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Ficamos mais burros?

Ou estamos vivendo uma transformação na estrutura do conhecimento?
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Por Mona Fayad
Publicado em set 5, 2026 - 20:01
A pergunta «O mundo ficou mais burro?» reaparece com frequência nos debates contemporâneos sobre mídia digital, mecanismos de busca e redes sociais. À primeira vista, parece uma pergunta simples, mas esconde uma questão muito mais profunda, ligada à própria natureza do conhecimento: como ele é produzido, como é transmitido e como é consumido. Talvez a pergunta «Ficamos mais burros?» não seja a mais precisa. Talvez devêssemos perguntar: o conhecimento ainda é transmitido de uma maneira que permita compreendê-lo e torná-lo produtivo? A maioria dos leitores ainda recorre aos textos originais? Ou se limita aos seus resumos e ao que é dito a respeito deles por meio daquilo que circula entre os leitores? Uma das chaves para compreender esse fenômeno encontra-se nos trabalhos do psicólogo britânico Frederic Bartlett, que realizou, na década de 1930, uma série de experiências sobre aquilo que chamou de «reprodução serial». Nessas experiências, uma pessoa ouvia uma história e depois precisava contá-la a outra, que por sua vez a contava a uma terceira, e assim por diante. Os resultados foram impressionantes: a cada nova transmissão, a história não era reproduzida exatamente como havia sido contada, mas reformulada. Alguns detalhes desapareciam, outros eram ampliados e outros ainda eram substituídos por elementos mais compatíveis com o contexto, as experiências e a cultura do receptor. Depois de passar por um número suficiente de intermediários, a história original já havia se transformado em algo inteiramente diferente. Esse modelo simples revela uma verdade fundamental: a memória não é um recipiente neutro, mas um mecanismo de reconstrução. E, quando o conhecimento passa por múltiplos intermediários, ele não é «preservado», mas «reproduzido». É aqui que começam a aparecer as semelhanças com o nosso mundo contemporâneo e o receio de que estejamos ficando mais burros. Na era da mídia digital, o conhecimento já não circula por meio da transmissão oral, mas através de cadeias de mediação: um artigo é resumido, depois citado, em seguida republicado sob a forma de uma postagem curta e, por fim, reduzido mais uma vez a uma frase ou a um título. Nesse contexto, podemos retomar uma imagem metafórica usada em um texto jornalístico: uma biblioteca cujos livros são substituídos por resumos, e depois por resumos dos resumos, até que o leitor se veja diante de sucessivas camadas de redução. Algo semelhante ao que poderíamos chamar de «cadeia do guaxinim», que não lê o original, mas remexe em seus restos. Vale esclarecer que a escolha do «guaxinim» não é aleatória. Essa metáfora condensa simbolicamente uma condição cognitiva que vem se consolidando. Esse animal, que vive nas margens das cidades e remexe em latas de lixo, não produz seu alimento, mas se nutre dos restos daquilo que outros produziram. Apesar de sua inteligência prática e de sua capacidade de desmontar, recolher e aproveitar objetos, ele não compreende verdadeiramente aquilo que tem diante de si, mas lida com as coisas como materiais disponíveis para uso imediato. É assim que o conhecimento passa a se apresentar na era da redução serial: textos são resumidos e depois novamente resumidos, até que deles reste apenas um punhado de fragmentos de sentido, reorganizados e postos novamente em circulação sem qualquer vínculo verdadeiro com sua fonte. Nesse ponto, não apenas nos afastamos do original, mas entramos em uma nova etapa da produção da informação ou do conhecimento, na qual o agente cognitivo deixa de ser um leitor ou pensador para se tornar um coletor de restos de significado, que os redistribui em formatos destinados ao consumo rápido. A «cultura do guaxinim», portanto, não é apenas uma descrição da superficialidade. É também uma caracterização precisa da degradação da própria cadeia do conhecimento: da criação ao resumo, da compreensão ao processamento formal, das ideias a algo que já não passa de um vestígio apagado delas. Mas esse fenômeno não pode ser compreendido separadamente da estrutura tecnológica que o governa. É aqui que entra Marshall McLuhan, que sintetizou seu pensamento na célebre frase: «O meio é a mensagem». O problema não está apenas no conteúdo, mas também na forma através da qual esse conteúdo é transmitido. A mídia digital contemporânea não se limita a transportar informações, mas as remodela segundo a lógica da velocidade, da condensação e da fragmentação. O texto longo torna-se inadequado para o consumo, enquanto uma ideia só parece aceitável se puder ser reduzida a poucas linhas facilmente compartilháveis. Essa transformação produz um paradoxo marcante: vivemos numa época em que o acesso ao conhecimento deixou de ser difícil e se tornou excessivamente fácil. E, com essa facilidade excessiva, surge aquilo que poderíamos chamar de «ilusão cognitiva»: basta ler um pequeno trecho ou um resumo rápido para que a pessoa tenha a sensação de ter assimilado uma ideia. Mas essa sensação de domínio não é necessariamente acompanhada por uma compreensão profunda nem pela capacidade de reconstruir ou criticar o conhecimento. É aqui que aparecem os que poderíamos chamar de «semiletrados»: indivíduos que possuem os sinais do conhecimento, mas não sua estrutura; seu vocabulário, mas não sua lógica interna. O problema se torna ainda mais complexo quando o observamos sob o ângulo da atenção. Em vez de permanecer em um estado prolongado de concentração, como acontece na leitura tradicional ou na reflexão demorada, a mente passou a viver sob um bombardeio contínuo de informações: notificações, vídeos, manchetes e ondas sucessivas de conteúdo. Essa situação não apenas dispersa a atenção, mas a reconfigura segundo uma lógica de saltos constantes entre pequenas unidades de significado, em vez de permitir a construção gradual e cumulativa de uma ideia. Lembro aqui de uma anedota que costumávamos contar e que circulava muito na época das manifestações populares. Ela ilustra bem a ideia da redução e da transformação do conteúdo. Depois da ocupação da Palestina, muitas manifestações populares tomaram as ruas gritando «Abaixo a Declaração Balfour!». A brincadeira dizia que, no fim da manifestação, o slogan havia se transformado, em árabe, em «Que alguém caia lá de cima!», uma frase inteiramente diferente que preservava algo do ritmo e da sonoridade da original. Talvez essa imagem nos ajude a compreender melhor o que acontece na linguagem cotidiana quando o conhecimento se transforma em mensagens curtas repetidas coletivamente. A manifestação começa com uma fórmula política precisa. Mas, com a repetição, a imersão coletiva e o ritmo sonoro, ela vai se transformando pouco a pouco em outra fórmula, completamente diferente. Esta pode conservar o ritmo e a carga emocional da primeira, mas perde seu significado e seu sentido original. O que permanece não é o sentido, mas a energia emocional da frase. Aqui se manifesta, de outra maneira, aquilo que Bartlett havia observado: não importa apenas o que foi dito, mas como aquilo foi repetido e como voltou a ser compreendido dentro de um contexto social em transformação. Se reunirmos todos esses fios, podemos dizer que aquilo que vivemos hoje não é propriamente um «colapso da inteligência», mas uma transformação das condições em que ela opera. A mente humana não mudou radicalmente, mas o ambiente em que funciona se transformou profundamente: passamos de um ambiente que permitia a acumulação lenta para outro que impõe a reprodução rápida e fragmentada do conhecimento. Essa mudança cria uma tensão permanente entre duas formas de pensamento: um pensamento reflexivo, que precisa de tempo, e um pensamento rápido, que exige resposta imediata. Sob essa perspectiva, a pergunta «Ficamos mais burros?» torna-se parcialmente enganosa. Talvez seja mais preciso dizer que estamos cada vez mais expostos a condições que tornam o pensamento profundo menos estável, ou menos possível, e o conhecimento mais vulnerável à fragmentação e à reciclagem. Quanto à burrice, se podemos usar o termo, talvez ela não seja uma propriedade da mente, mas um efeito colateral e uma característica da estrutura cultural que se formou. Trata-se de uma tecnologia que está remodelando nossa relação com o mundo. Assim, em vez de enxergar esse fenômeno como um declínio das capacidades humanas, podemos compreendê-lo como uma transformação do «ambiente do conhecimento»: um ambiente em que se tornou fácil saber alguma coisa, mas mais difícil compreendê-la de fato e em profundidade.
