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Enorme explosão provocada por um ataque israelita perto de Al-Mansouri, no sul do Líbano. (AFP)
O essencial da semana
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Por LevantTime .
Publicado em set 6, 2026 - 23:27
Enquanto os Estados Unidos pareciam ter optado apenas pela guerra econômica contra o Irã, o exército americano lançou abruptamente na terça-feira ataques contra o território iraniano, em retaliação a ataques contra petroleiros, desencadeando uma espiral de violência ao longo da semana. No Líbano, Israel libertou vários civis detidos em suas prisões, enquanto suas forças armadas ocupavam a colina estratégica de Ali el-Taher e prosseguiam com seus bombardeios massivos na zona que controla no sul do país. A semana de 31 de agosto a 6 de setembro foi marcada por uma nítida aceleração dos acontecimentos no Oriente Médio, depois de uma semana anterior que parecia mergulhada na estagnação. Na frente iraniana, já na noite de terça-feira, o exército americano realizou ataques direcionados em território iraniano, os primeiros em quase um mês. Esta captura de tela, feita em 6 de setembro de 2026 a partir de imagens de vídeo sem data divulgadas no mesmo dia pelo Comando Central dos EUA, mostra o que o Centcom apresenta como um dos petroleiros iranianos que destruiu em retaliação a tentativas de ataques com mísseis contra navios militares. (Centcom via AFP) No entanto, o ritmo relativamente contido desses ataques dá a impressão de que o governo americano optou por uma escalada controlada, mantendo ao mesmo tempo o bloqueio e as pressões econômicas contra Teerã. Ainda assim, a tensão não parou de crescer ao longo da semana. Explosões foram ouvidas no sábado na ilha altamente estratégica de Kharg, por onde passa a maior parte do petróleo iraniano. O presidente americano Donald Trump, por sua vez, ameaçou atacar o complexo nuclear de Kuh-e Kolang — “montanha da picareta” em persa, ou Pickaxe Mountain —, uma instalação fortemente protegida e enterrada a grande profundidade, não muito longe de Natanz, o principal centro de enriquecimento de urânio do Irã. Mais cedo na semana, ele havia formulado a equação do “petroleiro por petroleiro”, prometendo atingir um navio iraniano cada vez que os Guardiões da Revolução atacassem um petroleiro no Estreito de Ormuz. Foi exatamente isso que o exército americano fez no sábado, incendiando dois navios iranianos. No plano político, Donald Trump endureceu ainda mais o tom em relação a Teerã. Depois de afirmar em uma entrevista que as negociações estavam definitivamente congeladas “porque um acordo com eles não vale o papel em que está escrito”, ele declarou no sábado que o “conflito” com o Irã não era uma “guerra”, mas “algo corriqueiro” para os Estados Unidos. Uma forma de mexer com os nervos dos iranianos ao mesmo tempo em que tranquiliza sua opinião pública às vésperas das eleições de meio de mandato. Um porto, além de instalações de armazenamento e depósitos, foi danificado após um ataque militar americano realizado na província iraniana de Hormozgan, no sul do país, que faz fronteira com o estreito de mesmo nome, em 6 de setembro de 2026. (AFP) Ao mesmo tempo, a mídia americana Axios publicou no sábado uma reportagem sugerindo que os Estados Unidos já estão pensando além deste conflito, iniciado em 28 de fevereiro. O site afirma, citando autoridades americanas e outras fontes informadas, que o governo Trump está elaborando uma estratégia mais ampla para o Oriente Médio do pós-guerra. Ela se basearia na construção de um alinhamento regional destinado a conter o Irã, encerrar as repercussões regionais dos ataques de 7 de outubro de 2023 realizados pelo Hamas em Gaza e ampliar o círculo de normalização entre Israel e os países da região. A ameaça contra Kuh-e Kolang, que marca o ressurgimento da questão nuclear iraniana, ecoa um anúncio da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que lamentou, em 1º de setembro, o fato de o Irã não ter reaberto seus sites aos inspetores após os ataques de maio de 2025. Vale lembrar que, apesar da magnitude da ofensiva israelo-americana contra os sites iranianos, é quase certo que o estoque de urânio enriquecido permaneça intacto e tenha sido colocado em local seguro pelas autoridades iranianas, que continuam apegadas ao que consideram ser seu direito de desenvolver um programa nuclear. Após o anúncio da AIEA, os Estados Unidos, mas também a França, a Grã-Bretanha e a Alemanha, manifestaram a intenção de apresentar uma resolução ao Conselho de Segurança da ONU condenando o descumprimento pelo Irã de seus compromissos em matéria de não proliferação nuclear. Uma unidade visível que contrasta com o clima frio entre Washington e seus aliados europeus desde o início do conflito. Já os iranianos parecem continuar a reagir às turbulências da mesma maneira: atacando vários países vizinhos, como o Kuwait, os Emirados Árabes Unidos e a Jordânia, sem no entanto atacar diretamente Israel. Ataques maciços no sul do Líbano Na frente libanesa, Israel intensifica suas operações de destruição nas aldeias do sul, chegando a usar, em alguns casos, barris de explosivos. O presidente libanês Joseph Aoun pediu a Washington e à comunidade internacional que “façam cessar” os ataques israelenses no território libanês, que deixaram sete mortos no domingo em meio a uma trégua frágil. Os bombardeios atingiram diferentes localidades da região de Nabatiye. Vinte pessoas também ficaram feridas, entre elas crianças, segundo o Ministério da Saúde. Um ataque destruiu ainda o antigo hospital Ghandour, fora de funcionamento há anos. Libertação de detidos e tomada de Ali al-Taher Mas o evento mais importante da semana no sul foi a tomada, pelos israelenses, da colina estratégica de Ali al-Taher, na região de Nabatiye. O local era um importante quartel-general do Hezbollah, formado por um vasto emaranhado de túneis, de onde operavam combatentes do partido xiita, mas também, segundo algumas informações, combatentes iranianos. Na noite de quinta-feira, os israelenses anunciaram ter assumido o controle do complexo. No domingo, o ministro israelense da Defesa, Israel Katz, declarou que ainda restavam túneis a serem dinamitados. Esse “sucesso” militar talvez não tenha sido uma surpresa após semanas de bombardeios, mas a reação do Hezbollah foi, sim, surpreendente. Depois de garantir por muito tempo que se recusaria a ceder essa colina estratégica — assim como os iranianos, que também haviam ameaçado intervir —, o partido xiita acabou minimizando o impacto desse desenvolvimento por meio de seus veículos de mídia e porta-vozes, sem, no entanto, confirmar oficialmente a perda do local, que havia se recusado a preservar entregando-o ao exército libanês. A outra grande surpresa da semana foi a libertação, por Israel, de cinco civis libaneses e sírios detidos em suas prisões. Essa medida ocorreu após uma visita a Tel Aviv do embaixador dos Estados Unidos no Líbano, Michel Issa. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira “ocorre em seguimento aos esforços empreendidos por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os corpos dos líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano” entre 1984 e 1986. Mais uma vez, a reação do Hezbollah chama a atenção. Embora considere a medida positiva, mas insuficiente, o partido voltou a atacar as autoridades libanesas, acusando-as de “submissão ao inimigo” e responsabilizando-as pelo desastre no sul. Chegou até a alertá-las contra “os conflitos internos”. Será que os reveses militares do partido poderiam levá-lo a se voltar ainda mais contra o cenário interno? Por fim, o exército israelense fez no domingo uma declaração importante, anunciando que está considerando reduzir sua zona de ocupação no Sul do Líbano, passando da atual "zona amarela" para uma "zona cinza". Segundo essa interpretação, tal mudança refletiria uma diminuição da ameaça representada pelo Hezbollah. A medida, no entanto, ainda não foi aprovada pela liderança política israelense. Iêmen e Palestina A semana também foi particularmente tensa no Iêmen, onde os confrontos entre os rebeldes houthis e as forças governamentais não pararam de se intensificar, culminando em um sábado especialmente sangrento, com mais de 60 mortos em um único dia, elevando para cerca de 200 o número de vítimas desde quinta-feira. A ofensiva dos houthis busca sobretudo tomar o controle de certas áreas ao redor da passagem de Bab al-Mandab, o que daria a esse aliado do Irã uma vantagem adicional sobre outro ponto estratégico crucial, depois do estreito de Ormuz. Na Palestina, declarações particularmente preocupantes de Israel Katz sobre Gaza marcaram a semana. Ele afirmou, sem apresentar provas, que a maioria dos habitantes da faixa desejava deixá-la, ressaltando que Israel estava "pronto para essa evacuação em massa". Isso deixa entender que o calvário dos habitantes de Gaza está longe de terminar. Por fim, vale destacar que a AIEA anunciou, em 1º de setembro, que infraestruturas descobertas em Deir ez-Zor, na Síria, indicam que o antigo regime de Bashar al-Assad preparava secretamente um programa nuclear avançado, capaz de resultar na fabricação de uma arma atômica com a ajuda de especialistas norte-coreanos.
