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Enorme explosão provocada por um ataque israelita perto de Al-Mansouri, no sul do Líbano. (AFP)
O essencial da semana
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Por LevantTime .
Publicado em set 6, 2026 - 23:27
Enquanto os Estados Unidos pareciam ter optado apenas pela guerra econômica contra o Irã, o exército americano lançou abruptamente na terça-feira ataques contra o território iraniano, em retaliação a ataques contra petroleiros, desencadeando uma espiral de violência ao longo da semana. No Líbano, Israel libertou vários civis detidos em suas prisões, enquanto suas forças armadas ocupavam a colina estratégica de Ali el-Taher e prosseguiam com seus bombardeios massivos na zona que controla no sul do país. A semana de 31 de agosto a 6 de setembro foi marcada por uma nítida aceleração dos acontecimentos no Oriente Médio, depois de uma semana anterior que parecia mergulhada na estagnação. Na frente iraniana, já na noite de terça-feira, o exército americano realizou ataques direcionados em território iraniano, os primeiros em quase um mês. Esta captura de tela, feita em 6 de setembro de 2026 a partir de imagens de vídeo sem data divulgadas no mesmo dia pelo Comando Central dos EUA, mostra o que o Centcom apresenta como um dos petroleiros iranianos que destruiu em retaliação a tentativas de ataques com mísseis contra navios militares. (Centcom via AFP) No entanto, o ritmo relativamente contido desses ataques dá a impressão de que o governo americano optou por uma escalada controlada, mantendo ao mesmo tempo o bloqueio e as pressões econômicas contra Teerã. Ainda assim, a tensão não parou de crescer ao longo da semana. Explosões foram ouvidas no sábado na ilha altamente estratégica de Kharg, por onde passa a maior parte do petróleo iraniano. O presidente americano Donald Trump, por sua vez, ameaçou atacar o complexo nuclear de Kuh-e Kolang — “montanha da picareta” em persa, ou Pickaxe Mountain —, uma instalação fortemente protegida e enterrada a grande profundidade, não muito longe de Natanz, o principal centro de enriquecimento de urânio do Irã. Mais cedo na semana, ele havia formulado a equação do “petroleiro por petroleiro”, prometendo atingir um navio iraniano cada vez que os Guardiões da Revolução atacassem um petroleiro no Estreito de Ormuz. Foi exatamente isso que o exército americano fez no sábado, incendiando dois navios iranianos. No plano político, Donald Trump endureceu ainda mais o tom em relação a Teerã. Depois de afirmar em uma entrevista que as negociações estavam definitivamente congeladas “porque um acordo com eles não vale o papel em que está escrito”, ele declarou no sábado que o “conflito” com o Irã não era uma “guerra”, mas “algo corriqueiro” para os Estados Unidos. Uma forma de mexer com os nervos dos iranianos ao mesmo tempo em que tranquiliza sua opinião pública às vésperas das eleições de meio de mandato. Um porto, além de instalações de armazenamento e depósitos, foi danificado após um ataque militar americano realizado na província iraniana de Hormozgan, no sul do país, que faz fronteira com o estreito de mesmo nome, em 6 de setembro de 2026. (AFP) Ao mesmo tempo, a mídia americana Axios publicou no sábado uma reportagem sugerindo que os Estados Unidos já estão pensando além deste conflito, iniciado em 28 de fevereiro. O site afirma, citando autoridades americanas e outras fontes informadas, que o governo Trump está elaborando uma estratégia mais ampla para o Oriente Médio do pós-guerra. Ela se basearia na construção de um alinhamento regional destinado a conter o Irã, encerrar as repercussões regionais dos ataques de 7 de outubro de 2023 realizados pelo Hamas em Gaza e ampliar o círculo de normalização entre Israel e os países da região. A ameaça contra Kuh-e Kolang, que marca o ressurgimento da questão nuclear iraniana, ecoa um anúncio da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que lamentou, em 1º de setembro, o fato de o Irã não ter reaberto seus sites aos inspetores após os ataques de maio de 2025. Vale lembrar que, apesar da magnitude da ofensiva israelo-americana contra os sites iranianos, é quase certo que o estoque de urânio enriquecido permaneça intacto e tenha sido colocado em local seguro pelas autoridades iranianas, que continuam apegadas ao que consideram ser seu direito de desenvolver um programa nuclear. Após o anúncio da AIEA, os Estados Unidos, mas também a França, a Grã-Bretanha e a Alemanha, manifestaram a intenção de apresentar uma resolução ao Conselho de Segurança da ONU condenando o descumprimento pelo Irã de seus compromissos em matéria de não proliferação nuclear. Uma unidade visível que contrasta com o clima frio entre Washington e seus aliados europeus desde o início do conflito. Já os iranianos parecem continuar a reagir às turbulências da mesma maneira: atacando vários países vizinhos, como o Kuwait, os Emirados Árabes Unidos e a Jordânia, sem no entanto atacar diretamente Israel. Ataques maciços no sul do Líbano Na frente libanesa, Israel intensifica suas operações de destruição nas aldeias do sul, chegando a usar, em alguns casos, barris de explosivos. O presidente libanês Joseph Aoun pediu a Washington e à comunidade internacional que “façam cessar” os ataques israelenses no território libanês, que deixaram sete mortos no domingo em meio a uma trégua frágil. Os bombardeios atingiram diferentes localidades da região de Nabatiye. Vinte pessoas também ficaram feridas, entre elas crianças, segundo o Ministério da Saúde. Um ataque destruiu ainda o antigo hospital Ghandour, fora de funcionamento há anos. Libertação de detidos e tomada de Ali al-Taher Mas o evento mais importante da semana no sul foi a tomada, pelos israelenses, da colina estratégica de Ali al-Taher, na região de Nabatiye. O local era um importante quartel-general do Hezbollah, formado por um vasto emaranhado de túneis, de onde operavam combatentes do partido xiita, mas também, segundo algumas informações, combatentes iranianos. Na noite de quinta-feira, os israelenses anunciaram ter assumido o controle do complexo. No domingo, o ministro israelense da Defesa, Israel Katz, declarou que ainda restavam túneis a serem dinamitados. Esse “sucesso” militar talvez não tenha sido uma surpresa após semanas de bombardeios, mas a reação do Hezbollah foi, sim, surpreendente. Depois de garantir por muito tempo que se recusaria a ceder essa colina estratégica — assim como os iranianos, que também haviam ameaçado intervir —, o partido xiita acabou minimizando o impacto desse desenvolvimento por meio de seus veículos de mídia e porta-vozes, sem, no entanto, confirmar oficialmente a perda do local, que havia se recusado a preservar entregando-o ao exército libanês. A outra grande surpresa da semana foi a libertação, por Israel, de cinco civis libaneses e sírios detidos em suas prisões. Essa medida ocorreu após uma visita a Tel Aviv do embaixador dos Estados Unidos no Líbano, Michel Issa. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira “ocorre em seguimento aos esforços empreendidos por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os corpos dos líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano” entre 1984 e 1986. Mais uma vez, a reação do Hezbollah chama a atenção. Embora considere a medida positiva, mas insuficiente, o partido voltou a atacar as autoridades libanesas, acusando-as de “submissão ao inimigo” e responsabilizando-as pelo desastre no sul. Chegou até a alertá-las contra “os conflitos internos”. Será que os reveses militares do partido poderiam levá-lo a se voltar ainda mais contra o cenário interno? Por fim, o exército israelense fez no domingo uma declaração importante, anunciando que está considerando reduzir sua zona de ocupação no Sul do Líbano, passando da atual "zona amarela" para uma "zona cinza". Segundo essa interpretação, tal mudança refletiria uma diminuição da ameaça representada pelo Hezbollah. A medida, no entanto, ainda não foi aprovada pela liderança política israelense. Iêmen e Palestina A semana também foi particularmente tensa no Iêmen, onde os confrontos entre os rebeldes houthis e as forças governamentais não pararam de se intensificar, culminando em um sábado especialmente sangrento, com mais de 60 mortos em um único dia, elevando para cerca de 200 o número de vítimas desde quinta-feira. A ofensiva dos houthis busca sobretudo tomar o controle de certas áreas ao redor da passagem de Bab al-Mandab, o que daria a esse aliado do Irã uma vantagem adicional sobre outro ponto estratégico crucial, depois do estreito de Ormuz. Na Palestina, declarações particularmente preocupantes de Israel Katz sobre Gaza marcaram a semana. Ele afirmou, sem apresentar provas, que a maioria dos habitantes da faixa desejava deixá-la, ressaltando que Israel estava "pronto para essa evacuação em massa". Isso deixa entender que o calvário dos habitantes de Gaza está longe de terminar. Por fim, vale destacar que a AIEA anunciou, em 1º de setembro, que infraestruturas descobertas em Deir ez-Zor, na Síria, indicam que o antigo regime de Bashar al-Assad preparava secretamente um programa nuclear avançado, capaz de resultar na fabricação de uma arma atômica com a ajuda de especialistas norte-coreanos.