Opinião
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Por Youssef Mouawad - Publicado em set 5, 2026 - 13:25
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Em 2010, Israel interceptou com violência o Mavi Marmara, um navio turco fretado por uma ONG humanitária para socorrer a Faixa de Gaza, então sob bloqueio israelita. Esse incidente, a gota de água, fará vir à tona a animosidade entre o governo de Erdogan e o Estado hebraico. (AFP)
A guerra ainda não parou no nosso sul e já corre o risco de eclodir junto aos nossos vizinhos. Ou seja, vivemos a prazo, de conflito em conflito. E com razão! Por pouco o bombardeamento de uma base síria não descambou numa batalha campal entre Ancara e Telavive. Foi a 18 de agosto passado, e Benjamin Netanyahu não foi com meias palavras: o seu país não iria tolerar uma implantação militar turca suscetível de avançar para o sul da Síria. A mensagem foi tanto mais brutal quanto oito ataques tinham visado a base aérea de Abu al-Duhur, situada a 70 quilómetros da fronteira turca. Recorde-se, aliás, que desde a queda de Bashar al-Assad em dezembro de 2024, Erdogan é o principal mentor da nova Síria, a de Ahmed al-Charaa, ajudando-a a reconstruir as suas forças armadas e transformando-a num parceiro estratégico. Já não é a Síria de Hafez al-Assad Terá sido este novo pico de tensão entre Ancara e Telavive que precipitou a reunião entre o chefe da diplomacia síria, Assaad Chaïbani, e o diretor do Mossad, Roman Gofman, a 23 de agosto passado, na Jordânia? Ora, esse encontro discreto não provocou uma onda de indignação no mundo árabe, como aconteceu com a visita imprevista de Anwar al-Sadat a Israel em 1977. Um tabu foi oficialmente quebrado e, de facto, quem poderia ter acreditado que tal concertação seria possível sob o regime baathista? O Estado hebraico deveria ter-se congratulado, mas, ao contrário do que se esperava, não interrompeu nem os seus ataques aéreos nem as suas incursões territoriais, como a de 27 de agosto em Quneitra. É que as coisas mudaram. Sob Hafez al-Assad, a Síria era uma potência regional que, sem ser temível, era temida pelos seus vizinhos imediatos, fossem eles países árabes ou não. Evitava-se procurar confronto com ela e, por isso, o país conduzia, dentro de certos limites, uma política externa agressiva que resvalava muitas vezes para a provocação. E assim, em virtude da autonomia da sua ação e da margem de manobra que se concedia, tinha constituído, nem que fosse apenas geograficamente, uma zona-tampão entre, por um lado, uma Turquia "erdoganesca", que exibia o seu islamismo assumido, e, por outro, um Israel, o Estado consubstancialmente judeu. Ora, eis que, num país esgotado por uma gestão baathista e devastado por anos de guerra civil, a Turquia, ao começar a marcar posições, vai inevitavelmente encontrar-se frente a frente com um Israel que ocupa uma parte do território sírio. O que esperar? Tendo em conta o ego desmedido tanto de Netanyahu como de Erdogan, e no caso de estes dois chefes de Estado permanecerem nos seus respetivos cargos, devemos esperar um duelo épico em território sírio, libanês, jordano, ou até noutros locais. Este combate será feito de fintas, de esquivas, de golpes baixos, mas também de ataques frontais, de corpo a corpo e de escaladas de tensão até ao ponto de rutura. E isto mesmo que o relatório doCongressional Research Servicede setembro de 2025 considere pouco provável um confronto direto entre a Turquia e Israel, precisamente porque ambos os Estados conhecem o custo de uma guerra, caso esta viesse a eclodir. No entanto, no domínio da polemologia, os dirigentes e outras elites não são necessariamente atores racionais! Tanto mais que, aos olhos dos observadores israelitas, o slogan que impera na Anatólia, a saber, «Make Turkey great again», não é de molde a tranquilizar o Estado sionista. Washington terá cada vez mais dificuldade em conter ou separar os dois adversários que já se posicionam em ordem de batalha. A Turquia, um novo Irão? Sim, é uma hipótese, mas apenas num confronto direto com Israel, tendo a Síria se tornado da noite para o dia uma zona onde «se sobrepõem dois perímetros de segurança», o turco e o israelita, o muçulmano e o judeu. E não se pode excluir que o militantismo xiita, esse mobilizador de «proxies», acabe por se aliar, ainda que momentaneamente, a uma «versão irmãos-muçulmana» do islamismo político defendido por Ancara! Teríamos assim, contra todas as expectativas, um Hezbollah apoiado pelo seu inimigo de ontem, Ahmed al-Charaa, um islamista vindo da Jabhat al-Nusra e da Hayat Tahrir al-Cham! Contra o adversário comum, uma inversão de alianças é sempre legítima e oportuna. Mas isso não passaria de uma aliança tática, ditada pelas necessidades do momento, sem qualquer garantia quanto ao futuro. Tendo o nacionalismo árabe sido posto de lado, a Turquia não se vai contentar em conquistar economicamente o mercado sírio, com os seus 25 milhões de consumidores: vai querer exercer influência política em Damasco, mobilizando para isso o seu aparelho militar e de segurança. O poder instável do presidente sírio, incapaz de assegurar certas funções soberanas nem de enquadrar os diversos corpos do Estado, terá necessariamente de recorrer à experiência do seu vizinho do norte. Será, no entanto, de acreditar que este último vai ser arrastado pela espiral de uma «beligerância anunciada»? Tudo aponta nesse sentido, e já se podem perceber os primeiros sinais de um envolvimento que lembra o dos Estados Unidos no Vietname sob Lyndon Johnson. Pois, se o Estado sírio pretende reconstituir-se, precisará antes de mais de um exército capaz de conter as tendências centrífugas dos alauitas, dos drusos e de outras facções que apelam à fragmentação do país. Ora, cabe a Ancara garantir isso e reforçar a autoridade central sediada em Damasco. Mas Israel, que adquiriu maus hábitos na Síria e pretende manter aí liberdade de ação aérea, não pode aceitar um exército estruturado segundo o modelo da NATO e que possa servir de proxy a um projeto neo-otomano. E o Líbano, da primazia à secundarização? Está agora montado um novo cenário para um novo guião que definirá novas regras do jogo! O que será feito do Hezbollah, apanhado numa ratoeira? Bem, poderia beneficiar, neste cenário, ainda que apenas em parte, do apoio logístico de Damasco, apoio que lhe fez gravemente falta desde a queda de Bachar al-Assad. E talvez que, com um deslocamento das placas tectónicas, o Líbano passasse do estatuto de palco inicial ao de palco secundário de um conflito regional. Mas, para ser sincero, isso de pouco nos vai valer!
O Essencial do Dia
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Por LevantTime . - Publicado em set 5, 2026 - 00:55
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O comboio do CICV que transportava os civis libertados, partindo da zona ocupada por Israel no sul do Líbano, seguiu até o ponto que marca o início da área controlada pelas autoridades libanesas. (AFP)
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) anunciou nesta sexta-feira que transferiu para o Líbano outras quatro pessoas libertadas por Israel, um dia após a libertação de um primeiro civil. Segundo o CICV, trata-se de três libaneses e dois sírios. É a primeira vez que uma operação desse tipo ocorre desde o início, em abril, das negociações entre o Líbano e Israel, sob mediação dos Estados Unidos. Beirute havia solicitado, durante a última rodada de negociações, em agosto, a libertação de um primeiro grupo de cidadãos libaneses capturados por Israel no sul do Líbano, onde trava uma guerra contra o Hezbollah, aliado do Irã. Familiares estimam que cerca de 30 pessoas estejam detidas, entre elas combatentes do movimento islâmico. O presidente libanês, Joseph Aoun, agradeceu em comunicado aos Estados Unidos e ao CICV e afirmou que essa libertação «confirma o acerto da posição» do Líbano, que participa de negociações com Israel rejeitadas pelo Hezbollah. Os Estados Unidos elogiaram na quinta-feira «o governo de Israel e o governo do Líbano por demonstrarem boa-fé por meio desses primeiros passos», expressando a esperança de que isso sirva «de base para discussões mais amplas sobre outras questões civis». Os dois países devem realizar uma nova rodada de negociações em setembro, em uma data ainda não definida. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira «ocorre após os esforços realizados por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os restos mortais de líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano» entre 1984 e 1986. Israel intensifica seus ataques No terreno, ataques israelenses deixaram três mortos e 23 feridos nesta sexta-feira no sul e no leste do Líbano, segundo um veículo de imprensa estatal. Israel intensificou nesta sexta-feira seus ataques na região, depois de anunciar, na noite de quinta-feira, que havia assumido o controle da crista montanhosa de Ali Taher, que servia como posição estratégica para o Hezbollah, aliado do Irã, e domina, entre outras áreas, a cidade de Nabatiye. O Exército agora reforçará suas posições na região para «impedir que o inimigo volte a se posicionar na área», declarou o ministro da Defesa israelense, Israel Katz. Outro ataque também atingiu a região de Tiro, especialmente a localidade de Rmadiye, segundo a Agência Nacional de Notícias (ANI). Para Trump, a guerra no Irã é «coisa pequena» Sobre a guerra no Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tentou nesta sexta-feira minimizar seu impacto para o país, às vésperas das cruciais eleições legislativas de meio de mandato. «Muita gente não chama isso de guerra. Eu digo que é um conflito militar, porque para nós é coisa pequena (“small potatoes”). Não é nada demais. Fizemos a Venezuela e fizemos isso», respondeu a jornalistas no Salão Oval, ao ser questionado sobre seu vice-presidente, JD Vance, que no dia anterior havia dito não querer descrever o conflito como uma guerra. Enquanto a forte alta dos preços dos combustíveis ligada à guerra ameaça custar aos republicanos de Donald Trump sua maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato de novembro, sua administração tenta minimizar a dimensão do conflito. Segundo o presidente, os Estados Unidos realizam «ataques pontuais» e «não estão atualmente combatendo». Trump também afirmou que os Estados Unidos controlam o estreito de Ormuz e que dizimaram as Forças Armadas iranianas. «O que conseguimos foi extraordinário. Assumimos o controle da Venezuela e, essencialmente, assumimos o controle do Irã», declarou.
