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Ficamos mais burros?

Ou estamos vivendo uma transformação na estrutura do conhecimento?
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Por Mona Fayad
Publicado em set 5, 2026 - 20:01
A pergunta «O mundo ficou mais burro?» reaparece com frequência nos debates contemporâneos sobre mídia digital, mecanismos de busca e redes sociais. À primeira vista, parece uma pergunta simples, mas esconde uma questão muito mais profunda, ligada à própria natureza do conhecimento: como ele é produzido, como é transmitido e como é consumido. Talvez a pergunta «Ficamos mais burros?» não seja a mais precisa. Talvez devêssemos perguntar: o conhecimento ainda é transmitido de uma maneira que permita compreendê-lo e torná-lo produtivo? A maioria dos leitores ainda recorre aos textos originais? Ou se limita aos seus resumos e ao que é dito a respeito deles por meio daquilo que circula entre os leitores? Uma das chaves para compreender esse fenômeno encontra-se nos trabalhos do psicólogo britânico Frederic Bartlett, que realizou, na década de 1930, uma série de experiências sobre aquilo que chamou de «reprodução serial». Nessas experiências, uma pessoa ouvia uma história e depois precisava contá-la a outra, que por sua vez a contava a uma terceira, e assim por diante. Os resultados foram impressionantes: a cada nova transmissão, a história não era reproduzida exatamente como havia sido contada, mas reformulada. Alguns detalhes desapareciam, outros eram ampliados e outros ainda eram substituídos por elementos mais compatíveis com o contexto, as experiências e a cultura do receptor. Depois de passar por um número suficiente de intermediários, a história original já havia se transformado em algo inteiramente diferente. Esse modelo simples revela uma verdade fundamental: a memória não é um recipiente neutro, mas um mecanismo de reconstrução. E, quando o conhecimento passa por múltiplos intermediários, ele não é «preservado», mas «reproduzido». É aqui que começam a aparecer as semelhanças com o nosso mundo contemporâneo e o receio de que estejamos ficando mais burros. Na era da mídia digital, o conhecimento já não circula por meio da transmissão oral, mas através de cadeias de mediação: um artigo é resumido, depois citado, em seguida republicado sob a forma de uma postagem curta e, por fim, reduzido mais uma vez a uma frase ou a um título. Nesse contexto, podemos retomar uma imagem metafórica usada em um texto jornalístico: uma biblioteca cujos livros são substituídos por resumos, e depois por resumos dos resumos, até que o leitor se veja diante de sucessivas camadas de redução. Algo semelhante ao que poderíamos chamar de «cadeia do guaxinim», que não lê o original, mas remexe em seus restos. Vale esclarecer que a escolha do «guaxinim» não é aleatória. Essa metáfora condensa simbolicamente uma condição cognitiva que vem se consolidando. Esse animal, que vive nas margens das cidades e remexe em latas de lixo, não produz seu alimento, mas se nutre dos restos daquilo que outros produziram. Apesar de sua inteligência prática e de sua capacidade de desmontar, recolher e aproveitar objetos, ele não compreende verdadeiramente aquilo que tem diante de si, mas lida com as coisas como materiais disponíveis para uso imediato. É assim que o conhecimento passa a se apresentar na era da redução serial: textos são resumidos e depois novamente resumidos, até que deles reste apenas um punhado de fragmentos de sentido, reorganizados e postos novamente em circulação sem qualquer vínculo verdadeiro com sua fonte. Nesse ponto, não apenas nos afastamos do original, mas entramos em uma nova etapa da produção da informação ou do conhecimento, na qual o agente cognitivo deixa de ser um leitor ou pensador para se tornar um coletor de restos de significado, que os redistribui em formatos destinados ao consumo rápido. A «cultura do guaxinim», portanto, não é apenas uma descrição da superficialidade. É também uma caracterização precisa da degradação da própria cadeia do conhecimento: da criação ao resumo, da compreensão ao processamento formal, das ideias a algo que já não passa de um vestígio apagado delas. Mas esse fenômeno não pode ser compreendido separadamente da estrutura tecnológica que o governa. É aqui que entra Marshall McLuhan, que sintetizou seu pensamento na célebre frase: «O meio é a mensagem». O problema não está apenas no conteúdo, mas também na forma através da qual esse conteúdo é transmitido. A mídia digital contemporânea não se limita a transportar informações, mas as remodela segundo a lógica da velocidade, da condensação e da fragmentação. O texto longo torna-se inadequado para o consumo, enquanto uma ideia só parece aceitável se puder ser reduzida a poucas linhas facilmente compartilháveis. Essa transformação produz um paradoxo marcante: vivemos numa época em que o acesso ao conhecimento deixou de ser difícil e se tornou excessivamente fácil. E, com essa facilidade excessiva, surge aquilo que poderíamos chamar de «ilusão cognitiva»: basta ler um pequeno trecho ou um resumo rápido para que a pessoa tenha a sensação de ter assimilado uma ideia. Mas essa sensação de domínio não é necessariamente acompanhada por uma compreensão profunda nem pela capacidade de reconstruir ou criticar o conhecimento. É aqui que aparecem os que poderíamos chamar de «semiletrados»: indivíduos que possuem os sinais do conhecimento, mas não sua estrutura; seu vocabulário, mas não sua lógica interna. O problema se torna ainda mais complexo quando o observamos sob o ângulo da atenção. Em vez de permanecer em um estado prolongado de concentração, como acontece na leitura tradicional ou na reflexão demorada, a mente passou a viver sob um bombardeio contínuo de informações: notificações, vídeos, manchetes e ondas sucessivas de conteúdo. Essa situação não apenas dispersa a atenção, mas a reconfigura segundo uma lógica de saltos constantes entre pequenas unidades de significado, em vez de permitir a construção gradual e cumulativa de uma ideia. Lembro aqui de uma anedota que costumávamos contar e que circulava muito na época das manifestações populares. Ela ilustra bem a ideia da redução e da transformação do conteúdo. Depois da ocupação da Palestina, muitas manifestações populares tomaram as ruas gritando «Abaixo a Declaração Balfour!». A brincadeira dizia que, no fim da manifestação, o slogan havia se transformado, em árabe, em «Que alguém caia lá de cima!», uma frase inteiramente diferente que preservava algo do ritmo e da sonoridade da original. Talvez essa imagem nos ajude a compreender melhor o que acontece na linguagem cotidiana quando o conhecimento se transforma em mensagens curtas repetidas coletivamente. A manifestação começa com uma fórmula política precisa. Mas, com a repetição, a imersão coletiva e o ritmo sonoro, ela vai se transformando pouco a pouco em outra fórmula, completamente diferente. Esta pode conservar o ritmo e a carga emocional da primeira, mas perde seu significado e seu sentido original. O que permanece não é o sentido, mas a energia emocional da frase. Aqui se manifesta, de outra maneira, aquilo que Bartlett havia observado: não importa apenas o que foi dito, mas como aquilo foi repetido e como voltou a ser compreendido dentro de um contexto social em transformação. Se reunirmos todos esses fios, podemos dizer que aquilo que vivemos hoje não é propriamente um «colapso da inteligência», mas uma transformação das condições em que ela opera. A mente humana não mudou radicalmente, mas o ambiente em que funciona se transformou profundamente: passamos de um ambiente que permitia a acumulação lenta para outro que impõe a reprodução rápida e fragmentada do conhecimento. Essa mudança cria uma tensão permanente entre duas formas de pensamento: um pensamento reflexivo, que precisa de tempo, e um pensamento rápido, que exige resposta imediata. Sob essa perspectiva, a pergunta «Ficamos mais burros?» torna-se parcialmente enganosa. Talvez seja mais preciso dizer que estamos cada vez mais expostos a condições que tornam o pensamento profundo menos estável, ou menos possível, e o conhecimento mais vulnerável à fragmentação e à reciclagem. Quanto à burrice, se podemos usar o termo, talvez ela não seja uma propriedade da mente, mas um efeito colateral e uma característica da estrutura cultural que se formou. Trata-se de uma tecnologia que está remodelando nossa relação com o mundo. Assim, em vez de enxergar esse fenômeno como um declínio das capacidades humanas, podemos compreendê-lo como uma transformação do «ambiente do conhecimento»: um ambiente em que se tornou fácil saber alguma coisa, mas mais difícil compreendê-la de fato e em profundidade.
