a construção do Estado passa a integrar o próprio processo de construção da paz e no qual a soberania adquire um significado renovado, muito mais complexo do que a simples proteção das fronteiras. Enquanto os Acordos de Camp David, o Tratado de Paz entre Israel e Jordânia firmado em Wadi Araba, bem como o Acordo de Taif e os Acordos de Dayton surgiram após grandes guerras com o propósito de reorganizar as relações políticas entre antigos beligerantes, o acordo atual vai um passo além. Ele busca redefinir a relação entre o próprio Estado libanês e os instrumentos da força existentes em seu território, ao mesmo tempo em que reconfigura o ambiente de segurança regional, apesar da oposição do Hezbollah, que pretende apoiar-se em seu patrocinador iraniano para definir os contornos da ordem do pós-guerra. Também chama a atenção o fato de que o documento não parte da pergunta sobre por que a guerra eclodiu. Em vez disso, formula uma questão inteiramente diferente: que forma deverá assumir o Estado quando a guerra terminar? Por essa razão, dedica muito menos atenção às conhecidas causas históricas do conflito do que à ordem política destinada a surgir após o fim dos combates. Mais do que escrever o epílogo da guerra, o texto escreve o prólogo de uma nova etapa política. Uma leitura desconstrutiva do texto revela que sua questão central não são as fronteiras, mas o monopólio do uso da força pelo Estado. Praticamente todas as suas disposições giram em torno de devolver ao Estado libanês a autoridade exclusiva para decidir sobre a guerra e a paz, do desarmamento dos grupos armados que atuam fora das instituições oficiais e da submissão da segurança nacional à autoridade constitucional. Dessa forma, o acordo reflete uma notável evolução do próprio conceito de soberania. Ela deixa de limitar-se à proteção das fronteiras ou ao fim da ocupação e passa a abranger também o controle exclusivo do Estado sobre o uso da força dentro de seu território. A soberania assume, assim, uma dupla dimensão: exerce-se tanto sobre o território quanto sobre os instrumentos da força no plano interno. Ao mesmo tempo, o documento evidencia a habilidade negociadora do embaixador Simon Karam e de sua equipe diplomática. Ele não reabre a questão das fronteiras internacionais nem as trata como um tema passível de nova negociação. Parte, ao contrário, da premissa implícita de que essas fronteiras, excetuadas as conhecidas questões técnicas, se sustentam em uma legitimidade internacional já consolidada à luz do direito internacional, decorrente do Acordo Geral de Armistício entre o Líbano e Israel de 1949, levando igualmente em consideração as circunstâncias históricas que lhe deram origem, o justificaram e lhe conferiram legitimidade. Desse modo, os negociadores libaneses conseguiram separar a questão da soberania territorial, considerada juridicamente resolvida, dos arranjos de segurança impostos pelas circunstâncias da guerra. Com isso, impediram que os resultados do conflito se transformassem em um pretexto para redefinir as fronteiras do Estado libanês, cujo papel na estabilidade internacional continua particularmente relevante, ou para reabrir a discussão sobre qualquer acordo definitivo que venha a ser alcançado no futuro. Nesse sentido, essa abordagem constitui um modelo internacional de preservação do conjunto dos instrumentos jurídicos internacionais, cujo significado continua a ser determinado dentro de seu contexto histórico mais amplo, isto é, de seu ambiente geoestratégico regional e internacional. A filosofia que orienta a implementação do acordo é tão importante quanto o seu próprio conteúdo. O documento não parte do pressuposto de que a paz surgirá simplesmente com a assinatura do acordo. Reconhece, de forma implícita, que as consequências da guerra continuarão presentes no terreno e que violações ou incidentes ainda poderão ocorrer durante o período de transição. Por isso, adota uma lógica gradual, na qual cada retirada corresponde a uma etapa recíproca, enquanto cada avanço no terreno é acompanhado por mecanismos de verificação e supervisão internacional. O gradualismo deixa, assim, de ser um simples procedimento técnico para tornar-se uma verdadeira filosofia política, que reconhece que a passagem da guerra para a paz constitui um processo cumulativo, e não um acontecimento instantâneo. Trata-se menos de proclamar o fim da guerra do que de administrar a transição