Homenagem
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Por Michel Hajji Georgiou - Publicado em set 6, 2026 - 13:31
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O jogador argentino, que encerrou sua carreira internacional em 31 de agosto de 2026, não era nada menos que um prestidigitador dos estádios. Sua trajetória, feita de prodígios, quedas e redenção, talvez diga algo sobre nossa necessidade intacta de encantamento em um mundo que, no entanto, pretende ter se livrado dele. Anunciada poucas semanas depois da final da Copa do Mundo de 2026 perdida para a Espanha, a aposentadoria internacional de Lionel Messi não deixou de provocar uma emoção para a qual é difícil encontrar muitos equivalentes na história recente do futebol. Provavelmente seria preciso remontar a Maradona, ou ainda a Cruyff ou Pelé, para reencontrar essa sensação de que, com a retirada de um jogador, desaparece algo que ultrapassa em muito o próprio esporte, como se certa maneira de habitar o futebol, ou até mesmo de acreditar nele, também chegasse ao fim. Longe dos glacis da razão Chega das estatísticas intermináveis e das insuportáveis querelas, tediosas e estéreis, em torno de “quem é o melhor de todos os tempos». O autor destas linhas nunca foi um fanático pela bola, nem por classificações verticais ou por uma hierarquia do mérito em geral e, portanto, aprecia o talento de cada jogador com o mesmo olhar maravilhado de uma criança de 11 anos. De resto, essa obsessão particularmente contemporânea pelos números estraga todo o prazer do espetáculo. E com razão: o procedimento que consiste em somar gols, assistências, Bolas de Ouro, Ligas dos Campeões, Copas América, Copas do Mundo… só pode ser redutor. Em outro registro, ele não deixa de evocar a crítica desenvolvida pelo filósofo germano-americano Eric Voegelin à tentação gnóstica moderna: a de um saber convencido de que pode encerrar a realidade em um sistema e abolir aquilo que lhe resiste. Os recordes são provavelmente um indicador do gênio de Lionel Messi. Mas tantos outros grandes jogadores que fizeram vibrar os estádios e os corações, sem realizar sequer metade dos feitos de Messi, permanecem, ainda assim, eternos na memória. Aquilo que os tornou verdadeiramente singulares encontra-se em outro lugar, longe dos glacis da razão. Algo mais se jogou em torno deles. Algo que pertence a certo sentido profundo da transcendência, que o entendimento jamais poderia apreender plenamente. Esse é o caso de Lionel Messi há mais de vinte anos, desde o dia em que, sob o olhar do “ícone”Diego Maradona, fez sua primeira entrada, em junho de 2006, na arena da Copa do Mundo com as cores da Albiceleste contra Sérvia e Montenegro. Ora, esse elemento indizível que constitui o gênio de Messi, como o de outros, talvez toque em um dos paradoxos mais curiosos da modernidade: a persistência da magia em um mundo que se construiu precisamente contra ela. O mundo desencantado Max Weber falava do desencantamento do mundo para designar esse lento processo pelo qual a modernidade ocidental submeteu progressivamente a existência à racionalização, ao cálculo, à previsibilidade e à explicação causal. O mundo já não deveria ser atravessado por forças obscuras, sinais, intervenções sobrenaturais ou vontades invisíveis; deveria, ao menos em princípio, tornar-se inteligível. Infelizmente, o esporte moderno, e mais amplamente o mundo moderno herdado da globalização, insere-se perfeitamente nessa dinâmica. O futebol de hoje, e não apenas o futebol, é provavelmente um dos objetos mais quantificados que existem. O menor gesto é medido, e tudo é cuidadosamente calculado e modelado. Da matemática à inteligência artificial, o talento bruto depende agora mais da ciência do que do encantamento. É aquilo que há de humano, em sua relação espontânea, até selvagem, com o invisível que nasce do coração, que desaparece diante de nossos olhos em benefício da quadratura do VAR. É, de certo modo, o assassinato do esporte em nome de mais rigor e equidade… ainda que a eutanásia dessa parcela de espontaneidade sublime acabe provocando, ela própria, injustiças flagrantes. Basta, para constatá-lo, voltar a algumas das decisões controversas da Copa do Mundo de 2026. Paradoxo dos paradoxos, o próprio Lionel Messi foi, desde a origem, filho dessa modernidade técnica, da qual certamente deve parte de sua carreira excepcional. Seu corpo, pequeno demais para os padrões esperados, foi corrigido por meio de tratamento hormonal. Identificado muito cedo, seu talento foi assumido por uma instituição que organizou sua formação, alimentação, desenvolvimento físico e integração em uma máquina esportiva já globalizada. Nada, em aparência, poderia estar mais distante do velho relato heroico. À primeira vista, a história se parece mais com distopias do tipo Gattaca do que com mitos e narrativas messiânicas. E, no entanto, esse velho relato de fato retornou, e até com uma insistência quase constrangedora. Desde o início de sua carreira, Lionel Messi foi colocado sob o microscópio. Mas quanto mais se esforçavam para explicá-lo e desmistificá-lo, menos conseguiam dissipar inteiramente a impressão produzida por alguns de seus gestos. O homem simplesmente não consegue ser circunscrito nem reduzido a um acúmulo de dados. Na idade em que a maioria dos grandes jogadores volta para as sombras, ele continua surpreendendo. Estupefazendo, até, ao trazer ao esporte essa parcela de insensatez que escapa à hipersistematização quase robótica do mundo. É provavelmente aí que se deve procurar esse outro lugar que caracteriza Messi. Numa sobrevivência da magia num momento em que até os espaços que permitiam a expressão positiva de uma humanidade feita de carne e sangue se veem progressivamente “disciplinados”por essa atração hipnótica por uma nova gnose puritana em nome da modernidade. O Messias fabricado pela máquina Embora oriundo, de certo modo, da máquina matricial, Lionel Messi constitui, por si só, um questionamento desse modelo de prêt-à-porter. Uma espécie de alter ego do Neo de Matrix, lançado numa simulação governada por parâmetros que pretendem calcular tudo. O destino do argentino adquiriu progressivamente, quase contra sua vontade, a forma de uma narrativa messiânica. O trocadilho com seu nome seria fácil demais se sua própria história não o tivesse constantemente relançado: a da criança frágil, cujo corpo parecia querer negar a realização à qual seu talento a destinava. Depois, a do exílio ainda muito jovem para Barcelona, da adoção por uma cidade estrangeira, da ascensão quase irreal, do reconhecimento mundial e, em seguida, dessa estranha dificuldade de ser reconhecido pelos seus… Durante muito tempo, a Argentina manteve com seu filho pródigo uma relação de hainamoration. Pouco importavam seus resultados, seu talento, seu brilho… ele precisava responder a uma única pergunta, impiedosa: por que não era Maradona? A comparação era certamente inevitável, mas também profundamente injusta. Tudo separava os dois homens em sua maneira de estar no mundo. Maradona carregava a Argentina com tudo o que ela podia ter de passional, contraditório, excessivo e teatral. Falava, provocava, brigava, caía, voltava, misturava ao futebol sua vida privada, suas cóleras, seus compromissos políticos… até sua própria destruição. Seu próprio corpo parecia transformar-se em um dos lugares onde se encenavam as contradições de seu país. Maradona era a própria encarnação daquilo que o mundo esperava do futebol: uma alma rebelde, levando por vezes o jogo até a imoralidade, mas dentro de uma espécie de gigantomaquia futebolística. Maradona era épico. E, sobretudo, havia colocado seu país no firmamento do futebol em 1986. Messi, por sua vez, não oferecia nada disso. Era silencioso, às vezes quase ausente da narrativa que os outros construíam ao seu redor, ausência que durante muito tempo foi interpretada como defeito. Quase apagado, sem personalidade. Era justamente isso que os dois gigantes, Maradona e Pelé, lhe censuravam: falta de liderança, ser liso demais. Uma espécie de bebê de proveta milagroso dos estádios. Também se censurava ao menino de Rosario não cantar suficientemente o hino, não ser argentino o bastante, ter sido “fabricado”por Barcelona e, naturalmente, não vencer com a seleção aquilo que ganhava quase continuamente com seu clube. A profecia inacabada A final da Copa do Mundo de 2014, perdida de maneira dramática para a Alemanha, seguida pelas finais da Copa América de 2015 e 2016, havia transformado progressivamente essa suspeita em acusação. Quando perdeu seu pênalti contra o Chile em 2016 e anunciou depois que deixava a seleção, ele já era, no entanto, um dos maiores jogadores da história do futebol. Mas sua narrativa permanecia estranhamente inacabada. O sentimento de incompletude pouco dizia respeito ao seu currículo. Tratava-se antes daquela necessidade quase arcaica continuamente imposta aos heróis modernos: concluir seu percurso iniciático. Com as cores argentinas, Messi brilhava e depois caía pesadamente. Mas não se levantava. Não cumpria a profecia. E, aos olhos de seu povo, isso reforçava o sentimento de hainamoration: um deus caído continua sendo um deus, apesar de tudo. Mas acrescido daquilo que, aos olhos de seus adoradores, constitui um substrato de humanidade insuportável e, portanto, perfeitamente detestável: suas taras, suas fraquezas. Os argentinos amavam Maradona apesar de sua decadência espetacular e de sua humanidade falível. Mas isso porque ele havia “merecido”essa decadência, porque ela se tornara, de algum modo, aceitável depois do México de 1986. Messi, por sua vez, ainda não tinha o direito de cair, porque ainda não havia chegado ao topo. Não, a profecia não estava cumprida. Começava até a virar caricatura. Messi voltou, portanto. Mas ainda teve de esperar por sua redenção. Foi preciso a Copa América de 2021, no Maracanã, para que essa relação feita de suspeita, expectativa e decepção com seu público e seu povo começasse verdadeiramente a mudar. E foi preciso, sobretudo, a Copa do Mundo de 2022 para que a história adquirisse aquela forma quase perfeita demais que ninguém teria ousado escrever sem parecer ceder a uma facilidade de roteirista. Fato estranho, Maradona havia morrido em 2020. Era como se uma espécie de maldição nacional opressiva tivesse sido levantada. Ao mesmo tempo, o povo argentino precisava de uma figura paterna substituta, e a pressão não fazia senão redobrar. Mas talvez misturada, dessa vez, com um pouco de ternura? O que aconteceu no Catar em 2022 é ainda mais interessante porque o próprio Messi aparece ligeiramente diferente. Protesta mais, responde às provocações, irrita-se, fala com uma violência de que poucos o julgavam capaz e deixa até escapar aquele “¿Qué mirás, bobo?”diante dos neerlandeses, para diversão da Argentina. Buenos Aires finalmente descobre, com atraso, aquilo que sempre esperou dele. Um pouco de Maradona dentro de muito Messi. Mas Messi não se transforma, por isso, em Maradona. E talvez seja precisamente aí que ocorra a verdadeira reconciliação: a Argentina deixa de lhe pedir que seja Maradona. A partir de 2022, Messi já não precisa encarnar outro modelo do gênio nacional. Finalmente pode tornar-se, também para seu país, aquilo que já havia sido em todos os outros lugares: Messi. Simplesmente. O ato final da profecia É verdade que o triunfo de 2022 poderia ter constituído um final perfeito. Mas, como no caso de Maradona, o ato final da profecia heroica é a queda. Ninguém esperava realmente algo excepcional de Messi em 2026. Aos 39 anos, considerava-se amplamente que ele já fazia parte dos “heróis cansados». A queda do Capitólio havia ocorrido com o episódio amargo de sua saída do FC Barcelona e sua desventura no PSG. Já não atuava senão na liga americana, com as cores de Miami… na periferia do mundo do futebol, nas terras distantes do soccer. E a nova geração já estava ali, pronta para mandar os ancestrais a Bicêtre. No entanto, aquela Copa do Mundo de 2026, que parecia destinada a não passar de um epílogo, transformou-se num último golpe de brilho sensacional. A Argentina chegou novamente à final, com Messi, aos 39 anos, ainda como seu “líder histórico”e seu recurso nos momentos decisivos, realizando algo que não deixava de lembrar o que Roberto Baggio fizera pela Itália em 1994, aos… 27 anos: um deus ex machina permanente. Baggio fracassou às portas do triunfo contra o Brasil depois de praticamente carregar a Itália até Pasadena. Seu pênalti enviado por cima do travessão deixaria uma das imagens mais cruéis da história das Copas do Mundo: a de um homem imóvel, de cabeça baixa, mãos na cintura, enquanto o Brasil celebrava a vitória. Aquele que havia “morrido de pé». O duende italiano jamais conheceu a apoteose. Mas essa morte simbólica, longe de apagar seu Mundial, acabou também entrando para sua lenda. A história foi mais clemente com Messi, apesar de uma campanha de ódio contra ele, misturada a acusações de trapaça e favoritismo, num pano de fundo de decisões arbitrais controversas e atos antidesportivos de sua equipe, como havia sido outrora com Maradona. Ainda mais, até. Uma final em sua sexta Copa do Mundo, às portas da aposentadoria, com uma atuação individual extraordinária? É precisamente aí que reside aquilo que há de mágico no fenômeno Messi e que desafia a razão e sua avalanche de estatísticas. O gênio não pode ser encerrado numa soma de parâmetros e variáveis. Sua condição física, mesmo ótima, não pode explicar por si só aquilo de que o mundo inteiro foi testemunha. E pouco importa que sua história nos lembre que o herói, por mais mítico que seja, não pode abolir a sinistra influência de Saturno. O reencantamento do mundo Pois, para além da profecia cumprida, da ascensão à queda, com sua parcela de alegrias e desventuras, o argentino ofereceu ao mundo uma última volta que pertence à arte, quando não a uma forma de poesia homérica. Com a retirada de Lionel Messi da cena internacional, desaparece um pouco da magia do mundo… até que outro herói providencial volte a encantar os estádios. Durante mais de vinte anos, Messi terá encarnado a coexistência de dois mundos que julgávamos incompatíveis: o da racionalização extrema do esporte moderno e aquele, muito mais antigo, do herói, do sinal, da espera e do encantamento. Quando Messi parte, algo dessa contradição aparece de repente. Outros prodígios já surgiram, mas talvez descubramos, justamente no momento em que um de seus últimos grandes representantes deixa a cena, o quanto continuamos precisando de transcendência. O mundo moderno provavelmente não suprimiu o encantamento. Apenas o deslocou. Durante noventa minutos, esse homem chamado Lionel Messi, que o encarnou nos gramados, parte depois de ter realizado tudo. E até mais.
