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Analisar

Ficamos mais burros?

Ou estamos vivendo uma transformação na estrutura do conhecimento?
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Por Mona Fayad
Publicado em set 5, 2026 - 20:01
A pergunta «O mundo ficou mais burro?» reaparece com frequência nos debates contemporâneos sobre mídia digital, mecanismos de busca e redes sociais. À primeira vista, parece uma pergunta simples, mas esconde uma questão muito mais profunda, ligada à própria natureza do conhecimento: como ele é produzido, como é transmitido e como é consumido. Talvez a pergunta «Ficamos mais burros?» não seja a mais precisa. Talvez devêssemos perguntar: o conhecimento ainda é transmitido de uma maneira que permita compreendê-lo e torná-lo produtivo? A maioria dos leitores ainda recorre aos textos originais? Ou se limita aos seus resumos e ao que é dito a respeito deles por meio daquilo que circula entre os leitores? Uma das chaves para compreender esse fenômeno encontra-se nos trabalhos do psicólogo britânico Frederic Bartlett, que realizou, na década de 1930, uma série de experiências sobre aquilo que chamou de «reprodução serial». Nessas experiências, uma pessoa ouvia uma história e depois precisava contá-la a outra, que por sua vez a contava a uma terceira, e assim por diante. Os resultados foram impressionantes: a cada nova transmissão, a história não era reproduzida exatamente como havia sido contada, mas reformulada. Alguns detalhes desapareciam, outros eram ampliados e outros ainda eram substituídos por elementos mais compatíveis com o contexto, as experiências e a cultura do receptor. Depois de passar por um número suficiente de intermediários, a história original já havia se transformado em algo inteiramente diferente. Esse modelo simples revela uma verdade fundamental: a memória não é um recipiente neutro, mas um mecanismo de reconstrução. E, quando o conhecimento passa por múltiplos intermediários, ele não é «preservado», mas «reproduzido». É aqui que começam a aparecer as semelhanças com o nosso mundo contemporâneo e o receio de que estejamos ficando mais burros. Na era da mídia digital, o conhecimento já não circula por meio da transmissão oral, mas através de cadeias de mediação: um artigo é resumido, depois citado, em seguida republicado sob a forma de uma postagem curta e, por fim, reduzido mais uma vez a uma frase ou a um título. Nesse contexto, podemos retomar uma imagem metafórica usada em um texto jornalístico: uma biblioteca cujos livros são substituídos por resumos, e depois por resumos dos resumos, até que o leitor se veja diante de sucessivas camadas de redução. Algo semelhante ao que poderíamos chamar de «cadeia do guaxinim», que não lê o original, mas remexe em seus restos. Vale esclarecer que a escolha do «guaxinim» não é aleatória. Essa metáfora condensa simbolicamente uma condição cognitiva que vem se consolidando. Esse animal, que vive nas margens das cidades e remexe em latas de lixo, não produz seu alimento, mas se nutre dos restos daquilo que outros produziram. Apesar de sua inteligência prática e de sua capacidade de desmontar, recolher e aproveitar objetos, ele não compreende verdadeiramente aquilo que tem diante de si, mas lida com as coisas como materiais disponíveis para uso imediato. É assim que o conhecimento passa a se apresentar na era da redução serial: textos são resumidos e depois novamente resumidos, até que deles reste apenas um punhado de fragmentos de sentido, reorganizados e postos novamente em circulação sem qualquer vínculo verdadeiro com sua fonte. Nesse ponto, não apenas nos afastamos do original, mas entramos em uma nova etapa da produção da informação ou do conhecimento, na qual o agente cognitivo deixa de ser um leitor ou pensador para se tornar um coletor de restos de significado, que os redistribui em formatos destinados ao consumo rápido. A «cultura do guaxinim», portanto, não é apenas uma descrição da superficialidade. É também uma caracterização precisa da degradação da própria cadeia do conhecimento: da criação ao resumo, da compreensão ao processamento formal, das ideias a algo que já não passa de um vestígio apagado delas. Mas esse fenômeno não pode ser compreendido separadamente da estrutura tecnológica que o governa. É aqui que entra Marshall McLuhan, que sintetizou seu pensamento na célebre frase: «O meio é a mensagem». O problema não está apenas no conteúdo, mas também na forma através da qual esse conteúdo é transmitido. A mídia digital contemporânea não se limita a transportar informações, mas as remodela segundo a lógica da velocidade, da condensação e da fragmentação. O texto longo torna-se inadequado para o consumo, enquanto uma ideia só parece aceitável se puder ser reduzida a poucas linhas facilmente compartilháveis. Essa transformação produz um paradoxo marcante: vivemos numa época em que o acesso ao conhecimento deixou de ser difícil e se tornou excessivamente fácil. E, com essa facilidade excessiva, surge aquilo que poderíamos chamar de «ilusão cognitiva»: basta ler um pequeno trecho ou um resumo rápido para que a pessoa tenha a sensação de ter assimilado uma ideia. Mas essa sensação de domínio não é necessariamente acompanhada por uma compreensão profunda nem pela capacidade de reconstruir ou criticar o conhecimento. É aqui que aparecem os que poderíamos chamar de «semiletrados»: indivíduos que possuem os sinais do conhecimento, mas não sua estrutura; seu vocabulário, mas não sua lógica interna. O problema se torna ainda mais complexo quando o observamos sob o ângulo da atenção. Em vez de permanecer em um estado prolongado de concentração, como acontece na leitura tradicional ou na reflexão demorada, a mente passou a viver sob um bombardeio contínuo de informações: notificações, vídeos, manchetes e ondas sucessivas de conteúdo. Essa situação não apenas dispersa a atenção, mas a reconfigura segundo uma lógica de saltos constantes entre pequenas unidades de significado, em vez de permitir a construção gradual e cumulativa de uma ideia. Lembro aqui de uma anedota que costumávamos contar e que circulava muito na época das manifestações populares. Ela ilustra bem a ideia da redução e da transformação do conteúdo. Depois da ocupação da Palestina, muitas manifestações populares tomaram as ruas gritando «Abaixo a Declaração Balfour!». A brincadeira dizia que, no fim da manifestação, o slogan havia se transformado, em árabe, em «Que alguém caia lá de cima!», uma frase inteiramente diferente que preservava algo do ritmo e da sonoridade da original. Talvez essa imagem nos ajude a compreender melhor o que acontece na linguagem cotidiana quando o conhecimento se transforma em mensagens curtas repetidas coletivamente. A manifestação começa com uma fórmula política precisa. Mas, com a repetição, a imersão coletiva e o ritmo sonoro, ela vai se transformando pouco a pouco em outra fórmula, completamente diferente. Esta pode conservar o ritmo e a carga emocional da primeira, mas perde seu significado e seu sentido original. O que permanece não é o sentido, mas a energia emocional da frase. Aqui se manifesta, de outra maneira, aquilo que Bartlett havia observado: não importa apenas o que foi dito, mas como aquilo foi repetido e como voltou a ser compreendido dentro de um contexto social em transformação. Se reunirmos todos esses fios, podemos dizer que aquilo que vivemos hoje não é propriamente um «colapso da inteligência», mas uma transformação das condições em que ela opera. A mente humana não mudou radicalmente, mas o ambiente em que funciona se transformou profundamente: passamos de um ambiente que permitia a acumulação lenta para outro que impõe a reprodução rápida e fragmentada do conhecimento. Essa mudança cria uma tensão permanente entre duas formas de pensamento: um pensamento reflexivo, que precisa de tempo, e um pensamento rápido, que exige resposta imediata. Sob essa perspectiva, a pergunta «Ficamos mais burros?» torna-se parcialmente enganosa. Talvez seja mais preciso dizer que estamos cada vez mais expostos a condições que tornam o pensamento profundo menos estável, ou menos possível, e o conhecimento mais vulnerável à fragmentação e à reciclagem. Quanto à burrice, se podemos usar o termo, talvez ela não seja uma propriedade da mente, mas um efeito colateral e uma característica da estrutura cultural que se formou. Trata-se de uma tecnologia que está remodelando nossa relação com o mundo. Assim, em vez de enxergar esse fenômeno como um declínio das capacidades humanas, podemos compreendê-lo como uma transformação do «ambiente do conhecimento»: um ambiente em que se tornou fácil saber alguma coisa, mas mais difícil compreendê-la de fato e em profundidade.
