Logotipo da Levant Time

A Bússola do Levante

Uma vitória tática em um vazio estratégico
Por
Rayyan Al-Basseer
Publicado
mai 25, 2026 - 22:57

O relato do CENTCOM sobre a guerra contra o Irã é impressionante. As lacunas que ele deixa são justamente as que mais importam. Em 14 de maio de 2026, o comandante do Comando Central dos Estados Unidos compareceu diante do Comitê de Serviços Armados do Senado e descreveu uma guerra que, segundo suas palavras, “reverteu 40 anos de investimento militar iraniano” em 38 dias. O relato do almirante Charles Bradford Cooper II sobre a Operação Epic Fury impressiona sob qualquer parâmetro: 85% da base industrial iraniana de mísseis balísticos, drones e defesa naval foi danificada ou destruída; 82% dos sistemas de defesa aérea foram desativados; mais de 90% do estoque de minas navais foi eliminado; 161 embarcações de 16 classes diferentes foram afundadas; houve 1.450 ataques contra instalações de armamentos e outros 2.000 contra centros de comando e controle. “O Irã já não consegue projetar poder pela região”, concluiu. Taticamente, a afirmação é defensável. Estrategicamente, trata-se de uma narrativa com omissões relevantes. O depoimento oferece uma autópsia precisa da derrota convencional iraniana, mas fala muito menos sobre o arsenal assimétrico que sustentou a expansão regional de Teerã ao longo de quatro décadas, e menos ainda sobre como Washington pretende neutralizar a influência desestabilizadora do Irã no Oriente Médio. Em sua declaração, Cooper reconhece que “devemos esperar que o Irã tente reconstituir o que puder, o mais rápido possível”. A história justifica o alerta. Após a “guerra de 12 dias”, em junho de 2025, fontes americanas e israelenses já estimavam que metade do arsenal iraniano de mísseis superfície-superfície e dois terços de seus lançadores haviam sido destruídos, além de danos críticos em Natanz, Fordow e Isfahan. Em fevereiro de 2026, o Irã já voltava a ser capaz de realizar ataques em ondas, o que significa que boa parte do que foi considerado “destruído” em 2025 havia sido previamente ocultado ou reconstruído em menos de nove meses. A autossuficiência iraniana em mísseis se baseia em deslocar a produção, e não apenas os estoques, para infraestruturas ocultas. O índice de 85% não esclarece quanto disso corresponde a capacidades insubstituíveis e quanto se refere a instalações de uso duplo que podem ser reconstituídas. Avaliações militares israelenses sugerem que o Irã poderia retornar ao ritmo de produção de mísseis anterior à guerra entre doze e vinte e quatro meses após o fim dos bombardeios. O manual assimétrico permanece intacto Se os danos convencionais são reversíveis, o manual assimétrico iraniano mal foi afetado. Cooper afirma que “a cadeia de abastecimento de Teerã para seus aliados foi rompida”, mas logo em seguida reconhece que o Irã “mantém capacidade de perturbação por meio de assédio, ataques limitados com drones e foguetes, além de apoio residual a seus aliados”. O Hezbollah é o principal caso de teste. No início deste ano, avaliações israelenses estimavam que a organização possuía cerca de 15% de seu estoque pré-guerra, de aproximadamente 150 mil projéteis. Ainda assim, voltou a disparar diretamente contra o norte de Israel em 2 de março de 2026, dois dias após os ataques conjuntos de Estados Unidos e de Israel contra o Irã. Em dezembro de 2025, o Comitê Supervisor da Cessação das Hostilidades, liderado pelos EUA e conhecido como “o Mecanismo”, avaliava que cerca de 85% das tarefas de desarmamento ao sul do rio Litani haviam sido concluídas. Os acontecimentos desde 2 de março sugerem que o rearmamento avança mais rápido que o desarmamento. O Hezbollah reposicionou centenas de combatentes de elite na área em poucos dias, enquanto mísseis antitanque, MANPADS e lançadores de foguetes haviam sido previamente armazenados em infraestrutura civil exatamente para esse tipo de contingência. Soma-se a isso o uso crescente, pelo Hezbollah, de drones FPV, pequenos, de voo baixo, difíceis de detectar por radar e montados com peças comerciais que custam de algumas centenas a alguns milhares de dólares. Essas armas da guerra contemporânea podem inutilizar tanques, atingir posições fortificadas e atacar soldados ou civis individualmente a poucos quilômetros de distância. Eliminá-las completamente é praticamente impossível. Um Hezbollah “degradado” ainda mantém capacidade de desgaste contínuo de baixo custo e segue sendo uma ameaça à segurança do norte de Israel. A mesma lógica se aplica ao próprio Irã. Desde março de 2026, Teerã lançou mísseis e drones contra infraestrutura de hidrocarbonetos nos países do Conselho de Cooperação do Golfo e contra navios comerciais no Estreito de Hormuz. Impedir isso exigiria uma campanha sustentada e integrada de coerção militar e econômica liderada por Washington com parceiros regionais e extrarregionais, algo difícil de alcançar hoje. Chama a atenção o fato de que o enquadramento político tenha se estreitado para se ajustar à realidade militar. Até 2025, autoridades americanas identificavam três ameaças iranianas: nuclear, balística e forças aliadas. A exigência atual do governo dos EUA para Teerã foi reduzida ao programa nuclear e à reabertura do estreito de Hormuz, um gargalo marítimo que se tornou foco de tensão como consequência da guerra, não como sua causa. O CENTCOM preserva discretamente a antiga tríade em seu depoimento. A divergência entre a agenda de negociações em Islamabad e a avaliação de ameaças feita pelo comando militar é, por si só, uma contradição preocupante. As três prioridades declaradas do CENTCOM, defender o território americano, dissuadir o Irã e preservar vantagem diante da China, estão organizadas em torno da transferência de responsabilidades, por meio de ferramentas como a reforma das Vendas Militares ao Exterior, a rede de Defesa Aérea do Oriente Médio (MEAD) e iniciativas lideradas por parceiros no combate a drones. O depoimento não indica disposição para uma nova guerra. Indica uma postura desenhada para absorver um confronto longo e de baixa intensidade. Os gatilhos para uma nova escalada são identificáveis: avanço nuclear, ataque contra forças americanas, interferência na navegação, mas nenhum deles aborda o comportamento regional desestabilizador do Irã, um silêncio que, na prática, concede a Teerã liberdade contínua de ação por meio de seus aliados. Isso significa que o peso de enfrentar a capacidade iraniana de perturbação recai, por padrão, sobre Israel. Uma doutrina essencialmente idêntica já é aplicada por Israel em Gaza, no sul da Síria e no sul do Líbano. Ela se afasta das fracassadas zonas de segurança administradas por Israel entre 1985 e 2000, mas mantém zonas de morte em países vizinhos, liberdade permanente de ação militar pela região e ataques aéreos indefinidos de “cortar a grama” contra alvos mais profundos no Irã ou em territórios controlados por seus aliados. A contenção como horizonte padrão Outra grande premissa do CENTCOM é que o MEAD, operacionalizado durante a Epic Fury, marque o início de uma arquitetura regional de segurança integrada e multilateral duradoura, e não apenas uma iniciativa pontual em tempo de guerra. No depoimento do CENTCOM, os indicadores de desempenho do atual MEAD foram realmente históricos: mais de 6 mil drones de ataque e 1.500 mísseis balísticos interceptados. Segundo Cooper, seria “o maior guarda-chuva integrado de defesa aérea já implantado na Terra”. No entanto, todos os marcos anteriores de segurança regional fracassaram pelos mesmos motivos estruturais, nenhum dos quais foi resolvido, como rivalidades internas no Conselho de Cooperação do Golfo, diferentes orientações de política externa e a recalibração das percepções de ameaça após aproximações diplomáticas com Teerã. A isso se soma uma erosão da confiança na disposição americana de assumir riscos em nome de seus parceiros. O parâmetro de 1990-91, uma coalizão de 35 Estados e meio milhão de soldados poucos meses após a invasão do Kuwait pelo Iraque, já não é a referência nas capitais do Golfo. Em vez disso, observam a resposta limitada dos EUA aos ataques de 2019 contra a Saudi Aramco, o abandono dos parceiros curdos, a retirada do Afeganistão em 2021 e a própria admissão do CENTCOM de que “a maioria dos países se recusou a participar da reabertura do Estreito de Hormuz”. O resultado é uma estratégia de equilíbrio que o depoimento não reconhece. Vários Estados do Golfo construíram parcerias abrangentes paralelas com Pequim