Homenagem
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Por Michel Hajji Georgiou - Publicado em set 6, 2026 - 13:31
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O jogador argentino, que encerrou sua carreira internacional em 31 de agosto de 2026, não era nada menos que um prestidigitador dos estádios. Sua trajetória, feita de prodígios, quedas e redenção, talvez diga algo sobre nossa necessidade intacta de encantamento em um mundo que, no entanto, pretende ter se livrado dele. Anunciada poucas semanas depois da final da Copa do Mundo de 2026 perdida para a Espanha, a aposentadoria internacional de Lionel Messi não deixou de provocar uma emoção para a qual é difícil encontrar muitos equivalentes na história recente do futebol. Provavelmente seria preciso remontar a Maradona, ou ainda a Cruyff ou Pelé, para reencontrar essa sensação de que, com a retirada de um jogador, desaparece algo que ultrapassa em muito o próprio esporte, como se certa maneira de habitar o futebol, ou até mesmo de acreditar nele, também chegasse ao fim. Longe dos glacis da razão Chega das estatísticas intermináveis e das insuportáveis querelas, tediosas e estéreis, em torno de “quem é o melhor de todos os tempos». O autor destas linhas nunca foi um fanático pela bola, nem por classificações verticais ou por uma hierarquia do mérito em geral e, portanto, aprecia o talento de cada jogador com o mesmo olhar maravilhado de uma criança de 11 anos. De resto, essa obsessão particularmente contemporânea pelos números estraga todo o prazer do espetáculo. E com razão: o procedimento que consiste em somar gols, assistências, Bolas de Ouro, Ligas dos Campeões, Copas América, Copas do Mundo… só pode ser redutor. Em outro registro, ele não deixa de evocar a crítica desenvolvida pelo filósofo germano-americano Eric Voegelin à tentação gnóstica moderna: a de um saber convencido de que pode encerrar a realidade em um sistema e abolir aquilo que lhe resiste. Os recordes são provavelmente um indicador do gênio de Lionel Messi. Mas tantos outros grandes jogadores que fizeram vibrar os estádios e os corações, sem realizar sequer metade dos feitos de Messi, permanecem, ainda assim, eternos na memória. Aquilo que os tornou verdadeiramente singulares encontra-se em outro lugar, longe dos glacis da razão. Algo mais se jogou em torno deles. Algo que pertence a certo sentido profundo da transcendência, que o entendimento jamais poderia apreender plenamente. Esse é o caso de Lionel Messi há mais de vinte anos, desde o dia em que, sob o olhar do “ícone”Diego Maradona, fez sua primeira entrada, em junho de 2006, na arena da Copa do Mundo com as cores da Albiceleste contra Sérvia e Montenegro. Ora, esse elemento indizível que constitui o gênio de Messi, como o de outros, talvez toque em um dos paradoxos mais curiosos da modernidade: a persistência da magia em um mundo que se construiu precisamente contra ela. O mundo desencantado Max Weber falava do desencantamento do mundo para designar esse lento processo pelo qual a modernidade ocidental submeteu progressivamente a existência à racionalização, ao cálculo, à previsibilidade e à explicação causal. O mundo já não deveria ser atravessado por forças obscuras, sinais, intervenções sobrenaturais ou vontades invisíveis; deveria, ao menos em princípio, tornar-se inteligível. Infelizmente, o esporte moderno, e mais amplamente o mundo moderno herdado da globalização, insere-se perfeitamente nessa dinâmica. O futebol de hoje, e não apenas o futebol, é provavelmente um dos objetos mais quantificados que existem. O menor gesto é medido, e tudo é cuidadosamente calculado e modelado. Da matemática à inteligência artificial, o talento bruto depende agora mais da ciência do que do encantamento. É aquilo que há de humano, em sua relação espontânea, até selvagem, com o invisível que nasce do coração, que desaparece diante de nossos olhos em benefício da quadratura do VAR. É, de certo modo, o assassinato do esporte em nome de mais rigor e equidade… ainda que a eutanásia dessa parcela de espontaneidade sublime acabe provocando, ela própria, injustiças flagrantes. Basta, para constatá-lo, voltar a algumas das decisões controversas da Copa do Mundo de 2026. Paradoxo dos paradoxos, o próprio Lionel Messi foi, desde a origem, filho dessa modernidade técnica, da qual certamente deve parte de sua carreira excepcional. Seu corpo, pequeno demais para os padrões esperados, foi corrigido por meio de tratamento hormonal. Identificado muito cedo, seu talento foi assumido por uma instituição que organizou sua formação, alimentação, desenvolvimento físico e integração em uma máquina esportiva já globalizada. Nada, em aparência, poderia estar mais distante do velho relato heroico. À primeira vista, a história se parece mais com distopias do tipo Gattaca do que com mitos e narrativas messiânicas. E, no entanto, esse velho relato de fato retornou, e até com uma insistência quase constrangedora. Desde o início de sua carreira, Lionel Messi foi colocado sob o microscópio. Mas quanto mais se esforçavam para explicá-lo e desmistificá-lo, menos conseguiam dissipar inteiramente a impressão produzida por alguns de seus gestos. O homem simplesmente não consegue ser circunscrito nem reduzido a um acúmulo de dados. Na idade em que a maioria dos grandes jogadores volta para as sombras, ele continua surpreendendo. Estupefazendo, até, ao trazer ao esporte essa parcela de insensatez que escapa à hipersistematização quase robótica do mundo. É provavelmente aí que se deve procurar esse outro lugar que caracteriza Messi. Numa sobrevivência da magia num momento em que até os espaços que permitiam a expressão positiva de uma humanidade feita de carne e sangue se veem progressivamente “disciplinados”por essa atração hipnótica por uma nova gnose puritana em nome da modernidade. O Messias fabricado pela máquina Embora oriundo, de certo modo, da máquina matricial, Lionel Messi constitui, por si só, um questionamento desse modelo de prêt-à-porter. Uma espécie de alter ego do Neo de Matrix, lançado numa simulação governada por parâmetros que pretendem calcular tudo. O destino do argentino adquiriu progressivamente, quase contra sua vontade, a forma de uma narrativa messiânica. O trocadilho com seu nome seria fácil demais se sua própria história não o tivesse constantemente relançado: a da criança frágil, cujo corpo parecia querer negar a realização à qual seu talento a destinava. Depois, a do exílio ainda muito jovem para Barcelona, da adoção por uma cidade estrangeira, da ascensão quase irreal, do reconhecimento mundial e, em seguida, dessa estranha dificuldade de ser reconhecido pelos seus… Durante muito tempo, a Argentina manteve com seu filho pródigo uma relação de hainamoration. Pouco importavam seus resultados, seu talento, seu brilho… ele precisava responder a uma única pergunta, impiedosa: por que não era Maradona? A comparação era certamente inevitável, mas também profundamente injusta. Tudo separava os dois homens em sua maneira de estar no mundo. Maradona carregava a Argentina com tudo o que ela podia ter de passional, contraditório, excessivo e teatral. Falava, provocava, brigava, caía, voltava, misturava ao futebol sua vida privada, suas cóleras, seus compromissos políticos… até sua própria destruição. Seu próprio corpo parecia transformar-se em um dos lugares onde se encenavam as contradições de seu país. Maradona era a própria encarnação daquilo que o mundo