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Breve pausa em meio a tensões e divergências internas

A semana que acaba de terminar deixa uma vaga impressão de que o fogo continua latente sob as cinzas. As tensões entre americanos e iranianos persistem; elas vieram à tona no próprio regime dos aiatolás e, no Líbano, as violações israelenses do cessar-fogo continuam sem provocar, por enquanto, uma resposta do Hezbollah. Os últimos dias foram marcados pela expectativa e por uma espécie de compasso de espera. A semana foi menos intensa em acontecimentos do que as anteriores, desde o início da guerra no Irã e da abertura da frente paralela no Líbano, mas nem por isso deixa de ser significativa. Afinal, começam a surgir rachaduras aqui e ali, não apenas no memorando de entendimento assinado entre americanos e iranianos, mas também dentro do próprio regime iraniano. O Estreito de Ormuz foi um dos principais pontos de atrito nesta semana entre o Irã e o restante do mundo. A insistência iraniana em considerar que o estreito deve ser administrado pelo regime e os disparos contra embarcações que atravessam a rota sem sua autorização renderam aos aiatolás condenações de todos os lados. Na quinta-feira, a pedido do Bahrein, o Conselho de Segurança da ONU reuniu-se para discutir o tema, e as declarações dos diferentes representantes, especialmente do embaixador dos Estados Unidos, repreenderam duramente os iranianos por sua postura e por suas ações. Na sexta-feira, os líderes da OTAN, assim como a União Europeia já havia feito ao longo da semana, criticaram fortemente o regime de Teerã, rejeitando qualquer cobrança imposta às embarcações sob o argumento de “serviços prestados”. Mais chamaram a atenção as declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no sábado, durante as comemorações do 250º aniversário da independência americana. “Nós os atingimos com muita força. Eles estão se matando para fechar um acordo conosco, mas vamos lhes conceder uma semana para os funerais de Khamenei, por bondade”, declarou à multidão. Essa afirmação significa que ele está perdendo a paciência? De qualquer forma, as negociações só deverão ser retomadas depois de 9 de julho, data do fim do período oficial de luto. Ao que tudo indica, os americanos também pretendem esperar o encerramento deste período da Copa do Mundo de Futebol, disputada parcialmente em seu território. Demonstração de força e divergências Os funerais de Ali Khamenei e dos membros de sua família, mortos junto com ele no ataque israelo-americano de 28 de fevereiro de 2026 que deu início à guerra no Oriente Médio, são um dos principais acontecimentos da semana e deverão se estender por vários dias, até o sepultamento, marcado para 9 de julho. As cerimônias em homenagem ao líder começaram, e dificilmente isso foi uma coincidência do calendário, em 4 de julho, Dia da Independência dos Estados Unidos. Para o regime dos aiatolás, trata-se, como era esperado, de uma demonstração de força e de uma oportunidade para reafirmar sua coesão. Até o momento, porém, isso não ocorreu plenamente. É verdade que a demonstração de força foi bem-sucedida. Centenas de milhares de iranianos fiéis ao regime compareceram para prestar uma última homenagem ao líder religioso e político que governou esse imenso país com mão de ferro durante mais de três décadas. Choro, gritos e autoflagelação: todos os sinais ostensivos de sofrimento e de determinação em seguir o caminho do “mestre” estavam presentes. Representantes oficiais de diversos países aliados, como o Paquistão, participaram das cerimônias. Apesar das relações conturbadas entre o Estado libanês e o Irã nos últimos tempos, Beirute enviou o ministro da Defesa, Michel Menassa, para representá-lo. Sem surpresa, uma ampla delegação do Hezbollah curvou-se, em lágrimas, diante do caixão do aiatolá. No entanto, o que deveria ser um momento de grande unidade em torno de uma figura agregadora acabou revelando fissuras cada vez mais evidentes, não apenas entre conservadores e reformistas, o que seria esperado no Irã, mas dentro da própria ala conservadora do regime. Segundo diversos veículos de comunicação, entre eles o New York Times e a emissora Al Arabiya, os sinais indicam claramente que a unidade demonstrada pelos dirigentes iranianos é apenas uma fachada. Enquanto o presidente Massoud Pezechkian e o presidente do Parlamento, Mohammad Ghalibaf, continuam defendendo o acordo com os Estados Unidos, outras vozes conservadoras questionam como tais negociações podem ocorrer quando Washington, junto com seus aliados, é responsável pelo assassinato do guia supremo. Uma disputa pelo poder Também nesta semana, uma entrevista televisiva de Ghalibaf, na qual explicava os detalhes do acordo com Washington, foi interrompida abruptamente pela televisão estatal, dirigida por um ultraconservador, provocando a indignação do principal negociador. No Iraque, enquanto participava dos preparativos das cerimônias em homenagem a Khamenei nesse país, onde há grande população xiita e numerosos apoiadores do líder iraniano, o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, foi vaiado por iranianos que o responsabilizam por seu papel nas negociações com os Estados Unidos. O artigo do New York Times explica que essas divergências não dizem respeito apenas ao acordo com Washington, mas refletem sobretudo uma disputa interna pelo poder. Também é uma disputa para conquistar o apoio do novo guia supremo, Mojtaba Khamenei, que continua sem aparecer em público, apesar das informações de que pretende participar dos funerais de seu pai e dos demais membros da família. Sua ausência continua alimentando rumores sobre seu estado de saúde. Segundo essas especulações, ele teria ficado gravemente ferido no mesmo ataque que matou seu pai, além de levantar dúvidas sobre sua capacidade de governar o país. A semana também foi marcada por revelações do New York Times e do Washington Post sobre uma suposta intenção de Israel de eliminar os dois principais negociadores iranianos, Ghalibaf e Araghchi, durante as negociações com os americanos. Segundo os jornais americanos, Washington estava tão preocupado com a possibilidade de perder esses interlocutores que pediu a países da região que alertassem Teerã sobre esse risco. Sem surpresa, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, apressou-se em negar essas alegações. Demolições no sul do Líbano Se o acordo preliminar assinado entre americanos e iranianos continua dividindo as lideranças em Teerã, o acordo-quadro firmado pelas delegações libanesa e israelense em 22 de junho, em Washington, também desperta críticas em Beirute. A dupla xiita continua manifestando oposição ao documento, que prevê a criação de zonas-piloto nas quais as tropas israelenses seriam substituídas pelo Exército libanês. Diante das críticas da aliança Hezbollah-Amal, os setores soberanistas demonstram apoio crescente ao presidente Joseph Aoun e ao primeiro-ministro Nawaf Salam, que tiveram a coragem política de optar por negociações diretas com Israel. Os críticos do acordo concentram suas objeções principalmente no artigo 13, que estabelece que nem o Líbano nem Israel apresentarão denúncias contra o outro país perante instâncias internacionais por eventuais crimes de guerra. O Hezbollah, que tantas vezes bloqueou e desqualificou a atuação da Justiça internacional e nacional, como no caso do Tribunal Especial para o Líbano sobre o assassinato de Rafic Hariri, em 2005, e da investigação sobre a explosão do porto de Beirute, em 2020, apresenta-se agora como um fervoroso defensor do recurso aos tribunais internacionais. Já os defensores do texto consideram que a presença dessa cláusula é comum em negociações desse tipo. É verdade que o documento não é perfeito, mas, como ressaltou o presidente Aoun em diversas ocasiões ao longo da semana, esse acordo-quadro reflete a vontade do Líbano de negociar em nome próprio, sabendo que o Estado não pode, em hipótese alguma, abrir mão de um único metro quadrado de seu território. É preciso reconhecer, nesse contexto, que, após as sucessivas derrotas sofridas pelo Hezbollah diante de Israel nas guerras de 2023 e 2026, o Estado libanês dispõe de poucas alternativas para recuperar os territórios perdidos. No campo da dupla xiita, a unidade demonstrada esbarra em algumas diferenças de posicionamento. Enquanto o