Opinião
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Por Youssef Mouawad - Publicado em set 5, 2026 - 13:25
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Em 2010, Israel interceptou com violência o Mavi Marmara, um navio turco fretado por uma ONG humanitária para socorrer a Faixa de Gaza, então sob bloqueio israelita. Esse incidente, a gota de água, fará vir à tona a animosidade entre o governo de Erdogan e o Estado hebraico. (AFP)
A guerra ainda não parou no nosso sul e já corre o risco de eclodir junto aos nossos vizinhos. Ou seja, vivemos a prazo, de conflito em conflito. E com razão! Por pouco o bombardeamento de uma base síria não descambou numa batalha campal entre Ancara e Telavive. Foi a 18 de agosto passado, e Benjamin Netanyahu não foi com meias palavras: o seu país não iria tolerar uma implantação militar turca suscetível de avançar para o sul da Síria. A mensagem foi tanto mais brutal quanto oito ataques tinham visado a base aérea de Abu al-Duhur, situada a 70 quilómetros da fronteira turca. Recorde-se, aliás, que desde a queda de Bashar al-Assad em dezembro de 2024, Erdogan é o principal mentor da nova Síria, a de Ahmed al-Charaa, ajudando-a a reconstruir as suas forças armadas e transformando-a num parceiro estratégico. Já não é a Síria de Hafez al-Assad Terá sido este novo pico de tensão entre Ancara e Telavive que precipitou a reunião entre o chefe da diplomacia síria, Assaad Chaïbani, e o diretor do Mossad, Roman Gofman, a 23 de agosto passado, na Jordânia? Ora, esse encontro discreto não provocou uma onda de indignação no mundo árabe, como aconteceu com a visita imprevista de Anwar al-Sadat a Israel em 1977. Um tabu foi oficialmente quebrado e, de facto, quem poderia ter acreditado que tal concertação seria possível sob o regime baathista? O Estado hebraico deveria ter-se congratulado, mas, ao contrário do que se esperava, não interrompeu nem os seus ataques aéreos nem as suas incursões territoriais, como a de 27 de agosto em Quneitra. É que as coisas mudaram. Sob Hafez al-Assad, a Síria era uma potência regional que, sem ser temível, era temida pelos seus vizinhos imediatos, fossem eles países árabes ou não. Evitava-se procurar confronto com ela e, por isso, o país conduzia, dentro de certos limites, uma política externa agressiva que resvalava muitas vezes para a provocação. E assim, em virtude da autonomia da sua ação e da margem de manobra que se concedia, tinha constituído, nem que fosse apenas geograficamente, uma zona-tampão entre, por um lado, uma Turquia "erdoganesca", que exibia o seu islamismo assumido, e, por outro, um Israel, o Estado consubstancialmente judeu. Ora, eis que, num país esgotado por uma gestão baathista e devastado por anos de guerra civil, a Turquia, ao começar a marcar posições, vai inevitavelmente encontrar-se frente a frente com um Israel que ocupa uma parte do território sírio. O que esperar? Tendo em conta o ego desmedido tanto de Netanyahu como de Erdogan, e no caso de estes dois chefes de Estado permanecerem nos seus respetivos cargos, devemos esperar um duelo épico em território sírio, libanês, jordano, ou até noutros locais. Este combate será feito de fintas, de esquivas, de golpes baixos, mas também de ataques frontais, de corpo a corpo e de escaladas de tensão até ao ponto de rutura. E isto mesmo que o relatório doCongressional Research Servicede setembro de 2025 considere pouco provável um confronto direto entre a Turquia e Israel, precisamente porque ambos os Estados conhecem o custo de uma guerra, caso esta viesse a eclodir. No entanto, no domínio da polemologia, os dirigentes e outras elites não são necessariamente atores racionais! Tanto mais que, aos olhos dos observadores israelitas, o slogan que impera na Anatólia, a saber, «Make Turkey great again», não é de molde a tranquilizar o Estado sionista. Washington terá cada vez mais dificuldade em conter ou separar os dois adversários que já se posicionam em ordem de batalha. A Turquia, um novo Irão? Sim, é uma hipótese, mas apenas num confronto direto com Israel, tendo a Síria se tornado da noite para o dia uma zona onde «se sobrepõem dois perímetros de segurança», o turco e o israelita, o muçulmano e o judeu. E não se pode excluir que o militantismo xiita, esse mobilizador de «proxies», acabe por se aliar, ainda que momentaneamente, a uma «versão irmãos-muçulmana» do islamismo político defendido por Ancara! Teríamos assim, contra todas as expectativas, um Hezbollah apoiado pelo seu inimigo de ontem, Ahmed al-Charaa, um islamista vindo da Jabhat al-Nusra e da Hayat Tahrir al-Cham! Contra o adversário comum, uma inversão de alianças é sempre legítima e oportuna. Mas isso não passaria de uma aliança tática, ditada pelas necessidades do momento, sem qualquer garantia quanto ao futuro. Tendo o nacionalismo árabe sido posto de lado, a Turquia não se vai contentar em conquistar economicamente o mercado sírio, com os seus 25 milhões de consumidores: vai querer exercer influência política em Damasco, mobilizando para isso o seu aparelho militar e de segurança. O poder instável do presidente sírio, incapaz de assegurar certas funções soberanas nem de enquadrar os diversos corpos do Estado, terá necessariamente de recorrer à experiência do seu vizinho do norte. Será, no entanto, de acreditar que este último vai ser arrastado pela espiral de uma «beligerância anunciada»? Tudo aponta nesse sentido, e já se podem perceber os primeiros sinais de um envolvimento que lembra o dos Estados Unidos no Vietname sob Lyndon Johnson. Pois, se o Estado sírio pretende reconstituir-se, precisará antes de mais de um exército capaz de conter as tendências centrífugas dos alauitas, dos drusos e de outras facções que apelam à fragmentação do país. Ora, cabe a Ancara garantir isso e reforçar a autoridade central sediada em Damasco. Mas Israel, que adquiriu maus hábitos na Síria e pretende manter aí liberdade de ação aérea, não pode aceitar um exército estruturado segundo o modelo da NATO e que possa servir de proxy a um projeto neo-otomano. E o Líbano, da primazia à secundarização? Está agora montado um novo cenário para um novo guião que definirá novas regras do jogo! O que será feito do Hezbollah, apanhado numa ratoeira? Bem, poderia beneficiar, neste cenário, ainda que apenas em parte, do apoio logístico de Damasco, apoio que lhe fez gravemente falta desde a queda de Bachar al-Assad. E talvez que, com um deslocamento das placas tectónicas, o Líbano passasse do estatuto de palco inicial ao de palco secundário de um conflito regional. Mas, para ser sincero, isso de pouco nos vai valer!
