

Reunidos no dia 29 de maio passado por iniciativa do movimento dos Focolares, 35 representantes e membros de movimentos eclesiais puderam se expressar publicamente sobre suas identidades particulares e sua missão.
Tomando a palavra diante da assembleia reunida na catedral da Ressurreição, Jean Barbara, ex-presidente de Charis e presidente de uma constelação de comunidades unidas sob a bandeira “Gládio do Espírito” (“o gládio do Espírito é a palavra de Deus”, Efésios 6,17), apresentou o ponto de vista do cardeal Josef Ratzinger sobre os movimentos eclesiais. Ele citou um documento pouco conhecido do prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, redigido em 1998 a pedido de João Paulo II e intitulado O lugar teológico dos movimentos eclesiais, no qual define os movimentos como um “lugar teológico” complementar às paróquias.
Na época, a Igreja, embora sempre tivesse incentivado os movimentos de apostolado dos leigos a se envolverem ativamente em seu interior, ainda não havia definido a teologia desses movimentos. O cardeal Ratzinger observou em seu estudo que, em 1970, ao sair de um “inverno” no qual o cansaço dos cristãos era evidente, algo havia acontecido que ninguém havia previsto: em toda a Igreja Católica, a experiência da efusão do Espírito se espalhava como fogo e alcançava milhões de fiéis. A Igreja assistia à multiplicação de novos grupos de oração e movimentos. Falava-se até mesmo de uma “nova Pentecostes”.
Em 1998, porém, grupos de oração e comunidades já conheciam sua parcela de doenças infantis, constatou o “cardeal panzer”. Por isso, havia se tornado necessário que a Igreja refletisse sobre a maneira de relacionar adequadamente os novos movimentos e as estruturas permanentes da Igreja. Em outras palavras, era necessário determinar corretamente o seu “lugar teológico”.
Diversas tentativas haviam sido feitas para resolver a questão. Sustentava-se que a Igreja era institucional, enquanto os movimentos eram carismáticos; que a Igreja era cristológica, enquanto os movimentos eram pneumatológicos; e, finalmente, que a Igreja era hierárquica, enquanto os movimentos eram proféticos.
No entanto, o cardeal Ratzinger afirmou que a Igreja institucional era igualmente carismática, pneumatológica e profética quanto os movimentos em questão, embora de outra maneira. De sua parte, ele abordou essa problemática sob dois ângulos históricos precisos: distinguindo as dimensões local e universal da Igreja, que alguns identificam respectivamente com seu rosto petrino e seu rosto mariano, e revisitando o papel dos movimentos eclesiais na história da Igreja.
Desde o início da Igreja, demonstrou o cardeal Ratzinger, evocando as figuras apostólicas e episcopais de São Paulo e de São Tiago, primeiro bispo de Jerusalém, essas duas estruturas coexistem. Certamente, havia uma certa interconexão entre elas, mas era possível distingui-las claramente: de um lado, os ministérios eclesiais locais, que assumiram progressivamente formas permanentes por meio dos colégios episcopais e sacerdotais; de outro, o ministério apostólico através dos movimentos eclesiais. Ele concluiu afirmando que a dimensão universal, ou seja, o elemento que transcende os ministérios locais, é tão indispensável quanto estes últimos.
Em apoio a esse argumento, Ratzinger traçou um panorama dos diversos movimentos apostólicos na história da Igreja, desde o surgimento da vida eremítica no século IV, com Santo Antão, o Grande, até o nascimento, no século XIX, de congregações missionárias principalmente femininas nos continentes ainda pouco alcançados pelo cristianismo, passando pelo movimento monástico com São Basílio, pelo monaquismo missionário que floresceu entre os séculos VI e IX e contribuiu para a evangelização das ilhas britânicas e dos povos germânicos, pelas ordens mendicantes do século XIII, que contribuíram grandemente para a cristianização da Europa, e pelos movimentos missionários do século XIX, que assumiram a missão mundial nas Américas, na África e na Ásia. Em suma, o cardeal Ratzinger destacava a existência de uma continuidade histórica entre a vida eremítica, o monaquismo, as ordens mendicantes, as congregações missionárias e os movimentos atuais.
A resposta do Espírito Santo
Com base nessas duas perspectivas, Ratzinger observou que, na Igreja, há sempre necessidade de ministérios e missões que não estejam ligados exclusivamente à Igreja local; que os movimentos apostólicos surgem necessariamente sob formas sempre novas ao longo da história, pois são a resposta do Espírito Santo às situações mutáveis pelas quais passa a Igreja; e, finalmente, que, quando esses movimentos são acolhidos pelos bispos e sacerdotes no interior das estruturas diocesanas e paroquiais, eles representam um verdadeiro dom de Deus, tanto para a nova evangelização quanto para a atividade missionária.
Ao concluir sua apresentação, Jean Barbara declarou: “Os movimentos eclesiais existem e encontram seu lugar na Igreja porque nos encontramos na continuidade histórica da obra apostólica universal do Espírito Santo, do movimento monástico, das ordens religiosas e até nós mesmos. Somos os sucessores dos monges... e de outras ordens religiosas, com uma missão universal. Certamente, numericamente somos apenas uma pequena parcela, mas aos olhos do Senhor, não é o número que conta”.
Ao final da reunião, dom Antoine Bou Najem deu um testemunho emocionante sobre aquilo que deve ao movimento dos Focolares. Ao recordar o retiro preparatório para sua ordenação, que realizou em Loppiano, centro do movimento na Itália, afirmou: “Foi em Loppiano que compreendi, profundamente inspirado pela experiência comunitária, que o sacerdócio é um serviço antes de ser uma autoridade, uma doação de si mesmo antes de ser um cargo”.
Por sua vez, dom Paolo Borgia pediu espontaneamente aos fiéis e aos movimentos eclesiais que não se esquecessem de citar os sacerdotes e os bispos em suas orações. “Não pensem que eles não precisam disso”, declarou, insistindo que a hierarquia religiosa necessita do apoio e das orações dos leigos.
“O maior combate”
O cardeal indiano Ivan Dias (1936-2017) conta que, alguns meses antes de se tornar o papa João Paulo II, em 9 de novembro de 1976, o cardeal Karol Wojtyla dizia: “Estamos hoje diante do maior combate que a humanidade já viu. Não acredito que a comunidade cristã o tenha compreendido totalmente. Estamos hoje diante da luta final entre a Igreja e a Anti-Igreja, entre o Evangelho e o Anti-Evangelho”.
E o antigo prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos apontava para uma poderosa corrente de secularização, relativismo e indiferença que coloca o mundo sob forte pressão, sufocando e apagando a fé de dezenas de milhões de pessoas.
Considerado providencial por João Paulo II, o florescimento dos movimentos eclesiais após o Concílio Vaticano II é um dos fenômenos mais marcantes e inesperados do catolicismo contemporâneo. No Líbano e no mundo, eles fazem hoje parte do panorama eclesial. Enraizados na oração e na Eucaristia, esses movimentos são uma das “armas” que deveriam, em última instância, abalar os fundamentos da “Anti-Igreja” e do relativismo.