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Ficamos mais burros?

Ou estamos vivendo uma transformação na estrutura do conhecimento?
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Por Mona Fayad - Publicado em set 5, 2026 - 20:01
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A pergunta «O mundo ficou mais burro?» reaparece com frequência nos debates contemporâneos sobre mídia digital, mecanismos de busca e redes sociais. À primeira vista, parece uma pergunta simples, mas esconde uma questão muito mais profunda, ligada à própria natureza do conhecimento: como ele é produzido, como é transmitido e como é consumido. Talvez a pergunta «Ficamos mais burros?» não seja a mais precisa. Talvez devêssemos perguntar: o conhecimento ainda é transmitido de uma maneira que permita compreendê-lo e torná-lo produtivo? A maioria dos leitores ainda recorre aos textos originais? Ou se limita aos seus resumos e ao que é dito a respeito deles por meio daquilo que circula entre os leitores? Uma das chaves para compreender esse fenômeno encontra-se nos trabalhos do psicólogo britânico Frederic Bartlett, que realizou, na década de 1930, uma série de experiências sobre aquilo que chamou de «reprodução serial». Nessas experiências, uma pessoa ouvia uma história e depois precisava contá-la a outra, que por sua vez a contava a uma terceira, e assim por diante. Os resultados foram impressionantes: a cada nova transmissão, a história não era reproduzida exatamente como havia sido contada, mas reformulada. Alguns detalhes desapareciam, outros eram ampliados e outros ainda eram substituídos por elementos mais compatíveis com o contexto, as experiências e a cultura do receptor. Depois de passar por um número suficiente de intermediários, a história original já havia se transformado em algo inteiramente diferente. Esse modelo simples revela uma verdade fundamental: a memória não é um recipiente neutro, mas um mecanismo de reconstrução. E, quando o conhecimento passa por múltiplos intermediários, ele não é «preservado», mas «reproduzido». É aqui que começam a aparecer as semelhanças com o nosso mundo contemporâneo e o receio de que estejamos ficando mais burros. Na era da mídia digital, o conhecimento já não circula por meio da transmissão oral, mas através de cadeias de mediação: um artigo é resumido, depois citado, em seguida republicado sob a forma de uma postagem curta e, por fim, reduzido mais uma vez a uma frase ou a um título. Nesse contexto, podemos retomar uma imagem metafórica usada em um texto jornalístico: uma biblioteca cujos livros são substituídos por resumos, e depois por resumos dos resumos, até que o leitor se veja diante de sucessivas camadas de redução. Algo semelhante ao que poderíamos chamar de «cadeia do guaxinim», que não lê o original, mas remexe em seus restos. Vale esclarecer que a escolha do «guaxinim» não é aleatória. Essa metáfora condensa simbolicamente uma condição cognitiva que vem se consolidando. Esse animal, que vive nas margens das cidades e remexe em latas de lixo, não produz seu alimento, mas se nutre dos restos daquilo que outros produziram. Apesar de sua inteligência prática e de sua capacidade de desmontar, recolher e aproveitar objetos, ele não compreende verdadeiramente aquilo que tem diante de si, mas lida com as coisas como materiais disponíveis para uso imediato. É assim que o conhecimento passa a se apresentar na era da redução serial: textos são resumidos e depois novamente resumidos, até que deles reste apenas um punhado de fragmentos de sentido, reorganizados e postos novamente em circulação sem qualquer vínculo verdadeiro com sua fonte. Nesse ponto, não apenas nos afastamos do original, mas entramos em uma nova etapa da produção da informação ou do conhecimento, na qual o agente cognitivo deixa de ser um leitor ou pensador para se tornar um coletor de restos de significado, que os redistribui em formatos destinados ao consumo rápido. A «cultura do guaxinim», portanto, não é apenas uma descrição da superficialidade. É também uma caracterização precisa da degradação da própria cadeia do conhecimento: da criação ao resumo, da compreensão ao processamento formal, das ideias a algo que já não passa de um vestígio apagado delas. Mas esse fenômeno não pode ser compreendido separadamente da estrutura tecnológica que o governa. É aqui que entra Marshall McLuhan, que sintetizou seu pensamento na célebre frase: «O meio é a mensagem». O problema não está apenas no conteúdo, mas também na forma através da qual esse conteúdo é transmitido. A mídia digital contemporânea não se limita a transportar informações, mas as remodela segundo a lógica da velocidade, da condensação e da fragmentação. O texto longo torna-se inadequado para o consumo, enquanto uma ideia só parece aceitável se puder ser reduzida a poucas linhas facilmente compartilháveis. Essa transformação produz um paradoxo marcante: vivemos numa época em que o acesso ao conhecimento deixou de ser difícil e se tornou excessivamente fácil. E, com essa facilidade excessiva, surge aquilo que poderíamos chamar de «ilusão cognitiva»: basta ler um pequeno trecho ou um resumo rápido para que a pessoa tenha a sensação de ter assimilado uma ideia. Mas essa sensação de domínio não é necessariamente acompanhada por uma compreensão profunda nem pela capacidade de reconstruir ou criticar o conhecimento. É aqui que aparecem os que poderíamos chamar de «semiletrados»: indivíduos que possuem os sinais do conhecimento, mas não sua estrutura; seu vocabulário, mas não sua lógica interna. O problema se torna ainda mais complexo quando o observamos sob o ângulo da atenção. Em vez de permanecer em um estado prolongado de concentração, como acontece na leitura tradicional ou na reflexão demorada, a mente passou a viver sob um bombardeio contínuo de informações: notificações, vídeos, manchetes e ondas sucessivas de conteúdo. Essa situação não apenas dispersa a atenção, mas a reconfigura segundo uma lógica de saltos constantes entre pequenas unidades de significado, em vez de permitir a construção gradual e cumulativa de uma ideia. Lembro aqui de uma anedota que costumávamos contar e que circulava muito na época das manifestações populares. Ela ilustra bem a ideia da redução e da transformação do conteúdo. Depois da ocupação da Palestina, muitas manifestações populares tomaram as ruas gritando «Abaixo a Declaração Balfour!». A brincadeira dizia que, no fim da manifestação, o slogan havia se transformado, em árabe, em «Que alguém caia lá de cima!», uma frase inteiramente diferente que preservava algo do ritmo e da sonoridade da original. Talvez essa imagem nos ajude a compreender melhor o que acontece na linguagem cotidiana quando o conhecimento se transforma em mensagens curtas repetidas coletivamente. A manifestação começa com uma fórmula política precisa. Mas, com a repetição, a imersão coletiva e o ritmo sonoro, ela vai se transformando pouco a pouco em outra fórmula, completamente diferente. Esta pode conservar o ritmo e a carga emocional da primeira, mas perde seu significado e seu sentido original. O que permanece não é o sentido, mas a energia emocional da frase. Aqui se manifesta, de outra maneira, aquilo que Bartlett havia observado: não importa apenas o que foi dito, mas como aquilo foi repetido e como voltou a ser compreendido dentro de um contexto social em transformação. Se reunirmos todos esses fios, podemos dizer que aquilo que vivemos hoje não é propriamente um «colapso da inteligência», mas uma transformação das condições em que ela opera. A mente humana não mudou radicalmente, mas o ambiente em que funciona se transformou profundamente: passamos de um ambiente que permitia a acumulação lenta para outro que impõe a reprodução rápida e fragmentada do conhecimento. Essa mudança cria uma tensão permanente entre duas formas de pensamento: um pensamento reflexivo, que precisa de tempo, e um pensamento rápido, que exige resposta imediata. Sob essa perspectiva, a pergunta «Ficamos mais burros?» torna-se parcialmente enganosa. Talvez seja mais preciso dizer que estamos cada vez mais expostos a condições que tornam o pensamento profundo menos estável, ou menos possível, e o conhecimento mais vulnerável à fragmentação e à reciclagem. Quanto à burrice, se podemos usar o termo, talvez ela não seja uma propriedade da mente, mas um efeito colateral e uma característica da estrutura cultural que se formou. Trata-se de uma tecnologia que está remodelando nossa relação com o mundo. Assim, em vez de enxergar esse fenômeno como um declínio das capacidades humanas, podemos compreendê-lo como uma transformação do «ambiente do conhecimento»: um ambiente em que se tornou fácil saber alguma coisa, mas mais difícil compreendê-la de fato e em profundidade.
