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Enorme explosão provocada por um ataque israelita perto de Al-Mansouri, no sul do Líbano. (AFP)
O essencial da semana
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Por LevantTime .
Publicado em set 6, 2026 - 23:27
Enquanto os Estados Unidos pareciam ter optado apenas pela guerra econômica contra o Irã, o exército americano lançou abruptamente na terça-feira ataques contra o território iraniano, em retaliação a ataques contra petroleiros, desencadeando uma espiral de violência ao longo da semana. No Líbano, Israel libertou vários civis detidos em suas prisões, enquanto suas forças armadas ocupavam a colina estratégica de Ali el-Taher e prosseguiam com seus bombardeios massivos na zona que controla no sul do país. A semana de 31 de agosto a 6 de setembro foi marcada por uma nítida aceleração dos acontecimentos no Oriente Médio, depois de uma semana anterior que parecia mergulhada na estagnação. Na frente iraniana, já na noite de terça-feira, o exército americano realizou ataques direcionados em território iraniano, os primeiros em quase um mês. Esta captura de tela, feita em 6 de setembro de 2026 a partir de imagens de vídeo sem data divulgadas no mesmo dia pelo Comando Central dos EUA, mostra o que o Centcom apresenta como um dos petroleiros iranianos que destruiu em retaliação a tentativas de ataques com mísseis contra navios militares. (Centcom via AFP) No entanto, o ritmo relativamente contido desses ataques dá a impressão de que o governo americano optou por uma escalada controlada, mantendo ao mesmo tempo o bloqueio e as pressões econômicas contra Teerã. Ainda assim, a tensão não parou de crescer ao longo da semana. Explosões foram ouvidas no sábado na ilha altamente estratégica de Kharg, por onde passa a maior parte do petróleo iraniano. O presidente americano Donald Trump, por sua vez, ameaçou atacar o complexo nuclear de Kuh-e Kolang — “montanha da picareta” em persa, ou Pickaxe Mountain —, uma instalação fortemente protegida e enterrada a grande profundidade, não muito longe de Natanz, o principal centro de enriquecimento de urânio do Irã. Mais cedo na semana, ele havia formulado a equação do “petroleiro por petroleiro”, prometendo atingir um navio iraniano cada vez que os Guardiões da Revolução atacassem um petroleiro no Estreito de Ormuz. Foi exatamente isso que o exército americano fez no sábado, incendiando dois navios iranianos. No plano político, Donald Trump endureceu ainda mais o tom em relação a Teerã. Depois de afirmar em uma entrevista que as negociações estavam definitivamente congeladas “porque um acordo com eles não vale o papel em que está escrito”, ele declarou no sábado que o “conflito” com o Irã não era uma “guerra”, mas “algo corriqueiro” para os Estados Unidos. Uma forma de mexer com os nervos dos iranianos ao mesmo tempo em que tranquiliza sua opinião pública às vésperas das eleições de meio de mandato. Um porto, além de instalações de armazenamento e depósitos, foi danificado após um ataque militar americano realizado na província iraniana de Hormozgan, no sul do país, que faz fronteira com o estreito de mesmo nome, em 6 de setembro de 2026. (AFP) Ao mesmo tempo, a mídia americana Axios publicou no sábado uma reportagem sugerindo que os Estados Unidos já estão pensando além deste conflito, iniciado em 28 de fevereiro. O site afirma, citando autoridades americanas e outras fontes informadas, que o governo Trump está elaborando uma estratégia mais ampla para o Oriente Médio do pós-guerra. Ela se basearia na construção de um alinhamento regional destinado a conter o Irã, encerrar as repercussões regionais dos ataques de 7 de outubro de 2023 realizados pelo Hamas em Gaza e ampliar o círculo de normalização entre Israel e os países da região. A ameaça contra Kuh-e Kolang, que marca o ressurgimento da questão nuclear iraniana, ecoa um anúncio da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que lamentou, em 1º de setembro, o fato de o Irã não ter reaberto seus sites aos inspetores após os ataques de maio de 2025. Vale lembrar que, apesar da magnitude da ofensiva israelo-americana contra os sites iranianos, é quase certo que o estoque de urânio enriquecido permaneça intacto e tenha sido colocado em local seguro pelas autoridades iranianas, que continuam apegadas ao que consideram ser seu direito de desenvolver um programa nuclear. Após o anúncio da AIEA, os Estados Unidos, mas também a França, a Grã-Bretanha e a Alemanha, manifestaram a intenção de apresentar uma resolução ao Conselho de Segurança da ONU condenando o descumprimento pelo Irã de seus compromissos em matéria de não proliferação nuclear. Uma unidade visível que contrasta com o clima frio entre Washington e seus aliados europeus desde o início do conflito. Já os iranianos parecem continuar a reagir às turbulências da mesma maneira: atacando vários países vizinhos, como o Kuwait, os Emirados Árabes Unidos e a Jordânia, sem no entanto atacar diretamente Israel. Ataques maciços no sul do Líbano Na frente libanesa, Israel intensifica suas operações de destruição nas aldeias do sul, chegando a usar, em alguns casos, barris de explosivos. O presidente libanês Joseph Aoun pediu a Washington e à comunidade internacional que “façam cessar” os ataques israelenses no território libanês, que deixaram sete mortos no domingo em meio a uma trégua frágil. Os bombardeios atingiram diferentes localidades da região de Nabatiye. Vinte pessoas também ficaram feridas, entre elas crianças, segundo o Ministério da Saúde. Um ataque destruiu ainda o antigo hospital Ghandour, fora de funcionamento há anos. Libertação de detidos e tomada de Ali al-Taher Mas o evento mais importante da semana no sul foi a tomada, pelos israelenses, da colina estratégica de Ali al-Taher, na região de Nabatiye. O local era um importante quartel-general do Hezbollah, formado por um vasto emaranhado de túneis, de onde operavam combatentes do partido xiita, mas também, segundo algumas informações, combatentes iranianos. Na noite de quinta-feira, os israelenses anunciaram ter assumido o controle do complexo. No domingo, o ministro israelense da Defesa, Israel Katz, declarou que ainda restavam túneis a serem dinamitados. Esse “sucesso” militar talvez não tenha sido uma surpresa após semanas de bombardeios, mas a reação do Hezbollah foi, sim, surpreendente. Depois de garantir por muito tempo que se recusaria a ceder essa colina estratégica — assim como os iranianos, que também haviam ameaçado intervir —, o partido xiita acabou minimizando o impacto desse desenvolvimento por meio de seus veículos de mídia e porta-vozes, sem, no entanto, confirmar oficialmente a perda do local, que havia se recusado a preservar entregando-o ao exército libanês. A outra grande surpresa da semana foi a libertação, por Israel, de cinco civis libaneses e sírios detidos em suas prisões. Essa medida ocorreu após uma visita a Tel Aviv do embaixador dos Estados Unidos no Líbano, Michel Issa. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira “ocorre em seguimento aos esforços empreendidos por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os corpos dos líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano” entre 1984 e 1986. Mais uma vez, a reação do Hezbollah chama a atenção. Embora considere a medida positiva, mas insuficiente, o partido voltou a atacar as autoridades libanesas, acusando-as de “submissão ao inimigo” e responsabilizando-as pelo desastre no sul. Chegou até a alertá-las contra “os conflitos internos”. Será que os reveses militares do partido poderiam levá-lo a se voltar ainda mais contra o cenário interno? Por fim, o exército israelense fez no domingo uma declaração importante, anunciando que está considerando reduzir sua zona de ocupação no Sul do Líbano, passando da atual "zona amarela" para uma "zona cinza". Segundo essa interpretação, tal mudança refletiria uma diminuição da ameaça representada pelo Hezbollah. A medida, no entanto, ainda não foi aprovada pela liderança política israelense. Iêmen e Palestina A semana também foi particularmente tensa no Iêmen, onde os confrontos entre os rebeldes houthis e as forças governamentais não pararam de se intensificar, culminando em um sábado especialmente sangrento, com mais de 60 mortos em um único dia, elevando para cerca de 200 o número de vítimas desde quinta-feira. A ofensiva dos houthis busca sobretudo tomar o controle de certas áreas ao redor da passagem de Bab al-Mandab, o que daria a esse aliado do Irã uma vantagem adicional sobre outro ponto estratégico crucial, depois do estreito de Ormuz. Na Palestina, declarações particularmente preocupantes de Israel Katz sobre Gaza marcaram a semana. Ele afirmou, sem apresentar provas, que a maioria dos habitantes da faixa desejava deixá-la, ressaltando que Israel estava "pronto para essa evacuação em massa". Isso deixa entender que o calvário dos habitantes de Gaza está longe de terminar. Por fim, vale destacar que a AIEA anunciou, em 1º de setembro, que infraestruturas descobertas em Deir ez-Zor, na Síria, indicam que o antigo regime de Bashar al-Assad preparava secretamente um programa nuclear avançado, capaz de resultar na fabricação de uma arma atômica com a ajuda de especialistas norte-coreanos.