Opinião
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Por Youssef Mouawad - Publicado em set 5, 2026 - 13:25
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Em 2010, Israel interceptou com violência o Mavi Marmara, um navio turco fretado por uma ONG humanitária para socorrer a Faixa de Gaza, então sob bloqueio israelita. Esse incidente, a gota de água, fará vir à tona a animosidade entre o governo de Erdogan e o Estado hebraico. (AFP)
A guerra ainda não parou no nosso sul e já corre o risco de eclodir junto aos nossos vizinhos. Ou seja, vivemos a prazo, de conflito em conflito. E com razão! Por pouco o bombardeamento de uma base síria não descambou numa batalha campal entre Ancara e Telavive. Foi a 18 de agosto passado, e Benjamin Netanyahu não foi com meias palavras: o seu país não iria tolerar uma implantação militar turca suscetível de avançar para o sul da Síria. A mensagem foi tanto mais brutal quanto oito ataques tinham visado a base aérea de Abu al-Duhur, situada a 70 quilómetros da fronteira turca. Recorde-se, aliás, que desde a queda de Bashar al-Assad em dezembro de 2024, Erdogan é o principal mentor da nova Síria, a de Ahmed al-Charaa, ajudando-a a reconstruir as suas forças armadas e transformando-a num parceiro estratégico. Já não é a Síria de Hafez al-Assad Terá sido este novo pico de tensão entre Ancara e Telavive que precipitou a reunião entre o chefe da diplomacia síria, Assaad Chaïbani, e o diretor do Mossad, Roman Gofman, a 23 de agosto passado, na Jordânia? Ora, esse encontro discreto não provocou uma onda de indignação no mundo árabe, como aconteceu com a visita imprevista de Anwar al-Sadat a Israel em 1977. Um tabu foi oficialmente quebrado e, de facto, quem poderia ter acreditado que tal concertação seria possível sob o regime baathista? O Estado hebraico deveria ter-se congratulado, mas, ao contrário do que se esperava, não interrompeu nem os seus ataques aéreos nem as suas incursões territoriais, como a de 27 de agosto em Quneitra. É que as coisas mudaram. Sob Hafez al-Assad, a Síria era uma potência regional que, sem ser temível, era temida pelos seus vizinhos imediatos, fossem eles países árabes ou não. Evitava-se procurar confronto com ela e, por isso, o país conduzia, dentro de certos limites, uma política externa agressiva que resvalava muitas vezes para a provocação. E assim, em virtude da autonomia da sua ação e da margem de manobra que se concedia, tinha constituído, nem que fosse apenas geograficamente, uma zona-tampão entre, por um lado, uma Turquia "erdoganesca", que exibia o seu islamismo assumido, e, por outro, um Israel, o Estado consubstancialmente judeu. Ora, eis que, num país esgotado por uma gestão baathista e devastado por anos de guerra civil, a Turquia, ao começar a marcar posições, vai inevitavelmente encontrar-se frente a frente com um Israel que ocupa uma parte do território sírio. O que esperar? Tendo em conta o ego desmedido tanto de Netanyahu como de Erdogan, e no caso de estes dois chefes de Estado permanecerem nos seus respetivos cargos, devemos esperar um duelo épico em território sírio, libanês, jordano, ou até noutros locais. Este combate será feito de fintas, de esquivas, de golpes baixos, mas também de ataques frontais, de corpo a corpo e de escaladas de tensão até ao ponto de rutura. E isto mesmo que o relatório doCongressional Research Servicede setembro de 2025 considere pouco provável um confronto direto entre a Turquia e Israel, precisamente porque ambos os Estados conhecem o custo de uma guerra, caso esta viesse a eclodir. No entanto, no domínio da polemologia, os dirigentes e outras elites não são necessariamente atores racionais! Tanto mais que, aos olhos dos observadores israelitas, o slogan que impera na Anatólia, a saber, «Make Turkey great again», não é de molde a tranquilizar o Estado sionista. Washington terá cada vez mais dificuldade em conter ou separar os dois adversários que já se posicionam em ordem de batalha. A Turquia, um novo Irão? Sim, é uma hipótese, mas apenas num confronto direto com Israel, tendo a Síria se tornado da noite para o dia uma zona onde «se sobrepõem dois perímetros de segurança», o turco e o israelita, o muçulmano e o judeu. E não se pode excluir que o militantismo xiita, esse mobilizador de «proxies», acabe por se aliar, ainda que momentaneamente, a uma «versão irmãos-muçulmana» do islamismo político defendido por Ancara! Teríamos assim, contra todas as expectativas, um Hezbollah apoiado pelo seu inimigo de ontem, Ahmed al-Charaa, um islamista vindo da Jabhat al-Nusra e da Hayat Tahrir al-Cham! Contra o adversário comum, uma inversão de alianças é sempre legítima e oportuna. Mas isso não passaria de uma aliança tática, ditada pelas necessidades do momento, sem qualquer garantia quanto ao futuro. Tendo o nacionalismo árabe sido posto de lado, a Turquia não se vai contentar em conquistar economicamente o mercado sírio, com os seus 25 milhões de consumidores: vai querer exercer influência política em Damasco, mobilizando para isso o seu aparelho militar e de segurança. O poder instável do presidente sírio, incapaz de assegurar certas funções soberanas nem de enquadrar os diversos corpos do Estado, terá necessariamente de recorrer à experiência do seu vizinho do norte. Será, no entanto, de acreditar que este último vai ser arrastado pela espiral de uma «beligerância anunciada»? Tudo aponta nesse sentido, e já se podem perceber os primeiros sinais de um envolvimento que lembra o dos Estados Unidos no Vietname sob Lyndon Johnson. Pois, se o Estado sírio pretende reconstituir-se, precisará antes de mais de um exército capaz de conter as tendências centrífugas dos alauitas, dos drusos e de outras facções que apelam à fragmentação do país. Ora, cabe a Ancara garantir isso e reforçar a autoridade central sediada em Damasco. Mas Israel, que adquiriu maus hábitos na Síria e pretende manter aí liberdade de ação aérea, não pode aceitar um exército estruturado segundo o modelo da NATO e que possa servir de proxy a um projeto neo-otomano. E o Líbano, da primazia à secundarização? Está agora montado um novo cenário para um novo guião que definirá novas regras do jogo! O que será feito do Hezbollah, apanhado numa ratoeira? Bem, poderia beneficiar, neste cenário, ainda que apenas em parte, do apoio logístico de Damasco, apoio que lhe fez gravemente falta desde a queda de Bachar al-Assad. E talvez que, com um deslocamento das placas tectónicas, o Líbano passasse do estatuto de palco inicial ao de palco secundário de um conflito regional. Mas, para ser sincero, isso de pouco nos vai valer!
O Essencial do Dia
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Por LevantTime . - Publicado em set 5, 2026 - 00:55
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O comboio do CICV que transportava os civis libertados, partindo da zona ocupada por Israel no sul do Líbano, seguiu até o ponto que marca o início da área controlada pelas autoridades libanesas. (AFP)
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) anunciou nesta sexta-feira que transferiu para o Líbano outras quatro pessoas libertadas por Israel, um dia após a libertação de um primeiro civil. Segundo o CICV, trata-se de três libaneses e dois sírios. É a primeira vez que uma operação desse tipo ocorre desde o início, em abril, das negociações entre o Líbano e Israel, sob mediação dos Estados Unidos. Beirute havia solicitado, durante a última rodada de negociações, em agosto, a libertação de um primeiro grupo de cidadãos libaneses capturados por Israel no sul do Líbano, onde trava uma guerra contra o Hezbollah, aliado do Irã. Familiares estimam que cerca de 30 pessoas estejam detidas, entre elas combatentes do movimento islâmico. O presidente libanês, Joseph Aoun, agradeceu em comunicado aos Estados Unidos e ao CICV e afirmou que essa libertação «confirma o acerto da posição» do Líbano, que participa de negociações com Israel rejeitadas pelo Hezbollah. Os Estados Unidos elogiaram na quinta-feira «o governo de Israel e o governo do Líbano por demonstrarem boa-fé por meio desses primeiros passos», expressando a esperança de que isso sirva «de base para discussões mais amplas sobre outras questões civis». Os dois países devem realizar uma nova rodada de negociações em setembro, em uma data ainda não definida. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira «ocorre após os esforços realizados por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os restos mortais de líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano» entre 1984 e 1986. Israel intensifica seus ataques No terreno, ataques israelenses deixaram três mortos e 23 feridos nesta sexta-feira no sul e no leste do Líbano, segundo um veículo de imprensa estatal. Israel intensificou nesta sexta-feira seus ataques na região, depois de anunciar, na noite de quinta-feira, que havia assumido o controle da crista montanhosa de Ali Taher, que servia como posição estratégica para o Hezbollah, aliado do Irã, e domina, entre outras áreas, a cidade de Nabatiye. O Exército agora reforçará suas posições na região para «impedir que o inimigo volte a se posicionar na área», declarou o ministro da Defesa israelense, Israel Katz. Outro ataque também atingiu a região de Tiro, especialmente a localidade de Rmadiye, segundo a Agência Nacional de Notícias (ANI). Para Trump, a guerra no Irã é «coisa pequena» Sobre a guerra no Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tentou nesta sexta-feira minimizar seu impacto para o país, às vésperas das cruciais eleições legislativas de meio de mandato. «Muita gente não chama isso de guerra. Eu digo que é um conflito militar, porque para nós é coisa pequena (“small potatoes”). Não é nada demais. Fizemos a Venezuela e fizemos isso», respondeu a jornalistas no Salão Oval, ao ser questionado sobre seu vice-presidente, JD Vance, que no dia anterior havia dito não querer descrever o conflito como uma guerra. Enquanto a forte alta dos preços dos combustíveis ligada à guerra ameaça custar aos republicanos de Donald Trump sua maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato de novembro, sua administração tenta minimizar a dimensão do conflito. Segundo o presidente, os Estados Unidos realizam «ataques pontuais» e «não estão atualmente combatendo». Trump também afirmou que os Estados Unidos controlam o estreito de Ormuz e que dizimaram as Forças Armadas iranianas. «O que conseguimos foi extraordinário. Assumimos o controle da Venezuela e, essencialmente, assumimos o controle do Irã», declarou.