O Essencial do Dia
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Por LevantTime . - Publicado em set 5, 2026 - 00:55
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O comboio do CICV que transportava os civis libertados, partindo da zona ocupada por Israel no sul do Líbano, seguiu até o ponto que marca o início da área controlada pelas autoridades libanesas. (AFP)
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) anunciou nesta sexta-feira que transferiu para o Líbano outras quatro pessoas libertadas por Israel, um dia após a libertação de um primeiro civil. Segundo o CICV, trata-se de três libaneses e dois sírios. É a primeira vez que uma operação desse tipo ocorre desde o início, em abril, das negociações entre o Líbano e Israel, sob mediação dos Estados Unidos. Beirute havia solicitado, durante a última rodada de negociações, em agosto, a libertação de um primeiro grupo de cidadãos libaneses capturados por Israel no sul do Líbano, onde trava uma guerra contra o Hezbollah, aliado do Irã. Familiares estimam que cerca de 30 pessoas estejam detidas, entre elas combatentes do movimento islâmico. O presidente libanês, Joseph Aoun, agradeceu em comunicado aos Estados Unidos e ao CICV e afirmou que essa libertação «confirma o acerto da posição» do Líbano, que participa de negociações com Israel rejeitadas pelo Hezbollah. Os Estados Unidos elogiaram na quinta-feira «o governo de Israel e o governo do Líbano por demonstrarem boa-fé por meio desses primeiros passos», expressando a esperança de que isso sirva «de base para discussões mais amplas sobre outras questões civis». Os dois países devem realizar uma nova rodada de negociações em setembro, em uma data ainda não definida. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira «ocorre após os esforços realizados por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os restos mortais de líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano» entre 1984 e 1986. Israel intensifica seus ataques No terreno, ataques israelenses deixaram três mortos e 23 feridos nesta sexta-feira no sul e no leste do Líbano, segundo um veículo de imprensa estatal. Israel intensificou nesta sexta-feira seus ataques na região, depois de anunciar, na noite de quinta-feira, que havia assumido o controle da crista montanhosa de Ali Taher, que servia como posição estratégica para o Hezbollah, aliado do Irã, e domina, entre outras áreas, a cidade de Nabatiye. O Exército agora reforçará suas posições na região para «impedir que o inimigo volte a se posicionar na área», declarou o ministro da Defesa israelense, Israel Katz. Outro ataque também atingiu a região de Tiro, especialmente a localidade de Rmadiye, segundo a Agência Nacional de Notícias (ANI). Para Trump, a guerra no Irã é «coisa pequena» Sobre a guerra no Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tentou nesta sexta-feira minimizar seu impacto para o país, às vésperas das cruciais eleições legislativas de meio de mandato. «Muita gente não chama isso de guerra. Eu digo que é um conflito militar, porque para nós é coisa pequena (“small potatoes”). Não é nada demais. Fizemos a Venezuela e fizemos isso», respondeu a jornalistas no Salão Oval, ao ser questionado sobre seu vice-presidente, JD Vance, que no dia anterior havia dito não querer descrever o conflito como uma guerra. Enquanto a forte alta dos preços dos combustíveis ligada à guerra ameaça custar aos republicanos de Donald Trump sua maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato de novembro, sua administração tenta minimizar a dimensão do conflito. Segundo o presidente, os Estados Unidos realizam «ataques pontuais» e «não estão atualmente combatendo». Trump também afirmou que os Estados Unidos controlam o estreito de Ormuz e que dizimaram as Forças Armadas iranianas. «O que conseguimos foi extraordinário. Assumimos o controle da Venezuela e, essencialmente, assumimos o controle do Irã», declarou.
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Guerra na Ucrânia: o fracasso dos primeiros esforços de paz 2/5

A guerra na Ucrânia continua a ser o centro de um amplo debate alimentado, entre outros fatores, por bombardeamentos quase diários que visam, de ambos os lados, centros nevrálgicos e, mais especificamente, as capitais russa e ucraniana. Para melhor compreender as diferentes dimensões deste velho conflito, é necessário revisitar os prólogos e a génese do que culminou nesta guerra (fratricida?), expondo as motivações e as aspirações das diferentes partes envolvidas, nomeadamente o Ocidente (Estados Unidos e Europa, alargada a todos os países da NATO, com exceção da Turquia), e recordando também os inícios da ofensiva russa e os fracassos das tentativas de alcançar a paz, ou pelo menos de chegar a negociações, sabendo que as responsabilidades neste contexto são múltiplas. Para compreender bem os meandros dos diversos aspetos da guerra na Ucrânia, algumas questões fundamentais deveriam ser colocadas desde o início. O que representam a Rússia e a Ucrânia para o Ocidente? Quais poderiam ser as consequências concretas de uma eventual vitória clara de um dos dois protagonistas? E, consequentemente, quais seriam as repercussões para o Ocidente e para o Médio Oriente? Numa série de cinco artigos, o nosso colaborador Jean-Patrick Dayras, contra-almirante da marinha francesa, expõe a sua visão e análise da questão. Jean-Patrick Dayras, Contra-almirante (2s) No próprio dia da invasão da Ucrânia pela Rússia, a 22 de fevereiro de 2022, muitos franceses e europeus exibiram bandeiras ucranianas (inclusivamente nos Açores!) e ofereceram-se como voluntários para acolher refugiados, ou até para dar aulas e ensiná-los a falar a língua do país de acolhimento. Teria sido interessante pedir a essas pessoas, que assumiam uma posição política clara, que localizassem a Ucrânia no mapa e dissessem o que tinha acontecido nos últimos dez anos (2013–2022) entre a Europa, a Ucrânia e a Rússia. Este tipo de comentário não é bem-vindo em certa parte de França. Adesão à UE Poucos dias após a invasão russa, a Ucrânia apresentou oficialmente um pedido de adesão à União Europeia. A 17 de junho de 2022, a Comissão Europeia recomendou a concessão do estatuto de país candidato à Ucrânia. Por que razão? Com que objetivo? Nunca se saberá ao certo. A 23 de junho de 2022, os chefes de Estado e de Governo dos 27 Estados-membros, reunidos no Conselho Europeu, decidiram por unanimidade conceder à Ucrânia o estatuto oficial de país candidato à União Europeia. A 14 de dezembro de 2023, o Conselho Europeu decidiu abrir as negociações de adesão, e a 25 de junho de 2024 as negociações foram oficialmente lançadas. Que funcionário ou trabalhador de uma grande empresa não teria desejado obter uma promoção com uma mudança de estatuto tão vantajosa e tão rápida? Já não seria a escada social, nem sequer o elevador social, mas sim um foguetão social interplanetário! Comparemos com os outros países candidatos que ainda não são membros da União Europeia. Abertura dos processos de negociação: Turquia, 1999; Macedónia, 2005; Montenegro, 2010; Sérvia, 2012; Albânia, 2014; Moldávia, 2022; Bósnia-Herzegovina, 2022; Geórgia, 2023. O Kosovo apresentou um pedido de adesão em 2022, mas ainda não obteve o estatuto oficial de candidato. Por que tamanha pressa? Não seria possível apoiar a Ucrânia sem lhe estender um tapete vermelho tão prometedor — demasiado prometedor, até? O mínimo que se pode dizer é que os países candidatos não são tratados da mesma forma. A Ucrânia é um país que foi muito corrupto e continua a sê-lo. O Índice de Perceção da Corrupção (IPC) da «Transparency International» coloca a Ucrânia no 142.º lugar mundial em 2014 e no 116.