esperava do futebol: uma alma rebelde, levando por vezes o jogo até a imoralidade, mas dentro de uma espécie de gigantomaquia futebolística. Maradona era épico. E, sobretudo, havia colocado seu país no firmamento do futebol em 1986. Messi, por sua vez, não oferecia nada disso. Era silencioso, às vezes quase ausente da narrativa que os outros construíam ao seu redor, ausência que durante muito tempo foi interpretada como defeito. Quase apagado, sem personalidade. Era justamente isso que os dois gigantes, Maradona e Pelé, lhe censuravam: falta de liderança, ser liso demais. Uma espécie de bebê de proveta milagroso dos estádios. Também se censurava ao menino de Rosario não cantar suficientemente o hino, não ser argentino o bastante, ter sido “fabricado”por Barcelona e, naturalmente, não vencer com a seleção aquilo que ganhava quase continuamente com seu clube. A profecia inacabada A final da Copa do Mundo de 2014, perdida de maneira dramática para a Alemanha, seguida pelas finais da Copa América de 2015 e 2016, havia transformado progressivamente essa suspeita em acusação. Quando perdeu seu pênalti contra o Chile em 2016 e anunciou depois que deixava a seleção, ele já era, no entanto, um dos maiores jogadores da história do futebol. Mas sua narrativa permanecia estranhamente inacabada. O sentimento de incompletude pouco dizia respeito ao seu currículo. Tratava-se antes daquela necessidade quase arcaica continuamente imposta aos heróis modernos: concluir seu percurso iniciático. Com as cores argentinas, Messi brilhava e depois caía pesadamente. Mas não se levantava. Não cumpria a profecia. E, aos olhos de seu povo, isso reforçava o sentimento de hainamoration: um deus caído continua sendo um deus, apesar de tudo. Mas acrescido daquilo que, aos olhos de seus adoradores, constitui um substrato de humanidade insuportável e, portanto, perfeitamente detestável: suas taras, suas fraquezas. Os argentinos amavam Maradona apesar de sua decadência espetacular e de sua humanidade falível. Mas isso porque ele havia “merecido”essa decadência, porque ela se tornara, de algum modo, aceitável depois do México de 1986. Messi, por sua vez, ainda não tinha o direito de cair, porque ainda não havia chegado ao topo. Não, a profecia não estava cumprida. Começava até a virar caricatura. Messi voltou, portanto. Mas ainda teve de esperar por sua redenção. Foi preciso a Copa América de 2021, no Maracanã, para que essa relação feita de suspeita, expectativa e decepção com seu público e seu povo começasse verdadeiramente a mudar. E foi preciso, sobretudo, a Copa do Mundo de 2022 para que a história adquirisse aquela forma quase perfeita demais que ninguém teria ousado escrever sem parecer ceder a uma facilidade de roteirista. Fato estranho, Maradona havia morrido em 2020. Era como se uma espécie de maldição nacional opressiva tivesse sido levantada. Ao mesmo tempo, o povo argentino precisava de uma figura paterna substituta, e a pressão não fazia senão redobrar. Mas talvez misturada, dessa vez, com um pouco de ternura? O que aconteceu no Catar em 2022 é ainda mais interessante porque o próprio Messi aparece ligeiramente diferente. Protesta mais, responde às provocações, irrita-se, fala com uma violência de que poucos o julgavam capaz e deixa até escapar aquele “¿Qué mirás, bobo?”diante dos neerlandeses, para diversão da Argentina. Buenos Aires finalmente descobre, com atraso, aquilo que sempre esperou dele. Um pouco de Maradona dentro de muito Messi. Mas Messi não se transforma, por isso, em Maradona. E talvez seja precisamente aí que ocorra a verdadeira reconciliação: a Argentina deixa de lhe pedir que seja Maradona. A partir de 2022, Messi já não precisa encarnar outro modelo do gênio nacional. Finalmente pode tornar-se, também para seu país, aquilo que já havia sido em todos os outros lugares: Messi. Simplesmente. O ato final da profecia É verdade que o triunfo de 2022 poderia ter constituído um final perfeito. Mas, como no caso de Maradona, o ato final da profecia heroica é a queda. Ninguém esperava realmente algo excepcional de Messi em 2026. Aos 39 anos, considerava-se amplamente que ele já fazia parte dos “heróis cansados». A queda do Capitólio havia ocorrido com o episódio amargo de sua saída do FC Barcelona e sua desventura no PSG. Já não atuava senão na liga americana, com as cores de Miami… na periferia do mundo do futebol, nas terras distantes do soccer. E a nova geração já estava ali, pronta para mandar os ancestrais a Bicêtre. No entanto, aquela Copa do Mundo de 2026, que parecia destinada a não passar de um epílogo, transformou-se num último golpe de brilho sensacional. A Argentina chegou novamente à final, com Messi, aos 39 anos, ainda como seu “líder histórico”e seu recurso nos momentos decisivos, realizando algo que não deixava de lembrar o que Roberto Baggio fizera pela Itália em 1994, aos… 27 anos: um deus ex machina permanente. Baggio fracassou às portas do triunfo contra o Brasil depois de praticamente carregar a Itália até Pasadena. Seu pênalti enviado por cima do travessão deixaria uma das imagens mais cruéis da história das Copas do Mundo: a de um homem imóvel, de cabeça baixa, mãos na cintura, enquanto o Brasil celebrava a vitória. Aquele que havia “morrido de pé». O duende italiano jamais conheceu a apoteose. Mas essa morte simbólica, longe de apagar seu Mundial, acabou também entrando para sua lenda. A história foi mais clemente com Messi, apesar de uma campanha de ódio contra ele, misturada a acusações de trapaça e favoritismo, num pano de fundo de decisões arbitrais controversas e atos antidesportivos de sua equipe, como havia sido outrora com Maradona. Ainda mais, até. Uma final em sua sexta Copa do Mundo, às portas da aposentadoria, com uma atuação individual extraordinária? É precisamente aí que reside aquilo que há de mágico no fenômeno Messi e que desafia a razão e sua avalanche de estatísticas. O gênio não pode ser encerrado numa soma de parâmetros e variáveis. Sua condição física, mesmo ótima, não pode explicar por si só aquilo de que o mundo inteiro foi testemunha. E pouco importa que sua história nos lembre que o herói, por mais mítico que seja, não pode abolir a sinistra influência de Saturno. O reencantamento do mundo Pois, para além da profecia cumprida, da ascensão à queda, com sua parcela de alegrias e desventuras, o argentino ofereceu ao mundo uma última volta que pertence à arte, quando não a uma forma de poesia homérica. Com a retirada de Lionel Messi da cena internacional, desaparece um pouco da magia do mundo… até que outro herói providencial volte a encantar os estádios. Durante mais de vinte anos, Messi terá encarnado a coexistência de dois mundos que julgávamos incompatíveis: o da racionalização extrema do esporte moderno e aquele, muito mais antigo, do herói, do sinal, da espera e do encantamento. Quando Messi parte, algo dessa contradição aparece de repente. Outros prodígios já surgiram, mas talvez descubramos, justamente no momento em que um de seus últimos grandes representantes deixa a cena, o quanto continuamos precisando de transcendência. O mundo moderno provavelmente não suprimiu o encantamento. Apenas o deslocou. Durante noventa minutos, esse homem chamado Lionel Messi, que o encarnou nos gramados, parte depois de ter realizado tudo. E até mais.
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Ficamos mais burros?

Ou estamos vivendo uma transformação na estrutura do conhecimento?