Hezbollah rejeita de forma categórica esse processo de negociações diretas, o líder do Movimento Amal e presidente do Parlamento, Nabih Berri, alterna sinais contraditórios. Em uma de suas declarações nesta semana, afirmou estar disposto a aceitar um compromisso nesse tema. De qualquer forma, a tentativa de formar uma coalizão quadripartite para derrubar o acordo-quadro no Parlamento, reunindo Hezbollah, Amal, Movimento Patriótico Livre e Partido Socialista Progressista, fracassou. Embora uma visita do líder do Movimento Patriótico Livre, Gebran Bassil, a Berri tenha alimentado rumores nesse sentido, uma declaração do ex-líder do Partido Socialista Progressista, o druso Walid Jumblatt, esfriou as expectativas daqueles que apostavam nessa possibilidade. Apesar de criticar o acordo-quadro, Jumblatt afirmou que não fará parte de uma eventual coalizão desse tipo. No terreno, a situação continua tensa no sul do país, embora ainda esteja distante de uma guerra aberta. As tropas israelenses prosseguem com seus ataques, os assassinatos de integrantes do Hezbollah e a destruição de casas e túneis por meio de explosivos. Já o partido xiita, em grande medida, mantém o cessar-fogo, que considera resultado da posição adotada pelo Irã antes da assinatura do acordo-quadro em Washington. Essa trégua permanece mais frágil do que nunca. Chaibani em Beirute O outro grande acontecimento da semana foi a visita do ministro das Relações Exteriores da Síria, Assaad al-Chaibani, a Beirute, na quinta-feira. Uma visita que parece abrir um novo capítulo nas relações entre os dois países, marcadas por uma história particularmente complexa. As declarações refletiram a disposição de respeitar mutuamente a soberania de cada país e de estabelecer relações de igualdade em diferentes áreas, especialmente no comércio. A visita resultou na assinatura, por Chaibani e Nawaf Salam, de um acordo que prevê a criação de uma comissão bilateral de cooperação. O chanceler sírio, que se reuniu com todas as forças políticas, com exceção do Hezbollah, e visitou Trípoli, principal cidade de maioria sunita no norte do Líbano, provavelmente tranquilizou as autoridades libanesas ao indicar que seu país não pretende interferir no processo de desarmamento da milícia xiita libanesa, como o presidente Trump solicitou em diversas ocasiões. Coincidência ou não, a capital síria, Damasco, foi abalada na quinta-feira por uma forte explosão de caráter terrorista em um café próximo ao Palácio da Justiça, deixando pelo menos nove mortos e numerosos feridos. O atentado, realizado com um artefato explosivo “artesanal”, segundo as autoridades sírias, não foi reivindicado, mas apresenta características típicas do grupo terrorista Estado Islâmico.

Crise, catástrofe e abalo do mundo (4/7)
Por
Wissam Saadé
Publicado

Este ensaio propõe uma travessia pelas figuras da crise e da catástrofe, desde as cosmologias antigas até a experiência vivida de um mundo abalado. Ao colocar em diálogo as tradições grega, bíblica e indiana com o pensamento de Jan Patočka, investiga a maneira como as civilizações conceberam a desordem, o colapso, o irreversível e até mesmo a própria possibilidade de agir quando o sentido começa a vacilar. Publicado aqui em sete capítulos-artigos, este texto segue um fio condutor ao mesmo tempo exigente e essencial: compreender se a catástrofe constitui uma ruptura súbita, uma lenta desagregação do mundo ou a verdade mais profunda do nosso tempo. Segue-se aqui a quarta parte. Do ciclo ao irreversível Distinguir a crise da catástrofe, ou separar a catástrofe cósmica da catástrofe histórica ou individual, constitui, de fato, duas impossibilidades, ou melhor, dois impensados, no interior do pensamento tradicional indiano. Nessa tradição, o cósmico não se opõe ao histórico; desdobra-se nele. A catástrofe não constitui a exceção do tempo, mas sua verdade mais íntima. A dissociação entre crise e catástrofe, bem como a progressiva descosmização do desastre, resulta de uma longa genealogia própria do pensamento ocidental. Ela nasce do cruzamento entre os legados greco-romano e judaico-cristão, seguido por sua reconfiguração na época moderna. É, de fato, no interior da tradição judaico-cristã que se estabiliza, com maior nitidez, uma concepção da catástrofe como acontecimento absoluto. O Dilúvio do Gênesis , o Apocalipse de João e o Juízo Final configuram uma mesma estrutura temporal: um tempo linear, orientado, dotado de um começo e de um fim irreversível; um acontecimento terminal que não apenas reorganiza o mundo, mas o encerra para inaugurar uma outra ordem, a da salvação e da redenção. [1] Seria, portanto, redutor afirmar que o judaico-cristianismo separa a catástrofe terrestre da catástrofe cósmica. Ao contrário, mantém a relação entre ambas, mas segundo uma nova hierarquia organizada pela economia de um tempo de sentido único. O desastre terrestre deixa de ser percebido como um momento entre tantos do grande ciclo cósmico para tornar-se o sinal, o indício ou o prelúdio de uma catástrofe última e universal. A linearização da temporalidade introduz aqui uma mutação decisiva: o mal, a guerra e a destruição passam a ser investidos de um sentido teleológico. Já não pertencem à ciclicidade da natureza, mas à dramaturgia da história. Uma transformação dessa natureza marca uma ruptura profunda com as cosmologias antigas e, mais ainda, com as visões dhármicas da Índia. Nestas, as rupturas do mundo, guerras, pestes e colapsos, encontram-se desde sempre inscritas em uma ordem cíclica. Elas não interrompem a harmonia cósmica; constituem seu pulso interior, sua respiração. O desastre humano jamais é concebido como um acontecimento definitivo, mas como uma modulação necessária e transitória de um equilíbrio mais amplo. Entre o plano terrestre e a ordem do cosmos não existe qualquer fratura ontológica: ambos participam de um mesmo devir ( saṃsāra ), movimento de criação ( sṛṣṭi ) e de dissolução ( pralaya ). Ao contrário, na tradição judaico-cristã, a catástrofe terrestre torna-se um acontecimento histórico, enquanto a catástrofe cósmica se converte em acontecimento terminal. A primeira traduz a culpa para a linguagem do tempo; a segunda dissolve o próprio tempo no absoluto da revelação. O que está em jogo aqui não é sua simples separação, mas a tensão entre ambas no interior de uma temporalidade orientada, na qual o mundo possui um começo, uma história e um fim. A catástrofe deixa de ser a respiração do cosmos para tornar-se a consumação da história. Assim se delineia, na genealogia clássica do pensamento ocidental, seja greco-cristã, seja moderna, uma estrutura escatológica do pensar: a crise convoca a catástrofe como seu desfecho, e a catástrofe, longe de inscrever-se no ritmo infinito do devir, designa o ponto de ruptura, o encerramento do tempo. O pensamento indiano, ao contrário, conceberá sempre a catástrofe não como dissolução terminal, mas como um momento de regeneração, a fase crepuscular de um ciclo destinado a renascer. Sob uma perspectiva escatológica, o tempo estrutura-se como uma linha orientada: começo, desenvolvimento, consumação e fim. Nesse quadro, crise e catástrofe não constituem simplesmente duas modalidades da desordem, mas duas intensidades distintas referidas a um horizonte último. A crise surge como um momento de tensão interna ao devir histórico, um ponto de decisão ainda integrado à continuidade do mundo. A catástrofe, por sua vez, tende a ser concebida como a irrupção de um fim, não apenas de uma ordem particular, mas potencialmente da própria ordem do mundo. Assim, sua relação é frequentemente compreendida segundo uma lógica escatológica: a crise torna-se um limiar, enquanto a catástrofe se converte ora na figura antecipada, ora na efetivação do fim. O fato de que, na tradição ocidental, a relação entre crise e catástrofe seja frequentemente estruturada por uma matriz escatológica implica que essas categorias permanecem sempre inscritas em uma inteligibilidade do tempo orientado, na qual o sentido do presente depende de um horizonte de fim. Isso implica, por sua vez, que toda escatologia é imediatamente política, na medida em que produz uma hierarquia dos tempos, interpreta as crises como sinais e orienta a ação em função de um fim suposto. A escatologia não é a política, mas estrutura o próprio campo do politicamente pensável. A catástrofe deriva