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Política

A queda do regime iraniano: como administrar o pós-crise

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Por Jad Akhawi
Publicado jan 13, 2026 - 12:46

No Irã, dois cenários paralelos se desenrolam hoje. Dois cenários que não se anulam, mas, ao contrário, agravam a situação crítica: ruas tomadas por protestos esporádicos, porém persistentes, e uma autoridade que responde com repressão cada vez mais brutal, conduzida de forma conjunta pela Guarda Revolucionária e pelo Líder Supremo. Esse paralelismo não expressa equilíbrio, mas medo. Regimes confiantes em seu poder não precisam de tamanha violência contínua; regimes em crise sabem que qualquer brecha de segurança pode levar ao colapso.

A questão mais grave, no entanto, não diz respeito apenas à capacidade do regime iraniano de resistir às pressões internas, mas também às repercussões de qualquer instabilidade ou eventual colapso sobre toda a região. O Irã nunca foi um país isolado de suas crises; sempre foi, ao contrário, o centro de uma rede transnacional de influência cuidadosamente construída ao longo de mais de quatro décadas. Qualquer fissura no centro inevitavelmente terá efeitos na periferia.

Desde a criação da República Islâmica, em 1979, o regime se apoia em uma equação clara: uma legitimidade ideológica que se sobrepõe à vontade popular e um instrumento eficaz de repressão que protege essa legitimidade pela força. Hoje, o primeiro pilar se desgasta com a expansão dos protestos sociais, econômicos e políticos, enquanto o segundo também se enfraquece, à medida que a Guarda Revolucionária é obrigada a atuar como força policial interna, e não como instrumento de expansão regional. Esse paradoxo não é um detalhe secundário, mas uma falha estrutural que atinge o cerne do projeto iraniano.

Cada hora que a Guarda Revolucionária dedica à repressão do dissenso interno é uma hora perdida na projeção de influência externa. Cada escalada nas medidas de segurança doméstica eleva o custo do projeto regional, em termos políticos, financeiros e morais. Assim, o aumento da repressão não significa necessariamente a estabilização do regime; pode indicar, ao contrário, que o país está entrando em um prolongado período de desgaste, no qual a crise é administrada, mas está longe de ser resolvida.

Nesse contexto, emergem dois cenários principais para o desfecho da crise iraniana. O primeiro é o de um regime que consegue conter as manifestações por meio de violência excessiva, preservando a coesão das instituições do Estado e da Guarda Revolucionária. Nesse caso, o regime não colapsa de imediato, mas é forçado a recuar no cenário regional, tornando a manutenção do poder interno sua prioridade absoluta.

O segundo cenário é o de uma repressão que alimenta ainda mais a revolta, levando a manifestações em larga escala e lançando o país em uma espiral incontrolável de escalada. Isso poderia abrir caminho para um colapso político, rápido ou gradual, mas com consequências profundas.

No Iêmen, esse desdobramento afeta diretamente o movimento houthis. O grupo, cuja ascensão esteve ligada ao apoio iraniano, verá diminuir o financiamento, o fornecimento de armas e a expertise vindos de Teerã. À medida que a crise no Irã se aprofunda, os recursos destinados a frentes externas, especialmente as de menor importância estratégica, tendem a ser reduzidos. Com isso, os houthis podem ser forçados a aceitar um acordo político que lhes garanta um mínimo de influência ou, caso contrário, correr o risco de desintegração interna sob a pressão da guerra, da economia e do tecido social local.

No Iraque, o impacto de um recuo iraniano será mais complexo. As milícias ligadas a Teerã, acostumadas a operar sob a proteção de uma poderosa coalizão regional, serão obrigadas a redefinir seu papel. Sem apoio incondicional, surgirão divisões entre facções que buscam “iraquizar” o processo decisório e aquelas que defendem a escalada para preservar seus ganhos. Nesse contexto, a intensificação da repressão no Irã, inicialmente vista como fonte de força, transforma-se em fraqueza, ao privar esses grupos de sua cobertura simbólica e política e abrir uma brecha, ainda que arriscada, para que o Estado iraquiano recupere parte de sua soberania.

O Líbano, por sua própria natureza, absorve os efeitos das crises regionais de forma ainda mais rápida. O Hezbollah, como a extensão mais organizada do projeto iraniano, será diretamente impactado pela redução da capacidade de financiamento e apoio de Teerã. Com o agravamento da repressão no Irã, o partido perde parte da legitimidade moral que por muito tempo serviu para justificar seu papel ideológico transnacional. Essa realidade o coloca diante de um dilema duplo: manter seu arsenal sem proteção regional ou se reposicionar politicamente dentro do Estado libanês.

Nesse cenário, a questão do calendário político no Líbano torna-se crucial. Realizar eleições no auge de uma retirada iraniana ainda incompleta poderia dar às forças pró-Teerã a oportunidade de se reorganizar. Muitos acreditam que qualquer adiamento técnico, diante da queda no financiamento e no apoio militar, especialmente após a chamada “guerra de apoio” e a devastação causada sem uma perspectiva clara de reconstrução, poderia acelerar a erosão da base popular do dueto xiita e expor a dimensão da crise social enfrentada por seus apoiadores. Aqui, o debate deixa de ser apenas constitucional e passa a ser fundamentalmente político, ligado à evolução do equilíbrio de poder na região.

No plano regional, a convergência entre protestos crescentes e repressão feroz no Irã sinaliza o início de uma fase de transição instável. Os países do Golfo observam com cautela, conscientes de que a fragilidade iraniana pode representar uma oportunidade para reconfigurar a segurança regional, mas também envolve o risco do caos. Israel vê o foco de Teerã em seus problemas internos como uma vantagem estratégica evidente, mas teme o potencial de escalada. A Turquia, por sua vez, se prepara para preencher qualquer vazio que possa surgir, especialmente na Síria e no Iraque.

A intensificação dos protestos no Irã, enfrentados por uma repressão sem precedentes da Guarda Revolucionária, não significa que o regime tenha vencido a batalha. Significa, antes, que entrou em uma fase prolongada de desgaste. Neste momento, a questão já não é apenas quando o regime vai cair, mas como, a que custo e às custas de quem na região. A queda do regime iraniano, se ocorrer, não será um motivo de celebração, mas um momento perigoso que exigirá Estados fortes e elites políticas astutas. Sem isso, o colapso desse centro de poder pode degenerar em um caos generalizado, sem alternativa.

 

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