para a paz. A modernidade deste acordo também se manifesta em sua arquitetura negociadora. A história diplomática foi marcada, em geral, por acordos concluídos dentro de um único processo de negociação que reunia diretamente as partes envolvidas. Neste caso, porém, o acordo parece integrar uma arquitetura regional muito mais ampla, na qual o processo libanês-israelense avança paralelamente a outros processos de negociação que influenciam o ambiente estratégico mais amplo do conflito. Se os sinais políticos apontam para entendimentos paralelos entre Washington e Teerã sobre questões regionais de maior alcance, o sucesso do acordo libanês já não depende apenas da vontade política de Beirute e Tel Aviv, mas também da solidez dos equilíbrios produzidos por esses entendimentos regionais. O mundo passa, assim, da lógica do “acordo único” para a dos “acordos simultâneos”, em que cada processo de negociação se torna parte de uma rede mais ampla de entendimentos. Ainda assim, o presidente Joseph Aoun afirmou: “Recebemos com satisfação toda ajuda oferecida por outros Estados para pôr fim à guerra. Mas há uma diferença entre nos ajudar e interferir em nossos assuntos internos. Negociamos em nosso próprio nome e não aceitaremos que ninguém negocie em nosso lugar.” O documento também redefine a função da reconstrução. Ela deixa de ser apresentada apenas como uma resposta humanitária aos efeitos da guerra e passa a integrar uma equação política e de segurança mais ampla, que vincula a assistência internacional a avanços verificáveis no restabelecimento da autoridade do Estado e na consolidação de seu monopólio sobre as armas. Dessa forma, a ajuda econômica transforma-se em um instrumento de consolidação da estabilidade, mais do que em um simples meio de reparar a destruição material. O alcance mais profundo do acordo, contudo, vai além de suas disposições de segurança e suscita uma reflexão sobre o futuro do próprio sistema político libanês. Ao defender o controle exclusivo do uso da força pelo Estado, o documento abre implicitamente o caminho para que as instituições constitucionais exerçam, de maneira exclusiva, a autoridade sobre as decisões nacionais. Questões dessa magnitude somente poderão alcançar estabilidade duradoura quando deixarem a lógica das ruas e das correlações de força para ingressarem no âmbito das instituições. Por isso, qualquer oposição ao acordo, sejam quais forem suas justificativas políticas ou ligadas à soberania, deveria encontrar seu espaço natural no Parlamento, enquanto instituição constitucional que representa a vontade nacional e exerce as funções de legislação e fiscalização. A oposição não constitui o oposto do Estado. Ela somente se torna uma ameaça quando abandona o terreno institucional em favor das disputas de poder no campo. Se o acordo pretende pôr fim à existência de grupos armados ilegais que atuam à margem da autoridade estatal, ao mesmo tempo testa a capacidade dos libaneses de consolidar a unidade da decisão política no interior de suas instituições legítimas. Em última análise, este documento não pode ser compreendido apenas como um acordo de segurança entre dois Estados. Ele representa uma tentativa de redefinir o próprio conceito de soberania, os mecanismos de construção da paz e a natureza do Estado na era do pós-guerra. Desloca o debate das fronteiras para as instituições, da gestão do conflito para a reconstrução do Estado, e de uma paz concebida como simples cessar-fogo para uma paz entendida como um processo político gradual. O êxito desse projeto depende, em última instância, de um fator que transcende o próprio texto do acordo: a capacidade dos libaneses de levarem suas divergências das ruas para o terreno da disputa democrática dentro do Parlamento. Somente então o monopólio estatal do uso da força poderá caminhar lado a lado com o monopólio estatal da decisão política, permitindo que o fim da guerra marque verdadeiramente a construção do Estado, e não apenas mais uma trégua na longa história dos conflitos libaneses. Somente então o fim da guerra poderá tornar-se, de fato, o início do Estado. Mas, se os libaneses optarem por fazer fracassar esse processo fora do marco de suas instituições, não terão apenas derrubado um acordo. Talvez tenham desperdiçado a última oportunidade histórica de reconstruir seu Estado, como se, mais uma vez, o suicídio político prevalecesse sobre o instinto de sobrevivência.

