


O Líbano e a região estão praticamente em “pausa”. O presidente Donald Trump indicou no início do fim de semana que concedeu ao Irã uma trégua de uma semana como gesto de boa vontade durante o funeral do ex-líder supremo da República, Ali Khamenei, que, segundo o texto original, foi morto no maciço bombardeio americano-israelense que desencadeou a guerra lançada contra o regime iraniano em 28 de fevereiro.
A pausa terminará em 11 de julho, data anunciada no sábado para a retomada das negociações entre Washington e Teerã, que ocorrerão em Islamabad. Na pauta estão as sanções, os ativos iranianos congelados e o dossiê nuclear.
A retomada dessas negociações ocorre em um momento em que vários sinais alimentam as incertezas sobre se o processo de “negociação”, iniciado pelo memorando de entendimento assinado entre os Estados Unidos e a República Islâmica, poderá levar a algum resultado construtivo.
Entre esses sinais, que podem jogar contra o regime iraniano, estão os desdobramentos dos dossiês do Líbano e do Estreito de Ormuz e, sobretudo, o surgimento no Líbano, na Síria e no Iraque de discursos oficiais convergentes que tendem a confirmar que toda a região está entrando em uma nova fase de sua história, completamente incompatível com o projeto ideológico khomeinista.
No cenário libanês, inicialmente, reportagens do diário libanês Nidaa el-Watan (próximo dos círculos soberanistas) apontam para uma decisão americana de dissolver o “mecanismo”, a comissão de monitoramento do cessar-fogo criada após o acordo de cessação das hostilidades de novembro de 2024, e substituí-lo por um comitê de segurança tripartite formado por Líbano, Estados Unidos e Israel, presidido por um alto oficial americano, o ex-chefe do mecanismo, general Joseph Clearfield. Ele já iniciou sua missão com reuniões nesta semana com líderes israelenses para examinar os procedimentos práticos para o desdobramento do Exército libanês nas duas “zonas-piloto” previstas no acordo-quadro assinado entre Líbano e Israel, em Washington, sob a mediação do secretário de Estado Marco Rubio.
O início da dinâmica prevista nesse acordo-quadro servirá, sem dúvida, para interromper os esforços desesperados da República Islâmica para manter influência por meio da carta libanesa.
Revelações sobre o impacto do bloqueio marítimo dos Estados Unidos
Quanto ao dossiê do Estreito de Ormuz, as ambições hegemônicas da Guarda Revolucionária, expressas em sua insistência em impor controle sobre essa via marítima, estão sendo enfraquecidas pela convergência das posições americana e europeia sobre a questão.
De forma mais ampla, a comunidade internacional se recusa a permitir a imposição de qualquer pedágio ou direito de passagem às embarcações que transitam pelo estreito.
No sábado, os líderes da França e do Reino Unido reafirmaram sua disposição de criar uma força multinacional para garantir a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz.
Nesse contexto, um alto funcionário britânico prestou homenagem à posição do Sultanato de Omã, que declarou estar disposto a garantir a segurança das embarcações ao longo do corredor marítimo paralelo ao seu litoral.
Desde o início desta guerra, a República Islâmica vem tentando explorar sua capacidade de provocar perturbações no Estreito de Ormuz para demonstrar que pode manter a economia mundial como refém caso sua pretensão de exercer controle total sobre a área não seja levada em consideração.
No entanto, reportagens publicadas no fim desta semana pelo New York Times indicam que as ameaças dos Pasdaran de fechar o Estreito de Ormuz têm limites no contexto atual.
Citando quatro altos funcionários iranianos, o jornal americano informou que o presidente do Irã e o governador do Banco Central iraniano comunicaram ao líder supremo, antes da assinatura do memorando de entendimento com Washington, que o bloqueio marítimo americano havia paralisado em grande parte toda a economia iraniana.
Eles também afirmaram que as reservas nacionais de alimentos e medicamentos essenciais estariam esgotadas até o fim de agosto em consequência do bloqueio.
Segundo essas informações, o presidente iraniano teria ameaçado renunciar caso o regime não autorizasse um acordo com os Estados Unidos, ressaltando que o prolongamento da crise econômica provocada pelo bloqueio “ameaçava a estabilidade do país” e que, por isso, “o governo já não era capaz de administrar a situação”.
Foi após essa iniciativa urgente, conduzida em duas frentes pelo presidente e pelo governador do Banco Central, que o líder supremo teria finalmente dado sinal verde ao processo de negociação com Washington.
Nesse contexto, cabe destacar que a eficácia demonstrada pelo bloqueio marítimo imposto pelo governo Trump e a grave ameaça que ele pode representar para a economia iraniana no curto prazo neutralizam, em certa medida, a capacidade de pressão que a Guarda Revolucionária busca exercer para afirmar seu domínio sobre o Estreito de Ormuz.
Assim, a carta do controle dessa rota marítima, que os Pasdaran ainda afirmam possuir, corre o risco de se voltar contra o próprio regime.
Relatório alarmante sobre a atividade nuclear iraniana
Paralelamente à ameaça de uma retomada do bloqueio marítimo, ao qual Washington poderá recorrer novamente caso as negociações bilaterais fracassem, o regime iraniano poderá em breve enfrentar outra fonte de tensão e disputa relacionada ao dossiê nuclear.
O portal libanês al-Janoubiya (próximo da oposição xiita e hostil ao projeto khomeinista) informa que um centro de pesquisa americano de grande reputação, sediado em Washington e especializado no acompanhamento do programa nuclear de Teerã, o Institute for Science and International Security (ISIS), identificou uma atividade preocupante e persistente em um importante complexo nuclear subterrâneo construído nas profundezas de uma montanha rochosa.
Esse local clandestino de altíssima segurança, que supostamente abriga importantes instalações e infraestrutura subterrâneas, incluindo capacidades de enriquecimento de urânio, jamais foi inspecionado por inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica.
Conhecido como “Pickaxe Mountain”, ele foi construído no interior da cadeia montanhosa de Zagros, a quase um quilômetro da instalação de enriquecimento de urânio de Natanz.
A emissora americana Fox News destaca que a continuidade das atividades nesse local “levanta sérias dúvidas sobre o cumprimento, por parte do Irã, dos compromissos assumidos” no memorando de entendimento assinado com Washington.
Uma das cláusulas desse documento prevê o congelamento de todas as atividades nucleares durante o período de 60 dias de negociações.
Caso seja confirmado que os trabalhos realmente continuam na instalação de “Pickaxe Mountain”, como afirma um dos especialistas do ISIS, isso constituirá uma grave violação do memorando de entendimento. Acima de tudo, será um forte indicativo da falta de seriedade e de credibilidade dos compromissos assumidos pelo regime dos aiatolás.
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