Homenagem
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Por Michel Hajji Georgiou - Publicado em set 6, 2026 - 13:31
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O jogador argentino, que encerrou sua carreira internacional em 31 de agosto de 2026, não era nada menos que um prestidigitador dos estádios. Sua trajetória, feita de prodígios, quedas e redenção, talvez diga algo sobre nossa necessidade intacta de encantamento em um mundo que, no entanto, pretende ter se livrado dele. Anunciada poucas semanas depois da final da Copa do Mundo de 2026 perdida para a Espanha, a aposentadoria internacional de Lionel Messi não deixou de provocar uma emoção para a qual é difícil encontrar muitos equivalentes na história recente do futebol. Provavelmente seria preciso remontar a Maradona, ou ainda a Cruyff ou Pelé, para reencontrar essa sensação de que, com a retirada de um jogador, desaparece algo que ultrapassa em muito o próprio esporte, como se certa maneira de habitar o futebol, ou até mesmo de acreditar nele, também chegasse ao fim. Longe dos glacis da razão Chega das estatísticas intermináveis e das insuportáveis querelas, tediosas e estéreis, em torno de “quem é o melhor de todos os tempos». O autor destas linhas nunca foi um fanático pela bola, nem por classificações verticais ou por uma hierarquia do mérito em geral e, portanto, aprecia o talento de cada jogador com o mesmo olhar maravilhado de uma criança de 11 anos. De resto, essa obsessão particularmente contemporânea pelos números estraga todo o prazer do espetáculo. E com razão: o procedimento que consiste em somar gols, assistências, Bolas de Ouro, Ligas dos Campeões, Copas América, Copas do Mundo… só pode ser redutor. Em outro registro, ele não deixa de evocar a crítica desenvolvida pelo filósofo germano-americano Eric Voegelin à tentação gnóstica moderna: a de um saber convencido de que pode encerrar a realidade em um sistema e abolir aquilo que lhe resiste. Os recordes são provavelmente um indicador do gênio de Lionel Messi. Mas tantos outros grandes jogadores que fizeram vibrar os estádios e os corações, sem realizar sequer metade dos feitos de Messi, permanecem, ainda assim, eternos na memória. Aquilo que os tornou verdadeiramente singulares encontra-se em outro lugar, longe dos glacis da razão. Algo mais se jogou em torno deles. Algo que pertence a certo sentido profundo da transcendência, que o entendimento jamais poderia apreender plenamente. Esse é o caso de Lionel Messi há mais de vinte anos, desde o dia em que, sob o olhar do “ícone”Diego Maradona, fez sua primeira entrada, em junho de 2006, na arena da Copa do Mundo com as cores da Albiceleste contra Sérvia e Montenegro. Ora, esse elemento indizível que constitui o gênio de Messi, como o de outros, talvez toque em um dos paradoxos mais curiosos da modernidade: a persistência da magia em um mundo que se construiu precisamente contra ela. O mundo desencantado Max Weber falava do desencantamento do mundo para designar esse lento processo pelo qual a modernidade ocidental submeteu progressivamente a existência à racionalização, ao cálculo, à previsibilidade e à explicação causal. O mundo já não deveria ser atravessado por forças obscuras, sinais, intervenções sobrenaturais ou vontades invisíveis; deveria, ao menos em princípio, tornar-se inteligível. Infelizmente, o esporte moderno, e mais amplamente o mundo moderno herdado da globalização, insere-se perfeitamente nessa dinâmica. O futebol de hoje, e não apenas o futebol, é provavelmente um dos objetos mais quantificados que existem. O menor gesto é medido, e tudo é cuidadosamente calculado e modelado. Da matemática à inteligência artificial, o talento bruto depende agora mais da ciência do que do encantamento. É aquilo que há de humano, em sua relação espontânea, até selvagem, com o invisível que nasce do coração, que desaparece diante de nossos olhos em benefício da quadratura do VAR. É, de certo modo, o assassinato do esporte em nome de mais rigor e equidade… ainda que a eutanásia dessa parcela de espontaneidade sublime acabe provocando, ela própria, injustiças flagrantes. Basta, para constatá-lo, voltar a algumas das decisões controversas da Copa do Mundo de 2026. Paradoxo dos paradoxos, o próprio Lionel Messi foi, desde a origem, filho dessa modernidade técnica, da qual certamente deve parte de sua carreira excepcional. Seu corpo, pequeno demais para os padrões esperados, foi corrigido por meio de tratamento hormonal. Identificado muito cedo, seu talento foi assumido por uma instituição que organizou sua formação, alimentação, desenvolvimento físico e integração em uma máquina esportiva já globalizada. Nada, em aparência, poderia estar mais distante do velho relato heroico. À primeira vista, a história se parece mais com distopias do tipo Gattaca do que com mitos e narrativas messiânicas. E, no entanto, esse velho relato de fato retornou, e até com uma insistência quase constrangedora. Desde o início de sua carreira, Lionel Messi foi colocado sob o microscópio. Mas quanto mais se esforçavam para explicá-lo e desmistificá-lo, menos conseguiam dissipar inteiramente a impressão produzida por alguns de seus gestos. O homem simplesmente não consegue ser circunscrito nem reduzido a um acúmulo de dados. Na idade em que a maioria dos grandes jogadores volta para as sombras, ele continua surpreendendo. Estupefazendo, até, ao trazer ao esporte essa parcela de insensatez que escapa à hipersistematização quase robótica do mundo. É provavelmente aí que se deve procurar esse outro lugar que caracteriza Messi. Numa sobrevivência da magia num momento em que até os espaços que permitiam a expressão positiva de uma humanidade feita de carne e sangue se veem progressivamente “disciplinados”por essa atração hipnótica por uma nova gnose puritana em nome da modernidade. O Messias fabricado pela máquina Embora oriundo, de certo modo, da máquina matricial, Lionel Messi constitui, por si só, um questionamento desse modelo de prêt-à-porter. Uma espécie de alter ego do Neo de Matrix, lançado numa simulação governada por parâmetros que pretendem calcular tudo. O destino do argentino adquiriu progressivamente, quase contra sua vontade, a forma de uma narrativa messiânica. O trocadilho com seu nome seria fácil demais se sua própria história não o tivesse constantemente relançado: a da criança frágil, cujo corpo parecia querer negar a realização à qual seu talento a destinava. Depois, a do exílio ainda muito jovem para Barcelona, da adoção por uma cidade estrangeira, da ascensão quase irreal, do reconhecimento mundial e, em seguida, dessa estranha dificuldade de ser reconhecido pelos seus… Durante muito tempo, a Argentina manteve com seu filho pródigo uma relação de hainamoration. Pouco importavam seus resultados, seu talento, seu brilho… ele precisava responder a uma única pergunta, impiedosa: por que não era Maradona? A comparação era certamente inevitável, mas também profundamente injusta. Tudo separava os dois homens em sua maneira de estar no mundo. Maradona carregava a Argentina com tudo o que ela podia ter de passional, contraditório, excessivo e teatral. Falava, provocava, brigava, caía, voltava, misturava ao futebol sua vida privada, suas cóleras, seus compromissos políticos… até sua própria destruição. Seu próprio corpo parecia transformar-se em um dos lugares onde se encenavam as contradições de seu país. Maradona era a própria encarnação daquilo que o mundo esperava do futebol: uma alma rebelde, levando por vezes o jogo até a imoralidade, mas dentro de uma espécie de gigantomaquia futebolística. Maradona era épico. E, sobretudo, havia colocado seu país no firmamento do futebol em 1986. Messi, por sua vez, não oferecia nada disso. Era silencioso, às vezes quase ausente da narrativa que os outros construíam ao seu redor, ausência que durante muito tempo foi interpretada como defeito. Quase apagado, sem personalidade. Era justamente isso que os dois gigantes, Maradona e Pelé, lhe censuravam: falta de liderança, ser liso demais. Uma espécie de bebê de proveta milagroso dos estádios. Também se censurava ao menino de Rosario não cantar suficientemente o hino, não ser argentino o bastante, ter sido “fabricado”por Barcelona e, naturalmente, não vencer com a seleção aquilo que ganhava quase continuamente com seu clube. A profecia inacabada A final da Copa do Mundo de 2014, perdida de maneira dramática para a Alemanha, seguida pelas finais da Copa América de 2015 e 2016, havia transformado progressivamente essa suspeita em acusação. Quando perdeu seu pênalti contra o Chile em 2016 e anunciou depois que deixava a seleção, ele já era, no entanto, um dos maiores jogadores da história do futebol. Mas sua narrativa permanecia estranhamente inacabada. O sentimento de incompletude pouco dizia respeito ao seu currículo. Tratava-se antes daquela necessidade quase arcaica continuamente imposta aos heróis modernos: concluir seu percurso iniciático. Com as cores argentinas, Messi brilhava e depois caía pesadamente. Mas não se levantava. Não cumpria a profecia. E, aos olhos de seu povo, isso reforçava o sentimento de hainamoration: um deus caído continua sendo um deus, apesar de tudo. Mas acrescido daquilo que, aos olhos de seus adoradores, constitui um substrato de humanidade insuportável e, portanto, perfeitamente detestável: suas taras, suas fraquezas. Os argentinos amavam Maradona apesar de sua decadência espetacular e de sua humanidade falível. Mas isso porque ele havia “merecido”essa decadência, porque ela se tornara, de algum modo, aceitável depois do México de 1986. Messi, por sua vez, ainda não tinha o direito de cair, porque ainda não havia chegado ao topo. Não, a profecia não estava cumprida. Começava até a virar caricatura. Messi voltou, portanto. Mas ainda teve de esperar por sua redenção. Foi preciso a Copa América de 2021, no Maracanã, para que essa relação feita de suspeita, expectativa e decepção com seu público e seu povo começasse