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Por Mona Fayad - Publicado em set 5, 2026 - 20:01
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A pergunta «O mundo ficou mais burro?» reaparece com frequência nos debates contemporâneos sobre mídia digital, mecanismos de busca e redes sociais. À primeira vista, parece uma pergunta simples, mas esconde uma questão muito mais profunda, ligada à própria natureza do conhecimento: como ele é produzido, como é transmitido e como é consumido. Talvez a pergunta «Ficamos mais burros?» não seja a mais precisa. Talvez devêssemos perguntar: o conhecimento ainda é transmitido de uma maneira que permita compreendê-lo e torná-lo produtivo? A maioria dos leitores ainda recorre aos textos originais? Ou se limita aos seus resumos e ao que é dito a respeito deles por meio daquilo que circula entre os leitores? Uma das chaves para compreender esse fenômeno encontra-se nos trabalhos do psicólogo britânico Frederic Bartlett, que realizou, na década de 1930, uma série de experiências sobre aquilo que chamou de «reprodução serial». Nessas experiências, uma pessoa ouvia uma história e depois precisava contá-la a outra, que por sua vez a contava a uma terceira, e assim por diante. Os resultados foram impressionantes: a cada nova transmissão, a história não era reproduzida exatamente como havia sido contada, mas reformulada. Alguns detalhes desapareciam, outros eram ampliados e outros ainda eram substituídos por elementos mais compatíveis com o contexto, as experiências e a cultura do receptor. Depois de passar por um número suficiente de intermediários, a história original já havia se transformado em algo inteiramente diferente. Esse modelo simples revela uma verdade fundamental: a memória não é um recipiente neutro, mas um mecanismo de reconstrução. E, quando o conhecimento passa por múltiplos intermediários, ele não é «preservado», mas «reproduzido». É aqui que começam a aparecer as semelhanças com o nosso mundo contemporâneo e o receio de que estejamos ficando mais burros. Na era da mídia digital, o conhecimento já não circula por meio da transmissão oral, mas através de cadeias de mediação: um artigo é resumido, depois citado, em seguida republicado sob a forma de uma postagem curta e, por fim, reduzido mais uma vez a uma frase ou a um título. Nesse contexto, podemos retomar uma imagem metafórica usada em um texto jornalístico: uma biblioteca cujos livros são substituídos por resumos, e depois por resumos dos resumos, até que o leitor se veja diante de sucessivas camadas de redução. Algo semelhante ao que poderíamos chamar de «cadeia do guaxinim», que não lê o original, mas remexe em seus restos. Vale esclarecer que a escolha do «guaxinim» não é aleatória. Essa metáfora condensa simbolicamente uma condição cognitiva que vem se consolidando. Esse animal, que vive nas margens das cidades e remexe em latas de lixo, não produz seu alimento, mas se nutre dos restos daquilo que outros produziram. Apesar de sua inteligência prática e de sua capacidade de desmontar, recolher e aproveitar objetos, ele não compreende verdadeiramente aquilo que tem diante de si, mas lida com as coisas como materiais disponíveis para uso imediato. É assim que o conhecimento passa a se apresentar na era da redução serial: textos são resumidos e depois novamente resumidos, até que deles reste apenas um punhado de fragmentos de sentido, reorganizados e postos novamente em circulação sem qualquer vínculo verdadeiro com sua fonte. Nesse ponto, não apenas nos afastamos do original, mas entramos em uma nova etapa da produção da informação ou do conhecimento, na qual o agente cognitivo deixa de ser um leitor ou pensador para se tornar um coletor de restos de significado, que os redistribui em formatos destinados ao consumo rápido. A «cultura do guaxinim», portanto, não é apenas uma descrição da superficialidade. É também uma caracterização precisa da degradação da própria cadeia do conhecimento: da criação ao resumo, da compreensão ao processamento formal, das ideias a algo que já não passa de um vestígio apagado delas. Mas esse fenômeno não pode ser compreendido separadamente da estrutura tecnológica que o governa. É aqui que entra Marshall McLuhan, que sintetizou seu pensamento na célebre frase: «O meio é a mensagem». O problema não está apenas no conteúdo, mas também na forma através da qual esse conteúdo é transmitido. A mídia digital contemporânea não se limita a transportar informações, mas as remodela segundo a lógica da velocidade, da condensação e da fragmentação. O texto longo torna-se inadequado para o consumo, enquanto uma ideia só parece aceitável se puder ser reduzida a poucas linhas facilmente compartilháveis. Essa transformação produz um paradoxo marcante: vivemos numa época em que o acesso ao conhecimento deixou de ser difícil e se tornou excessivamente fácil. E, com essa facilidade excessiva, surge aquilo que poderíamos chamar de «ilusão cognitiva»: basta ler um pequeno trecho ou um resumo rápido para que a pessoa tenha a sensação de ter assimilado uma ideia. Mas essa sensação de domínio não é necessariamente acompanhada por uma compreensão profunda nem pela capacidade de reconstruir ou criticar o conhecimento. É aqui que aparecem os que poderíamos chamar de «semiletrados»: indivíduos que possuem os sinais do conhecimento, mas não sua estrutura; seu vocabulário, mas não sua lógica interna. O problema se torna ainda mais complexo quando o observamos sob o ângulo da atenção. Em vez de permanecer em um estado prolongado de concentração, como acontece na leitura tradicional ou na reflexão demorada, a mente passou a viver sob um bombardeio contínuo de informações: notificações, vídeos, manchetes e ondas sucessivas de conteúdo. Essa situação não apenas dispersa a atenção, mas a reconfigura segundo uma lógica de saltos constantes entre pequenas unidades de significado, em vez de permitir a construção gradual e cumulativa de uma ideia. Lembro aqui de uma anedota que costumávamos contar e que circulava muito na época das manifestações populares. Ela ilustra bem a ideia da redução e da transformação do conteúdo. Depois da ocupação da Palestina, muitas manifestações populares tomaram as ruas gritando «Abaixo a Declaração Balfour!». A brincadeira dizia que, no fim da manifestação, o slogan havia se transformado, em árabe, em «Que alguém caia lá de cima!», uma frase inteiramente diferente que preservava algo do ritmo e da sonoridade da original. Talvez essa imagem nos ajude a compreender melhor o que acontece na linguagem cotidiana quando o conhecimento se transforma em mensagens curtas repetidas coletivamente. A manifestação começa com uma fórmula política precisa. Mas, com a repetição, a imersão coletiva e o ritmo sonoro, ela vai se transformando pouco a pouco em outra fórmula, completamente diferente. Esta pode conservar o ritmo e a carga emocional da primeira, mas perde seu significado e seu sentido original. O que permanece não é o sentido, mas a energia emocional da frase. Aqui se manifesta, de outra maneira, aquilo que Bartlett havia observado: não importa apenas o que foi dito, mas como aquilo foi repetido e como voltou a ser compreendido dentro de um contexto social em transformação. Se reunirmos todos esses fios, podemos dizer que aquilo que vivemos hoje não é propriamente um «colapso da inteligência», mas uma transformação das condições em que ela opera. A mente humana não mudou radicalmente, mas o ambiente em que funciona se transformou profundamente: passamos de um ambiente que permitia a acumulação lenta para outro que impõe a reprodução rápida e fragmentada do conhecimento. Essa mudança cria uma tensão permanente entre duas formas de pensamento: um pensamento reflexivo, que precisa de tempo, e um pensamento rápido, que exige resposta imediata. Sob essa perspectiva, a pergunta «Ficamos mais burros?» torna-se parcialmente enganosa. Talvez seja mais preciso dizer que estamos cada vez mais expostos a condições que tornam o pensamento profundo menos estável, ou menos possível, e o conhecimento mais vulnerável à fragmentação e à reciclagem. Quanto à burrice, se podemos usar o termo, talvez ela não seja uma propriedade da mente, mas um efeito colateral e uma característica da estrutura cultural que se formou. Trata-se de uma tecnologia que está remodelando nossa relação com o mundo. Assim, em vez de enxergar esse fenômeno como um declínio das capacidades humanas, podemos compreendê-lo como uma transformação do «ambiente do conhecimento»: um ambiente em que se tornou fácil saber alguma coisa, mas mais difícil compreendê-la de fato e em profundidade.