para adquirir mísseis balísticos chineses, drones armados e infraestrutura de comunicações, o que impõe limites concretos de interoperabilidade e compartilhamento de inteligência ao próprio MEAD. Os Estados Unidos e Israel demonstraram que conseguem desmantelar grande parte do aparato militar convencional iraniano com velocidade e coordenação notáveis. O próprio sucesso dessa operação expõe os limites do uso da força contra um adversário cujo poder nunca dependeu de paridade tecnológica ou de poder de fogo, mas de engano, negação plausível e capacidade de transformar recursos limitados em pressão política e psicológica persistente. Uma postura de contenção combinada com transferência de responsabilidades sinaliza uma transição da resolução de problemas para a gestão de riscos. Isso implica uma fase de instabilidade crônica na qual os adversários não são derrotados, mas administrados continuamente, e a dissuasão opera permanentemente abaixo do limiar de um confronto decisivo. A tecnologia pode alinhar sensores e interceptadores, mas não consegue reconciliar percepções divergentes de ameaça, instintos de equilíbrio estratégico ou a confiança decrescente em garantias externas, mesmo quando o articulador são os Estados Unidos. O principal desafio remanescente, como enfrentar formas resilientes, descentralizadas e de baixo custo de poder que continuam sustentando a estratégia desestabilizadora do Irã, é precisamente o ponto que o depoimento do CENTCOM não aborda.

O Líbano voltou a entrar na mira?
Por
Rayyan Al-Basseer
Publicado
abr 25, 2026 - 23:38

Nas últimas três semanas, a posição negociadora do Líbano evoluiu de forma discreta, porém significativa. Estão em curso em Washington conversas diretas entre Líbano e Israel, no marco de um cessar-fogo de dez dias iniciado em 16 de abril e prorrogado por três semanas em 23 de abril, a pedido expresso do Líbano. O contexto regional e interno mudou, mas o governo libanês ainda não parece ter se adaptado a essa nova realidade. Fora do Líbano, e especialmente dentro do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), cresce o reconhecimento de que buscar o desarmamento do Hezbollah e firmar um tratado de paz completo com Israel já não é uma meta realista. Os atores regionais mais influentes consideram que insistir nesses objetivos provavelmente provocaria uma ruptura interna no Líbano, reacendendo confrontos sectários que todos procuram evitar. As recomendações persistentes do Egito e da Arábia Saudita para que o Líbano adote uma postura muito mais prudente têm como base o resultado do cessar-fogo de 8 de abril entre Estados Unidos e Irã, firmado sem que Teerã aceitasse concessões substanciais sobre seu programa nuclear, seu arsenal de mísseis balísticos ou seu apoio a forças aliadas. Embora o Irã tenha sofrido danos importantes em sua infraestrutura militar convencional após operações conjuntas entre Estados Unidos e Israel, ainda mantém um estoque significativo de urânio enriquecido que, sem constituir uma arma, está suficientemente próximo disso para continuar sendo uma alavanca duradoura de pressão. Também conserva um arsenal balístico residual, reduzido, mas não eliminado. Mais importante ainda, sua rede regional de aliados armados, da qual o Hezbollah é o componente mais visível, está enfraquecida, mas segue funcional. Além disso, durante a crise, o Irã demonstrou possuir uma carta que antes não havia utilizado nessa escala: sua capacidade de ameaçar ou dificultar parcialmente a passagem pelo estreito de Ormuz. Aquilo que escolheu não usar também é revelador. Os houthis no Iêmen mantêm capacidade autônoma de ataque. A capacidade iraniana de conduzir operações de zona cinzenta por meio de redes de desestabilização dentro dos países do Golfo e até em países ocidentais continua sendo uma carta preservada. Tomados em conjunto, esses ativos assimétricos residuais significam que o Irã entrou no período pós-cessar-fogo não como uma potência derrotada pronta para capitular, mas como um ator que ainda conserva cartas reais para jogar, ainda que ferido e desgastado. Para os Estados membros do CCG, essa realidade orienta todos os cálculos estratégicos futuros. Uma vitória total sobre o Irã deixou de estar na mesa. Dialogar com Teerã, aceitar algumas de suas linhas vermelhas, oferecer normalização econômica e atenuar, em vez de desmontar, sua influência tornam-se a alternativa racional, e talvez a única viável fora de uma confrontação aberta na qual o CCG teria muito mais a perder do que um Irã enfraquecido. Nesse contexto, as pressões regionais sobre Beirute para acomodar, em vez de confrontar, os interesses iranianos, incluindo a sobrevivência do Hezbollah como força política e militar, tendem apenas a aumentar. Cada concessão que o CCG oferece ao Irã em troca de estabilidade regional é uma concessão que reduz a margem de manobra do Líbano. A hipótese de que o Irã havia sido suficientemente enfraquecido para permitir um avanço decisivo em favor do desarmamento do Hezbollah foi superada pelos acontecimentos. Nesse cenário, Riad poderia buscar propor um “pacote libanês” dentro de seu engajamento diplomático mais amplo com Teerã. Um Líbano consumido pelas chamas de uma guerra civil tornaria esse pacote impossível de entregar e colocaria diretamente em risco os esforços sauditas de desescalada. A dimensão síria aumenta a urgência. Tendo investido de forma substancial na transição pós-Assad, a Arábia Saudita não pode se permitir ver a instabilidade se espalhar do Líbano para o leste, algo que se tornaria muito provável caso houvesse violência sectária desencadeada por uma tentativa de normalização das relações com Israel. Israel apresentou sua posição sem ambiguidades. Não se retirará nem renunciará à sua capacidade de atacar dentro do Líbano enquanto o Hezbollah não for desarmado. Diante dessas exigências rígidas, o Hezbollah condenou as negociações como uma humilhação e declarou que não respeitará nenhum acordo firmado sem uma retirada completa das forças israelenses e sem um retorno organizado e generosamente financiado das famílias deslocadas para todas as localidades do sul do Líbano afetadas pelas operações israelenses em curso. O impasse estrutural criado por isso não é inteiramente novo. Antes de 7 de outubro de 2023, a política libanesa se baseava em um equilíbrio regional de forças definido pela relutância do CCG em qualquer confronto direto, o que permitia ao Irã manter sua influência e não deixava ao Líbano outra opção além de acomodar um Hezbollah armado como característica permanente de seu cenário político. A questão agora é saber se pode ser construído um acordo substancial que reconheça honestamente essa realidade. A faixa de segurança israelense dentro do território libanês ao longo da fronteira, o papel do Exército libanês ao sul do rio Litani e as regras de engajamento da UNIFIL constituem fatores reais de complicação ainda não resolvidos antes de qualquer acordo. O conselho egípcio-saudita ao presidente Aoun é obter o nível mínimo de adesão interna necessário para evitar uma ruptura, reduzindo as expectativas de um tratado de paz a um acordo limitado em alcance, que o Hezbollah e suas bases eleitorais não percebam como uma ameaça existencial. Sem esse consenso, qualquer acordo corre o risco de ser inaplicável ou de se tornar um catalisador de conflito civil. Os acordos que atenderiam à exigência de consenso nacional seriam versões aprimoradas de arranjos anteriores, como a Resolução 1701 ou o armistício de 1949. Poderiam incluir um mandato mais claro e mais vinculante para a UNIFIL, um redeslocamento progressivo do Exército libanês ao sul do Litani vinculado a metas mensuráveis e um mecanismo gradual de retirada israelense condicionado a essas mesmas metas. A questão central, no entanto, continua sendo saber se Israel está disposto, depois de tudo o que ocorreu desde outubro de 2023, a retornar ao status quo anterior. Um tratado de paz completo com Israel e o desarmamento do Hezbollah são inalcançáveis nas circunstâncias atuais. O que continua possível é, muito provavelmente, um arranjo de segurança que reduza o risco de uma nova guerra, conceda ao Exército libanês um papel real no sul e crie as condições para que o Estado libanês reafirme progressivamente sua autoridade institucional em áreas onde ela esteve ausente por muito tempo. A soberania plena não é um destino que um acordo firmado hoje possa alcançar, mas é um destino que um arranjo bem construído pode manter dentro do campo do possível.