A lista da vergonha
Por
Hisham Dibsi
Publicado

Em 2005, o Conselho de Segurança das Nações Unidas adotou a resolução 1612, que prevê a designação das partes responsáveis por graves violações cometidas contra crianças em conflitos armados e guerras, sejam elas Estados ou forças de fato, como milícias ou autoridades locais ilegítimas. Em aplicação dessa resolução, é publicada a “Lista da vergonha”, que reúne Estados e organizações de acordo com o número e a natureza das violações que cometem. O relatório anual revela que as forças armadas e de segurança cometeram, ao longo do último ano, trinta e oito mil violações contra crianças em todo o mundo. O relatório das Nações Unidas abrange dezesseis países, entre os quais estão, especialmente, Afeganistão, Mali, Haiti, Mianmar, Somália, Nigéria, Sudão, Irã e Israel. Constata-se que as forças armadas e de segurança israelenses são responsáveis, sozinhas, por um quarto das violações registradas, com mais de 12,425 violações cometidas contra cinco mil crianças cujos casos foram verificados, enquanto outros cinco mil casos ainda estão sendo investigados. As forças de segurança israelenses foram, assim, designadas como as principais responsáveis por essas violações e ocupam, pela segunda vez, o primeiro lugar da “Lista da vergonha”. A diretora-geral do UNICEF, Catherine Russell, apresentou sua exposição sobre a questão, afirmando que: “Os números apresentados neste relatório não refletem o número real das violações cometidas contra as crianças, pois o relatório considera apenas os casos que puderam ser verificados. Muitas violações jamais são denunciadas por diversas razões, entre elas as dificuldades de acesso às áreas afetadas, o medo de represálias e outros fatores.” O relatório também mostra que 70% das mortes e dos ferimentos resultam do uso de armas explosivas em áreas densamente povoadas. A presença de Israel no topo dessa “Lista da vergonha” não se limita ao que ocorre na Palestina. As violações cometidas contra crianças no Líbano e na Síria não são menos graves, assim como aquelas que atingem o povo iraniano, já submetido à brutalidade do regime dos mulás. Essas violações constituem, contudo, um grande desafio para todos os países do mundo civilizado, especialmente para as democracias que reivindicam o direito internacional humanitário e as convenções que elas próprias ajudaram a elaborar e promover. O direito internacional prevê, de fato, que sejam responsabilizados não apenas o autor principal e direto dos crimes, mas também as partes que se tornam cúmplices do criminoso, conforme a Convenção de 1948 para a prevenção e repressão do crime de genocídio. A cumplicidade é considerada, assim, uma forma de participação indireta que engloba o apoio material, o apoio logístico e também o apoio moral. Essa responsabilidade jurídica também envolve as empresas que fabricam armas, assim como todas aquelas que participam, direta ou indiretamente, do abastecimento destinado ao esforço militar dos autores do crime de genocídio, incluindo empresas do setor de tecnologias e de inteligência artificial. Em sua intervenção, a representante especial do secretário-geral das Nações Unidas para crianças e conflitos armados, Virginia Gamba, declarou: “A inação não resulta da ignorância. Ela decorre de uma escolha política consciente.” À luz desse testemunho, torna-se legítimo reavaliar as posições de todos os Estados ligados, de perto ou de longe, aos crimes cometidos contra crianças em todo o mundo, onde quer que vivam e quaisquer que sejam as razões pelas quais sua infância tenha sido violada. Permanece enorme a distância entre o que determina o direito internacional e o estado atual da humanidade. Os grandes avanços científicos alcançados até o momento não significam necessariamente um verdadeiro progresso civilizacional. A capital As negociações sobre o status de Jerusalém Oriental haviam sido adiadas para o fim do período de transição previsto pelos Acordos de Oslo, com duração de cinco anos. Quando o prazo se aproximou, no início do terceiro milênio, o primeiro-ministro israelense Ehud Barak recusou-se a abrir discussões sobre as questões relacionadas ao acordo definitivo com o presidente palestino Yasser Arafat. A mediação conduzida pelo presidente americano Bill Clinton antes de deixar a Casa Branca também não conseguiu aproximar as duas partes, pois nenhuma delas aceitou as propostas apresentadas. Ariel Sharon escolheu então outro caminho, o de uma provocação cuidadosamente planejada e coordenada