º lugar em 2022 (para a Rússia, os índices são semelhantes). Na imprensa ocidental, a Rússia é apresentada como um Estado corrupto. A corrupção da Ucrânia é passada em silêncio. O projeto de paz sob os auspícios da Turquia Na primavera de 2022, a paz não estava longe. A porta estava entreaberta desde o início da guerra. A Turquia desempenhou um papel diplomático importante, ainda que não tenha conseguido obter um acordo de paz duradouro. A Turquia ocupava uma posição singular: membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte, mantinha boas relações com a Ucrânia (venda de drones e cooperação militar) e conservava laços estreitos com a Rússia nos planos geopolítico (Síria) e econômico. A Turquia foi um dos poucos países capazes de dialogar simultaneamente com Moscou e Kiev. Organizou as principais negociações de paz de março de 2022 e facilitou o acordo sobre as exportações de cereais. As negociações de março de 2022 A Turquia acolheu um encontro entre os ministros das Relações Exteriores russo e ucraniano em Antália, a 10 de março de 2022, bem como negociações mais amplas entre as delegações russa e ucraniana em Istambul, a 29 de março de 2022, que previam: Um estatuto de neutralidade para a Ucrânia (renúncia à adesão à OTAN). Garantias de segurança concedidas por vários países em troca dessa neutralidade. A retirada das forças russas de determinadas zonas. O adiamento das discussões sobre o estatuto da Crimeia. Trabalhos de historiadores e investigadores mostram que existia um projeto de acordo, mas que muitas questões essenciais permaneciam por resolver, nomeadamente o estatuto dos territórios ocupados, as garantias de segurança, o calendário das retiradas militares e o tamanho futuro do exército ucraniano. Os sucessos militares ucranianos nos arredores de Kiev levaram os dirigentes ucranianos a acreditar que uma posição mais favorável poderia ser alcançada no terreno. Por seu lado, a Rússia mantinha exigências que a Ucrânia considerava inaceitáveis. O papel de Boris Johnson Boris Johnson teria dissuadido a Ucrânia de fechar um acordo. Esta afirmação é controversa. No entanto, foi divulgada de forma clara por diversos jornais e por comentadores experientes e credíveis. Boris Johnson nunca a desmentiu. O seu papel no fracasso das negociações de paz entre a Ucrânia e a Rússia, conduzidas sob mediação turca na primavera de 2022, é um dos temas mais debatidos da guerra. A 9 de abril de 2022, Boris Johnson deslocou-se a Kiev. Segundo fontes anónimas citadas pelo meio de comunicação ucraniano Ukrainska Pravda, terá transmitido duas mensagens principais: que Vladimir Putin não devia ser considerado um parceiro de negociação fiável; e que as potências ocidentais não estavam dispostas a garantir um acordo celebrado com a Rússia nos termos então previstos. Esta versão está na origem da afirmação de que Johnson teria sabotado o acordo em vista. Ele expressava publicamente o seu ceticismo quanto à possibilidade de negociar com Putin e defendia a continuação do apoio militar ocidental à Ucrânia. Não existe nenhuma prova que estabeleça que um acordo de paz definitivo estava pronto para ser assinado e que teria sido cancelado unicamente devido à sua intervenção. Ainda assim, a posição do Sr. Zelensky mudou radicalmente. Os trunfos dos dois países O que podem estes dois países oferecer à Europa? A Ucrânia possui algumas das terras agrícolas mais produtivas do mundo: trigo, milho, cevada, girassol e colza. Conta também com importantes recursos minerais, alguns deles indispensáveis para o desenvolvimento das tecnologias modernas: ferro, manganês, titânio, urânio, grafite e lítio. Possui ainda uma indústria de alto desempenho nos setores de siderurgia, metalurgia, construção ferroviária, aeronáutica, espacial e naval. Além disso, dispõe de uma notável capacidade de produção de energia elétrica de origem nuclear, de gás natural e de uma extensa rede de gasodutos que ligam a Rússia à Europa. Por fim, a Ucrânia é um território estratégico que conecta a Europa à Rússia, banhado pelo Mar Negro, essencial para as exportações de cereais e para os interesses militares da região. Quanto à Rússia, ela dispõe de enormes riquezas em recursos naturais (petróleo e gás natural) e minerais (carvão, níquel, paládio, platina, ouro, diamantes, cobre e alumínio). Além de possuir a maior área florestal do mundo, beneficia-se de uma agricultura que lhe confere uma vantagem significativa nas exportações: trigo, cevada e óleos vegetais. Próximo artigo Guerra na Ucrânia: erros estratégicos russos e desajeitamento ocidental (3/5) Leia também sobre o mesmo tema Como o Ocidente escolheu a Ucrânia (1/5)

Conflito iraniano: a escalada verbal se soma às operações militares

A situação no Irã continua se agravando em todas as frentes. A escalada ocorre tanto no campo político e midiático quanto no plano militar. As Forças Armadas dos Estados Unidos seguem atacando centros estratégicos e rotas de comunicação da Guarda Revolucionária, que responde bombardeando, como de costume, não Israel, mas os países árabes, principalmente os Estados do Golfo. Nos últimos dias, os ataques da Guarda Revolucionária atingiram também a Jordânia, onde dois soldados americanos morreram, quatro ficaram feridos e um sétimo continua desaparecido enquanto participava de operações de defesa aérea destinadas a interceptar mísseis e drones. A Guarda Revolucionária Islâmica afirma que seus ataques contra países árabes têm como alvo bases militares americanas localizadas nesses territórios. No entanto, os fatos contradizem essa justificativa, já que, nos últimos dois dias, os bombardeios iranianos atingiram, entre outros alvos no Kuwait, uma usina de energia e uma unidade de dessalinização da água do mar. Paralelamente, nas últimas 48 horas foi identificada uma ponte aérea dos Estados Unidos transportando da Europa para Israel dezenas de aeronaves de reabastecimento em voo, além de caças F-16 e F-35. Essas aeronaves haviam sido deslocadas para a Europa após a assinatura do memorando de entendimento entre Washington e Teerã, mas agora foram enviadas novamente ao Oriente Médio. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos reforçam o bloqueio naval imposto aos portos iranianos. No sábado, o Comando Central dos Estados Unidos (CENTCOM) informou que cinco navios mercantes que tentavam contornar o bloqueio foram obrigados a retornar. O impacto desse bloqueio tornou-se ainda mais severo por ter sido acompanhado da destruição de importantes vias de transporte terrestre, incluindo sete pontes e linhas ferroviárias, especialmente na região de Bandar Abbas. Nova mensagem atribuída a Khamenei Essa intensificação das operações militares vem sendo acompanhada, desde o fim da semana, por uma forte escalada retórica. Em uma mensagem escrita atribuída — sem possibilidade de verificação independente — ao enigmático líder supremo Mojtaba Khamenei, os Estados Unidos foram ameaçados com "uma lição que jamais esquecerão" caso continuem seus ataques contra o Irã. A mensagem acrescenta ainda que "a assinatura de Donald Trump no memorando de entendimento não tem valor algum". A declaração coincide com as palavras de um alto funcionário iraniano, que afirmou no sábado que "se os ataques americanos continuarem nos próximos dois ou três dias, o Irã passará da fase defensiva para a ofensiva". Ele acrescentou que o país decidiu "suspender todos os compromissos previstos no memorando de entendimento". No plano político, chama atenção o fato de a mensagem atribuída a Khamenei conclamar os dirigentes iranianos a reduzir suas divergências internas e pedir à população que modere as críticas ao governo. Esse duplo apelo ocorre em um momento em que os sinais de divisão entre a ala radical e o chamado setor pragmático do regime tornaram-se cada vez mais evidentes, segundo autoridades americanas e paquistanesas. Aoun em Washington É nesse contexto de crescente tensão regional que o presidente libanês Joseph Aoun iniciou, no sábado, uma visita oficial de vários dias a Washington. No domingo, ele deverá reunir-se com o secretário de Estado, Marco Rubio. Na terça-feira, 21 de julho, será recebido na Casa Branca pelo presidente Donald Trump para discutir os meios de implementar o acordo-quadro assinado com Israel em 26 de junho. Os dois presidentes deverão concentrar suas conversas especialmente na situação do sul do Líbano, onde o Exército israelense continua realizando ataques seletivos e operações de destruição da infraestrutura do Hezbollah.