etimologicamente de katastrophḗ , termo oriundo da tragédia grega que designa a “reviravolta final”, o momento do desenlace irreversível. Ela não designa apenas uma ruptura do equilíbrio, mas a destruição ou o colapso de uma ordem do mundo, frequentemente percebida como total, irreparável ou, ao menos, irreversível (guerras mundiais, genocídios, colapsos ecológicos). Embora o catastrófico pareça pertencer, à primeira vista, a um registro espacial, o colapso, a devastação e a desagregação das formas, em contraste com a temporalidade decisória própria da crise, constituem, paradoxalmente, a condição de possibilidade de certa intuição mediterrânea e, posteriormente, ocidental do tempo. Pois o que a catástrofe introduz não é apenas uma ruptura no mundo, mas uma transformação do sentido do devir: ela inscreve o tempo sob o signo do irreversível. A partir de então, o tempo deixa de aparecer como simples repetição cíclica ou retorno das mesmas configurações, tornando-se exposição a uma perda que jamais poderá ser inteiramente reparada. Mesmo a recorrência das estações, embora conserve a aparência do ciclo, parece então atravessada por essa marca da irreversibilidade: o retorno nunca reconduz rigorosamente ao idêntico. Cada recomeço traz consigo o traço de uma alteração, como se a própria repetição permanecesse submetida a uma temporalidade mais profunda de desgaste, finitude e irreversibilidade. É, sem dúvida, no imaginário grego, e particularmente no homérico, que essa tensão entre o retorno e o irreversível encontra sua primeira encenação. A tradição homérica sempre representou um desafio ao irreversível. A experiência de Odisseu, ou Ulisses, situa-se na interseção entre o reversível e o irreversível: toda a obra se organiza em torno da possibilidade e da impossibilidade do retorno. A Odisseia encena uma lógica do retorno: o regresso a Ítaca, a restauração do lar, o restabelecimento da realeza e o reconhecimento final. Sob esse aspecto, ela ainda parece pertencer a um antigo imaginário mediterrâneo em que a ordem perdida permanece suscetível de ser reconquistada. A viagem de Ulisses surge, então, como um parêntese destinado a se fechar; ela inscreve no mito a possibilidade de uma reparação da história. Mas, em um nível mais profundo, esse retorno traz já a marca do irreversível. Pois Ulisses jamais retorna ao mesmo mundo: Troia foi destruída, seus companheiros morreram, o tempo atravessou Ítaca, e ele próprio, transformado pela experiência, já não pode coincidir com o seu passado. O nostos [2] grego não significa, portanto, a restauração perfeita do idêntico; representa um retorno marcado pela perda, uma sobrevivência mais do que uma verdadeira reversibilidade. A Odisseia conserva ainda a forma cíclica do retorno, mas esse ciclo já se encontra atravessado pela fissura do tempo irreversível. Mesmo quando o herói reencontra sua casa, algo permanece irremediavelmente destruído: a continuidade do tempo, a inocência da partida, a possibilidade de um recomeço intacto. À luz disso, o retorno de Ulisses aparece como o ponto de passagem entre dois regimes simbólicos: ele ainda pertence a uma civilização do ciclo, mas já deixa aflorar uma temporalidade da alteração, na qual todo retorno carrega a marca do irreparável. A Odisseia poderia, então, ser compreendida como o último esforço de uma civilização mediterrânea para preservar o mito do retorno em um mundo onde o tempo começa a fechar-se sobre o irreversível. Por isso, o mar desempenha um papel central: ele é o lugar do extravio e da metamorfose, o espaço fluido onde o movimento do retorno encontra sua própria impossibilidade, onde a errância se torna a verdade da viagem. Emmanuel Levinas, relendo a figura de Ulisses, viu nessa tensão uma das clivagens fundamentais entre o pensamento grego e o pensamento bíblico. Tanto em Totalidade e Infinito quanto em outros textos, ele contrapõe o destino de Odisseu ao de Abraão: de um lado, o pensamento do retorno; de outro, a aventura da partida sem retorno, a abertura à alteridade. [3] Para Levinas, Ulisses simboliza a estrutura profunda do pensamento grego: partir, encontrar a estranheza, mas sempre retornar para casa. Todo desvio permanece, em última instância, reinscritível na identidade do Mesmo. Monstros, ilhas, tentações e estrangeiros pontuam um percurso que, paradoxalmente, reconduz toda alteridade à esfera do familiar. A alteridade é atravessada para ser, por fim, reapropriada, convertida em experiência do Mesmo. Abraão, ao contrário, encarna uma estrutura radicalmente distinta. Ele abandona sua terra, sua casa e sua genealogia sem qualquer promessa de retorno. Seu movimento não é o do círculo, mas o da abertura. Expõe-se ao desconhecido mediante uma ruptura definitiva com a origem. A experiência bíblica torna-se, assim, a experiência do não retorno: o sentido já não procede da restauração, mas da promessa e da responsabilidade. Em Levinas, essa oposição assume a forma de uma diferença entre dois regimes da relação com o tempo: o retorno e o êxodo. Ulisses representa a circularidade e a reapropriação, a economia do Mesmo; Abraão, a partida sem restituição, a assimetria da alteridade que se torna lei. O primeiro enraíza-se na totalidade; o segundo abre-se ao infinito. Nessa perspectiva, crise e catástrofe distribuem-se segundo esses dois regimes simbólicos. O universo de Ulisses é o da crise: um desequilíbrio provisório da ordem, um momento de suspensão que prepara o retorno à normalidade. Mesmo as provações mais violentas, a perda, o naufrágio e a errância, jamais rompem a estrutura do sentido: estão destinadas a ser superadas e reintegradas pela lógica do nostos . A crise constitui, nesse sentido, um desarranjo provisório do Mesmo. O universo de Abraão, em contrapartida, pertence a um regime inteiramente distinto: o da catástrofe como experiência do irreversível. Aqui, a catástrofe não é um colapso espetacular, mas uma ruptura ontológica da relação com o Mesmo. Ela designa a saída radical para fora do círculo, a impossibilidade de retornar à origem. Por meio desse deslocamento, Levinas redefine a catástrofe: ela deixa de ser um acontecimento destruidor para tornar-se a própria estrutura do não retorno ético, condição mesma da abertura ao Outro. A crise ainda pertence ao domínio do controle e da regeneração do sentido; a catástrofe, ao da desapropriação e da responsabilidade. Entre Ulisses e Abraão desenrola-se, assim, a passagem de uma civilização do retorno para uma civilização do irreversível, do tempo cíclico ao tempo orientado. A primeira busca, na crise, a possibilidade do restabelecimento; a segunda reconhece, na catástrofe, a condição de um sentido que já não se fecha sobre si mesmo. Com Ulisses, o mundo ainda pode recuperar-se; com Abraão, ele se liberta por meio da abertura ao infinito. Biblicamente, Abraão entra em cena no capítulo 12 do Gênesis. Os onze capítulos anteriores (Gn 1-11) pertencem ao que se poderia chamar de pré-história bíblica: narram os primórdios do mundo, a desobediência de Adão e Eva, o assassinato de Abel, a corrupção da humanidade antes do Dilúvio, a reconstrução em torno de Noé e a dispersão dos homens em Babel. Quase uma sucessão de naufrágios. Uma série de catástrofes que são, ao mesmo tempo, outros tantos nascimentos fracassados. A própria narrativa bíblica abre-se sobre uma catástrofe potencial: o tohu va-bohu , essa indeterminação originária, um caos não informe, como uma matéria bruta, mas já devastado, um mundo que a Palavra criadora deve conter e ordenar. Antes mesmo da criação, há o Bereshit (“No princípio”), esse momento intermediário em que a catástrofe já está latente, em que o caos reclama uma ordem que Deus institui sem jamais suprimi-la por completo. [1] Karl Löwith , História e Salvação: Os pressupostos teológicos da filosofia da história (Paris: Gallimard, col. “Bibliothèque de philosophie”, 2002). [2] Em grego antigo, o termo nostos (νόστος) designa, antes de tudo, o retorno ao lar, o regresso à própria casa após uma longa ausência. Na literatura grega, e particularmente na Odisseia de Homero, refere-se ao caminho, muitas vezes penoso, pelo qual o herói reencontra sua terra, seu lar e os seus após anos de errância. [3] Ver Emmanuel Levinas , Totalidade e Infinito , Paris, Le Livre de Poche / Biblio Essais, 1990, pp. 17-19 (Prefácio) e pp. 46-48 (início da Primeira Parte).

Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (11)

Esta série de artigos tem como objetivo compreender melhor a atual situação no cenário libanês à luz do passado, distante de discursos apaixonados, ideológicos ou românticos que ignoram a realidade, deixando ao leitor a tarefa de tirar as conclusões que se impõem. As dez partes anteriores abordaram uma releitura dos acontecimentos relacionados ao fortalecimento do Hezbollah desde o Acordo de Taif, passando pela retirada do Exército israelense do Líbano, em maio de 2000, até a guerra de 2006 e seus desdobramentos. O envio do Exército libanês ao sul do Líbano, conhecido internacionalmente como Forças Armadas Libanesas (FAL), então comandado pelo general Michel Sleiman, foi determinado pelo governo de Fouad Siniora em 16 de agosto de 2006. Esse desdobramento, o primeiro desde 1968, começou imediatamente na madrugada de 17 de agosto, com a travessia do rio Litani por meio de pontes metálicas militares e outras improvisadas, já que as pontes permanentes haviam sido destruídas pelos bombardeios israelenses. Embora as FAL estivessem muito menos equipadas do que hoje e contassem com um efetivo significativamente menor, essa rápida mobilização marcou um momento histórico ao restabelecer, pela primeira vez desde 1968, a presença militar do Estado ao sul do Litani, área controlada pelo Hezbollah desde 2000. A operação, aprovada pelo Conselho de Ministros em 7 de agosto e enquadrada na Resolução 1701, previa um contingente máximo de 15 mil soldados apoiados pela Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL), que também foi reforçada, ampliando seu efetivo de 4 mil para 15 mil militares. Detalhes da mobilização As FAL deslocaram rapidamente um contingente inicial de 9500 militares para o sul do Litani nas primeiras semanas. Diante da falta de efetivos, 5 mil reservistas foram convocados para suprir a deficiência de pessoal. As forças mobilizadas eram compostas por quatro brigadas de infantaria, especialmente as 6ª, 10ª, 11ª e 12ª Brigadas, reforçadas inicialmente pelo Regimento de Comandos, por regimentos indep endentes e por destacamentos do Regimento de Engenharia. A fase operacional que deu início ao desdobramento incluiu a segurança progressiva das principais rodovias e das cidades estratégicas, especialmente Marjayoun, Tiro, Nabatiyeh e Bint Jbeil, seguindo um cronograma rigoroso. A travessia do Litani e a ocupação das primeiras posições táticas ocorreram em 17 de agosto. Em seguida, o controle gradual dos principais entroncamentos viários prosseguiu até o fim daquele mês. A mobilização foi oficialmente concluída em 1º de outubro de 2006, simultaneamente à retirada quase total das forças israelenses, com exceção da disputada região de Ghajar, que, na realidade, é uma aldeia síria localizada nas Colinas de Golã ocupadas. Seus habitantes são sírios ou apátridas sem documentos de identidade e expandiram ilegalmente a aldeia, desde 1975, para dentro do território libanês. Essa foi a segunda retirada israelense, após a ocorrida no ano 2000. No plano estrutural, o Exército libanês criou um comando específico para a região ao sul do Litani, inexistente antes de agosto de 2006. Seu quartel-general foi instalado inicialmente em Tiro e posteriormente transferido para o quartel de Marjayoun, ficando responsável pelo planejamento tático, pela logística e pela cadeia local de comando. A cooperação operacional ocorreu em estreita coordenação com a UNIFIL. O posicionamento das FAL em pontos específicos acontecia à medida que os capacetes azuis confirmavam a retirada israelense dessas áreas. As missões logísticas e de segurança foram intensas. As unidades de engenharia instalaram pontes Bailey fornecidas pelo Reino Unido para atravessar o Litani, realizaram operações de desminagem das rodovias, neutralizaram munições não detonadas e protegeram os acessos. Ao mesmo tempo, dezenas de postos de controle fixos e móveis foram instalados em todas as rotas de acesso ao sul para fiscalizar a circulação de veículos e pessoas. O objetivo político e operacional era claro: restaurar e afirmar a soberania do Estado libanês sobre a região, impedir qualquer autoridade paralela e, conforme o mandato estabelecido, apreender armas ilegais ou ostensivamente visíveis ao sul do Litani. Essa missão despertava grande esperança, mas também indicava a possibilidade de tensões em relação ao status das armas do Hezbollah e à efetiva implementação do monopólio estatal sobre o uso da força. O compromisso entre o Estado e o Hezbollah e o papel de Émile Lahoud Desde a década de 1990, primeiro como comandante do Exército e depois como presidente da República em 2006, Émile Lahoud desempenhou um papel central na proteção do arsenal do Hezbollah, atuando como principal garantidor institucional, militar e jurídico da não desmobilização do movimento. Seu discurso apresentava o arsenal ilegal do grupo, sob todos os aspectos, como um complemento às supostamente limitadas capacidades das Forças Armadas Libanesas. Já em 2004, quando o Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução 1559, exigindo o desarmamento de todas as milícias libanesas, incluindo a milícia pró-iraniana, Émile Lahoud criou uma barreira institucional contra qualquer aplicação da resolução que atingisse o Hezbollah. Aproveitando seu mandato presidencial, prorrogado exclusivamente pela imposição do regime sírio, Lahoud, diante da impossibilidade de conferir um status jurídico ao Hezbollah, utilizou sua posição para afirmar que a resolução não se aplicava ao partido pró-iraniano. Em vez de classificá-lo como milícia, definiu-o como um “movimento de libertação nacional” e uma “resistência”, conferindo-lhe assim certa legitimidade. Essa postura bloqueou as tentativas administrativas e militares de registrar ou apreender as armas do Hezbollah e impediu qualquer implementação coercitiva de seu desarmamento. Durante a guerra de julho de 2006 e as deliberações governamentais sobre a Resolução 1701, Lahoud consolidou-se como o mais inflexível defensor dos interesses estratégicos do Hezbollah no mais alto nível do Estado, embora o governo da época tivesse caráter histórico. Era o primeiro formado após o fim de 30 anos de ocupação síria do Líbano e também o primeiro a reunir ministros do Hezbollah ao lado de ministros contrários à Síria, compondo um governo de união nacional. O primeiro-ministro era Fouad Siniora, pertencente à coalizão soberanista 14 de Março, que detinha a maioria dos 24 ministérios. O governo também contava com cinco ministros da coalizão formada pelo Hezbollah e pelo Movimento Amal, de Nabih Berri, além de outros ministros próximos de Émile Lahoud. Durante as tensas reuniões do Conselho de Ministros em agosto de 2006, enquanto a maioria governista buscava obter um mandato claro para que o Exército confiscasse armas ao sul do Litani, Lahoud estabeleceu uma linha vermelha intransponível. Sob sua pressão, reforçada pelos ministros que lhe eram próximos e pelos cinco ministros da coalizão Hezbollah-Amal, o governo aprovou um compromisso operacional denominado “doutrina da invisibilidade”. Segundo essa doutrina, o Exército poderia se deslocar para o sul, mas sem realizar buscas sistemáticas em propriedades privadas nem promover o desarmamento forçado enquanto as armas não estivessem visíveis em locais públicos. Na prática, isso inviabilizou desde o início a aplicação da Resolução 1701, lançando as bases para o conflito que se seguiria. Na condição de presidente da República e comandante supremo das Forças Armadas Libanesas, Lahoud garantiu que as ordens transmitidas ao comandante do Exército, general Michel Sleiman, não incluíssem qualquer missão de apreensão de depósitos de armas, assegurando assim que a infraestrutura militar do Hezbollah, frequentemente subterrânea ou ocultada, permanecesse intacta. Respaldado pelo apoio sírio, que continuava significativo no Líbano mesmo após a retirada das tropas sírias do território libanês, Émile Lahoud ofereceu ao Hezbollah um verdadeiro “guarda-chuva estatal”, que incluía não apenas proteção política, mas também respaldo retórico. Lahoud utilizava seu poder de bloqueio institucional para permitir que o partido pró-iraniano preservasse inicialmente seu arsenal e, ao longo da década seguinte, o consolidasse e ampliasse, sem receio de uma intervenção do aparato de segurança libanês. Essa estratégia teve como consequência consolidar de forma duradoura o papel do Hezbollah, sob o discurso da defesa nacional e da preservação de seu arsenal ilegal, percebido como um componente aceito, quando não legitimado, da estrutura estratégica libanesa. Leia também sobre o mesmo tema: Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (10) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (9) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (8) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (7) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (6) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (5) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (4) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (3) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (2) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (1)

