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Opinião

Escombros e resistência total

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Publicado jan 10, 2026 - 19:18

Há razões de sobra para recuar diante do termo debellatio. Esse conceito jurídico bárbaro designa, no direito internacional, a subjugação de um Estado e sua erradicação por meio da violência armada. Refere-se a uma situação de aniquilação militar, política e jurídica completa de um país, como resultado de uma guerra devastadora, como a vivida por Cartago ao fim das Guerras Púnicas ou pela Alemanha nazista na queda de Berlim, em maio de 1945. E o Líbano? Não estaria ele correndo o risco de ter um destino semelhante, supostamente em nome dos “atos de resistência” do Hezb?

Normalização, mas a que custo?

Isso significa que os Acordos de Abraão, para integrar nosso país ao seu bloco triunfante, exigem uma debellatio prévia, isto é, a subjugação de territórios recalcitrantes à pax americana? Esses acordos internacionais, firmados em 2020 entre Israel e vários Estados do Golfo, deram início a um processo de normalização diplomática, econômica e de segurança entre regimes árabes e o Estado hebreu. Ao fazê-lo, relegaram à oposição ferrenha os defensores do chamado “eixo da resistência” (al-mumana‘a), a saber, o Irã e seus três “H”: Hamas, os houthis e o Hezbollah.* Uma vez lançado esse processo, o Líbano, mais cedo ou mais tarde, seria forçado a escolher seu caminho.

No entanto, o Hezb não pode acomodar tal “expediente”, que ignora os interesses de seu patrono iraniano. Assim, assumirá o papel de sabotador, bloqueando qualquer avanço até que se alcance um compromisso entre os Estados Unidos e a República Islâmica dos aiatolás, se é que tal compromisso algum dia se concretizará. Não é preciso dizer que, nesse cabo de guerra em curso, o programa nuclear iraniano já substituiu a questão palestina, agora relegada a segundo plano. Natanz, Fordow e outros sítios nucleares tornaram-se os principais obstáculos no caminho da desescalada regional.

Uma mudança de paradigma

Retomemos a questão: se os Acordos de Abraão ameaçam nos custar caro enquanto libaneses, é porque nos empurram para a normalização, algo que “viraria de cabeça para baixo o equilíbrio tradicional baseado na solidariedade árabe”, uma solidariedade cimentada pela hostilidade a Israel. Em suma, se esses acordos fossem implementados, inaugurariam uma verdadeira mudança de paradigma. Dito isso, o Hezb, que mantém o Estado libanês pelo pescoço, não consegue aceitar o abandono da luta armada. A menos que receba uma ordem direta de Teerã, não deporá as armas: elas constituem sua própria razão de ser e definem seu modo de operar. De sua perspectiva recalcitrante, é preferível resistir em apoio ao Irã e abraçar o martírio de Gaza do que se submeter às exigências da paz.

O fascínio pelas ruínas

Há, contudo, uma nuance: no que diz respeito ao Hezb, o conceito de debellatio só pode ser invocado de forma metafórica. Do ponto de vista jurídico, ele não se aplica, já que o Partido de Deus não é um Estado, mas apenas uma organização político-militar. Essa objeção válida é, na realidade, pouco mais do que um artifício retórico. Pois ignora o fato de que esse partido, apoiado pelo Irã, penetrou e se entrincheirou em todos os níveis do Estado libanês. Em sua escalada, não poderia ele ser tentado a arrastar nosso país para um turbilhão, um redemoinho impetuoso que tudo varre em seu caminho? Seja na forma de um confronto direto com Israel, de um choque com o regime sírio ou, pior ainda, de uma guerra civil absurda e devastadora. A fascinação do Hezb pelos escombros dispensa maiores comentários.

* A Síria já não aparece mais na lista de atores subservientes.

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