Três cessar-fogos, um único padrão
Por
Rayyan Al-Basseer
Publicado
abr 20, 2026 - 10:00

Em 16 de abril de 2026, entrou em vigor uma cessação das hostilidades de dez dias entre Israel e o Líbano. Era, sob todos os aspectos, o acordo mais fraco que o Líbano já havia aceitado. Enquanto a Resolução 1701 do Conselho de Segurança da ONU, adotada em 2006, impunha obrigações vinculantes e simétricas a todas as partes, e enquanto a cessação das hostilidades de novembro de 2024 havia criado um mecanismo robusto de monitoramento com cronogramas precisos de implementação, o instrumento de abril de 2026 impunha uma obrigação imediata, total e incondicional de desarmar o Hezbollah, ao mesmo tempo em que concedia a Israel direitos de legítima defesa preventiva que nunca antes lhe haviam sido formalmente reconhecidos. Algo evidentemente havia dado errado, não nas redações de Washington ou Paris, mas nas décadas de paralisia estratégica que imobilizaram Beirute. A letra vinculante da Resolução 1701 A Resolução 1701 era, no papel, um instrumento sério. Adotada por unanimidade pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas em 11 de agosto de 2006 para encerrar a guerra daquele verão entre Israel e o Hezbollah, ela definia obrigações claras e incondicionais para todas as partes. Israel era obrigado a cessar imediatamente suas operações ofensivas, retirar-se do sul do Líbano em paralelo ao deslocamento do Exército libanês, respeitar em todo momento a Linha Azul traçada pela ONU e entregar os mapas dos campos minados remanescentes. O Líbano era obrigado a mobilizar seu Exército no sul, exercer plena soberania sobre todo o seu território, impedir qualquer transferência não autorizada de armas e, como consequência de maior alcance, avançar no desarmamento de atores armados não estatais. O Hezbollah, que não era signatário formal, mas cujo líder Hassan Nasrallah havia se comprometido publicamente a respeitar o cessar-fogo, era obrigado a interromper qualquer ataque contra Israel, retirar-se da zona ao sul do rio Litani e submeter-se à autoridade do governo libanês. A arte da não aplicação O que veio depois foi um fracasso quase completo de implementação, ainda que não fosse um fracasso equilibrado entre as partes. Israel encerrou suas principais operações e finalmente retirou a maior parte de suas forças terrestres, mas continuou violando o espaço aéreo libanês por anos e entregou apenas parcialmente os mapas de minas. O governo libanês deslocou o Exército para o sul em capacidade limitada, mas jamais buscou seriamente desarmar o Hezbollah, adiando indefinidamente essa questão por meio do diálogo político, da sensibilidade comunitária e de um cálculo tácito segundo o qual o custo da confrontação superava o custo da inação. O Hezbollah, grupo que havia se comprometido publicamente a respeitar o cessar-fogo, passou os dezoito anos seguintes acumulando um arsenal estimado em 150 mil foguetes e mísseis, cavando túneis em direção a Israel e erguendo o que equivalia a um Estado paralelo no sul do Líbano, tudo em violação direta de uma resolução vinculante do Conselho de Segurança. A ficção de Shebaa Para rebater a justificativa israelense de legítima defesa, o Líbano e o Hezbollah invocaram a disputa não resolvida das Fazendas de Shebaa, uma estreita faixa de território cujo status permanecia cartograficamente ambíguo, como base para tolerar a postura armada do Hezbollah como “resistência nacional”. Esse argumento sofria de um vício fatal: a Síria reconheceu em privado, em 2011, que o território era sírio e não libanês, o que significava que a principal base política da existência armada do Hezbollah no sul do Líbano repousava sobre uma reivindicação que nem mesmo Damasco respaldava. Nada disso tinha validade jurídica diante do texto da resolução, que não continha nenhuma cláusula de escape autorizando o descumprimento por motivos políticos. Uma segunda chance, melhor redigida Depois que o Hezbollah abriu uma “frente de apoio” após os ataques do Hamas de 7 de outubro, e que a guerra degenerou em uma invasão terrestre israelense do sul do Líbano no outono de 2024, a comunidade internacional voltou a se reunir. O resultado foi a cessação das hostilidades de novembro de 2024, negociada sob mediação americana e francesa. Desta vez, os redatores buscaram fechar as brechas. A linguagem passou do aspiracional ao vinculante. O Líbano já não era apenas convidado a trabalhar pelo desarmamento do Hezbollah: era obrigado a “impedir” as operações do movimento, como obrigação de resultado. Foram estabelecidos um prazo de sessenta dias para a retirada coordenada israelense e o deslocamento do Exército libanês ao sul. Criou-se um mecanismo de monitoramento presidido pelos Estados Unidos para verificar o cumprimento dos compromissos. A palavra “paralelo” apareceu explicitamente: as obrigações de ambas as partes não poderiam ser tratadas como sequenciais. Avanços cautelosos, sombras conhecidas Os primeiros resultados foram moderadamente encorajadores. Em abril de 2025, o Hezbollah havia transferido o controle de cerca de 190 de suas 265 posições militares ao sul do Litani para o Exército libanês. Autoridades militares libanesas e americanas relataram a apreensão de milhares de foguetes e centenas de mísseis. Pela primeira vez desde 1990, o presidente da República comprometeu-se a impor o monopólio estatal sobre as armas, e o governo criminalizou formalmente as atividades militares do Hezbollah. Essas medidas representaram avanços concretos, embora ainda limitados. A história se repete, mais rápido As mesmas falhas, contudo, reapareceram. A FINUL documentou mais de 7.500 violações do espaço aéreo libanês por Israel e quase 2.500 violações terrestres até outubro de 2025. Israel manteve tropas em cinco posições no Líbano muito além do prazo de sessenta dias, declarando publicamente sua intenção de mantê-las ali por tempo indeterminado. O Exército libanês só recebeu formalmente a missão de confiscar as armas do Hezbollah quase um ano depois da assinatura do acordo. O Líbano condicionou repetidamente seus próprios esforços de desarmamento a uma retirada prévia e total de Israel, condição que o texto do acordo jamais prevê. O Hezbollah reconstruiu discretamente seu arsenal. E em 2 de março de 2026, o movimento disparou projéteis contra o norte de Israel, invocando o assassinato do líder supremo iraniano Khamenei e a continuidade da ocupação israelense, justificativas sem qualquer peso jurídico diante dos compromissos que havia efetivamente assumido. O preço das falhas acumuladas O acordo de abril de 2026 foi negociado nesse contexto de violações repetidas. Sua arquitetura reflete o déficit de poder acumulado pelo Líbano ao longo dos anos. As obrigações de Israel são mais estreitas do que em qualquer momento desde 2006, reduzindo-se essencialmente a uma abstenção de dez dias de operações ofensivas, qualificada explicitamente como “gesto de boa vontade”, e não como compromisso jurídico vinculante. Mais significativo ainda: o direito de Israel à legítima defesa foi formalmente ampliado para cobrir não apenas ataques em curso e iminentes, mas também ataques “planejados”, o que significa que Israel mantém o direito