As “zonas-piloto”: sabotagem geopolítica no sul do Líbano

O acordo-quadro trilateral, negociado sob a mediação dos Estados Unidos e assinado em Washington, introduziu um mecanismo ambicioso para desmilitarizar o sul do Líbano: a criação de “zonas-piloto”. A fase inicial desse projeto abrange seis vilarejos estratégicos distribuídos em ambos os lados do rio Litani: Zawtar al-Gharbiyah, ao norte do rio, e Froun, Ghandouriyeh, Qalaouiyeh e Burj Qalaouiyeh, ao sul. Segundo essa estrutura, cabe ao Exército Libanês se desdobrar na região, estabelecer controle total e garantir que essas áreas estejam completamente livres de armas de milícias. Em contrapartida, as Forças de Ocupação israelenses devem realizar uma retirada gradual. No entanto, essa experiência de segurança local revela uma ambição geopolítica desmedida, embora represente um fio de esperança. O projeto sofre uma sabotagem estrutural, preso entre a resistência interna do Hezbollah, a intransigência de Israel e a estratégia regional do Irã. O veto estrutural e a resistência interna do Hezbollah O obstáculo nacional mais imediato para a implementação das zonas-piloto continua sendo a recusa absoluta do Hezbollah em entregar suas armas. O grupo classificou publicamente o acordo-quadro como um fracasso e advertiu explicitamente que um desarmamento forçado conduzido pelo Estado nesses vilarejos poderia desencadear uma guerra civil devastadora. Deputados libaneses acusaram os negociadores de Beirute de capitularem diante das exigências dos Estados Unidos e de Israel, em detrimento da unidade nacional. Embora o Exército Libanês já tenha começado a reforçar sua presença no terreno, estabelecendo postos de controle e realizando patrulhas em torno de vilarejos não ocupados, como Srifa e Froun, ele atua sob enormes restrições operacionais. Joseph Aoun teve de lidar com as fortes reservas manifestadas pelo movimento Amal e pelo Hezbollah. O Exército não pode desmontar as redes subterrâneas de lançamento de foguetes nem as infraestruturas militares enterradas nos vales do Litani sem provocar um confronto direto e sangrento com o grupo. O Hezbollah afirma que aceitar uma capitulação local de seu arsenal em Ghandouriyeh ou em Zawtar al-Gharbiyah criaria um precedente que comprometeria sua própria identidade como força de resistência. A intransigência israelense e a expansão estratégica Ao mesmo tempo, Israel bloqueia ativamente o plano-piloto por meio de atrasos táticos e exigências agressivas no terreno. As negociações de coordenação militar, que deveriam formalizar os mapas e o cronograma de retirada, foram abruptamente adiadas devido a profundas divergências sobre os limites exatos das áreas envolvidas. A delegação libanesa acusa o Estado de Israel de querer ampliar os limites das zonas-piloto para incluir vilarejos que não estão fisicamente ocupados pelo Exército israelense, além de territórios situados ao norte do Litani. Além disso, Israel reafirmou que suas forças não se retirarão de sua nova “zona de segurança”, com profundidade de 10 quilômetros, enquanto o Hezbollah não for completamente desmantelado. O enraizamento dessa “linha amarela”, imposta por Tel Aviv, cria um impasse: Israel se recusa a se retirar enquanto houver armas na região, mas o Exército Libanês não pode entrar com segurança para desmilitarizá-la enquanto as tropas israelenses permanecerem posicionadas ali. Além disso, o Exército israelense conduz uma campanha de terra arrasada, destruindo sistematicamente bairros inteiros e realizando ataques aéreos seletivos. Essa pressão contínua indica que Tel Aviv pretende manter um controle de segurança de longo prazo, em vez de transferir autoridade real ao governo libanês. O bloqueio regional do Irã As zonas-piloto também dependem da evolução das dinâmicas regionais entre Washington e Teerã. O Oriente Médio vive atualmente intensos confrontos militares entre os Estados Unidos e o Irã, marcados por ataques americanos contra infraestruturas iranianas e por fortes tensões marítimas no Estreito de Ormuz. O Irã não considera o sul do Líbano um problema fronteiriço isolado, mas sim uma linha de frente geoestratégica crucial. O Hezbollah ressaltou explicitamente que somente uma intervenção direta de Teerã poderia determinar uma verdadeira cessação das hostilidades ou uma retirada. No cálculo estratégico iraniano, um desarmamento voluntário do Hezbollah nas zonas-piloto enfraqueceria seu principal escudo de dissuasão contra Israel justamente no momento em que a pressão americana sobre a República Islâmica atinge seu ponto mais alto. Consequentemente, Teerã orienta ativamente seus aliados em Beirute a retardar a implementação do acordo de Washington, garantindo que o Líbano permaneça ancorado no eixo iraniano. A missão da última chance de Joseph Aoun na Casa Branca É nesse contexto de bloqueio interno e regional que o presidente Joseph Aoun viaja a Washington para uma reunião decisiva com Donald Trump. A visita, a primeira de um líder libanês à Casa Branca em anos, busca salvar o vacilante acordo-quadro e garantir a sobrevivência das zonas-piloto. Os dois líderes chegam à mesa de negociações com agendas radicalmente opostas. Do lado libanês, o presidente Joseph Aoun exige que os Estados Unidos pressionem Israel para interromper os ataques aéreos e realizar retiradas verificáveis. Para dar ao Exército Libanês os meios necessários para cumprir sua missão, ele solicita uma ampla assistência americana, inclusive financeira. Também deverá pedir, muito provavelmente, tecnologias avançadas de drones e sensores de fronteira para conter o contrabando de armas na fronteira entre Líbano e Síria. Do lado americano, o presidente Donald Trump exige provas concretas e verificáveis da disposição de Beirute em desarmar o Hezbollah. Seu governo pressiona por uma reestruturação da economia libanesa, desmontando as instituições financeiras informais ligadas ao Hezbollah, com o objetivo final de desvincular definitivamente o Líbano da órbita geoestratégica do Irã. A aposta diplomática de Joseph Aoun enfrenta obstáculos significativos. Analistas destacam que o presidente libanês dispõe de muito poucas ferramentas reais no terreno. Enquanto Washington pressiona por um encontro direto entre Joseph Aoun e o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, Beirute continua rejeitando firmemente qualquer negociação trilateral enquanto houver um único centímetro do território libanês ocupado por tropas israelenses. Em última análise, as zonas-piloto de Zawtar al-Gharbiyah e Srifa não podem sobreviver apenas como um arranjo militar técnico. Sem uma desescalada regional abrangente entre os Estados Unidos e o Irã, acompanhada de um acordo político interno executável em Beirute, o desdobramento do Exército Libanês continuará sendo extremamente difícil de concretizar. Presas entre o arsenal do Hezbollah, a expansão defensiva de Israel e a guerra por procuração conduzida pelo Irã, as zonas-piloto enfrentarão uma dura prova.