verdadeiramente a mudar. E foi preciso, sobretudo, a Copa do Mundo de 2022 para que a história adquirisse aquela forma quase perfeita demais que ninguém teria ousado escrever sem parecer ceder a uma facilidade de roteirista. Fato estranho, Maradona havia morrido em 2020. Era como se uma espécie de maldição nacional opressiva tivesse sido levantada. Ao mesmo tempo, o povo argentino precisava de uma figura paterna substituta, e a pressão não fazia senão redobrar. Mas talvez misturada, dessa vez, com um pouco de ternura? O que aconteceu no Catar em 2022 é ainda mais interessante porque o próprio Messi aparece ligeiramente diferente. Protesta mais, responde às provocações, irrita-se, fala com uma violência de que poucos o julgavam capaz e deixa até escapar aquele “¿Qué mirás, bobo?”diante dos neerlandeses, para diversão da Argentina. Buenos Aires finalmente descobre, com atraso, aquilo que sempre esperou dele. Um pouco de Maradona dentro de muito Messi. Mas Messi não se transforma, por isso, em Maradona. E talvez seja precisamente aí que ocorra a verdadeira reconciliação: a Argentina deixa de lhe pedir que seja Maradona. A partir de 2022, Messi já não precisa encarnar outro modelo do gênio nacional. Finalmente pode tornar-se, também para seu país, aquilo que já havia sido em todos os outros lugares: Messi. Simplesmente. O ato final da profecia É verdade que o triunfo de 2022 poderia ter constituído um final perfeito. Mas, como no caso de Maradona, o ato final da profecia heroica é a queda. Ninguém esperava realmente algo excepcional de Messi em 2026. Aos 39 anos, considerava-se amplamente que ele já fazia parte dos “heróis cansados». A queda do Capitólio havia ocorrido com o episódio amargo de sua saída do FC Barcelona e sua desventura no PSG. Já não atuava senão na liga americana, com as cores de Miami… na periferia do mundo do futebol, nas terras distantes do soccer. E a nova geração já estava ali, pronta para mandar os ancestrais a Bicêtre. No entanto, aquela Copa do Mundo de 2026, que parecia destinada a não passar de um epílogo, transformou-se num último golpe de brilho sensacional. A Argentina chegou novamente à final, com Messi, aos 39 anos, ainda como seu “líder histórico”e seu recurso nos momentos decisivos, realizando algo que não deixava de lembrar o que Roberto Baggio fizera pela Itália em 1994, aos… 27 anos: um deus ex machina permanente. Baggio fracassou às portas do triunfo contra o Brasil depois de praticamente carregar a Itália até Pasadena. Seu pênalti enviado por cima do travessão deixaria uma das imagens mais cruéis da história das Copas do Mundo: a de um homem imóvel, de cabeça baixa, mãos na cintura, enquanto o Brasil celebrava a vitória. Aquele que havia “morrido de pé». O duende italiano jamais conheceu a apoteose. Mas essa morte simbólica, longe de apagar seu Mundial, acabou também entrando para sua lenda. A história foi mais clemente com Messi, apesar de uma campanha de ódio contra ele, misturada a acusações de trapaça e favoritismo, num pano de fundo de decisões arbitrais controversas e atos antidesportivos de sua equipe, como havia sido outrora com Maradona. Ainda mais, até. Uma final em sua sexta Copa do Mundo, às portas da aposentadoria, com uma atuação individual extraordinária? É precisamente aí que reside aquilo que há de mágico no fenômeno Messi e que desafia a razão e sua avalanche de estatísticas. O gênio não pode ser encerrado numa soma de parâmetros e variáveis. Sua condição física, mesmo ótima, não pode explicar por si só aquilo de que o mundo inteiro foi testemunha. E pouco importa que sua história nos lembre que o herói, por mais mítico que seja, não pode abolir a sinistra influência de Saturno. O reencantamento do mundo Pois, para além da profecia cumprida, da ascensão à queda, com sua parcela de alegrias e desventuras, o argentino ofereceu ao mundo uma última volta que pertence à arte, quando não a uma forma de poesia homérica. Com a retirada de Lionel Messi da cena internacional, desaparece um pouco da magia do mundo… até que outro herói providencial volte a encantar os estádios. Durante mais de vinte anos, Messi terá encarnado a coexistência de dois mundos que julgávamos incompatíveis: o da racionalização extrema do esporte moderno e aquele, muito mais antigo, do herói, do sinal, da espera e do encantamento. Quando Messi parte, algo dessa contradição aparece de repente. Outros prodígios já surgiram, mas talvez descubramos, justamente no momento em que um de seus últimos grandes representantes deixa a cena, o quanto continuamos precisando de transcendência. O mundo moderno provavelmente não suprimiu o encantamento. Apenas o deslocou. Durante noventa minutos, esse homem chamado Lionel Messi, que o encarnou nos gramados, parte depois de ter realizado tudo. E até mais.
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Ficamos mais burros?

Ou estamos vivendo uma transformação na estrutura do conhecimento?
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Por Mona Fayad - Publicado em set 5, 2026 - 20:01
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A pergunta «O mundo ficou mais burro?» reaparece com frequência nos debates contemporâneos sobre mídia digital, mecanismos de busca e redes sociais. À primeira vista, parece uma pergunta simples, mas esconde uma questão muito mais profunda, ligada à própria natureza do conhecimento: como ele é produzido, como é transmitido e como é consumido. Talvez a pergunta «Ficamos mais burros?» não seja a mais precisa. Talvez devêssemos perguntar: o conhecimento ainda é transmitido de uma maneira que permita compreendê-lo e torná-lo produtivo? A maioria dos leitores ainda recorre aos textos originais? Ou se limita aos seus resumos e ao que é dito a respeito deles por meio daquilo que circula entre os leitores? Uma das chaves para compreender esse fenômeno encontra-se nos trabalhos do psicólogo britânico Frederic Bartlett, que realizou, na década de 1930, uma série de experiências sobre aquilo que chamou de «reprodução serial». Nessas experiências, uma pessoa ouvia uma história e depois precisava contá-la a outra, que por sua vez a contava a uma terceira, e assim por diante. Os resultados foram impressionantes: a cada nova transmissão, a história não era reproduzida exatamente como havia sido contada, mas reformulada. Alguns detalhes desapareciam, outros eram ampliados e outros ainda eram substituídos por elementos mais compatíveis com o contexto, as experiências e a cultura do receptor. Depois de passar por um número suficiente de intermediários, a história original já havia se transformado em algo inteiramente diferente. Esse modelo simples revela uma verdade fundamental: a memória não é um recipiente neutro, mas um mecanismo de reconstrução. E, quando o conhecimento passa por múltiplos intermediários, ele não é «preservado», mas «reproduzido». É aqui que começam a aparecer as semelhanças com o nosso mundo contemporâneo e o receio de que estejamos ficando mais burros. Na era da mídia digital, o conhecimento já não circula por meio da transmissão oral, mas através de cadeias de mediação: um artigo é resumido, depois citado, em seguida republicado sob a forma de uma postagem curta e, por fim, reduzido mais uma vez a uma frase ou a um título. Nesse contexto, podemos retomar uma imagem metafórica usada em um texto jornalístico: uma biblioteca cujos livros são substituídos por resumos, e depois por resumos dos resumos, até que o leitor se veja diante de sucessivas camadas de redução. Algo semelhante ao que poderíamos chamar de «cadeia do guaxinim», que não lê o original, mas remexe em seus restos. Vale esclarecer que a escolha do «guaxinim» não é aleatória. Essa metáfora condensa simbolicamente uma condição cognitiva que vem se consolidando. Esse animal, que vive nas margens das cidades e remexe em latas de lixo, não produz seu alimento, mas se nutre dos restos daquilo que outros produziram. Apesar de sua inteligência prática e de sua capacidade de desmontar, recolher e aproveitar objetos, ele não compreende verdadeiramente aquilo que tem diante de si, mas lida com as coisas como materiais disponíveis para uso imediato. É assim que o conhecimento passa a se apresentar na era da redução serial: textos são resumidos e depois novamente resumidos, até que deles reste apenas um punhado de fragmentos de sentido, reorganizados e postos novamente em circulação sem qualquer vínculo verdadeiro com sua fonte. Nesse ponto, não apenas nos afastamos do original, mas entramos em uma nova etapa da produção da informação ou do conhecimento, na qual o agente cognitivo deixa de ser um leitor ou pensador para se tornar um coletor de restos de significado, que os redistribui em formatos destinados ao consumo rápido. A «cultura do guaxinim», portanto, não é apenas uma descrição da superficialidade. É também uma caracterização precisa da degradação da própria cadeia do conhecimento: da criação ao resumo, da compreensão ao processamento formal, das ideias a algo que já não passa de um vestígio apagado delas. Mas esse fenômeno não pode ser compreendido separadamente da estrutura tecnológica que o governa. É aqui que entra Marshall McLuhan, que sintetizou seu pensamento na célebre frase: «O meio é a mensagem». O problema não está apenas no conteúdo, mas também na forma através da qual esse conteúdo é transmitido. A mídia digital contemporânea não se limita a transportar informações, mas as remodela segundo a lógica da velocidade, da condensação e da fragmentação. O texto longo torna-se inadequado para o consumo, enquanto uma ideia só parece aceitável se puder ser reduzida a poucas linhas facilmente compartilháveis. Essa transformação produz um paradoxo marcante: vivemos numa época em que o acesso ao conhecimento deixou de ser difícil e se tornou excessivamente fácil. E, com essa facilidade excessiva, surge aquilo que poderíamos chamar de «ilusão cognitiva»: basta ler um pequeno trecho ou um resumo rápido para que a pessoa tenha a sensação de ter