explícito de realizar ataques preventivos com base em avaliações de inteligência, sem esperar que uma agressão se concretize. Não se trata de uma concessão arrancada por diplomacia agressiva israelense: é o resultado lógico de um processo no qual cada acordo anterior foi violado e cada prazo de implementação foi perdido. O que foi cedido sem ser arrancado As obrigações do Líbano em 2026 são formuladas em linguagem sensivelmente mais rígida do que em 2024. Enquanto os acordos anteriores exigiam que o Líbano “impedisse” as operações do Hezbollah como obrigação de resultado, ou avançasse gradualmente no desarmamento de atores não estatais, o texto de 2026 invoca a responsabilidade “exclusiva” do Líbano de defender seu território, sem mecanismo de monitoramento nem cronograma para a apreensão de armas. Em um único instrumento, toda a arquitetura de supervisão internacional pacientemente construída desde 2006 foi dissolvida em favor de negociações bilaterais diretas, às quais o Líbano chega desde uma posição de fraqueza estrutural. O padrão que atravessa os três acordos não é difícil de identificar. Cada marco sucessivo impôs exigências mais severas de desarmamento ao Líbano e ao Hezbollah, ao mesmo tempo em que formalizou e ampliou a margem reconhecida a Israel para ação militar. Isso não é fruto do acaso. Quando um Estado fracassa em estabelecer controle exclusivo sobre seu território, tolera que um ator não estatal mantenha um arsenal militar independente e permite que suas fronteiras sirvam de via para transferências de armas em violação de seus próprios compromissos internacionais, o espaço jurídico e político disponível ao Estado vizinho que invoca legítima defesa tende inevitavelmente a se ampliar. A liberdade operacional de Israel em 2026 não foi conquistada unilateralmente: foi concedida em etapas, ao longo de décadas de inação libanesa. Isso não pode servir de justificativa para a ocupação israelense contínua de território libanês além dos prazos acordados, para a morte de centenas de civis desde novembro de 2024, nem para os repetidos ataques contra infraestrutura civil. Trata-se de violações graves que geram responsabilidade jurídica, vantagem que qualquer governo que tivesse cumprido suas próprias obrigações buscaria fazer valer. Na prática, porém, a trajetória geral das negociações entre Israel e Líbano permanece previsível. As condições políticas e jurídicas que tornam a ação militar israelense defensável, tanto internamente quanto no plano internacional, foram moldadas em grande parte pelo que o Líbano e o Hezbollah deixaram de fazer durante mais de duas décadas. A trajetória que vai da Resolução 1701, em 2006, ao gesto de dez dias de abril de 2026 não é a de uma manipulação por grandes potências nem de uma traição diplomática, mas o reflexo das escolhas de um Estado que permitiu a operação de uma autoridade militar paralela em seu território, tentou contornar a comunidade internacional e descobriu, acordo após acordo, que a paciência desta havia se esgotado. Como consequência, o Líbano inicia em abril de 2026 negociações diretas com Israel como Estado soberano que reconheceu formalmente sua incapacidade de garantir o controle de seu próprio território. É uma posição excepcionalmente difícil a partir da qual se espera alcançar um acordo justo.

A névoa da não-vitória (2/2)
Por
Rayyan Al-Basseer
Publicado
abr 18, 2026 - 01:41

A primeira parte desta análise estabeleceu que nem os Estados Unidos nem o Irão saíram de seis semanas de guerra com uma vitória estratégica. Esta segunda parte examina o que essa não-resolução significa para os actores que têm agora de viver com as suas consequências: Israel, o Líbano, a Turquia, os Estados do Golfo e a aliança ocidental em sentido lato. O que se segue é um panorama das contradições e dos cálculos perigosos que configuram o próximo capítulo regional. Israel: a doutrina da perturbação permanente O primeiro-ministro israelita entrou na campanha contra o Irão como o seu principal arquitecto e promotor. Dela sai submetido a pressões de ambos os lados em simultâneo. Por um lado, os falcões militares e políticos que queriam prosseguir as operações apesar do ultimato norte-americano para as suspender, e que consideram que o cessar-fogo, à semelhança do acordo iemenita que o precedeu, deixou Israel mais exposto do que antes. Por outro, uma oposição revigorada que sempre descreveu a estratégia de Netanyahu — escalada permanente sem horizonte político — como uma fórmula de guerra sem fim antes que de segurança duradoura. Sob estas pressões políticas subjaz uma doutrina de segurança que sofreu uma mutação fundamental desde 7 de Outubro. Na sequência imediata dos ataques do Hamas, Israel operou uma viragem da dissuasão para a prevenção, partindo do princípio de que a acção militar preventiva, mais do que a ameaça credível de represálias, constitui o único garante fiável da segurança israelita. Gaza foi a primeira aplicação em plena escala desta doutrina, e os seus resultados expuseram uma limitação central: a força esmagadora pode destruir infra-estruturas e eliminar lideranças, mas não pode produzir um controlo político sustentado nem impedir a reconstitução progressiva. O Hamas sobreviveu enquanto actor político. Israel mantém uma dominação militar incontestada sobre a Faixa sem chegar a governá-la, o que significa que, se bem que a ameaça imediata sobre as localidades circundantes tenha sido neutralizada, as condições para uma eventual reconstitução do Hamas não o foram. A doutrina adaptada combina agora zonas-tampão desmilitarizadas com esforços sustentados para manter os actores hostis absorvidos pelos seus conflitos internos. O objectivo não é governar esses territórios, mas impedir que qualquer ameaça militar coerente se reconstitua no seu interior. Trata-se de uma doutrina de perturbação permanente antes que de vitória decisiva e pontual. Inquéritos recentes indicam que apenas cerca de 22 % dos israelitas considera que o seu país ou os Estados Unidos ganharam esta guerra, ao passo que só 32 % se declara satisfeito com o resultado global. Ao mesmo tempo, 79 % continua a apoiar a prossecção das operações militares no Líbano. As eleições legislativas israelitas de 2026 têm todas as probabilidades de agudizar estas tensões antes que de as resolver. Os dirigentes políticos enfrentarão eleitorados que exigem garantias de segurança, não limiares estratégicos abstractos — pressão que deverá manter o rumo das operações militares no Líbano até ao desarmamento completo do Hezbollah, complementadas por uma pressão diplomática sustentada sobre o governo libanense, ataques selectivos contínuos e zonas-tampão desmilitarizadas concebidas para impedir que o Hezbollah recupere a sua postura militar anterior a 2023. Uma nota se impõe aqui sobre a expansão territorial. O objectivo militar declarado de Israel é o estabelecimento de zonas de segurança intermédias sob a forma de perímetros avançados destinados a afastar as ameaças das fronteiras existentes. Israel não pode, portanto, equacionar a extensão da sua soberania sobre novos territórios. Anexar de forma permanente terras do sul do Líbano aproximaria os civis israelitas das capacidades