Teríamos traído o nosso país no passado dia 26 de junho? *

Quando recuamos diante do fogo inimigo, quando o adversário atacou nossas cidades, arrasou tantas localidades e expulsou nossos compatriotas de seus lares, quando provou ser capaz de avançar repetidamente até cercar nossa capital e, sobretudo, quando, esgotados pela guerra, os instigadores do conflito imploraram por um cessar-fogo, é óbvio que à mesa de negociações não se pode fazer exigências e que é preciso ceder em certos princípios, como a soberania nacional e a integridade territorial! A França derrotada foi obrigada a ceder a Alsácia-Lorena ao império do Kaiser em 1871; da mesma forma, a Alemanha foi forçada, com a assinatura do Tratado de Versalhes em 1919, a aceitar, entre outras medidas humilhantes, a desmilitarização da Renânia e a redução de seu exército a cem mil homens! O Hezbollah obteve uma vitória retumbante sobre Israel? Pelo que sei... Não adianta nada pavonear-se para ganhar um fôlego momentâneo, nem sacrificar-se numa batalha de retaguarda para melhorar a posição do Irã nas suas negociações com Washington. Basta que mais de quatro mil libaneses tenham dado a vida para garantir a Teerã uma margem de manobra diplomática. Com efeito, somos obrigados a reconhecer que sofremos uma pesada derrota no campo de batalha, e os libaneses, independentemente do lado a que pertençam, devem admiti-lo e tirar as devidas conclusões. Se nossas tropas tivessem tomado Metula, Nahariyya ou Haifa, se tivessem avançado até ameaçar Dimona, aí sim poderíamos acreditar que teríamos conseguido impor nossas condições a Israel. O que seria absolutamente natural: afinal, se o inimigo quisesse recuperar sua integridade territorial, teria de ceder em certos atributos de sua soberania. Mas não é esse o caso — pelo contrário, é exatamente o inverso! Portanto, reprovar a delegação libanesa por querer libertar o território libanês ao preço do desarmamento do Hezbollah pró-iraniano* é um exagero inadmissível! Exagero que rende frutos… mas tão pernicioso A paixão pode extraviar as mentes mais esclarecidas. Daí as reações de certos 'pesquisadores associados' e observadores políticos — esses histriões da integridade territorial — ao anúncio do acordo-quadro em 26 de junho passado, em Washington! Esses soberanistas de última hora acusam o Estado libanês de capitulação: indignam-se como Caifás na Semana Santa, rasgam as vestes e gritam traição. Mas essa onda de protestos esconde um jogo sujo que não honra em nada os patriotas. Se a dupla xiita e sua nebulosa querem torpedear o acordo trilateral, é para entregar o dossiê libanês aos cuidados de Teerã e incluí-lo numa negociação mais ampla, aquela que os beligerantes do Golfo Pérsico conduziriam em Islamabad ou algures na Suíça. E, para cúmulo do cinismo, os detratores da convenção de 26 de junho alegam não ter outra preocupação senão a soberania nacional e seus princípios intangíveis! Sigamos o exemplo de Abu Ammar Para Hafez al-Assad, já desde os anos setenta, o alvo a abater não era o cristão libanês, rebelde à sua lei, mas o palestiniano. A OLP era o primeiro inimigo a eliminar, muito antes da Frente Libanesa ou das Forças Libanesas. Na grande reconfiguração do espaço do Levante, e caso uma conferência internacional viesse a realizar-se para resolver o conflito israelo-árabe, o tirano de Damasco recusava que o 'trunfo' palestiniano lhe escapasse das mãos. Aos seus olhos, os palestinianos não eram mais do que sírios do Sul, e cabia a ele decidir o seu destino. Mas Yasser Arafat queria permanecer o único senhor a bordo e jogaria de gato e rato com a Síria e o autocrata instalado às margens do Barada. Jogado de um país a outro, da Jordânia ao Líbano, depois à Tunísia, Abu Ammar recusou abdicar das suas prerrogativas. Acabou por assinar em nome do seu povo em Oslo! Não ia deixar um oficial golpista de Qardaha, de legitimidade duvidosa, representar a sua nação de deslocados. Vamos ceder a "carta libanesa"? Nós, libaneses, encontramo-nos na mesma situação. Vamos conceder a carta libanesa ao Irão para reforçar o seu poder à mesa das negociações com Donald Trump? O que é mais soberano: enfrentar o adversário israelense em Washington ou Roma, ou confiar graciosamente essa carta ao império dos mulás, que, segundo alguns, saberia defender melhor os nossos interesses nacionais? Lembremo-nos de que, com a queda do regime dos Assad, pai e filho, o destino nos sorriu e o Líbano conseguiu arrancar sorrateiramente a sua carta, que havia sido confiscada por Damasco. Mas eis que uma milícia às ordens do Irão quer, com a mais declarada impudência, entregar-nos a Teerão e incluir-nos como um item na ordem do dia de negociações conduzidas exclusivamente entre iranianos e americanos! A carta libanesa não está à venda nem pode ser endossada por ordem de um patrocinador do golfo aquemênida. E, para ser completamente franco, a carta libanesa nunca trouxe sorte aos piratas! *Recordemos que o acordo-quadro assinado a 26 de junho passado pelo Líbano, Israel e os Estados Unidos tem como objetivo último libertar o território nacional de toda e qualquer ocupação, seja ela israelense ou iraniana! Seria criticado por proceder por etapas? Aguardemos para ver o que resultará das conversações em Roma, onde se reúnem as delegações.