assimilado uma ideia. Mas essa sensação de domínio não é necessariamente acompanhada por uma compreensão profunda nem pela capacidade de reconstruir ou criticar o conhecimento. É aqui que aparecem os que poderíamos chamar de «semiletrados»: indivíduos que possuem os sinais do conhecimento, mas não sua estrutura; seu vocabulário, mas não sua lógica interna. O problema se torna ainda mais complexo quando o observamos sob o ângulo da atenção. Em vez de permanecer em um estado prolongado de concentração, como acontece na leitura tradicional ou na reflexão demorada, a mente passou a viver sob um bombardeio contínuo de informações: notificações, vídeos, manchetes e ondas sucessivas de conteúdo. Essa situação não apenas dispersa a atenção, mas a reconfigura segundo uma lógica de saltos constantes entre pequenas unidades de significado, em vez de permitir a construção gradual e cumulativa de uma ideia. Lembro aqui de uma anedota que costumávamos contar e que circulava muito na época das manifestações populares. Ela ilustra bem a ideia da redução e da transformação do conteúdo. Depois da ocupação da Palestina, muitas manifestações populares tomaram as ruas gritando «Abaixo a Declaração Balfour!». A brincadeira dizia que, no fim da manifestação, o slogan havia se transformado, em árabe, em «Que alguém caia lá de cima!», uma frase inteiramente diferente que preservava algo do ritmo e da sonoridade da original. Talvez essa imagem nos ajude a compreender melhor o que acontece na linguagem cotidiana quando o conhecimento se transforma em mensagens curtas repetidas coletivamente. A manifestação começa com uma fórmula política precisa. Mas, com a repetição, a imersão coletiva e o ritmo sonoro, ela vai se transformando pouco a pouco em outra fórmula, completamente diferente. Esta pode conservar o ritmo e a carga emocional da primeira, mas perde seu significado e seu sentido original. O que permanece não é o sentido, mas a energia emocional da frase. Aqui se manifesta, de outra maneira, aquilo que Bartlett havia observado: não importa apenas o que foi dito, mas como aquilo foi repetido e como voltou a ser compreendido dentro de um contexto social em transformação. Se reunirmos todos esses fios, podemos dizer que aquilo que vivemos hoje não é propriamente um «colapso da inteligência», mas uma transformação das condições em que ela opera. A mente humana não mudou radicalmente, mas o ambiente em que funciona se transformou profundamente: passamos de um ambiente que permitia a acumulação lenta para outro que impõe a reprodução rápida e fragmentada do conhecimento. Essa mudança cria uma tensão permanente entre duas formas de pensamento: um pensamento reflexivo, que precisa de tempo, e um pensamento rápido, que exige resposta imediata. Sob essa perspectiva, a pergunta «Ficamos mais burros?» torna-se parcialmente enganosa. Talvez seja mais preciso dizer que estamos cada vez mais expostos a condições que tornam o pensamento profundo menos estável, ou menos possível, e o conhecimento mais vulnerável à fragmentação e à reciclagem. Quanto à burrice, se podemos usar o termo, talvez ela não seja uma propriedade da mente, mas um efeito colateral e uma característica da estrutura cultural que se formou. Trata-se de uma tecnologia que está remodelando nossa relação com o mundo. Assim, em vez de enxergar esse fenômeno como um declínio das capacidades humanas, podemos compreendê-lo como uma transformação do «ambiente do conhecimento»: um ambiente em que se tornou fácil saber alguma coisa, mas mais difícil compreendê-la de fato e em profundidade.
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Anatomia de uma anomalia: Revolução ou sobressalto?

A repressão brutal perpetrada pelos mulás e pelos pasdarans para neutralizar a corajosa revolução dos cidadãos iranianos carrega em si os estigmas inerentes a toda ditadura. Mais de 30.000 mortos, pelo menos, 40.000 presos cujo destino ainda é desconhecido, um número incalculável de desaparecidos… E os números só aumentarão à medida que a verdade macabra for revelada. Muito rapidamente, o terror substituiu a esperança da tão esperada mudança. A ordem parece reinar novamente, mas a que preço e, sobretudo, até quando? Na ausência de uma oposição unida, o regime ditatorial, medieval e corrupto tem as mãos livres para incendiar e banhar em sangue tudo o que se move. Metodicamente, viciosamente, selvagemente, sem nenhum escrúpulo. A única boia de salvação à qual a maioria dos iranianos se agarra continua sendo uma eventual intervenção americana, mas cujas consequências ninguém conhece a priori , tanto no plano interno quanto regional. Certamente, o fogo continua a arder sob as cinzas, mas o incêndio só recomeçará se o regime, sob os golpes implacáveis dos ianques, vacilar. Enquanto isso, vítimas são contadas diariamente, mas o mundo continua imóvel. Ausência de manifestações nas ruas das grandes capitais, sem revoltas estudantis nos campi universitários, poucas intervenções contundentes de políticos em canais de televisão internacionais. Apenas reprovações, condenações da boca para fora, súbitas mudanças de humor estéreis. No entanto, não faz muito tempo, o mundo inteiro vibrava por Gaza, também vítima de uma carnificina sistemática. O que nos faz coçar o queixo e nos questionar: dois pesos, duas medidas? Existem repressões condenáveis em voz alta, e outras aceitáveis que não se beneficiam de uma rejeição universal? Mas passemos ao Líbano. Ao examinar de perto a revolução iraniana, perguntemo-nos se o termo «thawra» se encaixa nos eventos que abalaram nosso país em 2019. É realmente apropriado? Não é um pouco exagerado? Desproporcional? Até mesmo fora de contexto? Certamente, a exaustão de uma população exasperada por um custo de vida insuportável, o desmedido descalabro do Estado, a flagrante ausência de justiça, a corrupção generalizada, a inegável falta de serviços em todos os níveis, a insegurança prevalente, justificavam plenamente a recusa quase geral de ser pisoteada o dia inteiro por um Estado falido. Mas, ao examinar mais de perto esses dias de outubro de 2019, não se tratou simplesmente de um levante, de um sobressalto, de um abalo, que se mostraram sem consequências? Certamente, os confrontos entre manifestantes e forças da ordem, mas sobretudo a selvageria desenfreada e impetuosa da guarda pretoriana de Berri, causaram numerosos feridos, alguns muito graves. Mas, ao contrário da hecatombe iraniana, o sangue não correu em rios. Não houve mortes, nem destruições massivas, nem desaparecimentos ou condenações intempestivas. Em suma, um sobressalto que se transformava todas as noites em uma festa popular e musical, e não demorou a desaparecer. Então, temos o direito de nos perguntar por que a dissidência libanesa fracassou e descarrilou? Para remediar isso, uma infinidade de perguntas me vem à mente. A existência dos nossos Leviatãs locais repousa no nosso consentimento em sermos dominados por eles? Estamos, em sua maioria, destinados a permanecer vítimas de uma máfia piramidal que alegremente faz o que quer? Sofremos da síndrome de Estocolmo? Podemos avançar todas as desculpas para explicar o fracasso de 2019 e, assim, tranquilizar nossa consciência invocando invariavelmente o nepotismo, o clientelismo, o confessionalismo, a ausência da noção de cidadania, o individualismo, a afiliação partidária e comunitária, a não existência de um romance nacional, o armamento miliciano ilegal, a ausência de um objetivo claro, a inexistência de um comando unido, etc..., mas, na minha opinião, um ingrediente essencial faltou para derrubar a tirania de uma minoria e alcançar a mudança a que toda sociedade civilizada aspira. A resposta talvez nos seja fornecida por La Boétie em seu Discurso sobre a Servidão Voluntária , escrito entre 1546 e 1548. « Sede livres de não mais servir, e eis que estais livres ». Uma frase de lucidez implacável. Segundo o autor, a tirania é possível porque o povo consente a uma servidão cuja razão de ser não reside na falta de coragem, mas na ausência de VONTADE. Essa acusação severa, que permanece atual no Líbano, tem o poder de nos interpelar. Para defender nossa liberdade, basta não mais servir a essa minoria. Ao cessar de obedecê-la, ela perde seu poder. Certamente, como não se faz omelete sem quebrar ovos, os riscos de violência não devem ser descartados. Tivemos muito poucos custos há seis anos, mas uma recorrência mais severa e sangrenta deve ser considerada se a vontade popular decidir tomar seu destino em suas próprias mãos. Aos cínicos que zombariam de tais palavras, eu responderia com um exemplo. Temos a oportunidade de federar a maioria do povo em torno de uma causa comum, cara a todos, que transcende a afiliação religiosa e política. Refiro-me aqui ao escândalo financeiro que despojou a maioria dos poupadores, de todas as categorias. Em qualquer outro país que se preze, a rua teria decidido de forma radical se o Estado não tivesse resolvido prontamente o assunto. O que está longe de ser o nosso caso. No Parlamento, verdadeiro palácio da Vergonha, somos embalados por promessas grandiosas há seis anos. No governo, nos apresentam propostas humilhantes e injustas que desconsideram nosso amor-próprio e nossa inteligência. Se houver uma real vontade popular e nacional de mudar a situação, poderíamos então falar de uma revolução que, desta vez, não deveria mais ser afetada, ameaçada ou sufocada pelo Hezbollah e outras milícias que já perderam sua aura e poder de dano. Apesar dos perigos enfrentados, e munidos apenas de sua vontade, os iranianos que não têm mais nada a perder se engajaram corajosamente na via revolucionária, merecendo assim nossa consideração e respeito. Certamente, foram momentaneamente silenciados, mas é apenas uma questão de tempo. Toda ditadura, por mais feroz que seja, está condenada de antemão a desaparecer nos escombros da História. No Líbano, desde 2019, perdemos o bonde, e ainda não saímos da enrascada. Mas, nunca é tarde para fazer o bem.