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O funeral de um regime
Por
Hisham Dibsi
Publicado

O funeral do presidente egípcio Gamal Abdel Nasser foi um dos maiores funerais de Estado da história do Oriente Médio. A emoção popular transbordou o protocolo oficial e transformou a cerimônia em uma despedida espontânea, enquanto multidões acompanhavam o caixão de seu líder até sua última morada, em 1970. Em novembro de 2004, três continentes, Europa, África e Ásia, despediram-se do símbolo palestino Yasser Arafat. Paris lhe prestou as honras reservadas aos monarcas; o Cairo acolheu a Palestina, enquanto, em Ramala, toda a organização oficial foi superada pela dimensão do luto popular. Foram as próprias mãos dos palestinos que carregaram o caixão, enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas pelo homem que havia moldado sua identidade nacional. Sua partida tornou-se ainda mais dolorosa pelas palavras de Ariel Sharon, que evocou “a mão do destino”. A resposta do povo palestino foi inequívoca: “Não se alegre. A justiça está do nosso lado.” Na Grã-Bretanha, o mundo testemunhou, em 2022, aquele que provavelmente foi o funeral de Estado mais grandioso deste século: o da rainha Elizabeth II, ao qual compareceram centenas de chefes de Estado, chefes de governo e monarcas reinantes. Cada detalhe da cerimônia havia sido cuidadosamente planejado pela própria soberana. Tudo refletia a sabedoria institucional da monarquia por meio de sua personalidade e de sua visão profundamente pragmática do Estado, da sociedade e da vida pública. Era quase possível imaginá-la acompanhando conscientemente o próprio funeral, satisfeita com o legado que deixava tanto para a Coroa quanto para o Reino. Ontem, milhões de seguidores leais do Líder Supremo marcharam atrás de Ali Khamenei, derramando lágrimas abundantes com impressionante disciplina. Ao seu redor havia apenas um pequeno grupo de dignitários estrangeiros convidados, mas uma multidão de generais e altos dirigentes da República Islâmica. A cerimônia acabou transformando-se em uma gigantesca demonstração de lealdade, hoje a principal fonte de poder do regime após ver seu poder destruído. No entanto, uma demonstração dessa magnitude dificilmente convencerá as dezenas de milhões de iranianos que acompanharam a cena à distância de que os aparelhos de segurança, mesmo apoiados pelos fiéis do regime, sejam capazes de garantir, sozinhos, sua sobrevivência. Na realidade, aquele cortejo parecia menos o funeral de um líder do que o funeral do próprio regime, um regime que, quando chegar o dia de sua queda, já não encontrará ninguém para acompanhar seu último cortejo. Uma sucessão de desafios A primeira declaração partiu do Líder Supremo, que afirmou: “Sem dúvida nos vingaremos e será em breve.” Ao fazê-lo, recorreu à linguagem da obrigação religiosa, conclamando, na prática, qualquer pessoa capaz de executar essa vingança. A retórica evocou imediatamente a fatwa emitida décadas antes pelo primeiro Líder Supremo, o aiatolá Ruhollah Khomeini, conclamando à morte do escritor britânico Salman Rushdie após a publicação de seu célebre romance Os Versos Satânicos . A segunda declaração veio dos comandantes da Guarda Revolucionária Islâmica, que anunciaram o “fechamento do Estreito de Ormuz até novo aviso”. Embora o Líder Supremo não tenha identificado explicitamente o alvo dessa prometida retaliação, a multidão reunida durante o funeral de seu antecessor dissipou qualquer dúvida ao entoar os gritos de “Morte a Trump” e “Morte a Netanyahu”. Entre as ameaças de assassinato e vingança lançadas pela mais alta autoridade religiosa do regime, o anúncio do fechamento do estreito e os ataques contra embarcações comerciais em águas territoriais de Omã, o conflito entrou em uma nova e muito mais perigosa fase. O entendimento inicial entre as partes desmoronou, a trégua foi rompida e as diferentes interpretações de disposições redigidas em termos genéricos deram lugar a uma nova escalada militar, na qual cada lado passou a agir de acordo com suas próprias capacidades. Muitos dos que criticaram a redação do memorando ignoraram um fato essencial: o documento já havia cumprido o principal objetivo de Washington ao permitir que os Estados Unidos se retirassem da guerra em sua configuração original. A liderança iraniana, tão confiante em sua habilidade diplomática, descobriu rapidamente que aquilo que considerava a “astúcia persa” não era páreo para a capacidade estratégica dos Estados Unidos. Nas relações internacionais, os resultados concretos são determinados pelos verdadeiros equilíbrios de poder, e não pela fanfarronice política ou pela habilidade em manobras táticas. Bastou a Washington reconhecer, ao menos por enquanto, a soberania iraniana sobre o estreito, mas limitando esse reconhecimento às águas territoriais internacionalmente reconhecidas. Ao mesmo tempo, a coordenação com o Sultanato de Omã permitiu à Marinha dos Estados Unidos contornar as restrições iranianas utilizando a rota marítima meridional ao longo da costa omanense. Com isso, Teerã perdeu sua última carta estratégica de peso e, ao mesmo tempo, afastou um mediador que durante anos havia se mostrado cooperativo e extraordinariamente tolerante, inclusive dentro de suas próprias águas territoriais. Esse foi o ponto de inflexão que desestabilizou a liderança iraniana. Depois de substituir a “carta do estreito” pela “carta nuclear”, ela acreditou ter conseguido desviar as negociações de seu objetivo original, modificar o comportamento do regime, para concentrá-las exclusivamente na discussão sobre abrir ou fechar o Estreito de Ormuz. Foi assim que a Casa Branca conseguiu reordenar suas cartas, tanto no cenário político interno dos Estados Unidos quanto no âmbito da OTAN, a partir dos resultados da Cúpula de Ancara. Antes mesmo de chegar ao fim o cortejo fúnebre do Líder Supremo, a liderança militar iraniana descobriu que a realidade estava muito distante das expectativas que havia alimentado. As vitórias prometidas à própria opinião pública desapareceram mais rapidamente do que o tempo necessário para consumir um bastão de incenso. Se a euforia que Teerã apresentou como uma vitória diplomática após o anúncio do memorando acabou se dissipando ao longo do corredor marítimo meridional de Omã, a mobilização de milhões de apoiadores entoando palavras de ordem por morte e vingança continua incapaz de alterar o verdadeiro equilíbrio de poder, ainda que contribua temporariamente para elevar o moral de um povo submetido e conduzido por uma liderança indiferente ao custo de suas próprias decisões. A liderança iraniana viu-se, assim, confrontada com a alternativa construída pelos Estados Unidos e Omã para manter permanentemente aberto o Estreito de Ormuz em conformidade com o direito internacional. É nesse contexto que deve ser compreendida a recente escalada de radicalização e temeridade, refletida nos ataques contra embarcações comerciais em trânsito, contra diversos países do Golfo Árabe e contra o Reino Hachemita da Jordânia. Há, contudo, um aspecto que chama particularmente a atenção. O Irã demonstrou extremo cuidado para evitar qualquer ataque direto contra Israel. Da mesma forma, um confronto militar aberto com a Marinha dos Estados Unidos permanece completamente fora de cogitação. Essa postura reflete um cálculo estratégico relativamente simples. Na visão de Teerã, atacar embarcações comerciais ou Estados árabes não desperta a ira de Washington. Ao contrário, incentiva esses mesmos países a adquirir mais sistemas norte-americanos de defesa antiaérea. Ao mesmo tempo, os Estados árabes, liderados pela Arábia Saudita, não têm qualquer intenção de permitir que a Guarda Revolucionária Islâmica os arraste para uma guerra no momento e nas condições determinadas pelo Irã. Todos dispõem de uma estratégia defensiva construída a partir de uma posição de força e desempenham um papel político cada vez mais influente tanto no plano regional quanto no internacional. Se a mediação constitui uma das expressões dessa estratégia, é porque ela serve a objetivos políticos de longo prazo. Isso se tornou ainda mais evidente desde que Omã abandonou sua postura anterior, enquanto a mediação do Catar foi gradualmente reduzida à sua dimensão financeira, com Doha continuando a manter sob bloqueio importantes ativos iranianos em razão das sanções internacionais. Enquanto isso, Islamabad, Riad, Cairo e Ancara mantêm abertos seus canais de comunicação com a Presidência iraniana e com o Ministério das Relações Exteriores para preservar os esforços de mediação. Todos os dias, essas quatro capitais reafirmam sua oposição à guerra e sua determinação em conter sua escalada por meio da aplicação do direito internacional, especialmente no que se refere à liberdade de navegação pelo Estreito de Ormuz. É precisamente nesse terreno que a Guarda Revolucionária Islâmica sofreu sua derrota mais significativa. Entramos agora em uma guerra de desgaste em múltiplas frentes. Dia após dia, a nova liderança iraniana oferece à Casa Branca tudo o que ela necessita para prolongar esse conflito até o fim do ano. Essa dinâmica favorece a agenda política interna do presidente dos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, fortalece sua posição no cenário internacional. Tudo isso ocorre em um contexto de visível redução das tensões partidárias dentro dos Estados Unidos, sem que isso signifique a existência de um verdadeiro consenso político na superpotência que continua administrando grande parte dos principais assuntos do planeta. Uma decisão independente Pela primeira vez, o Estado libanês participa ativamente da construção de seu próprio futuro por meio de uma leitura lúcida e realista dos conflitos internacionais, em especial do confronto em curso com a República Islâmica do Irã. Esse confronto provocou o retorno da ocupação israelense ao sul do Líbano, além da continuidade das violações do espaço aéreo libanês. Também levou, pela primeira vez, o Hezbollah a enfrentar diretamente Israel em uma guerra de apoio a Gaza e ao Irã após a morte de Ali Khamenei, quando a organização já havia sido excluída da antiga equação “Exército, Povo e Resistência”, depois da implementação do princípio do monopólio estatal das armas. Pode-se afirmar, portanto, que, sem a decisão de consagrar o monopólio estatal das armas, o Líbano jamais teria conseguido iniciar as negociações que deram origem ao memorando. Esse acordo exige agora acompanhamento político permanente e a gestão de dossiês particularmente complexos, tarefa para a qual a