com Ehud Barak, ao entrar na esplanada da mesquita Al-Aqsa. Seguiu-se, inicialmente, uma ampla mobilização popular palestina e, depois, o retorno à luta armada sob a liderança do Hamas. Quando Ariel Sharon assumiu posteriormente o cargo de primeiro-ministro, ordenou, em 15 de agosto de 2005, a retirada da Faixa de Gaza no âmbito do chamado plano de “desengajamento”. Ele apresentou, assim, um modelo de solução baseado na manutenção do projeto do Grande Israel, retirando-se apenas das aglomerações palestinas, enquanto prosseguia paralelamente à judaização de Jerusalém Oriental, submetida à legislação israelense de anexação desde o fim da guerra de junho de 1967. Esse modelo continuou sendo aplicado com o objetivo de prosseguir a judaização da capital do Estado da Palestina. Os habitantes de Jerusalém Oriental foram colocados sob um status jurídico especial que os impede de possuir uma carteira de identidade palestina, ao mesmo tempo em que também os priva da nacionalidade israelense, ao contrário dos palestinos que vivem dentro de Israel. O governo concedeu a eles, portanto, um documento com a indicação de “residente permanente”, que lhes permite apenas votar nas eleições municipais de Jerusalém, sem reconhecer o direito de participar das eleições para a Knesset. A cada eleição legislativa palestina, a mesma batalha ressurge em torno do direito dos habitantes de Jerusalém de votar na Autoridade Nacional Palestina e em seu Conselho Legislativo. As autoridades israelenses se opõem sistematicamente à sua participação no pleito palestino, embora, segundo o direito internacional, eles continuem sendo habitantes de um território ocupado que devem receber proteção internacional. Desde seu primeiro mandato, o presidente Trump reconheceu a anexação de Jerusalém por Israel ao transferir a embaixada americana de Tel Aviv para a cidade, sem se preocupar com as consequências de tal decisão. Ele foi ainda mais longe ao fechar o escritório da Organização para a Libertação da Palestina em Washington. No mês de maio passado, a Knesset aprovou em primeira leitura um projeto de lei que cria uma “Autoridade do Patrimônio na Judeia e Samaria”, denominação bíblica atribuída à Cisjordânia. O texto ainda precisa ser aprovado em segunda e terceira leituras. Uma vez em vigor, todos os sítios arqueológicos da Cisjordânia ficarão sob a autoridade do governo israelense. Esses vestígios, presentes em praticamente toda a região, abrangem períodos que vão desde a época cananeia até os períodos romano e otomano, o que permitirá a essa autoridade restaurar, construir, comprar e vender sem encontrar obstáculos. Tal evolução permitiria a Israel apropriar-se de qualquer área localizada em Jerusalém e, de maneira geral, na Cisjordânia. Aos seus olhos, a questão central continua sendo a do Templo, que consideram estar enterrado sob a mesquita Al-Aqsa segundo sua própria narrativa. É nessa perspectiva que o governo de Netanyahu multiplica medidas destinadas à administração do santuário, ocupando algumas de suas partes para instalar soldados e também a “Unidade dos Guardiões do Templo”, encarregada de proteger aqueles que desejam entrar no recinto da mesquita para realizar seus ritos religiosos. As forças israelenses assumiram posições, assim, em quatro edifícios situados dentro do complexo de Al-Aqsa: a cúpula do imã Al Ghazali, a cúpula de Salomão, a cúpula de Moisés e a Casa do Hadith. As forças de segurança também afastaram trinta e sete guardiões e funcionários para reduzir o número de guardiões palestinos de cinquenta para vinte por equipe, ao mesmo tempo em que retiraram as permissões de trabalho de trinta funcionários do santuário residentes na Cisjordânia. Paralelamente, a polícia israelense iniciou uma campanha de recrutamento de novos voluntários destinados a integrar a “Unidade do Monte do Templo”, entre os extremistas judeus mais radicais. Essas políticas, que violam os acordos firmados com a Autoridade Palestina e com o Reino Hachemita da Jordânia, depositário da tutela sobre a mesquita Al-Aqsa desde os anos vinte do século passado, não provocam de Netanyahu mais do que uma breve declaração garantindo que nada teria sido alterado no terreno. No entanto, apesar da fragilidade de seus apoios, o movimento Paz Agora continua sendo a única organização a denunciar esse projeto, declarando: “Se esse projeto de lei for aprovado pela Knesset, ele constituirá, em todos os aspectos, uma medida de anexação acompanhada de uma ampla confiscação de terras palestinas.”