residuais do Hezbollah em vez de os afastar delas, o que é exactamente o contrário do que a doutrina de prevenção exige. O balanço histórico confirma esta leitura: Israel retirou-se do Sinai nos anos oitenta, do sul do Líbano em 2000 e de Gaza em 2005. A única excepção é o planalto do Golã, formalmente anexado e posteriormente reconhecido pelos Estados Unidos durante o primeiro mandato de Trump, na sequência de um intenso lobbying dos grupos pró-israelitas em Washington. Quanto ao projecto de uma Grande Israel em sentido lato, nunca deu origem a um mapa único de consenso, nem sequer nas correntes mais duras da direita israelita. Se o maximalismo territorial guiasse realmente a política israelita, as retiradas de Gaza e do sul do Líbano — que figuram ambas em pelo menos algumas versões desse mapa — seriam inexplicaveis. O Líbano: entre esperança desvanecida e catástrofe suspensa No interior do Líbano, o panorama que há um ano parecia cautelosamente optimista escureceu consideravelmente. O governo de Nawaf Salam, que tomou posse no início de 2025, era genuinamente promissor: primeiro governo libanense em trinta anos a suprimir a célebre fórmula «Povo, Exército e Resistência» da sua declaração ministerial, privando assim o Hezbollah da sua cobertura política oficial. O Exército libanense começou a posicionar-se a sul do Litani pela primeira vez em décadas. O Hezbollah, severamente enfraquecido pela guerra de 2023-2024 com Israel e pela eliminação da sua direcção, parecia, por um momento, verdadeiramente contido. Contudo, a actuação do movimento desde a sua decisão de se incorporar na guerra a 2 de Março demonstra claramente que não havia deixado de se reconstituir e de se adaptar, pivotando para uma postura de guerrilha mais dispersa. Mais importante ainda, procura hoje capitalizar a viragem norte-americana em relação ao Irão para reconstruir a sua legitimidade interna, utilizando o momento presente para impedir qualquer regresso aos arranjos pré-guerra ou às condições político-militares que anteriormente o haviam despojado da sua cobertura governamental oficial. O grupo avalia activamente as formas de marginalizar e enfraquecer os seus adversarios políticos, primeiro por vias legais e parlamentares e, se essas vias se revelarem insuficientes, mediante assassinios e liquidações selectivas do tipo que o Líbano padeceu entre 2005 e 2013. O sistema consociacional libanense, baseado numa partilha do poder confessional rígida, torna excepcionalmente difícil qualquer acção decisiva contra um único actor. Neste contexto tenso inscreve-se uma crise de deslocamento que afecta mais de um milhão de pessoas desenraizadas, a maioria proveniente de comunidades alinhadas com o Hezbollah ou delas dependentes. Israel está determinado a impedir o regresso dessas populações ao sul do Líbano antes do desarmamento completo do Hezbollah. Os potenciais governos doadores continuam a condicionar o seu apoio a critérios de desarmamento que o Hezbollah se recusa a satisfazer. Os governos do Golfo, mais concretamente, relutam em financiar um Estado cooptado pelo Hezbollah, na suposição de que as consequências económicas da guerra nos seus próprios países lhes permitam ainda dar com tanta generosidade como antes. O resultado, já visível, é uma crise de deslocamento prolongada num país que deriva para a mesma catástrofe suspensa que Gaza: demasiado destroçado para se reerguer, demasiado armado para ser governado, demasiado dividido para encontrar sozinho uma saída. A Turquia: potência incontornável de um vazio regional Um Irão enfraquecido não estabiliza automaticamente a região. Cria um vazio. Antes mesmo do início da guerra contra o Irão, Ancara era já o actor externo dominante na Síria pós-Assad. A degradação do Irão acelerou a centralidade turca em qualquer ordem regional susceptível de emergir — na Síria, no Iraque, e sobretudo na forma como a opinião política muçulmana se estrutura. Este poder crescente coloca a Turquia numa trajectória de colisão cada vez mais directa com Israel. Os responsáveis israelitas têm sido cada vez mais explícitos a esse respeito, encarando a Turquia como uma ameaça estratégica emergente, em particular na Síria, onde Ancara detém mais cartas do que qualquer outro actor. A questão de por que razão a Turquia será um actor regional incontornável após a guerra contra o Irão deixou de ser uma questão: é uma realidade. O Golfo: tripla pressão sobre um contrato social fragilizado Os Estados do Conselho de Cooperação do Golfo absorveram o choque económico mais imediato desta guerra. O contrato social dos países do Golfo — a promessa implícita de uma prosperidade quase ilimitada em troca da lealdade política às dinastias reinantes — assenta numa economia regional estável, próspera e interligada, e encontra-se hoje sob tensão. O CCG defronta-se com três desafios simultâneos, cada um dos quais seria exigente por si só. Deve, em primeiro lugar, restaurar a confiança no modelo económico que construiu desde os anos setenta, modelo que depende de exportações petrolíferas previsíveis, de rotas de trânsito seguras e de investimentos estrangeiros sensíveis à instabilidade regional. Deve depois decidir como gerir um Irão ferido mas não destruído, que conservará, em quase qualquer cenário de cessar-fogo, a capacidade de ameаçar novamente as infra-estruturas do Golfo — a acomodação arriscando encorajar Teerão, o confronto arriscando provocar um novo ciclo de devastação económica. Em terceiro lugar, e talvez o mais urgente, os Estados do Golfo precisam de lançar um programa de recuperação económica acelerada. O Ocidente ausente: um erro estratégico duradouro Ao longo desta crise, a característica mais marcante da política europeia e ocidental em sentido lato foi a sua ausência. Enquanto os Estados Unidos combatiam um regime que não poupou qualquer interesse ocidental, os governos europeus observavam na sua maioria das bancadas, aproveitando a crise iraniana para ajustar contas políticas com a administração Trump em vez de se confrontarem com a realidade estratégica de que a ameaça iraniana não se limita aos interesses norte-americanos. Isto será recordado como um erro estratégico profundo. Independentemente do que se pense dos métodos de Donald Trump, a realidade subjacente permanece: um Irão encorajado emerge deste conflito ao mesmo tempo que um Golfo cujos fundamentos económicos estão sujeitos a uma pressão sustentada. Ao escolherem não se juntar, nem sequer apoiar minimamente, o esforço liderado pelos Estados Unidos para enfraquecer o Irão, os actores ocidentais recalcitrantes favoreceram de facto um equilíbrio de forças mais perigoso, no qual a alavancagem iraniana cresce, a dissuasão se erode e o custo de um eventual confronto se torna consideravelmente mais elevado. A zona cinzenta como horizonte estratégico As capacidades assimétricas residuais do Irão não permanecerão inactivas enquanto as negociações diplomáticas seguem o seu curso. Na falta de um acordo satisfatório para o presidente Trump, tanto os Estados Unidos como Israel têm sólidas razões estratégicas para manter um padrão de operações selectivas. Não obstante, as três partes — e o CCG — não podem permitir-se um regresso