Irã: grandes revelações sobre o programa nuclear e o impacto do bloqueio naval (1/2)

O Líbano e a região estão praticamente em “pausa”. O presidente Donald Trump indicou no início do fim de semana que concedeu ao Irã uma trégua de uma semana como gesto de boa vontade durante o funeral do ex-líder supremo da República, Ali Khamenei, que, segundo o texto original, foi morto no maciço bombardeio americano-israelense que desencadeou a guerra lançada contra o regime iraniano em 28 de fevereiro. A pausa terminará em 11 de julho, data anunciada no sábado para a retomada das negociações entre Washington e Teerã, que ocorrerão em Islamabad. Na pauta estão as sanções, os ativos iranianos congelados e o dossiê nuclear. A retomada dessas negociações ocorre em um momento em que vários sinais alimentam as incertezas sobre se o processo de “negociação”, iniciado pelo memorando de entendimento assinado entre os Estados Unidos e a República Islâmica, poderá levar a algum resultado construtivo. Entre esses sinais, que podem jogar contra o regime iraniano, estão os desdobramentos dos dossiês do Líbano e do Estreito de Ormuz e, sobretudo, o surgimento no Líbano, na Síria e no Iraque de discursos oficiais convergentes que tendem a confirmar que toda a região está entrando em uma nova fase de sua história, completamente incompatível com o projeto ideológico khomeinista. No cenário libanês, inicialmente, reportagens do diário libanês Nidaa el-Watan (próximo dos círculos soberanistas) apontam para uma decisão americana de dissolver o “mecanismo”, a comissão de monitoramento do cessar-fogo criada após o acordo de cessação das hostilidades de novembro de 2024, e substituí-lo por um comitê de segurança tripartite formado por Líbano, Estados Unidos e Israel, presidido por um alto oficial americano, o ex-chefe do mecanismo, general Joseph Clearfield. Ele já iniciou sua missão com reuniões nesta semana com líderes israelenses para examinar os procedimentos práticos para o desdobramento do Exército libanês nas duas “zonas-piloto” previstas no acordo-quadro assinado entre Líbano e Israel, em Washington, sob a mediação do secretário de Estado Marco Rubio. O início da dinâmica prevista nesse acordo-quadro servirá, sem dúvida, para interromper os esforços desesperados da República Islâmica para manter influência por meio da carta libanesa. Revelações sobre o impacto do bloqueio marítimo dos Estados Unidos Quanto ao dossiê do Estreito de Ormuz, as ambições hegemônicas da Guarda Revolucionária, expressas em sua insistência em impor controle sobre essa via marítima, estão sendo enfraquecidas pela convergência das posições americana e europeia sobre a questão. De forma mais ampla, a comunidade internacional se recusa a permitir a imposição de qualquer pedágio ou direito de passagem às embarcações que transitam pelo estreito. No sábado, os líderes da França e do Reino Unido reafirmaram sua disposição de criar uma força multinacional para garantir a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz. Nesse contexto, um alto funcionário britânico prestou homenagem à posição do Sultanato de Omã, que declarou estar disposto a garantir a segurança das embarcações ao longo do corredor marítimo paralelo ao seu litoral. Desde o início desta guerra, a República Islâmica vem tentando explorar sua capacidade de provocar perturbações no Estreito de Ormuz para demonstrar que pode manter a economia mundial como refém caso sua pretensão de exercer controle total sobre a área não seja levada em consideração. No entanto, reportagens publicadas no fim desta semana pelo New York Times indicam que as ameaças dos Pasdaran de fechar o Estreito de Ormuz têm limites no contexto atual. Citando quatro altos funcionários iranianos, o jornal americano informou que o presidente do Irã e o governador do Banco Central iraniano comunicaram ao líder supremo, antes da assinatura do memorando de entendimento com Washington, que o bloqueio marítimo americano havia paralisado em grande parte toda a economia iraniana. Eles também afirmaram que as reservas nacionais de alimentos e medicamentos essenciais estariam esgotadas até o fim de agosto em consequência do bloqueio. Segundo essas informações, o presidente iraniano teria ameaçado renunciar caso o regime não autorizasse um acordo com os Estados Unidos, ressaltando que o prolongamento da crise econômica provocada pelo bloqueio “ameaçava a estabilidade do país” e que, por isso, “o governo já não era capaz de administrar a situação”. Foi após essa iniciativa urgente, conduzida em duas frentes pelo presidente e pelo governador do Banco Central, que o líder supremo teria finalmente dado sinal verde ao processo de negociação com Washington. Nesse contexto, cabe destacar que a eficácia demonstrada pelo bloqueio marítimo imposto pelo governo Trump e a grave ameaça que ele pode representar para a economia iraniana no curto prazo neutralizam, em certa medida, a capacidade de pressão que a Guarda Revolucionária busca exercer para afirmar seu domínio sobre o Estreito de Ormuz. Assim, a carta do controle dessa rota marítima, que os Pasdaran ainda afirmam possuir, corre o risco de se voltar contra o próprio regime. Relatório alarmante sobre a atividade nuclear iraniana Paralelamente à ameaça de uma retomada do bloqueio marítimo, ao qual Washington poderá recorrer novamente caso as negociações bilaterais fracassem, o regime iraniano poderá em breve enfrentar outra fonte de tensão e disputa relacionada ao dossiê nuclear. O portal libanês al-Janoubiya (próximo da oposição xiita e hostil ao projeto khomeinista) informa que um centro de pesquisa americano de grande reputação, sediado em Washington e especializado no acompanhamento do programa nuclear de Teerã, o Institute for Science and International Security (ISIS), identificou uma atividade preocupante e persistente em um importante complexo nuclear subterrâneo construído nas profundezas de uma montanha rochosa. Esse local clandestino de altíssima segurança, que supostamente abriga importantes instalações e infraestrutura subterrâneas, incluindo capacidades de enriquecimento de urânio, jamais foi inspecionado por inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica. Conhecido como “Pickaxe Mountain”, ele foi construído no interior da cadeia montanhosa de Zagros, a quase um quilômetro da instalação de enriquecimento de urânio de Natanz. A emissora americana Fox News destaca que a continuidade das atividades nesse local “levanta sérias dúvidas sobre o cumprimento, por parte do Irã, dos compromissos assumidos” no memorando de entendimento assinado com Washington. Uma das cláusulas desse documento prevê o congelamento de todas as atividades nucleares durante o período de 60 dias de negociações. Caso seja confirmado que os trabalhos realmente continuam na instalação de “Pickaxe Mountain”, como afirma um dos especialistas do ISIS, isso constituirá uma grave violação do memorando de entendimento. Acima de tudo, será um forte indicativo da falta de seriedade e de credibilidade dos compromissos assumidos pelo regime dos aiatolás. Próximo artigo: Três discursos para um mesmo paradigma

Nabih Berri.. Basta de chantagem!