diplomacia libanesa dispõe de reconhecida experiência tanto no mundo árabe quanto nas relações internacionais. A maioria dos que hoje criticam esse passo ousado e corajoso é composta justamente pelos mesmos atores que, desde o início, rejeitaram o princípio do monopólio estatal das armas. Também mantêm profundas reservas em relação ao Acordo de Taif e ao equilíbrio político e regional que ele estabeleceu. Assim, as objeções ao processo de negociações entre Líbano e Israel não podem ser dissociadas dessa oposição de fundo a essas duas decisões fundamentais, ainda que alguns afirmem apoiar verbalmente o Acordo de Taif enquanto, na prática, agem em sentido contrário. Em essência, trata-se do confronto entre um passado recente marcado por políticas que transformaram o Líbano em um palco de investimentos geopolíticos, em vez de uma pátria digna de ser construída e defendida, e uma nova abordagem que hoje conta com amplo apoio internacional e árabe. Esse apoio reflete a compreensão do peso das ingerências externas, pressões que ultrapassam a capacidade do Estado libanês e o colocam diante de desafios em relação a Israel que não decorrem de suas próprias escolhas. Essa compreensão foi consagrada por sucessivas resoluções das Nações Unidas, sobretudo a Resolução 425, que encerrou definitivamente qualquer controvérsia sobre a soberania do Líbano em relação às suas fronteiras meridionais. Essa resolução pôs fim a um longo período histórico iniciado após a Guerra de Junho de 1967 e seus desdobramentos, entre eles a ascensão da luta armada palestina a partir do território libanês. Também forneceu a base jurídica para a retirada israelense do Líbano em maio de 2000, permitindo ao Estado libanês iniciar o lento processo de recuperação após sucessivas guerras. As negociações atuais, fundamentadas no conjunto de resoluções internacionais favoráveis ao Líbano, especialmente a Resolução 1701, fazem parte de um esforço internacional e árabe profundamente comprometido com a soberania libanesa. Esse compromisso repousa sobre fundamentos claramente estabelecidos: a Constituição, o Pacto Nacional, o Acordo de Taif, o discurso de posse presidencial e a Declaração Ministerial. É precisamente esse alicerce que permite hoje ao Líbano utilizar de forma construtiva tanto a legitimidade internacional quanto a legitimidade árabe para reduzir, por meios políticos, a assimetria de poder em relação ao Estado hebraico. Essa diferença, contudo, não pode ser reduzida sem o diálogo com a própria administração dos Estados Unidos, principal fiadora do Estado hebraico. Aqueles que procuram desqualificar o esforço político do Líbano para alcançar entendimentos capazes de proteger o país e abrir um caminho para superar sua profunda crise buscam, na realidade, fazer o Estado retroceder para preservar interesses particulares que nada têm a ver com o destino do Líbano como nação e como Estado. No contexto dessa nova guerra de desgaste entre Washington e Teerã, preservar o Líbano das repercussões do Estreito de Ormuz tornou-se mais importante do que nunca. O Irã continua investindo onde ainda encontra oportunidades. Quanto mais suas cartas ruem, maior se torna sua determinação de retomar o controle sobre a decisão nacional independente do Líbano.

O Líbano entre duas tutelas: reconstruir o consenso nacional

Embora as reservas em relação ao acordo-quadro entre o Líbano e Israel, mediado pelos Estados Unidos, sejam numerosas, profundas, legítimas e plenamente justificadas, diante da incapacidade do texto de assegurar ganhos concretos para o Líbano, isso não significa que o país deva aderir ao caminho de Islamabad ou ao acordo da Suíça entre Washington e Teerã, cujo colapso, longe de ter sido inesperado, resultou de uma combinação de fatores políticos e extrapolíticos. Esse frágil acordo da Suíça reflete claramente o profundo clima de desconfiança entre as duas partes em conflito. Tel Aviv tem alimentado e aprofundado continuamente essa desconfiança para servir aos seus próprios interesses imediatos: retomar a guerra de onde ela foi interrompida, continuar degradando as capacidades iranianas, ainda que isso não levasse à queda do regime, como se esperava ou desejava nas primeiras fases do conflito. Ao mesmo tempo, essa estratégia permite ao primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, ganhar mais tempo, melhorar sua imagem às vésperas das eleições legislativas e continuar adiando, protelando e retardando os processos judiciais movidos contra ele. Os defensores da via negociada no Líbano, independentemente de ela ser direta ou indireta, distinção que os acontecimentos já tornaram irrelevante, podem hoje argumentar que essa opção evita que o Líbano seja diretamente envolvido em uma nova guerra entre Washington e Teerã. É verdade que a guerra não cessou no Líbano e que as violações israelenses da soberania libanesa continuam ocorrendo diariamente. Ainda assim, pelo menos até o momento, a situação não evoluiu para um colapso total da frente, como ocorreu nos meses anteriores. Isso talvez esteja relacionado às informações segundo as quais o governo dos Estados Unidos teria informado Benjamin Netanyahu de que o dossiê libanês não dependia do eventual colapso do acordo da Suíça. No entanto, essa observação fundamental, que diz respeito ao direito exclusivo do Líbano de negociar em seu próprio nome e ao seu direito igualmente legítimo de rejeitar que outro Estado negocie em seu lugar, em contradição com os princípios mais elementares da soberania, cuja violação deve ser rejeitada independentemente de quem a pratique, não retira das diferentes forças políticas libanesas o direito de criticar o acordo-quadro e apontar suas deficiências, sem que acusações de traição passem a ser lançadas de todos os lados. É verdade que o esgotamento coletivo dos libaneses diante do ciclo interminável de guerras que insiste em se repetir atingiu um nível crítico. Já não é aceitável que qualquer ator arraste o país para conflitos que ultrapassam em muito sua capacidade de resistência. A dimensão da destruição no sul do Líbano torna indispensável abandonar as abordagens tradicionais baseadas no desencadeamento de guerras estéreis. Mas também é verdade que as numerosas falhas contidas no acordo-quadro entre o Líbano e Israel são inaceitáveis e incompatíveis com o interesse nacional libanês. O Estado libanês deve reconhecê-las como tal e tratá-las como lacunas que justificam uma nova negociação. Na prática, o que fortalecerá a posição oficial do Líbano será reconstruir o consenso em torno do processo de negociação por meio da elaboração de um plano de negociação sólido, baseado em princípios e constantes nacionais inegociáveis. Entre eles, destacam-se o estabelecimento de um cronograma para a retirada israelense e a preservação do direito do Líbano de buscar reparação contra o agressor perante as instâncias internacionais. Fortalecer a posição oficial do Estado certamente não significa negar às diferentes forças políticas libanesas o direito de criticá-la. Muito menos aceitar a participação do ocupante israelense nos mecanismos de implementação de decisões que, por definição, cabem às autoridades libanesas, em especial a questão do monopólio estatal das armas. Trata-se de uma decisão delicada e complexa, da qual não se pode recuar se o Líbano pretende finalmente construir um Estado plenamente funcional, após um atraso que se tornou tão insustentável quanto inaceitável. Em última análise, porém, não é possível aceitar a ideia de que o Estado libanês deva recorrer a Israel ou solicitar sua ajuda para concluir a tarefa de estabelecer o monopólio estatal das armas, nem colocar as Forças Armadas Libanesas em uma posição na qual sejam submetidas ao escrutínio do Exército israelense quanto ao cumprimento de suas missões nacionais e militares, sob uma tutela de segurança superior à sua. Ainda que essa jamais tenha sido a intenção do negociador libanês, nem, evidentemente, um de seus objetivos, essa é, na prática, uma das consequências concretas do acordo-quadro: a ausência de um cronograma claro para a retirada israelense, rebatizada como “reposicionamento”, bem como a criação das chamadas “zonas experimentais”, que, na prática, submetem o Exército libanês a uma prova diária. No mínimo, isso corre o risco de colocá-lo diante de uma confrontação interna que Israel poderá explorar para transferir o conflito para o interior do Líbano e ampliar seu alcance. Ao mesmo tempo, alguns atores libaneses não têm outra alternativa senão integrar-se ao consenso nacional mais amplo, que rejeita a guerra e se recusa a ver o Líbano voltar a servir de combustível ou palco para os conflitos regionais, justamente quando eles parecem entrar em uma nova fase de escalada. Também deverão colocar o interesse nacional acima de tudo, reduzir o profundo fosso que se abriu entre eles e o restante da sociedade libanesa e realizar uma reflexão profunda sobre as transformações ocorridas ao longo dos últimos três anos, transformações que exigem novas abordagens para a libertação do território e para a abertura de uma nova etapa. Embora seja impossível absolver Israel de seus projetos agressivos no Líbano, na Palestina e na Síria, também é necessário reconhecer que a decisão de entrar na guerra de apoio foi precipitada e devastadora. Ela não alcançou os objetivos pretendidos e provocou enormes perdas humanas e materiais, dissipando assim a conquista histórica da libertação alcançada em 25 de maio de 2000, quando Israel se retirou, pela primeira vez, de um território árabe sem qualquer condição, sem um acordo de paz e sequer um acordo sobre medidas de segurança, no que foi então percebido como uma fuga e uma retirada humilhantes. Israel procurou apagar essa imagem nas duas últimas guerras e continua tentando fazê-lo até hoje. Para deixar isso absolutamente claro, o Líbano não tem condições de oferecer apoio a Teerã, nem se espera que o faça. Trata-se de um ônus que supera em muito sua capacidade de suportá-lo. Quanto às declarações segundo as quais o Hezbollah não deixará o Irã enfrentar sozinho os Estados Unidos, elas revelam uma profunda negação da nova realidade e a ausência do mais elementar senso de perspectiva em relação à fase que agora se inicia. Mais do que isso, atingem diretamente o cerne do interesse nacional libanês. O pior que poderia acontecer ao Líbano e aos libaneses seria ver o país submetido a uma dupla tutela: uma tutela americano-israelense, de um lado, e uma tutela iraniana, de outro. Entre ambas, é o povo libanês, e somente ele, que paga o preço.