Morte programada do Terceiro poder
Por
Jawad Pakradouni
Publicado

Um corredor escuro, o cheiro de umidade que exala, um elevador quebrado ou sem energia, escadas sujas, depois outro corredor sombrio, coberto de copos de café com borra espalhada pelo chão, garrafas de água vazias, bitucas de cigarro amassadas… Ali, em um escritório mergulhado na escuridão, uma cadeira bamba espera seu ocupante, que se senta, aguardando que o gerador se digne a iluminar o local. Então a luz se fez e revela a decrepitude. Não é o cenário de um filme pós-apocalíptico, mas sim o do Palácio da Justiça da cidade que o poeta Nono de Panópolis batizou, no século V, como garantidora da ordem e mãe das leis: Berytus Nutrix Legum. A dois quilômetros de um palácio presidencial mantido com notável cuidado (embora tenha conhecido, nas últimas décadas, mais períodos de férias do que de ocupação) ergue-se outro Palácio da Justiça, o pesadelo de todos os juristas: o de Baabda, ao lado do qual o palácio da capital parece uma Versalhes. Todas as sociedades modernas se baseiam em um pilar fundamental: a Justiça. A ordem não é a ausência de caos, mas a presença de uma justiça eficiente, de um verdadeiro terceiro poder que funciona. Contudo, em nosso país, os dois primeiros poderes prevalecem sobre o terceiro. Pior ainda, eles o enfraquecem deliberadamente, com premeditação. A prova? O projeto de orçamento de 2026. Se, em alguns países, criminosos assassinam juízes com carros-bomba ou emboscadas, no Líbano, a arma do crime é econômica, legislativa e executiva ao mesmo tempo. O orçamento de 2026 aloca à caixa mútua dos juízes, que conta com novecentos magistrados, dos quais trezentos aposentados, 3,37 milhões de dólares, contra 11,235 milhões para a dos parlamentares. Para a compra de equipamentos e material de escritório, estão previstos 90.000 dólares para a Justiça, contra 382.000 para o Executivo e 203.000 para o Parlamento. Quanto às despesas de manutenção, o Parlamento obtém 2,34 milhões de dólares, o Conselho de Ministros o a Presidência 2,05 milhões… e a Justiça, apenas 200.000 dólares. Não há erro aqui. Convém recordar que, ao contrário do Parlamento, do Conselho de Ministros e do Palácio Presidencial, que contam cada um com apenas uma ou duas infraestruturas, a Justiça é exercida no Líbano através de seis Palácios principais e cerca de trinta locais que abrigam tribunais. Não é, portanto, surpreendente que os edifícios onde a justiça deveria ser administrada estejam em estado avançado de deterioração. Duzentos mil dólares por ano para manutenção: é o preço de um carro que alguns parlamentares compram, ainda mais facilmente porque beneficiam, durante o seu mandato, de descontos fiscais sobre os impostos aduaneiros. Contudo, pede-se aos juízes que digam o direito e façam cumprir a lei, uma lei muitas vezes redigida de forma descuidada, desajeitada, ou mesmo errônea pelos deputados, que por vezes procedem a uma mistura de legislações estrangeiras, a um simples «copy/paste» de normas inadequadas à nossa sociedade. E é então ao juiz que compete encontrar o equilíbrio e a correta aplicação… O Estado não se contenta em privar os juízes de meios legislativos coerentes: ele também os priva de meios financeiros. O salário médio de um juiz é de cerca de dois mil dólares, contra três mil para um parlamentar.  Mas a diferença está em outro lugar: na aposentadoria, o juiz depende de uma caixa mútua exangue, incapaz de cobrir suas necessidades essenciais. O deputado, por sua vez, recebe vitaliciamente entre 50% e 75% de seu salário, beneficia de cobertura médica gratuita e, após sua morte, seu cônjuge herda esses benefícios. Um magistrado é antes de tudo um ser humano que, por vocação, exerce apenas uma função. Ao contrário, os parlamentares e ministros geralmente têm uma atividade profissional paralela. Pedir a um juiz que cumpra sua missão em condições tão degradantes (locais insalubres, falta de material, etc.), sem contar as pressões políticas, e por vezes até as ameaças pessoais, é simplesmente desumano. Têmis, deusa da Justiça, veste uma longa túnica branca, tem os olhos vendados e segura a balança na mão esquerda, o gládio na direita. A Têmis libanesa não tem apenas os olhos vendados, ela também tem os braços atados e a boca amordaçada. No Líbano, não se suprime a justiça: simplesmente a deixam sem luz, sem orçamento e sem dignidade, até que ela deixe de existir por si mesma. É mais discreto, mais limpo e, acima de tudo, mais economicamente viável politicamente. Uma eutanásia administrativa, decidida e votada por aqueles que, ironicamente, gozam de imunidade judicial….