Salman Rushdie e o fim do fenômeno Trump
Por
Yakzan Takki
Publicado

A coletânea de Salman Rushdie, A Décima Primeira Hora ( The Eleventh Hour ), não é um romance no sentido tradicional do termo, mas um conjunto de cinco narrativas publicado após a tentativa de assassinato da qual o escritor foi vítima em 2022. Trata-se de uma de suas obras mais meditativas, explorando a velhice, a morte, a identidade e a liberdade. A "décima primeira hora" não é apenas uma indicação temporal. É um símbolo. Representa uma civilização que se percebe chegada ao momento de sua última prova: a ascensão dos populismos, o enfraquecimento dos valores democráticos, a violência contra a liberdade de expressão e a crise de identidade que atravessa o mundo globalizado. Assim, a décima primeira hora torna-se a metáfora de um momento civilizacional, muito mais do que de uma simples etapa individual. Dois anos depois de A Faca ( Knife ), em que Rushdie revisitava o atentado do qual foi vítima, este novo livro marca um retorno à ficção por meio de narrativas atravessadas pela passagem inevitável do tempo nesta nova era. A décima primeira hora é aquela que antecede o pôr do sol. Na linguagem cotidiana, também designa o último instante em que ainda é possível agir antes que seja tarde demais. Na primeira das cinco novelas que compõem a coletânea, essa expressão torna-se a metáfora da terceira idade vivida por "Junior" e "Senior", dois vizinhos quase irmãos, inseparáveis, mas incapazes de suportar um ao outro. Ambos têm 81 anos. Se uma vida longa se assemelha a um crepúsculo destinado a desaparecer à meia-noite, eles já entraram em sua décima primeira hora. Junior diz ao vizinho: "Você está com uma aparência horrível, como todas as manhãs. Parece um homem que já não espera nada além da morte." Senior responde, balançando a cabeça com gravidade, fiel aos rituais imutáveis entre os dois: "Pelo menos tenho uma aparência melhor do que a de um homem que ainda espera pela vida." Ex-dirigente de uma companhia ferroviária, professor de matemática e cantor de hinos védicos dedicados à passagem do tempo, Senior teve uma existência rica e plena. Já Júnior colheu apenas desilusões. Ainda assim, ambos compartilham a mesma amargura, nascida do arrependimento por terem vivido intensamente demais ou de menos. A vida e a morte já não passam de duas varandas vizinhas. A última novela da coletânea, O Velho na Praça , pode ser lida como uma defesa do desacordo dentro das sociedades, dessa controvérsia que faz da liberdade de pensar de forma diferente um valor em si. Parece não restar mais nada em comum entre os indivíduos, exceto a própria disputa, elevada à condição de forma de expressão artística em uma época do "sim", na qual toda discussão se torna suspeita sempre que não obtém unanimidade, por mais absurda que ela seja. Por meio dessa fábula alegórica, Salman Rushdie denuncia a tentação global da simplificação. "Não somos criaturas melodramáticas", escreve ele, antes de concluir a coletânea com uma constatação carregada de amargura: "As palavras nos traem." No entanto, este livro demonstra precisamente o contrário. As palavras não traíram Rushdie, assim como tampouco o humor que habita seus narradores, testemunhas das hesitações de personagens incapazes de se reconciliar com o próprio destino. Assim, na novela Kahani Musicale , um casal se separa após o nascimento da filha. O pai decide ir viver na Lua, não o satélite natural da Terra, mas uma comunidade experimental onde espera finalmente dar sentido à própria existência servindo sopa aos seguidores de um grupo que se parece com uma nova seita, uma confraria de sonhadores excêntricos, enquanto o restante da humanidade continua sua existência de náufragos no planeta Terra. Sejam escritas em uma linguagem barroca ou de grande sobriedade, as novelas de A Décima Primeira Hora misturam constantemente imaginação e melancolia, em um tom que lembra A Cidade da Vitória ( Victory City , 2023), Quixote ( Quichotte , 2020) e A Casa Golden ( The Golden House , 2018). Segundo diversos críticos anglo-saxões, elas surgem como o movimento final de uma vasta composição romanesca, talvez anunciando um último grande romance inspirado ao mesmo tempo em A Montanha Mágica , de Thomas Mann, e O Castelo , de Franz Kafka, esses dois "grandes livros dedicados a estranhos mundos em miniatura", semelhantes ao universo ao qual Rushdie aspira como intelectual engajado e escritor anglo-americano. É justamente isso que faz da literatura a mais interativa das formas de arte. Nada comparável aos mecanismos da inteligência artificial que, segundo Rushdie, já "criaram novas religiões" alimentando-se apenas daquilo que já existe, sem serem capazes de gerar aquilo que ninguém ainda imaginou. Quanto à ausência de senso de humor da IA, acrescenta ele com ironia, trata-se de um de seus grandes defeitos, suficiente para provocar desordem em escala considerável. Em entrevista concedida à revista Le Point , Salman Rushdie reconhece seu sentimento de impotência diante dos rumos do mundo. Ainda assim, encontra consolo nessa aventura da imaginação. Fiel às suas convicções, sabe que a humanidade atravessa um período de grande perigo, que as linhas de fratura que cortam o mundo se aprofundam a cada dia e que somente o texto literário permanece como um possível espaço de reconciliação, nesses "lugares onde não se morre". "As pessoas hoje têm certeza demais de si mesmas e do que acreditam saber", observa. "A literatura, por sua vez, é o reino da dúvida e do questionamento." Essa reflexão encontra eco na atual polarização, justamente quando uma parcela crescente da opinião pública rejeita as ações da administração Trump no campo militar. Mas, segundo Rushdie, isso não resume tudo o que Donald Trump pretende realizar. Ele afirma nas páginas do semanário francês: "Nem sequer tenho certeza de que ele próprio saiba o que está tentando fazer. Se realmente quisesse promover uma mudança de regime no Irã e o retorno da democracia, isso seria algo positivo. Mas ele realmente vê algum interesse nisso? Temos um presidente americano um tanto louco travando uma guerra contra um regime teocrático fascista. Não estou do lado de ninguém, exceto do povo iraniano, cuja opinião ninguém jamais pergunta." Na visão de Rushdie, todos são agora pressionados a escolher um lado entre narrativas concorrentes que procuram mais esmagar do que convencer. "Recuso a catástrofe. O mundo pode mudar de outra maneira. Vejam o que acaba de acontecer na Hungria com Viktor Orbán. Nos Estados Unidos também o vento começa a mudar. Só saberemos realmente o que está acontecendo depois das eleições de meio de mandato de novembro, mas já se percebe uma profunda rejeição à administração Trump. O fim do fenômeno Trump pode provocar a queda de outros dominós. Mas sejamos prudentes: sou um péssimo profeta." Essas declarações adquirem um significado altamente simbólico quando ele descreve o mundo em que vivemos, um mundo onde as fraturas se tornaram tão profundas que parecem estruturar a nossa época. É justamente aí que se pode perceber uma verdadeira proximidade intelectual entre Salman Rushdie e o pensador Edgar Morin, apesar da diferença entre seus campos de atuação, a literatura para um, a filosofia e a sociologia para o outro. Essa proximidade reside em uma mesma filosofia da identidade complexa e na mesma recusa das categorias reducionistas. Morin formulava uma pergunta fundamental: "Podemos ser tudo isso ao mesmo tempo?", afirmando que a identidade é, por natureza, múltipla e composta. Rushdie encarna essa ideia em obras como Os Filhos da Meia-Noite , Os Versos Satânicos e também em sua autobiografia, recusando-se a ser aprisionado em uma única identidade religiosa ou nacional. Seu imaginário dá forma a essa complexidade por meio de personagens que vivem plenamente a pluralidade dos pertencimentos, uma visão compartilhada também por Régis Debray. A décima primeira hora não é a hora do fim. É a hora da última prova. O que está em jogo não é tanto o poder dos Estados, mas sua capacidade de produzir um novo sentido para a ordem internacional. As grandes guerras não redesenham apenas os mapas. Também transformam a linguagem por meio da qual passam a ser pensados o poder, a legitimidade e a identidade. Cada grande conflito produz mais símbolos do que vitórias. O que aparece no campo de batalha como um acontecimento militar transforma-se, no discurso, em um símbolo que reconfigura o imaginário coletivo: o nome de um momento em que um antigo significado desmorona antes que outro se imponha. Entre o ressentimento em relação à geografia, o peso da história e as linhas de fratura que atravessam o mundo, permanece, contudo, um persistente desejo de evasão, quase utópico: o de ir viver na Lua.

