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Política

Batizado como “país-mensagem”, o Líbano aguarda a comunhão da paz

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Por Ali Khalifé
Publicado dez 1, 2025 - 10:15

O papa Leão XIV escolheu o Líbano — batizado por seu predecessor, São João Paulo II, como “país-mensagem” — para sua primeira viagem apostólica fora da Itália. Sob o lema “Bem-aventurados os que promovem a paz”, a visita atravessa a história marcada pela guerra como um raio de luz.

“Bem-aventurados os que promovem a paz”: quatro palavras que definem o tom. Elas deixam sua marca no desenrolar dos acontecimentos, no curso da própria história e na agenda da visita, repleta de encontros oficiais e ecumênicos, culminando com a missa solene a ser celebrada à beira-mar, em Beirute. Mas cabe perguntar: o Líbano precisa, de fato, de uma comunhão de paz?

O país é uma sociedade complexa, ainda que enriquecida pela diversidade e pela composição multiconfessional. Por isso, seu pacto social — alinhado ao chamado “modelo libanês” e voltado à preservação da unidade nacional — repousa sobre um princípio fundamental: a neutralidade, consagrada no direito internacional. É uma condição essencial para evitar as polarizações que desgastam a sociedade libanesa.

Em sentido positivo, neutralidade não significa isolamento. Ao contrário: exige participação ativa nos assuntos regionais e internacionais, permanecendo, porém, livre de alinhamentos políticos e partidarismos. Permite, por exemplo, adotar políticas econômicas independentes e fortalecer a diplomacia preventiva, separando as comunidades religiosas dos eixos de poder regionais e globais.

O caso do Hezbollah contrasta frontalmente com a estrutura e as particularidades da sociedade libanesa. O grupo monopolizou a “resistência”, moldando-a como uma resistência islâmica vinculada ao Irã e à exportação da revolução da República Islâmica. Empurrou os xiitas libaneses para longe de suas comunidades e de seu próprio país, subordinando-os à influência transfronteiriça da Wilayat al-Faqih. Arrastou tanto xiitas quanto outros libaneses a uma guerra permanente, sem objetivos claros ou horizonte possível. Resistir pela resistência! Armar-se apenas para defender as armas!

Israel se retirou do Líbano em 2000, mas o arsenal do Hezbollah permaneceu como símbolo da subordinação à influência iraniana e à sua agenda regional. O grupo combateu na Síria e no Iêmen e ameaçou a segurança árabe, inclusive na Arábia Saudita, no Kuwait e no Egito. No fim, suas políticas deixaram o Líbano preso a um isolamento mortal.

Depois da libertação, o Hezbollah foi responsável pelo retorno da ocupação; após a reconstrução, pelo retorno da destruição no sul do Líbano, no Vale do Bekaa e também em Beirute e em seus subúrbios ao sul.

No entanto, mudanças significativas ocorreram no tabuleiro geopolítico regional após a operação militar do Hamas, o “Dilúvio de Al-Aqsa”, contra Israel. A resposta de Tel Aviv enfraqueceu o papel dos aliados iranianos e, com a queda do regime de Bashar al-Assad, reduziu o alcance da Wilayat al-Faqih, que havia se estendido até a costa síria. O Hezbollah sofreu uma derrota militar ao abrir a frente sul em apoio ao Hamas, como parte do projeto iraniano da chamada “unidade de frentes”.

Todos esses acontecimentos levaram o Líbano a um momento de verdade. E a verdade é que, para a sociedade libanesa como um todo, os reveses do Hezbollah representam uma oportunidade para o Estado recuperar aquilo que perdeu devido às ações do grupo.

Reconstituir o papel do Estado na defesa, na segurança, na economia e no desenvolvimento social depende, porém, das condições previstas no projeto de neutralidade libanesa e na busca da paz com todos os seus vizinhos.

A visita do papa chega, portanto, num momento decisivo, oferecendo um gesto de paz enraizado nos valores cristãos em sua expressão mais nobre e humanista — para benefício de cada pessoa. Ela chega à soleira de uma nova fase, em um contexto regional e internacional favorável ao Líbano, esse “país-mensagem”.

É preciso destacar que a paz almejada não ameaça a identidade nacional nem a segurança do país. Ao contrário, sua consolidação contribui para reduzir violações legais e normativas.

Em um país multiconfessional como o Líbano, a identidade comum que sustenta a unidade do povo é uma identidade composta, construída não sobre uma cultura única ou dominante, mas sobre o diálogo intercultural permanente e o compromisso compartilhado com a convivência. Esse compromisso basta para dar vida a essa identidade. Convivência não significa impor um modo de vida a outra comunidade, nem moldar indivíduos segundo um modelo único.

A paz também favorece o desenvolvimento de uma diplomacia de segurança nacional. Isso permite o fortalecimento das instituições legítimas de segurança — o Exército, as forças de segurança e a polícia. Milícias e sistemas paralelos não podem mais coexistir com o Estado, nem contornar seu monopólio exclusivo sobre as armas.

Contudo, uma estratégia de segurança nacional não se limita ao papel das armas: o Líbano não pode ser protegido apenas pela força militar. O país, esse “país-mensagem”, não é Esparta, e as comunidades que o compõem — inclusive a xiita — não são formadas apenas por soldados, combatentes e mártires.

A paz, fundamentada em critérios de segurança nacional, exige o desenvolvimento da economia como componente essencial de um sistema de segurança abrangente, garantindo estabilidade interna, paz civil e unidade nacional por meio de um desenvolvimento mais equitativo.

O sistema político precisa reforçar o conceito de cidadania, não bloqueá-lo nem subvertê-lo sob o pretexto da hegemonia sectária.

A diplomacia de segurança nacional também implica fortalecer todas as relações internacionais do Líbano, e não apenas as com seus vizinhos. Supõe restaurar vínculos rompidos com seu entorno regional e global mediante uma política que proteja os mais altos interesses nacionais.

Como a paz pode fortalecer automaticamente os mecanismos do Estado de direito e a independência do Judiciário? Nessa tão esperada fase de paz, a circulação e o acúmulo de armas deixam de ser necessários, assim como os pretextos usados para justificar a mobilização ideológica e a economia paralela, responsáveis por sanções.

A sobrevivência do Líbano, esse “país-mensagem”, depende do projeto de neutralidade nacional e da adoção plena da paz. Por isso, o papa é calorosamente recebido, junto com sua mensagem: “Bem-aventurados os que promovem a paz.” Que o Parlamento libanês adote a neutralidade do país e a inscreva no preâmbulo da Constituição, buscando também o reconhecimento internacional desse princípio. Que o Líbano inicie negociações de paz com Israel, em nome do interesse nacional, da segurança do país e… de sua vocação, que dá sentido à sua própria existência.


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