à guerra aberta tal como se travou em Março e no início de Abril de 2026. O propósito da estratégia de zona cinzenta que se delineia é perturbar o rearmamento nuclear e balístico iraniano, degradar as infra-estruturas de proxies sobreviventes e sinalizar através da acção que o custo da reconstitução se manterá elevado. As operações de zona cinzenta — ataques de precisão, perturbação cibernética, operações de informações — revelaram-se mais duradouras nos seus efeitos do que as campanhas militares espectaculares, precisamente porque privam os adversários do ambiente estável de que necessitam para se reconstruirem. Uma contenção estratégica baseada na esperança de que as negociações resolverão os problemas estruturais não faria, à luz dos factos actuais, senão oferecer ao Irão e aos seus proxies o fôlego de que necessitam para se rearmarem. O padrão repetiu-se demasiadas vezes para se supor um resultado diferente desta vez. O cenário de um avanço diplomático global que resolvesse o dossier nuclear, limitasse a rede de proxies do Irão e produzisse uma nova ordem estável e aplicável transformaria verdadeiramente a equação regional. Mas é o resultado menos provável à luz dos dados actuais. Exigiria um nível de investimento político norte-americano sustentado que Washington sistematicamente não conseguiu manter após as suas campanhas militares. Exigiria que a direcção iraniana pós-guerra consentisse concessões que a sua predecessora recusou explicitamente. Exigiria um Hezbollah disposto a desarmar-se como condição da recuperação do Líbano, algo que o movimento já sinalizou não aceitar. Os actores regionais são mais desesperados e menos previsíveis, e a confiança necessária para um acordo duradouro foi erodida por décadas de acordos rompidos e de posturas de má-fé de todos os lados. Conclusão A nova fase da crise interminável do Médio Oriente não é definida por um vencedor claramente designado nem por um perdedor identificável. É definida pela incerteza — em Israel, nos Estados Unidos, em todo o Golfo e no Líbano — e por um consenso geral entre actores regionais segundo o qual a postura operacional mais segura, por agora, consiste em fazer avançar os seus interesses através do confronto de baixa intensidade, da pressão por vias oficiosas e da ambiguidade estratégica antes que pelo confronto aberto. As apostas são mais elevadas do que nunca, e os actores mais desesperados do que antes.

O nevoeiro da não-vitória (1/2)
Por
Rayyan Al-Basseer
Publicado
abr 16, 2026 - 22:13

A decisão americana de lançar uma campanha militar de grande escala contra o Irã resultou de uma confluência de pressões. Os falcões do establishment de segurança vinham exigindo há muito tempo uma ação decisiva. O lobby pró-Israel fez todo o possível a favor de uma intervenção, sobretudo depois que os ataques de junho de 2025 não produziram uma dissuasão duradoura e o próprio Israel passou meses pressionando Washington por uma postura mais maximalista. Esses fatores criaram as condições políticas da guerra. Mas o fator mais decisivo no plano estratégico talvez tenha sido uma lógica comparável à aplicada na Venezuela. O objetivo central do presidente Trump não era apenas degradar a capacidade militar do Irã, mas remodelar a arquitetura das transações petrolíferas globais, controlando não apenas quem vende o petróleo bruto, mas quem o compra e em quais condições. Ao manter e aprofundar a pressão das sanções sobre as exportações petrolíferas iranianas, Washington busca restringir o acesso da China a um petróleo subsidiado ou vendido a preços baixos, em um momento em que esse acesso constitui um aporte relevante ao crescimento industrial e militar chinês. A vitória convencional e seus limites O que as forças armadas americanas realizaram em março e abril de 2026 não admite contestação. Os primeiros ataques mataram o Líder Supremo, eliminaram altos comandantes militares e destruíram instalações institucionais estratégicas, incluindo o principal quartel-general de pesquisa e desenvolvimento dos Guardas da Revolução. Uma grande parte dos sistemas de defesa aérea iranianos foi neutralizada nas primeiras vinte e quatro horas, conferindo às aeronaves americanas e israelenses um controle efetivo do espaço aéreo iraniano quase imediatamente. A maioria dos lançadores de mísseis balísticos iranianos foi destruída nas duas primeiras semanas, e a maior parte dos sítios militar-industriais identificados foi atingida, reduzindo consideravelmente os ataques de mísseis e drones contra Israel já a partir da segunda semana do conflito. As principais instalações de enriquecimento foram severamente atingidas, primeiro em junho de 2025 e novamente em 2026, enquanto um número considerável de navios de guerra iranianos foi afundado. À luz de qualquer critério militar convencional, a campanha foi um sucesso notável. Essa imagem de sucesso militar convencional, no entanto, precisa ser relativizada. A postura estratégica do Irã nunca se baseou prioritariamente em suas forças convencionais. Ela se apoia em uma abordagem de defesa em mosaico, uma rede entrelaçada de instrumentos assimétricos que inclui enxames de drones, milícias aliadas, assédio naval e a ameaça latente de fechamento do estreito de Ormuz. A campanha neutralizou a camada militar convencional do Irã, ao mesmo tempo em que deixou suas capacidades assimétricas amplamente intactas. Desmantelar a marinha, os mísseis balísticos e as defesas aéreas de um adversário tem, sem dúvida, um alcance estratégico significativo, mas é insuficiente quando seus principais instrumentos de coerção continuam sendo os drones, as redes de aliados e a capacidade de perturbar gargalos marítimos críticos. Degradar o convencional sem neutralizar o assimétrico é, em última instância, tirar o rifle das mãos do inimigo deixando-lhe a pistola carregada. Um cessar-fogo ambíguo Os limites do que foi alcançado já aparecem nos contornos do cessar-fogo. O acordo, nunca tornado público, foi amplamente considerado ambíguo. Mais grave ainda, o dossiê nuclear permanece totalmente sem solução, e é justamente o único tema sobre o qual a administração Trump e seus críticos concordavam. As capacidades balísticas do Irã, embora severamente degradadas, não foram definitivamente neutralizadas. Sua reconstrução é uma questão de recursos, não de vontade, e qualquer alívio de sanções incorporado a um acordo de cessar-fogo reiniciaria, de fato, a contagem regressiva para o rearmamento. Os Houthis no Iêmen, o Hezbollah no Líbano e as facções pró-iranianas no Iraque já estão em fase de recomposição. Para esses atores, o cessar-fogo não representa uma derrota, mas uma pausa tática e uma oportunidade de se reconstituir. O Irã do pós-guerra Seria igualmente enganoso apresentar a posição do Irã como uma vitória ou uma demonstração de resiliência. O regime que sobreviveu a essa guerra não é o mesmo que a iniciou. Mais de cinquenta altos funcionários foram mortos. O aparato militar foi severamente degradado. O programa nuclear foi atrasado em vários anos. A economia, já sob a pressão de décadas de sanções, foi levada à beira de um colapso estrutural. Os danos à infraestrutura são consideráveis, e o contrato social entre o regime