A descompensação ontológica do Hezbollah
Por
Michel Hajji Georgiou
Publicado

A cada vinte anos, chega um jogador, que aposta o país, os homens, a herança, os nascimentos e os poentes do sol, os rapazes e as raparigas, as ondas e o mar sobre uma mesa de póquer. Nizar Qabbani Assim, Naím Qassem quer sacrificar o Líbano em nome do Irão. Depois de ter enviado os seus partidários para morrerem pela Síria de Assad, depois de ter deixado os habitantes do seu “lar revolucionário” serem esmagados em nome do Hamas, eis que agora pretende encerrar o ciclo com um gesto grandioso: um suicídio coletivo, precisamente no momento em que a própria casa-mãe iraniana se encontra ameaçada, perante a armada supostamente invencível mobilizada por Donald Trump nas águas do Médio Oriente. As últimas declarações do secretário-geral do Hezbollah poderiam, à primeira vista, passar por bravatas de um valentão experiente. E talvez ainda o sejam para uma parte do seu rebanho, alimentado pelo mito do Übermensch ariano fabricado pelos clérigos iranianos. Mas essa “coragem” que, no final dos anos 1990, foi reconhecida por grande parte dos libaneses quando se tratava de defender o território da ocupação israelita, transformou-se há muito em suicídio estratégico — se é que o termo “estratégico” não soa hoje grotesco neste contexto. Os aviões mergulham sobre as nossas cabeças. A guerra não se vence com dissertações, nem com metáforas, nem com adjetivos. Quantas vezes pagámos, a um preço altíssimo, o imposto da verborragia. O problema do discurso de Naím Qassem é simples: é estúpido. Onde o seu antecessor, Hassan Nasrallah, era particularmente hábil — envolvendo os seus discursos numa virtù política adquirida ao longo de décadas, até se tornar um verdadeiro hipnotizador de massas —, o guardião da doutrina catapultado por defeito para o suceder, após as liquidações em série levadas a cabo por Telavive entre os dirigentes da milícia, possui o carisma de um crocodilo deprimido. Nasrallah procurava justificar a sua lealdade cega a Teerão, e a sua consequência natural — a conquista do poder no Líbano — através de uma mistura de argumentação pretensamente racional, fanfarronice política e fórmulas que oscilavam entre o ideológico e o populista. Fê-lo com a mestria de um líder histórico. Qassem, por sua vez, tenta agora juntar os cacos… e fá-lo com a torpeza caricatural daqueles que se tornam vítimas do princípio de Peter. Por outras palavras, Nasrallah era um prestidigitador consumado na arte de ocultar através da palavra. Mesmo quando admitia, em momentos de lucidez calculada, ser um soldado do velayat-e faqih , fazia-o a partir de uma posição de força, inscrito numa lógica imperial iraniana que se expandia pela região sem verdadeiro contrapeso — por vezes até com a conivência objetiva do Ocidente. Com Qassem, e o seu último discurso é a prova mais flagrante, o discurso oscila entre o delírio de uma seita que já nada tem a perder e a exibição grotesca de músculos de um lutador dopado, condenado ao nocaute. Já não se trata de lucidez honesta. É irresponsabilidade homicida. Inconsciência homicida. Ao afirmar que qualquer ameaça contra o Irão, e mais ainda contra o Guia Supremo, constitui uma ameaça direta que exige a intervenção do Hezbollah, o secretário-geral do partido não se limita a elevar o tom numa escalada retórica já conhecida. Ele designa, sem disfarces, o verdadeiro lugar da soberania a que obedece. E esse lugar não é o Líbano. Não é, claro, nenhuma surpresa. A lealdade do partido-milícia à internacional revolucionária persa é um segredo aberto. O problema é a persistência na cegueira, a ponto de esquecer que a última aventura do Hezbollah, ao serviço do Hamas, se transformou numa tragédia — não apenas para o próprio partido, mas para os habitantes do sul do Líbano e de Beirute, para a comunidade xiita no seu conjunto e, acima de tudo, para o Líbano. A cada vinte anos, chega um homem complicado, com os bolsos cheios de detonadores. Naím Qassem consagra, mais uma vez, a subordinação explícita do destino libanês a uma arquitetura de poder externa, confessional e transnacional, que transforma o país, novamente, numa simples superfície de exposição, num espaço descartável, numa satrapia sacrificial para um confronto que o ultrapassa. O que este discurso consagra, no fundo, é a abolição pura e simples da decisão coletiva. Guerra e paz, vida e morte, futuro e ruína já não decorrem de um debate nacional, de instituições comuns ou de um contrato político, por mais frágil que seja. Tornam-se a extensão mecânica de uma lógica de eixos, de uma fidelidade ideológica que não reconhece outra legitimidade senão a do centro que serve. Nesta visão, o Líbano não é um Estado, nem uma sociedade, nem sequer um povo no pleno sentido do termo. É apenas um intermediário. Uma garantia. Um front vulgar entre outros, com soldadinhos de chumbo e abundante carne para canhão. Um dos últimos ainda ao serviço do déspota iraniano, a par do Iraque. A cada vinte anos, chega um governante por decreto, que conduz o sol ao poste de execução. A imagem que o Hezbollah atribuiu ao Líbano é inevitavelmente a de um país-corredor, um país-fronteira, um país-mártir permanente, condenado a pagar o preço dos confrontos alheios. Uma lógica que já destruiu o Estado, esvaziou as instituições, fraturou a sociedade e transformou a soberania num slogan vazio. O paradoxo é cruel, quase obsceno: o Hezbollah invoca hoje a soberania no exato momento em que proclama a sua negação; apresenta-se como escudo enquanto atua como vetor de máxima exposição; acusa o Estado de fraqueza depois de o ter despojado metodicamente dos seus atributos fundamentais. Esta duplicidade não é apenas tática. É ontológica. Resulta de uma incapacidade profunda de aceitar o tempo histórico, com os seus limites, as suas derrotas e as suas responsabilidades. É outro nome do delírio. O Líbano não é um mito a alimentar nem um palco sacrificial a explorar. É um país real, habitado, frágil e plural, que já não pode sobreviver a uma economia permanente de guerra por procuração. O discurso de Naím Qassem não ameaça apenas adversários externos. Ameaça a própria ideia de que o Líbano possa ainda existir como espaço político autónomo, isto é, como lugar onde a decisão coletiva prevalece sobre a fé imposta e onde a vida dos cidadãos não está subordinada a uma escatologia armada. A cada vinte anos, chega um homem para degolar a unidade no seu leito e abortar os sonhos. Mais uma vez, o Hezbollah nega a pluralidade constitutiva do país. Apaga todos aqueles que se recusam a aceitar que um poder paraestatal — que perdeu toda a legitimidade até mesmo no seu próprio campo, ao ponto de ser progressivamente abandonado pelos seus aliados mais próximos; que perdeu a sua profundidade estratégica com a queda de Assad; que enfrenta uma vontade libanesa de restaurar a soberania e o monopólio da violência legítima em todo o território nacional; e que, sobretudo, está tão exausto por catástrofes sucessivas que já não pode suportar o custo físico, material e moral de mais um desastre — continue a presidir ao destino do país. Acresce que se trata de um poder miliciano cujos desmandos, da violência criminosa à obstrução da justiça e a todo o tipo de atividades mafiosas, são incontáveis. Mas o pior é que o Hezbollah aprisiona hoje a própria comunidade xiita numa atribuição identitária violenta, reduzindo-a a um bloco supostamente homogéneo, pronto a sacrificar-se sem condições por uma causa que, na sua diversidade real, não gera consenso. Os xiitas do Líbano sofreram perseguições e marginalização política, social e económica desde a era otomana. Sim, foi necessário Moussa Sadr, e depois a Revolução Islâmica no Irão, para alterar esse contexto. Sim, o Hezbollah, após o desaparecimento de Sadr, restituiu um sentimento de orgulho e dignidade à comunidade xiita. Mas também a submeteu à sua lei, fundada na força bruta. Basijizou-a , “purificou-a” liquidando as elites intelectuais que não partilhavam a sua doutrina nem o seu alinhamento geopolítico e militar com o Irão, e estendeu o seu controlo político, através do terror das armas, a toda a comunidade, hipotecando-a. De forma perversa e insidiosa, galvanizou a comunidade em nome de uma glória vã e ilusória, atribuindo-lhe uma função de resistência territorial, enquanto desenvolvia uma rede de infraestruturas sociais, políticas e mafiosas ligadas a Teerão. Sob o pretexto da resistência, deslibanizou os xiitas ao serviço do Irão. A cada vinte anos, chega um narcisista apaixonado por si mesmo, que se pretende o Messias, o Salvador, o Único, o Eterno, o Sábio, o Omnisciente, o Santo, o Imã. O que o discurso de Naím Qassem revela, acima de tudo, é o núcleo ideológico do sistema: a sacralização do comando, que torna ilegítima qualquer contestação, suspeita qualquer dissidência e assimilável a traição qualquer crítica. Neste universo mental milenarista e totalitário, o chefe não é um responsável político submetido à prova do real, mas uma figura investida de uma missão transcendente. Uma tal construção é, por natureza, incompatível com o Estado, que pressupõe finitude, responsabilidade, possibilidade de fracasso e prestação de contas. É aqui que reside a fragilidade atual do Hezbollah, que a retórica marcial procura desesperadamente mascarar. Por detrás da postura de firmeza perfila-se uma angústia profunda: a da perda. O partido entrou numa fase de vulnerabilidade que nunca conhecera a este nível. As figuras totémicas foram atingidas. O eixo regional fissura-se. O espaço imperial que dava coerência e profundidade ao seu poder contrai-se. E, com ele, vacila a própria identidade do Hezbollah. O que é o Hezbollah sem a sua pregação falaciosa da resistência territorial? O que resta sem as suas armas? E, sobretudo, qual seria o seu futuro se o seu diretório em Teerão, os Guardas da Revolução e o seu referente último, o velayat-e faqih , colapsassem? Está em jogo a sua existência, até mesmo a sua essência. Perante esta erosão, o reflexo é antigo, quase mecânico. O Hezbollah não sabe perder. Não consegue pensar-se na derrota, porque aceitar a derrota equivaleria a renunciar ao seu estatuto de exceção, ao seu monopólio simbólico, à sua narrativa fundadora. Assim, desloca o palco do conflito. Alarga o teatro de operações. Transforma uma fragilidade local numa questão cósmica. Tenta reconstruir, pela palavra, uma centralidade que a realidade lhe retira. Implode no sacrifício espetacular, como uma seita que se recusa a confrontar a amarga realidade após um delírio messiânico de superioridade e invencibilidade. Afinal, não combatem ao seu lado os anjos, os profetas e o próprio Hussein? Aceitar a derrota seria validar o fracasso da doutrina. E, para um partido teocrático, o colapso da doutrina equivale a uma descompensação, a uma desrealização, a uma dissociação total da realidade. O objetivo de Naím Qassem e dos seus não é apenas defender Teerão contra o “Grande Satã imperialista”, o seu satélite israelita e a sua flotilha. É sobreviver ao absurdo, ao vazio — mesmo que isso deva passar, paradoxalmente, pela morte. Neste quadro, o Líbano já não conta. Não pertence aos cálculos nem ao espaço mental de uma seita cujos gurus e discípulos mergulharam na irracionalidade. Naím Qassem não é, na verdade, mais do que outro Jim Jones ou David Koresh. Encurralado, não hesitará em lançar-se no abismo, tomando como reféns reais a comunidade xiita e todo o Líbano, se necessário. Não tanto pelos seus mestres em Teerão, mas para provar que tinha razão. A cada vinte anos, escreve Nizar Qabbani. Muito menos, tristemente. Mas o tempo do Líbano já não pode ser o dos ciclos sacrificiais. É o tempo de uma escolha inevitável: voltar a ser um país, com tudo o que isso implica em termos de limites, responsabilidades e renúncias, de neutralidade face aos eixos regionais, ou desaparecer definitivamente como sujeito político, dissolvido nas convulsões de um império em decomposição. E desta vez, nenhum decreto, nenhum slogan, nenhuma verborragia poderá adiar o desfecho. Desta vez, alguém terá de fazer frente a Qassem e aos seus semelhantes, sejam eles quem forem. Não segundo a sua lógica — a da violência e da loucura —, mas segundo o Estado de direito e um diálogo firme e claro, se ainda houver, no seio do Hezbollah, quem possa ouvir a razão e queira evitar a catástrofe coletiva. E esse alguém não pode ser os Estados Unidos, e muito menos Israel. A ironia suprema é que um novo confronto com o Estado hebraico apenas reforçaria a sua influência, ou mesmo consolidaria a sua ocupação no Líbano. Melhor, portanto, não provocar a besta — sobretudo quando ela espera à espreita que lhe entreguem a foice. Em princípio, cabe ao Estado libanês dissuadir ativamente o partido pró-iraniano. E, se ainda existir uma vontade popular e política libanesa preocupada em agir no interesse próprio do país, chegou o momento de se exprimir sem reservas, soberanamente, por todos os meios democráticos, alto e bom som contra a guerra, para provar que ainda quer viver, longe do eterno retorno da loucura-violência e de todos os seus demónios.