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Superstição e cortina de fumaça…
Por
Michel Touma
Publicado

“Mesmo que um acordo preliminar seja concluído, isso não mudará a visão que o Irã tem da América”… Em poucas palavras, a agência iraniana Tasnim, que reflete as posições da Guarda Revolucionária Islâmica, mencionou de forma indireta a origem do mal que sustenta a crise existencial que desestabiliza os países do Levante e ameaça alguns Estados do Golfo há décadas. Essa pequena frase ilustra, de fato, um grave problema de fundo: a dimensão ideológica divina que dita a linha de conduta do regime dos aiatolás e que é constantemente ocultada, ou às vezes desconhecida, por alguns líderes ocidentais. Na prática, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã destacou perfeitamente, no início desta semana, uma das manifestações desse problema estrutural: a estratégia de protelar, contornar e ganhar tempo para permitir que a República Islâmica se equipe com instrumentos estratégicos militares, de segurança, políticos, institucionais, econômicos e financeiros que lhe permitam preparar adequadamente sua batalha contra as potências ocidentais. Mais de uma autoridade do poder em Teerã ressaltou, nas últimas semanas, que o regime vem se preparando há mais de quinze anos para essa guerra contra os Estados Unidos e Israel. Com isso, entende-se melhor a posição expressa pelo porta-voz da diplomacia iraniana, que declarou sem rodeios, na segunda-feira, 25 de maio: “Negociamos para pôr fim à guerra e atualmente não estamos discutindo questões nucleares (...); o Irã reserva-se o direito de escolher o momento de sua resposta ao ‘ inimigo ’.” Está tudo dito… Essa precisão, particularmente explícita, nos remete ao que o presidente Donald Trump destacou, de forma bastante pertinente, há alguns dias: “Há 47 anos (desde a tomada do poder por Khomeini, em 1979), o regime iraniano nos engana, nos faz esperar, mata nossos homens (...), reprime brutalmente os levantes populares (...).” Não se trata, de forma alguma, de um julgamento de intenções. A questão nuclear e o enriquecimento de urânio vêm sendo levantados pela comunidade internacional, e não apenas pelos Estados Unidos, desde o início dos anos 2000. Em 31 de julho de 2006, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução 1696, “exigindo a suspensão imediata do enriquecimento de urânio”. A votação dessa resolução ocorreu com o aval, sem veto, da Rússia e da China. O regime iraniano, evidentemente, ignorou completamente a advertência da ONU, de modo que, em 23 de dezembro de 2006, o Conselho de Segurança aprovou a Resolução 1737, impondo uma primeira série de sanções à República Islâmica. Em vão… O Conselho de Segurança aprovou então, sempre sem veto da Rússia e da China, outras três resoluções sucessivas impondo ao Irã sanções cada vez mais severas: as Resoluções 1747, de 24 de março de 2007; 1803, de 3 de março de 2008; e 1929, de 9 de junho de 2010. Quase vinte anos depois, continuamos no mesmo ponto e, hoje, o porta-voz iraniano das Relações Exteriores nos informa que as “negociações” sobre esse mesmo dossiê nuclear, discutido desde 2006, e até antes, devem ser adiadas, já que a prioridade deve ser dada ao fim das hostilidades… Essa estratégia de manobra não deveria surpreender, sobretudo porque foi constantemente acompanhada, ao longo dos anos, por uma postura beligerante permanente em relação a vários países árabes e ocidentais, especialmente os Estados Unidos, como ilustram as inúmeras ações terroristas patrocinadas por esse regime, começando pela ocupação e tomada de reféns na embaixada americana em Teerã durante 444 dias, em 1979. Uma longa série de atos hostis se seguiu desde o início dos anos 1980: o atentado com caminhão-bomba que destruiu o prédio da embaixada americana em Ain Mreisseh, em abril de 1983; o duplo atentado mortal de outubro de 1983, em Beirute, contra o quartel-general dos fuzileiros navais americanos e contra o alojamento dos paraquedistas franceses da Força Multinacional; o atentado contra o centro judaico em Buenos Aires, em julho de 1994; a implantação de células subversivas em Chipre, Bulgária, Alemanha, Reino Unido, Kuwait, Bahrein, Emirados e Síria… Esses são apenas alguns exemplos, aos quais se somam, evidentemente, o assassinato de Rafic Hariri, os assassinatos políticos durante a Revolução do Cedro, as guerras impostas ao Líbano e, sobretudo, a repressão selvagem aos movimentos de contestação liderados pelo povo iraniano. Um comportamento desse tipo, que se prolonga no tempo e não leva em consideração nem espaço nem circunstância, obedece a uma lógica muito particular: a da ideologia divina, da missão messiânica que os Guardiões da Revolução acreditam possuir. É justamente essa dimensão messiânica, irracional em todos os aspectos, que infelizmente é ignorada por alguns dirigentes e faz com que qualquer tentativa de encontrar uma saída para a crise atual baseada em uma abordagem puramente cartesiana, falsamente “diplomática”, que leve em conta apenas interesses econômicos conjunturais ou reflexos nacionais reducionistas, apenas adie o problema e plante as sementes de uma nova guerra, de uma nova crise existencial, ainda mais grave do que as anteriores. Negociar uma “solução” com uma facção cujo comportamento ideológico “divino” é baseado na irracionalidade, cuja ação contínua ignora completamente considerações morais, éticas ou humanitárias constitui uma grande fraude, uma abordagem fundamentalmente enganosa. Nesse tipo de situação, torna-se imperativo atacar a origem do mal, arrancar radicalmente suas raízes profundas. Qualquer outra saída para a crise equivaleria a lançar perigosamente uma cortina de fumaça diante dos olhos…

A independência deles... e a nossa Nakba
Por
Hisham Dibsi
Publicado

Foi como hoje, em 1948, que aconteceu aquilo a que demos o nome de Nakba… Depois veio um tempo em que a Palestina não passava de um disco gasto girando sem parar nos cafés de calçada árabes… Depois outro tempo em que a Palestina voltou a ser a entonação de um povo que havia recuperado sua voz, redescobrindo uma força inesperada… Depois um momento em que a causa palestina se espalhou como uma mancha de óleo sobre as águas, o poço escancarado do qual haviam retirado toda a substância e em torno do qual se amontoavam baldes numa confusão interminável… Depois chegou um momento em que se temeu que o corpo palestino se perdesse em um novo desvio, ainda mais aterrador que o primeiro, porque a mãe palestina havia se tornado semelhante a uma gata carregando seus filhotes de um lugar para lugar nenhum… Os tempos se sucederam e se fundiram uns nos outros… até que a Palestina finalmente apareceu em sua própria terra como uma composição épica… mas um solo tocado sobre a carne viva!! Foi com essas fórmulas excepcionais que Mohammad Hussein Chamseddine resumiu sua definição e sua abordagem da comemoração do Dia da Nakba, durante uma conferência realizada em Beirute sob o título “Da Nakba ao Estado”, em 2003, justamente no momento em que a Intifada se abria para perspectivas contraditórias, dividida entre os defensores da luta pacífica e os partidários de um retorno à violência armada. A alternativa se impunha entre a estratégia de um acordo histórico com o Estado de Israel e o triunfo dos projetos de violência e libertação total, do mar ao rio, tendo como bandeira a revogação dos acordos de Oslo, palavra de ordem tão cara ao eixo da resistência e à sua principal ponta de lança, o movimento Hamas. Mais de duas décadas se passaram até que voltasse, mais uma vez, a comemoração da independência deles e da nossa Nakba, enquanto o mundo assiste a uma loucura sem precedentes que envolve o corpo palestino em sua própria pátria e em alguns campos da diáspora, na Síria e no Líbano. E a opacidade do momento internacional e regional, aberto para perspectivas que talvez não correspondam às aspirações do povo palestino de transformar sua Nakba em um dia de independência, continua a se aprofundar. A loucura da dança A loucura da dança que brota da semente do amor coloca você diante desse Zorba do luto e da ternura, enquanto a loucura da dança que explode da semente do ódio se revela em Ben Gvir e em seus semelhantes dentro do atual governo israelense. Na época do ministro das Relações Exteriores Abba Eban, um jornalista lhe perguntou como podiam se orgulhar de ser um Estado sionista moderno e democrático enquanto a Knesset recebia rabinos vindos de uma era ultrapassada. Abba Eban sorriu e respondeu que eles deixavam seus mantos na entrada da Knesset antes de entrar para debater as políticas do Estado. Mas hoje, com Netanyahu e seus comparsas ditos “laicos”, é o manto religioso que eles vestem para entrar. A loucura da dança que Ben Gvir pratica com os “jovens das colinas” dentro da mesquita de Al-Aqsa e sobre as cabeças das pessoas sequestradas pela marinha israelense ao largo de Chipre ainda não chegou ao fim, porque o que se busca vai muito além do que foi realizado desde a operação de 7 de outubro e da guerra de extermínio. A loucura da dança sobre a semente do ódio é a expressão gestual de um delírio de grandeza que invariavelmente acompanha todo aquele que se considera investido por “Deus”, pelo “Senhor” ou por “Yahvé” da missão de conduzir os povos sobre a terra firme, os mares e os céus. Quando o ministro das Finanças Smotrich se gaba de suas realizações declarando que, durante seu mandato, conduziu silenciosamente a revolução da mudança radical na Cisjordânia e construiu cem colônias… no berço de sua eterna pátria bíblica (segundo a correspondente Hagit Rozinam para o site Ba’shevaa, edição de 21/5), a cooperação entre Smotrich e a ministra das Colônias Orit Strock formou o que ela chama de um “movimento de pinça”, cuja ambição é destruir a “Autoridade Palestina” por meio do estrangulamento econômico, ampliar o perímetro do controle colonial direto… proibir os trabalhadores de acessar o mercado de trabalho israelense e construir uma continuidade geográfica das colônias entre Jerusalém e Hebron. Esse tipo de governo extremista se preocupa muito pouco com os relatórios produzidos pelas instituições internacionais para documentar, com números irrefutáveis, que o exército israelense matou milhares de crianças, testemunho acolhido pela Corte Internacional de Justiça e sobre o qual se basearam decisões que cobrem de infâmia essa organização criminosa. Tampouco deram atenção ao conselho que Henry Kissinger ofereceu a Rabin na época da Intifada das Pedras, quando este esmagava os ossos dos jovens palestinos: faça o que quiser com os palestinos, mas atrás das câmeras, não diante delas. O delírio de grandeza desses ministros atingiu tal grau que eles se arrogam o direito de dançar sobre os corpos dos vivos e dos mortos, nas praças públicas, em algo que se assemelha a um ritual sangrento e sombrio celebrado à luz do sol. Assim, o Dia da Independência israelense, em 15 de maio de cada ano, transformou-se em uma ocasião para liberar tudo aquilo que estava reprimido sem qualquer contenção, uma vez que o poder destrutivo do Estado de Israel atingiu um nível que lhe permite apagar o Outro palestino e proclamar sem rodeios o programa destinado a alcançar esse objetivo. Este ano, porém, esse ritual festivo conseguiu inovar, já que os colonos dos “jovens das colinas” passaram a atacar escolas infantis, depois de esgotarem o repertório de alvos “beduínos” e “camponeses”. Talvez imaginem ser capazes de ocupar o futuro das crianças e impedir sua chegada. É um mesmo dia compartilhado com aqueles que chamamos de nossos primos, 15 de maio de cada ano, que para eles é o dia da independência e para nós o dia da Nakba. Talvez seja aí que residam o segredo do delírio de grandeza, o segredo da dança violenta e o segredo do ódio, porque o Outro derrotado pela Nakba continua vivo! Esse fato revela uma equação terrível entre o forte e o fraco, que se manifesta sempre que o fraco persiste em viver sob o signo da Nakba e recorda ao forte que sua independência permanece inacabada, uma equação secreta cuja existência somente o forte capaz de curar a si mesmo pode ousar reconhecer. Nossa