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A queda do regime iraniano: como administrar o pós-crise

No Irã, dois cenários paralelos se desenrolam hoje. Dois cenários que não se anulam, mas, ao contrário, agravam a situação crítica: ruas tomadas por protestos esporádicos, porém persistentes, e uma autoridade que responde com repressão cada vez mais brutal, conduzida de forma conjunta pela Guarda Revolucionária e pelo Líder Supremo. Esse paralelismo não expressa equilíbrio, mas medo. Regimes confiantes em seu poder não precisam de tamanha violência contínua; regimes em crise sabem que qualquer brecha de segurança pode levar ao colapso. A questão mais grave, no entanto, não diz respeito apenas à capacidade do regime iraniano de resistir às pressões internas, mas também às repercussões de qualquer instabilidade ou eventual colapso sobre toda a região. O Irã nunca foi um país isolado de suas crises; sempre foi, ao contrário, o centro de uma rede transnacional de influência cuidadosamente construída ao longo de mais de quatro décadas. Qualquer fissura no centro inevitavelmente terá efeitos na periferia. Desde a criação da República Islâmica, em 1979, o regime se apoia em uma equação clara: uma legitimidade ideológica que se sobrepõe à vontade popular e um instrumento eficaz de repressão que protege essa legitimidade pela força. Hoje, o primeiro pilar se desgasta com a expansão dos protestos sociais, econômicos e políticos, enquanto o segundo também se enfraquece, à medida que a Guarda Revolucionária é obrigada a atuar como força policial interna, e não como instrumento de expansão regional. Esse paradoxo não é um detalhe secundário, mas uma falha estrutural que atinge o cerne do projeto iraniano. Cada hora que a Guarda Revolucionária dedica à repressão do dissenso interno é uma hora perdida na projeção de influência externa. Cada escalada nas medidas de segurança doméstica eleva o custo do projeto regional, em termos políticos, financeiros e morais. Assim, o aumento da repressão não significa necessariamente a estabilização do regime; pode indicar, ao contrário, que o país está entrando em um prolongado período de desgaste, no qual a crise é administrada, mas está longe de ser resolvida. Nesse contexto, emergem dois cenários principais para o desfecho da crise iraniana. O primeiro é o de um regime que consegue conter as manifestações por meio de violência excessiva, preservando a coesão das instituições do Estado e da Guarda Revolucionária. Nesse caso, o regime não colapsa de imediato, mas é forçado a recuar no cenário regional, tornando a manutenção do poder interno sua prioridade absoluta. O segundo cenário é o de uma repressão que alimenta ainda mais a revolta, levando a manifestações em larga escala e lançando o país em uma espiral incontrolável de escalada. Isso poderia abrir caminho para um colapso político, rápido ou gradual, mas com consequências profundas. No Iêmen, esse desdobramento afeta diretamente o movimento houthis. O grupo, cuja ascensão esteve ligada ao apoio iraniano, verá diminuir o financiamento, o fornecimento de armas e a expertise vindos de Teerã. À medida que a crise no Irã se aprofunda, os recursos destinados a frentes externas, especialmente as de menor importância estratégica, tendem a ser reduzidos. Com isso, os houthis podem ser forçados a aceitar um acordo político que lhes garanta um mínimo de influência ou, caso contrário, correr o risco de desintegração interna sob a pressão da guerra, da economia e do tecido social local. No Iraque, o impacto de um recuo iraniano será mais complexo. As milícias ligadas a Teerã, acostumadas a operar sob a proteção de uma poderosa coalizão regional, serão obrigadas a redefinir seu papel. Sem apoio incondicional, surgirão divisões entre facções que buscam “iraquizar” o processo decisório e aquelas que defendem a escalada para preservar seus ganhos. Nesse contexto, a intensificação da repressão no Irã, inicialmente vista como fonte de força, transforma-se em fraqueza, ao privar esses grupos de sua cobertura simbólica e política e abrir uma brecha, ainda que arriscada, para que o Estado iraquiano recupere parte de sua soberania. O Líbano, por sua própria natureza, absorve os efeitos das crises regionais de forma ainda mais rápida. O Hezbollah, como a extensão mais organizada do projeto iraniano, será diretamente impactado pela redução da capacidade de financiamento e apoio de Teerã. Com o agravamento da repressão no Irã, o partido perde parte da legitimidade moral que por muito tempo serviu para justificar seu papel ideológico transnacional. Essa realidade o coloca diante de um dilema duplo: manter seu arsenal sem proteção regional ou se reposicionar politicamente dentro do Estado libanês. Nesse cenário, a questão do calendário político no Líbano torna-se crucial. Realizar eleições no auge de uma retirada iraniana ainda incompleta poderia dar às forças pró-Teerã a oportunidade de se reorganizar. Muitos acreditam que qualquer adiamento técnico, diante da queda no financiamento e no apoio militar, especialmente após a chamada “guerra de apoio” e a devastação causada sem uma perspectiva clara de reconstrução, poderia acelerar a erosão da base popular do dueto xiita e expor a dimensão da crise social enfrentada por seus apoiadores. Aqui, o debate deixa de ser apenas constitucional e passa a ser fundamentalmente político, ligado à evolução do equilíbrio de poder na região. No plano regional, a convergência entre protestos crescentes e repressão feroz no Irã sinaliza o início de uma fase de transição instável. Os países do Golfo observam com cautela, conscientes de que a fragilidade iraniana pode representar uma oportunidade para reconfigurar a segurança regional, mas também envolve o risco do caos. Israel vê o foco de Teerã em seus problemas internos como uma vantagem estratégica evidente, mas teme o potencial de escalada. A Turquia, por sua vez, se prepara para preencher qualquer vazio que possa surgir, especialmente na Síria e no Iraque. A intensificação dos protestos no Irã, enfrentados por uma repressão sem precedentes da Guarda Revolucionária, não significa que o regime tenha vencido a batalha. Significa, antes, que entrou em uma fase prolongada de desgaste. Neste momento, a questão já não é apenas quando o regime vai cair, mas como, a que custo e às custas de quem na região. A queda do regime iraniano, se ocorrer, não será um motivo de celebração, mas um momento perigoso que exigirá Estados fortes e elites políticas astutas. Sem isso, o colapso desse centro de poder pode degenerar em um caos generalizado, sem alternativa.

O Pavilhão Nuhad Es-Said para a cultura
Por
Micha Moussallem
Publicado

Assim como todos os museus do mundo, o Museu Nacional de Beirute é o guardião de uma história em risco de cair no esquecimento. No entanto, ele não se limita a esta missão: ele também se propõe a estar ancorado no presente e voltado para o futuro. Foi com este espírito que nasceu a ideia de abrir um centro anexo ao Museu, destinado a promover a cultura, a arte e os artistas libaneses contemporâneos. Este centro tinha também como vocação assegurar a perenidade do Museu Nacional de Beirute, gerando receitas provenientes de atividades culturais e sociais, bem como do aluguer de espaços, entre outros. Esta ideia de um centro dedicado à arte contemporânea germinou no seio da Fundação Nacional do Património. O projeto do pavilhão anexo foi levado a cabo por três mulheres: Mona Hraoui, Rima Shéhadé e Salma Es Said, esposa de Nuhad Es Said, cujo nome o centro hoje ostenta. Contudo, à semelhança de muitos projetos no Líbano, teve de enfrentar inúmeras dificuldades antes de ver a luz do dia. Obstáculos à sua edificação Desde o início da sua construção num terreno adjacente ao Museu Nacional de Beirute, o centro deparou-se com um obstáculo principal: a presença de lençóis freáticos. Para evitar qualquer risco de desmoronamento, foi necessário resolver este problema antes mesmo de iniciar as obras. Uma vez superado este obstáculo, o projeto podia finalmente começar. No entanto, não: a crise da Covid-19 eclodiu então, impondo uma nova paragem do canteiro de obras até ao fim da pandemia. Como se isso não bastasse, a explosão do porto de Beirute veio juntar-se à longa lista de provações atravessadas pelo país. A estes dramas juntou-se ainda a crise financeira de 2019, que pareceu dar o golpe de misericórdia ao projeto. Mas foi sem contar com a tenacidade das três madrinhas do pavilhão: Mona Hraoui, Rima Shéhadé e Salma Es Said. A edificação do pavilhão Para angariar os fundos necessários à prossecução do projeto, a Fundação Nacional do Património, sob a presidência de Mona Hraoui, lançou uma campanha de angariação de fundos, comprometendo a sua própria credibilidade. Em colaboração com o comité responsável pelo pavilhão, uma primeira soma foi angariada, mas permaneceu insuficiente. Foi então que Salma Es Said forneceu o financiamento complementar, colocando uma única condição: fazer do pavilhão «uma verdadeira joia». Esta exigência foi plenamente respeitada, sob a atenta supervisão de Rima Shéhadé, até nos mínimos detalhes. O pavilhão finalmente viu a luz do dia em setembro de 2024. Foi batizado Pavilhão Nuhad Es-Said para a cultura, em homenagem ao falecido marido de Salma Es Said, grande amante de arte e apaixonado por cultura. Arquitetura e legado O pavilhão é obra do conceituado e premiado gabinete Raëd Abillama Architects, que soube conceber um espaço polivalente capaz de acolher tanto exposições como eventos culturais. Na sua abordagem conceptual, Raëd Abillama inspirou-se nos planos originais de Pierre Leprince-Ringuet e Antoine Nahas, arquitetos do Museu Nacional, que inicialmente deveria incluir duas alas ligadas ao edifício principal. Apenas a ala esquerda tinha sido construída. Abillama, portanto, realizou a ala direita como uma extensão natural do edifício principal, utilizando os mesmos materiais e baseando-se nos planos históricos do Museu. Esta nova ala está ligada ao Museu pelo corredor do emir Maurice Chéhab, em homenagem àquele que contribuiu para salvar o Museu durante a guerra. Foi o arquiteto de interiores libanês Jean-Louis Mainguy quem teve a ideia de lhe dar este nome, em reconhecimento do papel determinante desempenhado pelo emir na proteção do património nacional. Os primórdios A primeira exposição acolhida pelo Pavilhão Nuhad Es-Said para a cultura foi «Portas e Passagens», fruto de uma estreita colaboração entre a Fundação Nacional do Património, o BeMA (Beirut Museum of Art) e o comité responsável pelo pavilhão. Atualmente, o pavilhão acolhe duas exposições: • From Venice to Beirut. The World in the Image of Man – The Pavilion of Lebanon at the Biennale Arte 2022 • Impressions of Paradise A história do Museu Nacional de Beirute e do seu anexo, o Pavilhão Nuhad Es-Said, comprova mais uma vez — se ainda fosse necessário — que o Líbano só sobrevive graças à iniciativa, à paixão e à determinação de homens e mulheres engajados.