Por
Jad Akhawi
Publicado

Em cada momento decisivo atravessado pelo Líbano, o mesmo discurso ressurge: a ameaça de derrubar o governo, os alertas para um novo colapso e a escalada da tensão política. No entanto, a pergunta já não é se Nabih Berri é capaz de derrubar o governo. A verdadeira questão passou a ser outra: o que acontecerá depois? Qual é a alternativa? Que visão ele propõe para o Líbano? E como o país sairá da crise se voltar a mergulhar no círculo vicioso do vazio político e institucional? Se a oposição ao Acordo-Quadro decorre realmente do desejo de defender a soberania do Líbano, aqueles que o rejeitam deveriam apresentar uma alternativa clara, realista e viável. Limitar-se a exigir a queda do governo sem oferecer o menor roteiro apenas condena os libaneses a uma incerteza ainda maior. Mas a questão central é outra: o problema se resume realmente ao governo? Se, segundo essa lógica, o governo perdeu sua legitimidade política, o que dizer então do Parlamento do qual ela deriva? Se a solução é derrubar o Poder Executivo, por que os defensores dessa tese não levam seu raciocínio até as últimas consequências e também defendem a dissolução do Parlamento e a convocação de eleições legislativas antecipadas? A questão torna-se então ainda mais incômoda. Nabih Berri pode garantir que será reconduzido à presidência do Parlamento caso sejam realizadas novas eleições? A dupla xiita pode assegurar que o atual equilíbrio de forças dentro do Parlamento permanecerá intacto? Se a resposta está longe de ser certa, os libaneses têm o direito de perguntar se o verdadeiro objetivo é salvar o Líbano ou simplesmente preservar um equilíbrio político que perdura há anos. A democracia não pode ser praticada de forma seletiva. Quem exige a mudança de governo também deve estar disposto a aceitar uma recomposição completa do poder e submetê-la ao julgamento das urnas, em vez de decidir quais instituições devem mudar e quais devem permanecer imunes a qualquer forma de responsabilização política. A experiência demonstrou que a política do bloqueio jamais construiu um Estado. Pelo contrário, contribuiu para enfraquecê-lo. Sempre que o Líbano vislumbra uma oportunidade de reconstruir suas instituições, a linguagem das ameaças e da escalada reaparece, como se o objetivo fosse manter o país à mercê dos equilíbrios de poder, em vez de colocá-lo sob a autoridade da Constituição. O aspecto mais preocupante desse discurso é que ele coloca os libaneses diante de uma única alternativa: submeter-se às condições políticas impostas pela dupla xiita ou ver o governo cair e o país mergulhar em uma nova crise. Isso já não pode ser visto como uma oposição política normal. Transformou-se em um instrumento permanente de pressão sobre o Estado e suas instituições, cujo preço é pago exclusivamente pelos libaneses. Nas democracias, os governos são contestados dentro das instituições e só caem quando existe uma maioria constitucional respaldada por um programa alternativo claro. Não caem porque o bloqueio tenha se transformado em uma forma de governar, nem porque o vazio institucional tenha passado a ser utilizado como instrumento de negociação. Se o presidente do Parlamento, Nabih Berri, rejeita o Acordo-Quadro, esse é um direito político que lhe assiste. Se pretende derrubar o governo, esse também é um direito assegurado pela Constituição, desde que estejam reunidas as condições exigidas. Mas os libaneses também têm o direito de lhe fazer uma pergunta simples: o que virá depois? Quem formará o próximo governo? Com que maioria parlamentar governará? Qual será seu programa? Como recuperará a economia? Como conduzirá a reconstrução do sul do país? E como restabelecerá a confiança do mundo árabe e da comunidade internacional? Si el verdadero objetivo no es más que conseguir un nuevo instrumento de presión para imponer determinadas condiciones políticas, los libaneses ya no pueden seguir soportando esa lógica. Han pagado un precio exorbitante por la parálisis de las instituciones, el colapso de la economía y el aislamiento del Líbano de su entorno árabe e internacional. Ya no es aceptable que su futuro siga siendo rehén de los cálculos de las fuerzas políticas. Ha llegado la hora de abandonar la lógica del “o se hace lo que queremos o no hay Estado”. El Estado no pertenece a nadie. El Gobierno no es un botín. El Parlamento no es patrimonio exclusivo de ninguna fuerza política. Y la legitimidad solo se renueva mediante la voluntad del pueblo. Si quienes invocan la democracia realmente creen en ella, deben aceptarla en toda su dimensión y no solo cuando les conviene. Deben aceptar que sea el pueblo quien decida quién gobierna, quién preside el Parlamento, quién permanece en el poder y quién debe abandonarlo. En cambio, la amenaza de hacer caer al Gobierno cada vez que cambian las circunstancias, mientras se rechaza siquiera abrir un debate sobre una recomposición integral del poder, ya no convence a los libaneses. Están cansados del chantaje político, de la parálisis del Estado y de que su futuro siga convirtiéndose en una moneda de cambio dentro de un conflicto que parece no tener fin. Hoy el Líbano necesita hombres de Estado que construyan instituciones, no políticos que amenacen con derribarlas cada vez que sus decisiones entren en conflicto con sus propios intereses.

Hezbollah, onde está a tua vitória? Onde está o teu ferrão?

Nada Hamadé Mouawad, como é que consegue ser tão pouco apreciada do lado de Naïm Kassem, em Dahiyeh e em outros lugares? Ignorava que a sua assinatura aposta em Washington na passada data de 26 de junho iria provocar manifestações em vários pontos do território? A ponto de o nosso exército ter de intervir durante a noite para restabelecer a ordem na estrada que conduz ao aeroporto internacional. Tudo isso porque cumpriu o seu dever de patriota, que consiste em expulsar, por via diplomática, as forças de Tsahal das regiões do Sul que ocupam. Deus, como é criminoso negar a evidência! Não é a resistência armada que pode libertar o Jabal Amel, mas sim as negociações e os diálogos sob a égide americana. Isso não é certamente glorioso, mas é assim; não é agradável, mas é fazer o melhor possível. Não tendo alcançado uma vitória esmagadora que nos permitisse impor as nossas condições ao adversário israelense, é inútil fazer pose. E digamos sem rodeios: a dita resistência crente (al-muqawama al-mou'mina) apenas alargou a zona de ocupação, multiplicou as destruições e expulsou os nossos compatriotas das suas casas ancestrais! Como em Waterloo… Mas antes, recordemos os termos do acordo alcançado a 17 de junho entre o Irão e os Estados Unidos, e o sentimento de abandono que os soberanistas viveram sob o choque ao saberem que o dossiê libanês estava incluído no acordo! Para grande desânimo dos libanistas, os hezbollahis podiam regozijar-se: Teerão, tendo-nos agarrado pela garganta, podia decidir o nosso destino. O Líbano tinha caído nas mãos dos pasdarans. Falou-se de resignação nas nossas fileiras, acusou-se a política americana de ambivalência, senão de traição, recordou-se o lamentável episódio do couraçado New Jersey em setembro de 1983, e culpou-se a rivalidade entre o vice-presidente JD Vance e o secretário de Estado Marco Rubio. Em resumo, nas fileiras dos soberanistas, estávamos devastados. E então, de repente, a 26 de junho, como um diabo que salta de uma caixa, o Líbano oficial passou a ousar. E o Acordo tripartido, uma vez assinado, poderia libertar o Sul libanês da ocupação israelense, pondo fim à tutela estrangeira, às ingerências iranianas e ao reinado da milícia amarela. Então em Beirute, como outrora em Waterloo, «a esperança mudou de campo, o combate mudou de alma». A alegria em Dahiyeh durou pouco, apenas 9 dias. Nada Hamadé Mouawad e Simon Karam acabavam de roubar a vitória aos hezbollahis! Perigo e firmeza Foi uma afronta ao ministro Abbas Araghchi: este tinha-se servido demasiado do «pretexto» libanês para violar a nossa soberania na cena internacional. Eis que fica «de mãos a abanar», ele que fez concessões sobre o nuclear iraniano para conseguir um lugar em Bürgenstock, em Lucerna, na Suíça. Com isso, o exército libanês, apoiado pelos nossos aliados ocidentais, deve manter-se vigilante. Não pode recuar agora que os nossos diplomatas cruzaram o Rubicão. Aliás, Nabih Berri, «sentindo o fim próximo», não terá falado imediatamente de «fitna»? O que é mais do que uma simples discórdia, e o que constitui uma ameaça a penas velada de fazer descarrilar o Acordo-quadro. Quanto a David Hale, ex-embaixador americano no Líbano, não deixou de nos avisar de que, numa primeira fase, o Hezb fará tudo para torpedear o referido Acordo; não hesitará, segundo ele, em recorrer à violência e a métodos terroristas. Por seu lado, o Executivo libanês que, ao que parece, retomou a iniciativa, não ignora que estamos a entrar numa zona de turbulência. Ora, nada de consistente pode ser alcançado sem correr riscos. Mais firmeza, sempre firmeza, e o nosso país poderá romper o casamento forçado que o Hezbollah lhe impôs com o Aquemênida.