Nakba continuará assim corroendo a independência deles e transformando a celebração em um derivativo destinado a esconder a consciência de uma falta e de uma incompletude, corrompendo a festa até suas fundações, porque nenhuma saída é possível sem transcender o excesso de poder e decidir-se por uma reconciliação histórica entre dois povos que habitam a mesma terra e possuem direitos iguais. Dois muros Não se trata aqui do muro de separação que cercou a Cisjordânia, isolou as colônias e engoliu 10% de sua superfície, cerca de 560 quilômetros das melhores terras agrícolas, com suas fontes de água e suas vias de controle estratégico global. Tampouco se trata do muro chamado “Cinturão de Jerusalém”, que isola vilarejos e povoados dos bairros de Jerusalém Oriental e invade literalmente fazendas, casas e propriedades privadas, estendendo-se por cerca de 180 quilômetros, porque esses dois muros já pertencem ao passado e foram objeto de um parecer da Corte Internacional de Justiça concluindo que sua construção viola o direito internacional. Os dois muros de que se fala aqui são aqueles que o governo israelense pretende erguer ao tomar a zona conhecida como E1 (East 1), a leste da cidade árabe de Jerusalém, território histórico das tribos beduínas com uma superfície de 12 quilômetros quadrados, onde existem comunidades estabelecidas no monte Baba e que separa a colônia de Adumim da cidade de Jerusalém. Essa zona foi constantemente visitada pelos cônsules dos Estados europeus acompanhados de seu homólogo americano para impedir que Israel a tomasse, não por amor às tribos beduínas, mas porque ela separaria definitivamente o norte da Cisjordânia de seu sul, e Jerusalém Oriental do vale do Jordão, isto é, da fronteira palestino-jordaniana, transformando a Cisjordânia em cantões isolados caso o primeiro muro colonial fosse construído de Jerusalém até o vale do Jordão ao longo de cerca de 35 quilômetros, ligando os blocos de colônias e fechando todos os espaços entre elas, fazendo da cidade de Jerusalém uma cidade que alcançaria as fronteiras da Jordânia. Quanto ao segundo muro, seria aquele que ligaria Jerusalém à cidade de Hebron por meio de colônias, cerca de 40 quilômetros ao sul, onde qualquer pessoa que pegue um ônibus palestino percebe que o acesso à rodovia reservada aos colonos é proibido às populações nativas, obrigadas a utilizar velhas estradas sinuosas que chegam a 70 quilômetros, para garantir o conforto dos colonos de Hebron e a rapidez de seu acesso à capital. Essa zona E1 constitui o eixo que assegura a continuidade do primeiro muro colonial em direção ao vale do Jordão e do segundo em direção à cidade de Hebron, e é precisamente disso que Smotrich se vangloria por aquilo que chamou de plano de mudança radical, elaborado em conjunto com Netanyahu. Até o momento, contudo, essa zona permanece silenciosa e as escavadeiras ainda não começaram a operar; os esforços realizados pela Autoridade Nacional junto a Washington e aos Estados que exercem influência sobre o governo israelense atrasam sua mobilização, assim como as divergências surgidas dentro do governo, que levaram à possibilidade de novas eleições parlamentares antecipadas, abrindo assim um prazo favorável para impedir esse projeto. Ainda assim, para os governos israelenses, suspender a execução significa apenas esperar um momento mais oportuno, nada além disso. É assim que as coisas funcionam por lá. Os esquecidos O enviado especial do Conselho de Paz, Nikolaï Mladenov, exigiu que o movimento Hamas entregasse suas armas para que fosse possível aplicar a segunda etapa do plano Trump, mas a liderança do Hamas rejeitou essa exigência alegando que o núcleo do problema não estava nas armas, mas na retirada do exército israelense de toda a Faixa de Gaza. Por sua vez, o governo Netanyahu agarrou-se à exigência de Mladenov, prosseguindo sua política de bloqueio e proibindo a entrada de caminhões em Gaza, ao mesmo tempo em que bloqueava as autorizações de passagem para os membros da comissão administrativa na Faixa. Preso entre a intransigência de Israel e a obstrução do Hamas, o Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, registrou em seu novo relatório, publicado pela imprensa no dia 19 deste mês, que os atos cometidos por Israel desde o início da guerra em 7 de outubro constituem uma violação flagrante do direito internacional e se assemelham a crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Türk também instou Israel a garantir que seus soldados não cometam nenhum ato de genocídio e a adotar todas as medidas necessárias para prevenir qualquer incitação ao genocídio e assegurar sua repressão. Isso mergulha o plano Trump em uma paralisia na questão das armas, bloqueando todos os demais caminhos, enquanto apenas 80 caminhões foram autorizados a entrar dos 500 previstos. Nesse cenário, enquanto os habitantes agonizam ali em uma fome lenta e em morte clínica, Mladenov não dirigiu ao presidente americano Trump a pergunta que se impunha, ele que deixou o Hamas se apegar às suas armas e concluiu com seus dirigentes, por meio de mediadores e serviços de segurança, arranjos que autorizam o movimento a continuar governando a parte ocidental da Faixa até nova ordem, em ligação com as questões de constituição e financiamento de uma força internacional. É assim que o povo esquecido paga, com sua própria carne, o preço de barganhas inconfessáveis, cuja única expressão pública continua sendo essa fórmula indireta do presidente Trump dando a entender que ele não tem nenhuma pressa em desarmar o Hamas. Teria sido mais apropriado que o Sr. Nikolaï Mladenov dissesse a verdade aos esquecidos.

Ordem de Netanyahu ao Exército: “Esmaguem” o Hezb

Estamos muito longe, nesta segunda-feira, 25 de maio, do entusiasmo demonstrado no sábado sobre um desbloqueio regional iminente, por meio de uma declaração de intenções entre Irã e Estados Unidos que abriria caminho para uma segunda rodada de negociações entre Washington e Teerã. É verdade que as negociações se aceleraram e que os diferentes atores envolvidos na mediação falam em avanços. Mas não se diz que o diabo mora nos detalhes? Aparentemente, ainda há muitos pontos a resolver, já que nesta segunda-feira continua-se afirmando que um acordo poderá ser concluído “nos próximos dias”. No sábado, Washington e Teerã o apresentavam como algo quase iminente. Mas o otimismo, ao menos na aparência, continua predominando, ainda que com cautela, já que Teerã reconheceu oficialmente, por meio do porta-voz de seu Ministério das Relações Exteriores, que foi possível chegar a “conclusões sobre grande parte das questões em análise”. Questões que, no entanto, não são as mais importantes. Porque, segundo as últimas informações, o impasse gira em torno do dossiê dos ativos iranianos congelados e do programa nuclear. Ou seja, o essencial. Em Doha, o presidente do Parlamento iraniano e principal negociador das conversas de Islamabad, Mohammad-Bagher Qalibaf, assim como o ministro iraniano das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, mantiveram discussões nesta segunda-feira com o primeiro-ministro do Catar, Mohammad Ben Abdel Rahman al-Thani, sobre possíveis soluções para esses dois temas. Segundo a agência Reuters, que divulgou a informação, as discussões também abordaram o destino do estreito de Ormuz. O governador do Banco Central do Irã participou da reunião na parte relacionada a um eventual descongelamento dos ativos iranianos no exterior, bloqueados devido às sanções americanas. Para Teerã, mergulhado em enormes dificuldades financeiras e econômicas, esse tema é prioritário. O Irã quer que parte desses ativos seja liberada antes de qualquer acordo e exige um mecanismo claro que garanta a liberação do restante dos fundos congelados, segundo a agência iraniana Tasnim. Algo que Washington rejeita até agora, já que o descongelamento dos ativos deveria ser resultado de um acordo. O Catar está envolvido, junto com Paquistão, Arábia Saudita, Egito e Turquia, na mediação em andamento. Ao final das discussões, o primeiro-ministro catariano entrou em contato com seu homólogo de Omã para discutir formas de apoiar os esforços de conciliação, especialmente para reduzir os riscos de escalada na região. Uma iniciativa que talvez se explique pelo fato de Teerã estar negociando com Mascate uma possível coordenação para a imposição de uma taxa de pedágio em Ormuz. O Irã continua comprometido com essa medida, reafirmou Qalibaf nesta segunda-feira, apresentando-a como “custos de manutenção da navegação”. Mas ela continua sendo rejeitada pelos Estados Unidos e pelos países cujos petroleiros e cargueiros atravessam essa rota marítima regida pelo direito internacional. Isso significa que ainda há um longo caminho até um possível compromisso? Sem dúvida. Porque, embora dê sinais de abertura, Teerã continua evitando parecer que está cedendo à pressão americana e quer manter margem de negociação sobre o tema nuclear e as sanções, como mostram as declarações de Qalibaf e também do secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, Mohammad Bagher Zolghadr. Este último garantiu nesta segunda-feira que “Teerã não recuará, como o terreno e o processo diplomático demonstraram”. Trump modera o tom Do lado americano, após as críticas recebidas por sua declaração estrondosa de sábado sobre “um acordo muito próximo”, considerado flexível demais por vários senadores republicanos, o presidente Donald Trump moderou o discurso. Nesta segunda-feira, escreveu em sua rede social Truth Social: “O acordo será excelente e significativo, caso contrário, não haverá acordo.” Donald Trump insistiu que um eventual documento assinado “não se parecerá com o acordo de Viena sobre o programa nuclear iraniano”, concluído em 2015 durante o governo de Barack Obama. Ele voltou a ameaçar com ataques em caso de fracasso das mediações, enquanto informações da imprensa relatavam atividade paramilitar americana na região do estreito de Ormuz. Donald Trump também interpelou os países árabes envolvidos nas mediações, afirmando que, em caso de acordo, eles deverão aderir aos Acordos de Abraão. Líbano e a saturação israelense Resta o Líbano, que Teerã quer incluir em um acordo com os Estados Unidos. Para Israel, essa possibilidade está fora de questão, algo que Donald Trump parece admitir, ainda mais porque o problema do Hezbollah deverá ser resolvido no âmbito das negociações diretas entre Beirute e Tel Aviv. Uma reunião, dentro de um “processo de segurança”, está prevista para 29 de maio no Pentágono. Segundo diversos meios de comunicação israelenses, Tel Aviv parece inclinada a ampliar o alcance de seus ataques no Líbano para acabar de vez com a ameaça dos drones do Hezb. O site Axios indicou, por sua vez, que o governo Trump apoiaria uma operação militar de grande escala contra o partido xiita. No fim da noite desta segunda-feira, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que havia dado ordem ao Exército para “esmagar” o Hezbollah. Nesta segunda-feira, o Exército israelense intensificou seus bombardeios no sul do Líbano, atingindo especialmente vários bairros da cidade de Tiro, reduto do presidente do Parlamento e líder do movimento Amal, Nabih Berry, o campo palestino vizinho de Rashidiyeh e a região de Nabatiyeh. Ao mesmo tempo, o Hezbollah multiplicava ataques com drones explosivos contra militares israelenses posicionados no sul do Líbano. Um soldado morreu e vários outros ficaram feridos, segundo o Exército israelense, cujo chefe do Estado-Maior, Eyal Zamir, defendeu uma resposta dura. Para ele, Tel Aviv deveria realizar ataques diretos contra edifícios nos subúrbios ao sul em represália. A ideia foi retomada pelo ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, enquanto o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, pedia “o retorno a uma guerra intensiva” e “o controle” da área que se estende até o rio Zahrani, localizado ao norte do Litani. Na prática, tarde da noite de segunda-feira, todas as informações vindas de Tel Aviv apontavam para uma escalada iminente e fulminante contra o Hezbollah, com apoio explícito de Washington.