O Federal Reserve americano vai perder a sua independência?

Há mais de sete décadas, a Reserva Federal dos Estados Unidos ocupa uma posição central na arquitetura econômica do país. Guardiã da moeda de reserva mundial, é a instituição à qual os mercados confiaram a estabilidade financeira e a credibilidade monetária dos EUA. Na condição de emprestador de última instância, dotada de um duplo mandato – combater a inflação e, ao mesmo tempo, sustentar o crescimento econômico –, a política monetária americana foi, por muito tempo, conduzida por dirigentes independentes, formalmente protegidos da influência direta dos poderes Executivo e Legislativo. Essa independência, no entanto, jamais teve status constitucional. Ela resulta de um equilíbrio institucional cuidadosamente construído, que os mercados passaram progressivamente a considerar como permanente. Um pressuposto que hoje começa a ruir. Por que a independência de um banco central importa mais do que o nível dos juros Os mercados tendem a concentrar-se no que os bancos centrais fazem – subir ou cortar juros – mais do que nas razões pelas quais suas decisões são acreditadas e aceitas. No entanto, a política monetária só funciona se for crível. Essa credibilidade permite que um banco central influencie expectativas de longo prazo por meio de decisões de curto prazo. Ela se apoia em um princípio fundamental: a capacidade de agir contra conveniências políticas imediatas. Nos Estados Unidos, esse princípio é protegido desde o Acordo Tesouro–Fed de 1951 e reforçado por dispositivos legais que determinam que os diretores da Reserva Federal só podem ser destituídos “por justa causa”. Na prática, o Fed funcionou como uma fortaleza tecnocrática – não porque fosse intocável, mas porque atacá-lo implicava um custo político e jurídico elevado. Os mercados, porém, não avaliam apenas decisões de política monetária. Eles também precificam a solidez da instituição que as toma. E essa solidez está agora sob ameaça. O controle político do Fed torna-se prioridade presidencial Desde seu retorno à Casa Branca para um segundo mandato, Donald Trump tem sido explícito ao defender uma Reserva Federal mais acomodatícia: juros mais baixos para aliviar o peso de uma economia altamente endividada e uma política monetária mais alinhada às prioridades do Executivo. As tensões com Jerome Powell eram esperadas e, durante muito tempo, foram tratadas pelos mercados como mero ruído político. Janeiro de 2026, porém, marcou uma mudança de patamar. O Departamento de Justiça abriu uma investigação criminal contra o presidente do Fed, enquanto a Suprema Corte aceitou analisar um caso capaz de redefinir – ou até enfraquecer – as proteções legais que blindam os diretores da instituição contra a destituição presidencial. A investigação contra Jerome Powell – oficialmente relacionada a obras imobiliárias, mas amplamente percebida como politicamente motivada – representa uma escalada sem precedentes. Nunca antes um presidente do Fed em exercício havia enfrentado risco penal associado a decisões de política monetária. A mensagem é clara: uma política monetária restritiva pode agora ter um custo pessoal. Não se trata mais de pressão sobre um indivíduo específico, mas de um sinal dirigido a todos os atuais e futuros dirigentes da Reserva Federal. Paralelamente, no caso Trump vs. Cook, a Suprema Corte é chamada a revisitar a doutrina jurídica que sustenta a independência do Fed. Uma decisão que permita a destituição discricionária de diretores alteraria profundamente o funcionamento da instituição – não por ideologia, mas por mudança nos incentivos. Um banqueiro central que sabe que um desacordo político pode encerrar sua carreira passa a agir de forma diferente. Não por fraqueza, mas por racionalidade institucional. O risco da sucessão: a tentação de um presidente “dovish” Um terceiro fator de fragilização entra em cena: a sucessão. O mandato de Jerome Powell à frente do Fed expira em meados de maio de 2026, e a busca – amplamente midiática – por seu sucessor tornou-se, por si só, um sinal para os mercados. Em política monetária, as pessoas fazem a política. Entre os nomes mencionados está Rick Rieder, diretor de investimentos em renda fixa global da BlackRock, conhecido por seu pragmatismo, profundo conhecimento dos mercados e inclinação por uma flexibilização monetária mais rápida. A nomeação de um presidente mais acomodatício não é, em si, uma má notícia para o Fed. Rick Rieder supervisionou cerca de US$ 2,4 trilhões em estratégias de renda fixa e provavelmente seria o presidente do Fed com maior experiência direta em mercados financeiros. Seu domínio da mecânica dos títulos e da infraestrutura financeira é amplamente reconhecido. Suas posições também parecem compatíveis com a preferência presidencial por juros mais baixos. Declarações passadas indicam que ele poderia defender uma política menos restritiva e um uso mais direcionado do balanço do Fed – por exemplo, redirecionando reinvestimentos para títulos lastreados em hipotecas, com o objetivo de apoiar o acesso à moradia. Essas mesmas qualidades, porém, carregam riscos. Um presidente com forte sensibilidade de “trading floor” pode reagir com maior frequência à volatilidade dos mercados, tornando a política monetária excessivamente reativa. Além disso, o uso setorial do balanço pode borrar a fronteira entre política monetária e política fiscal – exatamente a fronteira que a independência do banco central foi concebida para preservar. Por fim, a confirmação pelo Senado representaria um obstáculo relevante: os democratas poderiam levantar preocupações sobre potenciais conflitos de interesse com a BlackRock ou destacar a ausência de experiência direta no setor público. Mercados tranquilos… talvez demais Por ora, os mercados financeiros exibem uma calma notável. A volatilidade no mercado de títulos permanece baixa. As bolsas seguem apostando em um ciclo de flexibilização ordenado. O dólar se comporta como se a arquitetura institucional do Fed estivesse intacta. Essa tranquilidade é enganosa. O risco de credibilidade segue amplamente subprecificado – e pode se materializar de forma abrupta. O perigo não é apenas o retorno da inflação, embora a alta dos preços de energia e das commodities já aponte nessa direção. O risco mais profundo está na fragilização do mecanismo que ancora as expectativas inflacionárias: a independência percebida do banco central. Quando essa âncora se rompe, o ajuste raramente é gradual. As taxas de curto prazo podem cair diante de promessas de flexibilização, enquanto as taxas longas disparam, à medida que investidores exigem um prêmio maior para manter ativos denominados em dólares em um ambiente de politização da política monetária. A desvalorização estrutural do dólar – visível na forte alta do ouro e da prata – pode então se acelerar. A recente queda de 5% do índice do dólar em apenas duas semanas pode ser apenas um sinal precoce. Ao mesmo tempo, os rendimentos dos títulos do Tesouro americano de longo prazo encontram-se comprimidos em uma configuração técnica particularmente tensa em torno do nível de 4,90%. Um rompimento claro para cima abriria espaço para uma rápida reprecificação em direção a 6%–6,5%, com impactos significativos sobre os mercados globais de títulos, ações e moedas. Conclusão A Reserva Federal e seu futuro presidente poderão reduzir as taxas de juros – e ainda assim provocar uma reprecificação abrupta do dólar e do mercado de títulos – se os investidores concluírem que a instituição perdeu seu escudo institucional. O principal risco enfrentado hoje pelos mercados não é a inflação de curto prazo nem uma decisão isolada de política monetária. É a erosão do mecanismo que, há mais de setenta e cinco anos, ancora as expectativas inflacionárias: a credibilidade de um banco central independente. Uma credibilidade que, uma vez colocada em dúvida, é extremamente difícil de reconstruir.