EUA-Irã: a escalada prevalece sobre a diplomacia… até novo aviso!

A tensão vem crescendo desde o início da semana entre Washington e Teerã, na sequência de novos ataques iranianos contra navios que transitam pelo Estreito de Ormuz. O processo de negociações não está morto, mas parece enfraquecido. O Hezbollah, por sua vez, ameaça reenvolver-se no sul do Líbano caso a guerra seja retomada, enquanto os olhares se voltam para as negociações líbano-israelenses previstas para a próxima semana em Roma. No domingo de manhã, as forças americanas anunciaram ter realizado, durante a noite, uma terceira onda de ataques contra mais de 140 alvos no Irã, em represália a um novo ataque dos Guardiões da Revolução Islâmica iraniana contra um navio comercial que atravessava o Estreito de Ormuz. Após os raids americanos, os Pasdaran não tardaram a lançar — e ampliar —, como de costume, seus ataques contra vários países do Golfo, especificamente contra o Bahrein, o Qatar, os Emirados Árabes Unidos, Omã e o Kuwait… bem como contra a Jordânia, país que foi adicionado pelos iranianos à lista de alvos potenciais desde a escalada dos últimos dias. Nem mesmo o mediador omanense foi poupado. O ataque contra o sultanato de Omã ocorreu apenas algumas horas após a visita do ministro iraniano das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, ao sultanato! Esses ataques ilustram o clima da semana passada, durante a qual as tensões foram crescendo progressivamente até a escalada registrada no fim de semana. No domingo, no início da noite, o exército americano lançou novos raids contra infraestruturas militares dos Guardiões da Revolução, que retomaram seus ataques contra os países do Golfo, com destaque para o Kuwait. As tensões entre o Irã e os Estados Unidos já eram perceptíveis no início da semana. Cada vez mais irritado com a postura dos iranianos, o presidente Donald Trump havia declarado, no entanto, querer conceder-lhes uma trégua até o sepultamento de seu antigo guia supremo Ali Khamenei, em 9 de julho. Os iranianos, por sua vez, aproveitaram esse evento — adiado desde março (Khamenei havia sido morto em ataques israelo-americanos em 28 de fevereiro, no início da guerra no Irã) — para realizar uma demonstração de força (de 4 a 9 de julho), garantindo que "milhões" de "apoiadores" participaram das concentrações, marcadas por prantos e lamentações, no Irã, mas também em algumas regiões iraquianas. Particularmente significativos foram os slogans entoados durante essas manifestações populares e oficiais: eles ameaçavam de morte o presidente Trump diretamente. Nesse contexto, vazamentos na mídia americana trouxeram à tona, esta semana, alertas israelenses transmitidos ao presidente americano sobre um plano iraniano para atentar contra sua vida. Outro sinal veio aumentar esses temores em relação à segurança de Trump: ele chegou à cúpula da OTAN desta semana, realizada na Turquia, a bordo de seu novo avião presidencial oferecido pelo Qatar… mas partiu a bordo do antigo avião presidencial (muito mais seguro), "por razões de segurança", segundo a mídia americana. E de fato, as declarações de Trump refletiram a escalada ao longo de toda a semana, com os ataques americanos tendo sido retomados antes mesmo de Khamenei ser enterrado, em 9 de julho. Já em 6 de julho, o presidente americano ameaçava: "Ou haverá um acordo com o Irã, ou terminaremos o trabalho." A isso se somou uma frase lançada em 8 de julho: "O cessar-fogo acabou." Sem contar as duras críticas dirigidas aos líderes iranianos, a quem chamou de "mentirosos" e "doentes". A sua raiva não reflete apenas a indignação diante das ameaças à sua pessoa, mas constitui também uma reação aos ataques repetidos dos Guardiões da Revolução contra os navios que transitam pelo Estreito de Ormuz, sem contar a teimosia dos Pasdaran em manter o seu domínio sobre essa via marítima. Negociações "em campo minado" É certo que, no dia 10 de julho, Trump recuou ligeiramente ao afirmar que «os iranianos pediram para retomar o diálogo, e nós aceitamos». De facto, os mediadores paquistaneses e qataris trabalharam ativamente durante toda a semana para evitar o colapso total do processo de negociações. Ao que tudo indica, as conversações prosseguem de uma forma ou de outra em Omã, segundo relatos da imprensa confirmados por um comunicado do Ministério iraniano dos Negócios Estrangeiros, no domingo. O que parece ter mudado, porém, é que as negociações continuarão sob fogo, e já não num contexto de trégua. No que diz respeito à situação interna no Irão, a ausência do novo guia supremo Mojtaba Khamenei nas cerimônias fúnebres do pai foi assinalada por numerosos meios de comunicação e em diversos círculos políticos, que levantaram a questão de saber quem governa realmente o Irão nos dias de hoje. A questão torna-se cada vez mais pertinente, sobretudo porque a ala dura do regime parece estar a sobrepor-se à corrente moderada. Nos últimos dias, as declarações beligerantes provêm quase exclusivamente dos Pasdaran. E a retórica do principal negociador, Mohammad Ghalibaf, presidente do Parlamento, acompanhou essa tendência: no dia 10 de julho, garantiu que a guerra no Médio Oriente «não terminará com a rendição do Irão», e no domingo foi ainda mais longe com outra provocação: «O tempo dos acordos injustos acabou». Até onde pode chegar a intransigência iraniana? A situação económica do país é catastrófica, mas os Guardiões da Revolução parecem querer ganhar tempo apostando na alta dos preços do petróleo ao provocar o encerramento do Estreito de Ormuz. Em todo o caso, a escalada mantém-se relativamente contida, à espera de uma nova trégua ou de um deslize que abra caminho a um novo conflito de grandes proporções. Negociações líbano-israelitas em Roma Na frente sul do Líbano, a situação permanece inalterada, com o exército israelita a continuar a destruir as infraestruturas do Hezbollah. A milícia xiita anunciou, todavia, por meio dos seus quadros, que «não deixará o Irão sozinho se a guerra recomeçar». Os ataques dos últimos dias na cena libanesa são sobretudo verbais, partindo do campo pró-iraniano contra a opção tomada pelo Estado libanês de estabelecer conversações diretas com Israel. Esses ataques mereceram uma resposta firme do líder das Forças Libanesas, Samir Geagea, que se deslocou na sexta-feira ao Palácio de Baabda à frente de uma importante delegação do seu bloco parlamentar para apoiar a escolha da legalidade libanesa no que toca às negociações diretas. Essas conversações prosseguirão na próxima semana em Roma, apesar das reservas libanesas quanto a esta mudança de local, com receio de que o envolvimento de Washington diminua — hipótese que os dirigentes americanos excluíram categoricamente. Essas apreensões foram dissipadas pelo embaixador americano Michel Issa na quinta-feira, durante uma ronda de visitas a responsáveis libaneses, nomeadamente ao presidente da República, Joseph Aoun. O embaixador dos EUA anunciou, nesse contexto, a chegada de uma delegação militar americana ao Líbano para supervisionar a aplicação do acordo-quadro entre Israel e o Líbano (assinado a 22 de junho), nomeadamente no que diz respeito à retirada progressiva israelita e ao desdobramento do exército libanês em duas zonas-piloto no sul do país. A delegação americana reuniu-se sobre este assunto, no final da semana, com o comando do exército. Provavelmente para aumentar as chances de sucesso dessas negociações, o comando militar israelense ordenou às suas unidades que congelassem «as operações sensíveis no sul do Líbano», a pedido dos americanos. A outra grande notícia desta semana foi a confirmação da visita do presidente libanês a Washington no dia 21 de julho. Vale destacar que Joseph Aoun continua recusando que essa visita inclua um encontro direto com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que anunciou no início da semana um próximo encontro com o presidente Trump. Macron na Síria A semana que passou foi marcada ainda pela cúpula da Otan na Turquia, com a presença notável do presidente Trump, mas sobretudo pela visita do presidente Emmanuel Macron a Damasco, em 6 de julho, a primeira de um chefe de Estado ocidental desde a mudança de regime em dezembro de 2024. Essa visita foi uma oportunidade para tratar de cooperação e economia, num momento em que o novo regime busca unificar suas fileiras e promover uma recuperação. Mas foi também a ocasião para que terroristas — aparentemente o grupo «Estado Islâmico», segundo as autoridades sírias — perpetrassem um duplo atentado com explosivos nas proximidades do hotel onde estava hospedado o presidente francês. Um sinal de que a situação de segurança continua precária no cenário sírio.