e seus cidadãos, já desgastado, enfrenta tensões de uma magnitude inédita. As estruturas de poder dentro do regime estão sob pressão interna, enquanto facções rivais disputam para definir o que será o Irã do pós-guerra e quem o liderará. O Irã pode ter evitado o pior cenário, o colapso do regime, mas os desafios colossais que agora enfrenta estão longe de se assemelhar a uma vitória. O contraste entre as posições declaradas do Irã e seu comportamento efetivo em abril de 2026 é marcante. O antigo Líder Supremo, Ali Khamenei, afirmou de forma consistente que não haveria negociação com os Estados Unidos. Em março de 2026, autoridades iranianas confirmavam repetidamente que qualquer cessar-fogo exigiria garantias completas de dissuasão. Entre 7 e 10 de abril, vários dirigentes iranianos declararam publicamente que não haveria discussões em Islamabad sem a interrupção prévia das operações israelenses contra o Hezbollah. Não apenas Israel não interrompeu suas ações, como lançou uma de suas maiores operações isoladas contra o Hezbollah em 8 de abril. Ainda assim, a delegação iraniana embarcou para Islamabad e sentou-se à mesa de negociações. Nenhuma retórica triunfalista, por mais enganosa que seja, mudará essa realidade. Uma constante americana Os Estados Unidos têm um padrão bem documentado de incapacidade de converter sua dominação militar em dividendos políticos. No Líbano, em 1983, após o atentado que matou 241 militares americanos, a administração Reagan se retirou em poucos meses, deixando um vazio rapidamente ocupado pelo Hezbollah. Em 2003, os Estados Unidos derrubaram Saddam Hussein com precisão militar impressionante, mas sem qualquer plano coerente para o pós-guerra, gerando um vácuo de poder que milícias apoiadas pelo Irã se apressaram em ocupar e nunca abandonaram. A retirada prematura do Iraque em 2011 corroeu as capacidades institucionais e a autoridade do Estado em um momento crítico, agravando falhas de governança que o Estado Islâmico explorou sistematicamente a partir de 2014. Em 2013, o presidente Obama traçou publicamente uma linha vermelha em torno das armas químicas na Síria, mas se absteve de agir quando Assad a cruzou em Ghouta. A credibilidade americana desmoronou, a Rússia interveio, e a guerra na Síria remodelou o equilíbrio regional de maneira cujas repercussões ainda são sentidas. Em agosto de 2021, a retirada caótica do Afeganistão ofereceu aos talibãs uma vitória de baixo custo e enviou um sinal em todos os teatros onde os Estados Unidos tinham parceiros. Em maio de 2025, Trump declarou que os Houthis haviam “capitulado”, enquanto estes sustentavam que foi Washington que recuou. O cessar-fogo de abril se insere na sequência de todos esses episódios, compartilhando a mesma lógica de força esmagadora, seguimento político incompleto e adversários que se adaptam para preencher o vazio. A incapacidade estrutural de Washington A incapacidade estrutural de Washington de sustentar um engajamento estratégico além da ação militar não é acidental. É o produto da arquitetura política interna que condiciona cada decisão de política externa. Os Estados Unidos não entram nem saem de guerras por uma vontade nacional unificada. Fazem-no por meio da colisão de interesses concorrentes raramente conciliáveis. Os contratantes de defesa e o complexo militar-industrial possuem incentivos institucionais que favorecem ciclos de escalada em vez de soluções duradouras. A polarização bipartidária faz com que qualquer política associada a uma administração se torne alvo da outra, independentemente de seu valor estratégico. Os isolacionistas do movimento MAGA se opuseram à guerra desde o início; grupos pró-Israel teriam preferido ir mais longe; os círculos tradicionais de política externa, tanto à esquerda quanto à direita, consideram o resultado uma meia-meia estratégica. Não existe uma coalizão coerente capaz de sustentar o investimento político que um acordo duradouro exigiria. Com as eleições de meio de mandato no horizonte, as pressões inflacionárias e a alta dos preços do petróleo fragilizam a administração e o Partido Republicano. O resultado previsível é a mesma pressão por um desengajamento prematuro que, em cada episódio comparável, deixou intacto o problema estratégico de fundo e tornou o próximo confronto mais custoso que o anterior. Conclusão A guerra entre os Estados Unidos e o Irã não produziu um vencedor. Produziu uma região mais fragmentada do que antes, um dossiê nuclear tornado mais perigoso justamente por permanecer sem solução e dois adversários que retornarão à confrontação, sob formas diferentes, em condições que ambos contribuíram para agravar. O nevoeiro da não vitória não é uma metáfora. É a realidade estratégica que definirá o próximo capítulo, aquele que será abordado na segunda parte desta análise. Próximo artigo: O nevoeiro da “não vitória”: a nova desordem regional

Por que Chareh não marchará sobre Beirute
Por
Rayyan Al-Basseer
Publicado
mar 22, 2026 - 06:28

Desde a retirada das tropas francesas da Síria, em abril de 1946, a jovem república tornou-se, sem dúvida, um dos países mais expostos a golpes de Estado no mundo árabe durante quase um quarto de século. Em 1970, a Síria já havia registrado dez golpes bem-sucedidos. Em 13 de novembro daquele ano, Hafez al-Assad realizou um golpe palaciano e se consolidou como homem forte. Para Assad, o Líbano não era apenas um vizinho. Era o quintal da Síria e um instrumento de projeção regional. Quando a guerra civil eclodiu em Beirute, a Síria interveio militarmente em 1976, primeiro contra a Organização para a Libertação da Palestina e grupos de esquerda libaneses, depois apoiando essas mesmas forças pró-palestinas contra grupos cristãos que haviam se organizado para se defender. A partir dessa intervenção, os serviços de inteligência e o aparato militar sírio se integraram ao tecido político libanês, arbitrando o poder ao apoiar, trair ou explorar atores locais. A guerra de outubro de 1973, travada em conjunto com o Egito contra Israel, marcou um ponto de inflexão que transformou Assad de ator regional em interlocutor indispensável para Washington. O conflito terminou em um impasse militar, mas foi a gestão do pós-guerra que revelou seu talento estratégico. Henry Kissinger, que passou quase um mês em viagens diplomáticas entre Damasco e Jerusalém em maio de 1974, teria ficado “estupefato e surpreso” quando Assad aceitou o quadro de desengajamento. O acordo, assinado em Genebra em 31 de maio de 1974, criou uma zona tampão sob controle da ONU no Golã e congelou a fronteira sírio-israelense pelas cinco décadas seguintes. Nenhuma outra frente árabe-israelense permaneceu tão estável por tanto tempo. Essa estabilidade tornou-se o paradigma de Assad: enquanto o Golã permanecesse congelado, a Síria continuaria sendo necessária. Nenhuma paz poderia ocorrer sem Damasco. Nenhuma guerra poderia começar sem seu consentimento. Um dos maiores sucessos diplomáticos de Assad foi, possivelmente, sua gestão da Guerra Fria. O exército árabe sírio tornou-se uma das forças mais bem equipadas e treinadas pelos soviéticos na região. Doutrina, sistemas de armas e formação de oficiais passavam por Moscou. Ainda assim, Assad