Um novo ciclo energético se aproxima, e o ajuste pode ser brutal

Durante grande parte dos últimos quatro anos, os mercados globais de energia transmitiram uma sensação enganosa de calma. Os preços do petróleo recuaram mais de 50% desde o pico de 2022. Os preços do gás natural se normalizaram após o choque provocado pela guerra na Ucrânia. As energias renováveis dominam as manchetes, reforçando a percepção de que os combustíveis fósseis estariam sendo gradualmente empurrados para a irrelevância. À primeira vista, o mundo parece bem abastecido. Sob essa aparente tranquilidade, no entanto, esconde-se uma realidade muito mais frágil — marcada por subinvestimento crônico, esgotamento físico dos campos, forte concentração geopolítica da oferta e uma retomada silenciosa da demanda estrutural. O sistema energético global não é resiliente. Ele se encontra hoje em um equilíbrio instável. A ilusão da sobreoferta Em torno de 60 dólares por barril, os preços do petróleo sugerem abundância. A Agência Internacional de Energia projeta um crescimento da oferta global de 3,1 milhões de barris por dia em 2025, amplamente superior ao avanço do consumo. O consenso dos analistas reforça essa leitura, alimentando a ideia de que a escassez energética pertence ao passado. Mas esses níveis de preços têm um custo. Quando o petróleo é negociado abaixo do custo marginal de nova produção, o investimento desacelera. Não de forma abrupta ou imediata, mas de maneira persistente. Com o tempo, essa dinâmica corrói a capacidade do sistema de absorver choques. Nos Estados Unidos, o petróleo de xisto — principal motor do crescimento da oferta global na última década — já dá sinais de desgaste. Foi ele que permitiu ao país passar da condição de maior importador mundial para a autossuficiência e, posteriormente, para a posição de exportador líquido. Hoje, o xisto responde por cerca de dois terços da produção americana, impulsionado por avanços tecnológicos como a perfuração horizontal e o fraturamento hidráulico, com a Bacia do Permiano como principal polo. No entanto, quando o WTI opera abaixo do custo marginal de novas capacidades — estimado em torno de US$ 70 por barril pela Enverus Intelligence Research, com um ponto de equilíbrio corporativo próximo de US$ 62,50 segundo a Rystad Energy — o investimento inevitavelmente se retrai. A atividade de perfuração já começou a cair. Como os poços de xisto apresentam taxas de declínio muito acentuadas, podendo perder até 50% da produção no primeiro ano, a manutenção do nível de produção exige perfuração constante. A fraqueza atual se traduzirá, de forma mecânica, em menor produção no futuro. Em escala global, os campos convencionais de petróleo registram declínios anuais de 4% a 6%. Manter a produção atual exige substituir vários milhões de barris por dia todos os anos. Quando o investimento não é suficiente, a escassez não surge imediatamente — ela se acumula de forma silenciosa. É assim que os mercados de energia passam de um excedente aparente para um déficit real. E quando essa virada ocorre, o ajuste de preços tende a ser abrupto. Gás natural: a falha logística Se os preços do petróleo revelam complacência, o mercado de gás natural expõe tensões estruturais profundas. O sistema energético global repousa sobre uma equação de quatro elementos: O petróleo, pilar central do sistema, responde por cerca de 30% da energia mundial As fontes renováveis oferecem produção intermitente A energia nuclear fornece carga base, mas avança lentamente O gás natural garante flexibilidade, rapidez e confiabilidade O gás natural tornou-se central nos sistemas elétricos modernos. Ele compensa as limitações das renováveis e assegura a estabilidade das redes. Sua demanda é altamente sensível às condições climáticas — não por especulação, mas porque aquecimento e refrigeração são necessidades inegociáveis. Invernos rigorosos na Europa, na América do Norte ou no Nordeste Asiático tensionam imediatamente os equilíbrios. Ondas de calor produzem o mesmo efeito via consumo elétrico. O gás preenche essa lacuna. A produção de gás também não está imune ao declínio. Os preços baixos dos últimos dois anos levaram à redução da perfuração em bacias de gás seco, à realocação de capital para áreas mais ricas em petróleo e ao adiamento de investimentos em infraestrutura. Ao contrário do petróleo, porém, a principal restrição do gás não é a produção, mas a logística: gasodutos, terminais de liquefação, frotas de navios metaneiros, instalações de armazenamento altamente especializadas e portos adequados. A expansão do gás natural liquefeito (GNL) globalizou o mercado. A Europa, após reduzir drasticamente sua dependência do gás russo transportado por dutos, passou a depender fortemente do GNL. A demanda asiática segue em crescimento. Os Estados Unidos tornaram-se o maior exportador mundial, conectando seu mercado doméstico às dinâmicas globais e às limitações logísticas. Nesse contexto, as disrupções deixam de ser regionais. Tornam-se sistêmicas. A demanda energética volta a crescer, silenciosamente Enquanto a atenção pública permanece voltada para a queda esperada da demanda por combustíveis fósseis, impulsionada pelos veículos elétricos e pela expansão acelerada da energia solar, um novo vetor de consumo emerge: a inteligência artificial. A revolução da IA não se limita a chips e softwares. Ela é, fundamentalmente, energética. Até 2030, o consumo elétrico dos data centers pode alcançar entre 950 e 1.600 terawatts-hora, impulsionado principalmente pelas cargas de trabalho de IA. Para efeito de comparação, a geração total de eletricidade dos Estados Unidos em 2024 foi de aproximadamente 4.400 terawatts-hora. A IA, sozinha, pode elevar a demanda elétrica americana em mais de 20% em cinco anos. Essa energia terá de ser produzida. Usinas nucleares exigem longos prazos de construção. A energia solar, apesar do crescimento acelerado, ainda representa cerca de 5% da geração elétrica global e deve atingir aproximadamente 20% até 2050. A infraestrutura de gás é complexa e lenta de desenvolver. No curto prazo, o petróleo permanece como a fonte de energia mais disponível e flexível. Surge, assim, um paradoxo: à medida que a transição energética avança, a demanda se torna mais rígida — não mais flexível. A concentração da oferta marginal: a verdadeira linha de fratura Os Estados Unidos são, ao mesmo tempo, o maior consumidor e o maior produtor mundial de petróleo. São amplamente autossuficientes. A China, por sua vez, é o segundo maior consumidor, com cerca de 16 milhões de barris por dia, e o maior importador global. Depende de um conjunto diversificado de fornecedores: países do Golfo, Rússia, Irã, Venezuela e, em menor grau, produtores asiáticos como Indonésia, Brunei e Mianmar. Até recentemente, a China importava cerca de 400 mil barris por dia da Venezuela, aproximadamente 4% de seu consumo — um fluxo interrompido abruptamente em 3 de janeiro de 2026. Em 2025, o Irã foi o segundo maior fornecedor, com 1,61 milhão de barris por dia, quase 20% das importações chinesas. A principal vulnerabilidade do sistema energético global não está na demanda, mas na concentração da oferta marginal. Fora dos Estados Unidos, a capacidade excedente de produção é extremamente concentrada. No fim de 2025, a capacidade ociosa da OPEP+ girava em torno de 4 milhões de barris por dia, cerca de 4% do consumo mundial. À primeira vista, o número parece confortável. Na prática, não é. A Arábia Saudita controla cerca de 2,4 milhões de barris por dia Os Emirados Árabes Unidos, aproximadamente 850 mil O Iraque, cerca de 320 mil Juntos, esses três países concentram cerca de 70% da capacidade disponível. A maioria dos demais produtores já opera próxima do limite máximo. Essa configuração transforma a capacidade excedente de amortecedor em um ponto potencial de ruptura. A concentração logística: o risco geopolítico Em nenhum lugar essa fragilidade é mais evidente do que no Oriente Médio. Cerca de 20% do consumo mundial de petróleo e uma parcela crítica das exportações globais de GNL transitam pelo Estreito de Ormuz, um corredor marítimo estreito entre o Irã e Omã, sem alternativa viável. Qualquer interrupção — mesmo temporária — revelaria imediatamente a estreiteza das margens de segurança. Com o regime iraniano sob as pressões internas e externas mais intensas das últimas décadas, o risco de escalada assimétrica não pode ser descartado. Entre os cenários mais graves está uma tentativa de interromper o tráfego marítimo no estreito. Um evento desse tipo representaria um verdadeiro cisne negro para os mercados globais de energia, provocando uma reprecificação abrupta do petróleo e do gás natural, especialmente durante os picos de demanda do inverno no Hemisfério Norte. Um sistema precificado para a calma, não para o choque A narrativa dominante parte da premissa de estabilidade: oferta controlada, geopolítica administrável e uma transição energética suave. A história recomenda cautela. Os mercados de energia não entram em crise de forma gradual. Eles falham na margem — quando o subinvestimento limita a oferta de longo prazo, quando novas tecnologias geram saltos inesperados de demanda e quando a concentração produtiva e logística torna o sistema vulnerável. Nessas condições, os choques têm efeitos desproporcionais. Hoje, essa margem é perigosamente estreita. A atenção de Donald Trump ao petróleo venezuelano — e possivelmente amanhã ao petróleo iraniano — também pode ser interpretada à luz da dependência estratégica da China das importações de energia. O mundo ainda não está sem energia. Mas está perigosamente carente de resiliência.