Copa do Mundo: emoções coletivas e identificações no Líbano

A Copa do Mundo de futebol vai muito além do esporte. Como evento planetário, ela suspende o curso ordinário da vida e reúne, durante um torneio, milhões de pessoas em torno de uma mesma narrativa coletiva. No Líbano, essa competição ganha uma dimensão particular. Num país marcado por crises sucessivas, migrações e fraturas sociais, a Copa do Mundo confere aos momentos de celebração um valor precioso, quase raro. Para a psicóloga clínica Sandra Khawam, o apoio a determinadas equipes está enraizado, antes de tudo, numa história familiar, frequentemente marcada pela emigração. “O fator familiar desempenha um papel importante. Por causa das guerras, das crises e das sucessivas ondas de emigração, muitas famílias libanesas se dispersaram pelo mundo”, explica ela. Essa dispersão criou uma cartografia afetiva particular. Comunidades libanesas se estabeleceram no Brasil, na Argentina, na Alemanha, na França e em outros países. No entanto, mantiveram laços fortes com o país de origem, não apenas geográficos ou administrativos, mas emocionais. Laços que aparecem nas narrativas familiares, nas memórias, nos hábitos e, por vezes, nas lealdades simbólicas. Durante a Copa do Mundo, esses vínculos podem influenciar as formas de identificação esportiva. Apoiar uma seleção estrangeira pode significar, indiretamente, apoiar uma parte da própria história familiar, da memória ou da trajetória migratória. O futebol como necessidade universal de identificação Para além do caso libanês, a Sra. Khawam destaca um mecanismo mais amplo e universal. O futebol, segundo ela, responde a uma necessidade de identificação com referências consideradas estáveis, visíveis e valorizantes. “Quando uma equipe encarna a estabilidade, o sucesso, a performance e figuras emblemáticas, ela se torna naturalmente um objeto de identificação”, ressalta. Os torcedores não acompanham apenas um resultado esportivo, mas uma narrativa. Eles seguem a progressão, a possível vitória, a superação dos limites. Essa identificação funciona como um espelho simbólico, no qual cada um projeta aspirações pessoais ou coletivas. No contexto libanês, essa dinâmica adquire uma coloração particular. A Sra. Khawam lembra que a sociedade libanesa é atravessada por divisões identitárias e comunitárias que estruturam também as formas de pertencimento. O futebol pode, então, tornar-se um espaço de projeção dessas divisões. Apoiar uma equipe não se resume a considerações esportivas — pode, às vezes, refletir uma filiação simbólica ou identitária. “Os indivíduos se identificam de formas diferentes, apoiando uma seleção em vez de outra”, explica ela. O campo de futebol torna-se, assim, um espaço de deslocamento das pertenças, onde tensões sociais latentes podem se reencenar de forma simbólica e codificada. Uma pausa emocional A psicóloga destaca outra dimensão essencial: uma válvula de escape coletiva. Num país marcado por crises econômicas, políticas e sociais como o Líbano, a Copa do Mundo funciona como uma pausa em que o cotidiano é suspenso pelo tempo de uma partida. “As pessoas se reencontram, compartilham um sentimento de unidade, alegria, orgulho e entusiasmo coletivo”, comenta ela. Se essa pausa é importante, é porque abre um espaço de expressão emocional raramente acessível no dia a dia. O futebol permite transformar realidades pesadas em uma experiência de leveza coletiva, onde a vitória de uma equipe se torna uma vitória compartilhada, quase simbólica. Essa intensidade coletiva também se explica por mecanismos de grupo. Nos encontros, as emoções não se limitam a uma expressão individual; elas se amplificam mutuamente. A Sra. Khawam descreve esse fenômeno como um efeito de massa, no qual a alegria, a empolgação e, às vezes, a frustração são amplificadas pela dinâmica coletiva. Ela ressalta, porém, um ponto importante: os excessos continuam sendo minoritários. Não representam a norma, mas uma exceção visível. O efeito de grupo pode, no entanto, modificar os comportamentos individuais. O anonimato relativo, a força do coletivo e a intensidade emocional do momento podem levar algumas pessoas a agir de forma diferente do seu comportamento habitual. Em certos casos, isso pode chegar a gestos excessivos ou violentos. Uma troca violenta entre torcedores degenerou em briga e, em seguida, em tiroteio durante uma partida entre Brasil e Japão em Wadi Jilo, no caza de Tiro (sul do Líbano). Seis pessoas ficaram feridas. Nessa lógica, o futebol pode funcionar como uma caixa de ressonância das tensões sociais e políticas. Certos conflitos podem se manifestar por meio das rivalidades esportivas. As equipes tornam-se, então, suportes simbólicos sobre os quais se projetam pertenças, oposições ou frustrações mais profundas. Mas, para a Sra. Khawam, é importante não reduzir o fenômeno apenas a essa leitura, uma vez que essas projeções coexistem com uma dimensão festiva e agregadora igualmente central. A paixão entre convivialidade e excessos Sérgio, 22 anos, natural de Jbeil, ilustra essa ambivalência numa escala mais íntima. “Apoio a seleção da Alemanha, primeiro porque o Líbano não participa da Copa do Mundo. Depois, porque admiro profundamente o estilo de jogo dessa seleção, à qual sou apegado desde a infância”, confessa ele. As partidas são frequentemente assistidas entre amigos, o que não exclui as tensões. “Começamos com brincadeiras, mas a conversa pode esquentar. Às vezes até nos empurramos. No fim, porém, sempre nos acalmamos”, conta ele. A paixão pelo futebol, apesar dos excessos, retorna à sua função primeira: um espaço de convivência. Jad, 28 anos, um beirutino que torce pela seleção francesa, ilustra essa dimensão festiva. “A França faz parte da minha história desde a escola, especialmente com Mbappé hoje em dia. É uma equipe que acompanhei com meu irmão, e isso virou um ritual familiar”, explica ele. Durante esta Copa do Mundo 2026, as vitórias geram celebrações. Para ele, esses momentos vão além do esporte: “Por algumas horas, esquecemos o dia a dia”. Em Jounieh, Maya, 32 anos, fã da seleção argentina, revela um apego herdado. “É uma paixão que meu pai me transmitiu na época de Maradona e que mantive com Messi”, conta ela. Mesmo sem participar das concentrações de torcedores, ela vive a Copa do Mundo no espaço íntimo familiar. “Minha irmã mora em Buenos Aires, e durante os jogos nos mandamos vídeos como se estivéssemos na mesma sala”. Torcedor do Brasil em Trípoli, Karim, 24 anos, relata uma experiência mais contrastada. “O jogo, o samba, a cor amarela… são uma paixão intensa”, diz ele. Mas também reconhece o aumento das tensões: “A derrota às vezes exacerba as emoções. As discussões nas redes sociais, as rivalidades… tudo se intensifica”. Ele descreve cenas de tensão: “Presenciei trocas de insultos e mesas viradas em restaurantes. Preferi me retirar do local”. No fim das contas, a Copa do Mundo se revela um fenômeno profundamente ambivalente. No Líbano, essa ambivalência é particularmente visível. Num país que se busca há décadas, às vezes é mais fácil vibrar pelas cores de outro país do que pelas da própria nação.

