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Salman Rushdie e o fim do fenômeno Trump

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Por Yakzan Takki
Publicado jul 18, 2026 - 04:46

A coletânea de Salman Rushdie, A Décima Primeira Hora (The Eleventh Hour), não é um romance no sentido tradicional do termo, mas um conjunto de cinco narrativas publicado após a tentativa de assassinato da qual o escritor foi vítima em 2022. Trata-se de uma de suas obras mais meditativas, explorando a velhice, a morte, a identidade e a liberdade.

A "décima primeira hora" não é apenas uma indicação temporal. É um símbolo. Representa uma civilização que se percebe chegada ao momento de sua última prova: a ascensão dos populismos, o enfraquecimento dos valores democráticos, a violência contra a liberdade de expressão e a crise de identidade que atravessa o mundo globalizado. Assim, a décima primeira hora torna-se a metáfora de um momento civilizacional, muito mais do que de uma simples etapa individual.

Dois anos depois de A Faca (Knife), em que Rushdie revisitava o atentado do qual foi vítima, este novo livro marca um retorno à ficção por meio de narrativas atravessadas pela passagem inevitável do tempo nesta nova era. A décima primeira hora é aquela que antecede o pôr do sol. Na linguagem cotidiana, também designa o último instante em que ainda é possível agir antes que seja tarde demais.

Na primeira das cinco novelas que compõem a coletânea, essa expressão torna-se a metáfora da terceira idade vivida por "Junior" e "Senior", dois vizinhos quase irmãos, inseparáveis, mas incapazes de suportar um ao outro. Ambos têm 81 anos. Se uma vida longa se assemelha a um crepúsculo destinado a desaparecer à meia-noite, eles já entraram em sua décima primeira hora.

Junior diz ao vizinho: "Você está com uma aparência horrível, como todas as manhãs. Parece um homem que já não espera nada além da morte." Senior responde, balançando a cabeça com gravidade, fiel aos rituais imutáveis entre os dois: "Pelo menos tenho uma aparência melhor do que a de um homem que ainda espera pela vida."

Ex-dirigente de uma companhia ferroviária, professor de matemática e cantor de hinos védicos dedicados à passagem do tempo, Senior teve uma existência rica e plena. Já Júnior colheu apenas desilusões. Ainda assim, ambos compartilham a mesma amargura, nascida do arrependimento por terem vivido intensamente demais ou de menos. A vida e a morte já não passam de duas varandas vizinhas.

A última novela da coletânea, O Velho na Praça, pode ser lida como uma defesa do desacordo dentro das sociedades, dessa controvérsia que faz da liberdade de pensar de forma diferente um valor em si. Parece não restar mais nada em comum entre os indivíduos, exceto a própria disputa, elevada à condição de forma de expressão artística em uma época do "sim", na qual toda discussão se torna suspeita sempre que não obtém unanimidade, por mais absurda que ela seja.

Por meio dessa fábula alegórica, Salman Rushdie denuncia a tentação global da simplificação. "Não somos criaturas melodramáticas", escreve ele, antes de concluir a coletânea com uma constatação carregada de amargura: "As palavras nos traem." No entanto, este livro demonstra precisamente o contrário. As palavras não traíram Rushdie, assim como tampouco o humor que habita seus narradores, testemunhas das hesitações de personagens incapazes de se reconciliar com o próprio destino.

Assim, na novela Kahani Musicale, um casal se separa após o nascimento da filha. O pai decide ir viver na Lua, não o satélite natural da Terra, mas uma comunidade experimental onde espera finalmente dar sentido à própria existência servindo sopa aos seguidores de um grupo que se parece com uma nova seita, uma confraria de sonhadores excêntricos, enquanto o restante da humanidade continua sua existência de náufragos no planeta Terra.

Sejam escritas em uma linguagem barroca ou de grande sobriedade, as novelas de A Décima Primeira Hora misturam constantemente imaginação e melancolia, em um tom que lembra A Cidade da Vitória (Victory City, 2023), Quixote (Quichotte, 2020) e A Casa Golden (The Golden House, 2018). Segundo diversos críticos anglo-saxões, elas surgem como o movimento final de uma vasta composição romanesca, talvez anunciando um último grande romance inspirado ao mesmo tempo em A Montanha Mágica, de Thomas Mann, e O Castelo, de Franz Kafka, esses dois "grandes livros dedicados a estranhos mundos em miniatura", semelhantes ao universo ao qual Rushdie aspira como intelectual engajado e escritor anglo-americano.