Des-Khomeinização
Por
Michel Hajji Georgiou
Publicado

A imagem agora icónica dessa jovem que reduz a cinzas o retrato do aiatolá Khamenei para acender o seu cigarro diz muito, simbolicamente: a teocracia iraniana está morta e enterrada. É apenas uma questão de tempo. É certo que o poder iraniano ainda pode reprimir, deter, torturar, violar, executar e massacrar sem pudor, como o faz incessantemente desde a Revolução Verde de 2008. Mas não deixa de ser verdade que o muro do medo caiu definitivamente desta vez, como o demonstra, aliás, a perda de controlo do regime sobre certas cidades, um facto inédito desde a própria Revolução Islâmica. O regime dos mulás dá o seu último suspiro. A narrativa que o sustentou desde 1979 esvaziou-se de substância, e o poder dela decorrente já há muito se mantinha apenas pela coerção, pelo medo e pela invocação mecânica de um passado mitificado em que quase ninguém acreditava, salvo talvez alguns fiéis de Qassem Suleimani no Líbano e no Iraque. Aquilo a que o mundo assiste hoje não é senão o esgotamento de um modelo político que deixou de produzir sentido há várias décadas. A contradição é agora frontal. De um lado, um poder irremediavelmente encerrado numa lógica cada vez mais ditatorial, cristalizada numa teologia política reduzida a uma função puramente instrumental, servindo de cobertura a um sistema de corrupção associado a uma hipocrisia rigorista. A perversão erigida em credo de poder. Do outro, uma sociedade em movimento, atravessada por uma juventude que já não se vê como herdeira de uma revolução, mas como prisioneira de um regime. A vitalidade em marcha. Quanto mais o mundo se tornava moderno, conectado e poroso, mais a República Islâmica se retraía para uma leitura autoritária e arcaica da política. Essa juventude, eviscerada década após década, levantamento após levantamento, sacrificada incessantemente no altar da revolução e da sua exportação, aspira agora a outra coisa. E nada pode travar a sua avidez de progresso. O fosso tornara-se irreduzível, e todos os apelos à sacrossanta “unidade para preservar a façanha revolucionária”, durante muito tempo palavra-chave da sobrevivência do regime, já não bastavam. Essa dita “unidade” deixara de funcionar como princípio superior capaz de justificar os sacrifícios impostos em nome da nação ou do islão. Quando dissociada da liberdade, a unidade deixa de ser um cimento e transforma-se numa injunção vazia, ou mesmo numa forma de violência simbólica. A sociedade iraniana já não está disposta a suspender indefinidamente as suas aspirações em nome de uma ordem que não garante nem justiça, nem dignidade, nem futuro. O regime continua, no entanto, a funcionar como se a revolução permanecesse um absoluto indiscutível. Persiste em negar a realidade social em nome do primado revolucionário, como se o ato fundador de 1979 fosse suficiente para legitimar eternamente o poder. Na verdade, há muito tempo que, ao recusar confrontar-se com o real, essa revolução se transformara em dogma e depois em aparelho de dominação. A rutura está agora consumada, ainda que um regime monolítico como o que governa em Teerão jamais o consiga compreender. O que fez a força inicial do khomeinismo não foi tanto a promessa de uma ordem islâmica, mas a denúncia de um poder percebido como ilegítimo por estar subordinado ao Ocidente. A aliança do xá com as potências ocidentais forneceu ao movimento revolucionário um adversário claramente identificável, permitindo federar correntes ideológicas e sociais heterogéneas em torno de uma rejeição comum. A revolução apresentava-se então como uma reapropriação da soberania nacional. Antes de Khomeini decidir transformá-la num gulag. Esse mecanismo é hoje inoperante. O Ocidente já não é o ancoradouro simbólico do conflito, como fora apontado em 1979 para federar contra o regime repressivo do xá. Não é nem o modelo a imitar nem o inimigo estruturante. O regime iraniano é defeituoso sem ele. É defeituoso em si mesmo. Ao insistir em acusar o Ocidente de estar por trás da contestação atual, o poder comete um duplo erro: nega a autonomia política da sua própria sociedade e revela, paradoxalmente, a dimensão da sua falência interna. Acelera a sua própria queda ao mostrar-se totalmente desligado da realidade. Exatamente o erro cometido por Assad em 2011, no início da revolução síria. Hoje, o regime iraniano enfrenta a nova realidade do Irão. Ela chama-se liberdade e modernidade, embora não necessariamente segundo o modelo ocidental, como tenta fazer crer de forma grosseira para recriar uma pseudo-unidade contra os manifestantes. Khamenei e os seus acólitos parecem ignorar que a história do Irão remonta a muito antes de 1979 e que a Pérsia é demasiado orgulhosa para copiar modelos prontos a usar. Encontrará o seu próprio caminho para a modernidade, longe da bajulação perversa e criminosa dos mulás e dos seus anátemas imbecis. Além disso, esta acusação de “colusão com o Ocidente” não reforça a legitimidade do regime: apenas a corrói ainda mais. Equivale a admitir que o poder é incapaz de produzir uma adesão endógena e que se mantém apenas designando inimigos imaginários para mascarar a sua desconexão radical da sociedade real. Demonizar a juventude, apresentá-la como manipulada ou alienada, é reconhecer implicitamente que o vínculo entre governantes e governados está rompido. De facto, a rutura é também moral. O poder iraniano afastou-se há muito dos princípios que fundamentavam, tanto na tradição persa como no pensamento político clássico, a legitimidade do soberano: o dâd o dahéch, a justiça e a generosidade. Ao afastar-se deles, comprometeu necessariamente o âbâdâni, a prosperidade, e perdeu o khérad, a sabedoria. Nesta perspetiva, um poder privado de justiça, generosidade e sabedoria está condenado, mais cedo ou mais tarde, a ser derrubado. Afundou-se na inflação do seu próprio ego até à demência. Deve cair. Com efeito, a desmesura tornou-se a norma. A repressão é agora um modo de governo; a obsessão securitária substituiu qualquer visão política. A violência, exercida sem contenção, reflete menos uma força do que um medo profundo: o de um regime que sente, mais uma vez, que a sua autoridade já não assenta na adesão, mas na inércia e na coerção. O velayat e-faqih já não tem legitimidade, fora dos círculos corruptos ou ideológicos que governa, ou de algumas hordas de cidadãos xiitas árabes doutrinados no coração das satrapias em ruínas do Médio Oriente. Neste contexto, a liberdade, a âzâdi, deixa de ser uma abstração. Torna-se uma necessidade vital. Quando a justiça já não é assegurada, a revolta deixa de ser desordem e torna-se salutar. O nível de injustiça atingido no Irão é hoje demasiado elevado para que a exigência de ordem, central em qualquer construção política e que durante muito tempo prevaleceu no Irão em detrimento da liberdade, continue a operar como princípio de estabilização. A ordem sem justiça já não é percecionada como protetora, mas como opressiva. Instável. Deficiente. Certamente, a des-khomeinização em curso não implica necessariamente o desaparecimento de toda referência religiosa do espaço público iraniano. Significa, antes, o fim de um modelo em que a religião, instrumentalizada pelo poder, pretende governar contra a sociedade. O que colapsa hoje é, na realidade, a própria utopia revolucionária. Sob o peso da regressão económica, das aventuras imperialistas dispendiosas, da corrupção sistémica e do totalitarismo ideológico, o islamismo político, transformado num projeto de hegemonia sobre a pessoa, a comunidade e a sociedade, perdeu a capacidade de responder às expectativas de uma sociedade complexa, instruída e conectada. Já não produz coesão, apenas ressentimento. Já não produz sonho nem exaltação. Foi reduzido à sua expressão mais elementar: um vampiro hediondo que se alimenta do sangue de uma comunidade em nome de um projeto de poder pessoal. Esse Nosferatu insaciável é o vali e-faqih. E é mais do que tempo de acabar no caixote do lixo da História. Ou, melhor ainda, de se desintegrar definitivamente em fumo sob o olhar do seu pior pesadelo: o sorriso rebelde e livre das manifestantes iranianas sem véu.