Música e política: um casamento ancestral. As origens (3/3)

Este é o terceiro texto introdutório desta série de artigos, que propõe um amplo percurso, ao mesmo tempo temático e cronológico, pelas diferentes relações entre a música e o espaço da pólis ao longo da história. Se a rebelião de Beethoven contra Napoleão constitui, de certo modo, um marco fundador da tensão entre música e engajamento político, ela nem por isso redefine a antiga e ambígua relação entre a melodia e o poder, por meio da qual uma ideologia pode mobilizar multidões. A Europa do século XIX ilustra com especial clareza como a música pode, ao mesmo tempo, construir nações e servir à sua instrumentalização. Giuseppe Verdi é, nesse sentido, um exemplo revelador da capacidade da música de mobilizar multidões ao conferir uma forma musical aos traumas coletivos. Em 1842, compôs a ópera Nabucco , que retrata a destruição do Primeiro Templo de Jerusalém por Nabucodonosor II e o cativeiro dos sobreviventes na Babilônia. Va, pensiero , o coro nostálgico dos hebreus exilados, conquistou o coração dos milaneses, que nele reconheceram o reflexo do próprio trauma de um povo submetido à ocupação austríaca. Quando o coro canta “Ó minha pátria, tão bela e tão perdida!”, Jerusalém transforma-se em metáfora de toda a Itália. Pouco a pouco, Va, pensiero tornou-se um dos símbolos do Risorgimento. A beleza da música de Verdi deu forma audível a um sofrimento coletivo que ainda não encontrara expressão política. A consciência nacional só surgiria depois. Aqui, a música antecede a política e lhe confere seu corpo afetivo e emocional. Entretanto, a ópera de Verdi não contém, em si mesma, qualquer intenção propriamente política. No fim das contas, o coro não fala apenas dos judeus, nem apenas dos italianos, mas do exílio. Sua vocação é universal e é justamente por isso que se tornou o canto de todos aqueles que perderam sua terra, seu lar ou sua liberdade, continuando a emocionar públicos muito diferentes quase dois séculos após sua estreia. Nesse sentido, a leitura patriótica italiana da ópera impôs-se muito mais ao longo dos anos do que no momento de sua criação. Assim, o contexto político, entendido como uma consciência coletiva inscrita no tempo e no espaço, acaba adotando a obra como o hino emblemático de uma causa. Um rio inquieto Mais fascinante ainda é a melodia capaz de despertar sentimentos distintos ao atravessar fronteiras sem, no entanto, sofrer grandes alterações musicais. A melodia conhecida como Fuggi, fuggi, fuggi da questo cielo , um madrigal italiano atribuído ao compositor Giuseppe Cenci no início do século XVII, embora provavelmente lhe seja anterior, constitui um exemplo marcante. Algumas décadas após seu aparecimento, passou a ser mais conhecida como dança instrumental pelos títulos Ballo di Mantova ou Aria di Mantova , sobretudo na obra do compositor Gasparo Zanetti, em 1645. Ou, simplesmente, como La Mantovana . Seu texto original nada mais era do que uma alegoria das estações, conclamando a primavera a expulsar a rudeza do inverno. Não havia qualquer intenção política em sua origem. Seu destino, porém, seria profundamente político. Como um rio europeu, a melodia atravessou fronteiras sem passaporte, assumindo identidades e funções diferentes entre diversos povos. Na Boêmia, Bedřich Smetana a incorporou à Vltava para celebrar o rio como símbolo da nação tcheca sob o domínio dos Habsburgos, transformando-a em um ato de patriotismo cultural. Na Romênia, por outro lado, ela circulou simplesmente como uma canção popular sob o nome Carul cu boi , sem qualquer conteúdo político específico. Mais tarde, no final do século XIX, o pioneiro judeu Samuel Cohen adaptou essa mesma versão romena ao poema Hatikvah , transformando a melodia no veículo musical da aspiração sionista por uma pátria judaica, antes de ela ser adotada como o hino nacional do Estado de Israel. Ao longo de três séculos, a nostalgia de uma primavera italiana despertou o sentimento nacional tcheco, ajudou a cimentar o sionismo e serviu, por algum tempo, como um interlúdio lúdico para os romenos, antes que a banda alemã de rock progressivo Pell Mell a transformasse, em 1972, na magnífica Moldau , do álbum Marburg . Três identidades nacionais distintas, três memórias coletivas diferentes, três aspirações políticas por vezes contraditórias, sustentadas, contudo, pelo mesmo material melódico. Isso mostra que a música não contém, em si mesma, um significado político fixo. Ela é, antes, uma espécie de recipiente que a história enche e esvazia conforme suas necessidades. Talvez seja exatamente aí que resida sua força: nessa extraordinária disponibilidade para carregar tudo… e, justamente por isso, tornar-se tão cobiçada por todas as formas de poder. Wagner contra Shostakovich É talvez com Richard Wagner que essa «disponibilidade» atinge seu limite mais perigoso, talvez mesmo catastrófico. A obra de Wagner é monumental, ambígua, atravessada simultaneamente pela grandeza e pelo perigo. Épica. Desmedida. Nas mãos de um louco capaz de hipnotizar multidões, movido por delírios supremacistas e por um prazer exterminador, ela se transforma em um perigoso alucinógeno. Woody Allen resumiu perfeitamente esse potencial letal em uma de suas conhecidas tiradas irônicas, quando faz um personagem de Manhattan Murder Mystery (1993) dizer: “Quando ouço muito Wagner, sinto vontade de invadir a Polônia.” Mas é Coppola quem melhor capta o impulso patológico do wagnerismo em Apocalypse Now (1979), por meio do prazer quase orgiástico do tenente-coronel Kilgore diante da visão das florestas vietnamitas consumidas pelo napalm ao som de A Cavalgada das Valquírias . Poder-se-ia sair em defesa do compositor alemão argumentando que ele jamais poderia imaginar que sua obra se tornaria, para Adolf Hitler, o equivalente ideológico, multiplicado ao infinito, de Helter Skelter , dos Beatles, na qual Charles Manson acreditou ouvir um chamado ao ritual satânico que culminou no assassinato de Sharon Tate, em Los Angeles, em agosto de 1969. Ainda assim, aquilo que os nazistas fizeram de Wagner dificilmente pode ser reduzido a uma simples deturpação acidental. Pode, antes, ser lido como a ativação de uma das potencialidades da própria obra: sua celebração do mito como fundamento da comunidade nacional, sua visão do povo como uma entidade orgânica e quase mística, sua desconfiança em relação às mediações racionais. Seu conservadorismo. Seu supremacismo. Seu antissemitismo. Se as Valquírias ecoavam nas cerimônias do Partido Nazista, isso não se devia apenas a um desvio propagandístico no sentido comum da expressão. Wagner havia compreendido, antes de qualquer outro, que a música podia fazer acreditar naquilo que ainda não existia e forjar uma comunidade pela emoção compartilhada muito antes de ela existir de fato. O nazismo levou esse poder às suas consequências mais catastróficas. Hitler devolveu às Valquírias sua face mítica originária: a de figuras guerreiras sedentas de sangue, muito distante do esplendor heroico com que o romantismo alemão as revestira. No fim das contas, Wagner nos reconduz inevitavelmente ao ato de rebelião de Beethoven contra Napoleão e ao imenso poder que pode repousar nas mãos dos grandes artistas. O que teria feito ao ver sua visão da supremacia alemã materializar-se nos crematórios de Auschwitz e Buchenwald? Teria reagido como o mestre austríaco? Ou também sucumbiria à megalomania de seu tempo? A pergunta merece ser feita. Há, contudo, no extremo oposto do século e também no extremo oposto do espectro político, um Dmitri Shostakovich. Com ele, o movimento se inverte por completo. Compor sua Sétima Sinfonia sob as bombas que caíam sobre Leningrado e fazê-la ser executada na cidade sitiada por músicos quase mortos de fome não significou transformar a forma mais institucional da música ocidental em um ato de resistência existencial? Se Wagner abre, talvez sem o saber, um caminho para o niilismo e a morte, Shostakovich afirma que a vida continua exatamente onde o poder pretende provar que ela já terminou, ocupando o próprio tempo que a guerra procura esvaziar de toda substância. De Versalhes ao Monoprix Entretanto, essa tensão entre a música como instrumento do poder e a música como forma de resistência a esse mesmo poder está longe de se limitar às grandes obras. Ela também se encontra inscrita nas formas mais cotidianas e, muitas vezes, mais invisíveis da vida sonora das sociedades. Os hinos nacionais são tanto tecnologias de pertencimento quanto canções. Produzem unidade afetiva onde os interesses divergem e fazem o corpo ingressar numa comunidade imaginada pelo simples fato de permanecer de pé e cantar em conjunto. É preciso vê-los como dispositivos políticos disfarçados de música ou, mais precisamente, como dispositivos políticos que funcionam justamente porque são vividos como música, e não como ideologia. Não se discute com um hino; pode-se apenas recusar cantá-lo. E essa recusa é imediatamente interpretada como um ato político. Jimi Hendrix compreendeu isso perfeitamente em Woodstock, em 1969, quando dilacerou The Star-Spangled Banner com sua guitarra elétrica. Serge Gainsbourg percebeu o mesmo mecanismo quando, com seu conhecido gosto pela provocação, transformou A Marselhesa em reggae sob o título Aux armes et cætera (1979), provocando, durante um concerto em Estrasburgo no ano seguinte, a revolta de veteranos do Exército decididos a interromper sua apresentação. A música militar obedece, aliás, à mesma lógica dos hinos nacionais, levada à sua expressão mais desnuda. O tambor que marca o passo dos soldados também lhes retira o ritmo individual para fundi-los numa cadência coletiva que elimina toda hesitação, todo medo… e todo julgamento pessoal. Marchar ao som do tambor é, de certo modo, entregar o próprio corpo ao grupo enquanto se espera o momento de oferecê-lo à morte. E, pensando bem, a música ambiente dos espaços comerciais contemporâneos não opera segundo esse mesmo princípio, ainda que em outra escala, regulando o ritmo da circulação, mantendo um estado emocional favorável ao consumo e tornando o espaço acolhedor ao mesmo tempo em que mais facilmente controlável? Dos minuetos de Versalhes ao pop do Monoprix, persiste um mesmo movimento fundamental: envolver os corpos num som capaz de se apoderar deles sem jamais lhes pedir consentimento explícito. Donald Trump vs. Leonard Cohen Mais perto de nós, um episódio que à primeira vista poderia parecer apenas anedótico revela algo essencial sobre a permanência dessa relação. No verão de 2026, Donald