Sétima noite de ataques dos EUA contra posições iranianas

O Bahrein, o Kuwait, o Qatar e a Jordânia sofreram na sexta-feira novos ataques iranianos, em represália aos bombardeamentos americanos realizados em território iraniano. Pelo sexto dia consecutivo, os países do Golfo aliados de Washington pagam diretamente o preço desta escalada militar. Os danos causados de ambos os lados a infraestruturas civis evidenciam uma nova intensificação do conflito. No final da noite de sexta-feira, o Comando Central (Centcom) informou que as forças armadas dos EUA lançaram, pela sétima noite consecutiva, uma nova série de ataques contra posições e infraestruturas militares iranianas. Com efeito, os meios de comunicação oficiais da República Islâmica relataram, pouco antes da meia-noite, fortes explosões em vários setores do sul do Irão, nomeadamente em Bandar Abbas. As vias de comunicação têm sido alvos prioritários do exército americano nas últimas 48 horas. Entretanto, Teerão mantém a escalada verbal. Mohsen Rezaí, conselheiro militar do líder supremo iraniano, ameaçou na sexta-feira que o Irão irá entrar numa "fase de ofensiva total" caso os ataques americanos continuem por mais "dois ou três dias". "O Irão não se limitará mais a retaliar, e nenhuma fronteira estará a salvo", declarou também. Restrições na rede elétrica As autoridades iranianas reportaram danos na rede elétrica no sul do país. Também assinalaram bombardeamentos que visaram pontes, um porto, um aeroporto, infraestruturas de telecomunicações e uma estação ferroviária. Num comunicado, o ministério em causa apelou aos habitantes que desligassem os aparelhos de ar condicionado durante as horas de ponta "de modo a contribuir para garantir um fornecimento estável de eletricidade nas províncias do sul, que estão atualmente a enfrentar calor extremo e ataques às instalações de abastecimento elétrico". No Kuwait, uma central elétrica e uma fábrica de dessalinização de água foram atingidas por um ataque iraniano, segundo as autoridades do emirado, que também apelaram aos habitantes "a racionalizarem o seu consumo de eletricidade durante esta fase excecional", numa altura em que as temperaturas chegam aos 48 °C. Ataques iranianos em todas as direções As forças armadas do Kuwait, da Jordânia, do Bahrein e do Qatar, todos aliados próximos dos Estados Unidos, anunciaram ter enfrentado ataques aéreos ao amanhecer de sexta-feira. No Kuwait, o exército registou vários feridos. No Qatar, mediador no conflito, uma criança ficou ferida por estilhaços. Os Guardiães da Revolução afirmaram ter visado a base americana de Al-Udeid, garantindo ter destruído sistemas de radar e aeronaves militares para "punir o agressor". O presidente americano Donald Trump havia ameaçado esta semana atacar pontes e centrais elétricas do Irão caso os seus líderes recusassem voltar à mesa das negociações. Os Guardiães da Revolução, o exército ideológico da República Islâmica, avisaram que os ataques "continuarão até que a calma seja restabelecida na costa sul e no Estreito de Ormuz". Trump «aberto a negociações» Donald Trump "continua sempre aberto à diplomacia ao mesmo tempo", declarou a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt. Segundo ela, os iranianos "fizeram saber ao presidente que ainda querem chegar a um acordo. Estamos a falar com eles, mas, mais uma vez, o presidente não vai deixá-los atacar navios no Estreito sem consequências". No Estreito de Ormuz, pelo qual transitava, antes da guerra, cerca de um quinto das exportações mundiais de petróleo e de gás natural liquefeito, o tráfego marítimo continua a diminuir. Oleoduto iraquiano-sírio Em Washington, a visita do primeiro-ministro iraquiano Ali al-Zaidi começou a dar os seus primeiros frutos. Os Estados Unidos saudaram na sexta-feira um acordo entre o Iraque e a Síria para restaurar o oleoduto que liga os dois países, fechado há décadas, facilitando a longo prazo o transporte de petróleo em plena retomada das hostilidades entre o Irão e Washington. O oleoduto deverá ligar a produção petrolífera iraquiana aos mercados de exportação mediterrânicos e além. Uma verdadeira oportunidade, num momento em que os preços do petróleo bruto dispararam com o encerramento total do Estreito de Ormuz. O preço do barril de petróleo continua a subir, mas mantém-se, a cerca de 87 dólares, longe do pico de 126 dólares atingido no auge do conflito. Os Estados Unidos indicaram que lideram um consórcio internacional para implementar os aspectos técnicos e financeiros deste projeto que, uma vez restaurado, terá "uma capacidade inicial de transporte de 2 milhões de barris de petróleo bruto por dia". Falando na semana passada em Damasco, à margem de uma visita do presidente francês Emmanuel Macron, o presidente da TotalEnergies, Patrick Pouyanné, considerou que a Síria pode tornar-se um "país de trânsito importante para o petróleo proveniente do Iraque em direção ao Mediterrâneo", e oferecer "rotas alternativas" ao Estreito de Ormuz. No Líbano-Sul No que diz respeito à frente libanesa, uma fonte diplomática libanesa, citada pelo canal em língua árabe Al-Hadath, indicou na sexta-feira que o exército israelense deverá iniciar este fim de semana a sua retirada das zonas-piloto que deverão ser assumidas pelo exército libanês, em conformidade com o acordo-quadro assinado pelo Líbano e por Israel a 26 de junho passado. Ao nível das operações militares, as forças israelenses presentes no Sul prosseguiram com a destruição das infraestruturas militares subterrâneas construídas pelo Hezbollah ao longo de décadas. Paralelamente, foram realizados ataques aéreos cirúrgicos pelo exército israelense em mais de um setor da região meridional do país.