Escombros e resistência total
Por
Youssef Mouawad
Publicado

Há razões de sobra para recuar diante do termo debellatio . Esse conceito jurídico bárbaro designa, no direito internacional, a subjugação de um Estado e sua erradicação por meio da violência armada. Refere-se a uma situação de aniquilação militar, política e jurídica completa de um país, como resultado de uma guerra devastadora, como a vivida por Cartago ao fim das Guerras Púnicas ou pela Alemanha nazista na queda de Berlim, em maio de 1945. E o Líbano? Não estaria ele correndo o risco de ter um destino semelhante, supostamente em nome dos “atos de resistência” do Hezb? Normalização, mas a que custo? Isso significa que os Acordos de Abraão, para integrar nosso país ao seu bloco triunfante, exigem uma debellatio prévia, isto é, a subjugação de territórios recalcitrantes à pax americana ? Esses acordos internacionais, firmados em 2020 entre Israel e vários Estados do Golfo, deram início a um processo de normalização diplomática, econômica e de segurança entre regimes árabes e o Estado hebreu. Ao fazê-lo, relegaram à oposição ferrenha os defensores do chamado “eixo da resistência” ( al-mumana‘a ), a saber, o Irã e seus três “H”: Hamas, os houthis e o Hezbollah.* Uma vez lançado esse processo, o Líbano, mais cedo ou mais tarde, seria forçado a escolher seu caminho. No entanto, o Hezb não pode acomodar tal “expediente”, que ignora os interesses de seu patrono iraniano. Assim, assumirá o papel de sabotador, bloqueando qualquer avanço até que se alcance um compromisso entre os Estados Unidos e a República Islâmica dos aiatolás, se é que tal compromisso algum dia se concretizará. Não é preciso dizer que, nesse cabo de guerra em curso, o programa nuclear iraniano já substituiu a questão palestina, agora relegada a segundo plano. Natanz, Fordow e outros sítios nucleares tornaram-se os principais obstáculos no caminho da desescalada regional. Uma mudança de paradigma Retomemos a questão: se os Acordos de Abraão ameaçam nos custar caro enquanto libaneses, é porque nos empurram para a normalização, algo que “viraria de cabeça para baixo o equilíbrio tradicional baseado na solidariedade árabe”, uma solidariedade cimentada pela hostilidade a Israel. Em suma, se esses acordos fossem implementados, inaugurariam uma verdadeira mudança de paradigma. Dito isso, o Hezb, que mantém o Estado libanês pelo pescoço, não consegue aceitar o abandono da luta armada. A menos que receba uma ordem direta de Teerã, não deporá as armas: elas constituem sua própria razão de ser e definem seu modo de operar. De sua perspectiva recalcitrante, é preferível resistir em apoio ao Irã e abraçar o martírio de Gaza do que se submeter às exigências da paz. O fascínio pelas ruínas Há, contudo, uma nuance: no que diz respeito ao Hezb, o conceito de debellatio só pode ser invocado de forma metafórica. Do ponto de vista jurídico, ele não se aplica, já que o Partido de Deus não é um Estado, mas apenas uma organização político-militar. Essa objeção válida é, na realidade, pouco mais do que um artifício retórico. Pois ignora o fato de que esse partido, apoiado pelo Irã, penetrou e se entrincheirou em todos os níveis do Estado libanês. Em sua escalada, não poderia ele ser tentado a arrastar nosso país para um turbilhão, um redemoinho impetuoso que tudo varre em seu caminho? Seja na forma de um confronto direto com Israel, de um choque com o regime sírio ou, pior ainda, de uma guerra civil absurda e devastadora. A fascinação do Hezb pelos escombros dispensa maiores comentários. * A Síria já não aparece mais na lista de atores subservientes.

Início de distensão entre a Colômbia e os EUA
Por
Maxime Pluvinet
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Bogotá, Colômbia, por Maxime Pluvinet Um desenvolvimento imprevisto ocorrido no meio desta semana poderá ter um impacto notável na sequência dos acontecimentos em curso na América Latina. Um início de distensão surge (timidamente) no horizonte entre os Estados Unidos e a Colômbia, embora as relações entre os dois países estejam particularmente tensas há vários meses. Acusado por Washington de facilitar a ação dos narcotraficantes no continente americano, nomeadamente com destino aos Estados Unidos, o presidente colombiano, Gustavo Petro, foi recentemente alvo de sanções americanas. Esta tensão bilateral aumentou vários níveis após a operação de «golpe» realizada em 3 de janeiro em Caracas por forças americanas. Essa intervenção resultou na prisão por uma unidade de comando dos EUA do presidente venezuelano Nicolás Maduro, que foi extraditado para os EUA. Após este ataque contundente, o presidente Donald Trump apontou o dedo ao chefe de Estado colombiano, sugerindo que ele poderia ser um dos próximos alvos, no âmbito da luta contra o narcotráfico. Mas um desenvolvimento inesperado ocorreu neste plano nas últimas quarenta e oito horas: enquanto o presidente Petro se preparava para proferir um discurso incendiário e atacar ferozmente a Administração Trump, ocorreu um telefonema entre o chefe da Casa Branca e o presidente colombiano. Segundo fontes fidedignas em Bogotá, este telefonema decorreu num ambiente descontraído e sereno. Consequentemente, o discurso de Petro foi muito menos virulento do que os observadores esperavam. Nos círculos diplomáticos em Bogotá, indica-se que esta reviravolta marca o início de um degelo entre os Estados Unidos e a Colômbia. Um processo de discussões francas e de negociações teria sido iniciado «com a bênção da Arábia Saudita e de alguns países europeus», segundo os círculos diplomáticos em questão. Uma reunião foi realizada no Ministério das Relações Exteriores da Colômbia com um representante da Administração Trump. «Este é um primeiro passo no caminho de um longo processo de diálogo bilateral que deverá abranger várias questões de primeira importância, incluindo o levantamento das sanções contra o presidente Petro, que deverá poder viajar para Washington para conduzir negociações com o presidente Trump», afirma uma fonte diplomática de alto nível em Bogotá. Esta dinâmica, se confirmada e levada a cabo, introduzirá, sem dúvida, um novo e significativo cenário no delicado jogo de xadrez de caráter geopolítico que se desenrola atualmente no continente americano.