É justamente isso que faz da literatura a mais interativa das formas de arte. Nada comparável aos mecanismos da inteligência artificial que, segundo Rushdie, já "criaram novas religiões" alimentando-se apenas daquilo que já existe, sem serem capazes de gerar aquilo que ninguém ainda imaginou. Quanto à ausência de senso de humor da IA, acrescenta ele com ironia, trata-se de um de seus grandes defeitos, suficiente para provocar desordem em escala considerável.

Em entrevista concedida à revista Le Point, Salman Rushdie reconhece seu sentimento de impotência diante dos rumos do mundo. Ainda assim, encontra consolo nessa aventura da imaginação. Fiel às suas convicções, sabe que a humanidade atravessa um período de grande perigo, que as linhas de fratura que cortam o mundo se aprofundam a cada dia e que somente o texto literário permanece como um possível espaço de reconciliação, nesses "lugares onde não se morre".

"As pessoas hoje têm certeza demais de si mesmas e do que acreditam saber", observa. "A literatura, por sua vez, é o reino da dúvida e do questionamento."

Essa reflexão encontra eco na atual polarização, justamente quando uma parcela crescente da opinião pública rejeita as ações da administração Trump no campo militar. Mas, segundo Rushdie, isso não resume tudo o que Donald Trump pretende realizar. Ele afirma nas páginas do semanário francês: "Nem sequer tenho certeza de que ele próprio saiba o que está tentando fazer. Se realmente quisesse promover uma mudança de regime no Irã e o retorno da democracia, isso seria algo positivo. Mas ele realmente vê algum interesse nisso? Temos um presidente americano um tanto louco travando uma guerra contra um regime teocrático fascista. Não estou do lado de ninguém, exceto do povo iraniano, cuja opinião ninguém jamais pergunta."

Na visão de Rushdie, todos são agora pressionados a escolher um lado entre narrativas concorrentes que procuram mais esmagar do que convencer. "Recuso a catástrofe. O mundo pode mudar de outra maneira. Vejam o que acaba de acontecer na Hungria com Viktor Orbán. Nos Estados Unidos também o vento começa a mudar. Só saberemos realmente o que está acontecendo depois das eleições de meio de mandato de novembro, mas já se percebe uma profunda rejeição à administração Trump. O fim do fenômeno Trump pode provocar a queda de outros dominós. Mas sejamos prudentes: sou um péssimo profeta."

Essas declarações adquirem um significado altamente simbólico quando ele descreve o mundo em que vivemos, um mundo onde as fraturas se tornaram tão profundas que parecem estruturar a nossa época. É justamente aí que se pode perceber uma verdadeira proximidade intelectual entre Salman Rushdie e o pensador Edgar Morin, apesar da diferença entre seus campos de atuação, a literatura para um, a filosofia e a sociologia para o outro.

Essa proximidade reside em uma mesma filosofia da identidade complexa e na mesma recusa das categorias reducionistas. Morin formulava uma pergunta fundamental: "Podemos ser tudo isso ao mesmo tempo?", afirmando que a identidade é, por natureza, múltipla e composta. Rushdie encarna essa ideia em obras como Os Filhos da Meia-Noite, Os Versos Satânicos e também em sua autobiografia, recusando-se a ser aprisionado em uma única identidade religiosa ou nacional. Seu imaginário dá forma a essa complexidade por meio de personagens que vivem plenamente a pluralidade dos pertencimentos, uma visão compartilhada também por Régis Debray.

A décima primeira hora não é a hora do fim. É a hora da última prova. O que está em jogo não é tanto o poder dos Estados, mas sua capacidade de produzir um novo sentido para a ordem internacional.

As grandes guerras não redesenham apenas os mapas. Também transformam a linguagem por meio da qual passam a ser pensados o poder, a legitimidade e a identidade. Cada grande conflito produz mais símbolos do que vitórias. O que aparece no campo de batalha como um acontecimento militar transforma-se, no discurso, em um símbolo que reconfigura o imaginário coletivo: o nome de um momento em que um antigo significado desmorona antes que outro se imponha.

Entre o ressentimento em relação à geografia, o peso da história e as linhas de fratura que atravessam o mundo, permanece, contudo, um persistente desejo de evasão, quase utópico: o de ir viver na Lua.

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