Uma vitória tática em um vazio estratégico
Por
Rayyan Al-Basseer
Publicado

O relato do CENTCOM sobre a guerra contra o Irã é impressionante. As lacunas que ele deixa são justamente as que mais importam. Em 14 de maio de 2026, o comandante do Comando Central dos Estados Unidos compareceu diante do Comitê de Serviços Armados do Senado e descreveu uma guerra que, segundo suas palavras, “reverteu 40 anos de investimento militar iraniano” em 38 dias. O relato do almirante Charles Bradford Cooper II sobre a Operação Epic Fury impressiona sob qualquer parâmetro: 85% da base industrial iraniana de mísseis balísticos, drones e defesa naval foi danificada ou destruída; 82% dos sistemas de defesa aérea foram desativados; mais de 90% do estoque de minas navais foi eliminado; 161 embarcações de 16 classes diferentes foram afundadas; houve 1.450 ataques contra instalações de armamentos e outros 2.000 contra centros de comando e controle. “O Irã já não consegue projetar poder pela região”, concluiu. Taticamente, a afirmação é defensável. Estrategicamente, trata-se de uma narrativa com omissões relevantes. O depoimento oferece uma autópsia precisa da derrota convencional iraniana, mas fala muito menos sobre o arsenal assimétrico que sustentou a expansão regional de Teerã ao longo de quatro décadas, e menos ainda sobre como Washington pretende neutralizar a influência desestabilizadora do Irã no Oriente Médio. Em sua declaração, Cooper reconhece que “devemos esperar que o Irã tente reconstituir o que puder, o mais rápido possível”. A história justifica o alerta. Após a “guerra de 12 dias”, em junho de 2025, fontes americanas e israelenses já estimavam que metade do arsenal iraniano de mísseis superfície-superfície e dois terços de seus lançadores haviam sido destruídos, além de danos críticos em Natanz, Fordow e Isfahan. Em fevereiro de 2026, o Irã já voltava a ser capaz de realizar ataques em ondas, o que significa que boa parte do que foi considerado “destruído” em 2025 havia sido previamente ocultado ou reconstruído em menos de nove meses. A autossuficiência iraniana em mísseis se baseia em deslocar a produção, e não apenas os estoques, para infraestruturas ocultas. O índice de 85% não esclarece quanto disso corresponde a capacidades insubstituíveis e quanto se refere a instalações de uso duplo que podem ser reconstituídas. Avaliações militares israelenses sugerem que o Irã poderia retornar ao ritmo de produção de mísseis anterior à guerra entre doze e vinte e quatro meses após o fim dos bombardeios. O manual assimétrico permanece intacto Se os danos convencionais são reversíveis, o manual assimétrico iraniano mal foi afetado. Cooper afirma que “a cadeia de abastecimento de Teerã para seus aliados foi rompida”, mas logo em seguida reconhece que o Irã “mantém capacidade de perturbação por meio de assédio, ataques limitados com drones e foguetes, além de apoio residual a seus aliados”. O Hezbollah é o principal caso de teste. No início deste ano, avaliações israelenses estimavam que a organização possuía cerca de 15% de seu estoque pré-guerra, de aproximadamente 150 mil projéteis. Ainda assim, voltou a disparar diretamente contra o norte de Israel em 2 de março de 2026, dois dias após os ataques conjuntos de Estados Unidos e de Israel contra o Irã. Em dezembro de 2025, o Comitê Supervisor da Cessação das Hostilidades, liderado pelos EUA e conhecido como “o Mecanismo”, avaliava que cerca de 85% das tarefas de desarmamento ao sul do rio Litani haviam sido concluídas. Os acontecimentos desde 2 de março sugerem que o rearmamento avança mais rápido que o desarmamento. O Hezbollah reposicionou centenas de combatentes de elite na área em poucos dias, enquanto mísseis antitanque, MANPADS e lançadores de foguetes haviam sido previamente armazenados em infraestrutura civil exatamente para esse tipo de contingência. Soma-se a isso o uso crescente, pelo Hezbollah, de drones FPV, pequenos, de voo baixo, difíceis de detectar por radar e montados com peças comerciais que custam de algumas centenas a alguns milhares de dólares. Essas armas da guerra contemporânea podem inutilizar tanques, atingir posições fortificadas e atacar soldados ou civis individualmente a poucos quilômetros de distância. Eliminá-las completamente é praticamente impossível. Um Hezbollah “degradado” ainda mantém capacidade de desgaste contínuo de baixo custo e segue sendo uma ameaça à segurança do norte de Israel. A mesma lógica se aplica ao próprio Irã. Desde março de 2026, Teerã lançou mísseis e drones contra infraestrutura de hidrocarbonetos nos países do Conselho de Cooperação do Golfo e contra navios comerciais no Estreito de Hormuz. Impedir isso exigiria uma campanha sustentada e integrada de coerção militar e econômica liderada por Washington com parceiros regionais e extrarregionais, algo difícil de alcançar hoje. Chama a atenção o fato de que o enquadramento político tenha se estreitado para se ajustar à realidade militar. Até 2025, autoridades americanas identificavam três ameaças iranianas: nuclear, balística e forças aliadas. A exigência atual do governo dos EUA para Teerã foi reduzida ao programa nuclear e à reabertura do estreito de Hormuz, um gargalo marítimo que se tornou foco de tensão como consequência da guerra, não como sua causa. O CENTCOM preserva discretamente a antiga tríade em seu depoimento. A divergência entre a agenda de negociações em Islamabad e a avaliação de ameaças feita pelo comando militar é, por si só, uma contradição preocupante. As três prioridades declaradas do CENTCOM, defender o território americano, dissuadir o Irã e preservar vantagem diante da China, estão organizadas em torno da transferência de responsabilidades, por meio de ferramentas como a reforma das Vendas Militares ao Exterior, a rede de Defesa Aérea do Oriente Médio (MEAD) e iniciativas lideradas por parceiros no combate a drones. O depoimento não indica disposição para uma nova guerra. Indica uma postura desenhada para absorver um confronto longo e de baixa intensidade. Os gatilhos para uma nova escalada são identificáveis: avanço nuclear, ataque contra forças americanas, interferência na navegação, mas nenhum deles aborda o comportamento regional desestabilizador do Irã, um silêncio que, na prática, concede a Teerã liberdade contínua de ação por meio de seus aliados. Isso significa que o peso de enfrentar a capacidade iraniana de perturbação recai, por padrão, sobre Israel. Uma doutrina essencialmente idêntica já é aplicada por Israel em Gaza, no sul da Síria e no sul do Líbano. Ela se afasta das fracassadas zonas de segurança administradas por Israel entre 1985 e 2000, mas mantém zonas de morte em países vizinhos, liberdade permanente de ação militar pela região e ataques aéreos indefinidos de “cortar a grama” contra alvos mais profundos no Irã ou em territórios controlados por seus aliados. A contenção como horizonte padrão Outra grande premissa do CENTCOM é que o MEAD, operacionalizado durante a Epic Fury, marque o início de uma arquitetura regional de segurança integrada e multilateral duradoura, e não apenas uma iniciativa pontual em tempo de guerra. No depoimento do CENTCOM, os indicadores de desempenho do atual MEAD foram realmente históricos: mais de 6 mil drones de ataque e 1.500 mísseis balísticos interceptados. Segundo Cooper, seria “o maior guarda-chuva integrado de defesa aérea já implantado na Terra”. No entanto, todos os marcos anteriores de segurança regional fracassaram pelos mesmos motivos estruturais, nenhum dos quais foi resolvido, como rivalidades internas no Conselho de Cooperação do Golfo, diferentes orientações de política externa e a recalibração das percepções de ameaça após aproximações diplomáticas com Teerã. A isso se soma uma erosão da confiança na disposição americana de assumir riscos em nome de seus parceiros. O parâmetro de 1990-91, uma coalizão de 35 Estados e meio milhão de soldados poucos meses após a invasão do Kuwait pelo Iraque, já não é a referência nas capitais do Golfo. Em vez disso, observam a resposta limitada dos EUA aos ataques de 2019 contra a Saudi Aramco, o abandono dos parceiros curdos, a retirada do Afeganistão em 2021 e a própria admissão do CENTCOM de que “a maioria dos países se recusou a participar da reabertura do Estreito de Hormuz”. O resultado é uma estratégia de equilíbrio que o depoimento não reconhece. Vários Estados do Golfo construíram parcerias abrangentes paralelas com Pequim para adquirir mísseis balísticos chineses, drones armados e infraestrutura de comunicações, o que impõe limites concretos de interoperabilidade e compartilhamento de inteligência ao próprio MEAD. Os Estados Unidos e Israel demonstraram que conseguem desmantelar grande parte do aparato militar convencional iraniano com velocidade e coordenação notáveis. O próprio sucesso dessa operação expõe os limites do uso da força contra um adversário cujo poder nunca dependeu de paridade tecnológica ou de poder de fogo, mas de engano, negação plausível e capacidade de transformar recursos limitados em pressão política e psicológica persistente. Uma postura de contenção combinada com transferência de responsabilidades sinaliza uma transição da resolução de problemas para a gestão de riscos. Isso implica uma fase de instabilidade crônica na qual os adversários não são derrotados, mas administrados continuamente, e a dissuasão opera permanentemente abaixo do limiar de um confronto decisivo. A tecnologia pode alinhar sensores e interceptadores, mas não consegue reconciliar percepções divergentes de ameaça, instintos de equilíbrio estratégico ou a confiança decrescente em garantias externas, mesmo quando o articulador são os Estados Unidos. O principal desafio remanescente, como enfrentar formas resilientes, descentralizadas e de baixo custo de poder que continuam sustentando a estratégia desestabilizadora do Irã, é precisamente o ponto que o depoimento do CENTCOM não aborda.

Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (7)

Esta série de artigos permitirá compreender melhor a situação atual à luz do passado, longe de discursos apaixonados, ideológicos ou românticos, que ignoram as realidades. Cabe ao leitor tirar as conclusões que se impõem. As seis partes anteriores foram uma releitura dos acontecimentos relacionados à ascensão do Hezbollah desde o acordo de Taëf até a retirada do exército israelense do sul do Líbano, em maio de 2000, e a instauração de um Hezbollahland no sul do país. Morte de Hafez el-Assad e crescimento da influência iraniana na Síria e no Líbano Em 10 de junho de 2000, quinze dias após a retirada israelense do Líbano, Hafez el-Assad morreu de ataque cardíaco. Após sua morte, seu filho Bashar assumiu o poder. Sob seu governo, a Síria baathista aproximou-se cada vez mais do Irã. Tornou-se um satélite de Teerã e uma plataforma utilizada pelo Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI) para projetar seu poder e influência em direção ao Líbano, mas também à Cisjordânia, por meio da fronteira sírio-jordaniana. O controle da Síria pelo CGRI foi bem descrito em janeiro de 2009 pelo ex-vice-presidente sírio Abdel Halim Khaddam (1984-2005): “O Irã está envolvido no coração do próprio regime sírio: em seus serviços de segurança, em suas forças militares, em suas instituições econômicas e em suas mesquitas.” O sul do Líbano: um Hezbollahland com dimensões militares, políticas e sociais Após a retirada israelense de maio de 2000, o presidente Émile Lahoud recusou categoricamente o envio do exército libanês para a parte sul do país, até a fronteira com Israel. Ao fazer isso, renunciou ao princípio da soberania nacional e deixou caminho livre para o Hezbollah, que rapidamente transformou o sul do Líbano em um bastião multidimensional. A milícia pró-iraniana reinava ali como autoridade absoluta, sob o olhar complacente das autoridades libanesas e do exército sírio de ocupação. Este era supervisionado por oficiais do CGRI operando discretamente nos bastidores. Assim, o sul do Líbano tornou-se um verdadeiro Hezbollahland. No plano militar, a organização xiita aumentou seu estoque de foguetes de alguns milhares para cerca de 15 mil unidades. Além dos tradicionais katiushas, com alcance de 20 km, que o grupo pró-iraniano já possuía, o Irã lhe forneceu foguetes Fajr-3, Fajr-5 e mísseis Zelzal, com alcances respectivos de 40, 72 e 250 km. Um arsenal que deveria lhe dar capacidade de atingir todo o território israelense. Esse rearmamento maciço foi acompanhado pela escavação de uma vasta rede de túneis e bunkers subterrâneos para proteger a capacidade de disparo do Hezbollah e manter sua estrutura longe da vigilância e dos ataques aéreos israelenses. Essa preparação tática reforçava a evidência de uma guerra iminente. O fortalecimento do aparato militar do Hezbollah também veio acompanhado de uma crescente integração política, marcada pela entrada da organização no governo, pela primeira vez em 2005, e depois por sua aliança com o Movimento Patriótico Livre (CPL) de Michel Aoun, através do acordo de Mar Mikhaël, firmado em 2006. Esse pacto permitiu ao Hezbollah romper seu isolamento comunitário e consolidar sua influência política no Líbano. Por meio dessa aliança contra a natureza, o CPL ofereceu sobretudo ao grupo extremista armado uma retaguarda dentro do público cristão. Assim, pela primeira vez na história contemporânea do país, um partido de maioria cristã realizou uma guinada diametralmente oposta à sua linha política original. Depois de ter se imposto na consciência nacional libanesa durante mais de uma década por suas aspirações soberanistas e por um Estado de direito no Líbano, acabou se alinhando a uma organização subordinada a uma potência regional hegemônica que, evidentemente, levaria o Líbano a guerras destrutivas. O Hezbollah também garantiu ao sul do Líbano uma base social “paraestatal” por meio de serviços de saúde quase gratuitos e programas de reconstrução, como os realizados pela empresa “Jihad al-Bina’”, com custos reduzidos. Todo esse apoio lhe garantiu a lealdade inabalável da população xiita. Essa implantação multidimensional permitiu ao grupo manter pressão constante sobre a Linha Azul no sul do Líbano até sua operação militar transfronteiriça de julho de 2006, que deu origem à terceira guerra Israel-Hezbollah, conhecida como Guerra dos 33 Dias. Prelúdio para a terceira guerra com Israel Um ano após a retirada israelense de 24 de maio de 2000, já estava claro que a presença de oficiais do CGRI e de foguetes de longo alcance no Líbano não tinha como objetivo a libertação das Fazendas de Shebaa, mas sim transformar o país em uma plataforma de lançamento de mísseis contra Israel. Essa estratégia servia aos interesses geopolíticos do Irã, especialmente para desviar a atenção da questão nuclear, debatida abertamente a partir de 2002, e mobilizar o mundo árabe em torno de Teerã na questão palestina. Essa situação, às vésperas da guerra de 2006, não refletia preparativos para um confronto Israel-Hezbollah, mas anunciava claramente um embate entre Israel e o Irã. A questão não era saber se haveria guerra, mas quando ela ocorreria. Uma repetição de 1993 e 1996 era evidente, mas desta vez com foguetes de grande calibre e longo alcance. Os dirigentes do Hezbollah não escondiam suas intenções. Em janeiro de 2002, o xeque Nabil Kaouk, vice-presidente do conselho executivo da organização pró-iraniana, declarou com entusiasmo: “Mais de 2,5 milhões de israelenses estão agora ao alcance de nossos mísseis.” Ali Larijani inspira o ataque transfronteiriço de 12 de julho e move os fios do jogo Os iranianos, sob pressão internacional em relação ao programa nuclear, teriam inspirado um ataque transfronteiriço do Hezbollah, algo que seu então secretário-geral, Hassan Nasrallah, provavelmente não desejava. A organização pró-iraniana queria manter a calma na fronteira, o que era claramente perceptível nas declarações de Nasrallah durante as reuniões da “conferência de diálogo nacional”, realizadas no Parlamento na primavera de 2006. As discussões tratavam de uma “estratégia de defesa nacional”. Nasrallah insistiu na necessidade de evitar que Israel arrastasse o país para uma guerra, afirmando que o arsenal do movimento servia como força de dissuasão contra qualquer agressão israelense, e não como instrumento para iniciar um conflito. No próprio dia do ataque, Nasrallah concedeu uma coletiva de imprensa na qual afirmou que a operação transfronteiriça, durante a qual dois soldados israelenses foram capturados, tinha apenas o objetivo de realizar uma troca de prisioneiros. Acrescentou que não desejava uma escalada para uma guerra total. Tratava-se de um apelo real a Israel para não ampliar o conflito? Ou seriam falsas intenções? Dois dias antes da operação, Ali Larijani(1), então secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã e principal negociador do programa nuclear, esteve em Damasco, onde se reuniu com altos funcionários do regime Assad e com Hassan Nasrallah. Ele teria informado aos interlocutores que as negociações com as potências ocidentais sobre o programa nuclear iraniano estavam em impasse. Segundo alguns relatos, indicou que uma “ação” era necessária, sugerindo a abertura de uma frente para desviar a pressão internacional exercida sobre Teerã. A frente de Gaza já estava em chamas havia cerca de quinze dias. Antes da visita de Larijani a Damasco, e mais precisamente na primavera de 2006, as negociações nucleares entre França, Reino Unido, Alemanha e Irã entravam em fase de bloqueio após a retomada do enriquecimento de urânio por Teerã. O diálogo, inicialmente conduzido pelo trio europeu, foi então ampliado para o grupo P5+1, incluindo Estados Unidos, Rússia e China, para aumentar a pressão sobre a República Islâmica, ao mesmo tempo em que lhe apresentavam propostas. Em junho de 2006, uma importante oferta de incentivos econômicos e tecnológicos foi apresentada a Teerã por Javier Solana, então alto representante da União Europeia. Em contrapartida, as potências ocidentais exigiam uma suspensão total do enriquecimento de urânio como condição prévia, exigência que o Irã recusou categoricamente. Esse impasse diplomático, percebido pelo Irã como uma pressão insuportável, muito provavelmente levou ao início das hostilidades pelo Hamas em Gaza, com a captura de um soldado israelense em 25 de junho, e depois ao desencadeamento da operação “Promessa Sincera” no Líbano. Essas duas operações semelhantes tinham como objetivo trocas de prisioneiros entre Israel, de um lado, e Hamas e Hezbollah, do outro. O Irã buscava, assim, colocar-se no centro das negociações, como havia ocorrido durante as negociações de Berlim em fevereiro de 2000 e em outras negociações indiretas conduzidas pelo Hezbollah com o Estado hebreu. Teerã certamente pretendia usar a carta dos prisioneiros nas mãos do Hamas e do Hezbollah como moeda de troca para reduzir as pressões sofridas em relação ao programa nuclear. Não foi o que aconteceu, pois as primeiras sanções do Conselho de Segurança da ONU contra o Irã foram decididas no fim de julho de 2006, em plena guerra de Gaza e do Líbano. (continua) (1) Ali Larijani foi assassinado em 17 de março de 2026 por um ataque israelense em Teerã. Leia também sobre o mesmo tema: Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (6) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (5) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (4) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (3) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (2) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (1)