nunca concedeu aos soviéticos o que eles realmente buscavam, uma influência exclusiva. Manteve um canal discreto com Washington, reuniu-se regularmente com autoridades americanas e evitou aderir a qualquer aliança formal com a União Soviética. Assad transformou essa ambiguidade em alavanca operacional. Combateu aliados dos Estados Unidos no Líbano quando lhe convinha, minou a liderança árabe do Egito após Camp David e, ao mesmo tempo, obteve armamentos soviéticos em condições preferenciais. Damasco era valiosa demais para ser isolada por Washington e independente demais para ser controlada por Moscou. Foi essa posição que Assad ocupou por duas décadas. Quando a União Soviética colapsou e Saddam Hussein invadiu o Kuwait em agosto de 1990, Assad enfrentou uma escolha decisiva. A Síria juntou-se simbolicamente à coalizão liderada pelos Estados Unidos para libertar o Kuwait. Em troca, obteve carta branca no Líbano, com respaldo de Washington e da Arábia Saudita. A ocupação síria duraria mais quinze anos, sob um arranjo político negociado entre Assad e Riad. Rafic Hariri, bilionário com conexões sauditas, tornou-se primeiro-ministro em 1992. Nesse acordo, e até seu assassinato em 2005, Hariri controlava a economia, a reconstrução e a política financeira, enquanto a Síria dominava o aparato militar, os serviços de segurança e a política externa. Com a morte de Hafez em 2000, seu filho Bashar herdou um sistema interno e regional cuidadosamente calibrado, que nunca compreendeu plenamente nem foi capaz de preservar. A pressão internacional, somada a um levante popular, a chamada Revolução do Cedro após o assassinato de Hariri em fevereiro de 2005, precipitou a retirada síria do Líbano, apagando três décadas de influência em poucas semanas. Em menos de dez anos, Bashar al-Assad passou de interlocutor aceitável da comunidade internacional a pária. Quando os levantes árabes chegaram à Síria em março de 2011, a resposta do regime, uma repressão brutal, desencadeou uma guerra civil que deixou centenas de milhares de mortos, deslocou metade da população e reduziu drasticamente as capacidades militares do país. A Síria pós-Assad, liderada por Ahmad al-Chareh, ex-comandante do Hayat Tahrir al-Sham com vínculos com a Al-Qaeda, baseia-se em uma estrutura de poder moldada por uma coalizão rebelde. Trata-se menos de uma democracia pluralista e mais de um Estado faccional hegemônico. Chareh conquistou rapidamente uma legitimidade internacional notável. Em pouco mais de um ano, reuniu-se com Donald Trump na Casa Branca, discursou na Assembleia Geral da ONU e obteve o alívio de algumas sanções ocidentais. Internamente, porém, seu controle permanece frágil: violência sectária no litoral oeste, autonomia curda de fato no nordeste, resistência drusa no sul e a presença de facções jihadistas hostis ao seu pragmatismo continuam a limitar a autoridade central. Já em 2024, o exército sírio era apenas uma sombra da força construída por Hafez. Combatentes do Hezbollah, milícias xiitas iraquianas, forças russas e conselheiros iranianos haviam substituído, na prática, o exército como espinha dorsal da defesa do regime. Após a queda, Israel agiu rapidamente para garantir que qualquer futuro começasse a partir de uma capacidade militar quase nula. Bases aéreas, sistemas de defesa antiaérea, instalações de produção de armas, estoques de mísseis, radares e centros de pesquisa em Damasco, Homs, Tartus, Latakia e Palmira foram alvo de ataques. Segundo o próprio exército israelense, cerca de 80% dos ativos militares estratégicos restantes da Síria foram destruídos. O que resta ao país é uma coalizão de facções armadas, não um exército profissional. A maioria dos combatentes vem de antigas milícias islamistas, eficazes em guerrilha e guerra civil, mas pouco treinadas para operações militares convencionais, como controle de fronteiras, defesa territorial e logística. O equipamento é heterogêneo e em grande parte obsoleto. Não há capacidade aérea ou naval relevante. Sem combatentes estrangeiros, voluntários jihadistas vindos da Ásia Central, do Norte da África e de outras regiões, as forças sírias sequer têm efetivo suficiente para patrulhar o território, quanto mais projetar poder. A economia agrava essa fragilidade. Apesar do alívio parcial das sanções, Estados Unidos e União Europeia avançam com cautela. Investimentos não se materializaram em escala significativa. Os salários no setor público são extremamente baixos, alimentando corrupção generalizada. A infraestrutura está devastada. Não há base econômica para um rearmamento substancial, muito menos para uma intervenção militar externa. Em 2025, surgiram vozes sugerindo que a Síria poderia ou deveria enviar tropas ao Líbano como contrapeso à influência iraniana. Essa ideia revela uma incompreensão profunda da realidade síria atual. O que Washington solicitou foi uma questão de segurança de fronteira, não um mandato de ocupação. O pedido era claro: impedir o trânsito terrestre de armas, combatentes e recursos iranianos do Iraque para o Líbano via território sírio. Por isso, reforços foram enviados tanto à fronteira iraquiana quanto à libanesa. O objetivo é interdição, não invasão. Uma ocupação exige logística robusta, cadeias de comando confiáveis, administração territorial e proteção das tropas. Historicamente, controlar o Líbano demandou entre 35 mil e 40 mil soldados disciplinados, com inteligência, postos de controle, redes políticas locais e respaldo regional e internacional. A nova liderança síria não dispõe de nada disso. A posição de Israel representa uma restrição adicional incontornável. Tel Aviv não confia no atual governo de Damasco — encarando al-Sharaa como um jihadista de terno e um fantoche turco. Mais profundamente, Israel se opõe à expansão da influência turca na Síria e, ainda mais, à sua extensão ao Líbano. Já os interesses dos Estados Unidos concentram-se na estabilização do exército libanês e na contenção do Hezbollah, não na abertura de um novo foco de instabilidade. Do lado libanês, o exército nacional, treinado e equipado pelos Estados Unidos, além de comunidades armadas no norte e no leste, imporiam custos elevados a qualquer incursão de forças sírias fragmentadas e mal equipadas. Para atores pró-Irã e redes ligadas ao Hezbollah, o espectro de um exército jihadista marchando sobre Beirute não é análise, mas instrumento político. Desde dezembro de 2024, sofreram perdas significativas, incluindo a ruptura do corredor sírio. Ao inflar o risco de extremistas sunitas nas fronteiras, buscam reconstruir um sentimento de ameaça existencial entre xiitas e cristãos, base histórica de mobilização. O cálculo é cínico: uma intervenção síria lhes daria exatamente a justificativa de que precisam, reforçando a narrativa de que suas armas são essenciais para a defesa do Líbano. A história da Síria é marcada pela distância entre ambição e capacidade. Hafez al-Assad foi excepcional porque conseguiu reduzir essa distância e projetar influência além do peso do país por décadas. Seu filho ampliou esse descompasso de forma desastrosa. A nova Síria, sob Chareh, ainda define que tipo de Estado pretende ser. O Líbano, por ora, está fora de seu alcance.