Trump voltou a tentar, assim como já fizera durante seu primeiro mandato, apropriar-se de Hallelujah , de Leonard Cohen, para utilizá-la em seus comícios políticos, provocando uma nova e fria reação da família do cantor, falecido na véspera da eleição presidencial de 2016. O que realmente importa nesse episódio não é tanto a indignação, perfeitamente compreensível, da família. A tentativa de Trump de se apropriar de Hallelujah apenas reproduz um mecanismo ancestral por meio do qual o poder busca na música uma legitimidade afetiva que é incapaz de produzir por conta própria. Em 2026, Hallelujah não é, em sentido estrito, uma canção política. Como grande parte da obra de Cohen, trata-se de um salmo meditativo sobre a graça ferida, o desejo e a derrota. Mas é justamente sua beleza e seu reconhecimento universal que fazem dela aquilo que todo poder deseja: uma emoção em estado bruto que neutraliza o julgamento, galvaniza e arrebata. Ao procurar apropriar-se da busca pela graça que percorre a obra de Cohen, Trump tenta revestir-se de um certo prestígio diante de seus eleitores. Na realidade, porém, apenas se torna objeto de ridículo. Mais do que qualquer outro artista, Cohen havia abandonado, desde a segunda metade da década de 1970, qualquer politização de sua obra e qualquer desvio de sua vocação espiritual para o canto. A experiência coheniana é, acima de tudo, uma experiência mística. É preciso, antes de tudo, elevar-se e abrir o coração para penetrar no universo cerimonial do artista canadense. Escusado será dizer o quanto isso é incompatível com o populismo, sobretudo quando ele se encontra impregnado de supremacismo, cinismo e mercantilismo. A prova está aí: apropriar-se de Hallelujah , de um lado, e proferir ameaças de morte contra Bruce Springsteen, de outro, como faz atualmente o presidente dos Estados Unidos, é como aspirar ao Prêmio Nobel da Paz enquanto se trabalha, ao mesmo tempo, pela aniquilação de uma civilização. O choque fundador No fundo, aquilo que o caso Trump, justamente por ocorrer nos próprios Estados Unidos, nos recorda é que, se a música sempre foi um instrumento do poder, ela também permaneceu, ao mesmo tempo, como um dos raros espaços a partir dos quais esse mesmo poder podia ser contestado desde o interior de suas próprias formas. E é precisamente porque o som circula de maneira diferente da linguagem, porque pode ser ouvido sem necessariamente ser compreendido, porque atravessa fronteiras que a escrita não consegue cruzar e porque age sobre o corpo antes de alcançar a consciência, que ele foi capaz de transmitir formas de resistência que a censura jamais conseguiu apreender por completo. A canção de protesto, em seu sentido moderno, cuja história esta série procura reconstruir, não nasceu nos salões europeus, na fumaça dos cabarés, nem nos campos brancos da América do Norte. Tampouco descende em linha direta dos trovadores medievais ou das baladas elisabetanas. Ela nasceu, ao contrário, de um choque histórico de uma violência sem equivalente na modernidade ocidental: o desenraizamento das tradições musicais africanas de seu próprio mundo, sua travessia pela morte e pela humilhação do tráfico de escravos e sua projeção numa sociedade que as reconhecia apenas como ruído, força de trabalho ou ameaça. Esse choque produziu algo que nada, na paisagem sonora da América branca do século XVIII, permitia antecipar. Uma refundação. A música moderna, em sua capacidade de dizer aquilo que a linguagem comum não consegue dizer, de resistir onde a palavra direta se torna impossível e de constituir um corpo coletivo na dissidência, nasceu dessa violência. Para compreender como tudo isso aconteceu, é preciso deter-se naquilo que se passou nas plantações, nas igrejas negras e nas encruzilhadas poeirentas do Delta do Mississippi, bem como no suposto pacto que um guitarrista considerado como “medíocre” teria firmado com um célebre sombrio desconhecido numa noite imaginária, à beira de uma estrada perdida… Nada, na paisagem sonora anterior ao nascimento da América negra, preparava o mundo para aquilo que estava prestes a surgir com a escravidão.

O conflito de todas as incoerências
Por
Michel Touma
Publicado

O longo e interminável conflito gerado pelas eternas provocações do regime dos mulás iranianos ficará provavelmente na História como o conflito das logorreias verbais a que se entregam os protagonistas para criar uma espessa cortina de fumo que dissimula mal os seus fracassos internos e, sobretudo, uma desconcertante incoerência generalizada. Esta traduz-se quase diariamente em factos totalmente desfasados dos discursos belicosos e profundamente irracionais proferidos de ambos os lados. Os dirigentes iranianos, a título de exemplo, optaram por enveredar pelo caminho da conclusão de um acordo duradouro, de carácter estratégico, com os Estados Unidos. Mas, ao mesmo tempo, continuam a qualificar os EUA de «inimigo», de «Grande Satanás» a abater, de quem é preciso vingar-se «inevitavelmente», mais cedo ou mais tarde, quaisquer que sejam as circunstâncias, como o afirmou, no sábado à tarde, um comunicado atribuído ao novo Guia Supremo, o inapreensível e misterioso Mojtaba Khamenei, do qual ainda não se sabe ao certo se está vivo, e, em caso afirmativo, se está realmente na posse de todas as suas faculdades mentais, ou se, pelo contrário, a sua presença virtual é mantida nos espíritos pelos novos senhores de Teerão, de forma a atribuir-lhe decisões e posições de acordo com os acontecimentos e a evolução da relação de forças no seio do que resta da República Islâmica. Para completar o quadro, importa recordar que os altos responsáveis iranianos assinaram, certamente, com Washington um roteiro que prevê negociações ao longo de 60 dias, mas não perdem qualquer oportunidade para sublinhar que não têm qualquer confiança nos Estados Unidos e que só aceitarão dar início às negociações se a Administração americana «mudar de atitude», «cessar as suas ameaças» e «respeitar os termos do memorando de entendimento»! Esta recusa das negociações não impediu, contudo, a retoma do diálogo direto bilateral — pouco importa a contradição… — por ocasião de uma reunião de «especialistas» americanos e iranianos, prevista para este domingo, 12 de julho, no Paquistão. A atitude belicosa, frequentemente até insultuosa, que os pólos da República Islâmica não cessam de exibir em relação aos Estados Unidos, apesar do clima sereno que deveria normalmente rodear qualquer negociação de paz, foi levada ao extremo a meio da semana, quando o representante permanente do Irão nas Nações Unidas «aconselhou» o embaixador americano, em plena reunião do Conselho de Segurança, a ser «educado» (!), acrescentando que «isso seria preferível para ele e para o seu país»! A incoerência americana Porém, a incoerência não se limita apenas à parte iraniana. O presidente Donald Trump afirmou, a meio da semana passada, que as negociações com os dirigentes iranianos, a quem chamou «doentes», «não servem para nada e representam uma perda de tempo», salientando ainda que o memorando de entendimento com o Irão está «caduco». Apesar de tudo, deu o seu aval à retoma das conversações (!), afirmando que os iranianos tinham pedido expressamente a reabertura das negociações, precisando que aceitara o pedido iraniano, ao mesmo tempo que indicava à República Islâmica que o cessar-fogo pertence agora ao passado… Os líderes iranianos não tardaram a reagir, afirmando no sábado que nunca solicitaram a retomada das negociações e que as informações a esse respeito são «alegações» veiculadas por «meios de comunicação próximos de Israel». Acrescentaram ainda que o Irão recusa retomar o diálogo com os negociadores americanos enquanto a Administração Trump não «recuar nas suas posições» (hostis) e enquanto não for criado o comité americano-libanês-iraniano encarregado de resolver o problema do Líbano-Sul, em conformidade com o acordo celebrado com o vice-presidente americano JD Vance, no âmbito do memorando de entendimento — o que indica que o Irão retoma a ofensiva quanto à sua vontade de recuperar o controlo da carta libanesa, ignorando a política seguida pelo poder libanês a esse respeito. A incoerência na postura dos protagonistas manifestou-se igualmente no sábado no dossiê do estreito de Ormuz. A Administração Trump exigiu, sob a forma de ultimato, que Teerão tornasse público um documento oficial reconhecendo que os ataques iranianos, no início da semana, contra três navios no estreito de Ormuz constituíram um erro. Washington exigiu, sobretudo, que a República Islâmica se comprometesse publicamente e por escrito a não perpetrar mais agressões contra os petroleiros que transitam por essa via marítima. O poder iraniano desviou o ultimato americano afirmando que os ataques desta semana contra os três navios foram «um erro técnico», quando as agressões se prolongaram por vinte e quatro horas. O cúmulo do absurdo: esta explicação «técnica», que exclui portanto qualquer ato político deliberado, foi ingenuamente considerada aceitável por alguns responsáveis americanos. Quanto ao comunicado relativo ao compromisso de cessar os ataques contra os navios, o Irão contornou a situação enviando, no sábado, o seu ministro dos Negócios Estrangeiros a Omã, com o objetivo de convencer o sultanato a publicar um comunicado conjunto sublinhando a necessidade de garantir a livre circulação no estreito de Ormuz, o que permitiria à República Islâmica evitar dar a impressão de ter cedido às exigências americanas nesta matéria. Resta saber se a Administração Trump aceitará, também aqui, entrar no jogo iraniano… Reunião militar líbano-EUA No plano do dossiê libanês, uma delegação militar americana deslocou-se este sábado a Yarzé, onde realizou uma reunião com o comandante e os oficiais superiores, com o objetivo de definir os pormenores da implementação das zonas-piloto que deverão ficar a cargo do exército libanês, em conformidade com o acordo-quadro assinado pelo Líbano e por Israel. O arranque do processo previsto neste âmbito deverá concretizar-se nos próximos dias. Assim, o poder libanês anunciou oficialmente no sábado à noite que o Líbano participará na nova ronda de negociações diretas com Israel, que terá lugar desta vez em Roma nos dias 15 e 16 de julho, sob supervisão americana. O Líbano havia colocado como condição para marcar presença nesta reunião que a operação de implementação das zonas-tampão — prevendo assim o início de uma retirada israelita — fosse efetivamente lançada na prática, o que parecia ser um facto consumado no sábado à noite…