O rosário, "oração do pobre" e força de ação do Céu

“É preciso dizer: o rosário impede você de cair ainda mais.” É nesse tom de evidência, sem entrar em detalhes, que fala Raoul*, aposentado apaixonado por línguas, pai de família libanês-canadense altamente qualificado e regularmente ameaçado pelo desemprego! Neste mês de maio, que a Igreja dedica à Virgem Maria, são incontáveis os relatos de ajuda recebida por meio do terço. Para Fahed F., um legítimo habitante de Kesrouan, sem o terço e a visita ao santuário mariano de Béchouate, no Vale do Bekaa, seu casamento teria permanecido sem filhos. “Comece a rezar!”, ouve interiormente esse empresário logo após entregar as chaves de seu carro a um operário encarregado de uma tarefa. Ao retornar, o homem, que discretamente multiplicava as “Ave-Marias” perto do canteiro onde seus funcionários trabalhavam, descobre que seu carro havia derrapado na pista molhada da via expressa do Metn e poderia ter terminado em um barranco, não fosse o grande arbusto que providencialmente interrompeu sua trajetória. Esses testemunhos confirmam, à sua maneira, as palavras do papa Leão XIV, que esteve em 8 de maio no santuário de Pompeia, na Itália, para comemorar o primeiro aniversário de seu pontificado: “O rosário”, disse ele, “é a oração do pobre (...). É um relicário da teologia cristã mais essencial.” Em especial, dos dogmas da Encarnação e da Redenção. De fato, recolhidos ao acaso das conversas, esses testemunhos mostram que o terço é realmente “a oração do pobre”, a oração multifuncional do céu, aquela à qual se recorre espontaneamente, a qualquer momento e em qualquer circunstância, para obter uma graça, deter uma guerra, facilitar o parto de uma criança, pedir coragem para se reerguer, passar em um exame ou evitar um acidente. Uma tradição que vem do século XIII A recitação do terço e do rosário tem suas raízes na Europa medieval. Durante a campanha contra a seita dos albigenses, no início do século XIII, a Virgem apareceu a São Domingos e explicou que, mais poderosa para vencer a heresia do que as polêmicas e as batalhas, a arma da oração deveria ser utilizada. Era preciso repetir sem cessar: “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pobres pecadores!” Essa é a origem do rosário. Uma alegoria diz que a própria Virgem Maria entregou a São Domingos esse precioso colar de nós ou contas, que hoje vemos adornando o retrovisor de tantos carros. Nos conventos, passou-se então a fazer os monges analfabetos recitarem as 150 “Ave-Marias” do rosário, enquanto aprendiam de memória os 150 salmos do Saltério. Composto por cinco dezenas de “Ave-Marias”, cada uma pontuada por um “Pai-Nosso” e um “Glória ao Pai”, o terço é uma oração repetitiva. O rosário contava originalmente com três terços, permitindo percorrer os quinze mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos. A palavra “mistério” é usada aqui no sentido de um episódio fundamental da vida de Cristo. Um quarto conjunto de cinco “mistérios”, chamados “luminosos”, foi acrescentado a essa prática por João Paulo II no início do século XXI, mas permanece opcional. Uma meditação sobre um dos “mistérios” da vida de Cristo acompanha a recitação de cada dezena. Para tornar o rosário acessível, em termos de tempo, ao maior número de pessoas, e não apenas aos religiosos, a Igreja atribuiu dias da semana a cada grupo de “mistérios”, de modo que a recitação completa de um rosário inteiro possa ser distribuída ao longo de três ou quatro dias. Enraizamento na História Seu enraizamento na história da Igreja confere ao terço uma legitimidade espiritual sólida. Sua grande força está na acessibilidade. Ele se adapta às preocupações e aos momentos livres de cada um. É claro que a experiência mostra que sua repetitividade às vezes leva a uma recitação mecânica ou ao sono e que é necessário esforço para concluir o terço. Ainda assim, esse esforço nunca deixa de ser recompensado. Poderoso ponto de apoio nos diversos momentos difíceis da vida, nos problemas de saúde, nos reveses profissionais e nas ansiedades de todos os tipos, o terço também pode levar à descoberta de novas profundezas nas Sagradas Escrituras e a um verdadeiro encontro pessoal com Cristo. “O maior milagre do rosário é aquele que acontece no coração”, garante Marielle, mãe maronita que cresceu em uma família onde o terço era rezado diariamente. Ela admite que, quando criança, quase sempre adormecia durante a oração e que ainda hoje não sabe rezar o terço sozinha. “Com meu marido”, diz ela, “muitas vezes conseguimos transformá-lo em um momento de graça, de troca, de encontro com o Senhor e de poderosa intercessão. Todas as nossas preocupações passam por ali!” Mudar o curso da História Mas a “Rainha do Céu e da Terra” não se contenta em assistir apenas às pessoas. Ela também quer conduzir ao seu filho povos, continentes e o mundo inteiro. Sua intercessão, especialmente por meio do rosário, pode mudar o curso da história. O exemplo mais citado nesse sentido é o papel atribuído ao rosário durante a famosa Batalha de Lepanto, no mar Jônico, em 7 de outubro de 1571, quando se enfrentaram a frota otomana de Selim II e a frota da coalizão da Santa Liga, liderada pela Espanha e pela República de Veneza. Com a perda de 187 embarcações das 251 envolvidas e mais de 20 mil homens, o desfecho da batalha foi considerado providencial. Naquele dia, a expansão otomana sofreu um golpe decisivo. Como consequência, o Papa Pio V fixou em 7 de outubro a festa litúrgica do Rosário. A antiga presença árabe-muçulmana na Europa deixou ao continente duas lembranças belíssimas: Lourdes e Fátima. O vilarejo de Fátima, em Portugal, leva o nome da filha favorita do Profeta do islã. Por trás dessa toponímia incomum está a memória duradoura da Andaluzia e da presença árabe na Península Ibérica. Por que Maria escolheu esse vilarejo para alertar sobre as tragédias do século XX permanece um mistério seu. O que se sabe, porém, é que ela se apresentou às três crianças que a viram como Nossa Senhora do Rosário e pediu sua recitação diária. “A mais nobre das damas” No caso de Lourdes, uma tradição oral recolhida por cronistas leva a crer que esse nome deriva da palavra árabe “ warda ” (rosa, flor), por meio da transformação do “ waw ” árabe na consoante líquida francesa “l”; também se supõe que a gruta de Massabielle, onde a Virgem apareceu em 1858 a Santa Bernadette, tire seu nome do árabe “as-sabil”, que significa fonte ou nascente. Esses detalhes aparecem em uma crônica que relata como, em 778, o imperador Carlos Magno, ao retornar de sua campanha na Espanha, foi detido ao longo dos Pireneus diante de uma fortaleza ocupada por um príncipe chamado Mirat, anagrama de amir ou emir?, que resistia tanto às exigências de rendição quanto às promessas de se tornar “conde e cavaleiro de Carlos Magno” e conservar todas as suas posses, caso aceitasse o batismo. Como último recurso, o capelão de Carlos Magno, o bispo de Le Puy, após implorar fervorosamente a Nossa Senhora de Le Puy, obteve autorização para subir à cidadela como emissário. Sabendo que os muçulmanos tinham grande veneração pela Virgem Maria, ele propôs a Mirat que, se não reconhecesse Carlos Magno, aceitasse ao menos como soberana “a mais nobre Senhora que jamais existiu”. Convencido pela ideia, Mirat declarou-se “pronto para entregar as armas ao servo de Nossa Senhora e receber o batismo, com a condição de que seu condado jamais dependesse, nem para ele nem para seus descendentes, de outra autoridade senão dela”. Carlos Magno confirmou o acordo e Mirat recebeu o batismo das mãos do bispo da diocese de Le Puy. Esse encontro marcou o fim da “Reconquista” na França. Testemunhos que interpelam Esses testemunhos nos interpelam. Por sua influência, Lourdes e Fátima são relíquias sagradas, quase promessas. O santuário de Lourdes continuará até o fim do mundo carregando a marca da Virgem Maria, a “ warda sirriya ” ou “rosa mística” da ladainha do rosário, como desejava Mirat, o sarraceno. Digamos, em conclusão, que a Igreja Católica só pode se alegrar com a santidade dos papas que a governaram há mais de um século. Mas a evidente multiplicação das aparições da Virgem ao longo desse período mostra que ela também julgou útil intervir diretamente no curso da história. No Oriente Médio, nós a vimos no Cairo, em 1968; em Beirute, em 1970; em Damasco, em 1982; e em Mossul, em 1991. Pois nada escapa a Maria, seja em nossas condutas pessoais ou nos tempos inquietantes que o planeta atravessa. Constatamos, no Líbano e em outros lugares, que seus alertas continuam plenamente atuais. No Líbano, tivemos a ideia original de instituir uma festa nacional civil simbolizando nossa convivência comum, tomando emprestada da Virgem Maria a festa da Anunciação, em 25 de março, para fazê-lo. Porque, felizmente, a última palavra sempre lhe pertence. “Se Deus, em sua ira, destruísse o mundo, eu lhe devolveria os pedaços”, são as impressionantes palavras que ela teria confiado um dia ao padre Jean-Edouard Lamy, apóstolo e místico francês (1853-1931). Sim, o rosário é verdadeiramente à imagem da “Serva do Senhor”: a encarnação orante do espírito de serviço e a certeza de que a oração fervorosa e sincera supera em eficácia “as polêmicas e a guerra”. Uma “oração do pobre”, uma oração para tudo fazer e até mesmo, como garante a própria Virgem Maria, para tudo refazer. (*) Os nomes foram alterados.