Em caso de ataque dos EUA, Moscou e Pequim não virão em socorro do Irã

Embora a Rússia e a China estejam entre os principais parceiros estratégicos do Irã, seu apoio à República Islâmica, enfraquecida por dissidências internas e ameaçada por Donald Trump, permaneceria limitado em caso de um ataque americano. Segundo diversos especialistas, nem Moscou nem Pequim estão dispostos a confrontar Washington militarmente. Contudo, o Irã ocupa um lugar significativo nos cálculos geopolíticos de ambas as potências. Teerã contribui para o esforço de guerra russo na Ucrânia fornecendo os conhecidos drones Shahed, que têm sido de grande utilidade para as tropas de Moscou. O Irã também auxiliou Putin reexportando mísseis balísticos Scud, anteriormente adquiridos pela República Islâmica, que produziu uma versão modernizada. O Irã também é um ator fundamental nas exportações de petróleo para a China e membro do grupo BRICS. Sujeito a um rigoroso embargo internacional devido ao seu programa nuclear, Teerã consegue contornar as sanções vendendo parte de seu petróleo bruto para o mercado chinês. O regime dos aiatolás garante, assim, uma valiosa fonte de divisas para sustentar sua economia debilitada. Mas essa cooperação não constitui uma aliança estratégica vinculativa. "Apesar dos esforços de Teerã ao longo de décadas, o país não conseguiu criar uma aliança com Pequim e Moscou", enfatiza Ellie Geranmayeh, especialista em Irã do Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR). Ela lembra que, durante a guerra de 12 dias em junho, "a China e a Rússia não quiseram confrontar diretamente os Estados Unidos". Em caso de intervenção americana, "ambos os países priorizarão seu relacionamento bilateral com Washington", acredita ela. "A China está em um processo muito delicado de reaproximação com Washington, e os russos obviamente querem Trump do seu lado em relação à Ucrânia: cada um deles tem prioridades muito mais importantes do que o Irã." Da perspectiva russa, a parceria com Teerã não prevê nenhum envolvimento militar direto. "A Rússia e o Irã são aliados, mas os acordos se concentram no apoio político, diplomático e econômico, sem qualquer componente de assistência militar", explica o analista Sergei Markov. Para ele, "a crise ucraniana é existencial para Moscou e muito mais importante do que a crise iraniana". Alexander Gabuev, pesquisador da Carnegie Endowment for International Peace, confirma que, embora o Irã seja importante para Moscou e a Rússia faça tudo o que estiver ao seu alcance para manter o regime no poder, sua margem de manobra permanece muito limitada. "A Rússia não pode se tornar um mercado gigante para o Irã (em meio a uma crise econômica) e não pode conceder um empréstimo gigantesco", observa ele, acrescentando que a ajuda militar continuaria condicionada às necessidades russas na Ucrânia. Nikita Smagin, especialista em relações russo-iranianas, faz a mesma observação: em caso de ataques americanos, Moscou "quase nada poderia fazer". "Eles não querem arriscar um confronto militar com uma grande potência", explicou à AFP, mencionando, no máximo, a possibilidade de "envio de armas". Ele esclareceu que essa contenção não está ligada exclusivamente às discussões sobre a Ucrânia, embora "usar o Irã como moeda de troca seja perfeitamente normal para a Rússia; ela já o fez no passado". Para Pequim, cujas relações com Washington moldam o equilíbrio global de poder, o apoio ao Irã permaneceria essencialmente indireto. A assistência é concebível “nas frentes econômica, tecnológica, militar e política” diante de pressões não armadas, como sanções comerciais ou ciberataques, explicou Hua Po, analista chinês independente. No entanto, em caso de ataques, “condenaria os Estados Unidos diplomaticamente” e fortaleceria seus laços econômicos e militares com Teerã “a fim de ajudar a envolver os Estados Unidos em uma guerra no Oriente Médio”. Por ora, Pequim está agindo com cautela. “Os chineses estão sendo cautelosos como sempre e se expressando com moderação”, observa Théo Nencini, especialista em relações Irã-China do Sciences Po Grenoble, lembrando “duas questões-chave para a China: petróleo e estabilidade regional”. “A China está se aproveitando de um Irã enfraquecido, o que lhe permite garantir petróleo a baixo custo, representando de 10% a 13% de seu abastecimento, e ter um parceiro geopolítico significativo a um preço relativamente baixo”, analisa ele. Assim como Hua Po, ele não prevê uma reação mais agressiva em caso de ataques americanos: “Eles condenarão diplomaticamente, mas provavelmente não tomarão medidas retaliatórias. Não o fizeram em muitas questões no passado, e acho difícil imaginá-los entrando em confronto com os americanos por causa do Irã.” Por fim, “a atual crise iraniana terá um impacto muito limitado nas relações sino-americanas.” "Nenhum dos países romperá relações com o outro", concluiu Hua Po, acrescentando que "a questão iraniana não está no cerne das relações entre os dois países. Nenhum deles romperá relações com o outro por causa do Irã."

Falso retorno de Maliki no Iraque: Soudani procura um bode expiatório

O jogo de Mohammed Chia al-Soudani no Iraque não foi uma simples manobra política hábil ou um erro de julgamento, mas uma conspiração política meticulosamente planeada, orquestrada de dentro de um sistema corrupto, para reproduzir o poder, provocando o fracasso e tirando proveito dele. Soudani não está fora do sistema que destruiu o Estado, nem acima dele, mas bem no seu coração, beneficiando dos seus mecanismos e dominando os seus métodos. O que o distingue dos outros não é a integridade, mas a sua capacidade de gerir a corrupção discretamente e sem alarido. O regresso de Nouri al-Maliki ao primeiro plano do poder não foi uma coincidência nem um compromisso forçado. Foi uma manobra cuidadosamente calculada. Maliki, com a sua pesada herança, os seus dossiers não resolvidos e a sua generalizada rejeição popular, era o candidato ideal para carregar o fardo do iminente colapso. Não foi chamado para ter sucesso, mas para perecer. Não foi recordado para liderar, mas para servir de bode expiatório, para assumir a responsabilidade pelos fracassos, preparando assim o terreno para a sua queda e para o desmantelamento de todo o dispositivo de coordenação. No entanto, oculta-se deliberadamente o facto de que aquele que orquestrou este jogo, o deixou piorar e dele tirou proveito, não é um observador imparcial nem um opositor da corrupção, mas sim um cúmplice de pleno direito. Al-Soudani conhece intimamente o sistema de onde veio: domina os fluxos financeiros, as redes de influência, os conflitos de interesses e sabe como a corrupção é gerida sem escândalo. Consequentemente, a corrupção durante o seu mandato não foi um incidente isolado, mas uma política deliberada: uma corrupção menos flagrante, mas mais profunda, mais generalizada e mais duradoura. Se permitiu que al-Maliki e o seu séquito se envolvessem em negócios e escândalos, não foi por rejeição da corrupção, mas porque queria usá-la como uma arma política. Deixou o sistema de coordenação desintegrar-se por dentro, não por desejo de reforma, mas como preâmbulo à sua perda de legitimidade popular e à sua transformação em desvantagem política. Nesta lógica, al-Maliki não era o único alvo, mas o sistema inteiro, preparando assim o terreno para o regresso de al-Soudani, apresentado como o «mal menor». É aqui que reside a grande farsa: apresentar a situação como uma luta entre indivíduos corruptos e um salvador, quando na realidade se trata de um conflito dentro do próprio establishment corrupto, entre aqueles que corrompem abertamente e aqueles que corrompem em silêncio. Al-Soudani não representa uma rutura com al-Maliki, mas sim uma evolução mais fria no seu estilo e mais perigosa nas suas consequências. Ele não combate a corrupção porque faz parte dela, mas porque entende que a corrupção é um instrumento de governação, e, portanto, redistribui-a em vez de a desmantelar. Al-Soudani não abriu um verdadeiro dossiê de corrupção que atingisse os corações do poder. Não abordou a economia subterrânea, nem as redes dos grandes contratos, nem o sistema de quotas que alimenta o colapso. Contentou-se em gerir o calendário: quem é sacrificado agora, quem é poupado mais tarde, e quem é eliminado, se necessário. Uma retórica reformista destinada ao consumo público, sem qualquer ação concreta. Neste contexto, o próprio colapso torna-se uma ferramenta política. Quanto maior a devastação, maior a necessidade de um «salvador». E quanto mais vítimas, mais al-Soudani parece aceitável. É um jogo sórdido que se joga sobre as ruínas do Estado, onde o fracasso é deliberadamente orquestrado e a solução proposta é oriunda do próprio problema. A verdadeira questão hoje já não é: quem cairá? Maliki ou o regime? Mas sim: os iraquianos aceitarão mais uma vez a farsa de um «salvador» fabricado dentro da própria corrupção, ou exigirão uma verdadeira alternativa, nascida de fora? A resposta a esta questão determinará se o Iraque permanece prisioneiro de um ciclo de colapso, ou se finalmente tem uma chance de se libertar.